Redistribuição de Renda "for Dummies"

Certos conceitos são melhor entendidos quando transportados do terreno vago da terminologia para a solidez do dia a dia. Um exemplo é a tal “redistribuição de renda” de que tantos políticos falam, e que tanta gente é contra ou a favor sem nem saber o que é. Tentarei demonstrar como isso funciona usando como exemplo uma recente campanha no Facebook contra um supermercado de minha cidade natal que passou a cobrar pelas entregas em domicílio. Segundo a campanha, a cobrança seria desta forma:

  • R$ 6,00 por entregas no “centro da cidade”,
  • R$ 10,00 por entregas em “bairros próximos”,
  • R$ 15,00 por entregas em “bairros distantes”.
As aspas foram empregadas porque, sendo Cataguases uma cidade de meros 70 mil habitantes, os conceitos de “centro”, “bairros” e “distante” terão um significado muito diferente do que têm para um habitante de metrópole. Existem “bairros” (como o BNH ou a Vila Domingos Lopes) que estão mais próximos da loja do supermercado em questão do que certas áreas do “centro” que, aliás, não mede mais que um quilômetro de um lado a outro. Certos distritos (fora do perímetro urbano) são também mais próximos da loja do que certos “bairros distantes”. Enfim, os conceitos são vagos o suficiente para haver interpretações contraditórias.

O supermercado em questão possui um enorme estacionamento próprio e não cobra taxa de quem compre a partir de certo valor (se não me engano R$ 30,00). Combine este fato com a recente cobrança por entregas em domicílio e podemos entender disso que se está estimulando o uso do automóvel em detrimento do ônibus, da bicicleta ou da sola do sapato. 

O que este supermercado está fazendo é uma discriminação contra o pobre. A mensagem passada é que ele não quer ter clientes “pedestres” porque estes, em sua  maioria, são os que não têm condição de ter carro. Certa vez uma famosa loja de luxo paulista, a Daslu, construiu uma sede que só era acessível através do estacionamento, que cobrava R$ 100,00 por hora. Obviamente a Daslu, hoje falida, queria que pobre passasse longe. O supermercado cataguasense também parece que quer o pobre longe, comprando no mercadinho de bairro. Como não pode pôr na porta um aviso de que está “proibida a entrada de pobre”, o supermercado resolve penalizar com uma taxa as entregas das compras de quem não tem condição de levar de carro. Observe que a taxa é significativamente maior para “bairros distantes” (definidos de uma forma vaga). Com R$ 15,00 o pobre poderia comprar 10 kg de arroz, por exemplo. Difícil esperar que alguém troque tanta comida pelo conforto de receber as compras em casa.

Alguns de meus leitores; especialmente anarcomiguxos, escroques individualistas e antissociais em geral; reclamarão desta postagem dizendo que o supermercado está certo, porque o custo da entrega era embutido na margem de lucro e que, ao cobrar à parte, o preço das mercadorias poderá ser reduzido. “Não é justo que todos os fregueses fiquem pagando mais caro,  mesmo quando levam eles mesmos suas compras, para os que usam o serviço de entrega em domicílio” — dirão eles, ingenuamente acreditando que a redução de custos será transformada em redução de preços. Aqui temos, então, o conceito de redistribuição de renda sendo discutido, sutilmente.

Uma política de redistribuição de renda significa, entre outras coisas, que os bens, serviços e impostos são mais baratos para quem ganha menos e mais caros para quem ganha mais, a fim de facilitar o acesso a esses bens e serviços por pessoas que ganham menos. Redistribuição de renda é você fazer por cinco reais o preço do prato feito para aquele mendigo esfomeado que chega com uma nota amarrotada de cinco paus, mesmo que você esteja cobrando oito dos clientes normais. Redistribuição de renda é não cobrar a entrega das compras dos pobres, embutindo o custo nas mercadorias, dividindo entre todos os fregueses.

Quando um Estado, ou uma empresa, resolve individualizar os custos e os serviços, sem olhar quem paga, sobre o pretexto de “igualdade”, o que ocorre é justamente punir o pobre. Porque o rico, que já estava de passagem pelo centro em seu automóvel, não se importa de levar a compra ou mesmo de pagar pela entrega. Sem falar que o rico não vive, normalmente, em “bairros distantes” e que, de certa forma, o bairro pobre é sempre “mais distante” que o bairro rico, se não em quilômetros, certamente em percepção.

O resultado destas políticas de individualização de custos é a redução da capacidade de consumo das pessoas que ganham menos, esvaziando as lojas dessa gente “diferenciada” que atrapalha as compras dos “bons clientes”.

Infelizmente, pelo menos na internet, esse tipo de ideologia parece estar ficando popular. E medidas ocasionais, como essa do  supermercado, nos sugerem que a mentalidade do "cada um por si" está ganhando terreno. Esperemos que esta erva não vingue, porque as dificuldades de cada um não são aumentadas pela solidariedade com quem tem ainda  mais dificuldades. 

7 Comments

  1. É verdade que a política de preços desse supermercado dificulta o acesso dos mais pobres, o que de forma alguma significa que a empresa deve ser impedida de escolher os preços livremente. Num mercado verdadeiramente livre (não, o mercado no Brasil não é nem perto de livre), algum empreendedor perceberia que a demanda das camadas mais baixas não está sendo atendida e aproveitaria a oportunidade para lucrar. Essa lógica deriva de um estudo profundo e imparcial das ciências econômicas, independendo de qualquer ideologia.

  2. “O supermercado cataguasense também parece que quer o pobre longe, comprando no mercadinho de bairro.”

    Se o supermercado atrai todo mundo, reclamam do monopólio das grandes empresas ai socorro.

    Se o supermercado estimula o pequeno e variado comércio local, reclamam também?

  3. O objetivo maior aqui não é criticar o supermercado, mas demonstrar, através desse caso prático, como funciona a distribuição de renda. Mas de uma certa forma, o apoio a esta medida representa o crescimento da mentalidade individualista. Espanta que justamente com o crescimento da renda per capita brasileira as pessoas estejam ficando mais egoístas. Quando o Brasil era mais pobre as pessoas eram mais solidárias. Ou não?

  4. Olá, José. Infelizmente, aqui no seu blog, não encontrei um local para pedir uma opinião sua, visto que é formado em história e, talvez, possa me ajudar. Por isso vou usar o espaço do comentários.

    Bem, é o seguinte. Meu irmão está se tornando um anarcomiguxo. Tudo bem, a vida é dele. Porém, fico meio emburrado quando ele fica desferindo ataques cegos ao Estado de modo geral a favor do “mercado”. Também não gosto da ideia de um Estado, contudo, entendo que do jeito como nossa sociedade está, pode-se até compreendê-lo necessário, daí, cabendo-nos tentar melhorá-lo para que pudessémos, enfim, utopicamente, termos igualdade econômica e social. E trocar o Estado pelo mercado não me parece uma boa saída.

    Um dia desses conversando sobre algumas crises no capitalismo, ele me contou que antes da crise de 1929, acontecera uma antes, se não me engano em 1910 – me perdoe, posso estar muito enganado com relação a data – bem pior do que aquela, mas de duração menor, somente 18 meses, ante os 10 anos da crise de 29. A justificativa para um menor período de crise foi de que o presidente do EUA à epoca deu de braçõs e o mercado contornou a crise, enquanto as intervenções do presidente Roosevelt só retardaram a recuperação do “crack”.

    Sou bem leigo em história, embora já tenha estudado um pouquinho. Só que não me lembro de ouvir falar dessa crise anterior. Ela realmente foi tão grave assim? Claro, crises são sempre coisas ruins. O que meu irmão disse é verdade? Poderia dar uma esclarecida nesse ponto?

    Peço desculpas se aqui não é o melhor lugar para abordar o assunto. De qualquer forma já agradeço pela atençao.

    Renato.

  5. Não vejo claramente um incentivo para se ter automóveis nem uma discriminação ao pobre. Vejo, na verdade, um incentivo do supermercado em fazer com que as pessoas consumam um valor mínimo em troca de um estacionamento gratuito. Até porque, o fato da pessoa poder ter um estacionamento gratuito, devido à uma promoção do supermercado, é um benefício pequeno demais para ter um peso relevante na decisão de se comprar um automóvel.

    PS – não sou libertário ou ´´anarcomiguxo´´.

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