O Desgosto que Lula me Deu

Este artigo ficou voejando pela minha cabeça nos últimos dias sem que eu tivesse realmente a coragem de escrevê-lo. Tenho tido uma profunda preguiça mental para escrever, tanto textos literários quanto polêmicos, pois o meu corpo e a minha alma têm sido absorvidos no aprendizado de uma nova função em meu emprego. Mas há casos nos quais o casulo da inércia não consegue conter muito tempo uma ideia que pulsa até que finalmente purga, como um tumor.

Esta foi a semana na qual todos os brasileiros de esquerda; eu entre eles; tiveram o estranho espetáculo do apoio de Paulo Maluf à candidatura petista na cidade de São Paulo. Este apoio, e as reações que provocou, à direita e à esquerda, é o tumor que latejou dentro de mim durante vários dias, até eu me dispor a perfurá-lo.

Podemos empregar uma metáfora sexual para o caso, já que se trata de um episodio de pornografia política como poucas vezes se viu. Lembro-me de quando, ainda cheio de culpas por ter transado com uma namoradinha, pensava em amor eterno, casamento, filhos e até dois túmulos lado a lado no cemitério. Meu pai, bem mais realista do que eu, e muito menos romântico desde sempre, beneficiado por nunca ter lido poesia romântica, aconselhou-me a não fazer nada depressa, porque a vida é longa e temos mais mais tempo para enfrentar as consequências dos erros do que para fazer as escolhas certas. Terminou o conselho com uma frase rudemente lapidar: só porque comeu, não tem que casar.

Algo semelhante se aplica ao apoio político em questão: eu já sabia desde há muito tempo que o “Partido Progressista” (atual nome da legenda que já foi o PDS e, em tempos obscuros, a Arena) era apoiador da coligação governista. Se não o foi desde a primeira campanha eleitoral de Lula, pelo menos reconheço suas impressões digitais gordurosas no governo desde o escândalo do mensalão, que teve o envolvimento de Valdemar da Costa Neto, então presidente do Partido. Sabia, também, que há cada vez uma tendência maior à harmonização das alianças locais com as nacionais --- o que não deixa de ser salutar, visto que as coligações tornavam nossas eleições uma verdadeira salada partidária sem nenhum tempero definido. Sabia, mas vivia me recusando a pensar nisso, que o apoio do PP implicava no apoio de Maluf, uma das personalidades brasileiras que, graças ao nosso justíssimo sistema judiciário, tem a prerrogativa de andar livremente pelas ruas e até de influir nos destinos do país apesar de crimes cometidos internacionalmente que o tornam procuradíssimo pela Interpol. Existe até uma lenda de que não pode sair do país para não ser preso e extraditado para algum dos vários países onde cometeu fraudes (entre eles, notoriamente, Estados Unidos e Grã Bretanha).

Ocorre que o fato de o PT estar “comendo” desde 2003 pelo menos não significava, pelo menos não até agora, uma obrigação de “casar”. Ainda que, pelas vias do fato, o casamento seja hoje apenas uma cerimônia pública, que poucos direitos retira ou acrescenta, para além do dinheiro gasto com a pantomima toda. O governo pôde continuar usufruindo do apoio suspeito dos partidários de Maluf sem precisar “casar” porque no pântano do congresso, répteis de todas as cores serpenteiam pelos meandros se acasalando, sem chamar atenção de muita gente, só dos especialistas, e a maioria tem um certo asco por essas coisas. Somente para tentar ganhar a prefeitura paulistana é que se imaginou que a cerimônica pública, com direito ao equivalente político do beijo na boca, seria um espetáculo interessante. Um triste espetáculo, no qual o jovem Fernando Haddad aparece numa posição fisicamente análoga à de padre.

Foi grande o desgosto que me sobreveio ao ver Lula confraternizando com um dos políticos que mais representam o pensar e o fazer político dos apoiadores civis da Ditadura. O político que foi, por muito tempo, a cara do PDS, por ter sido seu candidato no colégio eleitoral que escolheu Tancredo para conduzir a transição; um episódio de triste memória que resultou em cinco anos de um mandato totalmente inconstitucional que nada fez pelo país além de fazê-lo perder tempo. Foi grande o desgosto de vê-lo abraçando um homem que é internacionalmente procurado por malversação de dinheiro público e que foi por anos o próprio ícone da “política de resultados”.

Foi mais ou menos a sensação de ver a namoradinha de infância batendo bolsinha na esquina. “É só um apoiozinho para ganhar mais uma eleição, depois eu me lavo e tá novo”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Protected by WP Anti Spam