No Futebol e na Política

Nosso país sempre se caracterizou, a partir da introdução do futebol, pela confusão entre as esfersa pública e privada no que tange à prática do rude esporte bretão e também ao relacionamento desta com os chamados «torcedores», aqueles que, praticantes ou não (de «peladas»), se reúnem à beira da cancha para assistir às partidas disputadas pelas equipes formais. O futebol, muito cedo, se mostrou uma forma de expressão política e até mais do que isso, uma forma de expressão política possível, mesmo diante de regimes de arbítrio.

Provas dessa relação biunívoca entre o esporte e a política se encontram, por exemplo, na questão da admissibilidade de jogadores negros, e mais tarde de jogadores profissionais, que se confundem com a luta pelos direitos civis dos afrodescendentes e pelos direitos políticos dos pobres em geral, de todas as cores. A própria formação das federações, espelhando as estruturas coronelistas estaduais, reflete o status quo da República Velha — e nesse quesito o futebol é um dos bastiões de resistência da política dos governadores. A CBF ainda funciona como uma sucursal dos interesses das federações dos estados e dos presidentes de clubes dentro destas federações, o que se traduz na grande força política dos clubes protegidos por interesses políticos de grande força, como o Flamengo, o Corinthians, o São Paulo, o Fluminense e alguns outros, oposta ao desamparo de clubes postos para escanteio por estarem localizados em estados periféricos ou não possuírem costas quentes.

Esta força política de alguns entre os grandes se traduz em favorecimentos mais ou menos descarados, conforme a necessidade, o que gera uma espécie de «carta branca» para que certos clubes empreguem certas táticas e estratégias, contando com a mão amiga de uma arbitragem que, se não é mal intencionada (longe de mim fazer tal acusação), é condicionada a tender para um lado determinado, o que pode resultar no «árbitro caseiro», que tende a se deixar influenciar pela torcida e beneficiar o dono da casa, no «árbitro quixote», que gosta de prejudicar os grandes contra os pequenos, achando que está fazendo justiça, no «árbitro heróico», que odeia a torcida e favorece o visitante para irritá-la, e outras figuras pitorescas.

Como a CBF não é uma entidade democrática, mas uma espécie de clube de interesses escusos onde manda mais quem tem o melhor patrocínio no momento ou está devidamente respaldado pela imprensa ou pela política, as comissões de arbitragem se revelam impotentes para solucionar o caos da arbitragem tendenciosa. Palhaços furiosos, como o folclórico Armando Marques, durante sua passagem ridícula pela Confederação, servem muito bem de inspiração para humoristas pastelão, mas não conseguem impor sua autoridade porque não é possível exigir respeito quando todos sabem que a própria entidade que lhe dá o bastão está, por detrás, orientando favorecimentos.  De troca em troca do cabeça da vez a imprensa vai vendendo a ilusão de que alguém salvará a pátria do futebol da «corrupção» do árbitro vendido, como se o comércio de si mesmo fosse o maior dos crimes cometidos pela arbitragem. Ninguém fala das pressões sobre árbitros jovens, para que favoreçam X ou Y, ninguém fala das campanhas nojentas contra jogadores como o Kléber «Gladiador» (em quem a falta só é falta se sair sangue) ou contra os «cai-cai» dos times pequenos, que não têm o direito de tentar um drible de Neymar ou são trucidados por brucutus das defesas «eficientes» dos grandes, especializadas em plantar-se como palmeiras e perder vexaminosamente os jogos contra os times da Europa, onde qualquer joão ninguém pode dar seu drible sem correr risco de vida. E assim o «futebol macho» de que gosta uma parte estúpida (mas muito grande) de nosso povo vai colecionando humilhações internacionais, que desembocam nesse time ridículo do Mano Menezes.

E nós assistimos a tudo isso, nós ainda nos iludimos, ainda compramos camisas de nossos times, mesmo sabendo que o campeonato é um jogo de cartas marcadas, no qual um time grande só cairá se não for o Flamengo e se conseguir um nível estratosférico de incompetência. Nos iludimos com o discurso de que cada certame começa com «vinte favoritos». Mas quando se torna necessário operar mais abertamente, porque as manobras sutis não estão sendo suficientes para assegurar ao predestinado da vez a pontuação necessária ao título, a torcida não tem o direito de protestar, ou o clube será punido.

Vivemos supostamente em uma democracia. Mas a torcida, que está para o futebol como o povo está para a política, deve permanecer calada. O povo deve permanecer em seu lugar. Não basta que não desça ao campo para expressar sua dor ou sua alegria, não basta que se comporte civilizadamente não destruindo o estádio, não basta que aceite ser tratado como gado por uma polícia que vai ao estádio proteger crianças e mulheres com cassetetes de madeira e armas de gás lacrimogêneo. Não, não basta. É preciso fiscalizar o que está escrito em cada faixa. Impedir que o torcedor expresse seu inconformismo. Punir o grito de «ladrão» se for premeditado. A acusação só é desculpável se for apenas uma «reação impensada», uma conclusão racional, fruto de análise e observação, esta não pode nunca ser dita. Por isso a torcida do pequeno bravo Náutico não podia protestar contra a arbitragem, que precisa salvar o Flamengo da degola, cortando a cabeça do Timbu e da Ponte Preta. Por isso a torcida do Galo, que já andava revoltada com misteriosos favorecimentos ao adversário e uma estranha punição de seu maior ídolo, não podia entrar no estádio usando narizes de palhaço. E não podia gritar «vergonha» quando o árbitro anulou um gol perfeitamente legítimo de Ronaldinho Gaúcho, feito que quase resultou num rumo totalmente inesperado para o jogo, feito que quase deu ao Fluminense o título antecipado.

O povo não pode falar. Afinal, a torcida é mesmo intrusa no estádio, segundo a visão da CBF. Tanto quanto, na visão de nossa elite, o povo é intruso na política. O juiz que anule todos os gols que quiser, como quiser. O gado, digo, a torcida, tem que ficar em seu lugar, sem protesto, sem trazer faixa no jogo seguinte.

Ao final da partida o zagueiro atleticano Júnior César provocou deliberadamente o centroavante fluminense Fred, ao chutar a bola do reinício. Fez isso calculadamente porque se Fred o agredisse seria expulso, por já ter cartão amarelo.  Júnior César foi matreiro, mas a catimba é uma arma que não serve para todos os clubes igualmente. A catimba só serve quando os clubes certos estão autorizados a usá-la para provocar os adversários. Entre os clubes autorizados a catimbar estão o Flamengo, o Fluminense, o Corinthians, o São Paulo, o Santos. Como a catimba só é possível se a arbitragem já tiver combinado antes que sim, o zagueiro atleticano foi advertido com o cartão amarelo e o atacante tricolor, mesmo agredindo-o com um safanão, não foi punido. A intenção do atleticano era óbvia: desfalcar o Fluminense de seu principal jogador na partida seguinte. Ele mesmo, Júnior César, sacrificando-se no ato. Tal como o gol teria sido validado por qualquer outro árbitro, em qualquer outro jogo, a agressão de Fred teria sido punida, por qualquer outro árbitro, em qualquer outro jogo, se fosse qualquer outro jogador.

E a torcida não pode pôr nariz de palhaço no estádio.

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