Redistribuição de Renda "for Dummies"

Certos conceitos são melhor entendidos quando transportados do terreno vago da terminologia para a solidez do dia a dia. Um exemplo é a tal “redistribuição de renda” de que tantos políticos falam, e que tanta gente é contra ou a favor sem nem saber o que é. Tentarei demonstrar como isso funciona usando como exemplo uma recente campanha no Facebook contra um supermercado de minha cidade natal que passou a cobrar pelas entregas em domicílio. Segundo a campanha, a cobrança seria desta forma:

  • R$ 6,00 por entregas no “centro da cidade”,
  • R$ 10,00 por entregas em “bairros próximos”,
  • R$ 15,00 por entregas em “bairros distantes”.
As aspas foram empregadas porque, sendo Cataguases uma cidade de meros 70 mil habitantes, os conceitos de “centro”, “bairros” e “distante” terão um significado muito diferente do que têm para um habitante de metrópole. Existem “bairros” (como o BNH ou a Vila Domingos Lopes) que estão mais próximos da loja do supermercado em questão do que certas áreas do “centro” que, aliás, não mede mais que um quilômetro de um lado a outro. Certos distritos (fora do perímetro urbano) são também mais próximos da loja do que certos “bairros distantes”. Enfim, os conceitos são vagos o suficiente para haver interpretações contraditórias.

O supermercado em questão possui um enorme estacionamento próprio e não cobra taxa de quem compre a partir de certo valor (se não me engano R$ 30,00). Combine este fato com a recente cobrança por entregas em domicílio e podemos entender disso que se está estimulando o uso do automóvel em detrimento do ônibus, da bicicleta ou da sola do sapato. 

O que este supermercado está fazendo é uma discriminação contra o pobre. A mensagem passada é que ele não quer ter clientes “pedestres” porque estes, em sua  maioria, são os que não têm condição de ter carro. Certa vez uma famosa loja de luxo paulista, a Daslu, construiu uma sede que só era acessível através do estacionamento, que cobrava R$ 100,00 por hora. Obviamente a Daslu, hoje falida, queria que pobre passasse longe. O supermercado cataguasense também parece que quer o pobre longe, comprando no mercadinho de bairro. Como não pode pôr na porta um aviso de que está “proibida a entrada de pobre”, o supermercado resolve penalizar com uma taxa as entregas das compras de quem não tem condição de levar de carro. Observe que a taxa é significativamente maior para “bairros distantes” (definidos de uma forma vaga). Com R$ 15,00 o pobre poderia comprar 10 kg de arroz, por exemplo. Difícil esperar que alguém troque tanta comida pelo conforto de receber as compras em casa.

Alguns de meus leitores; especialmente anarcomiguxos, escroques individualistas e antissociais em geral; reclamarão desta postagem dizendo que o supermercado está certo, porque o custo da entrega era embutido na margem de lucro e que, ao cobrar à parte, o preço das mercadorias poderá ser reduzido. “Não é justo que todos os fregueses fiquem pagando mais caro,  mesmo quando levam eles mesmos suas compras, para os que usam o serviço de entrega em domicílio” — dirão eles, ingenuamente acreditando que a redução de custos será transformada em redução de preços. Aqui temos, então, o conceito de redistribuição de renda sendo discutido, sutilmente.

Uma política de redistribuição de renda significa, entre outras coisas, que os bens, serviços e impostos são mais baratos para quem ganha menos e mais caros para quem ganha mais, a fim de facilitar o acesso a esses bens e serviços por pessoas que ganham menos. Redistribuição de renda é você fazer por cinco reais o preço do prato feito para aquele mendigo esfomeado que chega com uma nota amarrotada de cinco paus, mesmo que você esteja cobrando oito dos clientes normais. Redistribuição de renda é não cobrar a entrega das compras dos pobres, embutindo o custo nas mercadorias, dividindo entre todos os fregueses.

Quando um Estado, ou uma empresa, resolve individualizar os custos e os serviços, sem olhar quem paga, sobre o pretexto de “igualdade”, o que ocorre é justamente punir o pobre. Porque o rico, que já estava de passagem pelo centro em seu automóvel, não se importa de levar a compra ou mesmo de pagar pela entrega. Sem falar que o rico não vive, normalmente, em “bairros distantes” e que, de certa forma, o bairro pobre é sempre “mais distante” que o bairro rico, se não em quilômetros, certamente em percepção.

O resultado destas políticas de individualização de custos é a redução da capacidade de consumo das pessoas que ganham menos, esvaziando as lojas dessa gente “diferenciada” que atrapalha as compras dos “bons clientes”.

Infelizmente, pelo menos na internet, esse tipo de ideologia parece estar ficando popular. E medidas ocasionais, como essa do  supermercado, nos sugerem que a mentalidade do "cada um por si" está ganhando terreno. Esperemos que esta erva não vingue, porque as dificuldades de cada um não são aumentadas pela solidariedade com quem tem ainda  mais dificuldades. 

Quando uma Organização Ateísta se Aproxima de uma Religião

Está lá em qualquer manual introdutório de lógica básica de argumentação que os argumentos que não seguem regras racionais são inválidos. Mesmo assim, as chamadas «falácias» (minimizaremos o uso do termo daqui para a frente) seguem sendo mais populares do que o feijão, exceto que todo mundo sabe como se chama o feijão, mas ninguém quase identifica, por nome e sobrenome, os erros de argumentação que se pode cometer. Estes erros, porém, estão cuidadosamente catalogados, cada um em seu escaninho, e há alguns guias na internet que podem servir de base a quem queira conhecê-los.

Um dos usos mais comuns das tais falácias é na tentativa de desqualificar o ateísmo como sendo uma crença ou, de uma forma menos sofisticada, como uma religião. É preciso ter muito cuidado com esse tipo de argumentação porque se trata de uma «faca de dois gumes» e qualquer um deles parece igualmente válido. Mas na prática, nenhum é cem por cento garantido.


O primeiro gume é a comparação entre as atitudes de organizações ateístas e de seus líderes em relação ao que dizem e fazem os líderes e organizações comumente tidos como religiosos.  Esta é uma comparação válida, porque é comum que as pessoas creiam estar combatendo eficazmente por uma causa quando estão, de fato atrapalhando-a. Desta forma, não há problema algum em apontar semelhanças entre ateus e suas organizações com qualquer instituição religiosa. Desde que a comparação seja demonstrada.

Mas disso não se segue (non sequitur) que o ateísmo seja uma religião. Este é o segundo e traiçoeiro gume que corta a mão de muita gente que não sabe brincar, mas desce para o play.

O fato de uma pessoa estar equivocada quanto à definição de seu posicionamento quanto a um determinado conceito nada tem a ver com a validade da definição em si. Pondo isto de uma forma mais fácil de visualizar, o fato de um louco se achar uma cenoura não significa que ele seja uma cenoura. Esta é apenas a sua percepção distorcida de sua identidade.

As semelhanças entre os dizeres e atitudes de algumas pessoas ligadas ao «movimento ateu» e os dizeres e atitudes de outras pessoas ligadas a religiões apenas demonstram uma dificuldade para desvencilharem-se completamente de modelos mentais muito arraigados culturalmente.

Outro exemplo fácil: só porque um líder esquerdista se tornou autoritário, isto não quer dizer que a esquerda seja autoritária.

Aqui temos outra faca de dois gumes. Alguns dirão que minha afirmação anterior padece de argumentação improvisada (argumentum ad hoc), também conhecido como a falácia do verdadeiro escocês. Que pode ser demonstrada assim: Todo X = Y, Este X não é Y, então este X não é X. A acusação pode ser facilmente desmontada se lembrarmos que a acusação padece da falácia da composição (generalização): como se pode afirmar que todo X = Y?

Então, o fato de um líder ter se desviado da doutrina não invalida a doutrina. O mesmo se aplica ao ateísmo. Dizermos que determinado líder ou determinada organização assumiu um comportamento análogo ao religioso, ou mesmo, simplesmente, dizer que «virou religião», não significa que o ateísmo em si seja religião.

Estas distinções precisam ser feitas, sempre e com muito cuidado, quando criticarmos os desvios cometidos por entidades que desaprovamos. Para que nossas palavras não acabem na boca de líderes religiosos, sendo usadas para provar que o ateísmo se dividiu em «seitas» como qualquer religião.

Pedras Ateias ou «Será o Ateísmo um Aprendizado?»

Este artigo vai dedicado a três pessoas em especial. Primeiramente ao Eli Vieira e ao Gregory Gaboardi, da Liga Humanista Secular do Brasil, com quem certa vez travei um interessante debate sobre «pedras ateias» (mais adianta explicarei o conceito) e a Neli Espanhol, amiga dos tempos de Orkut que fez um comentário no mesmo sentido, na postagem do Google Plus referente ao artigo imediatamente anterior a este.

A motivação deste artigo está em uma frase solta contida naquele texto: a afirmativa de que «ninguém nasce ateu». Para Neli, todo indivíduo ao nascer, estando isento da crença em divindades, seria ateu. Para Eli e Gregory, no referido debate travado nos comentários do blog do Paulopes, não faz sentido imaginar o ateísmo como algo inato, pois então teríamos que admitir que até pedras, que nunca pensam sobre Deus (uma vez que nunca pensam) teriam de ser atéias.

Se não me falha a memória (mas eu sei muito bem que ela falha) eu me pus contra a tese de Eli e Gregory nos seguintes termos:

  1. Não faz sentido dizer que pedras são ateias porque pedras não pensam. Ateísmo é um posicionamento epistemológico, pedras não sabem o que é epistemologia.
  2. Um indivíduo que nunca foi apresentado ao conceito de Deus (tal como um bebê recém nascido) certamente não é teísta, e portanto não podemos considerar o teísmo como «natural».
  3. Se os recém nascidos não conhecem nenhum conceito de Deus, resulta que o teísmo é um aprendizado.
  4. Se não aceitamos que a ausência do conhecimento do conceito de Deus seja chamada de «ateísmo» então precisamos de uma definição melhor do conceito porque certamente uma pessoa que nunca foi apresentada a Deus não tem em relação à divindade a «suspensão de crença» que caracteriza o agnosticismo.
  5. Então, se a situação de ignorância do conceito de divindade não é nem teísmo e nem agnosticismo, só pode ser ateísmo.

O erro conceitual cometido tanto por Gregory (inclusive em sua série «Porque o Ateísmo É uma Crença») é considerar ateísmo e agnosticismo como posicionamentos antagônicos. Eu também cometia esse engano até que li um pouco mais sobre a filosofia do ateísmo e compreendi que não apenas os dois posicionamentos não são mutuamente excludentes como também se complementam. Bertrand Russell chegou a afirmar que se declarava ateu quando uma pessoa comum lhe perguntava se acreditava em deus, mas agnóstico quando conversava sobre o tema com outros filósofos. Muitos neo ateus se surpreendem com isso, mas o próprio Richard Dawkins se diz agnóstico. Com o tempo fui percebendo que «agnóstico» é apenas uma das formas de ser ateísta.

Então, quando busquei entender o que seria o ateísmo, que não era algo oposto ao agnosticismo, compreendi que ele só pode ser entendido quando contraposto ao teísmo. Pode parecer besta essa conclusão, visto que a própria palavra «ateísmo» revela esta contraposição, mas muita gente tem se empenhado, por décadas, a borrar esta oposição e convencer ao mundo de que existe uma rixa entre ateus e agnósticos. Até mesmo muitos ateus compraram essa briga. Só que isso não existe. A rixa do ateísmo é contra o teísmo, nunca, jamais contra outras formas de ateísmo.

Tudo aquilo que não é teísmo nem panteísmo e nem deísmo forçosamente é ateísmo. Ou você crê em deuses personificados, ou crê na natureza como um deus, ou crê em um deus impessoal ou… não crê em deus(es).

Então, uma criança nasce ateísta porque não crê em deuses. Uma criança não tem conhecimento do conceito de divindade, portanto não pode nem aceitar nem rejeitar e nem suspender sua crença quanto a esse conceito. E mesmo assim é ateísta. Porque ateísmo não é rejeição e nem suspensão de crença, é a ausência de crença em divindades. Ausência que pode se manifestar pelo desconhecimento (caso do bebê), pela suspensão (agnóstico) ou pela rejeição (ateísta positivo). Mesmo a rejeição pode ser explícita (racional ou não) ou implícita (irreverência, indiferentismo). Querer reduzir toda essa variedade de posições a um conceito único é um projeto sem sentido, tanto quanto é um conceito sem valor pretender definir animal de uma forma restrita. Não podemos negar a validade das diversas formas de não ser teísta da mesma forma como não podemos afirmar que animais necessariamente tenham pêlos, patas ou dentes.

Com tudo isso quero chegar  a um mea culpa: de fato eu não fui claro nem correto ao afirmar que ninguém nasce ateu. A verdade é justamente o contrário: todos nascemos ateus. O que eu quis dizer é justamente que ninguém nasce com a consciência disso, pois não nasce sabendo o que é deus. De qualquer forma, errei e admito.

Porque o Ateísmo Continua Não Sendo uma Crença – Parte 1

Está por concluir-se por esses dias uma série de postagens feitas no Bule Voador com o título «Porque o Ateísmo É uma Crença», assinadas por Gregory Gaboardi, estudante de comunicação na UFRGS (até onde pude apurar pela internet, mas aguardo correção de quem possa perguntar-lhe diretamente suas credenciais). Considerando que finalmente o autor concluiu sua argumentação, inicio hoje aqui uma série de comentários a respeito de suas colocações.

Introdução

Gostaria de advertir os meus leitores que ainda não sabem (sempre se deve estar precavido contra distraídos ou recém-chegados) que eu sou um crítico do que chamo de «movimento ateu» brasileiro, mesmo sendo eu mesmo um ateu. Minhas críticas não se dirigem ao ateísmo em si, em nenhuma de suas correntes, mas à atuação de seus pretensos líderes, próceres e ídolos, e se limitam estritamente àqueles pontos nos quais posso discernir o que considero erros estratégicos. Em resumo: acredito que a maioria dos ateus brasileiros que têm visibilidade na blogosfera ou nas redes sociais são pessoas muito imaturas e despreparadas para uma argumentação racional, embora se considerem, devido ao ateísmo (o que é a maior tragédia), mais preparadas que qualquer reles papa hóstias. Acima de tudo, percebo nestas pessoas um alto grau de dependência em relação ao que se escreve, diz e pensa sobre ateísmo em inglês. A falta de originalidade faz com que reajam de forma às vezes desconexa ou até incompreensível diante de desafios específicos de nossa realidade.

Portanto, nesta postagem, como de vezes anteriores, procurarei desmascarar, na medida em que minha limitada formação acadêmica e cultura geral o permita, os equívocos cometidos por Gaboardi, um prócer do movimento cético. Não sei se o autor se auto intitula ateu ou outra coisa e o Bule Voador parece não tomar um lado nesta questão, preferindo alargar o muro para que o maior número possível de pessoas possa estar em cima.

Como não pretendo discutir o tema deixando meu leitor «no vácuo», a série de artigos escrita por Gaboardi pode ser encontrada integralmente nos links a seguir:

  1. Parte I
  2. Parte II
  3. Parte III
  4. Parte IV
  5. Parte V
  6. Parte VI
  7. Parte VII
  8. Parte VIII
  9. Parte IX — pendente

Ao contrário de Gaboardi, que dividiu sua argumentação em várias partes para evitar uma leitura muito longa e intimidante, eu dividirei a minha em partes para simplesmente separar diferentes linhas de raciocínio. Cada parte subsequente a esta pode repetir e repisar conceitos aqui já abordados, apenas sob outro ponto de vista. As diferentes partes de meu argumento são como diferentes ângulos, e não partes sequenciais de um todo.

Por que Escrevi esta Réplica

Normalmente só me dou ao trabalho de responder na forma de um artigo  alguma coisa escrita em outro blogue quando o tema é realmente polêmico e o potencial do assunto é grande. Neste caso específico, determinei-me a escrever estas respostas porque percebi dois grandes equívocos na série de argumentos alinhavada por Gaboardi:

  1. Apesar de uma preocupação terminológica obsessiva, Gaboardi não parece perceber — ou faz questão de dissimular — que para poder empregar o termo «crença» em relação ao ateísmo, seria necessário não empregá-lo simultaneamente para o que se entende normalmente como crença referente a religião. A consequência desta obscuridade é a impressão que se passa ao leitor desavisado (ou ao leitor mal intencionado e muito bem avisado) de que é possível igualar toda a ampla gama de conceitos relacionados ao ateísmo com todo e qualquer conceito esposado pelas religiões.
  2. A espinha do argumento de Gaboardi se insurge contra a validade da falácia da inversão do ônus da prova. Ou seja: o autor sugere (obliquamente, mas sugere) que inverter o ônus da prova não é uma falácia e que as pessoas que rejeitam afirmações positivas precisam embasar sua rejeição, ainda que as afirmações originais jamais tenham sido embasadas. Obviamente Gaboardi não leu o artigo de Bertrand Russell no qual se criou o conceito do Bule Voador.

Pelos três motivos acima, considero que o autor, que não é filósofo, empreendeu-se a uma tarefa hercúlea, contrapondo-se a uma imensa parede de tradição filosófica (inclusive a base da epistemologia moderna, Karl Popper) usando apenas sua atiradeira e saiu-se muito mal. E por considerar que saiu-se mal, propus-me a demonstrar de que maneira.

Inicialmente esta réplica sairia em forma de livro eletrônico. Porém, quando percebi que o texto estava ultrapassando as cem páginas, notei que o foco havia sido perdido e, mesmo que o trabalho fosse ainda justificável, era preciso produzir uma peça menor e mais ágil para abordar o tema.

O Significado de «Crença»: Armando o Inimigo

Independente dos erros argumentativos cometidos por Gaboardi, que serão melhor explicitados em outra postagem, existe um outro problema envolvido no conjunto de sua argumentação: ao igualar no nível do termo «crença» tanto as posições aceitas pelos religiosos quanto a negação delas (o ateísmo), o autor efetivamente legitima as religiões — ainda que apenas aos olhos das pessoas que não consigam perceber a sutiliza envolvida nas diferentes acepções da palavra «crença». A este respeito, eu só posso fazer minhas as palavras da «Atéia Zangada» (Greta Christina): precisamos buscar a precisão para evitar armar o inimigo.

A falta de clareza a que me refiro está no emprego de um termo carregado de simbolismos religiosos para algo que de forma alguma está relacionado a imaginar um Velho Barbudo no Céu que criou tudo e dirige nossas vidas. Nossa língua é rica o bastante para possuir uma quantidade bastante variada de termos que se prestam a isso, sem que precisemos abusar da palavra «crença». Se for para dizer que achamos que algo está certo, poderíamos usar verbos como «concluir», «supor», «achar», etc. Nunca «crer». Infelizmente a palavra «crença» está de tal forma contaminada pelo uso em contextos religiosos que qualquer tentativa de retirá-la de lá será contraproducente, só servirá para confundir a todo mundo, religiosos e ateus, sobre o que realmente pensamos. Greta Christina expressou este dilema de forma quase lapidar:

É impossível evitar que os religiosos deturpem nossas ideias. É impossível evitar que os religiosos ponham palavras em nossas bocas e finjam que dissemos coisas que claramente nunca dissemos e que não pensamos. Mas não temos que ajudá-los a fazer isso.

Portanto, o primeiro grande equívoco de Gaboardi é empregar um termo ambíguo em um texto dirigido a um público amplo e leigo, que não tem conhecimento das sutilezas envolvidas.

Prove-me que Estou Errado

A mais extraordinária das colocações feitas por Gaboardi em sua série de artigos (emprego este adjetivo por amor de ser educado) é esta aqui, na abertura da segunda parte:

Este argumento costuma acompanhar a conversa sobre o ônus da prova: cabe ao teísta provar qualquer coisa, o ateu não precisa provar nada, o ateu supostamente não tem crença alguma e não faz afirmações extravagantes. Chamo esta confortável posição na qual o ateu tenta se colocar de comodismo argumentativo, terei mais a dizer sobre ela nas partes finais deste ensaio, por ora o que posso adiantar é que ela é desastrosa para o ateísmo.

Acho muito imprópria a preocupação de Gaboardi com a suposta comodidade da posição ateísta. Existe, de fato, uma grande comodidade em estar assentado sobre alguma medida de ceticismo e racionalidade em vez de fazendo malabarismos verbais para justificar sua crença em entidades nunca evidenciadas. Se o ateísmo está em uma posição cômoda, isso é problema dos teístas, não dos ateus.

Uma das bases da epistemologia, ou seja, da filosofia subjacente ao método científico, que produziu este computador através do qual você me lê, é que não é necessário provar uma negação, a menos que a afirmação correspondente tenha sido inicialmente demonstrada. Rejeitar este princípio remove a melhor ferramenta que temos para discernir entre o que é fantasia e o que é interpretação válida da realidade. Sem empregarmos o princípio do ônus da prova, não temos como descartar a afirmação feita por uma criança segundo a qual existe um dragão na Lua, a menos que tenhamos meios para fisicamente subir até lá e procurar dentro de cada cratera. Não custa lembrar que descartar o argumento da criança pura e simplesmente é uma falácia: o argumento da respeitabilidade, ou da idade (argumentum ad verecundiam).

Então, somente devemos crer naquilo que puder ser demonstrado. Enquanto indemonstrado, um conceito é apenas um conceito, uma ideia, uma hipótese, mera «achologia». Não existe nenhuma justificativa lógica para promover a inversão do ônus da prova: mesmo quando se trata de provar que um conceito está errado, o que se faz é provar que outro conceito está certo. Por exemplo: quando se descartou a física aristotélica (aquela dos Quatro Elementos) isto se fez pela demonstração da existência de uma grande variedade de elementos diferentes. Não se provou que Aristóteles estava errado senão através da proposição de uma explicação funcional que era incompatível com sua visão.

Existem, porém, duas formas através das quais os teístas escapam desta limitação lógica. A primeira é induzindo o incauto a aceitar que o conceito de Deus já está demonstrado pela crença recorrente há tantos milênios. Existem dois erros lógicos graves envolvidos nesta acepção: o primeiro é o argumento pela antiguidade, segundo a qual as ideias vão se tornando verdadeiras à medida em que se tornam antigas, e o segundo é a confusão entre a crença na existência e existência propriamente dita. A segunda forma é o recurso às «provas lógicas da existência de Deus», cujo corolário foi obtido por São Tomás de Aquino.

Imagino que Gaboardi nunca imaginou (ou nunca pretendeu) que sua distinção especial ao conceito de Deus rendesse homenagem a estas duas estratégias teístas típicas. Mas é isso, de fato, o que ele faz. Preocupado com a posição cômoda do ateu diante da crença do religioso, ele reivindica para a filosofia a tarefa anômala de provar que Deus não existe. Como tal prova não pode ser obtida, conclui que o ateísmo é uma crença. Três observações importantes devem ser feitas neste ponto:

  1. Fica evidente que quando o autor fala que ateísmo é crença ele quer dizer «crença-crença» mesmo, e não «crença opinião» ou qualquer outro conceito filosófico. Crença enquanto aceitação de algo que não pode ser racionalmente demonstrado.
  2. Para concluir que a inexistência de Deus não pode ser provada, o autor ainda recorre a outro truque argumentativo, que bem poderia ser classificado como «sofístico»: o ceticismo absoluto justificado pela inaplicabilidade da prova lógica. 
  3. Em momento algum de sua exposição o autor explica porque o conceito do Deus monoteísta merece a distinção de ser aceito a priori pela filosofia.

Afirmo que a segunda parte da argumentação de Gaboardi (e talvez todas as outras) se baseia em sofismas vazios porque o autor supõe que se possa empregar a lógica formal estrita para provar um conceito tão fugidio quanto o de Deus. A conclusão de que a impossibilidade de se falsear Deus usando a lógica implica em que o ateísmo é uma crença está perigosamente perto do limite do argumentum ad ignorantiam, a falácia lógica que afirma que o fato de não haver evidência contrária é uma prova em si contra a proposição inicial.  Ainda que o conceito de Deus fosse suficientemente delimitado (e não é) e falseável (idem), a falta da demonstração contrária nada diz sobre a validade ou não deste.

Tão absurda é a exigência de tal prova que o autor admite (como não o faria) que não se pode sequer provar que temos perna ou que porcos não voam. Não podemos porque os fatos naturais não estão sobre controle estrito da lógica matemática e podem, frequentemente, ser acidentais ou irrepetíveis. As ciências naturais buscam o fenômeno, para derivar dele suas teorias, o que é diferente da sofística, que busca as teorias, para enfiar o mundo dentro delas. Ainda mais que o autor não percebe dois equívocos que comete ao mencionar o conceito de prova.

  1. Não percebe que a afirmativa negativa de que exista um número maior que todos os outros se baseia num axioma (o de que os números naturais são infinitos) e que números são conceitos abstratos, desprovidos de existência real (diferentemente de coisas que existem ou deveriam existir).
  2. Afirma (e nisso sim temos uma crença) que se pode provar que não é possível existir um homem com oito metros de altura. Neste caso o erro é novamente a falácia do apelo à ignorância: não se observou ainda um homem com oito metros de altura, mas não se pode descartar que possa vir a existir um (e se ele pode vir a existir, é possível que já exista agora, apenas incógnito).

A manipulação do conceito de prova aplicado ao conceito de Deus resulta em prejuízo da racionalidade e da lógica, pois não se pode aplicar um método matemático para analisar fenômenos existenciais.

Mas, Porém, No Entanto, Todavia...

EXISTEM evidências lógicas que amparam a inexistência de deuses. Estas evidências são amplamente conhecidas de todos, apenas não são por todos interpretadas como tal. A compreensão de tais evidências surge quando nos perguntamos qual é, essencialmente, a diferença entre crer em Deus ou no Monstro Voador de Espaguete (no original fica ambíguo se a propriedade de voar pertence ao espaguete ou ao monstro que é feito dele).

Normalmente as pessoas educadamente distinguem o Monstro como uma criação deliberada de um único indivíduo, em tempos recentes. Isto implica em negar que os deuses das religiões foram inventados um dia, por indivíduos. Implica em admitir alguma forma sobrenatural de descoberta destes conceitos. «Deus é diferente» porque não o vimos nascer.

Ocorre que a evolução dos conceitos de Deus pode ser acompanhada de forma até clara pelos estudos históricos, analisando os livros sagrados (ou não) desde a remota antiguidade. Isto é uma evidência forte de que Deus foi progressivamente desenvolvido como um conceito cultural (tanto assim que há concepções diferentes de divindade em cada cultura). Não há nenhum requisito de fé para esta constatação, a menos que se resolva duvidar do conteúdo dos próprios livros sagrados e negar a validade das próprias Ciências Sociais como um todo. Devido ao alto para se descartar a evidência da historicidade de Deus, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o ateísmo não é uma «crença» no sentido em que as diversas formas de teísmo o são.

Elaborando um pouco mais, podemos dizer que a própria historicidade do conceito de Deus é prova da má fé da argumentação teísta, pois as sucessivas redefinições do conceito nada mais são do que estratégias ad hoc para manter a crença, mesmo diante da refutação parcial apresentada pela ciência. É por isso que Deus vai progressivamente se afastando de nós, de uma presença diuturna e imediata na antiguidade, presidindo cada relâmpago, à sua inefabilidade atual, que chega a ser classificada por teólogos mais argutos como uma «existência além da existência». O nome dessa estratégia é «mudança de meta» (em inglês, moving the goalposts, uma metáfora futebolística) e consiste em redefinir os critérios de forma a impedir que sejam refutados. É uma variação da falácia terminológica, que consiste em redefinir as definições de forma a impedir a refutação.

Conclusões

O ateísmo é um fenômeno cultural muito complexo. Devido à multiplicação dos conceitos de deuses, é natural que pessoas diferentes entendam o ateísmo também de forma diferente. Porém, mesmo que algumas pessoas efetivamente «creiam» (no sentido de crença-crença) que Deus não existe, isto não torna o ateísmo em si uma crença. Primeiro porque o ateísmo não se limita a um posicionamento quanto à existência de divindades, mas inclui um estilo de vida e um conjunto de valores (variáveis ambos, de pessoa a pessoa) derivado de não se crer em Deus. O próprio agnosticismo não é incompatível com o ateísmo e muitos ateus de fato se identificam como agnósticos apenas porque não desejam expor-se a manipulações sofísticas como a tentada por Gaboardi. Richard Dawkins, por exemplo, se diz «agnóstico», mas é difícil imaginar que alguém possa ser mais descrente do que ele hoje em dia. Contrariamente ao que muita gente pensa, agnosticismo não é ficar «em cima do muro» quanto à possibilidade de existência do Velho Barbudo do Céu.

Em outras oportunidades voltarei a abordar o tema, notadamente depois que Gaboardi publicar a nona parte de seu ensaio.

Xinforínfolas

O que aprendi com as discussões dos últimos dias é que a motivação por trás da manutenção da definição de “ateísmo” como “ausência de crença” é realmente política ou social, e não crítica ou reflexiva. Fosse crítica e reflexiva, seria fácil mostrar onde está meu erro — Gregory Gaboardi, em um tópico do Bule Voador.

Pois muito bem, Gregory. Vamos partir para esta tarefa. O post vai ser longo, mas espero que valha a pena. Ontem saí deste debate deixando uma pergunta que ninguém se dignou a responder. Não lamento que alguns a tenham ignorado, porque ela foi especificamente dirigida a outros. Outros como você, especificamente. Para os que não querem voltar e ler a pergunta, repito-a: Você crê na inexistência de xinforínfolas?.

Pode parecer uma pergunta idiota (e na verdade é), mas quando você troca “xinforínfola” por “Deus” você pode começar a entender aonde quero chegar. O problema está no fato de que, pelo caldo cultural em que fomos cozidos, acreditamos (isto, sim, é uma crença) que Deus é um conceito “dado”, ou seja, é um termo definido e pronto para que nos posicionemos diante dele, contra ou a favor.

Podemos detectar nesta presunção uma falácia clara de inversão do ônus da prova. Quem considera “Deus” como um conceito fechado está fugindo da obrigação de defini-lo e transfere para os demais, os que rejeitam o conceito, a obrigação de negar o que sequer foi proposto. Muito embora seja possível falsear uma negativa, neste caso a inversão do ônus da prova é falaciosa (e até arrogante) porque não está previamente acerta se o termo significa o mesmo para os dois lados do debate. Um conhecimento básico de filosofia nos ensina que o debate é um diálogo de surdos quando não se estabelece a terminologia que será empregada nele. Se eu suponho que “pau” significa “pedra” e não conto para você que estou pensando assim, você ficará incapacitado para compreender o que estou falando. Não definir um conceito é como blefar com uma mão ruim no pôquer e recusar-se a mostrar as cartas quando um oponente paga para ver.

Os proponentes do enunciado “Deus existe” não possuem, na maioria das vezes, uma definição do que seria “Deus” e boa parte deles também não consegue explicar em que consistiria a “existência” de tal ser. Se chamarmos de “Deus” a um ser mitológico que tem a função de oferecer exemplos arquetípicos para a transmissão de valores, até um ateu empedernido concordará que “Deus existe”, se a “existência” for definida como abundância de registros ou comprovação de que há ou houve pessoas que acreditavam na realidade de tais seres. Não creio que haja muita controvérsia, portanto, na minha afirmação de que só é possível debater a validade do enunciado acima se houver um consenso quanto ao significado de ambos os termos, tanto o substantivo quanto o verbo.

Em um episódio do Chaves (seriados mexicanos também ensinam filosofia), o professor Jirafales lhe pergunta o que ele desenhou e o Chaves, exibindo um monte de rabiscos, diz que desenhou uma xinforínfola. E ainda acrescenta: “Não ficou parecida?” O desconcertado professor se abstem de comentar. Agnosticamente, alguém diria.

Ocorre que uma xinforínfola é algo que só existe na cabeça do Chaves, não sendo possível, portanto, que o professor saiba se ficou parecido ou não o desenho. Se o Godinez também resolvesse desenhar uma xinforínfola, o desenho poderia ficar muito diferente, mas ele poderia dizer que estava “parecido”. O único que poderia discordar com autoridade seria o Chaves, que imaginou a xinforínfola primeiro, mas ele não teria como provar a dessemelhança, pois para isso teria que descrever a xinforínfola, com o que ele poderia fazer com que seu desenho fosse demonstrado como “não parecido”. Para poder ainda dizer que desenhou parecido, ele teria que ignorar a xinforínfola do Godinez (no mundo real ele poderia iniciar uma guerra santa para apagar do mundo a ideia concorrente ou apregoar-se como seguidor da Xinforínfola Verdadeira).

Historicamente as religiões evitam definir os seus deuses, partindo do pressuposto de que o senso comum já o fez. O livro do Gênesis começa a narrativa da criação dizendo que “no princípio a terra era sem forma e vazia e o espírito de Deus pairava sobre a face das águas”. Não há nenhuma definição profunda de Deus, de espírito ou de que águas se está falando. Presume-se que a ideia de um caos aquático original era conhecida do leitor, que espíritos e deuses são conceitos universalmente entendidos e que o cenário é adequado para o que se pretende mostrar. Seria como começar uma história do cangaço dizendo que “no tempo dos Tenentes o capitão Virgulino, o Lampião, atemorizava os sertões com sua valentia.” Este enunciado é equivalente ao primeiro verso do Gênesis em termos de ambiguidade: não se diz quando foi o tempo dos Tenentes, quem era Virgulino, porque tinha o apelido de Lampião, o que seria um sertão ou de que classe de valentia se está falando. Todos esses conceitos devem fazer parte do imaginário do leitor, ou serão gradualmente apreendidos por ele à medida em que for lendo esta e outras histórias de cangaço. Assim se fez a Bíblia, assim se fez historicamente o conceito de Deus.

Para quem está de fora, só restam tres alternativas racionais: ignorar as xinforínfolas, invalidá-las como “desenhos” avaliáveis ou acatar a palavra do Chaves e do Godinez e tentar imitar os desenhos deles. Com esse colorido (mas desbotado) episódio pretendi demonstrar a fraqueza da posição teísta. Espanta-me que se tenha desenvolvido um tortuoso caminho de argumentações lógicas para validar xinforínfoulas e as pessoas acabaram aceitando que simplesmente existem, mesmo sem ter visto nenhuma e mesmo não tendo uma definição se são animais, vegetais, minerais, artefatos ou alguma outra coisa. A posição racional diante de alguém que crê em xinforínfolas é descrer, no sentido de não aceitar esta ficção, não sem uma evidência ou, pelo menos, uma definição. Porém, dependendo do que se pensa ser uma xinforínfola, esta definição pode ser dada exatamente de forma a impedir que evidências sejam buscadas.

Não aceitar a existência de xinforínfolas não é “crer” que não existem, pelo simples fato de que não há dados que justifiquem a validade da hipótese. Desde quando temos de levar a sério as piadas toscas de um comediante mexicano que se vestia de moleque aos cinquenta anos de idade? Por que devemos levar a sério crenças surgidas entre nossos antepassados das cavernas? Deus não é um conceito “dado” simplesmente porque as pessoas sempre acreditaram nele. Durante milênios as pessoas sempre acreditaram que o Sol girava em torno da Terra, e não obstante quem gira é ela. Cada religião possui a sua xinforínfola particular e nós, que achamos graça disso, temos de aturar sermos chamados de “crentes” por rejeitarmos esse embuste?

Penso que o grande problema está na tradução. Traduttori, tradittori, dizem os italianos. O termo que se usa em inglês não tem acepção primordialmente religiosa. Tanto que se usa o termo religious belief para diferenciar a belief ordinária da belief do crente. Em português, sempre se teve “crença” como um termo religioso (talvez por causa da indigência da filosofia luso-brasileira) e só mais recentemente se introduziu o conceito como um termo filosófico.

Devido ao fato de nossa vida cultural — e principalmente filosófica — ser colonizada, nos deparamos com os bloqueios da língua para entender os argumentos dos filósofos e os nossos tradutores ainda inventam besteiras, como Ego, Super-Ego e Id para traduzir aquilo que Freud chamara de Ich (Eu), Überich (Super-Eu) e Es (Isso). Enfim, difícil a coerência quando nos deparamos com barreiras tais.

A natureza de toda esta polêmica foi cultural — e não filosófica. É claro que, sob um ponto de vista estritamente filosófico, e apropriando crença como uma tradução 1:1 de belief (o que não é verdade), podemos dizer que, sob certo ponto de vista e para algumas pessoas, o ateísmo é uma crença. Penso, porém, que não é e nem pode ser uma “crença na inexistênciab, mas sim uma crença na invalidade da proposição do conceito de Deus. A crença que se manifesta no ateísmo não é quanto a Deus, mas em critérios que permitam racionalmente excluir a possibilidade de existência de xinforínfolas…

O ponto central do agnosticismo, que só fui entender melhor lendo Russell, é que não existem conceitos privilegiados, que devamos necessariamente considerar dignos de apreciação. Ou os conceitos são exprimíveis em termos objetivos (ainda que incrivelmente complexos a ponto de só poucos poderem entender) ou então eles são irrelevantes. Não podem ser provados falsos, mas isso não é uma força de tais conceitos, mas sua incomensurável fraqueza.

Qualquer xinforínfola que eu imagine é absolutamente infalseável, você jamais saberá dizer se meu desenho ficou parecido ou não. A única diferença entre uma xinforínfola e Deus é que nós sabemos quem e quando inventou a ideia de xinforíncula — e com que objetivo (meramente fazer rir) — mas não sabemos quem e quando inventou a ideia de Deus. Será que devemos considerar o conceito “Deus” como privilegiado em relação ao de xinforíncula só porque é muito antigo?

Acredito que Siddharta nos deu uma boa resposta quanto a isso.

Porque Devemos Evitar o Termo “Revisionismo”

O termo “revisionismo” não deve ser jamais utilizado em uma discussão sobre História. Há três boas razões para isso.

  1. O termo é uma ofensa a qualquer historiador, pois sugere que revisões do conhecimento histórico estabelecido são raras, que as teses dos historiadores estão, de alguma forma, solidificadas. Nada é mais distante da verdade: poucos campos do conhecimento humano são mais aberto a controvérsias do que a História. Até mesmo o ponto de haver quem negue o caráter científico da História justamente por essa amplitude das discussões. Falar em “revisionismo” como se fosse algo especial é passar atestado de ignorância sobre a natureza e os procedimentos da História enquanto campo do conhecimento humano.
  2. O termo, em si, é uma falácia. Nenhum pesquisador deve (ou deveria) eleger um método como o objetivo de seu trabalho. Tal como o objetivo do médico é curar, e não operar. O historiador não tem obsessão de “revisar”, mas de obter o conhecimento mais próximo possível da “verdade” (seja lá o que for que ele tome como tal). Alguém que se diz “revisionista”está colocando o questionamento como uma finalidade em si, independente de qual seja o objeto do estudo. Não deve ser assim: devemos estudar o objeto e revisar as teorias a partir dos dados coletados. Uma atitude “revisionista” está para a História assim como o criacionismo está para a Biologia: parte-se de uma necessidade a priori de questionar o estabelecido e busca-se indícios que justifiquem este questionamento, não com o objetivo de propor uma teoria alternativa, mas de demolir a explicação existente. Revisionistas são como criacionistas. O que quer dizer que eles são necessariamente ignorantes, falaciosos ou picaretas.
  3. Existe um grupo de pessoas que propõe o revisionismo com objetivos nada louváveis: aquelas pessoas que querem remover do racismo e do anti-semitismo o opróbio que justamente lhes caiu em cima como consequencia do horror da Segunda Grande Guerra. Querem remover esta mancha a fim de poderem novamente difundir estas ideias. Portanto, para evitar de ser associado a estas pessoas, ou de indiretamente dar fôlego aos seus movimentos, você deve evitar usar esta terminologia específica, que eles sequestraram para si.

Tendo dito isto, respondo à sua pergunta: existem inúmeros documentários sobre o revisionismo do Holocausto. Poucos campos do conhecimento histórico são tão bem documentados (com filmes contemporâneos inclusive). Existem várias controvérsias envolvendo o que aconteceu nos campos de concentração, interpretações díspares, dadas por pessoas que variam da extrema esquerda (historiadores soviéticos inclusive) à extremíssima direita. Há controvérsias quanto ao número efetivo de mortos (estimativas variam entre três e treze milhões), à percentagem de judeus no cômputo destes mortos (há quem defenda que os judeus eram minoria nos campos de concentração, embora ainda fossem o grupo mais numeroso) e até mesmo ao modus operandi dos campos de concentração.

O que não existe é alguma teoria que consiga explicar a imensa massa de documentos (filmes, fotos, depoimentos) de outra forma que não reconhecendo a existência de um Holocausto. Já ficou comprovado que algumas pessoas se aproveitaram do Holocausto para ganho pessoal, mas isso é da natureza humana: recentemente se descobriu que os políticos de Teresópolis andavam abocanhando 50% das verbas de reconstrução da cidade e deixando as obras para depois (mas, apesar disso, ninguém está afirmando que as chuvas foram uma invenção deles para obter verbas federais volumosas em que pudessem “mamar”). Já ficou comprovado, também, que boa parte dos verdadeiros responsáveis pelo ocorrido jamais enfrentou a Justiça pelos seus atos: fugiram para a União Soviética, para os Estados Unidos, para a Argentina, para o Paraguai, para o Brasil, para a Austrália, para a Finlândia ou para outros lugares. Os guardas que foram presos nos campos de concentração eram em sua maioria jovens oficiais deslocados para lá pouco antes da chegada dos aliados: bodes expiatórios quase todos.

Sabe-se também que os aliados cometeram crimes de guerra. O bombardeio de Dresden não é algo de que a Grã Bretanha se orgulhe, por exemplo. E não vou nem falar das obscenidades cometidas pelos americanos contra os japoneses no front oriental, motivadas por um racismo tão profundo e odioso quanto o anti-semitismo alemão. Sabe-se também que Stálin foi bastante pior do que Hitler, sob quase todos os aspectos (exceto quanto a eleger um povo específico para bode expiatório, Camarada Ióssif acreditava em “oportunidades iguais” para o Gulag…).

Portanto, boa parte daquilo que os “revisionistas” bradam como se fosse a descoberta da pólvora são coisas que a História já sabe muito bem. Este discurso deles só encontra apelo entre os ignorantes, pois quem estuda História tem uma compreensão muito mais ampla do assunto. Justamente por isso, é preciso abolirmos o uso desta palavra nos debates sobre a Segunda Guerra, deixá-la somente para os ignorantes. Pois quando recorremos a ela, damos sem querer uma credibilidade que neonazis não merecem.