Apologética e Revisionismo

Tomei hoje conhecimento da existência de um inacreditável blogue revisionista intitulado “Meu Professor de História Mentiu Para Mim”, que se propõe a fazer gracinha acusando o nosso sistema educacional de ser esquerdista.

O artigo em si não precisaria ser respondido, caso ele se limitasse a fazer tal “acusação”, visto que eu acredito e afirmo que existe mesmo tal tendência (apenas uma tendência, infelizmente) e que seria bom se o sistema educacional fosse mesmo esquerdista. Infelizmente o texto precisa de uma réplica pois:

  1. O esquerdismo generalizado do sistema educacional é um mito propagado pela direita: não apenas existem professores de todos os matizes ideológicos como existe uma polí­tica de conformação do sistema educacional aos interesses conservadores.

  2. As críticas que o artigo faz ao esquerdismo são de uma inanidade que ofende, trazendo mais afirmações pala­vrosas do que argumentos construtivos.

  3. O blogue “Meu Professor de História Mentiu Para Mim” é claramente revisionista, e isso é um problema grande.

Digo que ele é revisionista porque, mesmo que “ainda” não tenha começado a falar bobagens contra o Holocausto judeu sob o nazismo, ele tem o cheiro e a cor de um blogue que fatalmente falará disso. Revisionistas são desonestos por necessidade, escrevi sobre isso em 31 de julho de 2011, mas é sempre bom reiterar o que foi esquecido, se é importante: Há sempre novos ignorantes que ainda não sabem que a terra que gira em torno do sol. Então falemos do revisionismo do blogue.

Comecemos repetindo que o revisionismo é, essencialmente, uma falácia de ênfase. “Falácia” é um raciocínio que não segue a lógica. Um exemplo conhecido é “o mar contém água e sal, certos biscoitos contêm água e sal, portanto o mar é um biscoitão”. “Falácia de ênfase” é aquela que deturpa o argumento ao emprestar mais peso a uma parte da frase, de forma que a frase, mesmo correta, expressa o contrário do que está enunciado. Um exemplo é um verso muito infame do Falcão: “Não é verdade que mulher feia só serve para peidar em festa”. Como a segunda parte é enfatizada, as pessoas não atentam para a negação e a frase populariza o conceito de que feia só serve mesmo para peidar em festa.

Digo que o revisionismo é uma falácia de ênfase porque os revisionistas procuram nos convencer de que os únicos que buscam revisar o conhecimento histórico, quando, de fato, ele é continuamente expandido e revisado, inclusive com a ocorrência de frequentes e sensacionais reviravoltas, das quais um forte exemplo é a revisão do papel brasileiro na Guerra do Paraguai, nos anos 1990.

O revisionista não tem nenhum interesse, porém, em outras revisões, só naquelas relacionadas à sua ideologia favorita. Então, se a História não mostra favoravelmente seus heróis prediletos e seus princípios, ele põe em questão a metodologia histórica em si, para criar uma falsa controvérsia, com o objetivo de vender sua ideologia, apesar do que diz o conhecimento estabelecido. Tanto faz se o revisionismo de que falamos está focado no papel do Nacional-Socialismo alemão no que se convencionou chamar de “Holocausto” ou em outra ideologia de outro momento histórico. A mecânica do revisionismo é a mesma.

Os revisionistas possuem, evidentemente, interesses polí­tico: certos setores da direita querem apagar da memória humana os conhecimentos “inconvenientes” que tornam impopular a ideologia que se pretende difundir. No caso específico do nazifascismo, por exemplo, desejam que o povo esqueça que um dos piores crimes de guerra da História só existiu por causa das ideologias de extrema direita. Caso isto não se mostre possível, querem ao menos borrar essa imagem feia, confundir as pessoas quanto aos seus objetivos, ou ao menos argumentar que os crimes nazifascistas não foram tão diferentes de outros grandes crimes ocorridos em épocas anteriores. O “revisionismo” (entre aspas entendido como o revisionismo específico do nazifascismo e do “Holocausto”) faz parte, junto com o criacionismo, o fundamentalismo religioso e a negação do aquecimento global, de um processo ideológico maior: o negacionismo.

“Negacionismo” é a insistência em contestar, por motivos ideológicos ou interesses econômicos, conhecimentos científicos estabelecidos. Diferente de uma simples divergência metodológica ou de opinião, o negacionismo não é propositivo, mas exclusivamente negativo. A estratégia negacionista não é avançar uma teoria diferente, mas divulgar as “falhas” (reais ou supostas) das teorias atuais, para obter o descrédito do método científico. Um bom exemplo é o criacionismo, que procura questionar inconsistências da teoria da evolução para afirmar que ela é inválida, ignorando, porém, os aspectos em que tal teoria é consistente e permite fazer predições. O criacionista afirmará coisas absurdas, como a inexistência de “fósseis transicionais”, mas ignorará o fenômeno da resistência bacteriana a antibióticos.

Ora, da mesma forma que o criacionista questiona a biologia porque esta demonstra que a Bíblia não é factualmente correta, da mesma forma que um “revisionista” não aceita que a realidade ou significância do Holocausto porque ele demonstra que o nazifascismo é monstruoso, da mesma forma que os negadores do aquecimento global difamam a ciência porque ela envolveria uma quebra de paradigma econômico e político; desta mesma forma o apologeta se opõe ao conhecimento histórico: pois este mostra a Igreja e o cristianismo como instituições temporais e falhas, que não estão de forma nenhuma à altura das reivindicações de ascendência moral com que se apresentam ao público.

Algo assim acontece no blogue “Meu Professor de História Mentiu para Mim”. A diferença é que o revisionismo que se vê ali não está, pelo menos por enquanto, focado em negar o Holocausto e justificar o nazifascismo. Em vez disso, o blogue foca na limpeza de uma outra sujeira histórica que incomoda a muita gente por razões ideológicas: o papel do cristianismo (e da Igreja Católica em particular) naquilo que se chama genericamente de “A Inquisição” (que não foi de fato um fenômeno único).

No próximo capítulo, porque a Igreja e a História ficaram em lados opostos.

A Falibilidade dos Homens de Deus

Já faz um bom tempo que a Igreja Católica tem feito o que pode manter na sombra a parte de sua história que não lhe dá orgulho. Papas violentos, ladrões ou devassos; bispos envolvidos em vários tipos de imoralidades e maracutaias; guerras por religião; intromissão em assuntos temporais; dogmas estúpidos; etc. Sucessivas gerações dos príncipes da fé têm compreendido que é melhor botar uma pedra sobre o que passou, dizer que foi fruto de um tempo diferente e que o mundo e a igreja mudaram. Só que já não é tão fácil manter este silêncio no século XXI.

A dificuldade do silêncio explica que vozes se levantem e tentem defender o legado do cristianismo em geral, e o da Igreja Católica em especial. Existem bons argumentos para esta defesa, alguns inclusive brandidos por historiadores irreligiosos. O mais convincente é o argumento do anacronismo: não podemos julgar o passado de uma instituição a partir de nossa ética presente. Tal argumento não é suficiente, no entanto, para os fins religiosos. Uma entidade que se apresenta como detentora de uma ética absoluta (os “mandamentos de Deus”) não se salva com a desculpa de que os seus maus momentos do passado foram fruto das circunstâncias da época. Uma igreja detentora dos mandamentos de Deus precisaria saber o certo e o errado, independente da época. E não adianta dizer que os mandamentos são perfeitos, porém os homens que comandavam a Igreja falharam na missão de implementá-los. Tal afirmativa envolveria admitir que a Igreja é tão boa quanto os seus líderes, ou, em outras palavras, a Igreja em si não é santa e não salva.

Uma igreja que detém o conhecimento da vontade de Deus, e que dele recebeu as chaves do céu e do inferno, não pode, nunca, falhar. Tem de estar certa em todos os seus entendimentos teológicos, e precisa querer e poder implementar aquilo que é certo aos olhos de Deus.

Eis a armadilha na qual a soberba dos príncipes da Igreja a jogaram nos séculos passados. Homens que eram, falíveis e ignorantes, renderam-se ao orgulho e à ambição de poder desmedido, estabelecendo verdades e dogmas que tinham por objetivo consolidar seu poder temporal em um horizonte de tempo imediato. Nunca imaginaram, nem poderiam imaginar, que as transformações do mundo tornariam impossível manter esse conjunto de preceitos ad hoc com os quais subjugaram a humanidade em uma época na qual o conhecimento se mantinha sob o seu controle.

Deixemos que os Mortos Enterrem os Seus Mortos

Dois tipos de pessoas me incomodam neste mundo: as que defendem ideias mirabolantes somente pelo amor de destoarem do consenso, mesmo que tais ideias sejam absurdas, e as que se com­por­tam de forma incompatível com aquilo que proclamam ser. Exemplos do primeiro caso são os adep­tos de teorias minoritárias que resolvem ser céticos em relação ao conhecimento estabelecido, sem aplicar o mesmo ceticismo às teorias que atacam o «sistema». Assim são os que duvidam que o homem tenha ido à lua, os criacionistas, os anarco capitalistas, os últimos stalinistas e os propo­nen­tes do multiculturalismo. Exemplos do segundo caso são mais difíceis de discernir, porque é mui­tas vezes difícil discernir o que pessoas e grupos se propõem a ser. Como não publicam mani­festos nem estatutos, na maioria dos casos somos forçados a julgá-los pelos seus atos aparentes, uma circunstância que faz com que sempre nos acusem de interpretá-los mal. Existem, porém, alguns casos nos quais pessoas ou grupos efetivamente divulgam o que pretendem ser — nesses casos não há nenhuma defesa possível quando pilhados fazendo algo diverso do que consta em seus propósitos formais. A contradição não pode ser explicada senão por desvios éticos ou pela per­versão dos objetivos originais.


Desde 2007 eu venho acompanhando de longe (e com certo receito salutar) as idas e vindas do «movimento ateu» brasileiro. Foi um longo processo de aprendizado, tenho de confessar, e hoje eu sou bem mais sofisticado do que era no começo, graças à convivência com pessoas interes­santes que conheci nos grupos de discussão da Internet, desde antes até dos tempos de Orkut. Estas pessoas me ensinaram pelo exemplo, positivo ou negativo: algumas eu procurei emular, outras serviram como paradigma do tipo de papel que eu não pretendo interpretar. Sábios, tolos, convencidos, idealistas, heróicos, idiotas, attention whores, bebedores de Q-Suco, abraçadores de árvores, excêntricos, quinta-colunas, «gayzistas», criacionistas, organizadores, anarquistas, fundamentalistas, partidá­rios da esquerda ou da direita, químicos, viciados em químicos, historiadores, contadores de histórias, homofóbicos, bichos-grilos, filósofos, randroides, suicidas em potencial, sapatonas, apedeutas, bichas, econo­mistas de apostila, homens de um livro só, ratos de biblioteca, malhadores de ferro frio, esmurra­dores de pontas de faca, ledores de um autor apenas, vagabundos sustentados pelos pais, patri­cinhas, farofeiros, marombeiros, macumbeiros, putanheiros, maconheiros e marinheiros das mais diversas viagens. Toda essa variedade de gente com quem convivi me ensinou alguma coisa. Dentre todas as lições aprendidas, uma em especial: ninguém convence ninguém com argumentos porque todos entram em qualquer debate encouraçados por seus preconceitos, protegidos por uma grossa carapaça de ignorância, que só pode ser rachada a golpes lentos. E ninguém realmente muda ninguém: cada um vai se tornando gradualmente aquilo que pensa em ser. Só pode ocorrer uma mudança de ideia no meio do caminho, e nisso reside a esperança do mundo. Apesar de que a mudança de opinião raramente é para melhor, como dizia o meu avô: o bom ficar ruim basta um escorregão, para o ruim ficar bom, só com uma corda e uma junta de bois.

Enquanto fui aprendendo estas coisas, fui percebendo sucessivas tentativas de controlar a massa crescente de descrentes através de órgãos supostamente representativos da antirreligião ou da irreligião. Regra geral, os líderes que surgiram nesses momentos nunca estavam à altura de quem se propunham a representar — o que parece ser uma maldição da política brasileira, caracterizada por uma quase cacocracia. As figuras mais legítimas no seio do «movimento ateu» nunca avança­ram com a ideia de criar coletivos («igrejas ateístas», como os cristãos costumam chamar a tais iniciativas) e, quando muito, entraram em alguma como seguidores, não como pastores. Cada nova iniciativa parecia mais atenuada e menos focada que a anterior. Eximo-me de mencionar cada uma porque não estou aqui para escrever a história do «movimento ateu», nem para isso estou plenamente qualificado. O que me importa é que todas estas instituições traíram seus objetivos originais por causas as mais variadas, a principal sendo o desejo de agregar suficientes seguidores para ter visibilidade fora da internet.

Não há nenhum problema na ambição de crescer. O problema está em não conseguir discernir a dife­rença entre crescer, inflar e inchar. Ou entre ocupar um espaço e espalhar-se num espaço. Algumas organizações ateístas encontradas na internet possuem defeitos graves, mas têm, pelo menos, a decência de se manterem fieis aos seus objetivos e público originais, adaptando-se gra­du­al­mente à própria evolução de sua liderança, pelo próprio processo dialético de liderar. Outras, como a que passo a comentar, parecem ter posto de lado sua visão inicial e partido definitiva­mente para um compromisso amplo e inclusivo, desfocando a identidade cética presente no começo. Refiro-me, claro, à Liga Humanista Secular e ao seu blog oficial, o «Bule Voador».

O sitio da Liga Humanista Secular já passou por várias encarnações, nem todas de meu conhe­ci­mento, e é bem possível que ele tenha contido originalmente informações além das que hoje posso ver lá. No entanto, se não possui uma página «Quem Somos» na qual se delineie, preto-no-branco, em que realmente está baseada a atuação da LiHS, ainda exibe uma curta descrição que diz: Associação dedicada ao humanismo secular: causas céticas e ciência com valores baseados na ética consequencialista e nos direitos humanos. Ademais, o Bule Voador explica seu nome citando Bertrand Russell:

Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados, em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro.

De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um bule de chá de porcelana girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o bule de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos.

Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice.

Entretanto, se a existência de tal bule de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada.


Não pode haver uma defesa mais enfática do ceticismo e nem um ataque mais eficiente contra o pen­samento religioso e seu modus operandi do que as observações feitas por Russell nestes pará­grafos. Não parece haver nenhuma dúvida de que o «agnosticismo» do filósofo britânico era uma mera precaução epistemológica e que, aos olhos do vulgo, ele seria um paradigma perfeito de ateu, tal como o biólogo Richard Dawkins, que também é agnóstico. Nunca compreendi de onde foi que tiraram que o agnosticismo se contrapõe ao ateísmo. Infelizmente perdi muito e amigos tentando argu­mentar que as pessoas que enxergam tal contraposição e se identificam com ela só estão que­rendo construir um muro sobre o qual possam se proteger da acusação quase ofensiva de ateísmo, ao mesmo tempo em que não conseguem mais voltar ao seio de uma religião pura e simples.

Partindo de tais premissas, o Bule Voador se apresentou a princípio com uma linha de atuação iden­ti­fi­cada com o pensamento racional e laico, embora tenha preferido os termos «humanista» e «secular» para expressar as respectivas posições. No começo pareceu que isto se deveu apenas a uma tentativa de identificação com entidades internacionais que a LiHS dizia representar, como a International Humanist and Ethical Union. Porém algo começou a parecer turvo na água do bule. O primeiro sintoma de que o chá servido pelo Fervoroso estava batizado aconteceu quando o blogue da LiHS abriu espaço para os advocati fidei. O segundo foi a obsessão do «Bule Acadêmico» em negar o caráter cético da posição ateísta, preferindo reduzi-la a uma crença, em artigo que já comentei aqui (e cuja última parte o autor até hoje não ousou publicar, mas estou monitorando).

Não é nada fácil explicar o motivo pelo qual um blogue cético, muito justamente inspirado por uma das mais devastadoras demonstrações do absurdo da crença religiosa que uma mente humana foi capaz de conceber, calhou de convidar pregadores religiosos para «dizerem alguma coisa» através do Bule Voador. Que os religiosos aceitassem era previsível, pois todo adepto sincero faz proselitismo, para poder atrair para o seio de seu rebanho aquele que pasta fora da cerca. O que não faz sentido é que tal convite tenha sido feito por pessoas que deveriam ter entendido a metá­fora do Bule de Chá com o que realmente é: a afirmação de que, racionalmente falando, a religião nada mais é do que a crença em coisas que não se pode ver, legitimada pela tradição e imposta pelo costume, pela coerção social e pelos interesses ideológicos. O que os membros da LiHS espe­ra­vam que os advogados da fé fizessem? Que postassem letras de música? Bem, alguns até fizeram isso, ao perceberem que não teriam como enfrentar o debate pelo lado da argumentação: restava-lhes tentar «tocar corações» (algo que, para falar a verdade, eram os sacerdotes astecas que faziam melhor). Mas o convite subitamente faz todo sentido se você esquecer que a LiHS surgiu no seio do «movimento ateu» e pensá-la como um projeto mais amplo, sem compromisso algum com o ateísmo, com Bertrand Russell ou com o ceticismo. Um movimento que precisa de adeptos, mesmo quem não tenha lido filosofia e nem entenda que raios é «ceticismo», mas que possui um sentimento difuso de que «não é ateu» (embora muitas vezes tal rejeição seja fruto de uma ideia deturpada do ateísmo) ou que não segue nenhuma religião em especial mas acredita em «algo maior» (que não sabe dizer o que é, mas curiosamente se parece com um Velho Barbudo que fica sentado numa nuvem). Esse bando de pessoas confusas que já são bastante inteligentes para não se deixarem ordenhar por televangelistas, que são bastante autônomas para recusarem que um velhinho que vive na Itália lhes proíba de transar com camisinha, mas que ainda se apegam ao medo atávico de se verem «sem religião» — esse é o público no qual a LiHS quer crescer. Para chegar até eles é preciso ter advogados da fé, é preciso esconder a cara do Russell e seu cachimbo, é preciso adotar um ícone, um discurso, uma ética consequencialista ou qualquer bandeira incontroversa, como os «direitos humanos». Desapegando o Bule do discurso raivoso dos ateus que sofreram na carne e na alma os preconceitos e violências da sociedade que os demoniza e reprime, a «Liga Voadora» quer ir mais alto, mesmo que ao preço de deixar os ateus no chão, afinal, eles são uma pequena minoria.

Houve outros indícios de que o Bule estava se transformando num projeto político voltado justa­mente para a maioria, esta mesma que já tem todos os outros partidos e bandeiras. Indícios de que o crescimento que importava era em números, mesmo que os novos adeptos não se enquadrassem com sinceridade em nenhuma das minorias tradicionalmente associadas ao «movimento ateu». Indícios, enfim, de que a LiHS estava buscando adesismo e não crescimento verdadeiro.

A comprovação definitiva de que o Bule não está mais compromissado com a defesa dos objetivos e valores das minorias irreligiosas veio neste mês de setembro, época em que desabrocham as flores, os amores e as ideias estranhas. Refiro-me a duas coisas específicas: uma série de artigos «Desmentindo Imagens Religiosas Preconceituosas» e o texto «Religiosidade e Bondade: o Bom Samaritano». Já que o pessoal do Bule anda gostando de epigrafar artigos com versículos bíblicos, vou lhes deixar um de sugestão: «Que os mortos enterrem os seus mortos» — Lucas 9:60 (ou Mateus 8:22, se você preferir).

Da mesma forma que o cético não deve tomar para si o fardo de destrinchar e explicar toda a floresta de ilusões, enganos, mentiras, superstições, medos atávicos e lógica torta que caracteriza uma religião; não deve também tomar para si o trabalho de defendê-la. É verdade que há muitos comentários contra a religião que são feitos por pessoas ignorantes ou preconceituosas. Feliz­mente para as religiões existem no mundo inteiro milhões de clérigos e teólogos de todos os tipos que podem encarregar-se de desmentir essas peças irritantes. Não há uma quantidade equivalente de pessoas com acesso à mídia capacitadas ou interessadas em defender as minorias irreligiosas dos ataques que são feitos contra todas as formas de descrença por pessoas também ignorantes e parciais. Não seria sábio, então, deixar que todos esses religiosos que aparecem na televisão e no rádio e nos jornais se encarregassem de defender suas respectivas fés e instituições desses ataques preconceituosos? Por que ocupar com esta defesa espaço precioso em um blogue que deveria ajudar a defender as minorias que não têm voz? Dirão que há muito espaço no blogue e que este tipo de conteúdo não prejudica os objetivos outros do Bule Voador. Direi que existe muito espaço no copo de cerveja e não há de ser uma mosca que vai prejudicar o meu prazer de beber.

Da mesma forma não faz sentido argumentar em favor da religião em um blogue inspirado por Bertrand Russell. Sei muito bem que a inspiração se prende mais a palavras do que pessoas — e é por isso eu exibo como frontispício deste meu blogue uma frase do Buda Gautama. Não faz dife­rença quem disse o que, o importante é aonde as palavras nos levam. Não sei se as palavras de Russell estão guiando o Bule Voador mais.

No referido artigo sobre o Bom Samaritano o Bule Voador ajuda a difundir uma série de coisas que só fazem bem aos movimentos religiosos. Primeiro, a noção de que a religião é essencial para a difusão de valores éticos. Segundo, que a Madre Teresa de Calcutá é uma figura positiva para a construção de uma sociedade mais humana. Terceiro que os indivíduos religiosos apresentam com maior frequência do que os irreligiosos uma série de qualidades que vão desde o altruísmo até a preocupação com a autoimagem. Sai-se do artigo com uma certa culpa por ter saído da igreja e com a dúvida de que talvez fosse uma boa ideia voltar para lá. Este é o papel do Bule Voador agora? Fazer proselitismo religioso amparado em qualquer dos inúmeros estudos publicanos anualmente nos Estados Unidos para legitimar a religião?

E nem falemos que o artigo não menciona a controvérsia sobre o papel de Madre Teresa, a natureza real de sua «compaixão» pelos pobres indianos, os discursos medievais e absurdos que fez contra o aborto, a contracepção, o divórcio e toda uma série de coisas já amplamente discutidas no movimento cético (a ponto de terem sido assunto de famoso documentário apresentado por Christopher Hitchens e posterior livro e serem mencionadas no artigo sobre Madre Teresa na Wikipédia) e que foram suficientes para barrar sua canonização, mesmo o ex papa João Paulo II tendo uma obsessão por isso. Em vez disso o artigo a chama de «sinônimo de bondade» e apenas menciona a «constante benevolência que ela demonstrou ao longo de sua vida». Este é agora o papel do Bule Voador? Difundir uma imagem rósea de líderes religiosos, mesmo havendo uma clara polêmica sobre seu caráter? A quem serve esse novo Bule Voador?

A mim ele não serve, não serve a ninguém que pertença a qualquer das minorias irreligiosas que existem no seio de nossa sociedade, à sombra das tetas gordas que sustentam os líderes de igrejas, com seus iates e mansões. Não serve a quem perde empregos por ser «servo de Satanás», não serve a quem é hostilizado pela família por não ir ao culto, não serve a quem recebe pregações prometendo convertê-lo «pelo amor ou pela dor», não serve a quem vê espaços públicos apropriados para usos eclesiásticos, e não serve a quem contempla, estarrecido, o esquartejamento da democracia pela insana farra dos partidos religiosos e suas bancadas, o «Centrão» contemporâneo.

A Ideologia da Inveja, ou a Inveja da Ideologia

Faz parte do pensamento direitista típico uma peculiar disfunção cognitiva: uma incapacidade de enxergar corretamente a realidade, o que os leva a interpretações muito equivocadas dos fatos. Há, de fato, dois tipos de direitista: o conservador e o reacionário. Tanto quanto existem dois tipos de esquerdista: o reformista e o revolucionário. Para entender como funciona esta disfunção da direita é preciso por estes quatro lados em perspectiva.

O conservador é alguém que considera que vivemos no melhor dos mundos possíveis, ou quase isso, e que, portanto, é preciso evitar, ou minimizar as mudanças, para evitar que se rompa o frágil equilíbrio da realidade. Mudanças, se inevitáveis, devem ser pelo menos retardadas para que todos tenham tempo de se adaptar aos seus efeitos.

O reacionário é o indivíduo que crê vivermos em um mundo em decadência, que o passado era melhor, que os valores positivos da sociedade estão se perdendo e que é necessário fazer alguma coisa quanto a isto. Esta «alguma coisa» normalmente significa neutralizar toda iniciativa de mudança, pois toda mudança nos afasta do antigo mundo ideal, e reverter tanto quanto possível as mudanças que já aconteceram, responsáveis por nossa queda de uma idade de ouro pretérita.

Comparemos isso com a esquerda e veremos uma correspondência óbvia. O reformista se contrapõe ao conservador, tanto quanto o revolucionário ao reacionário. Mas ambos os extremos odeiam a todo o resto.

O reformista acredita que o mundo precisa melhorar, e para isso é necessário atacar as causas (ou os sintomas) dos problemas que atualmente existem. Geralmente adepto da democracia, o reformista crê que estas reformas podem ser feitas por consenso, através da conscientização das massas e de processos graduais, como reformas educacionais, aperfeiçoamentos legislativos, investimentos pontuais em desenvolvimento regional, etc.

O revolucionário acredita que o mundo não tem conserto, a não ser se substituirmos toda a estrutura sobre a qual suas instituições se assentam. Isso, claro, pode ser feito de forma pacífica, mas normalmente só acontece pelo emprego da violência (e bastante violência) porque aqueles que se beneficiam do status quo não aceitarão facilmente a remoção de seus privilégios. Revoluções são tentativas de adiantar o relógio da História algumas horas em alguns minutos. Costumam ser sucedidas por iniciativas reacionárias que atrasam o relógio algumas horas em alguns minutos, mas não todas as horas que haviam sido adiantadas antes. Assim, toda revolução produz mudanças duradouras.

Ambos os tipos de direitistas têm em comum o temor da esquerda. Por causa dele, se recusam a enxergar a distinção entre um reformista e um revolucionário. No fundo, o que lhes importa é que, pacífica ou violentamente, todo esquerdista quer mexer no seu queijo; então é preciso rosnar, mostrar as garras e, eventualmente, morder. Da mesma forma, o direitista não vê problemas em transitar para o reacionarismo: a radicalização é uma estratégia legítima, à medida que os desafios para a manutenção do status quo se tornam maiores.

A análise da situação política, quando feita por um direitista, assemelha-se muito a um discurso religioso. Quando não nega, pura e simplesmente, a existência de quaisquer problemas com a realidade (síndrome de Moranguinho), em vez de buscar causas materiais para os problemas materiais, o direitista busca motivações intangíveis, explicações metafísicas.

Por exemplo, a miséria não é causada por dificuldade de acesso aos meios de produção (entre eles educação de qualidade) ou baixa remuneração do trabalho, mas pela «indolência» ou «falta de capacidade de trabalho» do pobre. Este tipo de interpretação costuma ser fortemente racista, atribuindo o sucesso dos povos desenvolvidos a fatores genéticos ou culturais que «não existem» no povo brasileiro. Com um pouco mais de sorte você se deparará com o indivíduo culpando a «miscigenação» brasileira pelo nosso atraso.

Se os negros são menos favorecidos, isto não é porque sofreram um longo processo de dominação e exclusão, no decurso da escravidão ou posteriormente a ela, mas sim porque sua «cultura» não contempla o trabalho organizado, ou porque «têm uma obsessão com o pensamento mágico» em vez de trabalhar, coisas assim.

A desigualdade social é apresentada como algo natural, necessário, algo como o direito divino dos reis e nobres, tão essencial à estabilidade dos povos (segundo concebida até o século XX), que as jovens nações arrancadas do jugo otomano (Grécia, Bulgária, Sérvia, Romênia) receberam príncipes alemães para seus tronos. Não se concebia que o povo pudesse sequer ter um rei que não fosse originalmente de sangue azul. O pobre não se conformar com a desigualdade é ter «inveja» do sucesso de quem é rico. Ainda que o sucesso do segundo possa ser herdado e o fracasso do primeiro persista, mesmo diante de hercúleas lutas contra as portas e punhos fechados com que a vida recebe os que estão «de fora».

Causas imaginárias produzem soluções surrealistas. Em vez de atacar a miséria, ataca-se o miserável, como se fazia na Inglaterra do século XVII, com suas leis contra vadiagem que puniam com trabalhos forçados (não remunerados) os que não conseguiam emprego. Ou então explora-se o miserável, como nas estratégias assistencialistas eleitoreiras típicas de políticos fisiológicos e ligados às oligarquias.

Durante boa parte da História do mundo a partir do advento do Iluminismo, estas forças têm se enfrentado: a esquerda e a direita. A primeira, buscando sempre melhorar o mundo, segundo entende necessário ou possível. A segunda, oscilando entre negar a necessidade (ou a possibilidade) de qualquer melhora, ou francamente se propondo a reverter a obra da esquerda. A Revolução Francesa depôs reis, redesenhou fronteiras, criou conceitos novos (como os de República, Constituição, sufrágio universal e Direitos Humanos) e lançou a ideia de que era preciso acabar com os regimes baseados no privilégio de nascimento e no direito divino. A «Santa Aliança» conseguiu reentronizar algumas dinastias, mas cem anos depois nenhuma das nações invadidas por Napoleão estava imune à «gripe republicana». Uma a uma as monarquias foram caindo, os nobres foram condenados ao dolce far niente enquanto a míngua de suas fortunas não os forçava a casar-se na burguesia. A Igreja Católica nunca mais recuperou seu poder. De 1789 para cá ela não cessou de sangrar uma dia sequer. Apesar de todas as Santas Alianças, de todas as Machas da Família com Deus pela Liberdade e de todas as TFPs.

Este é só um exemplo da dinâmica da política: existem outros. O voto feminino foi uma bandeira da esquerda, combatido pela direita. Assim foram os direitos humanos, o fim da segregação racial e a igualdade de todos perante a lei. A direita resistiu com ditaduras, tortura, apartheid, national sozialist Partei… Foram os sindicatos, inspirados por Marx e Bakunin, que exigiram jornadas de trabalho razoáveis, salário mínimo, férias remuneradas, seguro desemprego, fundo de pensão, todas essas coisas que andam falando em «flexibilizar» porque a crise é grande.

A esquerda sempre teve soluções. Para acabar com a miséria era preciso impedir que as crianças ingressassem cedo demais no trabalho, o que as impedia de estudar. Para a direita, isso seria condenar todas à «vagabundagem» (esse termo genérico com que se desqualifica os que estão desajustados ou excluídos das engrenagens do sistema). Era preciso um sistema público de ensino, para que os pais pobres não tivessem que tirar pão da boca para pôr um lápis na mão do filho. Para a direita, uma escola gratuita faria com que as crianças crescessem «sem dar valor» ao conhecimento. Talvez permanecendo analfabetas elas dariam mais valor, ao que não tinham.

Quem tem ideias corre riscos. Vários dos planos «mirabolantes» da esquerda falharam. Em alguns casos a esquerda soube recuperar-se deles rápido, em outros nem tanto, de outros nunca. É muito fácil apontar os erros criticamente. Mas é preciso disfarçar que muitos fracassos se deram por forte oposição reacionária, por radicalização desnecessária (consequência de um ambiente de conflitos) ou mera ingenuidade. Nós, os esquerdistas, temos a ingênua ilusão de que podemos tornar o mundo um lugar melhor. Muitas vezes a luta da esquerda foi pervertida, sequestrada, confundida. Houve aproveitadores, sabotadores, ou meros líderes ineptos. O que nunca acabou nem acabará é a utopia de que é possível vencer a noite. Muita coisa mudou nesses dois séculos desde que o povo aprendeu que é possível deixar de ser súdito e passar a ser cidadão. Enquanto isso a direita continua dizendo que os problemas do mundo são insolúveis, que há mais males necessários do que bens possíveis e que todo movimento de libertação produz mais escravidão.

Nunca a direita esteve tão atuante no Brasil, tão visível. Eles têm a força, mas a força é tudo o que eles têm.

O Neonazismo e os Novos Movimentos Religiosos

Mircea Eliade (autor da História das Crenças e das Ideias Religiosas), no prefácio de seu Dicionário de Religiões, afirma que a definição de «religião» é algo tão complicado que ele prefere furtar-se à obrigação de fazê-lo, e sai pela tangente afirmando que «religião é aquilo que os religiosos chamam de religião». Se nem a maior autoridade no assunto ousou cravar uma definição rigorosa do termo, longe de mim fazê-lo, eu que nunca escrevi nada que se compare às suas obras. Deixo a tarefa, digna de Sísifo, aos meus leitores, caso eles ousem embrenhar-se neste debate esdrúxulo.

Ocorre que, mesmo sendo tão difícil precisar o que religião é, segue interessante comparar movimentos e instituições que reivindicam para si um caráter religioso com outros movimentos e instituições que não o fazem ou mesmo o negam peremptoriamente. Tais comparações fazem saltar à vista a imprecisão das fronteiras ente religião, mito, ideologia, conto de fadas ou mera crendice. O discernimento só é possível quando analisamos os exemplos extremos de cada categoria. Mas não é certo pensar que somente os exemplos extremos são verdadeiros.

Neste artigo pretendo fazer uma comparação entre o (Neo)nazismo e os Novos Movimentos Religiosos, para demonstrar como o modus operandi de uma ideologia decididamente secular pode ser semelhante, ou mesmo análogo, ao de uma religião. Mas para chegar a isto é necessário, primeiro, conceituar o que se deve entender por «Novo Movimento Religioso».

Os estudiosos das religiões enquanto fenômenos sociológicos cunharam o termo nos anos 1990 para fugirem do caráter pejorativo que havia adquirido o que estava anteriormente em uso: seita (em inglês, cult). Fizeram-no tomando por base uma terminologia japonesa para as seitas religiosas surgidas naquele país no pós-guerra: shinshūkyō (新宗教), que também significa «novas religiões». Embora seja um eufemismo, criado para não ofender os poderosos líderes destas seitas, é um termo mais exato e útil, porque enfatiza um ponto com o qual todo ateu concorda: a única diferença entre uma religião e uma seita é a antiguidade (que, nos círculos religiosos, confere respeitabilidade).

Uma característica importante dos Novos Movimentos Religiosos, porém, é que, embora sejam da mesma natureza das religiões milenares, eles acrescentam elementos inesperados no caldo de cultura em que seus seguidores se banham. Um destes elementos é a quebra da tradição: os líderes de NMR são muito mais personalistas do que os profetas e pastores do passado, frequentemente escrevendo seus próprios textos sagrados e reivindicando apenas uma vaga associação com instituições passadas.

Existem inquietantes semelhanças entre ideologias políticas modernas, como o (neo)nazismo, a ufologia e o comunismo, com as religiões, antigas ou novas. As principais analogias que se pode fazer são:

CREDULIDADE. Toda religião se baseia na aceitação de teses que as pessoas normalmente não levariam a sério. A crença nestes absurdos funciona como uma espécie de chave para «abrir a cabeça» do iniciado para todas as demais coisas que terá de aceitar. O neonazismo se baseia na crença (cientificamente infundada) de que os seres humanos não são pertencentes à mesma população racial, que alguns são superiores aos outros, etc.

INSUFLAÇÃO DA AUTO ESTIMA DO ADEPTO. O item anterior nos leva ao ponto em que um indivíduo pode buscar entrar em um círculo destes para sentir-se especial. Como diz o verso de uma música do Bob Dylan, just remember you are white. Você pode ser um drogado e ladrão, mas é branco e, então, pode se pentear, fazer a barba e apresentar-se como um ser digno. Uma pessoa que tenha o perfil certo pode aderir para poder se auto afirmar como alguém especial, ainda que apenas por causa da acidental cor de sua pele. 

MISTICISMO. Há várias formas de misticismo. Normalmente associamos esta palavra a crendices em fantasmas, adivinhações ou coisas semelhantes, mas o misticismo não está obrigatoriamente voltado ao sobrenatural. Bons exemplos são o Budismo theravada, que contempla a sobrevivência da alma como um efeito indesejado, o judaísmo, que possui algumas correntes que não creem na existência de uma alma, ou o taoísmo, que preconiza a sobrevivência física do corpo como a maior recompensa. As ideologias políticas totalitárias acrescentam, porém, um tipo adicional de misticismo: um que se baseia na redenção da comunidade pelo sacrifício do indivíduo. O herói socialista ou o soldado nazista não esperam uma sobrevivência póstuma (a menos que isso faça parte de uma crença pessoal anterior), mas contribuir para o triunfo de seu ideal, o sucesso da Revolução, que produzirá a sociedade perfeita, ou a vitória ariana, que conduzirá à purificação do mundo.

EVOCAÇÃO DE GLÓRIAS PASSADAS. A palavra religião é cognata de «religar», portanto é natural que todo movimento de caráter religioso tenha um tipo de referência a um tempo mítico pretérito, ideal de beleza, pureza ou virtude. A «queda do homem», no entanto, separou a humanidade de sua perfeição original, que agora só pode ser buscada através de cerimônias, enquanto não se atingir a redenção futura, que restabelecerá o elo partido nos primórdios. Tal fica evidente no caso do nazismo quando seus ideólogos procuram ligar o movimento ao Sacro Império Romano Germânico (I Reich) e ao Império Alemão (II Reich), ou até mesmo aos povos nórdicos não romanizados, como os anglo-saxões, os jutos, os suecos, os teutões, os normandos etc. Este elemento está ausente da ideologia comunista, exceto pela adoção do termo «comunismo», que se refere ao estágio civilizatório anterior à civilização agrícola.

MITO DO TRAPACEIRO. O responsável pelo rompimento da harmonia original do mundo é um trapaceiro (trickster), que se opõe à vontade dos deuses e produz a separação das esferas humana e divina. A natureza desta oposição é quase sempre ambígua: o trapaceiro de fato destruiu a harmonia entre a humanidade e a divindade, mas o seu ato foi o responsável pela criação da civilização. Isto pode ser visto no mito da serpente no paraíso, graças a quem Jeová ensinou a agricultura ao ser humano, fazendo com que ele deixasse de ser um consumidor passivo dos frutos da estação, e também em Prometeu, que roubou o fogo dos deuses e deu-o aos homens, permitindo que fizessem para si ferramentas e armas com que tentaram desafiar as divindades. No caso do nazismo, a quebra desta harmonia original se processou por intermédio da religião cristã, uma crendice judaica. Após este momento os alemães «puros» das sagas nórdicas se tornam cordeirinhos de Deus. Esta desgraça é atenuada pela «germanização» do cristianismo, produto da Reforma protestante, mas os judeus, agora vivendo no seio da sociedade, por toda parte, se dedicam a impedir que os valores primordiais (e harmônicos) sejam resgatados. Desta forma, o judeu é simultaneamente a serpente do paraíso e o diabo.

VALORIZAÇÃO DO TEMPO MÍTICO. O tempo do mito, que é cíclico e extra terreno, representa o ideal a se perseguir. Ao diagnosticar a «decadência» da sociedade, o neonazista simultaneamente a compara com o tempo mítico que idealiza. Uma época em que ainda não havia judeus na Alemanha, e nem vinho.

SECTARISMO. A demonização dos não aderentes, a separação entre «nós» e «eles» é uma característica dos movimentos religiosos, mesmo daqueles que não se apresentam como seitas. Mesmo que uma religião não odeie explicitamente os não adeptos, ela sempre os terá em conta de simplórios, ignorantes, perdidos, dignos de dó etc. Mas nos casos mais claros, encontrados no paganismo, os adeptos de outra religião (necessariamente membros de outra sociedade) são de fato separados. O neófito nazista é convencido de que passou a fazer parte de uma casta diferente da sociedade, que tem um trabalho importante a fazer e que, devido à grande oposição que o resto do mundo tem contra a ideologia, é necessário manter-se desconfiado de todos. Isto não é diferente de religiões que exigem que seus fieis se afastem até da família e dos amigos, se estes não aceitarem acompanhá-lo em sua busca.

RITUAIS E OSTENTAÇÃO DE SÍMBOLOS. A obsessão com os uniformes e insígnias é uma característica de todos os movimentos totalitários. A tal ponto que tais uniformes e insígnias adquirem, por si, um caráter simbólico. Coloridos estandartes, bandeiras enormes, medalhas, monumentos. Esta necessidade de tangibilizar o sentimento dos adeptos.

ADOÇÃO DE UM SÍMBOLO IDENTIFICADOR. Toda religião precisa de um símbolo que a identifique, não apenas entre os adeptos, mas também entre os demais. O símbolo pode ser um resumo de determinada teologia, como o ying-yang do taoísmo, ser apenas uma insígnia (supostamente) real, caso da Magen David judaica, ou ser apenas um logotipo aparentemente aleatório (ou de origem obscura), como o crescente islâmico ou a suástica budista. Tanto o nazismo como o comunismo procuraram associar-se a símbolos gráficos simples, fáceis de reproduzir e fáceis de reconhecer. Tanto assim que estes símbolos mudaram no tempo, à medida em que as deficiências originais foram percebidas. O símbolo do comunismo fora uma mera bandeira vermelha, depois uma estrela vermelha, mas a foice-e-martelo ofereceu uma versão mais identificável. Mesmo o símbolo não sendo original ele pode ser tão forte que suplanta os significados que anteriormente tivesse. Hoje em dia raramente alguém associa a cruz a outra coisa que não o cristianismo, e a suástica está indelevelmente marcada pelo nazismo.

ARREGIMENTAÇÃO DA SOCIEDADE. Há duas formas de se organizar o povo verticalmente: através da religiosidade e através do militarismo. Ambas as maneiras estão de tal forma relacionadas que a remoção das diferentes nomenclaturas torna difícil diferenciar uma da outra. Ambas as instituições são verticais, exigem obediência, oferecem uniforme e procuram dar a cada um o seu lugar. O civil, em relação ao militar, e o leigo, em relação ao clérigo. Cada um deles é visto sob um diferente prisma de inferioridade.

PROFECIA EX POST FACTO. Para legitimar-se no presente, os movimentos religiosos procuram ver em personalidades do passado algum tipo de presciência do que dizem representar. Tal como o cristianismo reivindicou a profecia judaica para divinizar o Cristo, os nazistas citaram Lutero e Nietzsche.

ASCETISMO. O sacrifício em prol da comunidade só pode ser feito por alguém que se sacrifica em prol de si mesmo. O ascetismo tem por objetivo reduzir a vontade de viver, a ânsia de independência. O asceta está pronto para a morte, o kamikaze japonês não tinha laços mais com «este mundo» e os soldados perfeitos dos regimes totalitários são treinados para esquecer, se um dia conheceram, os sentimentos burgueses e decadentes do amor, do egoísmo, da independência, da luxúria, etc. O ascetismo se manifesta na valorização de uma figura humana submetida aos ideais do Partido ou da Igreja. O esporte, que produz um corpo «heróico» também pode ser uma forma de ascetismo. Por fim, a romantização do herói ferido na guerra (o que o próprio Hitler fez questão de dizer que era) enfatiza o valor da dor e do sacrifício do indivíduo.

CULTOS PÚBLICOS. O maior orgulho de qualquer religião é afirmar-se pela popularidade. Somente quando é seguida por um número expressivo de pessoas ela pode deixar de ser vista como algo «esquisito» e passa a interagir com o resto da sociedade em um plano de normalidade aparente. Grandes cultos também têm a função de intimidar quem neles não está: «veja como somos muitos, e você está só.» Isto explica tanto as mega igrejas das seitas neocristãs quanto os imensos comícios nazistas e as paradas militares de primeiro de maio feitas pelos comunistas.

VALORIZAÇÃO DA RETÓRICA EM VEZ DA RAZÃO. O orador totalitário, ou o religioso, está ocupado em convencer pela empatia, pelo sentimento, pela identificação. Nunca pela razão. Em vez de argumentar, ele procura despertar emoções. Produzir uma catarse, exibir-se em transe, fazer todos crerem que algo divino se manifesta por meio dele. Isto pode fazê-lo girar como um pião, balbuciar sílabas desconexas, ou discursar gesticulando e fazendo caras e bocas.

MÍSTICA DO LIVRO. Marshall McLuhan definiu a invenção da escrita como o momento em que a humanidade começou a se separar da esfera da oralidade. Ali começou a destribalização do ser humano. O poder do livro é tamanho que as sociedades letradas se impuseram, ao longo da história, sempre com facilidade. Na mitologia grega, o rei Cadmo planta os dentes de um dragão e deles nascem soldados armados para a guerra. Cadmo fora o inventor do alfabeto. O alfabeto é algo tão perigoso que ao ser plantado na terra ele dá origem à violência institucionalizada através do exército. Os povos antigos começaram a perceber esse poder, mas foram os povos menos letrados que o entenderam melhor, contemplando-o de fora. Judeus e árabes viram no livro algo divino em si, por isso criaram o conceito de «livro sagrado». Algo análogo havia acontecido no Oriente, com as Sutras budistas e os Vedas hindus, mas não tão profundamente quanto no Ocidente. A importância do livro é auto-evidente, tanto no neonazismo (Mein Kampf, que chega até a ter o título sempre citado na língua sagrada original) quanto no comunismo (com o Manifesto Comunista, de Marx, ou, na Revolução Cultural Chinesa, o Livro Vermelho, de Mao Tse Tung).

SANTIFICAÇÃO DO FUNDADOR. As biografias dos fundadores entram em um processo póstumo de sanitização e santificação, sendo gradualmente distorcidads até o ponto em que se tornam mitos. Diz-se de Buda que as solas de seus pés plantavam flores de lótus onde pisasse. Os santos fundadores do comunismo (todos, aliás, barbudos como os ícones dos santos ortodoxos) e o grande santo fundador do nazismo (Hitler) passaram a ser representados em poses heróicas, com olhares perdidos num ponto além do presente, expressões compungidas e preocupadas (Hitler) ou desafiantes e confiantes (Stálin e Lênin) ou ainda bonachonas e compreensivas (Marx).

CISMAS E EXPURGOS. Em algum momento a mensagem original é «deturpada», surgem «heresias», as pessoas se matam para ver quem tem razão. Um grupo se torna hegemônico e suprime os outros. Stálin suprimiu o internacionalismo proletário de Trótski para poder consolidar o poder no plano interno. Hitler suprimiu a SA, com sua ideologia perigosamente anticristã e as suspeitas de homossexualidade rampante entre seus membros.

DUALISMO. A maioria das religiões precisa de um Satanás ou um ser equivalente. Como já vimos, o judeu representa tal papel no nazismo, e, portanto, tudo quanto seja associado ao judaísmo, ou possa ser, se torna satanizado também. Isto leva à condenação arbitrária de quase todo pensamento divergente. No comunismo, os valores «burgueses» são o satanás sem rosto, análogo ao judeu, igualmente amorfo. Mas em ambos os casos a tangibilização é obtida através de alegorias. O judeu e o «porco capitalista» são caricaturados para melhor serem odiados, e tais caricaturas se tornam uma ferramenta «educativa».

ASPIRAÇÃO TEOCRÁTICA. A religião busca subjugar o Estado (doutrina da supremacia papal, por exemplo) diretamente, como no caso do catolicismo medieval, ou indiretamente, como no caso dos reis budistas do sudeste asiático. Na prática o Estado se torna um instrumento da religião ou ideologia. Isto fica evidente nas «trocas de guarda» ideológicas, que envolvem a substituição dos símbolos ostensivos da Pátria. Quando os comunistas triunfaram na URSS, criaram para si a bandeira vermelha com a foice e o martelo, como depois fizeram os nazistas, que substituíram a bandeira tricolor alemã pelo pavilhão vermelho da suástica. Mussolini, porém, se contentou em inscrever o fascio no centro da bandeira italiana.

MESSIANISMO. Não são todas as religiões que propagam a ideia de um Juízo Final redentor, após o qual a harmonia original do mundo será restabelecida. Mas está isso bem claro nas doutrinas das principais religiões com as quais os fundadores do nazismo tiveram contato. O nazismo se propõe a salvar o povo ariano da degradação a que está exposto, unificar suas nações, fazê-lo triunfar sobre os inferiores, etc.

SÍMBOLOS ALUSIVOS À MORTE. Bastante proeminentes no cristianismo, estes símbolos são também evidentes no nazismo (mas não tanto no comunismo). Caveira, cruz-de-ferro, cor preta dos uniformes, cor vermelha da bandeira. Se para o comunista a bandeira vermelha representa a guerra (instrumento que destrói a ordem burguesa), para o nazista representa o sacrifício de sangue em prol da pátria.

MARTÍRIO DO FUNDADOR. A mística religiosa não se completa sem que os fundadores sejam martirizados em nome de seus ideais. Mortes heróicas, nas mãos covardes do inimigo, ou o suicídio honrado para não ser pego vivo e feito de exemplo. Jesus morreu na cruz, Hitler matou-se para não ser pego, Mussolini foi enforcado de cabeça para baixo (e supostamente castrado), Lênin teria sido envenenado por agentes a serviço da burguesia (ou de Stálin, mas isso é outra polêmica).

CONSPIRAÇÃO UNIVERSAL CONTRA O FUNDADOR. O crente perfeito (true believer) nunca aceitará nenhuma crítica contra o líder. As críticas sempre serão entendidas como uma tentativa de descrédito da religião/ideologia. O pastor não rouba meu dízimo para comprar mansões no Caribe, meu führer não é um louco obcecado pelo poder, o Grande Timoneiro Mao não é um incompetente que causou uma imensa fome e nem um tarado que estuprava uma adolescente virgem por semana. As acusações são todas descartadas sem exame apenas porque foram feitas pelo inimigo, isso quando sequer são percebidas (dissonância cognitiva, a capacidade de ignorar o que não queremos ver).

MITIFICAÇÃO DO PROCESSO DE FUNDAÇÃO. Se os líderes são progressivamente santificados, da mesma forma é «milagrificado» o processo (doloroso, claro) que levou ao surgimento da doutrina. Dois bons exemplos são as vitórias bolcheviques na Revolução Russa e o «milagre alemão» sob Hitler. Ambos são fenômenos perfeitamente explicáveis no contexto. Os russos brancos eram poucos, eram divididos em facções e o apoio estrangeiro era insuficiente. Além disso os comunistas tinham apoio popular. Enquanto isso, Hitler direcionou os empregos para os homens (deixando as mulheres em casa) e começou a perseguir os judeus e algumas minorias, deixando seus empregos para os arianos perfeitos. Talvez dentro de alguns séculos as pessoas digam que Hitler também dividiu pães e peixes ou que Stálin parou o sol no céu para o Exército Vermelho terminar a batalha de Stalingrado. O processo de mitificação se completa quando a história é canonizada, tida como verdade, e nenhuma crítica ou questionamento passa a ser aceitável.

UNIVERSALIZAÇÃO. Tal como Jesus não veio senão pregar às ovelhas perdidas da casa de Israel, os nazistas não eram voltados senão aos próprios alemães (esse ponto não procede na comparação com o comunismo). No entanto, quando o destinatário original da mensagem se mostra indigno dela, esta passa a ser difundida a todo o mundo, a quem quiser ouvir. A explicação é clara: o povo original rejeitou a salvação que ela representava, o que a disponibilizou para outros povos. Isto explica porque é possível haver neonazistas nos países que mais sofreram com a opressão nazista (Grécia, por exemplo). Parte deste processo é a culpabilização do destinatário original da mensagem por sua falha. Tal como os judeus foram acusados, durante séculos, de serem responsáveis pela morte de Jesus, os alemães são vistos por alguns neonazistas como uns «frouxos» que puseram a perder a mensagem de Hitler em sua forma original.

Considerados os elementos acima, torna-se possível ver que existem muitas analogias entre o (neo)nazismo e as religiões. Pode ser que ainda precisemos de alguma boa vontade para chamar o nazismo (ou o comunismo) de religião, mas até quando? Em geral as religiões começam como meros grupos de seguidores de alguém que a sociedade enxerga como um louco, depois se tornam movimentos marginais, que muitas vezes buscam distanciar-se das religiões estabelecidas, mas finalmente se estabelecem. O que torna o neonazismo diferente não é uma característica intrínseca, mas a pouca antiguidade e a recusa em reconhecer que ele possa ser seguido como uma religião. No dia em que alguém pretender isso, será fácil de ver que, à esquerda e à direita, para o bem ou para o mal, ideologias são todas instrumentos de controle de massas.

Você está preparado para aceitar uma Igreja Neonazista em sua rua?

Sobre a Obsolescência de Alguns Conceitos

Podem me chamar de antiquado, mas eu confesso que já estou há tanto tempo acompanhando as idas e vindas do «movimento ateu» na internet que já estou começando a ficar premonitório: percebo no ar coisas que muita gente inocente ignora — e, como uma Cassandra cibernética, sou devidamente ignorado quando falo do que prevejo. Uma das coisas que estou cheirando nos ventos da Grande Rede (perífrase cafona que é usada quase exclusivamente por gente da Rede Globo) é o que parece ser uma estratégia deliberada para sufocar a voz das reivindicações populares. Não sei quem estaria por detrás disso, mas vejo que muita gente inteligente, que deveria ter a capacidade de enxergar os fios dos marionetes, não apenas não os vê como ainda se deixa guiar pelas sementes de ódio plantadas por aí. No fim das contas o que vale é convencer a todos de que o debate entre esquerda e direita está obsoleto, que socialismo é opressão, liberalismo econômico é liberdade, que reivindicações de direitos são injustas e que empatia é patrulha ideológica. Neste texto (que vai ser imenso, aviso aos analfabetos funcionais que preferem tweets) pretendo explicar como enxergo isso e de que forma acredito que posso demonstrar a falácia desses argumentos.

Esquerda e Direita

Uma das principais argumentações da direita é que a dicotomia esquerda/direita não existe. Isto é perfeitamente natural, pois, sendo a direita caracteristicamente o pensamento conservador, não lhe interessa reconhecer a existência mesmo de um impulso de mudança. O conservador, ainda que enxergue um mundo matizado, precisa difundir o ideal de uma realidade sem contradições, pois contradições precisam ser resolvidas. Então, somente negando a existência de crises é possível propor a não adoção de medidas relativas às mesmas crises.

Desta forma, os propagadores a ideologia de direita sempre partem do princípio de que o debate não procede, empregando um destes argumentos:

  1.  A oposição entre direita e esquerda não existe porque todos os movimentos de esquerda tornam-se conservadores ao assumir o governo. Essa é uma versão requentada do antigo adágio político brasileiro segundo o qual «nada é tão conservador quanto um liberal no poder».
  2. A oposição entre direita e esquerda pode ter existido um dia, porém não mais se justifica porque os movimentos socialistas resultaram em regimes opressores, que acabaram reduzindo a liberdade em vez de aumentá-la, além de terem produzido catástrofes que os regimes de direita não teriam iniciado.
  3. A oposição entre direita e esquerda não existe de verdade porque ambas as ideologias são instrumentos políticos a serviço de grupos que almejam o poder e apenas refletem os diferentes setores da sociedade nos quais os grupos no poder se apoiam.

Podem haver variações destes argumentos, posso ter sido impreciso ao defini-los, mas em essência eles estão aí (podem haver outros que eu não detectei, e eu agradeceria se me fossem comentados). Cada um deles contém uma falácia monstruosa, mas como são sempre expressos de forma oblíqua pelos ideólogos, os seguidores não percebem (como nunca percebem os fãs de Ayn Rand).

A falácia contida no primeiro argumento é confundir uma ideologia, que é algo abstrato, com a práxis política relacionada. Ainda que um liberal aja de forma conservadora quando chega ao poder (há inúmeros fatores que podem seduzi-lo ou forçá-lo a isso), isto não nega a realidade ou a validade da ideologia liberal que ele pregava na oposição.

O segundo argumento é o mais acintoso, pois recorre a vários tipos de manipulações — e nenhuma delas é sutil: somente uma pessoa distraída (ou pouco inteligente) consegue ignorar os vácuos lógicos. Inicialmente a confusão deliberada entre «esquerda» e «socialismo», como se uma coisa fosse sinônimo da outra (e não são). Depois temos a generalização de que os movimentos socialistas produziram regimes opressores (nem todo movimento socialista chegou ao poder, nem todo socialismo é igual, nem todo regime «opressor» o foi de fato). Ainda temos uma confusão deliberada do conceito de liberdade (de que liberdade se está falando?) e, por fim, a atribuição exclusiva de culpa aos regimes socialistas por todas as catástrofes humanitárias que ocorreram durante sua existência (com um pouquinho a mais de ignorância do argumentador, socialismo causa até seca, terremoto e enchente). O terceiro argumento é um não argumento: ele é verdadeiro, tecnicamente, mas não é uma refutação da dicotomia.

Esquerda e Socialismo

Certamente é inegável que o socialismo tem sido, há quase duzentos anos, a expressão mais visível e legítima da esquerda. Eu seria louco de negar isso. Mas seria igualmente louco se deixasse de notar que os dois conceitos não se confundem: existe esquerda fora do socialismo e, ainda mais paradoxal, existe socialismo fora da esquerda.

O conceito de esquerda não se refere à economia, mas ao posicionamento em relação à autoridade. Ser de esquerda é opor-se à autocracia, aos privilégios de nascimento, ao continuísmo, às ideologias excludentes, ao pensamento religioso alienante, etc. A esquerda nasce enquanto atitude (mais do que ideologia) quando na Assembleia Constituinte francesa de 1789 os delegados leais ao rei fazem questão de sentar-se à direita do trono posto diante das arquibancadas. Os que se opunham ao que aquele trono representava resolveram, então, para marcar posição (naquele momento tal posição não era somente ideológica, mas também física), deliberadamente sentar-se à esquerda.

Os socialistas originais (Robert Owen, por exemplo) sequer eram de esquerda: eram aristocratas preocupados com as más condições de vida do povo e que não pretendiam mudar nem a estrutura econômica e nem o poder político. Estavam preocupados com a «questão social», mas não tinham um projeto definido. De certa forma, todo movimento em oposição ao status quo é esquerdista, ainda que não seja socialista, o que significa que, em certos contextos, o nacionalismo (normalmente associado à direita) pode ser uma forma de esquerdismo (caso do nacionalismo irlandês, por exemplo). Por fim, o socialismo petrificado de Estados como a URSS, a Coreia do Norte e Cuba, jamais poderia ser classificado como esquerdismo, muito menos os regimes impostos de fora para dentro, como o governo «operário» da Polônia, ou a república «democrática» alemã.

Liberdades

Uma dos mais saudosos debates que travei durante minha graduação em História foi justamente sobre os diferentes tipos de liberdade. Conduzido por uma professora evangélica e com tendências conservadoras muito nítidas, o tema tornou-se explosivo pela presença na turma de um conjunto diverso de opiniões (inclusive o saudoso Frederico Mesquita, comunista, umbandista e médium). Dois tipos diferentes de liberdade foram abordados: a liberdade «dos antigos» e a liberdade «dos modernos», definidos segundo a ótica dos pensadores do século XVIII. Os dois tipos ainda são, até hoje, definidores dos debates políticos mundiais.

A liberdade dos antigos consistia na liberdade de ação política. Votar e ser votado, exercer cargos políticos, opinar e ser ouvido. Era a liberdade dos eupátridas atenienses e dos senadores da república romana. A liberdade dos modernos consistia na liberdade de iniciativa econômica. Abrir negócios e conduzi-los, comprar e vender, possuir e controlar bens, laissez-faire, laissez-passer. 

Os movimentos de esquerda estão interessados na liberdade dos antigos (ressalvando que eles pretendem universalizar o conceito de cidadão, que era restrito, entre os gregos, a uma elite), estão interessados no empoderamento de todas as classes sociais, de forma que o governo reflita a pluralidade de todas as opiniões existentes, inclusive dos «despossuídos». Esta é uma liberdade revolucionária, que leva necessariamente a conflitos, pois os diferentes estratos sociais têm objetivos diferentes (o que nos leva ao item seguinte).

A direita, claro, está oposta a esta liberdade, porque o conservadorismo sempre foi mais interessado em conservar o controle do poder do que em usá-lo em determinado sentido. As ideologias de direita são ideologias de justificação do status quo político. Há que se mudar alguma coisa, para que tudo permaneça o mesmo, diz a célebre frase. Para substituir a liberdade política como objetivo, a direita institui a liberdade econômica, com o argumento de que uma sociedade livre permitiria que as pessoas, por sua própria iniciativa, superassem sua pobreza. O mito do self made man americano está a serviço desta ideologia. O que a direita não conta e quase ninguém percebe é que esta sociedade economicamente livre não existe, nunca existiu e jamais existirá, pois a própria existência de pessoas que já possuem grandes recursos econômicos implica em uma inércia que se opõe ao progresso dos pobres. Os novos negócios enfrentam a concorrência desleal dos antigos — e quem duvida disso, que tente começar a produzir um concorrente da Coca-Cola ou iniciar uma fábrica nacional de automóveis.

Socialismo e Opressão

Se esquerdismo significa uma posição necessariamente libertadora, como pode levar à opressão? Este é um dos grandes enigmas da história política dos séculos XIX e XX, ao qual se dá, no contexto da direita, uma resposta simplista e ofensiva, que evoca Orwell: liberdade é opressão.

Segundo este pensamento, que muitas vezes se lê na internet, especialmente entre os adeptos da direita mais extremada, todo movimento que vise à libertação do povo produzirá mais tirania, toda vez que se apeia o jugo, um jugo mais pesado é imposto. Este fatalismo político, que aconselha o povo a conformar-se, é o próprio cerne do pensamento direitista, que busca prevenir toda forma de contestação do sistema político e das relações de poder. O «terror» (eliminação física da elite, tal como nas revoluções francesa e russa) é apresentado como uma forma suprema de crueldade, ainda que afete a poucos milhares, mas os sofrimentos persistentes das classes desfavorecidas são ignorados solenemente. A «autarquia baseada em armas» é uma protetora da liberdade, ainda que mate e oprima, mas a revolução é apenas uma difusora de opressão, por matar e oprimir. Serei o único que percebe a falácia?

Não custa lembrar que o socialismo é um programa econômico com fins políticos, que sua inspiração é a liberdade dos antigos, não a dos modernos. Trata-se de empoderamento, não de uma suposta «igualdade de oportunidades» que se baseia no manuseio de dados viciados e cartas marcadas. Reduz-se, ou elimina-se, a liberdade econômica com a finalidade de evitar que se produzam desigualdades que resultem em controle do poder por minorias mais favorecidas.

Não estou defendendo aqui esta estratégia (tal como não defendi mais acima o «terror») porque é historicamente sabido que ela resultou em um sistema opressor. O extremismo no combate à liberdade econômica resultou em catástrofes como a Grande Fome Soviética de 1932-1933 e nas recorrentes fomes da Coreia do Norte. Sob um regime rigidamente coletivista, plantar uma horta é uma atitude antirrevolucionária e estocar comida para o inverno é uma traição à Pátria. Eu seria louco de defender isso, o problema é que, para o direitista extremista típico, que tem a sutileza de um boi numa loja de louças, o fato de eu não concordar em 110% com Ayn Rand e o Tea Party significa que eu estaria expropriando cereais na Ucrânia em 1932. Que existam tais pessoais propagando estas balelas pelo mundo não é um problema, o problema é que pessoas um pouco mais articuladas produzem versões ligeiramente mais douradas destas acusações e as usam para desqualificar a esquerda.

Liberalismo e Liberdade

Como dito antes, a liberdade dos modernos consiste na liberdade de iniciativa econômica — e não em liberdade política. Eu poderia ir mais além e dizer que a liberdade a que almejam os modernos não é uma liberdade para todos, mas um privilégio para alguns. Vejamos o exemplo da propriedade privada.

Visto sob o ângulo da direita, o sagrado princípio da propriedade privada protege as conquistas justamente obtidas por aqueles que trabalharam para adquirir bens (como carros, casas, chácaras, etc.). Mas você nunca verá um direitista admitindo que a propriedade pode ser adquirida por meios ilícitos (grilagem, fraude, roubo) ou injustos (privilégios concedidos pelo Estado). O pensamento direitista assume como incontestável a sacralidade da posse. Confunde posse com propriedade.

Vista sob o ângulo da esquerda, a propriedade é um meio para se atingir fins econômicos ou políticos. Desta forma, dependendo dos objetivos que se quer atingir, será necessário afetar a propriedade. Só se mexe na estrutura do poder político quando se toca a estrutura da propriedade privada. A França só superou o feudalismo quando foram expropriados os bens da igreja e uma parte significativa dos bens da nobreza. Fazer uma reforma agrária é uma maneira de democratizar o país. Mesmo os Estados Unidos fizeram uma, ainda que por vias tortas, cedendo aos pobres as terras tomadas dos índios, em vez de dividir as terras já estabelecidas. Para a esquerda propriedade não é sagrada, da mesma forma que não é divino o direito dos governantes. Mas a propriedade privada, especialmente dos bens de maior valor, é a vaca sagrada do capitalismo.

Sempre que entra em questão o debate sobre a propriedade, costuma-se dizer que em um regime socialista as pessoas não têm direito à propriedade. Isto é relativo. Não conheço muito bem a situação de Cuba e Coreia do Norte hoje (e essa última sempre foi mais extremista que a média dos comunistas, por inspiração chinesa), mas é fato histórico que as restrições à propriedade nos países da Cortina de Ferro eram muito menores do que se diz. Os cidadãos soviéticos de fato não possuíam as casas em que residiam (mas tampouco tinham de comprá-las fazendo dívidas ao longo de décadas), mas possuíam seus móveis, eletrodomésticos, carros, bicicletas, roupas, livros etc. Podiam possuir bens móveis e de uso pessoal ou familiar, mas não podiam possuir propriedade imobiliária. Este é o ponto central do debate.

No Brasil são relativamente poucas as pessoas que acumulam propriedade imobiliária. A maioria vive no aluguel ou possui, quando muito, a própria casa em que vive. Para estas pessoas não faria diferença a vida em um regime comunista, a não ser pela inexistência do aluguel ou da prestação do financiamento. A diferença existe para aqueles que acumulam propriedade imobiliária e a usam para exercer poder político e econômico. Portanto, o debate sobre a sacralidade da propriedade privada é um debate sobre os interesses da minoria que possui bens imóveis em quantidade significativa.

Não estou defendendo a expropriação, embora acredite que limitações ao acúmulo de bens são salutares para evitar que o sistema político degringole para uma oligarquia (esta constatação já estava presente nas leis de Sólon, base da democracia ateniense antiga). Defendo, isto sim, que não se deve colocar um direito subjetivo (o de se conservar os bens que se adquiriu, por qualquer meio) acima de um direito incontestável e coletivo, que é o direito à liberdade no sentido político do termo. Defendo aqui a liberdade dos antigos, o empoderamento dos cidadãos.

Direitos e Justiça

O ponto seguinte da argumentação direitista é que revindicar direitos é algo injusto. Trata-se de outra inversão tipicamente orwelliana, distribuir direitos é fazer injustiça, que se desmascara quando revertemos a afirmativa: restringir direitos é fazer justiça. Ninguém em sã consciência diz abertamente que uma sociedade que restringe direitos a uma minoria é mais justa que uma sociedade que distribui esses mesmos direitos ao maior número possível de pessoas. Este é o tipo de coisa que precisa ser dita salaciosamente, através de indiretas e subterfúgios, para evitar que as pessas tomem consciência da pílula que estão engolindo.

Novamente entra em questão a vaca sagrada da direita: a propriedade privada. Como a direita que perpetuar o status quo, afirma que é justo conservar-se o que já se tem, ainda que mal ganho. Não importa se a propriedade é um roubo, a antiguidade de sua aquisição a tornou intocável (argumentum ad antiquitatem). Assim, o fazendeiro que grilou terras públicas ou que as comprou de pequenos sitiantes mediante extorsão ou fraude pode abrir o peito e falar grosso em defesa de sua «propriedade», mas a multidão de despossuídos que não tem onde sequer plantar uma horta precisa é de cacete da polícia para deixarem de ser vagabundos. Se você acha que eu estou falando do Brasil de hoje, engana-se: é a Inglaterra do século XVII, com suas leis contra a «vagabundagem», que criminalizavam o desemprego, a orfandade, a viuvez, a fome e o estado de necessidade. Eram leis que puniam com chibatadas a mendicância, com decapitação o roubo de um feixe de espigas de trigo, que sentenciavam ao degredo as viúvas (forçadas a casar-se com criminosos expatriados) e os órfãos (alistados à força na marinha). E os que sobravam eram tocados pelas estradas como ratos, forçados a entocar-se nos ermos, às vezes recaindo no canibalismo (Sawney Bean). Quatro séculos depois a direita ainda usa o mesmo discurso e os mesmos métodos contra a miséria, e é a esquerda que está obsoleta.

O que a esquerda procura (e não necessariamente acha, mas tem ao menos o mérito de estar procurando) é a distribuição da justiça. Enquanto a direita, por princípio, acredita que só se deve fazer isso sem tocar nos «direitos adquiridos» (mesmo os mal adquiridos). Chega-se à situação do Paraguai, país cuja extensão territorial é inferior à soma da área dos títulos de propriedade registrados em seus cartórios: somente criando novas terras é que se pode fazer justiça, nunca distribuindo as terras já existentes. Infelizemente se sabe, pela experiência da História, que mesmo as novas terras serão apropriadas preferencialmente pelos que já detinham terras antes. Isso desde a antiga Roma, que levou à morte o tribuno que propôs a distribuição preferencial do butim de guerra aos plebeus (Lex Ager Publicus) até a expansão da fronteira agrícola brasileira para o Centro Oeste. Não se criou ali um mundo ideal de justiça fundiária, ainda que alguns dos novos latifundiários sejam antigos minifundiários de outras regiões: perpetua-se também além da fronteira o regime de injustiça que existiu aquém.

Correção Política e Liberdade de Expressão

E tudo isto desemboca no discurso político. Durante muito tempo a esquerda fez-se ouvir com suas demandas por respeito e igualdade de oportunidade, de pluralidade de opiniões. Mas os excessos de suas campanhas (feminismo, correção política) levaram a uma reação direitista que praticamente atolou a reivindicação da minoria no ruído raivoso da maioria ofendida.

Em nome de uma «liberdade de expressão» que os movimentos minoritários nunca tiveram, a direita e suas opiniões majoritárias, construídas através da alienação pelos meios de comunicação, busca constranger a aspiração de direitos pelas minorias. Nem mesmo no abstrato terreno das ideias podem os excluídos da política e da economia encontrar o refrigério de suas aflições.

O que esta torta liberdade de expressão pretende conservar é o direito de fazer troça usando estereotipos sexistas, racistas, xenófobos, etc. Defendem o direito que o humorista tem de ofender, mas ofendem aos pequenos, em vez de atacar religiões, ideologias, sistemas políticos, etc. Uma piada sobre o imperialismo ianque é «boçalidade», mas reclamar de uma piada que ofende bolivianos é «boçalidade» também. Ofender os pequenos e pobres é «liberdade de expressão», mas não se toque em religião nem em política. Ou melhor, toque-se apenas se a religião já estiver feita de judas, como a Igreja Católica, esta Geni entre as instituições, ou se a política for de esquerda. Não há piadas sobre os próceres da direita: conte as caricaturas de Álvaro Dias, Heráclito Fortes, José Sarney, Esperidião Amin, Aécio Neves e outros e compare com a profusão delas a respeito de políticos do lado esquerdo do espectro.

A liberdade de expressão que interessa a direita é apenas a sua liberdade de difundir suas ideias. A difusão de ideias divergentes é vista com desconfiança. A mídia é caninamente fiel aos interesses do patrão, mas as revistas que defendem ocasionalmente o governo se tornam «chapa branca», como aconteceu com a Isto É e a Carta Capital. A liberdade vista como seguir o ditado do dono da editora, não como o direito de um blogueiro pensar fora do seu quadrado.

E as Conclusões, José?

Não escrevi este artigo para conduzir o leitor a conclusões fechadas e acabadas. Estou aqui para provocar, não para responder. Para confundir, não para explicar. Quem tem respostas para tudo são os ideólogos da direita (Ayn Rand, Ludwig von Mises). Houve um tempo em que a esquerda (especialmente a esquerda socialista) também agia assim, mas hoje temos novamente diante de nós um grande ponto de interrogação — e é uma profunda riqueza intelectual enfrentar esta ignorância. Porque quando enfrentamos o vazio das ideias, temos muito espaço para preencher com ideias, planos, ideais, utopias e, eventualmente, soluções. Mas quando esse vazio está bloqueado por um muro de convenções, preconceitos, fidelidades ancestrais, direitos adquiridos…

Diversidade da Unidade

Comentário a respeito de certas observações feitas por participantes de um fórum na Internet

Um dos perigos da ideologização das bandeiras progressistas é a criação de consensos e compromissos que as atenuam de forma suave e gradual até se transformarem em sua própria negação. Um bom exemplo foi a Revolução Russa, em sua fase institucionalizada: primeiro puseram o Partido para falar pelo povo, depois os Comitê Central para falar pelo Partido, depois o Presidium para falar pelo Comitê Central.

Basicamente o que você está propondo é que em nome da "unidade" do "movimento" os "revolucionários" fechem os olhos para posturas antiéticas, contraproducentes, equivocadas e/ou simplesmente fadadas ao fracasso (por favor, o "e/ou" se refer a cada um dos itens). Alguns aqui discordaram de uma edição do vídeo que distorceria o que foi dito por Malafaia, você acha que devemos aceitar "edições de vído" em nome da coerência da "revolução". Eu, que já vi o estrago que uma "edição" bem feita pode fazer (eu tinha 17 anos incompletos em 1989), afirmo que não podemos aceitar isso com naturalidade.

Uma luta que recorre a armas falhas não pode ser bem sucedida. Porque, mesmo que vença, será uma vitória para estabelecer outro erro. O socialismo era uma ideia bonita, mas a revolução russa criou um imperialismo totalitário -- isso não foi bonito. Engraçado que por muito tempo os socialistas desculparam os desvios da revolução justamente para evitar a desunião, denunciando como vaidades fúteis e traições os casos de deserção.

O mais absurdo de se fechar os olhos a algo que achamos errado, apenas para manter a união, é que nós fechamos os olhos, mas o adversário, não. Mesmo que nós não critiquemos uma falha no "movimento", certamente o adversário a perceberá e a utilizará para seu benefício. O que o movimento ganha, então, fechando os olhos para suas contradições? Nada além de permitir que lideranças ineptas dominem o quintal. Lideranças que pregam para os conversos, mas não tem sucesso em enfrentar o mundo "lá fora".

A autocrítica não é uma fraqueza, é uma força. Um movimento que se vê "enfraquecido" pela existência de autocrítica é um movimento mentiroso, que veste uma impostura de unidade e força para consumo interno, mas que perde legitimidade perante a sociedade e perante a posteridade.

Se queremos produzir uma mudança nova, permanente e valiosa para a sociedade, precisamos que nossa luta se baseie na transparência, na ética e na racionalidade. Isso inclui aceitar a autocrítica como uma forma de detectar precocemente falhas estratégicas. Inclui rejeitar os vícios que combatemos, em vez de apenas inverter o balanço do poder, substituindo um extremo pelo outro. Inclui aceitar lideranças pela sua eficácia e pela sua coerência, e não pelo seu carisma.

Aquilo que vocês dois propuseram é uma reação imatura (quase infantil) diante do diagnóstico de um possível erro. Eu me distancio de movimentos que possuem tais lideranças e que se baseiem em tais estratégias. E acredito que todos que não queiram decepcionar-se devem afastar-se também.

Vegetarianismo de Grife Só Serve Como Consolo do Complexo de Culpa Capitalista

Reelaboração de um post feito no Paulopes, a respeito de um determinado aspecto da argumentação pró-vegetariana.

O movimento vegano/vegetariano é mais uma estratégia dos donos do poder econômico para desviar a atenção da população da real causa da escassez (que é a ineficiência do capitalismo para produzir a plenitude). Quando digo isso estou me expondo a severas críticas, tanto da parte dos vegetarianos quanto dos que são céticos em relação a teorias de conspiração. Por isso, nesta revisão de meu argumento original postado no blog Paulopes.com.br, devo ser mais rigoroso com a minha lógica e fazer a devida introdução, na esperança de ser mais claro.

Comecemos pela questão de definição do que é “movimento vegano/vegetariano”. Que fique claro que não existe tal movimento de uma forma organizada, tal como não existe um “movimento homossexual” ou um “movimento roqueiro”. O que existem são pessoas que aderem a um determinado modo de vida, seja por causa de influências genéticas/congênitas seja por causas sociais/preferenciais. Acredito que o vegeto-veganismo pertence à segunda categoria: ninguém “nasce vegetariano/vegano”, mas adota isso como estilo de vida por alguma razão. Esta alguma razão é precisamente o ponto que pretendo argumentar.

Tendo deixado claro que não estou apontando o dedo para uma suposta Internacional Vegetariana a serviço dos Illuminati, passemos à questão de quem são os “donos do poder econômico” e da razão pela qual afirmo que não estou criando uma teoria de conspiração. Que o poder econômico tem dono, nem a mais ingênua Poliana seria capaz de ignorar (a não ser retoricamente, mas isso é irrelevante). Que tal poder busca difundir seus valores através dos mais variados meios (inclusive os meios de comunicação, que ele controla), tampouco é loucura imaginar. Loucura seria dizer que o simples acesso a tais valores difundidos zumbifica de tal forma o indivíduo que ele passa a obedecer cegamente. Lavagem cerebral não funciona assim.

Quando digo que o vegetarianismo é “mais uma estratégia” dos donos do poder eu não estou dizendo que Wall Street está vendendo a ideia de que todo mundo deve ser vegetariano/vegano, estou dizendo que os valores difundidos pelos donos do poder econômico acabam levando as pessoas a desenvolver estratégias de salvação pessoal — e o vegeto-veganismo se encaixa nisso. A minha tese aqui é, portanto, a de que muitas pessoas, se não a maioria, aderem a essa dieta devido à pressão que sofrem no seio da sociedade capitalista — e não por acreditarem realmente nos valores envolvidos.

O Capitalismo Precisa de Bodes Expiatórios

Sendo um sistema essencialmente injusto, ideologicamente injusto, o capitalismo não pode (pelo menos não ainda, ou pelo menos não fora das fronteiras dos Estados Unidos) desfilar-se de cara limpa. Não se pode simplesmente querer que todos achem natural a crescente exploração do homem pelo homem, que gera massas de desempregados, turbas de eternos excluídos, vastidões de terras arrasadas. Tal como o cigarro não se anuncia como “câncer de bolso”, o capitalismo não se anuncia como um sistema que enriquece alguns e relega outros à miséria. Para evitar revelar esta verdade incômoda, o capitalismo emprega vários subterfúgios ideológicos:

  1. Culpabilização da vítima como uma estratégia de divisão: os pobres são indolentes, promíscuos, bêbados, drogados, infiéis, inferiores etc. Se eles “não são como nós”, então não merecem o que nós temos.
  2. Inversão dos valores humanistas, substituídos pelo espírito de competição: em vez de incentivar o compartilhamento, incentiva-se o amealhamento, quando não é possível escalar mais que o outro, puxar o seu tapete se torna aceitável.
  3. Fragmentação das demandas, levando à individualização dos problemas e o esvaziamento das esferas coletivas de decisão: a longo prazo produz-se um sistema político no qual a vontade popular é manipulada ou então sequer consegue ser expressada legitimamente, embora continue a capa de democracia.

Estas estratégias fazem com que, a longo prazo, as pessoas passem a buscar soluções individuais para os seus problemas. Se não tem ônibus no bairro, compro um carro. Se não tem segurança, ergo um muro. Com o tempo a individualização fragmenta os partidos, as igrejas, a sociedade como um todo, de alto a baixo, tornando impossível a construção de agendas comuns significativas. Com isso a política se torna publicitária: as pessoas votam convencidas por estratégias de marketing, porque não enxergam na eleição uma ferramenta para mudar sua realidade.

O Problema da Escassez Não Tem Como Ser Resolvido Pelo Capitalismo

O grande problema do capitalismo é que ele não resolve a escassez. Não resolve porque a plenitude não seria lucrativa. O capitalista só consegue obter lucros se cobrar por seu produto mais do que ele vale. Se não houvesse demanda maior do que a oferta as margens seriam insignificantes, paralisando a economia. Quando isso acontece a economia entra espontaneamente em recessão (ou seja, a produção desaquece a fim de causar desabastecimento e forçar a alta dos preços).

Nas primeiras décadas de existência do capitalismo, quando ninguém ainda o entendia muito bem e as palavras de Adam Smith, quando citadas, quase recebiam “oráculo do Senhor” em resposta, não havia necessidade de meios termos. Os economistas ousavam dizer coisas de fazer Margareth Thatcher corar de pejo. Não vou citar nenhuma frase dos luminares liberais do início do século XIX porque este é um blog família.

Mas veio Marx e fez sua contundente crítica ao sistema capitalista. Não me importa se a crítica dele está toda certa ou não, apenas que ela teve impacto e provocou nos teóricos capitalistas explicações mais elaboradas sobre o funcionamento do sistema, todas tentando ocultar a natureza instável deste.Cada época viu surgir e se dissipar pelo menos uma explicação para o problema. Todas tinham pelo menos três características básicas:

  1. Isentam o "sistema" da culpa usando o argumento da riqueza que ele produz — como o capitalismo foi bem sucedido em produzir a sociedade que hoje temos, altamente tecnológica e rica, embora desigual, argumenta-se que por ele ter produzido um mundo supostamente “bom”, ele produziu o melhor dos mundos possíveis ou que somente ele teria produzido esse mundo melhor.
  2. Atribuem a culpa à vítima — a culpa é do povo indolente, do trabalhador não qualificado, do operário que ganha salários excessivos, dos métodos antiquados de trabalho. Com isso o capitalismo impõe rígidos métodos de controle, corta empregos, achata salários, terceiriza etc.
  3. Quando as pessoas se mostram insatisfeitas, o próprio sistema vende a solução, na forma de cursos (auto-instrucionais e pagos pelo próprio empregado, no interesse de sua “carreira”), treinamentos de auto-ajuda (reuniões nas quais pessoas que não precisam passar pelo que você passa tentam convencer-lhe de que a culpa pelos seus fracassos reside exclusivamente em você) ou recursos miraculosos (entre os quais religiões milagrentas).

As soluções em nível de varejo eram variadas. Dizia-se que as pessoas eram pobres porque preguiçosas. Portanto, quem trabalhasse muito poderia resolver o seu problema. Dizia-se que certos países eram culturalmente incapazes de desenvolvimento. Portanto, você poderia emigrar para um país sério e ficar rico lá. Dizia-se que certos povos/raças eram estúpidos demais para um desenvolvimento autônomo, mas pelo alguns indivíduos poderiam ter algum conforto servindo de lacaios para os “inteligentes”. E as mulheres sempre poderiam “melhorar a raça” copulando com homens da cor certa a fim de terem filhos mais evoluídos.

O Vegetarianismo se Alimenta do Complexo de Culpa

Se em décadas passadas havia os mais diversos espantalhos para culpar pela miséria nossa (em certa época o imperialismo ianque explicava até as notas baixas do meu boletim), é natural que isso não tenha mudado. Antes proliferaram esses espantalhos

Agora dizem que falta alimento no mundo porque comemos carne (não custa lembrar que a conquista da carne na dieta do pobre foi celebrada nos anos 90 como uma vitória aqui no Brasil, entre outras coisas ela garantiu a reeleição de FHC). Portanto, podemos fazer nossa microparte para salvar o mundo deixando de comer carne e divulgando que outros também parem. Não é preciso fazer reforma agrária, nem combater a exploração dos pequenos agricultores pelas multinacionais produtoras de sementes geneticamente modificadas, não é preciso encontrar uma alternativa ao modelo “industrial” do agronegócio, que deixa de plantar feijão para plantar capim se o gado estiver valendo mais do que gente (e frequentemente está). Todas estas bandeiras são de grande envergadura e exigem luta política, algo que raramente o cidadão estará disposto a fazer (esse ano de 2011 tem sido bastante atípico). Melhor do que fazer uma revolução, que toma tempo, é fazer um prato verde, que demora vinte minutos, e o resto do dia ainda fica livre para continuar correndo atrás da vida.

No fundo esse raciocínio de demonização da carne é só outra ferramenta de alienação que procura esconder o fato de que a culpa da fome está no capitalismo, e não no que escolhemos comer:

  1. Existe grande irracionalidade no uso da terra, gerada pelo capitalismo. Em certos países pobres da África regimes corruptos alugam ou vendem terras aráveis para multinacionais plantarem flores ou ração para animais, gerando fome.
  2. Existe grande desperdício de alimento no mundo atual, o simples fato de haver uma epidemia de obesidade em certos países indica isso.
  3. Muita gente que não se alimenta direito porque não tem renda suficiente para comprar alimentos de qualidade ou, tendo a renda, não tem acesso a tais alimentos porque eles não são produzidos em quantidade suficiente. Isso não vai mudar se todos nos tornarmos vegetarianos, isso só mudará com salários melhores ou alimentos baratos.

Não Estou Aqui Propondo uma Alternativa Comunista

Propor isso seria uma infantilidade. Mas que nome se dá à insistência em uma proposta que não funciona, mesmo após dois séculos? Sim, é verdade que o capitalismo derrotou o comunismo, mas será que ter sido capaz de derrotar a alternativa comunista (que, digo de passagem, nunca me agradou) qualifica o capitalismo para derrotar outros desafios, entre os quais o de oferecer uma existência digna à humanidade? Existe alguma razão pela qual devamos ser tão fiéis ao capitalismo, esse Moloch moderno, a ponto de sacrificarmos nossos filhos em seu altar?

No entanto, mesmo tendo dito isto, a crítica feita ao capitalismo será recebida com um ceticismo seletivo. Engraçado que quando as teorias econômicas liberais produzem crise atrás de crise ninguém se convence de que elas podem, talvez, quem sabe, imaginem, possivelmente, estar um pouco erradas. Mas sugira que a verdade pode ser diferente e nada menos do que “provas” são exigidas.

Isso até mesmo quando publicações “comunistas” andaram sugerindo que Marx tinha razão. Saíram artigos assim na Forbes, na The Economist, no Washington Post e na coluna da Míriam Leitão nO Globo (mas essa última não tem o mesmo crédito). Mesmo assim, os fiéis fundamentalistas no capitalismo não abrem mão nem de um um jota e nem de um til.

Porque Devemos Evitar o Termo “Revisionismo”

O termo “revisionismo” não deve ser jamais utilizado em uma discussão sobre História. Há três boas razões para isso.

  1. O termo é uma ofensa a qualquer historiador, pois sugere que revisões do conhecimento histórico estabelecido são raras, que as teses dos historiadores estão, de alguma forma, solidificadas. Nada é mais distante da verdade: poucos campos do conhecimento humano são mais aberto a controvérsias do que a História. Até mesmo o ponto de haver quem negue o caráter científico da História justamente por essa amplitude das discussões. Falar em “revisionismo” como se fosse algo especial é passar atestado de ignorância sobre a natureza e os procedimentos da História enquanto campo do conhecimento humano.
  2. O termo, em si, é uma falácia. Nenhum pesquisador deve (ou deveria) eleger um método como o objetivo de seu trabalho. Tal como o objetivo do médico é curar, e não operar. O historiador não tem obsessão de “revisar”, mas de obter o conhecimento mais próximo possível da “verdade” (seja lá o que for que ele tome como tal). Alguém que se diz “revisionista”está colocando o questionamento como uma finalidade em si, independente de qual seja o objeto do estudo. Não deve ser assim: devemos estudar o objeto e revisar as teorias a partir dos dados coletados. Uma atitude “revisionista” está para a História assim como o criacionismo está para a Biologia: parte-se de uma necessidade a priori de questionar o estabelecido e busca-se indícios que justifiquem este questionamento, não com o objetivo de propor uma teoria alternativa, mas de demolir a explicação existente. Revisionistas são como criacionistas. O que quer dizer que eles são necessariamente ignorantes, falaciosos ou picaretas.
  3. Existe um grupo de pessoas que propõe o revisionismo com objetivos nada louváveis: aquelas pessoas que querem remover do racismo e do anti-semitismo o opróbio que justamente lhes caiu em cima como consequencia do horror da Segunda Grande Guerra. Querem remover esta mancha a fim de poderem novamente difundir estas ideias. Portanto, para evitar de ser associado a estas pessoas, ou de indiretamente dar fôlego aos seus movimentos, você deve evitar usar esta terminologia específica, que eles sequestraram para si.

Tendo dito isto, respondo à sua pergunta: existem inúmeros documentários sobre o revisionismo do Holocausto. Poucos campos do conhecimento histórico são tão bem documentados (com filmes contemporâneos inclusive). Existem várias controvérsias envolvendo o que aconteceu nos campos de concentração, interpretações díspares, dadas por pessoas que variam da extrema esquerda (historiadores soviéticos inclusive) à extremíssima direita. Há controvérsias quanto ao número efetivo de mortos (estimativas variam entre três e treze milhões), à percentagem de judeus no cômputo destes mortos (há quem defenda que os judeus eram minoria nos campos de concentração, embora ainda fossem o grupo mais numeroso) e até mesmo ao modus operandi dos campos de concentração.

O que não existe é alguma teoria que consiga explicar a imensa massa de documentos (filmes, fotos, depoimentos) de outra forma que não reconhecendo a existência de um Holocausto. Já ficou comprovado que algumas pessoas se aproveitaram do Holocausto para ganho pessoal, mas isso é da natureza humana: recentemente se descobriu que os políticos de Teresópolis andavam abocanhando 50% das verbas de reconstrução da cidade e deixando as obras para depois (mas, apesar disso, ninguém está afirmando que as chuvas foram uma invenção deles para obter verbas federais volumosas em que pudessem “mamar”). Já ficou comprovado, também, que boa parte dos verdadeiros responsáveis pelo ocorrido jamais enfrentou a Justiça pelos seus atos: fugiram para a União Soviética, para os Estados Unidos, para a Argentina, para o Paraguai, para o Brasil, para a Austrália, para a Finlândia ou para outros lugares. Os guardas que foram presos nos campos de concentração eram em sua maioria jovens oficiais deslocados para lá pouco antes da chegada dos aliados: bodes expiatórios quase todos.

Sabe-se também que os aliados cometeram crimes de guerra. O bombardeio de Dresden não é algo de que a Grã Bretanha se orgulhe, por exemplo. E não vou nem falar das obscenidades cometidas pelos americanos contra os japoneses no front oriental, motivadas por um racismo tão profundo e odioso quanto o anti-semitismo alemão. Sabe-se também que Stálin foi bastante pior do que Hitler, sob quase todos os aspectos (exceto quanto a eleger um povo específico para bode expiatório, Camarada Ióssif acreditava em “oportunidades iguais” para o Gulag…).

Portanto, boa parte daquilo que os “revisionistas” bradam como se fosse a descoberta da pólvora são coisas que a História já sabe muito bem. Este discurso deles só encontra apelo entre os ignorantes, pois quem estuda História tem uma compreensão muito mais ampla do assunto. Justamente por isso, é preciso abolirmos o uso desta palavra nos debates sobre a Segunda Guerra, deixá-la somente para os ignorantes. Pois quando recorremos a ela, damos sem querer uma credibilidade que neonazis não merecem.