Zeitgeist Desmascarado

Artigo anônimo publicado no blogue socialista britânico “Third Estate”. Traduzido por José Geraldo Gouvêa (com ajuda do Google Translator, dada a urgência). Todas as notas de rodapé escritas pelo tradutor.

Esta tradução é a primeira de uma série que contribuirei ao blogue Universo Racionalista com o objetivo de informar à comunidade cética nacional sobre o modo como o filme Zeitgeist e o movi­mento derivado a partir dele são vistos e analisados pelos sítios de movimentos céticos gringos. Praticamente não existem análises independentes em português sobre o filme. É surpreendente que, quase quatro anos após minhas críticas iniciais ao filme Zeitgeist, não tenha surgido na blogosfera cética brasileira nenhuma análise mais profunda do filme — em vez disso vão surgindo simpatizantes do Movimento Zeitgeist tentando usar os blogues céticos para difundir suas ideias.

Acredito que parte do problema deriva da falta de respeito com que, tradicionalmente, os céticos brasileiros encaram as ciências humanas, a História principalmente. O seu conceito delas já é previamente direcionado a considerá-las inconfiáveis e presas da ideologia (no pior dos casos o indivíduo considerará que as ciências sociais são marxistas ou parte de um Grande Plano frustrado de implantação do comunismo) — o que explica a popularidade de “filósofos” como Olavo de Carvalho. Temos um caldo de cultura favorável à desqualificação do conhecimento e receptivo a teorias de conspiração que consigam se disfarçar de iconoclasmo

Espero que a continuidade deste projeto sirva para ensejar um debate mais maduro sobre o filme Zeitgeist e o Movimento criado a partir dele. Um debate no qual as estratégias diversionistas e as falácias sejam desmascaradas honestamente, e do qual os leitores de mente aberta saiam com mais conhecimento do que entraram.

Links importantes

  • http://thethirdestate.net/2010/03/zeitgeist-exposed/ (fonte do artigo em inglês)
  • http://www.biblebelievers.org.au/przion1.htm (edição atualizada dos Protocolos)

No romance policial clássico de Agatha Christie Os Assassinatos ABC, o detetive Hercule Poirot se sai com a seguinte frase:

Quando você menos percebe um alfinete faltando? Quando se está em uma almofada de alfinetes. Quando você menos nota um assassinato específico? Quando faz parte de uma série de assassinatos relacionados.

Eu gostaria de expandir um pouco o raciocínio de Poirot:

Quando você menos nota uma teoria da conspiração extremamente perniciosa e perigosa? Quando estiver incluída em um filme de duas horas, entre muitas outras teorias da conspiração.

Ao longo do último ano um número de pessoas já me disseram que eu deveria assistir Zeitgeist: The Movie. Todas estas pessoas de esquerda ou inclinadas à esquerda, e cada uma me disse que o filme dá uma boa ideia das estruturas de poder no mundo moderno. Essas pessoas pertencem a uma grande variedade de origens e idades, algumas delas ambientalistas, algumas sindicalistas, alguns socialistas, algumas britânicas, algumas americanas. O filme alcançou índices de audiência em massa a nível mundial, com mais de 3.000.000 de pessoas assistindo-o no YouTube, e muitos mais em DVD ou Google Video. E de todas as pessoas que recomendaram o filme para mim, ninguém notou sua dependência em relação ao velho mito da “conspiração judaica mundial”. Neste artigo espero expor a relação do filme com textos e mitos antissemitas mais antigos e ver mais de perto como essas teorias são feitas para enganar os esquerdistas. Gostaria de explicar porque esse filme se tornou tão atraente para pessoas que, de outra forma, estão envolvidas no bom combate contra o capitalismo, contra a guerra e para salvar o meio ambiente. Estou particularmente interessado na relação entre o filme e um livro chamado Os Protocolos dos Sábios de Sião e com o uso de outros temas antissemitas que existiram ao longo da modernidade.1

Zeitgeist: The Movie é dividido em três partes: A primeira centra-se na relação entre a simbologia astrológica e da história de Jesus, o segundo a respeito da “verdade sobre o 11/9” e o terceiro sobre mercado financeiro internacional. Em toda a honestidade a primeira parte não tem muita importância. O argumento é que o cristianismo não é original na sua forma particular de mitologia, e em vez disso é uma reconfiguração dos mitos mais antigos focando sol deuses. Se vamos ou não tomar esse argumento como verdade tem muito pouco impacto sobre a forma como entendemos a sociedade moderna. A segunda parte do filme expõe uma teoria que 9/11 foi um trabalho interno, cometido pelo Estado americano. Muitas pessoas acreditam nisso em sério, e muita da informação é inacessível, mas o argumento que eu gostaria de fazer é que essas duas teorias da conspiração são, em muitos aspectos, sem consequências para o sentido geral do filme. Ao contrário, são usadas ​​como cortina de fumaça para justificar a difusão de material antissemita na seção final do filme.

O que São Os Protocolos dos Sábios de Sião?

Trata-se de um livro publicado pela primeira vez por volta da virada do século XX na Rússia. É um documento fraudulento e fictício, feito para ler como se fosse a troca de informações entre diver­sos grupos de judeus influentes que planejam dominar o mundo. Ele sugere que o povo judeu pre­tende dominar o mundo através de um processo de controle dos governos, da imprensa e dos ban­cos, enganando a população em geral. A alegação é de que os judeus pretendem escravizar o mundo através da criação de um “governo mundial”. É claro que o texto é profundamente antis­se­mita, e foi demonstrado várias vezes como uma falsificação,2 mas tem sido utilizado de forma con­sistente em todo desde então para justificar as atrocidades cometidas contra judeus. Além disso, continua popular em algumas partes do mundo, e entre algumas organizações de direita e grupos fascistas.3

A relação entre dois textos

É bastante fácil encontrar evidências de que há uma grande influência dos Protocolos dos Sábios de Sião sobre o conteúdo de Zeitgeist. Dá para encontrar até citações. Por exemplo, quando Zeit­geist diz que “os banqueiros internacionais têm agora uma máquina eficiente para expandir as suas ambições pessoais”, os Protocolos dizem que “as engrenagens das máquinas de todos os esta­dos são movidas pela força do motor, que está em nossas mãos, e o motor da máquina de nossos estados é o ouro”. Mas gostaria de dizer que esse tipo de crítica não vai longe o suficiente. Em vez disso gostaria de mostrar que todo o argumento da terceira seção do filme foi levantado a partir dOs Protocolos. É o mesmo argumento, muitas vezes em linguagem ligeiramente alterada, e é por isso que parece tão antissemita. Vou me concentrar em cinco aspectos particulares.

O Governo Mundial

Um dos grandes temores dos teóricos da conspiração é um governo mundial. Este ponto é expli­cado claramente na parte final do Zeitgeist em uma discussão sobre uma União da América do Norte, uma união asiática, a União Europeia, e uma União Africana. Até que, finalmente, se diz que “quando for a hora certa, elas vão se fundir e formar as fases finais do plano em que estes homens têm estado a trabalhar há mais de 60 anos: Um governo mundial… Um banco, um exér­cito, um centro de poder.” Este argumento é particularmente relacionado com a abertura do Pro­tocolo 3, em que lemos:

Hoje posso dizer que a nossa [dos judeus] meta agora está apenas a poucos passos. Resta somente um pequeno espaço a atravessar no longo caminho que temos trilhado antes que ciclo da Serpente Simbólica, por que nós simbolizamos nosso povo, seja concluído. Quando este anel se fechar, todos os Estados da Europa estarão bloqueados em seus anéis como em uma poderosa prisão.

Os Protocolos continuam no Protocolo 5:

Por todos esses meios vamos assim desgastar os goyim [não-judeus] até que eles sejam obrigados a oferecer-nos poder internacional de uma natureza que nos permitirá absor­ver todas as forças estatais do mundo e formar um Super-Governo.

O uso da guerra

Há uma seção no filme em que se afirma que as justificativas para os Estados Unidos entrarem em uma série de guerras mundiais foram orquestradas por “homens por trás do governo.” Dizem-nos que o naufrágio do Lusitânia foi planejado, que o incidente do Golfo do Tonkin nunca aconteceu, que se sabia sobre Pearl Harbor com a devida antecedência4 e é claro que 11/9 foi um trabalho interno. Diz-se que ambos os lados do conflito têm sido financiados pelos mesmos “banqueiros internacionais”. Esta seção do filme é levantada diretamente do protocolo nº 7, que diz:

Ao longo de toda a Europa, e por meio de relações na Europa, e também em outros con­tinentes, devemos criar fermentos, discórdia e hostilidade. É assim que ganhamos uma dupla vantagem. Em primeiro lugar, manter sob controle todos os países, pois bem eles sabem muito bem que temos o poder de criar distúrbios quando quisermos e res­taurar a ordem… Precisamos ficar em uma posição para responder a todos os atos de oposição pela guerra com os vizinhos do país que ouse se opor a nós, mas se esses vizinhos também se aventurarem a ficar coletivamente contra nós, então devemos oferecer resistência pela guerra universal.

Não vou negar aqui que guerras foram travadas cinicamente, porque é claro que foram, e também não estou dizendo que não deveríamos nos opor a certas guerras só porque outras guerras mere­ceram nossa oposição. O ponto aqui é, porém, que esse argumento em particular sobre a guerra, baseado na ideia de que os judeus mandam no mundo, deveria ser jogado fora.

Manipular a população

Existem dois tipos de pensamento nas teorias clássicas da conspiração judaica sobre a forma como as pessoas são feitas de bobas e enganadas. O primeiro, e o que foi realmente mais significativo na história das teorias da conspiração judaica, é a ideia de judeus controlando os meios de comuni­cação. O segundo, que se tornou menos utilizado, mas ainda existe em Zeitgeist: The Movie é a ideia de controle judaico do sistema de ensino para torná-lo ineficaz.

A questão do controle judeu da mídia é coberto no Protocolo 12, em que está escrito:

Nem um único anúncio chegará ao público sem nosso controle. Mesmo agora isso é alcan­çado por nós na medida em que todas as notícias são recebidas por algu­mas agên­cias em cujos escritórios são focadas de todas as partes do mundo. Tais agên­cias então já serão inteiramente nossas e darão publicidade apenas ao que ditarmos.

E no Protocolo 13:

Nós os distraímos ainda mais [aos não-judeus] com divertimentos, jogos, passatempos, paixões, palácios públicos… Estamos para começar a propor através da imprensa com­petições de arte e de todos os tipos de esportes. Esses interesses finalmente distrairão suas mentes das questões de que devemos nos encontrar compelidos opor-nos a eles.

Em Zeitgeist questões idênticas são cobertos o tempo todo, mas existe em particular a discussão de uma “cultura totalmente saturada de entretenimento através dos meios de comunicação em massa.” Dizem-nos que as mesmas pessoas por trás da tomada planejada do governo estão “por trás da grande mídia”.5

Em ambos Zeitgeist e os Protocolos vemos alguma discussão sobre o sistema de ensino. Em Zeitgeist nos é mencionada “a decadência do sistema de ensino dos EUA” e que “eles [o governo] não querem que seus filhos sejam educados”. Não é surpresa que o mesmo argumento seja feito no Protocolo 16: “Quando estivermos no poder, removeremos todo tipo de assunto perturbador do curso da educação e faremos dos jovens filhos obedientes da autoridade”. O narrador de Zeitgeist diz: “a última coisa que os homens atrás da cortina querem é um consciente, público informado”, ecoando o sentimento do protocolo 5: “não há nada mais perigoso para nós [os judeus] que a iniciativa pessoal.”

Ouro ou dinheiro, reserva federal e usura judaica

Tanto os Protocolos (particularmente Protocolos 21 e 22) e Zeitgeist focam fortemente sobre ques­tões relacionadas a dinheiro ou ouro. Ambos oferecem a teoria de que os problemas da sociedade são causados ​​por sistemas monetários e que o dinheiro está sendo controlado por um pequeno grupo de pessoas de moral duvidosa. O importante aqui é que o foco está no dinheiro e não no capi­tal ou no sistema de produção. Em vez de oferecer perspectivas críticas sobre as estruturas da sociedade que causam a opressão e a pobreza, a opinião geral é que a sociedade atual é benevo­lente e tal benevolência está subvertida por problemas na esfera da circulação.

Ao longo dos séculos, desde a expulsão dos judeus da Grã-Bretanha em 1290, a acusação de usura foi dirigida contra estes para fins antissemitas. Zeitgeist diz do imposto de renda federal:

Cerca de 25% da renda média do trabalhador é levado através deste imposto, e adi­vinha onde esse dinheiro vai? Vai pagar os juros sobre a moeda que está sendo pro­duzida pelo Federal Reserve Bank. O dinheiro que você ganha trabalhando por quase três meses ao ano vai quase literalmente para os bolsos dos banqueiros internacionais.

Mais uma vez, por uma questão de tentar fazer com que as palavras não apareçam como racistas que são, o termo judeu é substituído por “banqueiros internacionais”. Esta é mais uma vez a reafirmação de um mito antissemita. Assim como em todos esses exemplos, os argumentos aqui são levantadas a partir de teorias antissemitas mais antigas. Zeitgeist não está oferecendo uma explicação do mundo, ou dos sistemas econômicos políticos nacionais. Estes argumentos só existem para promover uma atitude de ódio a um determinado grupo pré-definido da sociedade.

A cabala secreta?

Em última análise, o argumento que está sendo feito em todo Zeitgeist é que o mundo está sendo controlado por uma pequena sociedade secreta de indivíduos. No contexto da história das teorias da conspiração, isto quer dizer “os judeus”. Quando nos é dito pelo filme sobre reuniões destes “banqueiros internacionais” que são “secretas e escondidas da vista do público”, as discussões sobre “uma agenda defendida pela elite impiedosa”, ou “as pessoas por trás do governo”, eles estão dando novo alento a um velho mito racista que devemos tentar manter distância.

Há uma insistência em toda a teorias da conspiração de que alguém ou algum grupo de pessoas é pessoalmente responsável por todos os males do mundo, e isso está muito relacionado com o antis­semitismo ao longo da modernidade. Por centenas de anos, os judeus têm sido o bode expi­a­tório oficial do capitalismo. Quando os sistemas de produção empobreceram povo, os judeus foram responsabilizados, onde as pessoas sentiram os impostos como injustos, os judeus foram responsabilizados, onde as pessoas se sentiram alienados pelas estruturas da sociedade, foram informados de que são de fato alienadas porque não fazem parte das reuniões secretas de judeus.

Em última análise, estas teorias nos levam para longe de uma crítica do capitalismo. O filósofo esloveno, Slavoj Zizek defende exatamente este ponto com referência ao antissemitismo de Wagner quando escreve:

Ele precisa de um judeu, de modo que, em primeiro lugar, a modernidade — este pro­cesso impessoal abstrato — tenha um rosto humano, seja identificada com uma carac­terística concreta e palpável; então, em um segundo movimento, rejeitando o judeu que incorpora tudo o que se desintegrou na modernidade, podemos manter as suas van­tagens. Em suma, o antissemitismo não representa anti-modernismo como tal, mas uma tentativa de combinar a modernidade com o corporativismo social que é carac­te­rís­tico dos revolucionários conservadores.

Quem foi o senador Louis McFadden?

Louis McFadden, que é muito cotado em Zeitgeist, era um senador dos EUA na primeira parte do século XX. Ele também calhou de ser um antissemita decidido e se saiu com frases como “nos Estados Unidos de hoje, os gentios têm tiras de papel enquanto os judeus têm o dinheiro legal”

Ele é citado duas vezes no filme dizendo o seguinte: “Um sistema bancário mundial estava a ser criado aqui… um superestado controlado por banqueiros internacionais, agindo em conjunto para escravizar o mundo para seu próprio prazer…” e “Foi uma ocorrência cuidadosamente planejada. Banqueiros internacionais procuraram trazer uma condição de desespero para que pudessem aparecer como governantes de todos nós.”

Dentro do contexto da visão de mundo de McFadden, ele usa “banqueiros internacionais” como um epíteto para os judeus. O que é notável é que os realizadores de Zeitgeist parecem dispostos a omitir este contexto, para sugerir que McFadden simplesmente está a oferecer uma crítica do capi­talismo. O fato é que, dentro de teorias de conspiração, a rotulagem dos judeus como “banqueiros internacionais” e “capital financeiro internacional” é um traço comum. Estas citações teriam sido entendidas na época, e ainda são entendida por muitos, agora, como antissemitas.

O caso de Jeremiah Duggan e a verdade sobre Lyndon LaRouche

Outro personagem bastante obscuro que aparece em Zeitgeist é o ativista político norte-americano Lyndon LaRouche. Senti que deveria incluir a seguinte história como evidência anedótica de quão perigosas estas pessoas podem ser:

Jeremiah Duggan era um estudante britânico na Sorbonne que morreu em 2003 em circunstâncias extremamente suspeitas. Nos meses que antecederam a sua morte, Duggan tinha se envolvido no que acreditava ser uma organização pacifista. Na verdade, tinha se enrascado com um grupo de organizações políticas liderados pelo ativista político norte-americano Lyndon LaRouche. Em março daquele ano, Duggan participou de uma conferência dessas organizações no Instituto Schiller (um local de propriedade do movimento de LaRouche) em Wiesbaden, Alemanha. No trans­correr das reuniões Duggan revelou ser judeu e, no entanto, em tais reuniões do movi­mento de LaRouche, judeus são os culpados pelo início da guerra, reanimando os velhos mitos da cons­pi­ra­ção sobre judeus incentivando guerras como ajudar no controle social. Ele disse em seu discurso de abertura da conferência:

Este plano para lançar uma nova guerra mundial foi intelectualmente influenciado por pessoas que, como Hitler, admiram Nietzsche, mas por “serem judias”, não poderiam se qualificar para a liderança do partido nazista, apesar de seu fascismo ser absoluta­mente puro! Tão extremo qaunto o de Hitler! Eles as enviaram para os Estados Unidos. […] Quem está por trás disso?… A turma do sistema de banco central independente, a escória do lodo. Os interesses financeiros.

Por volta das 05:00, depois que Duggan tinha revelado sua identidade judaica na conferência, ele telefonou para sua mãe. Disse: “Mãe, estou em apuros… Você conhece essa Nouvelle Solidarité?…” Ele disse: “Eu não posso suportar isso… Quero sair.” E nesse ponto o telefone foi cortado. E então o telefone tocou de novo, quase que imediatamente… E, em seguida, a primeira coisa que disse daquela vez: “Mamãe, estou com medo”. Ela percebeu que ele estava em tal perigo que ela lhe disse: “Eu te amo.” E então ele disse: “Eu quero vê-la agora.” Ela disse: Bem, onde você está, Jerry?” E ele disse: “Wiesbaden.” E ela disse: “Como é que você escreve?” E ele disse: “W I E S” E então o telefone foi cortado.

No dia seguinte, Jeremiah foi encontrado morto, com membros do movimento de LaRouche ale­gando que ele cometera suicídio. Inquéritos ainda estão em andamento para determinar o que houve naquela noite. Nas últimas semanas, um segundo inquérito sobre sua morte foi anunciado.6

LaRouche foi conhecido como um teórico da conspiração judaica por mais de 30 anos. Sua organi­zação é cultista e perigosa (uma das razões pelas quais eu escolho para escrever este artigo anoni­ma­mente), e o conteúdo de muito do que ele diz pode ser rastreada até o tipo de alegações apre­sen­tadas nOs Protocolos dos Sábios de Sião. O que é, então, que um homem como este está fazendo em um filme que pretende ser uma crítica esquerdista liberal da sociedade?7

Zeitgeist e a Esquerda

Sob muitos aspectos, o que há de mais inquietante a respeito deste filme é ele pretender ser de esquerda, ou liberal. À medida que o filme termina, vemos imagens de três homens aparecerem e desaparecerem: Mahatma Gandhi, Martin Luther King e John Lennon. Ao longo do filme, temos citações do comediante esquerdista Bill Hicks e uma parte é reservada a Michael Meacher, um político do New Labour. Afirma-se mais uma vez que o objetivo deste filme é a afirmação da uni­dade da humanidade, de acabar com a diferença, seja ela de classe, raça ou sexo. Somos levados a pensar que o filme está a oferecer uma crítica radical, pela esquerda, do poder estabelecido. Em vez disso ele chafurda no tipo de teorias que se casam mais com os libertários de direita. Eu não sei por que o grupo Zeitgeist foca especialmente a esquerda. É, talvez, uma medida de divisão, mas também, possivelmente, apenas uma arena onde eles sentem que podem converter as pessoas à sua maneira de pensar. O que está claro, porém, é que a sugestão de que as ideias expressas são de esquerda ou liberais, com a implantação de citações de esquerdistas e liberais bem conhecidos, é absolutamente cínica.

O problema positivista

Há uma razão em particular para que essas conspirações possam parecer compatíveis com os modos de pensamento de esquerda, e que tem a ver com o problema filosófico do positivismo. Dito de forma mais simples, isto quer dizer que ideias sobre a transformação de uma sociedade não podem ser diretamente expressas na linguagem ou modos de pensar correntes na sociedade que pretendem transformar. E este problema é comum a todas as teorias de transformação da sociedade. Provavelmente, o ramo mais influente deste tipo de pensamento derivou de Hegel a Marx e até os marxistas dos séculos 20 e 21. A solução para eles é falar em termos de uma dialética, ou seja, comparando-se a consciência de uma sociedade para a realidade material. A conclusão significativa deste tipo de pensamento é que a consciência da sociedade, até um certo ponto é sempre falsa.

Os teóricos da conspiração retomam esta questão de outra maneira. Dizem que, se a nossa consci­ên­cia da sociedade é sempre falsa, ela é forçada a ser falsa por um pequeno número de poderosos que tornam falsas.8 Eles acreditam que somos constantemente enganados por uma quadrilha que tudo sabe e que controla cada aspecto de nossas vidas. E as soluções diferem demasiado. Para os marxistas e socialistas o problema é que a sociedade produz uma consciência que não nos permite compre­ender plenamente a nossa miséria no trabalho, do desemprego, ou impotência e a solução é a transfor­mação radical da sociedade em um mundo mais justo e menos exploradora. Para os teóricos da cons­pi­ração, a resposta é a eliminação de tal pequena e poderosa elite. Eles não acre­ditam que a sociedade precisa de mais transformação do que isso.

Este é um terreno filosófico difícil de trilhar. Corremos um grande risco se quisermos criticar os teó­ricos da conspiração por não serem positivistas e por não trabalharem dentro dos modos acei­tos de pensamento. Em vez disso, o que temos de dizer é que o seu modo particular de pen­sa­mento crítico não propõe uma solução correta para a solução de problemas da sociedade e, ade­mais, não se baseia na unificação, mas na divisão. Devemos mostrar que a desigualdade na socie­dade é estrutural em vez de ser baseada nos desejos de um pequeno grupo de judeus.9

O que deve ser feito?

O filme Zeitgeist parece ter uma popularidade crescente e, além disso, está surgindo um movi­mento baseado nele. Mais e mais pessoas estão sendo influenciadas pelo que o filme tem a dizer, sem per­ce­ber bem onde ele está vindo. É importante que possamos expor o mais amplamente possível o subtexto antissemita deste filme. Devemos expô-lo como sendo cinicamente posicio­nado de maneira a influ­enciar os liberais e esquerdistas. Ao atacarmos as ideias apresentadas por Zeitgeist, não é suficiente discutir meros detalhes, e devemos, em vez disso, tentar compreender a política que este filme, como um todo, tenta apresentar. Precisamos ler através das muitas cama­das de teorias da conspiração aqui, e entender que há uma em particular em que eles querem nos fazer crer, e que esta é, naturalmente, a mais perigosa e perniciosa.

É importante entender que o tipo de crítica da sociedade oferecido pelo movimento Zeitgeist não pode ser separada da teoria conspiração judaica. Não se pode tomar os textos antissemitas clás­sicos, subs­ti­tuir a palavra “judeu” por “banqueiros internacionais” ou “capital financeiro inter­na­cional” e acre­di­tar que sua teoria não é mais antissemita. Claro que existem bons argumentos de que o capitalismo e impe­rialismo são de fato extremamente perigosos. Há bons argumentos em uma perspectiva de esquerda ou liberal para dizerem que as guerras no Afeganistão e no Iraque nunca deveria ter sido travadas. E é aqui que temos de reconhecer que os fins não justificam os meios. Não podemos nos dar ao luxo de apoiar qualquer causa que é simplesmente anticapitalista, ou qualquer outra causa que é simplesmente antiguerra, caso contrário, corremos o risco de ir para a cama com os fascistas. Em vez disso, nossas posições sobre o capitalismo e da guerra devem surgir a partir de crítica profunda, em vez de uma reedição revista de narrativas antis­semitas antigas.

A fim de difundir esta mensagem o mais amplamente possível, encorajo a todos que republiquem esta peça em seus próprios sítios, que a enviem a amigos e camaradas, a mostrá-la a quem lhe apre­sen­tar “este novo filme fabuloso você simplesmente tem que assistir”. Uma das maneiras mais fáceis é, se você está no Twitter, clicar no botão Tweet deste post. Se possível, dê-nos retorno aqui nO Terceiro Estado para que possamos monitorar quão amplamente este material está sendo dissemi­nado. Nas próximas semanas recriarei este artigo como um vídeo narrado, bastante no estilo de Zeitgeist: The Movie, a fim de que podemos espalhar esses pontos de vista para ainda mais pessoas que possam vir a ser influenciadas por este filme repugnante.

  1. O antissemitismo é um pensamento caracteristicamente direitista, estando fartamente documentada a tentativa de associar as teorias socialistas com o pensamento judaico. A circunstância fortuita de que alguns expoentes do pensamento esquerdista (começando por Karl Marx) eram judeus foi utilizada como arma de propaganda por todos os tipos de reacionários, começando pela Igreja Católica, que tentou criar sua própria doutrina social para contrabalançar o sindicalismo socialista e ateu, passando pelos nacionalistas e fascistas até chegar a regimes de centro-esquerda interessados em conter o avanço do “bolchevismo”. Mesmo nos regimes socialistas o antissemitismo encontrou certo espaço, estando presente, por exemplo, na onda de perseguições a Trotsky e seus seguidores. No entanto, esta identificação do socialismo como uma “doutrina judaica” é falsa, pois um número significativo de outros famosos socialistas não tinha qualquer relação com o judaísmo: Friedrich Engels, Mikhail Kropotkin, Lênin, Stálin, Mikhail Bakunin, Pierre Proudhon, Antonio Gramsci etc.

  2. São conhecidas as fontes. O plano de conspiração deriva de um romance satírico escrito por Maurice Joly para zombar de Napoleão III, intitulado “O Diálogo no Inferno Entre Maquiavel e Montesquieu” — que não possui conteúdo antissemita. O cenário no cemitério, a ideia de um complô de dominação mundial e alguns conceitos adicionais foram acrescentados por Herman Goedsche, que plagiou a obra de Joly transformando-a no romance gótico Biarritz. A partir desta segunda fonte o chefe da Polícia Secreta czarista, a Okhrana, criou a primeira edição dos Protocolos. A farsa foi desmontada pelo jornal britânico, The Times, ainda em 1921.

  3. Uma das razões da contínua popularidade dOs Protocolos é o seu caráter aparentemente “profético”, por descre­ve­rem uma realidade muito próxima à nossa. Esta circunstância, porém, não passa de vaticinium ex post facto, pois sucessivas edições introduzem alterações (às vezes sutis) de forma a “atualizar” o conteúdo. Como não há direito autoral que possa controlar a republicação e tampouco existem manuscritos originais fide­dig­nos que possam ser usados para dirimir dúvidas (pois a obra em si é forjada a partir do plágio de outras, que tam­bém estão em domí­nio público), não há limites para novas falsificações do texto. Uma boa medida destas falsificações pode ser obtida na comparação com o texto original russo (publicado em 1902) com o texto da primeira edição em inglês, datada de 1919, que, curiosamente, substitui os judeus por bol­che­viques. A mais famosa edição americana foi a finan­ci­ada por Henry Ford, que, embora não tenha sido a pri­meira a restaurar a menção dos judeus, foi a primeira a redi­vidir o conteúdo em “protocolos”, isto é, propostas de ação feitas pelos líderes judeus aos seguidores do mundo.

  4. Ao atacar a participação americana na II Guerra Mundial esta teoria de conspiração, obviamente, enfraquece a posição ideológica dos Aliados, abrindo espaço para uma rediscussão do “outro lado”, o nazifascismo.

  5. Acredito que o autor deste texto não pretendeu negar a realidade do controle da mídia mundial por um grupo res­trito de pessoas, como o magnata Rupert Murdoch, que controla diversos órgãos de imprensa na Austrália, na Grã Bretanha, no Canadá e nos Estados Unidos. A existência de tais pessoas e o seu controle efetivo sobe nume­rosos órgãos de imprensa não são teorias de conspiração, mas fatos conhecidos e documentados. O que se pretendeu negar é que os meios de imprensa seriam, na verdade, de propriedade de outras pessoas, judeus, claro, que os usariam para seus fins.

  6. O inquérito sobre a morte de Jeremiah Duggan reiterou que se tratou de suicídio, sem apresentar novas evidências. Acredito que, exceto pela identificação de Lyndon La Rouche como um líder de extrema direita (e bota extrema nisso) a menção do caso não acrescenta ao texto.

  7. Não se trata aqui de induzir a culpa por associação, mas apenas observar que uma das pessoas que Zeitgeist escolheu citar é de um caráter duvidoso, para dizer o mínimo. A citação de La Rouche, além de ser um apelo falacioso à autoridade, pois ele não tem embasamento para fazer as análises que faz, é um indicativo das tendências perigosas de extrema direita que estão envolvidas no filme.

  8. Atenção para a diferença entre a dialética marxista, que enxerga uma limitação metodológica em nossa capacidade de compreender a sociedade, e a retórica conspiracionista, segundo a qual nossa falta de entendimento da sociedade resulta de sermos deliberadamente enganados.

  9. O artigo original falha por não mencionar dois outros notórios simpatizantes do nazismo citados no filme: Charles Lindbergh e Henry Ford (este não tem sua fala narrada, mas apenas exibida em um quadro fixo e não está incluído na transcrição). Lindbergh era um proponente da eugenia e Ford financiou uma edição em massa dos Protocolos dos Sábios de Sião, para distribuição entre seus empregados e por todo o país. Seu jornal, o "Dearborn Independent", foi o maior responsável pela difusão do antissemitismo nos EUA.

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