Sobre os Malefícios Mentais do “Anarcomiguxismo” (2)

Sendo o anarcomiguxismo um sistema de crenças essencialmente irracional, como demonstrado acima, a continuidade da crença depende da supressão do espírito crítico. Refiro-me a uma atitude receptiva em relação a conhecimentos obtidos de certa fonte (especialmente os artigos do Instituto Mises e os dados do Heritage Foundation, mas não somente) aliada à rejeição apriorística de informações obtidas de outras origens. Essa "endogamia" intelectual, na qual as ideias do indivíduo são alimentadas exclusivamente por textos que reforçam seus conceitos anteriores (pré-conceitos) produz uma baixa gradual do ceticismo, pois um texto é aceito como corroboração de outro, de forma recursiva, em um gradual afastamento em relação a qualquer capacidade de questionar.

Essa autorreferência do pensamento anarcomiguxo produz um descolamento da realidade tão profundo que somente aos olhos de quem está "de fora" é possível discernir o grau de absurdo. O "anarcomiguxismo" é, então, uma espécie de Cientologia econômica, cujos artigos que mencionam Xenu só são apresentados a quem já leu as obras mais básicas. Da mesma forma que a Cientologia não começa por pregar ao neófito que há bilhões de anos um vilão espacial transportou seus inimigos para a Terra a bordo de aviões DC-10 e os explodiu com bombas atômicas dentro de vulcões, os anarcomiguxos não começam explicando textos polêmicos, tais como:

  • A Ética da Liberdade (Murray Rothbard), em cujo capítulo XIV ele diz que os pais deveriam ter poder ilimitado sobre seus filhos --- inclusive podendo matá-los, vendê-los ou prostituí-los --- e que a educação infantil deveria ser facultativa.
  • Legalize Drunk Driving (Lew Rockwell), onde se argumenta que o Estado não tem o direito de, mesmo sob o pretexto de proteger a vida de outras pessoas, impedir que o proprietário de um veículo o dirija.
  • O Caminho da Servidão (Frederik Hayek), onde se argumenta que a adoção de medidas humanitárias e a concessão de direitos às massas produziriam o fim da liberdade (econômica, claro), criando ditaduras e destruindo o mundo…

A adesão a esse sistema de crenças enviesado e em franca contradição com o bom senso (Rockwell e Rothbard) ou com os fatos históricos observados (Hayek) tem sobre o "anarcomiguxo" o efeito de condicionar a sua própria interpretação da realidade, levando-o a agir de forma equivocada diante de situações que exijam uma leitura correta dos acontecimentos.

Um exemplo deste efeito "alucinógeno" do "anarcomiguxismo" sobre seus adeptos é o que está acontecendo com o Dâniel Fraga.

Dâniel é figurinha carimbada dos fóruns internéticos há muitos anos. Nunca foi muito certo da bola, tendendo a ter opiniões exacerbadas e uma reção meio infantil diante de contestações firmes. Certamente alguém com certo problema mal resolvido com autoridade, sei lá, talvez um complexo de Édipo.

Ele aderiu às ideias "anarcomiguxas" de uns dois ou três anos para cá. Pelo menos esse é o horizonte de tempo ao longo do qual eu me lembro de tê-lo visto discursando enfaticamente contra as maldades do Estado e as maravilhas das empresas e dos indivíduos. Seu canal no YouTube foi, durante este tempo todo, uma das maiores fontes de difusão do pensamento "anarcomiguxo". De fato, eu uso este termo, que não foi cunhado por mim, de forma a evocar aquilo que Fraga se tornou. Minha definição de "anarcomiguxo" é Daniel Fraga.

A fama lhe subiu à cabeça, embora não lhe tenha sido suficiente para subir de nível a mobília de seu quarto (que, ainda assim, parece mais organizado que o meu). Isso fez com que ele subisse de nível em suas críticas, adotando um tom cada vez mais destemido, belicoso até. Desenvolvou uma entortada de boca que sugere alguém que morde as palavras com raiva quando as diz, e expele seus argumentos com força e dor, como quem expele cálculos. Não sei se isso foi intencional, mas ele copiou de muitas formas os trejeitos de Olavo de Carvalho. A diferença é que Olavo se auto-exilou nos EUA, de onde pode dizer o que quiser sem riscos. Fraga ficou no Brasil, e aqui, como sabemos, não existe liberdade de expressão absoluta.

Eventualmente Fraga cometeu algo temerário: criticou um juiz. Juízes são bichos difíceis de criticar porque, apesar de todo o aperfeiçoamento de nossa democracia desde 1988, eles ainda são, praticamente, acima da lei. A pior coisa que pode acontecer a um cidadão é incorrer no desagrado de um juiz. Melhor blasfemar contra Deus do que contra um juiz, se é que vocês me entendem. Porque, mesmo que não façamos nada de errado, não é desejável o incômodo de um longo processo, com todo o seu custo monetário e o desgaste de imagem que isso traz. Dependendo das circunstâncias, um veredito de inocente pode ser totalmente irrelevante, pois o processo em si já foi uma punição cruel.

Mas Fraga fez pior: ele não se limitou a criticar o juiz, ele o fez de forma insultuosa, estendeu a crítica a outros juízes, e explicitou em sua crítica que o juiz seria "ignorante" (sic) do assunto sobre o qual decidiria.

Por mais que eu ache que a liberdade de expressão deva ser mais garantida neste país, eu não consigo achar certo o modo como Fraga se expressou. Um juiz é uma autoridade, e uma autoridade que não tem origem democrática, ainda. Isso quer dizer que existe certo protocolo envolvido. Você não pode simplesmente tratar um juiz como trata um vereador, que pode perder a próxima eleição e cuja autoridade é limitada por essa e outras circunstâncias. O juiz não está sujeito a eleições, ele não presta contas a ninguém, e ele tem suas prerrogativas de forma vitalícia.

Não que eu concorde com esse estado de coisas. Longe de mim. Mas essa é uma leitura realista da mundo real. Diante de uma leitura realistas, devemos tomar medidas realistas. O mundo real não é um fórum da internet, onde você se esconde atrás de um fake para xingar um desafeto. Em certo momento, Fraga se esqueceu de que não estava "na internet" quando fez uma crítica sobre um fato do mundo real. O juiz, ser material existente no mundo real, tomou conhecimento e agiu.

Imagino que Fraga, ao fazer sua crítica, não supôs que haveria consequências. Ele está acostumado a usar palavras muito fortes para se referir a seus desafetos e a políticos de quem discorda. A impunidade o fez ficar descuidado. Não entendeu que não podia simplesmente chamar um juiz de "ignorante" e que não tinha o direito (nesse caso eu afirmo que ele não tinha o direito) de falar rosnando para uma autoridade como ele falou.

Foi um erro grave, mas ainda não foi o mais grave de seus erros. Tamanho era o descolamento de Fraga em relação à realidade que, mesmo depois de notificado judicialmente, ele continuou a agir de forma tresloucada, sem levar a sério a situação em que se metera, tal como Josef K. Se amanhã ou depois tiver um triste fim, "como um cão", terá sido por sua própria falta de juízo. Se é que me entendem.

O juiz ofendido, aparentemente, acionou-o por calúnia e pediu segredo de justiça porque Fraga, tendo acesso ao YouTube, poderia fazer uma grande celeuma sobre o caso, prejudicando o processo. Entendo que o pedido de segredo de justiça foi desnecessário, mas eu entendo aonde o juiz quis chegar e não consigo discordar totalmente de sua interpretação. Opinião minha achar desnecessário. Mas absurdo o pedido não foi.

Porém "Fraga Man" --- o super herói anarcomiguxo, que combate o Malvado Estado usando sua camisa azul-água, seus óculos sem aro, seu roupeiro padrão cerejeira e seu teclado --- não se conformou em não poder noticiar o acontecido! Não, o povo precisa saber. E já que o juiz botou segredo de justiça, what would Misus do? Se ele tivesse simplesmente continuado a falar do caso, mesmo com ordem de manter segredo, já estaria fazendo uma cagada grande, mas o típico anarcomiguxo não se contenta com pouco: Fraga precisava fazer uma cagada gigantesca. Ele mesmo confessou em um vídeo que "na internet não existe segredo de justiça" e exibiu cópias impressas de documentos referentes ao processo.

Não tenho palavras para descrever o que pensei ao vê-lo dizer isso. Meu queixo caiu no chão e quicou. Se um documento está em segredo de justiça e ele o obteve através da internet, esse arquivo só pode ter sido obtido mediante uma invasão do sistema do TJ-SP, um acesso não autorizado. Espionagem, se é que vocês me entendem. Fraga confessou publicamente que obteve por meio ilegal (possivelmente criminoso) documentos que um juiz determinara serem segredo de justiça. Não apenas ele violou o segredo de justiça decretado, como fez questão de dizer que a violação ocorreu por um meio ilegal!

É difícil acreditar que uma ameba destas tenha inteligência normal. Na minha opinião, a partir do momento em que ele CONFESSOU ter violado o site do TJ-SP para obter os documentos, a punição de Fraga não apenas se tornou inevitável, mas é agora necessária. Em nome da democracia e da segurança das instituições, um sujeito que viola o site do Tribunal de Justiça para ter acesso a documentos sob segredo de justiça não pode ficar impune. Isso desmoraliza a própria justiça e achincalha a democracia.

Gostaria de deixar aqui bem claro que existem dois momentos separados nesse evento. O momento em que Fraga faz uso de sua liberdade de expressão para criticar um juiz e o momento em que ele se vangloria de apresentar documentos obtidos apesar do segredo de justiça.

No primeiro momento Daniel tem a minha solidariedade, embora eu ache que ele foi ingênuo, idiota e sem educação (coisa que ele normalmente é na internet). Acho que ele merecia uma reprimenda. Possivelmente o caso estava sendo tratado com exagero (talvez por vaidades envolvidas), mas ele precisava de um susto para "tomar tenência na vida". Para não ficar achando que pode falar o que quer, do jeito que quer, com qualquer pessoa. Para alguém que propõe a viabilidade dum "pacto de não agressão" entre os indivíduos numa sociedade sem Estado, Daniel é agressivo demais.

Mas eu não me solidarizo com Daniel Fraga pelo seu segundo ato. Se ele se sentia injustiçado, tinha todo o direito de se defender, constituir advogado, lançar uma campanha de solidariedade, apelar à Anistia Internacional, acender uma vela para Exu e outra para Jeová; fazer o que quisesse, DENTRO DA LEI. Recursos existem para isso mesmo. O processo é doloroso, a última coisa que eu quero é ficar inimigo de um juiz, mas chutar para o alto as leis e os costumes da democracia têm um custo maior.

Talvez Dâniel tenha querido brincar de desobediência civil. Leu demais Henry David Thoureau. Duvido que tenha pensado em se fazer de mártir da liberdade de expressão, ou do movimento libertário (t.c.c. "anarcomiguxo"). Talvez apenas não tenha se dado conta em tempo da necessidade de racionalidade para agir no mundo real, visto que no mundo virtual a sua persona se caracteriza pelo exercício contínuo da irracionalidade. Minha impressão é que Dâniel se tornou uma vítima da distorção cognitiva que o "anarcomiguxismo" provoca, incapacitando o indivíduo para compreender a realidade de forma útil.

E desta forma, Fraga se vê no meio desse redemoinho, totalmente despreparado para compreender esta cruel realidade, tão diferente do universo mágico em que viveu por tantos anos. Para tornar seu caso ainda mais trágico, ele não me parece ter os meios materiais para se defender eficazmente e a própria ideologia que defende parece ser incompatível com a solidariedade de outros como ele.

Diante destas circunstâncias, acho que a melhor saída é pedir que alguém da família requisite sua tutela por insanidade.

One Comment

  1. "Para tornar seu caso ainda mais trágico, ele não me parece ter os meios materiais para se defender eficazmente e a própria ideologia que defende parece ser incompatível com a solidariedade de outros como ele."

    É isso que eu penso, pelo discurso, você acha que o Fraga é rei do camarote da vida, mas isso tudo é só pose, não entendo o porque defender uma ideologia, que aplicada de fato numa sociedade, te devoraria vivo.

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