O Dilema da Grécia

O que mais se tem dito, com um «moralismo monetário» de dar nojo, é que a Grécia está a cometer uma espécie e de crime, como se cada grego do mundo estivesse «roubando» de outros aquilo que seu país não tem mais conseguido pagar (e que aparentemente não mais pagará). A hipocrisia é uma homenagem envergonhada que o vício presta à virtude, como disse La Rochefoucauld, mas a falsa analogia é a homenagem que a estupidez faz à racionalidade.

Relações internacionais não são pautadas pelo moralismo. Países não são pessoas. As relações que concebemos entre indivíduos não podem ser estendidas automaticamente às alianças entre nações. Crimes, como «roubo», são definidos pelos estados segundo leis que devem ser obedecidas por seus cidadãos. Tão relativo é o conceito de crime que é frequente que o mesmo ato, tolerado em um lugar, seja severamente punido em outro — e vice-versa. Se as nacionalidades, tomadas em seu coletivo, podem cometer «crimes» (tal como sugeriu Euclides da Cunha), estes não são análogos aos crimes que as pessoas cometem, justamente porque o marco legal que os define é outro. Devemos, pois, deixar de lado todo moralismo pedestre ao analisarmos o caso da Grécia, pois não estamos a falar de alguém que tomou a bolsa de uma velhinha. Nem a Grécia é um punguista e nem os seus credores são uma inocente senhora. Malcolm X disse, com alguma propriedade, que, se não prestarmos atenção, os meios de comunicação podem nos fazer amar ao opressor e detestar ao oprimido. Ponha-se de lado tudo o mais que Malcolm X disse e fez, por esta frase ele já merece ser lembrado, pois é evidentemente assim que as coisas se dão — o caso da Grécia é apenas um exemplo.

A dívida de um país não é como a dívida assumida por um indivíduo. Existem diversas diferenças e pouquíssimas semelhanças. Para começar, a dívida do indivíduo é pessoal, geralmente fruto de um ato de sua vontade, enquanto a dívida nacional é impessoal, fruto de uma política adotada por um governante eleito que apenas supostamente expressa a vontade do povo. Digo que apenas «supostamente» porque é impossível que o povo saiba tudo o que faz o seu governo (se soubesse, como disse Bismarck, não haveria governo) e, ainda que saiba e consinta, é impossível que a tudo entenda e preveja. A maioria das pessoas já tem alguma dificuldade para gerir a própria vida e não reserva muito tempo para pensar «grande» nos destinos do país. Em vez disso, confiam estas decisões aos seus líderes, eleitos ou não, limitando-se a acompanhar, muito mal e porcamente, e a manifestar-se, periodicamente, nas eleições, a respeito do trabalho que se faz. A democracia representativa pode, muito facilmente, conduzir o povo à alienação — e os políticos, de todas as cores ideológicas, se comprazem nisso porque lhes é conveniente que o povo saiba pouco. Um povo que pouco sabe e pouco entende é um povo cujo voto pode ser conquistado com pouco esforço (embora se possa requerer um custo alto, ainda assim).

Se a dívida nacional é fruto da vontade de um governo — que pode expressar a vontade da maioria do povo, mas nunca representa o entendimento e o consentimento bem informado desta mesma maioria — e da liberalidade do emprestador, resulta que não pode existir quanto a ela o mesmo grau de responsabilidade pessoal que existe na dívida que você, leitor, contrai com o banco para comprar um novo televisor em prestações mensais.

Especialmente porque a dívida nem sempre resulta em benefício ao povo. Nos anos oitenta era voz corrente cá na América Latina que as dívidas do chamado «Terceiro Mundo» deveriam ser auditadas. Dizia-se isso porque as pessoas bem-informadas sabiam que boa parte dos recursos emprestados (e transformados em dívida nacional) nunca, de fato, chegavam cá, mas eram desviados no meio do caminho e retornavam aos mesmos países emprestadores (ou a outros) na forma de «contas secretas» em nome de chefes de estado corruptos ou seus apaniguados.

Até as pedras de Zurique sabem que a prosperidade helvética se construiu com as fortunas depositadas de boa gente como Mobutu Sese Seko, Papa Doc, Idi Amin Dadá, Joaquín Balaguer e uma multidão de outros tiranos corruptos da África e da América. Condenar os povos do Terceiro Mundo a pagar estas dívidas é uma injustiça suprema. É como condenar você, leitor, a pagar a conta do seu cartão de crédito que foi fraudado.

No mundo das finanças pessoais existem inúmeras formas de proteção do indivíduo. Se o seu cartão de crédito for fraudado você será ressarcido pelo banco emissor. Se não puder pagar seus empréstimos, poderá renegociá-los (frequentemente a taxas mais baixas e com prazos maiores). Se em último caso inadimplir e nunca pagar, terá caducados os seus registros negativos de crédito após cinco anos e poderá voltar a atuar. Todas estas salvaguardas (e outras que nem lembro) existem para que o indivíduo não seja condenado a arrastar miseravelmente até o fim de sua vida uma dívida impagável. Elas não existem para que você não pague, mas para que os bancos se lembrem de lhe dar crédito em condições razoáveis, ou você fica inadimplente e eles perdem, não só o dinheiro emprestado, mas também o cliente. Nenhuma destas salvaguardas existem para os países.

Se uma nação se endivida, mesmo que seja mediante a fraude de um governo corrupto, ditatorial, impopular ou pouco transparente, a dívida deve ser paga. As renegociações nunca são a taxas mais baixas e prazos maiores simultaneamente. Diferentemente das finanças pessoais, os credores dos países se arvoram ao direito de entrar em sua casa, fazê-lo desligar alguns eletrodomésticos, obrigá-lo a vender objetos de valor (pelo preço que eles decidem, não pelo que você venderia) e ainda o obrigam a trabalhar horas extras, mesmo que o seu patrão não as pague.

Basicamente é o que ocorre quando o FMI, o Banco Mundial e outras instituições «inspecionam» as finanças de um país, obrigam-no a desativar programas sociais, vender empresas estatais ou patrimônios públicos, aumentar os impostos, baixar investimentos etc. E tais medidas devem ser seguidas à risca, mesmo não dando resultado, assim como o agiota o obrigaria a trabalhar mais para pagar as prestações, mesmo que você não receba as horas extras.

Uma nação endividada perde a sua soberania. E não importa como se endividou. Em alguns casos sequer importa «quanto» se endividou. O que importa é se consegue repagar os empréstimos feitos. Mas este repagamento não significa que o país está saudável, porque se os credores quiserem eles podem emprestar dinheiro para pagar as dívidas anteriores, mantendo a bicicleta a rodar. Um país se torna inadimplente, muitas vezes, apenas porque os credores decidiram que ele deve se tornar inadimplente.

Enquanto os credores ainda não decidiram que o país deve inadimplir, ele terá acesso fácil ao crédito e poderá acumular um nível de endividamento inimaginável para uma pessoa física. A Grécia, por exemplo, deve 180% do PIB. Isso é o mesmo que uma pessoa que recebe R$ 60.000,00 por ano ter uma dívida de R$ 108.000,00. Não parece muito (na verdade, se você fez financiamento imobiliário este deve ser o patamar de endividamento que você tem agora, desconsiderando seu patrimônio como fonte potencial de receita em caso de venda). De fato não é muito.

Um endividamento de 180% do PIB é menor, por exemplo, do que o endividamento do Japão. Não me consta que o Japão esteja inadimplente com seus compromissos ou que os credores temam uma bancarrota nipônica iminente. Os fatores que explicam a crise grega são outros. A Grécia está em crise, e finalmente inadimpliu, porque, à parte o seu endividamento, o país está há quase uma década em recessão. Se a economia estivesse crescendo normalmente, a Grécia poderia fazer algumas reformas estruturais, gerar superavit e continuar pagando a dívida até extingui-la, dentro de décadas ou séculos. Mas a agudização da recessão levou o país ao deficit, a má gestão econômica agravou isso e o FMI, com sua receita de desastre, determinou o desfecho ao obrigar a Grécia a fazer exatamente tudo que deprime a economia em vez de fazê-la crescer.

O FMI é o médico que receita o mesmo remédio para todos os pacientes e, mesmo vendo-os sempre morrer, continua acreditando na cura e culpando os falecidos por o remédio não ter funcionado com eles.

A receita do FMI para a Grécia foi a mesma que causou a «década perdida» da América Latina. A diferença é que a Grécia é menor, menos populosa e tem menos recursos naturais do que os países latino-americanos. A Grécia não tem como gerar superavit exportando produtos primários porque tem uma economia subdesenvolvida e limitada ao setor de serviços (turismo e navegação). Todo o resto da economia grega tem pequena importância relativa ao PIB. A economia grega é extremamente vulnerável à «confiança» externa porque de fato não possui nenhuma commoditie significativa para oferecer e nem se industrializou como uma Coreia do Sul ou uma Taiwan.

O que está acontecendo na Grécia não é, portanto, um caso análogo ao batedor de carteiras roubando a velhinha. A menos que a velhinha seja a Grécia e o batedor de carteiras seja o sistema financeiro internacional.

Os gregos não têm nenhuma falha moral, não estão «roubando» nada aos demais países do mundo, mesmo porque não foi aos cidadãos desses países que os gregos andaram a pagar suas dívidas, mas a um grupo pequeno de grandes empresas financeiras e seus controladores.

O caso da Grécia se parece mais com o do sujeito que se endividou com o agiota e, não tendo como pagar, teve as pernas quebradas por um capanga e ainda assim tem de trabalhar para pagar, ou terá os braços quebrados também. O que estamos vendo na Grécia não é um país que não honra seus compromissos, mas um país que decidiu que a dívida, por mais que se deva pagar, é uma preocupação posterior. Na hierarquia de necessidades, nesse momento salvar o país é mais importante do que pagar a dívida.

Nos anos 1980 o ditador Nicolae Ceausescu decidiu pagar a íntegra de sua dívida com o FMI através de um esforço de exportação agrícola e industrial combinado com redução de salários e racionamento de bens de necessidade, como carvão para calefação. Milhares de pessoas morreram de fome ou de frio na Romênia durante anos. Mas a dívida foi paga. Afinal, era o que os romenos deviam fazer, pois «eles» haviam contraído aquela dívida e era seu dever moral pagar. Não é mesmo?

Porque os EUA Precisavam Neutralizar a Coreia do Norte

Ao contrário da maioria, e à semelhança de Nélson Rodrigues, eu tenho uma certa aversão à unanimidade. Não porque ela seja burra, mas porque enquanto todos estão concordando, não sobra tempo para se analisar o lado oposto, o que significa que, se a unanimidade estiver errada, e ela pode estar, não há ninguém preparando um plano B. É muito importante duvidar, mesmo daquilo que parece certo. Duvidar não é descartar, duvidar é especular alternativas, é tentar chegar mais perto da verdade mesmo quando todos insistem que já estamos o mais perto possível. Só que não existe um horizonte de eventos para verdade, e geralmente as unanimidades são construídas através do efeito de manada.

Este post é ilustrado por uma foto do “Bosque dos Heróis”, um monumento em Windhoek, na Namíbia. Este é um dos vários monumentos comemorativos construídos pelo mundo por uma empresa chamada Mansudae Overseas Projects, da Coreia do Norte. Somente em 2011 esta empresa, apesar do bloqueio econômico a que o país de brinquedo de Kim Jong-Un está submetido, trouxe mais de US$ 160 milhões em divisas para Pyongyang. A MOP é uma das mais de cem empresas criadas pelo governo da Coreia do Norte nos últimos dez anos em vários ramos da indústria pesada (construção civil, aço) e leve (componentes eletrônicos, plástico, processamento de pesca, etc.). Será que isso parece com um país morto de fome a ponto de seus habitantes estarem supostamente comendo uns aos outros?

Quando você terminar de ler este artigo, eu espero ter conseguido abrir seus olhos para muita coisa que não vem à tona do debate sobre a Disneylândia dos comunistas.

A primeira destas coisas é o estado real da economia norte coreana. A julgar pelas notícias veiculadas pela imprensa alinhada com os interesses americanos, a Coreia do Norte vive desde 1992 em um estágio pré falimentar, caracterizado pela fome generalizada, a obsolescência de toda a infraestrutura e a corrupção desenfreada do governo. Em suma, um país tão pronto para se liquefazer amanhã quanto Jesus está pronto para voltar.

Mas um país em tal estado não conseguiria dar mostras de vigor industrial e econômico, não conseguiria retomar e terminar a construção do mais famoso prédio inacabado do mundo. Não conseguiria fazer três testes nucleares e vários lançamentos de foguetes em um curto espaço tempo.

É verdade que esses triunfos devem estar sendo conseguidos à custa do sofrimento do povo, mas não há muito leite para se ordenhar em uma pedra: se o país não estivesse recuperado da crise de meados da década de 1990, não haveria nada para roubar do povo e destinar à megalomania de seu governo. É preciso ter a cabeça firmemente enterrada na areia para conseguir acreditar que um país que só piora economicamente teria capacidade para criar novas indústrias, desenvolver tecnologia bélica e começar a prestar consultoria a outros países. Sim, a Coreia do Norte presta consultoria em engenharia e administração de sistemas. Só não tem mais fregueses por causa do embargo, e do fato de que não há muito mercado para computadores em coreano.

Então fica evidente que o discurso da Coreia combalida deve ser só uma mentira a mais contada pelos americanos para criar empatia na comunidade internacional, assim as pessoas ficam com peninha dos coreanos mortinhos de fome e apoiam que sejam bombardeados de volta à Idade da Pedra, como no Iraque.

A verdade deve ser que os americanos receiam que esse relativo ressurgimento da Coreia do Norte vai dar fôlego  aos tiranetes de lá para continuarem brincando por mais algumas décadas, especialmente depois que a transição de poder do descabelado para o gorduchinho parece ter se consolidado, ao contrário do que esperavam os analistas ianques.

A segunda coisa parte justamente desta transição: parece haver consenso de que o novo tiranete consegue ser mais ridículo que seu pai (que já fora ridículo a ponto de sequestrar um diretor de cinema e forçá-lo para fazer uma paródia socialista de Godzilla, pentear o cabelo para cima para parecer mais alto e mandar construir pelo país auto-estradas de oito pistas em cada direção, que ficam vazias quase todo o tempo). Ora, se um óbvio idiota conseguiu ficar no poder de uma ditadura cruel, isso deve significar que ele não tem poder nenhum, deve ser só um fantoche, uma face humana do jogo de poder dos bastidores, um Grande Irmão vivo. Vocês já devem ter reparado que ele está quase sempre acompanhado de alguns generais com quepes altos e dólmãs tão condecorados que é preciso usar a calça para exibir o resto das insígnias. Se isto for verdade, não adianta esperar pela morte dele, não adianta nem matar ele. Sempre haverá um outro rosto para pôr no lugar e o regime ficará de pé.

Então, as tentativas americanas de agredir a Coréia do Norte revelam o desespero de quem já percebeu que não adianta esperar pela combustão espontânea do regime de Pionguiangue. A Coréia do Norte está aí para ficar, incomodando os Estados Unidos durante ainda algumas décadas. E agora que o Irã e a Síria caíram debaixo da asa amiga da Rússia, o mundo está começando a ficar salpicado de lugares onde Tio Sam não põe o pé. Uma nova cortina de ferro está se formando devagarinho.

Lições de Vida

Esta semana bombou na internet a revolta de alguns americanos com uma obra de literatura infantil na qual a personagem principal "fica feliz" ao ser submetida a uma revista em regra para entrar no aeroporto. Opiniões divididas. Alguns achando que a autora quisera ser sarcástica ao apresentar como agradável uma situação que beira o intolerável, outros argumentando (com razão, a meu ver) que crianças não perceberiam tal ironia. Certos comentaristas achando que se tratava de um grande plano de lavagem cerebral para acostumar as crianças a terem seus direitos violados em aeroportos, outros achando que era um exagero, que o livro apenas reflete uma realidade desagradável, mas real, e que é função dos livros infantis educar as crianças para o mundo que existe. Houve até quem desenterrasse referências à "Revolução dos Bichos", de George Orwell, só porque a personagem é uma porquinha.

Pelos comentários no site imgur.com(http://imgur.com/PlrjjOH), o nível de boçalidade de certos americanos é muito superior ao que supomos, havendo quem defenda, vejam só, que os direitos constitucionais só podem ser interpretados de forma literal, e que as novas tecnologias não estão protegidas pelos princípios legais porque não existiam quando as leis foram escritas. Que um raciocínio tão idiota seja comum é algo que me espanta. É o tipo de pensamento que faz certos fundamentalistas cristãos se oporem ao progresso (nesse sentido os Amish são os mais radicais, recusando quase toda a tecnologia desenvolvida após o século XVII), só que aplicado ao pensamento político:

> Nope, you give it up when you do business with a public airline, if you don't want to give it up don't use the public airline, the constitution doesn't guarantee you the right to use a public airline. (Nananinanão, você os renuncia [os direitos constitucionais] quando faz negócios com uma companhia aérea pública, se não deseja renunciá-los, não use a companhia aérea, a constituição não lhe garante o direito de usar uma companhia aérea).

É estranho como nós nos acostumamos a ser tratados sem respeito, como trocamos nossa privacidade e até mesmo a nossa integridade moral por uma vaga "segurança".

Gostaria de saber que tipo de reações as pessoas teriam se a legenda desta figura de um livro infantil fosse mudada:

"As she entered the college building, Olivia was searched for a proof of virginity. She was very pleased."

Não é uma troca absurda. Em certos países islâmicos há leis e propostas de leis segundo as quais as moças só podem entrar na faculdade após um exame de virgindade obrigatório. Em quase todos os países islâmicos, a falha em provar a virgindade quando isso é requerido é passível de punições. Considerando que as faculdades não existiam no tempo de Maomé e que, portanto, não há nada que garanta (sequer aos homens) o direito de frequentá-las, uma lei dessas acaba apelado à mesma lógica do comentarista acima, e a cena da Olívia abrindo as pernas para um exame de virgindade após o vestibular se torna factível.

Até quando procuraremos justificativas tortas para fatos que nos afastam dos ideais de civilização que um dia cultivamos? Até quando as pessoas esconderão o fato de que os radicalismos são todos retrógrados, alguns apenas disfarçados no Photoshop?

A Psiquiatria como Arma Política

Existe uma teoria, muito discutida em mesas de bar onde esquerdistas, barbudos ou não, deflagram suas ideias mais porra-loucas, segundo a qual os totalitarismos convergem de inúmeras formas, ainda que continuem diferentes em inúmeras outras. Esta teoria é análoga ao espantalho da direita, segundo a qual os fascismos (totalitarismo de direita) são de esquerda, mas contém uma ressalva que exclui o dogmatismo: as semelhanças não existem porque a essência dos regimes seja a mesma, mas porque a eficiência de certos instrumentos pode estar a serviço de qualquer sistema.

Instrumento é a palavra que cabe aqui. Instrumentos não são inteligentes, não possuem iniciativa, não são, portanto, ideologicamente fiéis. O mesmo instrumento pode ser usado por diferentes ideologias, sem que isso indique uma identidade absoluta entre elas. Uma vez mais, porém, ressalvemos que os instrumentos não são neutros, mas a ideologia que eles possuem é própria deles, e modifica os sistemas que os empregam, em vez de identificar-se com eles. E aqui chegamos a fechar o círculo.

Quando um regime começa a empregar instrumentos que foram utilizados profusamente por outro regime anteriormente, é natural que se comente que ocorre uma aproximação entre eles. Mesmo que, em essência, as diferenças permaneçam. Muitas vezes as diferenças (residuais) são apenas uma forma de manter o foco afastado daquilo que realmente mudou.

Todo mundo conhece a triste tradição de uso da ciência como instrumento político nos totalitarismos, de todas as cores. Instrumento político de promoção, como a corrida espacial soviética, responsável por inviabilizar os desenvolvimentos econômicos necessários a um país que ainda não havia completado a sua transição para uma economia plenamente industrial, ou de repressão, como o emprego de teorias eugenistas pela Alemanha nazista a fim de justificar o expurgo de milhões de indesejáveis. Menos pessoas conhecem a prática, notavelmente comum na União Soviética, de tratar como loucos certos opositores ao regime.

Esse desconhecimento se explica pelo obscurantismo proposital com que a história soviética é tratada nos meios acadêmicos influenciados pelos Estados Unidos. Nesses meios há uma profunda ênfase nos “gulag” (campos de trabalho forçado) que teriam sido responsáveis por milhões de mortes (o número alegado varia entre 6 e 60 milhões, conforme a necessidade que o “historiador” tenha para satanizar os “vermelhos”). Cadáveres são argumentos mais fortes que qualquer outra coisa, mesmo que eles não sejam tangíveis, e existam apenas em estatísticas tiradas de trás da orelha.

Ocorre que se fosse tão fácil (e tão comum) descartar os indesejáveis simplesmente pondo-os para trabalhar enxugando gelo na Sibéria sem lhes dar comida, até eles morrerem de fome e de frio, o regime certamente empregaria este método de forma indiscriminada — como fez o Khmer Vermelho no Camboja, causando a morte de mais de um terço da população do país em poucos anos. De fato não era assim: por mais que Stálin fosse bicho-papão, e eu não tenho nenhum motivo para pensar que ele não fosse, uma violência tão indiscriminada teria um efeito terrível sobre o moral do povo, pois seria impossível manter aparências de normalidade quando tanta gente está sendo morta pelo governo.

Os mais raivosos anticomunistas alegam que Stálin teria causado a morte de mais de 60 milhões de pessoas entre 1936 e 1950, quando a URSS inteira não tinha mais que 200 milhões de habitantes. Se uma hecatombe dessas tivesse acontecido, seria impossível esconder.

Verdade seja dita: muita gente morreu mesmo nos campos de trabalho forçado, e não é impossível que o número passe da casa do milhão, mas uma cifra acima de dez milhões de mortos só é possível de se obter se considerarmos que os mortos causados pela II Guerra Mundial são atribuíveis a Stálin — o que é uma batatada fenomenal, visto que Stálin estava tão interessado em entrar em guerra que chegou a assinar um pacto de não agressão com Hitler (na hora de pôr a culpa da II Guerra em Stálin os direitistas mais obtusos deixam propositalmente de mencionar o pacto Ribbentropp-Molotov).

Assim como a II Guerra é convenientemente usada para aumentar a contagem dos cadáveres de Stálin, fatores outros são postos de lado para não interferirem com a frágil verossimilhança dos dados apocalípticos do “comunismo”. Refiro-me à prática de se internar em hospícios certos opositores do regime, notoriamente os mais conhecidos.

Digo “os mais conhecidos” de uma forma meio leviana, porque o regime soviético não teve nenhum pejo em prender e desaparecer com gente muito famosa, como Isaak Babel e Sergei Eisenstein. Mas é certo que muita gente que viraria adubo segundo a versão mais radical desse anticomunismo raivoso acabou sofrendo tratamentos psiquiátricos em vez de ser simplesmente morta. E muitos nem sequer chegaram a sofrer os ditos tratamentos, sendo apenas difamados com sua loucura.

O recurso psiquiátrico — assim como o banimento — evidenciam que os “gulag” não eram a única ferramenta de repressão política no regime soviético. E isso torna difícil aceitar que tanta gente pudesse estar presa ao mesmo tempo, e com uma taxa de mortalidade tão alta.

De todos os instrumentos de repressão utilizados pela União Soviética para combater a liberdade de expressão e o direito de ir e vir de seus cidadãos, somente o banimento ainda não é empregado em larga escala pela maior “democracia” do mundo.

Sobre o banimento (que é diferente do exílio), ele era possível na URSS devido à existência de grandes extensões inexploradas. Certas pessoas recebiam como sentença um “diploma de lobo” (volchiy billet), que lhes garantia a vida caso se mantivessem a pelo menos 100 km de distância de qualquer centro urbano (e na URSS nem toda povoação era considerada “urbana”). Acredito que esta omissão se deve somente o fato de isto ser impraticável nos Estados Unidos (que têm uma área equivalente a menos de 40% da antiga URSS e hoje têm uma população 50% maior do que a URSS dos anos 1950 e 1960).

Todos os outros instrumentos de repressão estão em uso. Desde os “gulag” (ou seja a prática de prender seus cidadãos indiscriminadamente para obrigá-los a trabalhar por um salário vil) até ordens judiciais proibindo cidadãos de falarem sobre determinados assuntos, passando pela cereja do bolo: a atribuição de distúrbios mentais ao comportamento dissidente.

Os que argumentam que existe uma diferença essencial entre os presos americanos (“criminosos comuns”) e os soviéticos (“presos políticos”) ignoram o fato de que na URSS também existia criminalidade e que os EUA também prendem pessoas por motivos políticos (os Panteras Negras, por exemplo). Os que defendem as ordens judiciais de silêncio argumentam que elas são resultados de julgamentos em um país livre, esquecendo-se de que, ao contrário de lugares como o Vietnã e a China, a URSS, após sua consolidação, jamais deixou de possuir um sistema judicial funcional, embora frequentemente acontecessem mortes fora do sistema (semelhantes à de Tamerlan Tsarnaev, se é que você me entende). Não podemos deixar que a aparência externa ou a tradição nos enganem quando um sistema se modifica: o que ainda emprega os ritos da democracia pode já ter se tornado ditadura e o que segue superficialmente antigos preceitos pode tê-los pervertido na essência.

E no cerne disto tudo temos a ciência, mais especificamente a psiquiatria, sendo usada como ferramenta no jogo bruto da política.

O próprio conceito de “loucura” como comportamento aberrante e intolerável, que deve ser segregado, nunca foi superado no dito “Ocidente”, mesmo com a antipsiquiatria e outros movimentos esclarecedores. Duzentos anos depois de Phillipe Pinel, ainda vemos a loucura como algo que aparta da sociedade alguns indivíduos, uma espécie de peste da alma que, por ser invisível (visto que a alma o é), parece ser incurável (pois não há como asseverar a cura de uma doença que não apalpa, que não se examina no fluidos e que não se vê em radiografias).

Tachar de louco aquele que pensa diferente é uma estratégia repressiva eficaz. No auge da Era Vitoriana a insatisfação (inclusive sexual) das mulheres no casamento era vista como “histeria” e tratada com medicamentos ou procedimentos os mais diversos, alguns nada convencionais, como os primeiros vibradores, inicialmente usados como um instrumento medicinal. Hoje em dia uma mulher insatisfeita não é mais vista como uma candidata ao hospício, pois nossa sociedade evoluiu a ponto de um casal poder discutir a relação.

Da mesma forma que a mulher insatisfeita era vista como louca, o cidadão soviético que não se conformasse com o paraíso terreno criado pelo comunismo era visto. Somente um lunático renunciaria ao sistema perfeito para almejar o tipo de inferno criado pelo capitalismo desenfreado. Mas em alguns casos doenças convencionais da psiquiatria funcionavam apenas como rótulos (des)qualificantes para indivíduos cuja reputação precisava ser desconstruída. O indivíduo dissidente, desmotivado e sem o respeito de seus pares, não conseguia passar adiante a “loucura” de suas ideias.

Esse uso da psiquiatria para impor limites à dissidência vem crescendo assustadoramente no chamado “mundo livre” (ou seja, nos Estados Unidos, auto-intitulados “terra da liberdade”).

Começou com a identificação do “autismo brando”, ou seja, síndromes comportamentais moderadas ou leves que afetam o modo pelo qual um indivíduo se relaciona com os demais. Em geral os autistas são pessoas brilhantes porque abstraem-se de uma série de fatores ambientais e se permitem dedicar toda a sua atenção ao que é o seu foco de interesse. Mas quando a Associação Psiquiátrica Americana associa o comportamento que permite tal brilhantismo a um tipo de “distúrbio mental”, temos que pessoas que em outras épocas seriam celebradas por seus feitos (Leonardo da Vinci apresentava indícios vários de comportamento autista moderado) hoje são desqualificadas como “freaks” e usadas como tema de esquetes humorísticos. Assim, um homem brilhante como Richard M. Stallman, por supostamente ser Asperger, tem suas ideias frequentemente ridicularizadas.

Depois veio a “depressão” (esta palavra, um dia, já significou apenas uma tristeza prolongada, e antes disso era não tinha nenhum sentido psicológico). A tristeza, que em outras épocas inspirou homens e mulheres geniais a produzirem obras transformadoras passou a ser tratada com Prozac. Hoje em dia Van Gogh tomara Lítio e Prozac, faria da pintura seu hobby apenas, e ganharia a vida como comerciante ao lado do irmão. Passamos então à recente tentativa da APA para classificar o luto prolongado como uma doença mental, tratável, claro, com algum tipo de droga psicoativa receitada por um médico.

Mais recentemente os psiquiatras identificaram o Distúrbio Oposicional Desafiador (Oppositional defiant disorder), que explica porque certos jovens resistem à autoridade de pais e professores. Embora seja possível que certas crianças e jovens tenham, de fato, um comportamento excessivamente rebelde, é preocupante imaginar um tratamento químico da rebeldia que em outras épocas causou revoltas, fugas, obras de artes ou apenas inocentes bobagens juvenis. Monsieur Rimbaud: dá esta pílula ao jovem Arthur para ele parar com essa história de poesia e esse comportamento efeminado com o Monsieur Verlaine.

E então chegamos à cereja do bolo: a Síndrome do Idealismo Pós-Adolescente. Segundo os psicólogos forenses americanos, o recruta Bradley Manning, responsável pelo vazamento de diversos segredos militares sujos dos EUA, agiu motivado por uma “vontade de mudar o mundo”. Antigamente se dizia que o mundo muda por causa das pessoas irrazoáveis. Bradley Manning resolveu agir de forma não razoável porque se fosse racional ele não faria nada e não causaria nenhum efeito. Ele é o tipo de pessoa que faz a história, geralmente morrendo no processo, ou, em termos mais românticos: um herói. Mas hoje em dia a psiquiatra nos diz que idealismo é coisa de adolescente e esse sonho de melhorar o mundo não combina com saúde mental.

Sim. Um indivíduo dotado de uma ingenuidade adolescente e de um desejo irrazoável de mudar o mundo, e que se expõe a grandes riscos, às vezes causando grandes catástrofes. O que antigamente se chamava de “herói” hoje é chamado de “adulto imaturo”. Esse negócio de lutar contra o sistema, de querer melhorar o mundo, isso não é coisa de adulto. E é uma loucura também, mesmo que branda. Talvez já tenham até inventado algum remédio para isso, ou dizem que inventaram.

Assim, como quem não quer nada, uma psicóloga vinculada à Marinha dos EUA acaba de reduzir a uma mera classificação pseudopsiquiátrica tudo aquilo que há de mais nobre e de bonito na humanidade. Tudo porque uma pessoa dotada de tais valores não poderia ter agido de outra forma diante de evidências massacrantes de que o exército de seu país agira criminosamente. Como o herói está contra nós, é preciso desqualificá-lo como tal, e se o trabalho for muito duro, desqualificar o heroísmo em si já é uma ideia boa, pois mata todos os futuros coelhos na mesma paulada.

Ninguém acha isso anormal? Será que o mundo ficou tão louco que as pessoas resolveram considerar anormal justamente aquilo que constituiu um dia a força moral das sociedades humanas. Quantas pessoas que um dia admiramos seriam diagnosticadas com “síndrome de idealismo pós adolescente”? São Francisco de Assis, Castro Alves, Thomas Edison, Gandhi, Bolívar, Pancho Villa, Martin Luther King, Abraham Lincoln, José do Patrocínio. Penso que até Jesus Cristo.

Das ist das Heil das sie bringen

Aliás, principalmente ele. Começando como uma criança padecente de Distúrbio Oposicional Desafiador (a julgar pelas lendas apócrifas e, principalmente, pela sua discussão com os doutores da lei) e depois com uma síndrome de idealismo pós-adolescente, que o fez largar a casa dos país e sair pelo mundo pregando aos pobres um tal “reino de Deus”.

A Psiquiatria está, aos poucos, encontrando tratamento para tudo aquilo que existe no ser humano e que lhe permitiu criar o que de melhor nós temos no mundo. Esse é o preço que o totalitarismo nos cobra pela paz que oferece. Bradley Manning, o idealista pós-adolescente, é o primeiro de uma série cujos feitos, em vez de celebrados em verso e prosa, serão considerados um tipo de loucura.