Não Escreverei uma Elegia para Muammar

Muammar Khadafi (ou seja lá como se escreve) foi morto. Não chorarei por ele nenhuma lágrima de crocodilo. Nenhuma vela merece ser queimada por tal defunto. Acredito que é sempre uma alegria para a humanidade quando um ditador encontra seu destino “nos braços do povo”, tristeza é quando um monstro desses rende o espírito confortavelmente deitado em uma cama, ao lado da família e assistido por um doutor. O mundo precisa que mais ditadores acertem as contas com o povo, exemplos deprimentes como Idi Amin Dadá (que ganhou um exílio de luxo na Arábia Saudita, com suas várias esposas e os milhões que roubou da miserável Uganda) ou Francisco Franco (que recebeu extrema unção da Santa Madre Igreja e teve luto nacional decretado) tornam o mundo um lugar pior. Ditador não pode morrer de morte morrida, mas de morte matada.

Espanta-me que certas pessoas, entre elas a Excelentíssima Senhora Presidente de nossa República, encontrem uma tortuosa maneira de lamentar que tenham esticado as canelas do Muammar (vou chamá-lo assim por uma questão de praticidade, aproveitando que não lhe devo respeito algum): “isso não significa que a gente comemore a morte de qualquer líder que seja”, diz a Senhora Rousseff, que teve o meu voto útil, mas não tem o meu apoio quanto a esta declaração. Teria Dilma empregado as mesmas palavras em reação ao espancamento (seguido de enforcamento) de Benito Mussolini pelos partigiani em 1945? Teria ela reservado esta simpatia para o vampiro Nicolae Ceausescu, julgado e executado ao vivo na TV pelo povo da Romênia? Por uma questão de coerência, sim.

Ver matarem um ditador sanguinário, que ordena que sua Força Aérea ataque com metralhadoras antitanque uma manifestação do povo, não é algo que se deva lamentar. É um bom exemplo para a humanidade que massacrem o Muammar, joguem pedra no Muammar. Muammar é a Geni desse mundo onde ninguém ousa tacar pedra nos grandes ditadores. Chutar cachorro de rua é mais fácil do que desafiar o pitbull do pitboy filho do empresário milionário. Vocês, que estão lamentando, gostariam que o Brasil tivesse dado asilo a Muammar? O que estariam dizendo da Dilma se ela abrisse as portas de uma mansão no Lago Sul para receber o sujeito? Muammar morreu, antes ele do que eu. Muammar se fodeu, e mereceu.

Claro que isto, porém, não significa que a morte do Muammar resolve todos os problemas da humanidade. Ainda tem muita ditadura por aí, algumas bem disfarçadas por eleições a prazos regulares e uma salutar rotatividade entre os que se sentam na cadeirinha. Um bom teste para uma democracia é ver se você tem o direito de não gostar do governo. E este anos nos tem mostrado que é mais fácil protestar nas “ditaduras” sanguinárias no que em certas democracias exangues.

Claro, também, que a morte de Muammar não foi um gesto bonito. Para um movimento que começou evocando Gandhi e Martin Luther King, com jovens vestindo jeans e cantando slogans quase flower power pelas ruas, a Revolução da Líbia terminou como uma guerra civil suja, comandada por gente com mais de trinta (não custa lembrar que em uma revolução de verdade os jovens não devem, nunca, confiar em alguém com mais de trinta [anos de carreira]) e com brutais batalhas e linchamentos que vão deixar cicatrizes por um longo tempo. Mais do que o mal feito ao Muammar, o episódio, entre outros anteriores, causou muito mal ao sofrido povo da Líbia. Não sei quem disse isso, mas se ninguém disse eu digo agora: você morre também a cada vez que mata alguém. Os tiros dados no Muammar (bem feito, canalha) atingem também a legitimidade da Revolução, que ficou parecendo uma bagunça sádica conduzida mais por vingança do que por sede de justiça. Não nego aos líbios o direito de quererem vingança. Todo mundo tem esse direito, especialmente quando se vive uma espécie de Lei da Selva. Mas a justiça sempre é mais bonita do que a vingança.

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