Porque Devemos Evitar o Termo “Revisionismo”

O termo “revisionismo” não deve ser jamais utilizado em uma discussão sobre História. Há três boas razões para isso.

  1. O termo é uma ofensa a qualquer historiador, pois sugere que revisões do conhecimento histórico estabelecido são raras, que as teses dos historiadores estão, de alguma forma, solidificadas. Nada é mais distante da verdade: poucos campos do conhecimento humano são mais aberto a controvérsias do que a História. Até mesmo o ponto de haver quem negue o caráter científico da História justamente por essa amplitude das discussões. Falar em “revisionismo” como se fosse algo especial é passar atestado de ignorância sobre a natureza e os procedimentos da História enquanto campo do conhecimento humano.
  2. O termo, em si, é uma falácia. Nenhum pesquisador deve (ou deveria) eleger um método como o objetivo de seu trabalho. Tal como o objetivo do médico é curar, e não operar. O historiador não tem obsessão de “revisar”, mas de obter o conhecimento mais próximo possível da “verdade” (seja lá o que for que ele tome como tal). Alguém que se diz “revisionista”está colocando o questionamento como uma finalidade em si, independente de qual seja o objeto do estudo. Não deve ser assim: devemos estudar o objeto e revisar as teorias a partir dos dados coletados. Uma atitude “revisionista” está para a História assim como o criacionismo está para a Biologia: parte-se de uma necessidade a priori de questionar o estabelecido e busca-se indícios que justifiquem este questionamento, não com o objetivo de propor uma teoria alternativa, mas de demolir a explicação existente. Revisionistas são como criacionistas. O que quer dizer que eles são necessariamente ignorantes, falaciosos ou picaretas.
  3. Existe um grupo de pessoas que propõe o revisionismo com objetivos nada louváveis: aquelas pessoas que querem remover do racismo e do anti-semitismo o opróbio que justamente lhes caiu em cima como consequencia do horror da Segunda Grande Guerra. Querem remover esta mancha a fim de poderem novamente difundir estas ideias. Portanto, para evitar de ser associado a estas pessoas, ou de indiretamente dar fôlego aos seus movimentos, você deve evitar usar esta terminologia específica, que eles sequestraram para si.

Tendo dito isto, respondo à sua pergunta: existem inúmeros documentários sobre o revisionismo do Holocausto. Poucos campos do conhecimento histórico são tão bem documentados (com filmes contemporâneos inclusive). Existem várias controvérsias envolvendo o que aconteceu nos campos de concentração, interpretações díspares, dadas por pessoas que variam da extrema esquerda (historiadores soviéticos inclusive) à extremíssima direita. Há controvérsias quanto ao número efetivo de mortos (estimativas variam entre três e treze milhões), à percentagem de judeus no cômputo destes mortos (há quem defenda que os judeus eram minoria nos campos de concentração, embora ainda fossem o grupo mais numeroso) e até mesmo ao modus operandi dos campos de concentração.

O que não existe é alguma teoria que consiga explicar a imensa massa de documentos (filmes, fotos, depoimentos) de outra forma que não reconhecendo a existência de um Holocausto. Já ficou comprovado que algumas pessoas se aproveitaram do Holocausto para ganho pessoal, mas isso é da natureza humana: recentemente se descobriu que os políticos de Teresópolis andavam abocanhando 50% das verbas de reconstrução da cidade e deixando as obras para depois (mas, apesar disso, ninguém está afirmando que as chuvas foram uma invenção deles para obter verbas federais volumosas em que pudessem “mamar”). Já ficou comprovado, também, que boa parte dos verdadeiros responsáveis pelo ocorrido jamais enfrentou a Justiça pelos seus atos: fugiram para a União Soviética, para os Estados Unidos, para a Argentina, para o Paraguai, para o Brasil, para a Austrália, para a Finlândia ou para outros lugares. Os guardas que foram presos nos campos de concentração eram em sua maioria jovens oficiais deslocados para lá pouco antes da chegada dos aliados: bodes expiatórios quase todos.

Sabe-se também que os aliados cometeram crimes de guerra. O bombardeio de Dresden não é algo de que a Grã Bretanha se orgulhe, por exemplo. E não vou nem falar das obscenidades cometidas pelos americanos contra os japoneses no front oriental, motivadas por um racismo tão profundo e odioso quanto o anti-semitismo alemão. Sabe-se também que Stálin foi bastante pior do que Hitler, sob quase todos os aspectos (exceto quanto a eleger um povo específico para bode expiatório, Camarada Ióssif acreditava em “oportunidades iguais” para o Gulag…).

Portanto, boa parte daquilo que os “revisionistas” bradam como se fosse a descoberta da pólvora são coisas que a História já sabe muito bem. Este discurso deles só encontra apelo entre os ignorantes, pois quem estuda História tem uma compreensão muito mais ampla do assunto. Justamente por isso, é preciso abolirmos o uso desta palavra nos debates sobre a Segunda Guerra, deixá-la somente para os ignorantes. Pois quando recorremos a ela, damos sem querer uma credibilidade que neonazis não merecem.

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