Acabou a Era das Revoluções

Feliz era o tempo em que se podia gritar que “o povo unido jamais será vencido”. Não só porque foram inventadas centenas de maneiras de dividir o povo; cada uma apropriada para um tipo de indiferença, egoísmo ou medo que exista no mundo; mas também porque vencer o povo já não gera as mesmas reações de antes. Houve um tempo em que, pelo menos, as pessoas podiam contar que o mundo encararia com universal opróbrio aqueles que afogassem em sangue a insatisfação popular com seu governo.

Mas tudo mudou depois que os Estados Unidos empregaram todo tipo de chicanas jurídicas para tornar ilegal o protesto do movimento Occupy Wall Street e, posteriormente, com a bênção de um judiciário recheado de conservadores, soltar os cachorros sobre os pacíficos manifestantes de uma maneira não muito diferente da repressão chinesa contra a seita Falun Gong. O mundo foi poupado de cenas emblemáticas como o “tank man”, mas isso foi mais pela censura à cobertura jornalística mainstream.

Um pouco antes, a ida de multidões às ruas do Egito fora vista pelo mesmo governo americano como algo alvissareiro, os protestos dos jovens líbios, uma prova de coragem. Depois que o OWS foi dissipado por meio de gás lacrimogêneo, balas de borracha e bombas de efeito moral, curiosamente mudou o tom das manifestações ianques sobre os continuados protestos egípcios, surgiu uma cautela curiosa quanto aos protestos sírios. Esperava-se um silêncio ensurdecedor sobre outros protestos.

Agora que a Turquia está tendo o seu próprio movimento de ocupação popular, em protesto contra um regime que se torna cada vez mais autoritário, os Estados Unidos falaram baixo, por meio de um funcionário de terceiro escalão. Falaram apenas para cumprir o script, porque não poderiam falar muito alto. Não depois de reprimirem manifestações populares, criarem o maior sistema de espionagem interna em tempos de paz que jamais se teve notícia, não depois de manterem por mais de uma década uma prisão ilegal onde são mantidos sem julgamento cidadãos suspeitos de crimes cometidos em outras jurisdições.

A assustadora perda de legitimidade moral pelo governo dos Estados Unidos é algo que deveria causar grande preocupação. Muitas vezes, a autoridade moral é eficaz para prolongar a paz, para costurar acordos, para promover o bem comum. Mas na falta de qualquer autoridade moral, resta apenas a autoridade das armas, e é bem possível que estas tenham de ser usadas com cada vez mais frequência.

Com a falta desta autoridade moral, os Estados Unidos não servem mais de exemplo positivo para o mundo. Em verdade, os países de tendência autoritárias tendem a exatamente imitar o que os EUA fazem: reprimindo manifestações, como na Turquia, criando redes internas de espionagem, como na Rússia e no Irã, criando acusações sem fundamento contra opositores ideológicos, e outras formas mais insidiosas. Em vez de ensinarem ao mundo sua democracia, os Estados Unidos agora ensinam a destruir a democracia. Felizes éramos nós no tempo em que eles apenas eram hipócritas, e praticavam fora de suas fronteiras coisas diferentes do que faziam em casa: ainda podíamos olhar para dentro deles e ver virtudes imitáveis. Hoje as virtudes deles parecem bem menos significativas. Acabou a hipocrisia, porque no fundo eles já não diferem. Restou só o discurso, mas de belos discursos não se faz melhor o mundo.


Quinta Coluna em Festa: Morreu o Líder Simbólico da Autonomia Latinoamericana

Desde imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial, mas muito mais intensamente depois que o Brasil entrou no conflito contra o Eixo, era costume nossa imprensa chamar de «quinta coluna» o conjunto dos simpatizantes do inimigo que existiam no seio de nossa própria sociedade. Inicialmente o texto tinha um cunho ideológico, e se referia, por exemplo, aos integralistas (cuja ideologia tinha muitos pontos de contato com o fascismo), mas logo adquiriu um teor racista, servindo para atacar os imigrantes alemães, austríacos, italianos e japoneses, bem como seus descendentes. A quinta coluna era temida pela sua capacidade de «atacar de dentro» no caso de início de hostilidades, mas também pelo potencial de incapacitarem o país, seja sabotando suas forças armadas, seja paralisando seu processo político rumo a uma «neutralidade» útil ao inimigo.

A origem do termo não é nobre. Foi cunhado pelo general falangista Emilio Mola, que lutava contra o governo republicano durante a triste Guerra Civil Espanhola. Mola afirmou à imprensa que a marcha de suas quatro colunas de soldados sobre Madrid seria facilitada pela atuação de uma quinta coluna, formada por simpatizantes civis localizados na cidade. De fato Madrid caiu rapidamente, obrigando o governo republicano a refugiar-se em Barcelona na fase final da guerra.


No Brasil o termo passou a ser menos usado após a redemocratização porque durante um longo período de tempo uma outra encarnação da quinta coluna existiu e atuou entre nós de forma contínua, estendendo-se até os dias de hoje: o conjunto dos assalariados e dos simpatizantes da principal potência mundial do século XX. Interessada em limitar a autonomia dos países que reivindicava como sua zona de influência, esta potência patrocinou não dezenas, mas centenas de golpes de estado e regimes de exceção. Entre os países do hemisfério ocidental, somente o Canadá as colônias europeias remanescentes escaparam da sanha golpista dos Estados Unidos.

Alguns regimes patrocinados por Washington foram especialmente odiosos, como a ditadura guatemalteca implantada em 1954 para impedir uma reforma agrária que afetaria o suprimento de banana ao mercado americano e que teve como resultado uma guerra civil com centenas de milhares de mortos e um regime que permitiu a inoculação proposital com sífilis e outras doenças de milhares de crianças, que viveram vidas miseráveis em consequência. Algum dia a História mencionará este episódio com o mesmo horror com que menciona os massacres promovidos pelos conquistadores espanhóis ou, séculos antes, pelos romanos contra os dácios.

Outros regimes amigos dos americanos ficaram famosos por suas demonstrações ostensivas de ódio aos símbolos da cultura e da democracia, como a ditadura chilena, que executou o cantor Víctor Jara como um espetáculo num estádio de futebol, diante de dezenas de milhares de opositores presos que esperavam sua vez, e cujo chefe posou de óculos escuros, uniforme militar e botas de cano alto, com os pés sobre a mesa do escritório da presidência.

Estas interferências sobre a América Latina sempre foram favorecidas pela presença de uma quinta coluna integrada por simpatizantes ingênuos, enganados pelos valores da Revolução Americana, ou elites que se locupletam às custas do povo, em conluio com o grande capital. Isto não é ideologia, é História. E nem é História marxista: a maior parte dela foi escrita por autores americanos. Se você duvida, só lamento sua ignorância. Vá estudar.

Esta história de subjugação de todas os projetos nacionais latino americanos começa ainda no século XIX, quando foi importante a contribuição da diplomacia americana para a dissolução da República Federativa da América Central, inspirada na Argentina (daí as cores azul e branca das bandeiras da maioria dos países resultantes de sua dissolução) e com capital inicialmente na Guatemala, posteriormente em São Salvador. Correu ao longo de mais de 150 anos, perpetuando a dependência econômica e tecnológica destas nações, que já enfrentavam sérios problemas de identidade nacional e pobreza.

 A corrupção natural destes países herdeiros de um tipo perverso de colonização aliou-se aos interesses do poder hegemônico no hemisfério, impedindo que as limitações originais fossem rompidas, mantendo um status quo de exclusão da maioria do povo, sem esperança de melhora. Líderes nacionais legítimos, inspirados no interesse de trazer progresso e liberdade para seus compatriotas, sempre morreram nas mãos de forças militares aliadas aos Estados Unidos, quando não pagas, armadas, treinadas e inspiradas em centros de formação como a Escola das Américas, na Zona do Canal do Panamá.

Alguns destes líderes são particularmente emblemáticos, como os principais líderes da Revolução Mexicana (Francisco Madero, Pancho Villa, Venustiano Carranza e Emiliano Zapata) e Augusto Sandino, porque sua luta sempre foi nacionalista, jamais comunista ou avessa à ordem internacional. Era natural que um homem como Sandino se revoltasse contra a ocupação estrangeira do território de sua pátria da mesma forma como a Resistência francesa contra a invasão nazista ou os irlandeses na Revolta da Páscoa. Mas ele foi morto por uma “Guarda Nacional” a soldo de uma elite vendida aos interesses estrangeiros, e o mandante do crime logo se tornou o “presidente” de mais um regime amigo, a cruel ditadura da família Somoza. E essa foi a tônica da reação ao nacionalismo latino americano: tachado de banditismo por um critério praticamente racista, negador do direito do povo à autodeterminação no quintal da superpotência.

A dificuldade da via popular revolucionária, exceto por fatos isolados, como a Revolução Cubana, abriu espaço para os regimes reformistas, que tentaram implantar de cima para baixo a libertação econômica e social. Um dos primeiros exemplos, em uma época na qual os EUA ainda não projetavam tanto a sua sombra sobre o continente, foi Hipólito Yrigoyen, fundador de um partido que existe até hoje e de uma estabilidade que levou a Argentina a um status de país quase desenvolvido. Posteriormente esta figura, originalmente associada ao caudilhismo platino, se transformou no presidente “populista” encarnado por figuras como Getúlio Vargas, Juan Domingo Perón, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Juan Velasco Alvarado, Omar Torrijos-Herrera e outros.

O populismo era uma tentativa de produzir efeitos positivos para a nação de uma maneira controlada, sem recair em uma revolução aberta, que atrairia a imediata ira americana. Populistas implantavam reformas cautelosas, com o cuidado de não ameaçar frontalmente o status quo. Estas reformas, por sua timidez, não eram suficientes para atiçar uma vingança ianque de seus interesses negados, mas por alcançarem tímidas mudanças no equilíbrio de poder no nível local, criavam forte rejeição nos setores elitistas, a tal quinta coluna sempre a serviço do imperialismo norte americano, que muitas vezes pediram (e muitas vezes obtiveram) o apoio dos EUA para iniciativas locais de mudança de regime. Um dos bons exemplos disso pode ser encontrado na sucessão de eventos que desembocaram no golpe militar brasileiro de 1964.

A Era das Ditaduras Militares — o período da história latino americana entre 1954 e 1990, caracterizado pela simultaneidade de diversos governos liderados por forças armadas conservadoras muito influenciadas por doutrina americana — terminou com a transferência do poder para anêmicos regimes civis, que tiveram de enfrentar a pesada herança deixada pelas ditaduras: o legado da violência institucional e a deterioração econômica como resultado da subjugação do interesse nacional ao que mais tarde se chamou de “Consenso de Washington”, criado na esteira do thatcherismo e das políticas neoconservadoras republicanas implementadas por Ronald Reagan nos EUA. Por causa da “crise da dívida” (causada pelo endividamento irresponsável das ditaduras), esses regimes civis, invariavelmente, tentaram levar às últimas consequências o receituário liberal de abertura de sua economia aos interesses americanos (ou até ao favorecimento do estrangeiro em detrimento do nacional), produzindo desastrosas consequências desestabilizantes. Isto levou a conflitos sangrentos, como o Caracaço de 1989 (revolta dos venezuelanos contra o presidente Carlos Andrés Pérez) ou os distúrbios da Argentina ao longo dos anos 1990, até o governo Kirchner.

O fracasso do neoliberalismo é fruto de seu sucesso: ao conseguir implementar, no todo ou na maior parte, aquilo que era preconizado pelo Departamento de Estado americano e pelos órgãos “multilaterais” (como o FMI, o Banco Mundial e a OEA) onde imperava a vontade dos EUA, esses regimes levaram seus países a becos sem saída, de onde não era mais possível avançar e as elites locais não admitiam nenhum recuo. Esta situação produziu, em alguns lugares, os distúrbios sociais de que a década de 1990 foi pródiga. Isto produziu uma polarização política nunca antes vista, mesmo em países onde nunca estourou uma violência política aberta (caso do Brasil), fenômeno que se desenvolveu em ritmo diferente em cada país.

A instabilidade foi marcante em países como o Equador (que teve mais de uma dezena de presidentes a partir de 1990) e a Argentina (que chegou a decretar uma moratória unilateral da dívida externa), mas não deixou de afetar os países tradicionalmente moderados, como o Brasil (que sofreu com o aumento da pobreza, a ocorrência de apagões e a perda de infraestrutura por desinvestimento após privatizações mal dirigidas durante o governo FHC).

Nesse contexto, a emergência de lideranças populares democráticas (que, diferentemente dos caudilhos e da maioria dos presidentes populistas do passado, derivaram seu poder de eleições livres) representa o maior fato novo na história latino americana desde o início da hegemonia americana sobre o continente, consolidada no final do século XIX. Hugo Chávez foi o pioneiro, ao se erguer sobre a insatisfação difusa do povo contra medidas econômicas duras e ineficazes, tomadas por pressão americana. Seu “populismo” consistiu, basicamente, em ouvir o povo e tentar dar-lhe voz, coisa que os seguros presidentes não populistas tentavam evitar fazer. Na visão direitista, sempre hegemônica na América, do extremo norte ao extremo sul, o povo não sabe o que quer, não deve ser ouvido e o seu benefício, caso sobrevenha, deverá ser apenas o inevitável efeito colateral do crescimento geral do “bolo” da economia (cujas fatias mais largas são concentradas em poucas mãos). Qualquer tentativa de governar para o povo merece um rótulo depreciativo, que, dependendo do reacionarismo da fonte, variará de “populismo a “comunismo, passando por “demagogia” e “socialismo”, incluindo sobrenomes como “irresponsável”, “arcaico”, “irrelevante”, “autoritário”, “ditatorial”, “atrasado” etc.

É difícil imaginar o surgimento de governos populares democráticos, como os de Lula, no Brasil, de Kirchner, na Argentina, de Vázquez, no Uruguai, de Lugo, no Paraguai, de Morales, na Bolívia, de Toledo, no Peru, de Correa, no Equador e até mesmo de Ortega, na Nicarágua e de Zelaya em Honduras, sem ter em mente o sucesso eleitoral de Hugo Chávez (desde que obteve metaforicamente a cabeça de Pérez, através de seu impeachment). Chavez foi a vanguarda, foi quem tateou os caminhos, quem tentou primeiro. Foi o primeiro a dizer “não” aos Estados Unidos e sobreviver ao golpe inevitável, que sempre sobrevém aos tão ousados (sobreveio a Correa, a Morales, a Lugo e a Zelaya, sendo que os últimos dois não conseguiram resistir). Montado na mídia, que manipulou como poucos, demonstrando rara capacidade para entendê-la, construiu uma figura semimitológica e obteve, através de suas reformas cada vez mais inclinadas ao socialismo, um alto grau de aprovação popular. Tudo isso, principalmente o fato de ter servido de modelo e inspiração para vários outros líderes latino americanos, justificaram a ira de sucessivos governos ianques contra si e seu governo.

Foi acusado de todos os adjetivos normalmente empregados pela direita, desde os mais antigos: caudilho, populista, ditador, comunista. Em seus momentos de maior ira, seus inimigos chegaram a atirar-lhe insultos raciais (em alusão ao fato de ser mestiço com sangue indígena e negro) e nunca cessaram de torcer por sua morte (que, no entanto, não tiveram a ousadia de providenciar durante os dois dias em que o tiveram sob seu poder, durante o golpe de 2002). O diagnóstico de câncer foi festejado por todas as elites do continente. Sua sincronicidade com a ocorrência de outros casos, como os de Lula, Kirchner, Lugo e Morales (e também da então ministra Dilma Rousseff) motivaram uma acusação de que talvez o serviço secreto americano estivesse por trás disso, de alguma forma. Acusação improvável, mas não exatamente absurda, tendo em vista casos recentes e comprovados de envenenamento por causas políticas envolvendo o ex presidente ucraniano Viktor Yushenko e o dissidente político russo Aleksandr Litvnenko.

Na sua luta desigual contra o golias do norte, Chávez cometeu equívocos os mais diversos, mas teve dois grandes sucessos: produziu mudanças duradouras no sistema político venezuelano, que não poderão ser revertidas integralmente por nenhum futuro governo, e inspirou casos análogos em diversos países vizinhos. Países que darão sustentáculo ideológico e econômico ao seu sucessor, impedindo que o boicote estadunidense impossibilite a continuidade. Chávez sai da vida para entrar para a História, tal como outros antes dele: a glória do nome dos que se levantam em nome do povo costuma durar mais do que a infâmia dos quinta colunas, que lambem os coturnos da potência estrangeira que os despreza (os presidentes haitianos não podiam frequentar os clubes mantidos em Porto Príncipe pelos embaixadores e militares americanos, pois não eram brancos). Existirá futuramente um “chavismo”, tal como existem o “varguismo”, o “peronismo” e outros ismos oriundos de figuras populistas do passado.

Os que celebram hoje sua morte se esquecem de que as ideias não morrem junto com os homens que as preconizam. Sopram ventos de mudança ao sul do Río Grande, a antiga potência já não consegue controlar tão bem o seu quintal. Os povos latino americanos estão começando a acordar de seu medo ancestral, não temem mais que sua reivindicação de justiça seja respondida por um recrudescimento da injustiça. Reformas foram feitas pela via democrática, legitimando-as perante a comunidade internacional e removendo a desculpa para a intervenção.  Antigas desavenças foram superadas e países antes adversários passaram a cooperar, mesmo que, em alguns casos, houvesse a necessidade de transigir, como o Brasil transigiu perante a Bolívia e a Argentina e como o Equador transigiu perante o Peru. Existe uma oportunidade real de mudança, que pode trazer, em um futuro não muito distante, um maior grau de autonomia, civismo e prosperidade para os que não são brancos o suficiente para nadarem na piscina do colonialismo light que impera desde o fim da II Guerra.

Quando isso acontecer, a memória de Chávez terá a estatura de um Bolívar. Não custa lembrar que o homem que inventou a liberdade da América crioula também foi traído por quinta colunas. Morreu no exílio uma morte celebrada pelos que detestavam a liberdade. Mas seu nome paira como uma sombra acima da América do Sul, como um ideal que não morre. Agora que Chávez morreu, ele se tornou imortal: ninguém jamais matará o mito.

Porque Critico o «Movimento Ateu»

Eu não sou ateu conservador e nem teísta mas vejo mal a militância ateísta. Vejo mal no sentido de que ela quase não aparece, e quando aparece aparece mal. E aparece mal porque, em vez de unir-se em torno de projetos comuns, ela se divide em torno de interesses conflitantes. Como aliás tudo nesse país e nesse mundo: vivemos numa era na qual os partidos e os movimentos optam entre serem grandes ou serem duradouros. A única coisa que permanece é o poder do capital, esse sim unido em sua coerência agressiva e egoísta, que não precisa de bandeiras e nem de partidos.

A militância ateísta está mal de várias formas, variadas maneiras. Está mal quando coloca a não existência de divindades como ponto central. Deveria colocar os valores racionais e humanistas. Está mal quando identifica na religião organizada o seu inimigo. Deveria identificá-lo na superstição difusa e nos cultos improvisados com o único objetivo de ganhar dinheiro e controlar o poder. Está mal quando provoca, em vez de convencer. Está mal quando choca, em vez de conscientizar. Está mal quando ataca, em vez de reivindicar. Está mal quando se propõe como uma elite, mostrando excludente quando devia procurar agregar. Está mal quando rotula, em vez de tolerar.

Há momentos nos quais a militância ateísta me parece fundamentalista, bolchevista, jacobina, cruzadista. Fundamentalista porque se aferra ao cientifismo e ao positivismo lógico como valores inquestionáveis (revelando uma miséria filosófica que deveria causar vergonha alheia a quem lê). Bolchevista porque ataca os setores moderados que procuram soluções negociadas. Jacobina porque se propõe a um ataque desenfreado contra a ordem estabelecida, mesmo sabendo que esse frenesi de "terror" não seria duradouro. Cruzadista porque se acha detentora de uma verdade que precisa ser ensinada ao mundo.

E há momentos em que é nazista também, julgando povos e pátrias (inclusive a nossa) segundo estereótipos para justificar posicionamentos absolutamente ideológicos (como o neoliberalismo ou as ideias de Ayn Rand).

Estes setores do movimento ateu escolhem seus «papas» e «pastores» informais (Richard Dawkins, Neil de Grasse Tyson) e os canoniza após a morte (Christopher Hitchens, Nietzsche, Ayn Rand). Certas obras são lidas como se fossem quase bíblias.

É difícil dissociar esse comportamento do que se chamou de «neo ateísmo» porque, em essência, esse comportamento se caracteriza por transformar o ateísmo em um movimento, em uma militância. Antes do neo ateísmo não havia ateísmo militante, havia apenas ateísmo, sem sobrenome. Não havia necessidade de uma taxonomia dos ateus (ou uma Goécia, como um místico católico julgaria mais irônico).

Não custa lembrar, ao fechar este breve ensaio, que o termo «movimento ateu» é apenas um modo de dizer e não se refere a um movimento real e organizado, da mesma forma que «movimento roqueiro», «cristianismo» ou o maldito «sistema» que a tantos assusta.

A Desimportância da Política na Sociedade Moderna

Aristóteles considerava a política uma atividade tão importante que aceitou ser preceptor de Alexandre o Grande, na esperança, talvez, de criar um rei filósofo que levasse a luz da Hélade aos bárbaros. Nunca se saberá exatamente em que estava pensando quando aceitou o emprego. Possivelmente apenas em dinheiro, visto que, na qualidade de «estrangeiro» (da maneira muito peculiar com que os gregos usavam este conceito), era o máximo a que poderia aspirar em uma cidade.

Para dar cabo de sua tarefa, ele escreveu uma obra que fundou uma ciência. Ao longo dos séculos muitos outros pensadores continuaram elaborando teses e conceitos sobre as maneiras pelas quais os senhores e os servos interagem naquilo que hoje em dia chamamos de «sociedade». Verifica-se, porém, um empobrecimento conceitual desta arte no século XX, de certa forma simultâneo ao crescimento do prestígio de um outro campo do conhecimento: a economia.

O que se observa é que não parecem haver muitas ideias políticas relevantes em debate no mundo de hoje. O último grande suspiro da ideologia foram os fascismos: de lá para cá o que se acompanhou foi a decadência do socialismo real, a doença e a eutanásia do Estado de Bem Estar na Europa e sucessivas crises que paralisaram o debate político em torno do ditado da economia. Quando Francis Fukuyama, em um infame ensaio datado de 1989, aventou a possibilidade do «Fim da História», ele não se baseou nos desdobramentos da política, mas no que ele julgava ser a inexorabilidade dos valores econômicos capitalistas.

O triunfo da economia veio acompanhado do triunfo da máquina sobre o homem e do exército sobre o povo. A máquina, ao simplificar o processo produtivo e diminuir a necessidade de treinamento do operário, atuou como um fator destruidor sobre o sindicalismo, que era uma base política popular. O sindicalismo «de resultados» se impôs, aceitando jogar pelas regras ditadas pelo patrão, inclusive medindo o seu próprio sucesso segundo os parâmetros do opressor. Sindicato melhor é aquele que propicia mais ganhos econômicos.

Ao instrumentalizar o sindicato de forma a torná-lo apenas uma ferramenta para negociar reposições salariais, o sistema econômico capou a possibilidade de uma revolução vinda da esquerda. O resultado disso foi o aparelhamento do Estado que aconteceu quando o sindicalismo se elegeu. A ideia de que seria possível fazer uma revolução por dentro, aderindo ao sistema, solidificou e hierarquizou o movimento sindical, a ponto de os peões de chão de fábrica terem uma relação tão distante com os seus líderes quanto os apaniguados dos coronéis tinham no passado. No capitalismo plenamente desenvolvido até mesmo a dissensão é um serviço público.

O triunfo do exército sobre o povo é o mais perigoso de todos. Com armas tão poderosas quanto as que foram inventadas para a Segunda Guerra Mundial (a Grande Guerra Mitológica do Século XX, como a chamarão os historiadores de um século futuro, se não formos extintos antes), o povo tornou-se apenas um detalhe. Um regime consegue perfeitamente massacrar a oposição e assegurar-se no poder. A única coisa que impede isso é o caráter do governante, que pode desejar honestamente uma reforma da sociedade, como Gorbachev, ou ser tão inepto que não tenha a coragem de assumir o ônus do massacre, como muitos ridículos ditadores terceiero-mundistas. Sobre o caráter do governante atua, obviamente, a mídia democrática e as instituições internacionais. Se estas deixarem de existir, nada impedirá que um regime se livre de alguns milhões de habitantes a fim de assegurar a obediência do resto.

A imprensa livre e as relações internacionais foram os trunfos que Gandhi utilizou para fazer sua oposição não violenta ao Império Britânico. Por mais que os britânicos tenham errado em outros lugares, ou por mais mérito que Gandhi tenha amealhado, o sucesso da luta não violenta contra a ocupação da Índia é algo de que um dia os descendentes dos britânicos se orgulharão. Certas derrotas são profundamente significativas. E o Império Britânico escolheu deixar a Índia para não ter que matar milhões. Certamente porque o povo em casa não aceitaria isso, ainda que os indianos não fossem brancos.

Nos anos sessenta a imprensa livre alimentou os protestos contra a Guerra do Vietnã, que os EUA poderiam ter vencido com algumas bombas atômicas e umas dezenas de milhões de mortos que «não fariam falta» na visão dos falcões de Washington. Hoje em dia a imprensa livre parece fraquejar, também ela abraçada pela economia. Os jornais têm cadernos inteiros falando de ações, mas não parecem capazes de analisar o que se passa no restante do mundo.

Dois sinais preocupantes da derrocada da política diante da economia podem ser observados nas crises de 2008 e 2011, tão recentes e já tão assimiladas. Em 2008 a crise se impôs sobre o mandato do primeiro presidente negro americano e castrou sua tentativa de ser diferente. Inaugurou-se com medidas superlativas do que antes criticara: mais déficit, mais dívida, mais transferência de recursos ao setor privado. Em 2011 a crise, habilmente refletida para a Europa pela magia negra do mercado que confia mais no culpado do que nas vítimas, derrubou dois governos eleitos (ainda que ineptos) e impôs governantes biônicos rejeitados pelas populações de Grécia e Itália.

Que o «mercado» (responsável pela crise) tenha eleito homens de sua confiança para geri-la, isto nos diz da profundidade da decadência da política. Mas o pior é que não parece haver nenhum caminho para resgatá-la. A revolução aconteceu, tanto na Grécia quanto na Itália, mas foi abafada com jatos d'água, gás lacrimogêneo e prisões. Aconteceu também nos EUA, onde, além de tudo isso, sofreu a oposição de uma maioria que se sintonizou com o discurso da opressão. No mundo de hoje, a medida da decadência da política está na facilidade com que as revoluções podem ser abortadas ou ignoradas.

A menos que ocorram no Terceiro Mundo, pois ali é possível inventar intervenções e proceder a bombardeios, fazer bloqueios e criar grupos títeres para conduzir mudanças controladas ou nem tanto. E ali também, não custa lembrar, os Estados costumam não ser tão bem protegidos contra seus cidadãos.

No exato momento em que escrevo isto está em discussão no Congresso dos EUA uma lei que permitirá ao presidente ordenar a prisão sem julgamento, por prazo indeterminado, de qualquer suspeito de atividade terrorista ou antipatriótica. Uma lei como esta deveria existir somente em ditaduras, mas… ainda podemos considerar como democracia um país cuja política é bipartidária, discursos alternativos são marginalizados ou até criminalizados e um presidente eleito com um programa bem definido é forçado a abdicar dele depois de tomar posse? E se os Estados Unidos, detentores da maior capacidade bélica, não puderem mais ser considerados uma democracia, quem tipo de futuro haverá para ela?

Não Escreverei uma Elegia para Muammar

Muammar Khadafi (ou seja lá como se escreve) foi morto. Não chorarei por ele nenhuma lágrima de crocodilo. Nenhuma vela merece ser queimada por tal defunto. Acredito que é sempre uma alegria para a humanidade quando um ditador encontra seu destino “nos braços do povo”, tristeza é quando um monstro desses rende o espírito confortavelmente deitado em uma cama, ao lado da família e assistido por um doutor. O mundo precisa que mais ditadores acertem as contas com o povo, exemplos deprimentes como Idi Amin Dadá (que ganhou um exílio de luxo na Arábia Saudita, com suas várias esposas e os milhões que roubou da miserável Uganda) ou Francisco Franco (que recebeu extrema unção da Santa Madre Igreja e teve luto nacional decretado) tornam o mundo um lugar pior. Ditador não pode morrer de morte morrida, mas de morte matada.

Espanta-me que certas pessoas, entre elas a Excelentíssima Senhora Presidente de nossa República, encontrem uma tortuosa maneira de lamentar que tenham esticado as canelas do Muammar (vou chamá-lo assim por uma questão de praticidade, aproveitando que não lhe devo respeito algum): “isso não significa que a gente comemore a morte de qualquer líder que seja”, diz a Senhora Rousseff, que teve o meu voto útil, mas não tem o meu apoio quanto a esta declaração. Teria Dilma empregado as mesmas palavras em reação ao espancamento (seguido de enforcamento) de Benito Mussolini pelos partigiani em 1945? Teria ela reservado esta simpatia para o vampiro Nicolae Ceausescu, julgado e executado ao vivo na TV pelo povo da Romênia? Por uma questão de coerência, sim.

Ver matarem um ditador sanguinário, que ordena que sua Força Aérea ataque com metralhadoras antitanque uma manifestação do povo, não é algo que se deva lamentar. É um bom exemplo para a humanidade que massacrem o Muammar, joguem pedra no Muammar. Muammar é a Geni desse mundo onde ninguém ousa tacar pedra nos grandes ditadores. Chutar cachorro de rua é mais fácil do que desafiar o pitbull do pitboy filho do empresário milionário. Vocês, que estão lamentando, gostariam que o Brasil tivesse dado asilo a Muammar? O que estariam dizendo da Dilma se ela abrisse as portas de uma mansão no Lago Sul para receber o sujeito? Muammar morreu, antes ele do que eu. Muammar se fodeu, e mereceu.

Claro que isto, porém, não significa que a morte do Muammar resolve todos os problemas da humanidade. Ainda tem muita ditadura por aí, algumas bem disfarçadas por eleições a prazos regulares e uma salutar rotatividade entre os que se sentam na cadeirinha. Um bom teste para uma democracia é ver se você tem o direito de não gostar do governo. E este anos nos tem mostrado que é mais fácil protestar nas “ditaduras” sanguinárias no que em certas democracias exangues.

Claro, também, que a morte de Muammar não foi um gesto bonito. Para um movimento que começou evocando Gandhi e Martin Luther King, com jovens vestindo jeans e cantando slogans quase flower power pelas ruas, a Revolução da Líbia terminou como uma guerra civil suja, comandada por gente com mais de trinta (não custa lembrar que em uma revolução de verdade os jovens não devem, nunca, confiar em alguém com mais de trinta [anos de carreira]) e com brutais batalhas e linchamentos que vão deixar cicatrizes por um longo tempo. Mais do que o mal feito ao Muammar, o episódio, entre outros anteriores, causou muito mal ao sofrido povo da Líbia. Não sei quem disse isso, mas se ninguém disse eu digo agora: você morre também a cada vez que mata alguém. Os tiros dados no Muammar (bem feito, canalha) atingem também a legitimidade da Revolução, que ficou parecendo uma bagunça sádica conduzida mais por vingança do que por sede de justiça. Não nego aos líbios o direito de quererem vingança. Todo mundo tem esse direito, especialmente quando se vive uma espécie de Lei da Selva. Mas a justiça sempre é mais bonita do que a vingança.

Os Professores Não Devem Ser “Anastasiados”

« Primeiro eles o ignoram, depois o ridicularizam, depois reagem violentamente, e então você vence. » (Gandhi)

O que governo de Minas Gerais está fazendo com os professores da rede estadual de ensino é uma queda de braço tal como a de Margareth Thatcher com os mineiros de carvão no início dos anos 80. Ele está disposto a deixar tudo quebrar e depois por a culpa nos grevistas. Thatcher não hesitou em desmantelar toda a indústria de mineração britânica a fim de esmagar o sindicalismo. Talvez o governador pense em desmantelar definitivamente toda a educação no estado a fim de definitivamente subjugar os professores.

Ele não vai ceder porque sabe que, se ceder, terá aberto um precedente e outros que ganham salários inconstitucionais em outros lugares do Brasil também se revoltarão. Por isso, por debaixo dos panos, ele deve receber os mais diversos apoios. Os meios de comunicação, por exemplo, estão com ele.

Por toda parte houvem-se vozes roucas culpando os professores de “irresponsabilidade” por ousarem conduzir uma greve de noventa dias. Ninguém acha irresponsável um governo que paga um salário abaixo do devido ou que trata seus funcionários da forma que ele trata. A mídia manipuala a opinião pública e faz a massa teleguiada acreditar que os professores “não estão pensando nos alunos” como se sessenta dias sem aulas fossem piores do que duas décadas de abandono por governos deliberados em sucatear o ensino a todo custo.

Os professores estão, sim, pensando nos alunos. Pensam em ganhar salários melhores a fim de poderem dedicar-se integralmente ao magistério. Dependendo de quanto ganhem, não precisarão de dois cargos e poderão dedicar mais atenção às suas turmas. Desta forma, os alunos terão professores menos desgastados e que terão tempo e dinheiro para reciclar-se. Sem falar que bons salários atraem bons profissionais. Pagando o que se paga nesse país ao magistério, os governos parecem dar o recado de que desejam que as pessoas competentes e ambiciosas escolham outras carreiras, que professor é profissão de perdedor. Já houve um governador desse estado, de triste memória, que disse que o problema das professoras era serem mal casadas.

E sempre tem os idiotas de plantão dizendo que os professores são egoístas, sugerindo que estão sendo “mercenários” ao fazer uma greve tão longa por dinheiro. Mercenária é a mãe de quem diz isso. Até na Bíblia está escrito que é justo que o trabalhador receba seu salário. Não tem nada desse negócio de que o magistério é um sacerdócio. Nem sacerdote trabalha de graça. O magistério é uma profissão como outra qualquer: ninguém está ali para fazer caridade, mas para ganhar a vida. Claro que é uma profissão importante e que tem um papel fundamental no futuro do país, mas não deixa de ser meio de vida para os profissionais que a ela se dedicam.

Eu não gosto da ideia do magistério como “sacerdócio” por uma segunda razão também: quem aceita trabalhar por um péssimo salário em nome de um “sacerdócio” é porque serve a algum interesse. Ou está ali meramente para fazer proselitismo religioso, ou para doutrinar politicamente os alunos, ou… Deus nos livre… para alguma atividade que nem ouso dizer o nome. Ou ainda porque não consegue coisa melhor na vida, então o magistério “serve”. É um absurdo supor que o magistério seja uma profissão de refugo, e é isso que a atitude do governador parece sinalizar. Porque se ele conseguir o que deseja, haverá um grande êxodo de cérebros do professorado. Concurso tem todo dia, e muitos professores talvez pensem em buscar outra carreira ondem ganhe mais, COMO FIZ EU.

Quem não está "pensando nos alunos" é o governo neoliberal, que paga péssimos salários, contrata qualquer um, efetiva gente sem concurso, impõe uma pedagogia ineficaz, não investe em qualidade do ensino, etc. E ainda culpa os professores pelo que é uma estratégia deliberada do estado: impedir que o povo se eduque nas escolas públicas. Afinal, todo mundo sabe que os representantes do atraso são inimigos da escola.

A greve dos professores é justa. Tanto o é que nenhum tribunal conseguiu julgá-la ilegal. Ilegal é o governador querer que os professores, que têm nível superior, trabalhem por um salário menor que o de profissões de nível fundamental. É revoltante saber que um gari ganha mais que um professor. Isto significa que o governo dá uma importância excessiva ao lixo, ou então que trata as crianças como lixo.

Justamente por ser formador de opinião o professor não pode aceitar ser feito de besta pelo governo. Quando o professor aceita ser humilhado ele rebaixa a sua classe e desavaloriza a educação. Desta forma, ele deixa de ter moral para dar exemplo aos alunos, para falar-lhes sobrea importância de educar-se. Na impossibilidade de conseguir o que está sendo buscado, o professor tem que abandonar a profissão, deixar as escolas às moscas, sem quem lecione. Talvez aí, quando os pais de alunos estiverem nas ruas fazendo panelaço porque a escola está sem professor, talvez então o governo aumente o salário para atrair profissionais.

Só que isso é um absurdo, e eu tenho vergonha de dizer isso. Será necessário sacrificar uma geração para que nossos governantes cumpram seu papel? Não é melhor a geração sacrificar os governantes? Será que as revoltas via Twitter e Facebook só servem para derrubar ditadores cafonas do Oriente Médio? Acho que, mesmo sem ser árabe, nosso país está precisando de um pouco de revolta. De vez em quando, para o cérebro da classe política pegar no tranco, é bom uma boa dose de gente na rua protestando, quebrando fachadas, queimando ônibus, jogando ovos em autoridades, etc. Às vezes eles reagem mandando a polícia atirar no povo, mas, a longo prazo, eles perdem, como disse bem dito um cara que ousou organizar protestos de milhões contra uma minoria, um idiota qualquer chamado Gandhi, antes que me chamem de idiota por ter escrito o que escrevi.

Pondé e a Frustração Como Defeito de Caráter

Em seu recente atentado polêmico via Folha de São Paulo, o “filósofo”1 Luiz Pondé tratou de atacar as interpretações da esquerda para o fenômeno recentemente ocorrido na Grã Bretanha, e o fez empregando um discurso tão reacionário que não pode restar dúvida alguma do lado em que se situa: Pondé cruzou o limite que separa esquerda e direita.

A dicotomia esquerda/direita é um pouco mais complexa do que normalmente se entende — e diferente. Ela é anterior ao marxismo, de forma que reduzir esquerda e direita a uma rusga entre socialistas e burgueses é impróprio. Esquerda e direita são situações diferentes em face de um mecanismo que perpassa toda a História: a luta de classes.

Historicamente a Direita se coloca ao lado do status quo, dos donos do poder, das estruturas tradicionais, enquanto a esquerda se coloca ao lado dos rebeldes, dos excluídos do poder, das estruturas inovadoras. Assim é desde a Assembleia Constituinte, na Revolução Francesa. O marxismo só se tornou importante na esquerda porque era uma ideologia “nova” e surgida entre os “excluídos”, com o objetivo de dar-lhes objetivo comum. A direita também produziu suas ideologias para consumo do povo.

Ao longo do tempo a direita desenvolveu-se como uma criatura sem rosto definido, escondendo-se atrás de inúmeros estratagemas: democracia cristã, ruralismo, liberalismo, partidos agrários, nacionalismo, nacional-socialismo, civilismo, tea party, chauvinismo, democracia liberal, irredentismo etc. A esquerda possui muitas afirmações discordantes. A direita possui um grande “não”, que cabe em qualquer forma que atenda às preferências dos afiliados. A direita diz “não” ao compartilhamento do poder. A direita diz “não” à descolonização, à república, à democracia, à igualdade, ao sufrágio universal, ao voto da mulher, ao secularismo, ao internacionalismo, à reforma agrária, ao salário mínimo, ao ensino público, à assistência médica, às férias, à aposentadoria.

Cada uma destas conquistas hoje usufruídas pelos trabalhadores do mundo todo foi arrancada das mãos crispadas da direita, a custa de greve, paulada da polícia, demissões de pais de família, guerras civis, assassinatos políticos, revoluções, duas guerras mundiais etc. Nos países onde o “esquerdismo” foi menos atuante as conquistas sociais dos trabalhadores surgiram mais lentamente: caso dos Estados Unidos, onde, porém, a falta destas garantias foi por muito tempo mascarada pela prosperidade generalizada, conquistada pelo império em expansão, tal como a Antiga Roma, que conseguiu ter seu pão e circo durante a era da Pax Romana.

Em resumo, sem os “chorões” da esquerda, você não teria férias, não teria salário mínimo e não votaria. Você provavelmente seria analfabeto ou semiletrado, sua mulher não poderia ter emprego fora de casa, a igreja mandaria em você e seus filhos só poderiam estudar com os padres. Você não poderia ficar doente para não perder o emprego e nunca se aposentaria.

Considerando tudo isso, acredito que o mínimo que a esquerda merece é um pouco de respeito. Porém, se tal for concedido, o debate não existe, pois em essência a direita é o próprio mal personificado. A direita nada mais é do que o conjunto das estratégias múltiplas empregadas pelos que detêm o poder econômico e político a fim de evitar que qualquer dos dois seja dividido com mais gente. Nesse sentido, claro, o PCUS se tonara a direita na União Soviética das últimas décadas, ao apoderar-se de todos os instrumentos do Estado e criar uma nova oligarquia, a tal nomenklatura de que tanto se fala. Fato que provou, já nos anos 80, que debater esquerda e direita como sendo marxismo e liberalismo não era correto. Desta forma, vê-se não há um maniqueísmo simplório aqui. Direita e esquerda não são círculos definidos, mas borrões de tinta que se mesclam sobre o papel.

Depois de tão longa — e exaustiva — introdução, chegamos ao caso. Para os alto-falantes da direita, o que houve na Grã Bretanha foi pura balbúrdia protagonizada por arruaceiros jovens e mimados. Uma estratégia comum dos argumentos direitistas é isolar os fatos, considerando que só porque duas coisas aconteceram em lugares diferentes, ou separadas por algum intervalo de tempo, elas se tornam automaticamente “outras coisas”. Somente quando a negação seria um atestado de burrice é que o direitista admite a existência de fenômenos globais. Infelizmente a recíproca é verdadeira: o esquerdista tende a ver em tudo um padrão e explicar tudo como parte de um sistema. A verdade, como preconizava Buda, está no meio. O que aconteceu na Grã Bretanha é parte de algo maior, mas também é parte de algo muito próprio daquele país, embora conectado a outros fenômenos.

Houve precedentes. Teve o “tea party”, um movimento insuflado pela direita nos EUA e que logo sugeriu à juventude de milhares de lugares do mundo que era possível organizar-se e exigir mudanças no governo. O próprio “tea party” foi precedido pelo movimento que derrubara o inepto governador da Califórnia e abrira caminho para Arnold Schwarzenegger tornar-se político (o que ele, aliás, foi com certo brilhantismo). Nesse caso o “protesto popular” insuflado pela mídia fora uma estratégia republicana para “tomar a Califórnia”, estado tradicionalmente progressista.

Houve também as revoluções coloridas da Ucrânia, da Geórgia e da Sérvia, todas curiosamente derrubando ditadores e implantando regimes pró-EUA. Tem dedo da CIA nisso, claro. Mas o fato de ter dedo da inteligência americana não tira a legitimidade das conquistas, pois quem foi lá protestar, lutar, morrer, foram os respectivos povos destes países. Não se faz revolução sem povo, e nem sem um pretexto.

Depois a “primavera árabe” que, por sua vez, deu frutos em novas revoluções, que saíram de qualquer controle e começaram a ameaçar regimes leais aos americanos. Rugiram protestos em países que nem eram árabes (como a Armênia, a Espanha e a Grécia), motivados pela crise econômica que deriva, por sua vez, da gastança dos magos financeiros de Wall Street, criadores da crise de 2008, aliada às gastanças e irresponsabilidades de seus respectivos países. E a revolução bateu às portas da Grã Bretanha, o cão de guarda americano nas portas da Europa.

E então a direita se espanta, chega a falar em abolir os instrumentos através dos quais a revolta se espalhara, medida análoga aos atos de desespero de um Hosni Mubarak ou às interferências que os soviéticos faziam nas transmissões em ondas curtas da Voz da América. O ocidente não é democrático por convicção, mas por conveniência e por costume. O preço desta liberdade limitada de que se desfruta é a eterna vigilância. Por isso a direita precisa inventar uma forma de desqualificar o movimento, e nada é melhor para isso do que detectar na indignação que gera a violência um motivo fútil, talvez vil.

É verdade que os saques a lojas foram parte importante do que aconteceu no Reino Unido, tanto quanto a queima de retratos foi importante no que aconteceu na Líbia. A violência se dirige contra símbolos concretos porque não como bater ou destruir conceitos abstratos como “ditadura”, “exclusão”, “falta de oportunidades”, “humilhação”, “ignorância” etc. Atacar um símbolo é uma maneira válida de marcar uma posição. Os próprios direitistas sabem disso, uma vez que são eles que mais recorrem aos símbolos para arregimentar as massas: bandeiras, hinos, emblemas, uniformes, efígies, heróis, fronteiras, muralhas, palácios. Quando os americanos entraram no Iraque, “derrubaram” Saddam Hussein metaforicamente, pondo abaixo uma estátua numa praça de Bagdá. Demolir aquele monumento foi um ato gratuito no contexto da guerra? Dificilmente um comandante americano concordaria. Da mesma forma, depredar uma filial da Harrod’s pode não ser um ato gratuito no contexto de outra guerra — a luta de classes.

Tal como a estátua de Saddam, os templos do consumo servem como mostruários de poder. Ninguém ousava sequer olhar torto para a estátua, numa sociedade civilizada ninguém toca na vitrina frágil de vidro que contém o bem caro, que somente pode ser adquirido por uma minoria. Existe uma contenção imaterial que impede que a rejeição se consume em um ato. Esta contenção, no caso de Saddam, era o puro medo da represália, no caso das democracias ocidentais, é a ideologia. Somos educados desde a infância a assumir papeis e a conformar-nos assim. Entre eles está o que a direita chama de “princípios morais”. Estes são, basicamente, o que permite que uma minoria influencie a maioria. Princípios morais fazem com que centenas de pessoas escutem com atenção o que um senhor senil e de cultura geral pouco abrangente diz no alto de um púlpito a respeito de um tema do qual não entende. Princípios morais fazem com que o trabalhador aceite ser humilhado pelo contramestre contratado pelo seu patrão.

Mas existem situações nas quais os princípios morais se partem, e a sociedade parece entrar em frenesi. Para Pondé isso acontece porque subitamente centenas, milhares de pessoas se tornam mimadas e imorais. Não há tensões acumuladas ao longo de décadas, acionadas por um pretexto que pode até ser insignificante ou equivocado. A História, segundo a interpretação típica da direita, é formada inteiramente por episódios sem causas, isolados entre si, liderados por heróis necessários ou bandidos.2

Em essência, o estopim não pode ser usado como medida do valor da explosão que causa: sabemos que o vendedor de frutas tunisino sonegava impostos, mas achamos bonita a revolução que causou, e “feio” o ditador que tentou censurar a internet para segurar seu poder. O que diferencia o vendedor de frutas tunisino do jovem morto pela “civilizada” polícia inglesa são as leis: as leis da Tunísia não são leis legítimas, são brutais, ditatoriais, obscuras. Já as leis inglesas são ótimas e perfeitas. A lei tunisina que criminalizava o vendedor de frutas não “valia”. Mas o costume britânico que marginalizou e criminalizou o jovem suburbano tem mais valor que um livro da bíblia. Não querendo defender as leis feitas por uma ditadura, não custa lembrar que a Grã Bretanha não tem sequer leis escritas e sistemáticas e que a sua “Suprema Corte” é formada integralmente por “lordes”.

Então, para não ter que admitir que a explosão de violência não reflete uma tensão anterior, a direita faz ginásticas. Para a direita, Rodney King era apenas um motorista bêbado que reagiu à prisão e o que aconteceu em Los Angeles nos anos 90 foi algo inexplicável. Para a direita, o jovem Mark Duggan era apenas um bandidinho que merecia mesmo ter morrido e a violência urbana britânica foi algo que surgiu assim do nada, somente podendo ser explicada por defeitos morais ou pela falta de iPads.

1Sobre as aspas no "filósofo", eu me refiro ao fato de que neste texto, como em outros, Pondé abre mão do rigor lógico que seria de se esperar de um filósofo. Alguém de currículo respeitável também pode cometer erros bestas, e pode abrir mão da coerência. Um bom exemplo foi o Wilhelm Reich. Se fôssemos julgar por seu currículo teríamos que levar a sério sua teoria do orgônio.

2Muitas vezes isso decorre por causa da grande "miséria da História": o fato de que ela precisa se valer de conhecimentos parciais, sobre parte dos fatos, para tentar explicar as coisas. Se você adicionar níveis extras de conhecimento, nenhum fato é inexplicável, muito embora a explicação muitas vezes esteja mais no plano da história individual de quem o comete do que na história coletiva da sociedade em que está inserido.     O que eu tentei dizer, não sei se cheguei a ser suficientemente claro, foi que fenômenos de massa não podem ser explicados senão através de causas de massa. Um indivíduo pode roubar uma loja por suas próprias carências morais. Uma turba de saque, porém, já exige um tipo adicional de explicação. Se não para o saque em si (que pode ser resultado de carências morais de cada um), para o misterioso e estranho fato de tanta gente ter carências morais e resolver saquear lojas ao mesmo tempo.     Você não acha que isso merece uma explicação melhor do que "todos eles são malvados ou mimados"? Você não acha que o fato acontecido implora a pergunta do "por que há tantos malvados e mimados"?

…E Acreditam nas Flores Vencendo o Canhão

Há um verso de profundo desencanto no [hoje maldito] hino dos “Anos Rebeldes” brasileiros. Ao criticar de forma velada o movimento hippie (e outros movimentos de paz e amor), Geraldo Vandré constatou: “pelas ruas marchando indecisos cordões que ainda fazem da flor seu mais forte refrão, e acreditam nas flores vencendo o canhão.”

Há uma poesia profunda no gesto de entregar flores aos agentes mandados pelo governo para matar você. Rende lindas imagens para os canais de notícias, rende heróis que serão lembrados por décadas ou séculos, mas raramente rende progressos reais — a menos que as flores sejam entregues dentro de um contexto favorável a flores. Há momentos históricos favoráveis ao canhão, e eles são a maioria. Na verdade é apenas por exceção que a flor adquire algum poder.

No seu romance “infantil“ intitulado “O Menino e o Presidente”, o escritor Wilson Rio Apa imaginou um perfume, inventado por acaso por um grupo de crianças, a partir de um laboratório de química deixado por seu falecido avô. Esse perfume tornava as pessoas “legais”, tornava-as empáticas, bem intencionadas, bondosas. Ao perceberem o efeito, as crianças resolvem dar o perfume, embebido em um buquê de rosas, ao Presidente da República. Deve ter custado muita coragem ao autor para escrever isso nos anos 70, plena época de ditadura e torturas. Ainda mais que no livro as crianças, identificadas como perigosos subversivos, são presas, separadas dos pais e mandadas para lugares diferentes do mundo (com a leve sugestão de que elas seriam, na verdade, mortas ou abandonadas para morrer). Linda história infantil, linda lição de moral. Cresci com o trauma de ter lido esse livro. Mas acredito que traumas assim fazem falta, ajudam as crianças e entenderem uma certa noção de valores, que é preciso ser “legal” nesse mundo.

Mas a história do livro, tal como na música, reflete a perplexidade daqueles que esperam vencer com botões de rosa o poder do canhão. Daqueles que acreditam que poder emana do povo e que os soldados são patriotas e não matarão aqueles a quem juram defender. Há momentos em que isso parece dar certo, há momentos em que decididamente isto dá errado. Para cada Gandhi comemorado em selos e idolatrado internacionalmente, há centenas de caras como o anônimo chinesinho de calça preta e camisa branca que enfrentou os canhões na Praça da Paz Celestial, em vão.

O poder do canhão é o de destruir sonhos, é o de implodir ideias. É graças ao canhão que as elites impõem sua vontade. Ninguém imagine que seria vontade do povo fazer certas coisas polêmicas, se o povo hoje internalizou “querer” certas coisas, foi a custa de muito canhão no passado. Como no filme famoso de Stanley Kubrick, chega um momento em que paramos de nos preocupar e começamos a gostar da bomba. É melhor amar à bomba do que ser morto por ela. Ditadores tem seguidores porque os mortos já não seguem ninguém.

Então um belo dia um lindo conto de fadas começa no Oriente: o povo nas ruas, com faixas e cartazes e gritos de guerra. O exército não atira, o governo acaba renunciando. Cria-se um exemplo, logo surge outro. Mas o canhão está lá, dormente. Cedo ou tarde alguém descobre que, afinal, os espinhos das rosas não são temíveis. Então vêm os tanques. Pode ser inútil desespero, como queria Gandhi, mas a violência pelo menos tem o poder de estragar a utopia. O canhão pode, a longo prazo, ser silenciado, mas ele tem pelo menos o poder de destruir o mundo novo que se sonhava e obrigar os sonhadores sobreviventes a uma realidade diferente da que esperavam: uma na qual muitos amigos morreram, muito prejuízo aconteceu e a expectativa de prosperidade evapora deixando atrás de si ruínas, dívidas e solidões.

Em homenagem às vítimas de todas as revoluções, principalmente daquelas que deram errado. Em especial aos mártires da Líbia, primeira classe de rebeldes a enfrentar de mãos nuas a Força Aérea de seu próprio país. Bons tempos aqueles em que se achava absurdo o opressor chamar a cavalaria contra os estudantes.