O Manifesto-Pirraça da Direita Infantil

Ao acessar o Facebook na data de ontem, fui surpreendido por mais uma prova de que certos seguidores da nossa direita parecem comer capim (isso se não comem cocô mesmo). Trata-se de um texto tão inacreditável e tão tosco que eu ainda prefiro acreditar que é uma gozação que alguém escreveu para ridicularizar o pensamento direitista nacional. E se não for isso, por favor, não me contem. Comentarei o tal texto, mas partindo do pressuposto de que ele é uma trollagem.

O texto saiu no blog da UFSCON e logo a seguir foi reproduzido em outros focos virtuais de pensamento reacionário, como o “Direitas Já”. Se a aparente seriedade do blogue de onde saiu não bastasse para atestar que o texto foi escrito a sério, a republicação depõe seriamente contra a inteligência dos responsáveis pelas páginas que o repetiram.

O “Manifesto” é de João Victor Gasparino Silva, do curso de Relações Internacionais na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina, e contém um protesto contra a solicitação de um trabalho de pesquisa sobre Karl Marx, feita por um professor.

Direitista empedernido, o aluno se recusa a sequer tomar conhecimento da existência do marxismo e rejeita a pesquisa pedida. No manifesto, procura justificar porque não fez o trabalho.

São tantas as coisas erradas na atitude em si que é quase supérflua a análise do texto. A recusa em estudar um pensamento diverso do próprio já é motivo mais do que suficiente para classificar o aluno como obscurantista e intolerante. Mas tal impressão poderia ser evitada se o texto contivesse embasamento teórico e desenvolvesse uma argumentação sólida, em vez de uma reclamação imatura.

A análise é útil, porém, para compreender como funciona a propagação de uma ideologia de extrema direita em nosso país. Segue a transcrição comentada do “Manifesto”:

Como o senhor deve saber, eu repudio o filósofo Karl Marx e tudo o que ele representa e representou na história da humanidade, sendo um profundo exercício de resistência estomacal falar ou ouvir sobre ele por mais de meia hora.

Infelizmente para o enjoado reacinha, Karl Marx teve um papel fundamental no desenvolvimento da ciência econômica, das ideologias polí­ticas, das lutas sociais e da metodologia histórica. Mesmo que rejeitemos por alguma razão a validade de seu trabalho, é impossível ignorar o impacto que ele teve sobre a História contemporânea. Por isso, o nosso reacinha enjoado que trate de tomar um Engov e aprender tudo.

Os personagens históricos não deixam de ser importantes só porque nós não gostamos deles. A atitude do nosso reacinha é a de um menino pirracento que sempre teve satisfeitas todas as suas vontades e agora se sente no direito de decidir o que é ou não importante no currículo da própria faculdade onde estuda. Trata-se de um ato infantilidade tão gigantesca que os direitistas não imbecis (temos agora a oportunidade para saber quão poucos são) devem estar sentindo vergonha alheia pelo rapaz, que passou tremendo recibo de imaturidade. Se algum dia alguém mereceu ser qualificado de “moleque de apartamento, criado a leite de pera e ovomaltino” esse cara é o autor do texto.

Aproveito através deste trabalho, não para seguir as questões que o senhor estipulou para a turma, mas para expor de forma livre minha crítica ao marxismo, e suas ramificações e influências mundo afora.

A proposta até que é interessante. Uma crítica ao marxismo, se fundamentada, certamente mereceria uma boa nota, pois, para poder fazê-la, o aluno teria de estudar a obra de Marx e demonstrar que compreendeu-a tanto que conseguiu refutá-la.

Quero começar falando sobre a pressão psicológica que é, para uma pessoa defensora dos ideais liberais e democráticos, ter que falar sobre o teórico em questão de uma forma imparcial, sem fazer justiça com as próprias palavras.

O pirralho que nunca ouviu um “não” e sempre o papai lhe comprou tudo o que quis acha que é “pressão psicológica” ter de falar imparcialmente sobre um autor de que discorda. Que grande tragédia forçar um pobre coxinha a estudar uma ideologia de esquerda, isso deve ser pior que uma noite no pau de arara!

Infelizmente, por toda a vida, deparamo-nos com ideias ou pessoas de que discordamos. Não podemos fechar os olhos para essa realidade, não temos o poder de escolher o que queremos saber e estudar. Estudamos e aprendemos aquilo que é “necessário”.

Observem, ao final da citação acima, como o aluno se sente frustrado por não poder “fazer justiça com as próprias palavras”. Acredito que, se Marx já não estivesse morto há mais de 150 anos, o cara bem gostaria de matá-lo, e fazer justiça com as próprias mãos, ou pelo menos de xingá-lo, vilipendiá-lo, fazendo justiça com palavras. A impossibilidade do linchamento (literal ou verbal) de Karl Marx é a causa da “pressão psicológica” vivida pelo aluno reacinha.

Me é uma pressão terrível, escrever sobre Marx e sua ideologia nefasta, enquanto em nosso país o marxismo cultural, de Antonio Gramsci, encontra seu estágio mais avançado no mundo ocidental, vendo a cada dia, um governo comunista e autoritário rasgar a Constituição e destruir a democracia, sendo que foram estes os meios que chegaram ao poder, e até hoje se declararem como defensores supremos dos mesmos ideais, no Brasil.

A típica paranoia apocalíptica e hiperbólica do extremista de direita coxinha. Qualificar o nosso governo atual de comunista é prova de uma ignorância tão grande que somente esta frase já justificaria a reprovação do aluno. Afinal, ele não só desconhece o que é “comunismo” mas também não consegue uma análise coerente da situação política que tem diante de si.

Outros reflexos disso, a criminalidade descontrolada, a epidemia das drogas cujo consumo só cresce (São aliados das FARCs), a crise de valores morais, destruição do belo como alicerce da arte (funk e outras coisas), desrespeito aos mais velhos, etc. Tudo isso sintomas da revolução gramscista em curso no Brasil.

Aqui vemos um salto lógico (ou melhor, ilógico) de amplitude absurda. Se o trabalho era sobre a obra de Marx, por que o reacinha saltou tão rapidamente para o governo brasileiro atual, que de marxista só mantém uma leve tintura? Trazer o governo atual para um debate sobre a obra de Marx é uma apelação sem sentido, uma fuga ao tema.

Mas pelo menos esta fuga nos permite boas gargalhadas, ao percebermos que o idiota que escreveu este texto fantasia que o governo atual é o culpado por todas as mazelas que afligem nosso país. Da maneira como fala, fica parecendo até que não havia crime no Brasil antes de Lula, que o consumo de drogas era minúsculo, que o PT inventou o funk, que toda vez que alguém bate num velhinho é porque era petista, “coisas assim”. É verdade que os governos petistas desde 2002 não conseguiram resolver muitos de nossos problemas, mas atribuir-lhes culpa por tais problemas é algo que só se explica por muita ignorância ou pela deliberação de mentir.

A revolução leninista está para o estupro, assim como a gramscista está para a sedução, ou seja, se no passado o comunismo chegou ao poder através de uma revolução armada, hoje ele buscar chegar por dentro da sociedade, moldando os cidadãos para pensarem como socialistas, e assim tomar o poder.

À parte o fato de que nunca houve uma tomada de poder por meio de tal estratégia “gramscista”, o próprio conceito parece absurdo (e é), uma vez que seriam necessárias várias gerações para o pensamento revolucionário chegar a uma massa crítica. Ainda mais considerando a incrível eficiência de nossas escolas. Uma estratégia de tão longo prazo é tão ineficaz que os membros de qualquer grupo ou partido que a estivesse implementando estariam mortos ou muito velhos quando (e se) ela chegasse a ser bem sucedida. Esta estratégia assume, então, ares meio sobrenaturais, um quê de conspiração milenar, um jeitão meio óbvio de delírio das minhocas da cabeça de quem não sabe o que diz.

Fazem isso através da educação, o velho e ‘’bom’’ Paulo Freire, que chamam de “educação libertadora” ou “pedagogia do oprimido”, aplicando ao ensino, desde o infantil, a questão da luta de classes, sendo assim os brasileiros sofrem lavagem cerebral marxista desde os primeiros anos de vida.

Então os alunos do prézinho estudam a luta de classes. Os alunos das escolas estaduais paulistas (onde não se ensina mais História) também estudam luta de classes. Os alunos dos colégios religiosos idem. Pois todos são comunistas. Até a Igreja Católica é comunista.

Em nosso país, os meios culturais, acadêmicos, midiáticos e artísticos são monopolizados pela esquerda a [sic] meio século, na universidade é quase uma luta pela sobrevivência ser de direita.

Os jornais são de esquerda. A Globo é de esquerda. É tudo esquerda. Só temos jornais e emissoras de rádio e TV esquerdistas desde o golpe militar de 1964. Os generais derrubaram Jango e depois deram todos os canais de rádio e TV para os esquerdistas! Esse cara é um maluco.

Quanto à luta pela sobrevivência que ele enfrenta na faculdade, pouco se pode dizer, a não ser que realmente é uma inglória guerra a que se trava contra o conhecimento. Se o seu direitismo é baseado; como viu-se até agora; em ignorância, teimosia e preconceitos; realmente deve ser muito difícil protegê-los dos contínuos ataques da razão e do conhecimento. Em um ambiente um pouco mais “liberal” (um beco escuro à noite, por exemplo), talvez os nossos reacinhas virassem o jogo e eliminassem essa ameaça na base de muita porrada.

Agora gostaria de falar sobre as consequências físicas da ideologia marxista no mundo, as nações que sofreram sob regimes comunistas, todos eles genocidas, que apenas trouxeram miséria e morte para os > seus povos. O professor já sabe do ocorrido em países como URSS, China, Coréia do Norte, Romênia e Cuba, dentre outros, mas gostaria de falar sobre um caso específico, o Camboja, que tive o prazer de visitar em 2010.

À parte a simplificação grosseira (somente trouxeram miséria e morte) dos resultados das revoluções socialistas, o parágrafo é de uma empáfia raríssima. O aluno se mete a lecionar para o professor! E o pior, ainda pior, é que a lição provavelmente está fora do tema do trabalho encomendado (aparentemente, o “marxismo”).

Segue-se um relato bastante factual dos acontecimentos do Camboja nos anos 1970, governo do Khmer Vermelho. Só que este relato, além de ser um parêntese no raciocínio que o autor tentava (em vão) desenvolver, não está relacionado diretamente com o tema e resvala, perigosamente, no apelo emocional, como neste trecho:

Os castigos e formas de extermínio, mais uma vez preciso de uma resistência estomacal, incluíam lançar bebês recém-nascidos para o alto, e apanhá-los no ar, utilizando a baioneta do rifle, sim, isso mesmo, a baioneta contra um recém-nascido indefeso.

Por mais horrível que tenha sido o regime do Khmer Vermelho (e deve ter sido mesmo, pois ele causou uma diminuição de quase um quarto da população do país), essas atrocidades não afetam o valor da obra de Karl Marx nem minimamente, pois este nunca mandou, por exemplo, que soldados espetassem bebês em baionetas. Atribuir a Karl Marx a culpa pelos erros e crimes de regimes que se inspiraram nele, é atribuir à Bíblia a culpa por pregadores malucos, como Jim Jones e David Koresh.

Bem, com isto, acho que meu manifesto é suficiente, para expor meu repúdio ao simples citar de Marx e tudo o que ele representa.

Não obstante seu repúdio, a relevância de Marx continua a mesma, e se você quiser obter a nota terá de apresentar outro trabalho.

Diante de um mundo, e particularmente o Brasil, em que comunistas são ovacionados como os verdadeiros defensores dos pobres e da liberdade, me sinto obrigado a me manifestar dessa maneira, pois ele está aí ainda, assombrando este mundo sofrido.

O aluno poderia pelo menos ter se perguntado por que o comunismo conserva esta reputação, apesar de seus erros. Poderia ter obtido algumas respostas interessantes. Mas preferiu manter distância do tema, o que fez o seu texto ser raso, parecendo ser mais uma desculpa para não ter entregue o trabalho dentro do prazo.

Em seguida o aluno cita um suposto “decálogo de Lênin” que não existe (pelo menos não como um texto determinado). Mais uma vez ele se posta como professor, revelando uma mentalidade predeterminada, e mais uma vez o faz para difundir uma informação incorreta.

Depois da difusão inicial pelos canais alternativos, na internet, o texto chegou à grande mídia, sendo replicado pelo blogueiro Rodrigo Constantino, que escreve na Veja. Rodrigo, no entanto, possui um grau suficiente de honestidade intelectual e admite que o texto fica longe de ser mítico como a direita o julgou. Especificamente, Constantino admite o emprego de uma informação falsa, justamente o “decálogo de Lênin”:

O decálogo de Lênin, ainda que soe verdadeiro para quem conhece o leninismo, é falso até onde sei. O que não tira o mérito do manifesto.

Se o Constantino não estivesse tão interessado com a descoberta de um raro exemplo de texto direitista articulado que não resvala no neonazismo ou na escrotice pura e simples, poderia ter admitido outras das muitas falhas do texto, como emprego de evidência anedótica (quando o autor usa a viagem ao Camboja como “fonte”) e o fato de que o uso do “decálogo” (que é citado integralmente) tira, sim, o mérito do manifesto. Se os dados são viciados, o resultado é viciado. Boa parte das acusações feitas pelo autor ao marxismo podem derivar de textos, como o “decálogo”, que difundem desinformação. Então, o emprego de fontes tais sugere que a revolta do autor é causada pela sua seleção de textos inconfiáveis. Donde podemos concluir que o ferrenho antimarxismo exibido pelo autor se enraíza em informações distorcidas, contidas em textos apócrifos como o “decálogo”. E podemos concluir, então, que se o autor não sabe selecionar uma fonte legítima, um documento real, de uma fonte forjada, ele não tem nenhum comando da metodologia, e isso é uma bala de prata contra seu argumento: por isso eu disse desde lá no início que o “manifesto” depõe contra quem o escreveu.

Sim, contra quem o escreveu. A julgar por esse texto que divulgou, o Sr. João Victor Gasparino Silva não domina o discurso acadêmico com a proficiência necessária, não sabe diferenciar documentos legítimos de outros forjados, expressa opiniões engajadas que acompanham sua incapacidade de diferenciar entre a realidade e a invenção dos adversários do marxismo. Em vez de prestar um grande serviço à direita, este texto mostra um direitismo imaturo, pirracento, ignorante e, o que se mostra ainda mais surpreendente, oposto à hierarquia e sem respeito formal pelos ritos acadêmicos.

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