O Especialista em Helicópteros

Bateu o desespero na imprensa. Comprometida em bater no governo a todo custo, louca para ungir um político de oposição que derrube a situação, ela não hesita mais em nenhum tipo de manobra. Então, quando uma bomba atômica cai no colo de um de seus eleitos, fica evidente que o compromisso com a verdade, com a imparcialidade e com a notícia deixou de existir muito antes da virgindade da mãe do dono da revista. Afinal, não é mais possível esconder que o filho de um importante aliado do principal político de oposição hoje foi surpreendido pela apreensão de um helicóptero de sua propriedade traficando cocaína (daremos nomes aos bois aqui, "tráfico" é cognato de "tráfego", e, portanto, "levar drogas" é "traficar drogas"). E se não dá mais para esconder, o remédio é ironizar, é tentar achar furinhos por onde se possa inserir a dúvida, para que nada seja levado sério, tudo se esqueça, e esse pequeno detalhe seja varrido como pó para debaixo do tapete. E que imenso tapete vai ser preciso.

Esta semana o folclórico Reinaldo Azevedo resolveu pesquisar sobre helicópteros para tentar achar algo a dizer em defesa dos donos do "helipóptero". Sua pesquisa foi feita no lugar óbvio, o site do fabricante do modelo de helicóptero envolvido no caso. Sei disso porque achei o fabricante no Google e os dados conferem.

Com base no que achou lá, Tio Rei inventou uma estranha matemática para provar que o dito "helipóptero" jamais poderia ter transportado 445 kg de pasta base de coca. Afinal, matemática não se discute, não é?

Bem, matemática não existe. Números são apenas rótulos que damos a quantidades de coisas. Números nada significam em si mesmos, tanto quanto palavras não significam mais do que as próprias coisas a quem dão nomes. Se as palavras adquirem algum sentido extra material, e os números também, isto é uma espécie de misticismo que não se ampara nos fatos reais. E não estamos aqui discutindo filosofia, mas se um helicóptero voa ou não com 445kg de pasta base de coca.

Os números do Reinaldo devem ter sido retirados do site do fabricante. Se não foram, então os meus são melhores que os dele. A Robinson Helicopters dá os seguinte números ao seu modelo R-66:

  1. Peso Bruto Máximo: 1225 kg (dado fornecido corretamente pelo Reinaldo)
  2. Peso vazio aproximado (incluindo óleo e equipamentos padrão, informação que ele sonegou): 581 kg
  3. Tripulação: 1
  4. Capacidade: 5 (trata-se de um helicóptero de passageiros, ora pois)
  5. Combustível máximo: 224 kg (ok)
  6. Passageiros e bagagem com o combustível máximo: 420 kg (ok)

Quantidade de pessoas presas no voo: 2 (informação importante, anote isso). ISSO QUER DIZER QUE HAVIA TRÊS LUGARES VAZIOS. O próprio Reinaldo admite que o helicóptero estava "adaptado para cargas" (o que significa que ele não tinha os três assentos traseiros).

A carga máxima com bagagem considera 5 a bordo, não 2. Considerando 70 kg para cada pessoa (pilotos de aeronaves costumam ser levinhos) temos que o helicóptero teria uma capacidade restante de

1225 - 140 - 224 = 861 kg.

Nesses 861 kg temos que descontar 445 kg de cocaína e sobram 416 kg para a aeronave. Mas a aeronave pesa 581 kg. Estão faltando, portanto:

581 - 416 = 165 kg.

Se você vai transportar uma carga valiosíssima (como pasta base de coca) e tem três lugares sobrando, o que é mais racional fazer?

  1. Remover três assentos sem uso para levar mais carga
  2. Levar menos carga

Três assentos pesariam 165 kg? Facilmente. Esses assentos pesariam, cada um, no mínimo, 35 a 50 kg. Pois incluem bases de metal, forro, cinto de segurança, etc. No mínimo estamos falando de eliminar 100 a 120 kg. No mínimo. Podemos eliminar ainda mais se diminuirmos combustível. Se a autonomia do helicóptero é de 660 km e a maior distância percorrida foi, segundo o próprio Reinaldo, de 513 km, temos aí 150 km a menos. O próprio Tio Rei diz que 59 kg são suficientes para 173 km. Portanto, para 150 km precisamos de apenas 50 kg. Dos 165 kg que faltam, podemos reduzir 50 em combustível. E três assentos facilmente economizam 100 kg.

Agora a conta fechou para você?

Não, eu não sou mais inteligente que o Reinaldo Azevedo nem sou especialista em helipóptero.