Não Escreverei uma Elegia para Muammar

Muammar Khadafi (ou seja lá como se escreve) foi morto. Não chorarei por ele nenhuma lágrima de crocodilo. Nenhuma vela merece ser queimada por tal defunto. Acredito que é sempre uma alegria para a humanidade quando um ditador encontra seu destino “nos braços do povo”, tristeza é quando um monstro desses rende o espírito confortavelmente deitado em uma cama, ao lado da família e assistido por um doutor. O mundo precisa que mais ditadores acertem as contas com o povo, exemplos deprimentes como Idi Amin Dadá (que ganhou um exílio de luxo na Arábia Saudita, com suas várias esposas e os milhões que roubou da miserável Uganda) ou Francisco Franco (que recebeu extrema unção da Santa Madre Igreja e teve luto nacional decretado) tornam o mundo um lugar pior. Ditador não pode morrer de morte morrida, mas de morte matada.

Espanta-me que certas pessoas, entre elas a Excelentíssima Senhora Presidente de nossa República, encontrem uma tortuosa maneira de lamentar que tenham esticado as canelas do Muammar (vou chamá-lo assim por uma questão de praticidade, aproveitando que não lhe devo respeito algum): “isso não significa que a gente comemore a morte de qualquer líder que seja”, diz a Senhora Rousseff, que teve o meu voto útil, mas não tem o meu apoio quanto a esta declaração. Teria Dilma empregado as mesmas palavras em reação ao espancamento (seguido de enforcamento) de Benito Mussolini pelos partigiani em 1945? Teria ela reservado esta simpatia para o vampiro Nicolae Ceausescu, julgado e executado ao vivo na TV pelo povo da Romênia? Por uma questão de coerência, sim.

Ver matarem um ditador sanguinário, que ordena que sua Força Aérea ataque com metralhadoras antitanque uma manifestação do povo, não é algo que se deva lamentar. É um bom exemplo para a humanidade que massacrem o Muammar, joguem pedra no Muammar. Muammar é a Geni desse mundo onde ninguém ousa tacar pedra nos grandes ditadores. Chutar cachorro de rua é mais fácil do que desafiar o pitbull do pitboy filho do empresário milionário. Vocês, que estão lamentando, gostariam que o Brasil tivesse dado asilo a Muammar? O que estariam dizendo da Dilma se ela abrisse as portas de uma mansão no Lago Sul para receber o sujeito? Muammar morreu, antes ele do que eu. Muammar se fodeu, e mereceu.

Claro que isto, porém, não significa que a morte do Muammar resolve todos os problemas da humanidade. Ainda tem muita ditadura por aí, algumas bem disfarçadas por eleições a prazos regulares e uma salutar rotatividade entre os que se sentam na cadeirinha. Um bom teste para uma democracia é ver se você tem o direito de não gostar do governo. E este anos nos tem mostrado que é mais fácil protestar nas “ditaduras” sanguinárias no que em certas democracias exangues.

Claro, também, que a morte de Muammar não foi um gesto bonito. Para um movimento que começou evocando Gandhi e Martin Luther King, com jovens vestindo jeans e cantando slogans quase flower power pelas ruas, a Revolução da Líbia terminou como uma guerra civil suja, comandada por gente com mais de trinta (não custa lembrar que em uma revolução de verdade os jovens não devem, nunca, confiar em alguém com mais de trinta [anos de carreira]) e com brutais batalhas e linchamentos que vão deixar cicatrizes por um longo tempo. Mais do que o mal feito ao Muammar, o episódio, entre outros anteriores, causou muito mal ao sofrido povo da Líbia. Não sei quem disse isso, mas se ninguém disse eu digo agora: você morre também a cada vez que mata alguém. Os tiros dados no Muammar (bem feito, canalha) atingem também a legitimidade da Revolução, que ficou parecendo uma bagunça sádica conduzida mais por vingança do que por sede de justiça. Não nego aos líbios o direito de quererem vingança. Todo mundo tem esse direito, especialmente quando se vive uma espécie de Lei da Selva. Mas a justiça sempre é mais bonita do que a vingança.

Relativismo no … dos outros é refresco

Comentário a postagem do blog do Paulo Roberto Lopes.


A questão dos costumes tribais dos povos ditos “primitivos” é um dos temas mais espinhosos com que nos deparamos. Os espinhos a que me refiro estão ligados às contradições de nossa cultura dita “civilizada” e à maneira como ela encara as demais culturas do mundo.

Durante muito tempo os “africanos”, os “muçulmanos”, os “orientais” e os “aborígines” foram vistos como seres de segunda ou de terceira classe na humanidade, pessoas às quais não se aplicavam, pelo menos não integralmente, os valores do ocidente. A raiz do relativismo cultural se nutre, e muito, da continuidade de tal preconceito. Até há poucos anos, por exemplo, a voz corrente da “intelligentsia” internacional era de que os “povos muçulmanos” não teriam qualquer apreço pela democracia, com a qual o Islã seria incompatível. Os recentes movimentos nos países do Norte da África e do Oriente Médio deveriam ter envergonhado essa gente distinta que acha que tem a régua para medir a cultura alheia. Mas eles são ensebados e espertos e encontrarão uma maneira de continuar com credibilidade. Basta sacrificar os nomes proeminentes, como fizeram com Francis Fukuyama, o profeta do “fim da História” e arauto do consenso de Washington.

Dizer que o relativismo é preconceituoso é quase um acinte ao senso comum, porque a maioria de nós está em um contexto ideológico baseado na repetição ad nauseam de que o respeito às diferenças é uma forma de superação do preconceito. A afirmação insistente desta ideologia a transforma em um pseudo paradigma e nos faz admitir, sem raciocínio crítico, que a única maneira de respeitar alguém é aceitando-o como um pacote fechado, sem fazer interferências. Isto é monstruoso no aspecto ético, e é uma falácia lógica que não resiste a uma reflexão. Mas reflexão é justamente o que está proibido fazer sobre o tema: não há nenhuma receptividade a ideias que contradigam o pseudo consenso do relativismo. A antropologia, por exemplo, é uma ciência que hoje se funda firmemente nisto. Tal como os zoológicos se fundam na existência de animais em jaulas, a antropologia se funda em manter cada povo em sua jaula cultural particular.

A ideia de que as diferentes culturas devem ser aceitas como tais se baseia na noção de que todos os componentes de todas as culturas são construções sociais baseadas na tradição. O que o relativismo enfatiza é que a nossa própria cultura não é privilegiada como régua para medir as outras porque também os nossos valores são resultado de construções culturais. Em tese é uma afirmativa justa, porque de fato o hábito de usarmos calças enquanto os árabes usam vestidos é algo indiferente sob todos os aspectos, inclusive funcionais e estéticos. Porém, se sairmos do âmbito de vestidos e calçados e partirmos para valores e instituições políticas o relativismo perde sua justiça, porque os valores e instituições ditos “ocidentais” não o são de fato.

Os valores e instituições sociopolíticos predominantes no mundo moderno não são “ocidentais”, ainda que o dito Ocidente tenha dado significativa contribuição ao seu desenvolvimento. Não são restritos a uma cultura em particular, não se originam de uma tradição única, não são praticados em um âmbito geográfico limitado. Por terem origens mistas, longa história milenar e por terem sido com sucesso relativo aceitos por povos de diversas partes do mundo esses valores se mostraram superiores. Valores e instituições são tecnologias. Tecnologias sociais. A democracia representativa é uma tecnologia social, por exemplo. Sua aplicação com sucesso em contextos nos quais ela era estranha demonstra que ela não é meramente o “jeito ocidental” de governar, ainda que inventada pelo ocidente. O sucesso da democracia em lugares como a Índia (onde ela se desenvolve, mesmo que aos trancos e barrancos, desde 1950) é uma prova de que ela é uma tecnologia útil.

Um povo adotar valores de outro não é moralmente errado. Ninguém achou que os ingleses ficaram culturalmente descaracterizados quando adotaram as técnicas chinesas de porcelana e ninguém reclamou que os italianos aprendessem com os chineses a fazer macarrão. Os indianos não estão minimamente tristes por terem aprendido o conceito de democracia com os ingleses. Aliás, eles estão felizes até de terem aprendido a própria língua inglesa, que lhes permite ter um governo funcional e neutro em um país retalhado em mais de 1600 culturas.

As culturas não são bichos empalhados, que não mais se reproduzirão e nem interagem com o ambiente. Culturas são vivas. Elas se perpetuam, interagem com o meio, modificam-se, modificam ao meio em que vivem. Mudar faz parte da força de uma cultura. Querer preservar in vitro uma cultura, sem permitir que ela evolua interagindo com o meio em que existe é condená-la a uma forma de “empalhamento”.

Se queremos preservar as culturas indígenas, é preciso permitir que elas evoluam. Esta evolução é inevitável. Se os ritos intoleráveis permanecerem, os jovens quererão fugir ou crescerão com ódio da própria cultura. Nenhuma das circunstâncias favorecerá a conservação da cultura indígena. Não se preserva a cultura matando o índio e nem torturando-o.

Se aplicássemos esses conceitos relativistas toscos à nossa própria cultura “ocidental” (que aos olhos dos relativistas parece ser a única que tem o privilégio de estar livre para evoluir), ainda teríamos que estar fazendo coisas como enclausurar perpetuamente em conventos as moças que perdessem a virgindade antes de casar, ainda teríamos que passar a quaresma sem comer carne e a sexta feira da paixão sem sequer tomar água, ainda teríamos que considerar os canhotos como endemoninhados ou que marcar a ferro os criminosos.

Todos esses costumes foram abandonados (bem como inúmeros outros) porque se tornaram incompatíveis com a progressiva evolução de nossa ética social. Alguns eram meras superstições, outros derivavam de uma sociedade rigidamente patriarcal, outros eram devidos à falta de um sistema legal eficaz. Tudo isso mudou à medida em que nossa vida melhorou.

Com que argumentos lógicos podemos querer que os índios continuem submetidos a tais rituais? Como considerar perigosos esses jovens que não desejam perpetuar tais crueldades? Estaremos dizendo que os homens que no passado se levantaram contra as práticas crueis de nossa cultura eram igualmente perigosos? Estaremos sugerindo, por exemplo, que o marinheiro João Cândido, líder da rebelião contra o castigo da chibata na marinha brasileira, era um homem “perigoso” e que tal costume “enraizado em nossa cultura” desde o século XVII e herdado de Portugal desde o século XV, deveria ter continuado?

Tropa de Elite: A Mitificação como Arma de Guerra

Durante décadas o Brasil assistiu ao surgimento e ao crescimento do poder paralelo do tráfico no Rio de Janeiro, à sombra de um coquetel de incompetência, indiferença e conveniência. Causas que me esquivo de analisar a fundo, mas que os cariocas certamente entendem bem melhor do que eu, que olho de fora e com apenas solidariedade. A derrocada deste poder paraestatal que pareceu, em certo momento, triunfar sobre o Estado — sentimento magistralmente expresso pelo gaiato que certa vez declarou que «o crime organizado triunfa sobre o governo desorganizado» — deu-se no entanto, na esteira de um curioso fenômeno sociológico que quase ninguém ainda percebeu. Do que estou falando? Bem, «tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você».

Tudo começou quando o crime organizado rompeu o acordo tácito que sempre teve com a imprensa sensacionalista: «nós fazemos a notícia, vocês fazem o noticiário». A morte de Tim Lopes sinalizou que os líderes do narcoestado em gestação haviam começado a perceber na imprensa uma fonte de problemas, não mais uma aliada. Se antes os repórteres construíam as reputações de «malvadões» — de que tanto gostavam os jovens semianalfabetos e descalços que se alçavam ao poder propelidos pelo vício das classes superiores — agora ela passava a incomodar, à medida em que expunha os excessos a que os baronetes do tóxico haviam chegado, em sua ditadura sobre as vidas dos habitantes das localidades onde haviam se instalado. Tim Lopes morreu para mostrar que a favela não era um lugar pitoresco — ao contrário do que décadas de políticos conciliadores e ONGs escorregadias tentaram fazer ver.

Mais importante do que tudo: Tim Lopes era empregado de um Leviatã midiático bem musculoso, embora ferido, as Organizações Globo. Sua morte coincidiu com a derrocada definitiva da televisão aberta no Brasil, destinada desde já a transformar-se cada vez mais num monturo fétido de sobras. A Rede Globo de Televisão, cabeça deste império, precisava buscar outras frentes de expansão para precaver-se contra a iminente e inevitável decadência de suas receitas de publicidade oriundas deste veículo. Neste contexto, a exploração de novos mercados midiáticos já era uma realidade, mas faltava à Globo obter o impacto necessário para fincar bandeira.

Ao mesmo tempo, a política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro dava sinais de agonizar: nada parecia funcionar, nada parecia adiantar. Nesse cenário de desespero, em que todos pareciam desorientados, especialmente os pobres diabos que conviviam com loucos toxicômanos tarados armados de AR-15 na vizinhança, era absolutamente imperioso encontrar um herói. Melhor ainda se este herói, bem na tradição do herói brasileiro, não fosse um self-made man ou um cavaleiro solitário, mas um líder — algo de que tanto carece esse país.

Com a colaboração dos melhores cérebros que o dinheiro pode contratar, com atores globais em profusão, aproveitados da geladeira obrigatória por que passam para evitar desgaste de imagem, eis que surge «Tropa de Elite», o filme que transforma o antes pouco conhecido Batalhão de Operações Especiais da polícia fluminense em um fenômeno de mídia inusitado e inédito. «Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você». A mensagem é dirigida ao traficante, e tem a intenção de profecia: um dia a casa vai cair e vai ser o caveira que vai dizer «perdeu, playboy» para o traficante descalço e sem camisa, cuja prisão emblemática funciona quase como símbolo heráldico da luta de classes, como expressão caricatural da subjugação do povo pela elite, quando incomodada.

Criado o mito do BOPE como reserva incorruptível dos valores da «boa polícia» e fixada a imagem do Capitão Nascimento como verdadeiro super-herói brasileiro, a Rede Globo entregou, de bandeja, nas mãos de um dos poucos governadores competentes que o Rio de Janeiro já teve desde que me entendo por gente, um cartucho de legitimidade para as forças da ordem, uma potência que poderia ser usada para terraplenar o crime organizado sem necessidade de ser politicamente correto. O povo carioca queria sangue, estava cansado de dar o próprio sangue e exigia o sangue dos bandidos (mas urina nas calças também serviria).

Não é necessário entrar nos detalhes de cada ato ou de cada política que foi levada a efeito no Rio de Janeiro desde que o primeiro Tropa de Elite invadiu a cultura de massas com sua mensagem clara de que, para o carioca e para o brasileiro, já bastava, já havia bastado há muito tempo, já havia bastado há muito tempo mesmo, só faltava os políticos, esses eternos maridos traídos, finalmente conseguirem enxergar, antes que dessem com a verdade como quem dá com o nariz na parede. O plano para matar Brizola, que aparece nessa história, não é detalhe desimportante: ele significa que é necessário matar o legado do caudilho gaúcho que introduziu a política de tolerância com a favela.

Quando Tropa de Elite saiu, alguns articulistas ventilaram na imprensa que o filme tinha uma mensagem fascista. Possivelmente. Mas poucos articulistas ventilaram que o crime organizado que se estabelecia em pseudoestado impunha, também, um totalitarismo manco.

Por isso Tropa de Elite 2 foi além do livro e colocou o Capitão Nascimento, já grisalho, tentando executar, através da política, o que não pudera executar com um fuzil na mão. Mas o poder do crime subornava deputados, juízes e sabe deus quem mais. Com o sucesso ainda maior, do segundo filme, ficou bem claro que todos que ventilassem qualquer coisa contra a arremetida inevitável contra o crime só poderiam estar mancomunados. Todos precisavam aplaudir, mesmo que tivessem as mãos sujas de sangue e o nariz entupido de cocaína.

Então, quando enfim, com apoio de blindados e bazucas, de marinha e de exército e de aeronáutica, o BOPE subiu a favela deixando atrás de si as crianças (em sua inocência) cantando o poderoso refrão, não foi inesperado que os «machos» do crime mijassem nas calças. Imaginar que dois mil homens treinados para matar estão subindo o morro atrás de você e que cada vizinho ou conhecido, de oito a oitenta anos, está com o dedo pronto para apontar seu esconderijo deve ser uma das coisas mais desesperadoras que se possa conceber. Tanto assim que o líder do Afro-Reggae chegou a declarar à imprensa que muitos chefões do tráfico estariam dispostos a render-se, que sabiam que pegariam «cana longa», alguns sabiam que até seriam mortos, mas eles pediam apenas que não fossem humilhados. Os facínoras se renderiam, até se entregariam à morte, diante de apenas a promessa de uma réstia de dignidade. Nenhum queria terminar como o Zeu, descalço e seminu, com as calças molhadas da própria urina e um olhar perdido, endurecido de medo, levado morro abaixo por um PM grisalho que tinha idade para ser seu pai. Em algum momento aquele jovem deve ter pensado na figura do próprio progenitor, de cita à mão, pronto para marcar suas nádegas de rebelde.

E assim a Rede Globo inspirou, guiu e cobriu um episódio quase orwelliano. Em que pese a necessidade de se destruir o crime, de se pacificar a cidade, de se destronar a ditadura do tóxico; é também verdade que esta destruição foi mais em efígie do que em fato, que ela foi preparada como espetáculo politicamente correto e funciona como exemplo do poder que Rede Globo ainda tem, apesar do sonho fútil de grandeza a que a Record aspira apenas. A Globo mostrou que tem o poder de produzir mais do que bordões de novela: ela produziu um mito que funcionou como instrumento de um fato histórico. Algum dia os historiadores se referirão a este ano de 2010 como o ano no qual um império midiático, ofendido em sua honra pela ousadia de matarem um protegido seu, orquestrou fria e meticulosamente, um fenômeno de massas de grande envergadura que terminou em uma cobertura jornalística de um fato real (embora transcrito da ficção).

E ficou o bordão, como um mantra a ameaçar doravante os que ousarem tentar criar outro pseudoestado ou que se opuserem à clara hegemonia cultural de que se fala: «Tropa de Elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você.»

MEC Fornece Pornografia às Escolas

Os pedagogos do MEC, responsáveis pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (esta peça de humor pastelão que rebatizou o ensino de português como «Linguagens, Códigos e Suas Tecnologias») acharam que não seria apropriado que a obra «Caçadas de Pedrinho», de Monteiro Lobato, um clássico de nossa literatura, fosse distribuída às bibliotecas de nossas escolas públicas, afinal existem nela resíduos de racismo que podem traumatizar as crianças negras ou tornar em potenciais hitlers todas as demais.

No entanto, segundo tive o desprazer de ver hoje no telejornal matutino da Rede Record, o critério para considerar impróprio o livro de Lobato parece muito mais vago do que inicialmente parecia — e ele já parecia muito vago.

O caso é que ao mesmo tempo em que pretendeu censurar um clássico da literatura por conter trechos potencialmente racistas, o MEC não viu problema algum em distribuir a mais de quarenta mil escolas do Brasil a tradução portuguesa de um mangá de Kazuichi Hanawa intitulado «Na Prisão».

A escolha do tema já é, por si só, preocupante. Em vez de pretender ensinar conteúdos positivos para os jovens, o MEC achou que seria interessante que eles aprendessem sobre como é a vida em uma prisão japonesa. Mas me abstenho de imaginar razões para a escolha do tema e me restrinjo a tentar compreender como ou porque esta obra em especial foi aceita.

Porque Kazuichi Hanawa não a escreveu para crianças em idade escolar — e sim para adultos. No Japão o consumo de mangá e animê pelos adultos é pelo menos tão grande quanto para crianças. A temática da obra em questão não é nada «infantil»: trata-se do retrato da cruel rotina de uma prisão, na qual o protagonista encontra todo tipo de gente e ouve todo tipo de histórias — inclusive histórias que envolvem crimes sexuais (hetero e homo), uso de drogas (até injetáveis), tortura (física e mental), nudez representação gráfica de órgãos e atos sexuais (como estupro, masturbação e outras coisas).

Ressalva: como não li a obra, estou deduzindo tudo isto a partir das imagens que foram exibidas pelo telejornal e pelas descrições da obra que encontro na Internet. Mas adoraria que quem tenha lido me envie mais detalhes.

Tudo isso pode ser aceitável (e o é) numa obra voltada para um público adulto, devidamente distribuída de forma discreta e contendo na capa alerta sobre o conteúdo inapropriado. Mas como algum pedagogo resolveu achar que uma obra de conteúdo tão pesado seria apropriada para crianças que já enfrentam tanto conteúdo impróprio no mundo?

Eu ainda achava tolerável quando a obra do MEC era caracterizada apenas pela incompetência (que tantas vezes levou este órgãos a escolher os piores livros didáticos possíveis) e pelo descaso (expresso no sorridente diagnóstico de que «a educação neste país já está bem encaminhada»); mas agora tudo tomou proporções totalmente diferentes: já não se trata apenas de incompetência e de descaso, deve haver alguém deliberadamente sabotando a educação no Brasil — ou então a corrupção e a inépcia dos funcionários do MEC atingiu níveis nos quais já não seriam capazes de diferenciar entre a própria bunda e uma melancia.

Referências:

  1. Link para a reportagem no portal R7: http://noticias.r7.com/videos/escola-estadual-de-porto-alegre-rs-disponibiliza-livro-improprio-para-criancas/idmedia/9c6ccd8b5bc9f7354564c68bfd6c24f7.html
  2. Prova de que o livro foi distribuído pelo MEC: http://www.fomezero.gov.br/noticias/escolas-publicas-recebem-historias-em-quadrinhos

Agradeço quem puder contribuir scans das páginas desta história, ESPECIALMENTE scans da edição distribuída pelo MEC, que contém o selo do PNBE na capa.

Em Defesa de Mayara

Mayara vocês sabem quem é. Não preciso dizer e nem ousaria. Ocuparia muito espaço com um assunto que me enjoa e enoja.

Mas, tendo dito que o assunto me enjoa e enoja, creio que já posso ir além do que todos dizem e tentar dizer algo diferente. Esta história já passou do ponto e está mais do que na hora de deixar a garota em paz!

Claro que ela disse uma coisa terrível, claro que ela cometeu uma ofensa fenomenal e certamente as consequências lhe ensinaram uma preciosa lição: a necessidade de ser comedido no que diz, seja lá o que for que diga, mas especialmente se for para dizer uma besteira. Besteiras menores geram menores consequências. Se você vai falar merda, tente que seja pouca.

Acontece que o caso já repercutiu demais. A menina está se sentindo acuada em casa, a ponto de nem poder sair na rua. Isto por ter dito algo que é meramente um crime de opinião. Por favor, pessoas aí que me leiam. Ela não matou nem estuprou ninguém, apenas disse algo que não devia ter dito.

Que a processem, que a façam pagar multa, que a façam alcançar a compreensão de seu erro de alguma forma, mas vamos parar de linchamento moral.

O que está sendo feito com ela já passou a ser calhordice. Ninguém é tão bonzinho assim, ninguém é tão isento de preconceitos, ninguém é tão perfeito a ponto de poder se julgar tão melhor do que Mayara. O que está acontecendo com ela é uma catarse, só isso. Pessoas que também são preconceituosas mas não têm coragem de declarar-se escolheram essa menina para bode expiatório. Nesse imenso e preconceituoso país há muitos que acham mais fácil participar da malhação de um judas que personifica o próprio lado escuro do que remover de si a mancha do erro e do preconceito.

Mayara é uma boba, pode até ser uma criminosa, mas as consequências que está enfrentando já vão além da medida, já se tornaram injustas pelo excesso. O excesso em resposta a um erro não contribui para nada de positivo: Mayara não está aprendendo a reconhecer o seu erro, mas apenas que a opinião da maioria é capaz de oprimir e de fazer sofrer quando você diz algo que não agrada ao grande público. Esta é a lição errada: não é isso que devíamos ensinar.

Mayara precisa de aprender a ver o mundo com olhos menos agressivos e menos egoístas. Mas quando o mundo a olha de forma agressiva e calhorda, transferindo para ela a culpa coletiva de uma sociedade na qual tantas formas de preconceito ainda coexistem, o que estará aprendendo?

Eu não concordo com o que ela disse. Mas nesse momento eu já acho que devo me solidarizar com ela. Porque ela já se tornou a oprimida nesta história.

[Auto] Censura Prévia

Estou aqui com dois ótimos contos, em fase quase de conclusão. Mas estou com receios de postá-los neste blogue. Na fase atual em que me encontro, buscando atenção e uma editora, talvez fosse interessante postar aqui alguma coisa polêmica (e nada polemiza tanto quanto falar de religião, visto que vivemos uma fase de aguçamento das sensibilidades religiosas nesse país). Porém ainda estou em dúvida se estou disposto a pagar o preço de obter tal atenção.

Um dos textos em questão, chamado «Jó e Jeová», nada mais é do uma narrativa em estilo sóbrio e seco dos episódios envolvendo os dois personagens em questão. A história é desenvolvida de forma bem próxima ao texto original, sem procurar adicionar nenhum personagem ou episódio — a não ser um pequeno desvio da trama, para enriquecer o personagem Satanás e dar mais vivacidade ao seu diálogo com Jeová. Temo, porém, que os cristãos e judeus não estejam preparados para ver a história de Jó contada numa linguagem chã e linear, como estou fazendo.

O outro texto é um conto pós-apocalíptico. Literalmente. Uma história que procura imaginar como seria viver na «Nova Jerusalém» descrita no Apocalipse. Esse é certamente mais herético, porque vai além do texto da Bíblia. Esse é o que mais me preocupa. Principalmente porque, em vez de um ateísmo marxistão e simplório, ele tergiversa com misticismos vários, Dante Aligheri e algumas doses homeopáticas de bom senso (para obter efeito contrário, como sói acontecer na homeopatia).

Ocorre auto-censura quando, mesmo não havendo leis que proíbam ou dificultem a produção ou divulgação de certos conteúdos, os autores se sentem desconfortáveis, «desconvidados» a produzi-los e divulgados por receio das consequências difusas que podem advir de sua publicidade. Este sentimento começou quando comecei a postar no meu antigo blog um texto argumentando contra a razoabilidade da crença em revelações divinas. Como o texto começava dissecando as afirmações de Maomé a respeito do Alcorão, recebi uma enxurrada de email enviado por muçulmanos. Alguns educadamente dizendo que eu estava errado e que eles oravam para que eu encontrasse a verdade, tal como os cristãos educados fazem. Outros não eram tão polidos e partiam para ameaças de diversos tipos. Um deles, por exemplo, fez questão de me lembrar que, segundo a teologia islâmica, todos somos criados «muçulmanos» e os que não se submetem de fato vivem em rebeldia contra o seu estado natural, de forma que um clérigo mais radical pode acusar qualquer um de apostasia, mesmo o suposto apóstata nunca tendo declamado a shahadda.

Quando isso aconteceu eu fiquei muito revoltado porque eu não podia aceitar que em um país livre eu tivesse constrangida a minha liberdade de expressão. Depois eu amadureci, com o tempo, à medida em que fui encontrando outras manifestações de intolerância, como os neonazis que descobriram o meu telefone e ameaçaram a minha família porque eu os ridicularizei em um debate sobre o nazismo em uma comunidade do Orkut, ou como os cristãos que disseram que enviariam mensagens ao meu empregador denunciando meu comportamento como contrário aos interesses da instituição. Estes fatos me mostraram que, de fato, não estamos em um país livre, pois não há liberdade onde não há garantia de justiça e, pior, não adianta garantia de justiça quando lidamos com fanáticos que não ligam para as consequências. Como o assassino de Theo van Gogh, que não se importaria nem mesmo de ser executado, pois crê ter prestado um serviço a Deus e cumprido em vida uma missão que é mais importante do que a vida que poderia viver se não a tivesse cumprido.

Estas coisas nos mostram que, de fato, o espírito livre está o tempo todo comprimido, a cotoveladas, pela multidão que pensa em contrário. E isso nos leva à auto-censura, pelo menos enquanto, como no meu caso, não temos poder econômico suficiente para resistir a um processo cível, que uma maneira de punir uma pessoa que não cometeu crime, forçando a gastar dinheiro em uma defesa, ou para contratar guarda-costas.

Por causa desta sensação de insegurança em que vivo, e da imagem pública que preciso cultivar em função de meu emprego, eu desisto de publicar certos textos mais polêmicos e vou postando inofensivos poeminhas e continhos mais contidos. Um dia, se virar best-seller, terei coisas mais polêmicas para postar.

Os Remadores de Ben-Hur

Uma colega que recentemente conclui um MBA por um consórcio de empresas e universidades públicas nos relatou uma história interessante. Disse que, durante uma aula presencial, um dos instrutores do curso teria dito que as coisas que ensinava eram úteis para gerentes, talvez para assistentes de negócios, e para o resto nem valia a pena dizer, afinal, segundo ele, caixas e escriturários “não valem nada mesmo”.

Cabe alguma dúvida se as palavras da colega transmitiram corretamente o ocorrido, se as palavras empregadas pelo instrutor foram exatamente essas, ou mesmo parecidas, no entanto, é certo que algo mais ou menos assim foi dito, e que o raciocínio expresso por essa história vale a pena ser analisado.

Trata-se de uma lógica que, se de fato saiu da boca de um profissional de ensino, especialmente em um curso nível MBA, reflete total dissonância em relação às modernas técnicas gerenciais, expressa um preconceito arcaico, do tipo que persiste nos subterrâneos mais atrasados da mentalidade do Brasil profundo. Seu cultivo, em um meio acadêmico relacionado à instituições e empresas públicas, trai uma preocupante tendência elitista e vai de encontro justamente ao tipo de imagem e de relacionamento funcional que as empresas modernas têm procurado divulgar entre seus funcionários e junto ao mercado.

Vou contar uma história, verdadeira até o último acento do penúltimo i, apenas ocultando os nomes dos participantes, com a ressalva de que o narrador foi testemunha ocular dos fatos e sentiu na pele os efeitos do que passa a relatar.

Havia certo banco em nosso país que não realizava concursos para admissão de quadros. Todos os seus funcionários eram empregados por indicação de clientes, políticos influentes, membros de escalões superiores de gerência e administração, etc.

Tal situação resultava em constrangimentos de diversos tipos para os empregados, principalmente considerando que a estrutura desse banco não favorecia a mobilidade horizontal e nem havia tal cultura no corpo funcional. Assim, os funcionários ficavam reféns das relações extra-banco que os haviam indicado.

Os que eram admitidos por indicação de clientes permaneciam ligados a estes clientes que, inclusive, freqüentemente os procuravam para fazer negócios, contando com sua cooperação. Havia até clientes, especialmente grandes empresas, que indicavam funcionários para postos no banco justamente contando em cultivar um canal privilegiado de relacionamento.

Os que eram admitidos por políticos ou por diretores não tinham essa dependência externa, mas em compensação, ficavam constantemente submetidos à tutela de seus patronos, sendo às vezes coagidos a fazer coisas que eram contra seus princípios porque eram os “homens de confiança” dos escalões superiores.

E havia, é claro, funcionários que eram recrutados sem mais delongas para suprir os quadros das agências e dos órgãos de direção. Estes geralmente, mas nem sempre, eram indicados por clientes ou pelos próprios funcionários ou então através de empresas de seleção e recrutamento.

O que importa, para nossa história, é que havia nitidamente duas classes de funcionários nesse banco, talvez fosse melhor dizer até que havia duas castas.

A primeira classe era constituída pelos funcionários indicados por grandes clientes ou políticos influentes e que eram, quase sempre, admitidos diretamente como chefes de seção, gerentes de contas ou até gerentes de agência. Normalmente eram admitidos sem concurso ou prova de competência. Ouvi dizer até do caso de um funcionário indicado por político que teve curso de alfabetização e supletivo de segundo grau custeados pelo banco para que pudesse assumir, mas admito que essa história é incrível e só pode ser um exagero de quem contou.

A segunda classe era constituída pelos funcionários admitidos nas agências, sem indicações poderosas “por trás” de si. Eram geralmente admitidos através de um processo rudimentar de seleção que, embora atestasse os conhecimentos exigidos, não era transparente e nem democrático.

Havia também uma casta intermediária, constituída por pessoal gabaritado que exercia funções técnicas de importância-chave, mas essa era pequena, cuidadosamente “controlada” e não vem ao nosso caso.

Essa divisão resultava em uma tensão permanentes nas agências entre os funcionários com indicação “forte”, que se portavam como uma “casta” superior, devidamente segregada (em termos de relacionamento) e com costumes e rituais próprios, e os demais funcionários, vistos como meros executores.

Era uma divisão que se refletia em todos os aspectos. Apenas os comissionados, que na ampla maioria dos casos eram de indicação política, eram estimulados a usar roupa social e gravata: os demais eram encorajados a usar uniforme ou roupa casual (jeans/camiseta). Eram os primeiros que podiam participar de reuniões com os grandes clientes, os demais ficavam alijados dos processos de negociação e não tinham como aprender — embora mais tarde lhes fosse pedido que passassem a participar do esforço de vendas, esta exigência funcionava mais como um instrumento para humilhá-los, demonstrando o quanto eles eram incompetentes, do que como uma oportunidade de participação na construção do resultado da empresa. Somente os primeiros podiam, em nome do banco, participar de eventos sociais, os segundos, em alguns casos, eram até proibidos de ir, dependendo da natureza do evento e da relação do banco com os organizadores.

As indicações para os cargos comissionados “subalternos” (caixa executivo, escriturário-caixa, tesoureiro, chefe-de-setor, contabilista, cadastrador, fiscal, corretor de seguros, secretário da gerência, etc.) eram ao arbítrio do gerente da agência e funcionavam como “moeda de troca” para enfatizar as relações de subserviência. Geralmente as indicações eram para os funcionários que mantinham bom relacionamento com a “casta superior”, cuja personalidade era “obediente” e que tinham facilidade para transmitir aos seus subalternos as ordens de cima, isso quando as indicações não eram, também, por resultado de indicações políticas.

Os cargos mais cobiçados (gerente de negócios, gerente de contas, gerente de agência, e outros mais acima) não estavam ao alcance dos funcionários da “linha de frente” de atendimento, pois dependiam do “QI” do candidato (quem o indicava) e do domínio de conhecimentos que não podiam ser aprendidos por quem não participasse dos círculos de poder devido ao restrito “clube” em que eram organizados os negócios e a administração.

Havia em nossa agência um colega, logo celebrizado por seu humor amargo e pelas suas frases de efeito, que cunhou expressões definitivas para descrever a realidade em que vivíamos (hoje esse colega tem uma outra carreira e nem gosta de lembrar dos anos em que foi bancário).

Uma de suas primeiras tiradas foi comparar a agência ao “barco de Ben-Hur”. Os que já assistiram ao filme devem se lembrar da cena: os escravos eram acorrentados aos seus bancos (postos de trabalho), do qual não podiam sair nem para tomar água (havia um feitor que, a intervalos regulares, passava oferecendo água) e nem para ir ao banheiro (havia latrinas sob os bancos e um escravo encarregado de recolhê-las, também regularmente).

Todos ficavam o tempo todo a remar, sem ver para onde ia o barco, mantendo apenas a esperança de que os pilotos não o embicassem em um rochedo ou não estivessem se dirigindo para uma guerra ou uma região infestada de piratas. Remavam todos no mesmo ritmo, pois havia um feitor, ao fundo do barco, que incessantemente tocava um tambor em um ritmo monótono, ditando a sucessão de remadas segundo a necessidade imposta pelo comandante. Havia também feitores que circulavam continuamente por entre as fileiras de remos distribuindo chibatadas em quem estivesse remando com menos vigor ou em quem eles resolvessem chicotear, ainda que sem motivo, pois o feitor precisa manter os escravos obedientes através do medo, e nada dá tanto medo quanto uma agressão gratuita.

Os remadores não tinham nenhuma esperança: todos eram sentenciados à morte cuja pena fora comutada para o trabalho nas galés (como os tais navios a remo eram chamados) e, portanto, a única saída de sua situação miserável era a morte por exaustão, no naufrágio do barco ou, pior, por serem atirados ao mar pelos feitores quando julgassem que algum escravo estava imprestável para o serviço (devido a doença ou qualquer motivo). O remador seria remador até exaurir suas forças ou ser morto em algum infortúnio. Por melhor remador que fosse, não chegaria nunca a ser outra coisa que não remador e por mais forte e melhor que remasse, sua eficiência não resultava em nenhum ganho para si, pois o barco, civil ou de guerra, seguia um destino que lhe era alheio. Pior ainda, mesmo que fosse excelente remador, sua remada seria nivelada pelos esforços dos outros que, com ele, compartilhavam o peso do mesmo remo. E mais, por mais forte que fosse, seu ritmo de remar deveria seguir a batida do tambor.

No princípio ser jogado ao mar ainda era uma esperança de fuga, já que sempre havia a possibilidade de que o infeliz conseguisse nadar e fosse resgatado por um barco pirata ou então fosse levado pelas ondas até alguma ilha ou praia remota. Mais tarde quando os primeiros casos foram descobertos, os capitães passaram a ser instruídos para degolar primeiro os que fossem ser atirados ao mar.

Trabalhar em uma empresa onde coexistem um sistema de indicações que não contempla o mérito e um organograma centralizador e autoritário é apenas marginalmente melhor que remar no barco de Ben-Hur. É verdade que a chibata é normalmente apenas metafórica, mas o que dói na alma não é menos dolorido do que o que atinge o corpo. É verdade também que os chefes não têm poder de vida e morte sobre os empregados, mas podem coagi-los a trabalhar além de suas forças, ameaçando sua integridade física, ou a assumir riscos demais, jogando com suas vidas, reputações ou estabilidade financeira. E por fim, é verdade que ocasionalmente algum “remador” pode vir a se tornar “feitor”, mas uma vez que o cargo de feitor é, por sua vez, um outro beco-sem-saída, as oportunidades são raras pois apenas a morte ou um desastre que resulte em demissão pode abrir outra oportunidade de nomeação.

Portanto quando surgem comentários depreciativos quanto aos funcionários que labutam na linha de frente das agências estes devem ser vistos como verdadeiramente são: como reflexos de uma época que teima em não acabar, como fósseis dos vícios seculares de coronelismo, do corporativismo e do aparelhamento do Estado por grupos de interesses. Trata-se de um elitismo que dá as costas ao discurso de igualdade de oportunidades que hoje se propaga e demonstra que, para algumas pessoas, as oportunidades que a vida lhes proporcionou não são chances de mostrar seu merecimento, mas apenas um pedestal mais alto de onde elas podem exibir sua indigência moral, sua rudeza espiritual e sua tosca capacidade de empatia e de verdadeira liderança.

Quando issso acontecer, colega, sorria, respire fundo e releve. Não devemos agredir, nem com palavras, às pessoas inferiores moral e intelectualmente, devemos apenas lamentar que o mundo, infelizmente, não seja um lugar perfeito em que as oportunidades e responsabilidades sejam sempre relacionadas à capacidade real de quem as recebe.

Lembre-se também de que, na guerra moderna, não existe mais espaço para barcos que contam com um único par de olhos e um cérebro a tomar as decisões: esses vão naufragar nos rochedos ou ser abordados por piratas. Aproveite que você não está acorrentado e, se achar que está remando demais, arranje outro barco que tenha vigias envidraçadas e um banco mais macio. Na melhor das hipóteses talvez você até compre um barco seu e o faça singrar os mares rumo ao seu destino particular.

P.S. É preciso dizer qual fim levou a empresa mencionada nesta crônica?