A Argumentação Fascista

Chamo de “argumentação fascista” aquele estilo de debater que emprega o máximo artifício, para obter o maior efeito possível sobre o leitor. O argumentador fascista não quer que o leitor entenda o ponto, mas que capitule diante das estratégias argumentativas empregadas. Se no mundo real o fascista emprega a violência direta como meio para chegar aos seus objetivos, no mundo virtual transferirá um mesmo estilo ao seu texto, recorrendo a todo tipo de agressão e minimizando a sofisticação intelectual do texto.

A argumentação fascista é, então, uma forma de violência gráfico-verbal que tem por meta subjugar o leitor, em vez de convencê-lo. Existem várias formas de se argumentar de uma maneira fascista:

Parede de texto

A prolixidade pode empregada para pôr o leitor em uma situação de inferioridade intelectual aparente. Se não consegue compreender o texto, pela sua extensão e sua aridez, não conseguirá rebatê-lo eficientemente. A falha logo será usada pelo argumentador como uma “prova” de que o seu oponente não possui estatura intelectual suficiente para o debate, desacreditando-o sem que suas ideias sejam ouvidas no contexto.

Violência verbal

Sempre que o texto emprega de uma forma constante e repetitiva uma agressividade que parece gratuita, podemos ter certeza de que isto não é acaso. Os palavrões, desqualificações e ironias; tudo não passa de bullying verbal para intimidar debatedores. Alguns sentem receio porque são atingidos em sua autoestima ou se identificam com os rótulos usados para desqualificá-los. Por exemplo: o emprego de ataques pessoas indiscriminados contra pessoas que possivelmente tenham certas opiniões é uma forma de desestimular que interfiram (“todo mundo que pensa diferente é viado”). O uso de rótulos é uma maneira eficaz de esvaziar posições contrárias (“você só diz isso porque é comunista”).

Maniqueísmo

A prioridade da argumentação fascista, seja qual for o contexto, é a construção de consensos, em vez da busca pela verdade. O argumentador fascista busca, então, unir em torno de si os que já são simpáticos à sua causa. No passo seguinte ele coage os que pensam de forma semelhante, mas não idêntica, a abandonarem suas pequenas “heresias” e aderirem ao pensamento único. Por fim, tendo estabelecido um terreno seguro, o argumentador fascista é tentado a usar a força para silenciar posições diferentes e monopolizar o discurso. O processo todo se constrói com uma argumentação dualista de que “quem não está conosco é porque está contra nós”. Forçando o contraste, o fascista ressalta as identidades e suprime as nuanças.

Respostas prontas

Como diz o verso dos Engenheiros do Hawaii, na canção “Toda Forma de Poder”: o fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante fascinada. A cultura é a melhor arma contra o fascismo porque ela nos convence a não aceitar a fascinação do fácil. O fascismo pode ser, também, definido como um “facilismo”. O ódio do fascista à cultura é forte justamente porque a simplificação que o maniqueísmo oferece é desmascarada pelo conhecimento. Não é possível aceitar respostas fáceis quando você conhece a realidade em mais detalhes. Quem vê um arco íris não pode aceitar que o mundo seja preto-e-branco, mesmo que todas as construções visíveis tenham sido descoloridas. Então, quando um texto argumenta com excesso de repostas prontas e fáceis, podemos suspeitar que todas sejam falsas, ou em sua maioria.

Falsa autoridade

Citações são como calças, aqueles que fingem usar não podem enganar ninguém, a menos que se escondam. Quando você usa citações de maneira incorreta, basta que alguém bem informado leia, perceba a bestagem e poste um comentário. Então, se você só está engalanando o seu texto com citações para enganar ignorantes, precisará manter estrito controle sobre quem o lê e quem o comenta. Se o controle do primeiro tipo for menor (textos escritos já com a finalidade de compartilhar), então o controle do segundo tipo precisará ser exponencialmente maior. Textos contendo argumentação fascista geralmente são encontrados em blogues cujos comentários são controlados, fóruns onde a “fauna” é hostil, ou páginas que só aceitam reações via correio eletrônico.1

Um bom exemplo disso são os sites dos próceres da direita — Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho e os blogueiros da Veja. Na verdade, todo fórum da internet é um habitat potencial para a argumentação do tipo fascista, visto que agregam manadas de leitores cujo pensamento tende a coincidir com o divulgado localmente. O mesmo pode ser dito dos blogues, inclusive este. Então, é extremamente importante o leitor ter discernimento para não aceitar como autoritativo o que é apenas autoritário. Digo tudo isso para enfatizar que a presença de citações em um texto nada diz sobre seu embasamento. Quando você não checa as citações dadas, você aceita religiosamente o que está escrito. Mas quando você tenta checar, e percebe que todos os caminhos levam a lugar-nenhum, então pode se tranquilizar na certeza de que o texto emprega citações e referências apenas como uma forma de intimidar.

A Fascistização do conteúdo na internet

Tenho observado que essas técnicas de argumentação e arregimentação se tornaram comuns na internet. Empregam-na blogueiros de todos os matizes ideológicos (principalmente na direita, mas a esquerda não fica imune). Isso nos sugere que cada vez menos o conteúdo real da internet terá a capacidade de influenciar. Em vez disso, os blogues e sites se fetichizarão, valendo mais pela marca que vendem e pelas manchetes que divulgam do que pelos argumentos que realmente apresentam.

1 Um bom exemplo de como os fascistas fecham a porta para o questionamento pode ser visto ao vivo no blogue da “Universidade de Santa Catarina Conservadora”, onde um texto inacreditavelmente estúpido foi postado, mas ninguém pode comentar.

Revolutions Inc.

Bom dia para você, reacionário de direita travestido de jovem anarquista, que saiu às ruas nesse fim de semana querendo causar impacto. Devia ter ouvido o Humberto Gessinger e feito o pacto.1 Você está, conscientemente ou não, fazendo seu trabalho de formiguinha na preparação do caos. Eu sou astrólogo, vocês precisam acreditar em mim. Eu sou astrólogo e conheço a história do princípio ao fim.2

Digo isto apoiado em uma leitura porca dos mais recentes descobrimentos da psicologia (por mais recentes eu me refiro a mais de meio século, mas você, reacinha, talvez não tenha nem ouvido falar de Freud) e uma leitura um pouco mais cuidadosa de fatos que já são história. Fatos da história mundial recente que sugerem que o Império mudou sua tática e não está mais investindo nos militares para derrubar os governos que não lhe interessam: militares podem não ser confiáveis, podem estar interessados em fazer algo de bom pelo próprio país, podem sair do controle e custa caro recuperar os que fogem da gaiola, como Noriega, Saddam Hussein e Hugo Chávez.

Símbolo da Otpor!

Na verdade o processo é bem simples, já está amplamente documentado, e já foi empregado com sucesso em pelo menos oito oportunidades. Mesmo assim a nossa juventude "descolada", utilizando em larga escala um superpoder chamado "ignorância", fecha os olhos para os indícios de manipulação. Desde que os puxões nas cordas sejam feitos com suavidade, não se importam de ser marionetes.

Refiro-me aqui ao "pacote revolucionário libertador" financiado por entidades interessadas apenas no progresso dos povos e no aperfeiçoamento da civilização, como a USAID, o National Endowment for Democracy, o American Center for International Labor Solidarity, o European Endowment for Democracy, o Center for International Media Assistance e a CIA. Paralelamente a estas entidades, think tanks ligados às grandes multinacionais, como o Heritage Foundation, o American Enterprise Institute e o Open Society Institute.

Se você vive dentro de uma pedra, ou se é tão impermeável quanto uma pedra a notícias que se choquem com suas ideias preconcebidas, provavelmente não sabe que estas entidades, e outras antecessoras suas, têm atuado na desestabilização de regimes contrários aos interesses americanos desde os anos 70 e já tiveram sucesso em produzir pelo menos sete movimentos de massa liderados por organizações não governamentais financiadas pelas entidades citadas.

  • Derrubada de Slobodán Milosević (Sérvia, 2000), liderada pelo movimento "Otpor!" (Recuse!), tendo como símbolo a cor negra e um punho fechado. Milosević foi substituído por um líder mais afeito aos interesses americanos e abriu caminho para a independência de Kossovo, criando um protetorado euroamericano nos Bálcãs (área de interesse russa).
  • Revolução Rosa (Geórgia, 2003), liderada pelo movimento "Kmara" (Chega!), tendo como símbolo a cor negra e um punho fechado. Derrubou Eduard Shevardnadze, que se mantinha alinhado com a Rússia, e o substituiu por Mikhail Saakashvilli, que se alinhou com os EUA, tentou entrar para a OTAN e acabou eventualmente sendo posto em seu lugar pela invasão russa de 2008.
  • Revolução Laranja (Ucrânia, 2004), liderada pelo movimento "Pora!" (Chega!), tendo como símbolo as cores preta e laranja e o sol nascente. Conseguiu anular as eleições, fraudadas por Viktor Yanukovich, e colocar no poder o controverso presidente Viktor Yushenko, que quase morreu envenenado durante a campanha eleitoral, supostamente por obra do FSB (novo nome da KGB). Yushenko, sob forte oposição, não conseguiu avançar muito em sua política internacional, apenas criou leis de autonomia política e cultural favorecendo os ucranianos em relação aos russos. Acabou derrotado nas eleições seguintes pela lindíssima e gatíssima (mas aparentemente perigosíssima e corruptíssima) Yulia Timoshenko, que atualmente come cana braba por supostamente aceitar dinheiro de potências estrangeiras.
  • Revolução das Tulipas (Quirguízia, 2005), liderada pelo movimento "KelKel" (Renascença), tendo como símbolo as cores rosa e amarela e o sol nascente. Conseguiu derrubar Askar Akaev, um dinossauro que permanecia desde os tempos comunistas, e implantar um regime mais democrático.

Símbolo do Pora!

Estes movimentos tiveram características em comum:

  • liderados por uma ONG financiada por uma ou mais das entidades citadas mais acima;
  • caracterizados por um slogan que se confunde com o nome da organização;
  • o nome da organização inclui um ponto de exclamação, para maior ênfase;
  • adoção de um logotipo e de uma cor para simbolizar o movimento;
  • identificação com um líder político "novo";
  • esvaziamento do movimento após o sucesso inicial (mudança de regime).

Em alguns casos, símbolos idênticos foram utilizados (Sérvia e Geórgia), ou um slogan que é praticamente o mesmo (Sérvia e Ucrânia). Os regimes afetados sempre são adversários dos interesses americanos em regiões de interesse geopolítico americano (Bálcãs, Mar Negro e Ásia Central) e os regimes substitutos são liderados por políticos que são claramente alinhados com Washington ou, pelo menos, no caso da Quirguízia, tem o potencial de se alinharem mais facilmente.

Os líderes adotados pelas revoluções coloridas foram Yushenko (Ucrânia) e Saakashvilli (Geórgia).

Símbolo do Kmara!

Em todos os casos, o movimento original se esvazia após produzir seu efeito (certamente por não mais receber tanta assessoria e financiamento). O movimento ucraniano "Pora!" não consegue nem 2% dos votos nas eleições e tem ficado fora do parlamento. Na Geórgia o "Kmara" jamais conseguiu se formalizar como partido. O "Otpor!" da Sérvia ficou de fora do parlamento, embora tenha conseguido cerca de 5% dos votos certa vez.

As semelhanças ficam mais interessantes quando avaliamos que não foram somente estes casos. Houve outros movimentos fundados em outros países, com objetivos semelhantes:

  • Zubr -Bielorrússia
  • Oborona ("Defesa") - Rússia
  • Mjaft! ("Basta!") - Albânia

Símbolo da Oborona!

A cor negra está presente nos símbolos de quase todos esses movimentos, ainda que os movimentos tenham sido identificados por cores diferentes (branco, na Sérvia, laranja, na Ucrânia, rosa, na Geórgia, amarelo, na Quiguízia, azul, na Bielorrússia). Símbolos de origem anarquista (punho fechado, bandeira negra) idem. Os movimentos se solidarizam e chegam a prestar assistência mútua. Agentes sérvios organizaram o "Pora!" na Ucrânia e o "Kmara!" na Geórgia. Os georgianos, por sua vez, prestaram assistência aos quirquizes, enquanto os ucranianos auxiliaram os bielorrussos.

Após uma onda inicial de sucesso das revoluções coloridas, alguns países expulsaram as instituições citadas, o que evitou que o movimento crescesse na Bielorrússia, no Uzbequistão e na Albânia. Na Rússia o protesto chegou a ser grande, exigindo a renúncia de Vladimir Putin, mas foi reprimido e passou à clandestinidade. Onde as instituições de ajuda americana não atuam, os movimentos sociais de oposição não se desenvolvem.

A inspiração desses movimentos remete à Revolução dos Cravos (em Portugal, 1974) e à Revolução Amarela (nas Filipinas, 1986). Ambos movimentos não-violentos de resistência civil com o objetivo de derrubar ditaduras. Vale lembrar, porém, que a Geórgia e a Ucrânia não eram ditaduras.

Além dos contatos diretos entre os líderes desses movimentos, há uma clara articulação através da internet, mesmo no caso da Quirguízia, onde uma parcela ínfima da população conhecia a informática.3. A associação com a internet, naquela fase, deu ao movimento um ar de novidade, de poder espontâneo do povo.

Como os regimes fortes perceberam a jogada e começaram a se proteger, a estratégia mudou ligeiramente. Em vez de financiar a fundação de organizações formais, com sede e hierarquia públicas, os Estados Unidos passaram a patrocinar uma atuação desconcentrada, informal e sem hierarquia definida. Ou melhor, com um único centro de decisões, "virtual", localizado fora do país alvo. Muitas características permaneceram, ainda:

  • A Revolução do Cedro (Líbano, 2005) catalisou-se em torno do ex primeiro ministro Rafik Hariri, recentemente morto. O objetivo alcançado foi forçar a saída do exército sírio que tutelava o regime libanês.
  • A Revolução Verde (Irã, 2009), tentou questionar a eleição de Mahammound Ahmadinejad e forçar uma transição para o "moderado" Mir-Hussein Mussavi. Fracassou devido à forte repressão e à incapacidade de Moussavi para fornecer evidências firmes de fraude na eleição (além de ele não ter e mantido firme até as últimas consequências, preferindo contemporizar com o regime).

A tecnologia social desenvolvida através destas maquinações foi rapidamente assimilada em lugares onde a juventude é mais inteligente do que no Brasil, de forma que regimes autoritários alinhados aos EUA começaram a ser vítimas de estratégias semelhantes, desenvolvidas de forma autônoma:

  • Revolução do Jasmin (Tunísia, 2010) retirou do poder um grande aliado americano e abriu caminho para uma geração de políticos nacionalistas, muitos deles tendentes a aproximar-se do Irã e da Rússia.
  • Revolução do Lótus (Egito, 2010) retirou do poder aquele que talvez fosse o mais fiel aliado americano e abriu caminho para a legalização da Irmandade Muçulmana, considerada pelos EUA uma organização terrorista.

Estas duas revoluções se caracterizaram pela falta de um controle central definido, pelo emprego das redes sociais para articular os protestos e pela falta de líderes políticos óbvios, embora em momento algum seus participantes as tenham concebido como apolíticas. O apartidarismo desses movimentos se devia unicamente ao fato de não haverem partidos políticos legais e legítimos em atuação naqueles países. Estas revoluções estiveram fortemente ligadas (biunivocamente) com o Movimento Ocupem Wall Street (Estados Unidos) e com o Grito dos Indignados (Espanha).

O caso da Líbia é sui generis, pois a tentativa americana de produzir uma revolução colorida no país levou a uma guerra civil de grandes proporções, que quase destruiu o país. Por um momento, as estratégias americanas ficaram paralisadas em torno da questão líbia.

Mas no momento seguinte temos a reação. No Egito, organizações semelhantes às que haviam atuado nas revoluções coloridas vão às ruas contra o presidente Mohammed Morsi (que, por sua vez, demonstrava um alto grau de incompetência e sede precoce de controle) e legitimam um golpe de estado que restabelece no poder homens de confiança de Washington. Temos então o começo da revolta síria, desde o início planejada já tendo em vista a perspectiva de uma evolução idêntica à da Líbia. As estratégias foram, inclusive, as mesmas (criação de um governo de oposição, que adota a bandeira anterior do país).

O último elo desta corrente é o Anonymous, uma "grife" de protestos pela internet que surgiu como um grupo de pessoas interessadas em expor a Igreja da Cientologia.

O Anonymous pode ser descrito como um coletivo informal de usuários avançados de computadores (tanto crackers como phreakers e hackers) com a adesão de inúmeros script kiddies e n00bs interessados em fama.

De 2003 a 2011 o Anonymous, cujos membros adotaram como símbolo a máscara usada pelo personagem de Hugo Weaving no filme "V de Vingança", que, por sua vez, é uma referência a Guy Fawkes.4 A partir de 2011, porém, com a prisão de dezenas de seus mais brilhantes operadores, o grupo perde sua aura heróica e passa a segundo plano. Não sem antes contribuir ideológica e estruturalmente para o conceito da e-Revolução.

[CONTINUA]

1"Por isso, garota, façamos um pacto de não usar a highway para causar impacto." (Gessinger, H. "Infinita Highway". In: Longe Demais das Capitais. BMG/Ariola: 1987.

2Seixas, Raul. "Al Capone". In: Krig-Há, Bandolo!. EMI/1973.

3 http://www.academia.edu/2446594/e-Revolution_in_Kyrgyzstan

4 "Terrorista" inglês do século XVI (uma época na qual a palavra, obviamente, ainda não era conhecida), Fawkes pretendia explodir o Parlamento Britânico, matando o rei e todos os deputados, para facilitar a retomada do trono por uma dinastia católica.

Acabou a Era das Revoluções

Feliz era o tempo em que se podia gritar que “o povo unido jamais será vencido”. Não só porque foram inventadas centenas de maneiras de dividir o povo; cada uma apropriada para um tipo de indiferença, egoísmo ou medo que exista no mundo; mas também porque vencer o povo já não gera as mesmas reações de antes. Houve um tempo em que, pelo menos, as pessoas podiam contar que o mundo encararia com universal opróbrio aqueles que afogassem em sangue a insatisfação popular com seu governo.

Mas tudo mudou depois que os Estados Unidos empregaram todo tipo de chicanas jurídicas para tornar ilegal o protesto do movimento Occupy Wall Street e, posteriormente, com a bênção de um judiciário recheado de conservadores, soltar os cachorros sobre os pacíficos manifestantes de uma maneira não muito diferente da repressão chinesa contra a seita Falun Gong. O mundo foi poupado de cenas emblemáticas como o “tank man”, mas isso foi mais pela censura à cobertura jornalística mainstream.

Um pouco antes, a ida de multidões às ruas do Egito fora vista pelo mesmo governo americano como algo alvissareiro, os protestos dos jovens líbios, uma prova de coragem. Depois que o OWS foi dissipado por meio de gás lacrimogêneo, balas de borracha e bombas de efeito moral, curiosamente mudou o tom das manifestações ianques sobre os continuados protestos egípcios, surgiu uma cautela curiosa quanto aos protestos sírios. Esperava-se um silêncio ensurdecedor sobre outros protestos.

Agora que a Turquia está tendo o seu próprio movimento de ocupação popular, em protesto contra um regime que se torna cada vez mais autoritário, os Estados Unidos falaram baixo, por meio de um funcionário de terceiro escalão. Falaram apenas para cumprir o script, porque não poderiam falar muito alto. Não depois de reprimirem manifestações populares, criarem o maior sistema de espionagem interna em tempos de paz que jamais se teve notícia, não depois de manterem por mais de uma década uma prisão ilegal onde são mantidos sem julgamento cidadãos suspeitos de crimes cometidos em outras jurisdições.

A assustadora perda de legitimidade moral pelo governo dos Estados Unidos é algo que deveria causar grande preocupação. Muitas vezes, a autoridade moral é eficaz para prolongar a paz, para costurar acordos, para promover o bem comum. Mas na falta de qualquer autoridade moral, resta apenas a autoridade das armas, e é bem possível que estas tenham de ser usadas com cada vez mais frequência.

Com a falta desta autoridade moral, os Estados Unidos não servem mais de exemplo positivo para o mundo. Em verdade, os países de tendência autoritárias tendem a exatamente imitar o que os EUA fazem: reprimindo manifestações, como na Turquia, criando redes internas de espionagem, como na Rússia e no Irã, criando acusações sem fundamento contra opositores ideológicos, e outras formas mais insidiosas. Em vez de ensinarem ao mundo sua democracia, os Estados Unidos agora ensinam a destruir a democracia. Felizes éramos nós no tempo em que eles apenas eram hipócritas, e praticavam fora de suas fronteiras coisas diferentes do que faziam em casa: ainda podíamos olhar para dentro deles e ver virtudes imitáveis. Hoje as virtudes deles parecem bem menos significativas. Acabou a hipocrisia, porque no fundo eles já não diferem. Restou só o discurso, mas de belos discursos não se faz melhor o mundo.


Quando a Justiça Odeia

Não é nenhuma novidade mais que estamos vivendo um processo intenso de radicalização, com o terreno do centro sendo gradualmente comprimido pelos extremismos e com os rituais da democracia sendo estuprados em nome de interesses pessoais. Isto inclui os partidos, que planejam golpes ou eternização no poder, passa pelas instituições da sociedade civil, que frequentemente se fundam na defesa de privilégios e na construção de barreiras contra o outro, e pervade a sociedade como um todo, que começa a regurgitar episódios de ódio contra minorias raciais, ideológicas ou comportamentais.

Quando, porém, alguma voz nos tenta convencer de que não é tão grave assim a doença de nossa democracia, eis que uma voz rouca ecoa de dentro das cavernas, um promotor público utiliza o Facebook para mandar um recado à polícia de choque para que reprima com violência uma manifestação popular pois ele se encarregaria de arquivar o inquérito contra os responsáveis:

Alguém poderia avisar à tropa de choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial.
Petista de merda. Filhos da puta. Vão fazer protesto na puta que os pariu… Que saudades da época em que esse tipo de coisa era resolvida [sic] com borrachada nas costas dos medras…

O ódio é incompatível com a justiça, isto é algo que nem seria necessário dizer. Infelizmente, o Brasil não só é um país onde tem feito falta enfatizar o óbvio — como as noções básicas de cidadania, direitos humanos, justiça, dignidade etc. — como é um país onde dizer o óbvio parece cada vez mais causa de escândalo. Quando o rei está nu, para evitar o escândalo, é necessário reagir com toda radicalidade diante de quem ameace dizer isso. Por isso, no Brasil de hoje, quem diz o óbvio costuma ser atacado com mais força do quem expressa o absurdo.

O que este promotor de justiça disse é absurdo, mas muita gente aplaude. Aplaude porque o ódio está na moda, especialmente entre os simpatizantes de forças políticas que vem sendo deixadas para trás pelo trem da história. Almejam descarrilar o futuro e, se possível, empurrar tudo de volta para trás. O reacionarismo precisa de muito ódio e violência, porque não é possível explicar racionalmente às pessoas porque elas devem abrir mão de tudo que tornou sua vida melhor nos últimos dez ou vinte ou trinta anos. O reacionarismo precisa subjugar porque não consegue convencer. Ele precisa de uma tropa de choque, e de um promotor previamente comprometido a arquivar os inquéritos contra os policiais que aceitem matar aqueles de quem o promotor discorda.

Cada dia que passa nós damos um passo rumo ao abismo. Episódios como esse nos mostram que o fundo do poço moral tem porão. Que não existem limites para a falta de ética, de cidadania e de responsabilidade. Quando um membro do judiciário exibe total descompromisso com a Lei, e mesmo com os princípios que norteiam a Lei, cabe perguntar como podemos confiar nessa justiça. Nessa justiça sem freios e sem controle externo, onde a punição para um discurso de ódio como esse se limita a uma “aposentadoria”.

Havia uma antiga piada contada por um amigo meu, estudante de Direito, segundo a qual a diferença entre um juiz e um advogado é que o advogado apenas acha que é Deus. Só uma piada de advogado, claro, mas esse promotor leva tudo isso muito a sério. Ele se arroga o direito de decidir sobre a vida e a morte de pessoas que não conhece, apenas porque simpatizam com um partido (isso segundo sua percepção, pois não há provas de que os manifestantes seriam exclusiva ou mesmo majoritariamente “petistas”). Se algum dia, em um curso de direito, houver a necessidade de exemplificar o que é “injustiça”, basta exibir o print dessa postagem desse promotor, que violou a constituição e se tornou um criminoso ao se tornar mandante de assassinatos (o fato de tais assassinatos não terem sido cometidos não diminuiu o fato de que ele os ordenou).

A continuidade deste promotor em seu cargo, após isso, é um estupro ao direito constitucional e uma cuspida na cara da sociedade. Principalmente porque, se ficar claro que um membro do judiciário pode cometer tal temeridade impunemente, a perspectiva é que, cada vez mais, as vozes das cavernas ousem berrar na cara do povo, especialmente do povo “petista” (ou seja, aqueles a quem os reacionários acusam de ser petistas) que eles não têm direitos.

O ovo da serpente já está no ninho. Resta saber se vamos ser tolerantes contra  a intolerância ou seremos capazes de mostrar organização para resistir ao desmonte da democracia por aqueles que têm saudades do tempo em que podiam dar “borrachadas” em quem protestava.

Adeus Facebook: Está Chegando o Dia 31

Tenho uma promessa feita de excluir meu perfil do Facebook no dia 31 de maio de 2013. A promessa já era antiga, mas eu só a divulguei na própria rede social no final do mês passado porque, durante muito tempo, hesitei em tomar esta medida tão radical. Por mais que entendesse que a participação na rede social estava prejudicando vários aspectos de minha vida pessoal e profissional, eu ainda tinha alguma percepção de que continuar participando estava trazendo outros benefícios que compensavam. As últimas semanas, porém, foram me convencendo de que os lucros não são suficientes para cobrir os prejuízos.

Primeiro abandonei definitivamente as comunidades de debate, onde ideias diferentes permanentemente se chocam e nunca se chega a nenhum consenso. Depois abandonei as comunidades literárias, onde se fala de muita coisa (até de literatura) e nada se produz de interessante. Comecei a excluir amizades com pessoas que não conheço pessoalmente e com quem não interajo: essas pessoas podem ser testemunhas inúteis de coisas que digo e penso, ou  podem estar coletando informações contra mim. Se gostam, convido-as a assinarem os feeds de meus blogues. Até para a finalidade de futura sabotagem elas estarão melhor servidas.

Durante algum tempo mantive meu perfil ativo, comentando normalmente, testemunhando a árdua escalada do pensamento da maioria rumo ao trogloditismo. Pessoas que eu julgava esclarecidas aderindo a discursos de ódio, defendendo posições ultra-direitistas (ou ultra-esquerdistas, o que dá no mesmo). Pessoas que eu julgava bem informadas repetindo artigos superficiais, com acusações estúpidas. Pessoas que eu julgava sábias, cometendo erros crassos de julgamento.

São muitas as manifestações de boçalidade nas redes sociais. Desde o ódio imbecil contra o Brasil, expresso numa espécie de complexo de vira latas que idolatra tudo que é estrangeiro e execra tudo o que é nacional, como se nós fôssemos a escória da humanidade, até uma crença ingênua nas virtudes das potências imperiais, vistas como vestais da humanidade.

Em uma época na qual somos mais livres do que jamais fomos, a juventude que nunca teve que ouvir um “não” de seus pais se dedica a propagandear as virtudes da ditadura. Enquanto o país atravessa um longo processo de melhora, expresso até no desaparecimento dos carros velhos da paisagem de nossas cidades, tanta gente achando que vivemos os estertores do Armagedom. E quando temos a possibilidade de mudar o nosso destino através do democrático instrumento do voto, tanta gente vendo justamente nele a fonte da “corrupção”, que aparentemente, entre todas as nações do planeta, só existe aqui, e entre todas as épocas da história, parece ter surgido de dez anos para cá.

Aos poucos fui perdendo a paciência com isso, fui deixando de lado esses debates: ninguém vai ao pasto silenciar o zurro das mulas, apenas nos incomodamos quando vêm dar coices e cagar em nossas portas. Cada vez que eliminei algum desses laços, ficou mais leve a minha decisão, que não será antecipada e nem adiada.

O mais recente destes cortes foi o  mais surpreendente, ao ver uma pessoa a quem respeitava defender o direito da maioria de praticar bullying contra a minoria através do “humor politicamente incorreto” (através do questionamento do direito que os ofendidos têm de se sentirem ofendidos) eu simplesmente deixei de acreditar na possibilidade de um debate racional nas redes sociais. Ao que parece, a simples convivência ali contribui para nos empurrar para posições reacionárias. +Ligia+Mário e +Francisco que me desculpem, mas há coisas que eu resolvi não perdoar. Eu tenho a opção de não ouvir aquilo que considero absurdo demais. Deixem-me cá com as minhas ilusões de um mundo mais justo, no qual a força do número não seja usada para humilhar os poucos, no qual não se exija de quem propõe mudanças uma pureza superior à de quem sempre esteve no poder, no qual crenças fundamentalistas em conceitos abstratos não fiquem acima do desejo de construir um mundo melhor para todos.

Cá de fora terei mais tempo para viver a minha vida e, sinceramente, adquiri mais simpatia pelas Testemunhas de Jeová. Elas podem estar erradas, eu posso discordar delas, mas elas não ficam poluindo o mundo pela distribuição aos quatro ventos de tratados nos quais afirmam coisas que ofendem aos crentes de outras igrejas. Eles vêm de vez em quando, fazem seu comercial e vão embora sorrindo. Diferente dos reaças da internet, que pululam sem parar, atacando tudo, xingando quem pensa diferente, desacreditando de todo projeto de mudança, etc. Prefiro um mundo com mais pregadores em meu portão do que a internet embebida de reacionarismo. Porque o meu portão ainda está sob o meu controle, e se eu quiser fingir que estou dormindo no domingo de manhã ninguém me obrigará a ouvir o que dizem.

O Estelionato Eleitoral Praticado Pela Esquerda

A direita chama de populismo qualquer coisa que beneficie o povo: reforma educacional é populismo, corte de imposto é populismo, reforma agrária é populismo, concurso público é populismo, fazer escola é populismo, abrir estrada é populismo. Fica parecendo que a função do governo não é trazer benefício ao povo. Como a boca fala aquilo de que o coração está cheio, essas pessoas provavelmente acham que o governo existe para beneficiar uns poucos e para desviar dinheiro público para contas na Suíça. Quero crer, porém, que só uma minoria pensa assim: a maioria simplesmente não sabe para que serve um governo, e nem como ele pode chegar aos seus objetivos.

Digo que as pessoas acham errado beneficiar o povo porque praticamente todas as medidas tomadas positivas que foram tomadas em benefício do povo nos últimos vinte anos (sim, o Fernando Henrique também beneficiou o povo, mesmo que por descuido) foram criticadas como populistas. Todos os aumentos de salário mínimo acima da inflação foram tachados de populistas, a queda dos juros é populista, a expansão do financiamento imobiliário é populista, redução de impostos sobre bens de consumo é populista … e segue uma série imensa de adjetivações.

Esse populismo tem, claramente, um objetivo eleitoral. Como se fosse errado ter objetivos eleitorais. Vivemos em uma democracia, na qual os governantes precisam ser confirmados periodicamente, e não em uma monarquia vitalícia e hereditária que nunca presta contas de seus atos. Claro que o governo precisa mostrar serviço para que o povo reconheça seu valor e o reeleja. Está para nascer um governante que trabalhe incansavelmente para ser derrotado na eleição seguinte.

Claro que é errado ter objetivos exclusivamente eleitorais, priorizar medidas de curto prazo. Quem faz isso muitas vezes o faz por não ter a competência de capitalizar em cima de projetos de grande envergadura. Mas se for errado pensar em fazer o bem ao povo para colher votos então qual é o sentido que resta à política? Na minha opinião, esse tipo de crítica ao populismo revela é desprezo pela democracia.

Como se fosse errado pensar em beneficiar o cidadão comum, como se este não fosse cidadão. Como se fosse ideal beneficiar a poucos, em vez de beneficiar a muitos. Essas medidas são classificadas de estelionato eleitoral, como se fosse uma falha moral o povo votar em quem lhe atende, como se o certo fosse governar sem fazer nada pelo povo e esperar ter o seu voto.

No fundo isso mostra que existe uma incompatibilidade insanável entre o pensamento e o projeto da direita, de um lado, e as ferramentas e objetivos de uma democracia. A democracia é uma entidade essencialmente esquerdista, construída por revoluções e reivindicações. O direitista transita nela como quem enfrenta o inevitável, como quem é obrigado a morar na casa construída por seu inimigo.

A Moda É Ser Idiota

“Idiota” era como os gregos chamavam aqueles cidadãos que cuidavam exclusivamente de seus negócios pessoais e não participavam da vida política. Somente muito mais tarde a palavra ganhou um sentido mais negativo. Fazia parte do conjunto de crenças comum a todos os gregos que cada cidadão deveria ser responsável pelo governo de sua cidade. De tal forma se valorizava isso que a participação em certos órgãos governamentais, como o tribunal do Areópago, em Atenas, ou a assembléia dos éforos, em Esparta, era, em certa época, sorteada entre todos os homens aptos. Esse era o conceito de “liberdade” defendido pelos antigos filósofos: livre era o homem que era dono de si, não possuía senhores. A liberdade era contraposta à escravidão.

Quando o pensamento grego foi revalorizado, a partir da Renascença, o conceito de liberdade dos gregos pareceu anacrônico e inadequado. Era impossível governar países extensos com base em uma democracia direta, da qual todos os cidadãos participassem por sorteio, mesmo que fossem considerados cidadãos apenas os nobres. Não obstante, certos estados menores, como a Holanda e as cidades livres hanseáticas, tiveram uma forma de governo razoavelmente parecida, na qual todos os “homens bons” tinham sua voz ouvida.

Existe uma nobreza nesta definição de liberdade, nobreza que fascinou aos filósofos iluministas e também a Nietzsche. A liberdade dos antigos não era uma liberdade egoísta, não era uma busca hedonista. O homem não era livre para agradar a si mesmo, mas para fazer o bem à comunidade. E havia uma identificação do cidadão com a cidade. A raiz dessa identificação está na percepção da política como uma extensão de si. O estado (pólis) não era visto como um ente estranho, mas como uma espécie de família estendida, à qual se pertence, mesmo nos momentos em que algum dos membros faz algo de que discordamos. Desta forma, sempre que um indivíduo procurava impor sua opinião através das armas, do dinheiro ou da oratória, a cidade lhe reservava a pena do ostracismo (exílio), com o objetivo de reduzir-lhe ainda mais a capacidade de convencer aos outros. Nunca, porém, ninguém foi forçado a deixar a cidade: era o cidadão que percebia, no voto do ostracismo, a rejeição da cidade contra si e contra tudo o que ele representava. Exilar-se era a única opção. Mas reconciliar-se era o único objetivo. Somente os escravos não almejavam retornar à sua cidade original.

No embate das forças ideológicas posteriormente à revolução francesa, o tipo de liberdade cidadã que os gregos compreendiam foi abraçado pelos socialistas. Não por acaso escolheram essa denominação para si. Divergindo dos gregos apenas na noção nova, francesa, de que todo filho da nação é um cidadão seu. A essência do pensamento altruísta, que logo se confundiu com a esquerda, e parcialmente com o socialismo, é a de que cada indivíduo pertence a um conjunto, a sociedade, e não lhe é lícito fazer nada que cause dano à sociedade. Diferentemente dos socialistas, os diversos tipos de ideologias individualistas sempre preconizaram o direito individual de fazer mesmo aquilo que prejudicasse à sociedade. As posições centristas admitem que o indivíduo possa moderadamente causar dano à sociedade, conquanto sempre  menor do que dispêndio que a sociedade precisaria fazer para impedi-lo. Se, como disse Oscar Wilde, a sociedade embrutece mais com a reiteração de castigos do que com a recorrência dos delitos, é mais sábio tolerar certa ordem de transgressões, a fim de diminuir o embrutecimento coletivo.

Nos últimos anos e meses começou a ganhar popularidade aqui no Brasil uma corrente de pensamento de extrema direita e de extremo individualismo chamada libertarianismo (alvo preferencial deste blogue, daí o título), que defende exatamente o oposto do pensamento atruísta. Supostamente baseada em Nietzsche (na verdade derivada de um pastiche mal construído de alguns aspectos de sua filosofia, por intermédio dos romances de Ayn Rand), essa ideologia propõe que ninguém deve jamais se preocupar com o próximo, nem de forma alguma unir-se a quem quer que seja em nome de objetivos comuns, pois a “virtude” estaria em enfrentar as consequências e vicissitudes da vida de forma “livre”. Um exemplo de texto difundido pelos libertários na internet é o citado a seguir:

  1. Quando uma pessoa de direita não gosta de armas, não as compra. Quando uma pessoa de esquerda não gosta das armas, proíbe que você as possua.
  2. Quando uma pessoa de direita é vegetariana, não come carne. Quando uma pessoa de esquerda é vegetariana, faz campanha contra os produtos à base de proteínas animais.
  3. Quando uma pessoa de direita conhece uma pessoa de orientação sexual diferente, vive tranquilamente a sua vida. Quando uma pessoa de esquerda é homossexual, faz um movimento com alarde para que todos também se tornem homossexuais e os respeitem.
  4. Quando uma pessoa de direita é prejudicada no trabalho, reflete sobre a forma de sair dessa situação e age em conformidade. Quando uma pessoa de esquerda é prejudicada no trabalho, levanta uma queixa contra a discriminação de que foi alvo e vai à justiça do trabalho pedir indenização por dano moral (e o pior: ganha!).
  5. Quando uma pessoa de direita não gosta de um debate transmitido pela televisão, desliga a televisão ou muda de canal. Quando uma pessoa de esquerda não gosta de um debate transmitido pela televisão, quer entrar na justiça contra os sacanas que dizem essas sandices. E até uma pequena queixa por difamação será bem-vinda.
  6. Quando uma pessoa de direita é ateísta, não vai à igreja, nem à sinagoga e nem à mesquita. Quando uma pessoa de esquerda é ateísta, quer que nenhuma alusão a deus ou a uma religião seja feita na esfera pública, exceto para o islã (com medo de retaliações provavelmente).
  7. Quando uma pessoa de direita, mesmo sem dinheiro disponível, tem necessidade de cuidados médicos, vai ver o seu médico e, a seguir, compra os medicamentos receitados. Quando uma pessoa de esquerda tem necessidade de cuidados médicos, recorre à solidariedade nacional ou ao sírio libanês para tratar.
  8. Quando a economia vai mal, a pessoa de direita diz que é necessário arregaçar as mangas e trabalhar mais. Quando a economia vai mal, a pessoa de esquerda diz que os sacanas dos empresários, proprietários etc… são os responsáveis e punem o país.
  9. Teste final: quando uma pessoa de direita lê esse texto, posta argumentos lógicos. Quando uma pessoa de esquerda lê esse teste, fica puta da vida e quer xingar, além de querer processar e prender quem escreveu…

Como toda comparação estereotipada, esta também é falsa. Mas ele ser falso não me espanta nem me comove. Estranho é que muitas pessoas inteligentes — como +Vides Júnior+Saulo Cesar+Mário César de Araújo e +Francisco Quiumento
— e outras nem tanto, como o +Dâniel Fraga, o difundam sem pensar, aderindo automática e acriticamente a essas afirmações redutoras como se fossem um mantra.

Esse texto nada mais é do que uma mentira. Nem pessoas de direita e nem pessoas de esquerda são assim. Existe um tipo de pessoa de direita que diz/acha que é assim e que tenta impor essa definição de direita como uma universalização do credo e da práxis “direitista”. Esse é o primeiro erro porque, em tese, ninguém que seja direitista se diz ser, porque faz parte da essência do pensamento não esquerdista a negação da existência de luta de classes e da legitimidade da esquerda enquanto teoria política. O pensamento de esquerda é só um desvio, a luta de classes é uma ficção. Mas o texto, obviamente, reivindica uma suposta neutralidade, ao usar os termos “esquerda” e “direita” em terceira pessoa (“uma pessoa”) o autor procura sugerir que está fazendo um exame distanciado das duas formas de pensamento. Essa é uma técnica argumentativa bastante eficaz, porque as pessoas rejeitam pensamentos que honestamente se assumem como parciais: todos querem opiniões isentas, mas que coincidam com determinada forma de pensar.

São muitas as pegadinhas distribuídas pelo texto, e a simples identificação de cada uma delas deveria envergonhar quem o difunde (mas tenho a desiludida certeza de que ninguém se retratará, afinal, compartilhar um texto não é endossá-lo, ou é?).

O primeiro parágrafo faz uma comparação assimétrica entre uma ação individual (“não comprar”) e uma ação que nenhum indivíduo isoladamente teria poder para praticar (“proibir”). O terceiro, pior ainda, compara pontos de vista diferentes sobre uma mesma situação. A pessoa de direita “conhece alguém de orientação homossexual , a pessoa de esquerda “é homossexual”. Além do maldoso subtexto de que o esquerdista é veado, ainda temos uma comparação que não faz sentido, pois é perfeitamente aceitável que tenhamos reações diferentes quando estamos envolvidos. Ou seja, possivelmente uma pessoa que viveria tranquilamente a vida após conhecer um homossexual se sentiria compelida a fazer campanha pelos direitos homossexuais caso se descobrisse homoafetiva, simplesmente porque a percepção da cena muda quando você deixa de ser plateia e passa a ser ator.

Em comum, os sete primeiros parágrafos têm uma característica: a essência da “pessoa de direita” é a passividade diante dos fatos que encontra, caracterizando-se por “não fazer”, “continuar fazendo” ou “apenas refletir”. Não há uma só recomendação de um curso de ação diante dos desafios. O direitista “não compra” armas, não come carne, vive tranquilamente, reflete sobre a injustiça que sofreu,  muda de canal, não vai ao templo/sinagoga/igreja/mesquita. Por outro lado, o esquerdista sempre toma atitudes, apresentadas como equivocadas: ele “proíbe” (sic) a compra de armas (ou procura proibir), faz campanha contra a carne, faz um movimento, presta uma queixa, entra na justiça etc. Independente do fato de que em certas situações é melhor agir e em outras, não, resulta óbvio da análise do texto que o direitista ideal é alguém que age o mínimo possível. Quando alguma ação é recomendada, trata-se de uma ação individual e inócua, como mudar o canal da televisão (o que equivale a enterrar a cabeça na areia e fingir que o problema não existe). Esta é a essência do conservadorismo: qualquer tentativa de melhorar o mundo vai é piorar, então é melhor aceitar tudo do jeito que está. O conservador mais radical difere do reacionário em um simples fato: ele admite o progresso, desde que não seja obra de reivindicações revolucionárias e seja lento.

O silêncio sobre a ação é mais eloquente no quarto parágrafo, quando  a pessoa de direita “reflete” sobre o seu infortúnio. Por um paradoxo inexplicável, mas compartilhável, esse indivíduo de direita não estará agindo “em conformidade” caso escolha usar a justiça para se defender. Como não acredito que o autor do texto esteja defendendo o uso direto da força (vingança), suponho que a inação seja a única forma de ação conforme, sob a ótica direitista.

Não é à toa que um filósofo bem menos burro do que eu classificou a história positivista (conservadora e direitista) como “uma sucessão de fatos sem conexão, ligados a símbolos inexplicáveis e pessoas sem personalidade, em que nada possui causas, nada gera consequências, todas as reviravoltas são completamente inesperadas e todos os acontecimentos, irrepetíveis e desprovidos de qualquer valor moral para o presente.” É uma crítica antiga, do tempo em que ainda se usava falar em “moral” em filosofia, mas segue válida. Na ótica desse direitista ideal, apresentado nesse texto, a única coisa a fazer diante dos obstáculos da realidade é omitir-se, ou então tomar uma atitude isolada. Fica a impressão de que até mesmo formação de quadrilha é uma atividade esquerdista.

Uma vez que o indivíduo não está autorizado a tomar qualquer atitude concreta diante dos fatos, resta-lhe aceitar os fatos, de forma inexplicável. Como se vê no sétimo parágrafo, onde o autor afirma direitista consulta um médico e compra os remédios até quando não possui o dinheiro disponível. Não consigo imaginar como tal seria possível, nem de que forma os médicos e as farmácias andam aceitando pagamento se você for direitista. A atitude do esquerdista pelo menos é coerente: se não tem dinheiro disponível, recorre à solidariedade nacional. Acredito que a chave do enigma esteja no fato de que o autor, provavelmente, não sabe o que é “não ter dinheiro disponível” para pagar uma consulta e comprar remédios.

O oitavo parágrafo é o mais curioso de todos, pois tenta colocar como antônimas duas atitudes que não são sequer incompatíveis. Propor-se a “arregaçar as mangas e trabalhar mais” é algo que qualquer pessoa que dependa de seu trabalho terá de fazer diante de uma crise (mas de nada adiantará esta determinação se não houver trabalho). Mas esta disposição não significa que a pessoa não deva ter sua própria opinião sobre as causas do problema. O mecânico, pode perfeitamente consertar o carro enquanto lhe pergunta se o defeito não foi causado por algum mau hábito seu ao volante, como acelerar o carro embreado. Obviamente o autor do texto acredita que especular sobre as causas dos problemas que afligem a todos (ou pelo menos a muitos) é algo que não se deve fazer.

Por fim, a “chave de ouro” do texto, uma espécie de salvaguarda do seu autor contra as críticas advindas de sua “obra”. Por causa dela eu acredito que seja inútil postar argumentos lógicos contra o texto, porque, na visão em preto e branco da mula que cagou esse pedaço de excremento (só estou xingando para ser fiel ao estereótipo), um argumento de esquerda não pode ser lógico. Mesmo eu tendo feito uma análise moderada e pretensamente lógica do seu conteúdo, minha discordância soará como um zurro, por um fenômeno de pareidolia auditiva, que faz com que ouçamos coisas parecidas com o que nos é familiar.  Mas posto-os mesmo assim, sabendo que pelo menos entre os padawans da esquerda eu serei lido (e também por algum direitista honesto entre os vinte ou trinta que deve haver).

Não consigo entender como pessoas  bem informadas apregoem um texto tão primário e fácil de demolir. Acima de tudo porque o individualismo idiota que ele prega (no sentido grego do termo) é prejudicial à sociedade como um todo. Em nome de uma pseudoliberdade essas pessoas pregam um sistema no qual cada um estaria sozinho e indefeso diante da opressão. Alguém já disse que grandes problemas demandam grandes soluções, e grandes homens. A via proposta pelo texto é que as soluções venham através de atitudes pequenas, de pequenos e isolados homens. É muito triste que pessoas inteligentes difundam isso, de forma tão acrítica, mesmo porque a ignorância dos exemplos da história não é uma desculpa. A ignorância nunca é uma desculpa. Especialmente porque alguns dos que difundem isso de tempo em tempo parecem ter os conhecimentos mínimos necessários para discernir a patranha. Mas parece que, depois que se estuda muito, e se duvida de tanto, começam as pessoas a buscar credos em que descansar seus neurônios. E nesse caso, se a ideologia está certa, o pacote inteiro vai de brinde, e está certo também.