O Dilema da Grécia

O que mais se tem dito, com um «moralismo monetário» de dar nojo, é que a Grécia está a cometer uma espécie e de crime, como se cada grego do mundo estivesse «roubando» de outros aquilo que seu país não tem mais conseguido pagar (e que aparentemente não mais pagará). A hipocrisia é uma homenagem envergonhada que o vício presta à virtude, como disse La Rochefoucauld, mas a falsa analogia é a homenagem que a estupidez faz à racionalidade.

Relações internacionais não são pautadas pelo moralismo. Países não são pessoas. As relações que concebemos entre indivíduos não podem ser estendidas automaticamente às alianças entre nações. Crimes, como «roubo», são definidos pelos estados segundo leis que devem ser obedecidas por seus cidadãos. Tão relativo é o conceito de crime que é frequente que o mesmo ato, tolerado em um lugar, seja severamente punido em outro — e vice-versa. Se as nacionalidades, tomadas em seu coletivo, podem cometer «crimes» (tal como sugeriu Euclides da Cunha), estes não são análogos aos crimes que as pessoas cometem, justamente porque o marco legal que os define é outro. Devemos, pois, deixar de lado todo moralismo pedestre ao analisarmos o caso da Grécia, pois não estamos a falar de alguém que tomou a bolsa de uma velhinha. Nem a Grécia é um punguista e nem os seus credores são uma inocente senhora. Malcolm X disse, com alguma propriedade, que, se não prestarmos atenção, os meios de comunicação podem nos fazer amar ao opressor e detestar ao oprimido. Ponha-se de lado tudo o mais que Malcolm X disse e fez, por esta frase ele já merece ser lembrado, pois é evidentemente assim que as coisas se dão — o caso da Grécia é apenas um exemplo.

A dívida de um país não é como a dívida assumida por um indivíduo. Existem diversas diferenças e pouquíssimas semelhanças. Para começar, a dívida do indivíduo é pessoal, geralmente fruto de um ato de sua vontade, enquanto a dívida nacional é impessoal, fruto de uma política adotada por um governante eleito que apenas supostamente expressa a vontade do povo. Digo que apenas «supostamente» porque é impossível que o povo saiba tudo o que faz o seu governo (se soubesse, como disse Bismarck, não haveria governo) e, ainda que saiba e consinta, é impossível que a tudo entenda e preveja. A maioria das pessoas já tem alguma dificuldade para gerir a própria vida e não reserva muito tempo para pensar «grande» nos destinos do país. Em vez disso, confiam estas decisões aos seus líderes, eleitos ou não, limitando-se a acompanhar, muito mal e porcamente, e a manifestar-se, periodicamente, nas eleições, a respeito do trabalho que se faz. A democracia representativa pode, muito facilmente, conduzir o povo à alienação — e os políticos, de todas as cores ideológicas, se comprazem nisso porque lhes é conveniente que o povo saiba pouco. Um povo que pouco sabe e pouco entende é um povo cujo voto pode ser conquistado com pouco esforço (embora se possa requerer um custo alto, ainda assim).

Se a dívida nacional é fruto da vontade de um governo — que pode expressar a vontade da maioria do povo, mas nunca representa o entendimento e o consentimento bem informado desta mesma maioria — e da liberalidade do emprestador, resulta que não pode existir quanto a ela o mesmo grau de responsabilidade pessoal que existe na dívida que você, leitor, contrai com o banco para comprar um novo televisor em prestações mensais.

Especialmente porque a dívida nem sempre resulta em benefício ao povo. Nos anos oitenta era voz corrente cá na América Latina que as dívidas do chamado «Terceiro Mundo» deveriam ser auditadas. Dizia-se isso porque as pessoas bem-informadas sabiam que boa parte dos recursos emprestados (e transformados em dívida nacional) nunca, de fato, chegavam cá, mas eram desviados no meio do caminho e retornavam aos mesmos países emprestadores (ou a outros) na forma de «contas secretas» em nome de chefes de estado corruptos ou seus apaniguados.

Até as pedras de Zurique sabem que a prosperidade helvética se construiu com as fortunas depositadas de boa gente como Mobutu Sese Seko, Papa Doc, Idi Amin Dadá, Joaquín Balaguer e uma multidão de outros tiranos corruptos da África e da América. Condenar os povos do Terceiro Mundo a pagar estas dívidas é uma injustiça suprema. É como condenar você, leitor, a pagar a conta do seu cartão de crédito que foi fraudado.

No mundo das finanças pessoais existem inúmeras formas de proteção do indivíduo. Se o seu cartão de crédito for fraudado você será ressarcido pelo banco emissor. Se não puder pagar seus empréstimos, poderá renegociá-los (frequentemente a taxas mais baixas e com prazos maiores). Se em último caso inadimplir e nunca pagar, terá caducados os seus registros negativos de crédito após cinco anos e poderá voltar a atuar. Todas estas salvaguardas (e outras que nem lembro) existem para que o indivíduo não seja condenado a arrastar miseravelmente até o fim de sua vida uma dívida impagável. Elas não existem para que você não pague, mas para que os bancos se lembrem de lhe dar crédito em condições razoáveis, ou você fica inadimplente e eles perdem, não só o dinheiro emprestado, mas também o cliente. Nenhuma destas salvaguardas existem para os países.

Se uma nação se endivida, mesmo que seja mediante a fraude de um governo corrupto, ditatorial, impopular ou pouco transparente, a dívida deve ser paga. As renegociações nunca são a taxas mais baixas e prazos maiores simultaneamente. Diferentemente das finanças pessoais, os credores dos países se arvoram ao direito de entrar em sua casa, fazê-lo desligar alguns eletrodomésticos, obrigá-lo a vender objetos de valor (pelo preço que eles decidem, não pelo que você venderia) e ainda o obrigam a trabalhar horas extras, mesmo que o seu patrão não as pague.

Basicamente é o que ocorre quando o FMI, o Banco Mundial e outras instituições «inspecionam» as finanças de um país, obrigam-no a desativar programas sociais, vender empresas estatais ou patrimônios públicos, aumentar os impostos, baixar investimentos etc. E tais medidas devem ser seguidas à risca, mesmo não dando resultado, assim como o agiota o obrigaria a trabalhar mais para pagar as prestações, mesmo que você não receba as horas extras.

Uma nação endividada perde a sua soberania. E não importa como se endividou. Em alguns casos sequer importa «quanto» se endividou. O que importa é se consegue repagar os empréstimos feitos. Mas este repagamento não significa que o país está saudável, porque se os credores quiserem eles podem emprestar dinheiro para pagar as dívidas anteriores, mantendo a bicicleta a rodar. Um país se torna inadimplente, muitas vezes, apenas porque os credores decidiram que ele deve se tornar inadimplente.

Enquanto os credores ainda não decidiram que o país deve inadimplir, ele terá acesso fácil ao crédito e poderá acumular um nível de endividamento inimaginável para uma pessoa física. A Grécia, por exemplo, deve 180% do PIB. Isso é o mesmo que uma pessoa que recebe R$ 60.000,00 por ano ter uma dívida de R$ 108.000,00. Não parece muito (na verdade, se você fez financiamento imobiliário este deve ser o patamar de endividamento que você tem agora, desconsiderando seu patrimônio como fonte potencial de receita em caso de venda). De fato não é muito.

Um endividamento de 180% do PIB é menor, por exemplo, do que o endividamento do Japão. Não me consta que o Japão esteja inadimplente com seus compromissos ou que os credores temam uma bancarrota nipônica iminente. Os fatores que explicam a crise grega são outros. A Grécia está em crise, e finalmente inadimpliu, porque, à parte o seu endividamento, o país está há quase uma década em recessão. Se a economia estivesse crescendo normalmente, a Grécia poderia fazer algumas reformas estruturais, gerar superavit e continuar pagando a dívida até extingui-la, dentro de décadas ou séculos. Mas a agudização da recessão levou o país ao deficit, a má gestão econômica agravou isso e o FMI, com sua receita de desastre, determinou o desfecho ao obrigar a Grécia a fazer exatamente tudo que deprime a economia em vez de fazê-la crescer.

O FMI é o médico que receita o mesmo remédio para todos os pacientes e, mesmo vendo-os sempre morrer, continua acreditando na cura e culpando os falecidos por o remédio não ter funcionado com eles.

A receita do FMI para a Grécia foi a mesma que causou a «década perdida» da América Latina. A diferença é que a Grécia é menor, menos populosa e tem menos recursos naturais do que os países latino-americanos. A Grécia não tem como gerar superavit exportando produtos primários porque tem uma economia subdesenvolvida e limitada ao setor de serviços (turismo e navegação). Todo o resto da economia grega tem pequena importância relativa ao PIB. A economia grega é extremamente vulnerável à «confiança» externa porque de fato não possui nenhuma commoditie significativa para oferecer e nem se industrializou como uma Coreia do Sul ou uma Taiwan.

O que está acontecendo na Grécia não é, portanto, um caso análogo ao batedor de carteiras roubando a velhinha. A menos que a velhinha seja a Grécia e o batedor de carteiras seja o sistema financeiro internacional.

Os gregos não têm nenhuma falha moral, não estão «roubando» nada aos demais países do mundo, mesmo porque não foi aos cidadãos desses países que os gregos andaram a pagar suas dívidas, mas a um grupo pequeno de grandes empresas financeiras e seus controladores.

O caso da Grécia se parece mais com o do sujeito que se endividou com o agiota e, não tendo como pagar, teve as pernas quebradas por um capanga e ainda assim tem de trabalhar para pagar, ou terá os braços quebrados também. O que estamos vendo na Grécia não é um país que não honra seus compromissos, mas um país que decidiu que a dívida, por mais que se deva pagar, é uma preocupação posterior. Na hierarquia de necessidades, nesse momento salvar o país é mais importante do que pagar a dívida.

Nos anos 1980 o ditador Nicolae Ceausescu decidiu pagar a íntegra de sua dívida com o FMI através de um esforço de exportação agrícola e industrial combinado com redução de salários e racionamento de bens de necessidade, como carvão para calefação. Milhares de pessoas morreram de fome ou de frio na Romênia durante anos. Mas a dívida foi paga. Afinal, era o que os romenos deviam fazer, pois «eles» haviam contraído aquela dívida e era seu dever moral pagar. Não é mesmo?

O Humorista que Virou Idiota

Danilo Gentili, desde que deixou de interpretar o quadro “repórter inexperiente” para o humorístico “CQC”, na Rede Bandeirantes, não tem aproveitado as inúmeras oportunidades que a vida lhe tem dado para ficar calado. Não foram poucas as vezes em que se viu criticado por contar piadas racistas, homofóbicas ou cruéis. Destas acusações se defendeu sempre com o argumento de que os seus críticos seriam pessoas limitadas e que ele fazia um humor sem limites, refratário às convenções sociais. Sob o rótulo de combate à “correção política”, um tipo de discurso excessivamente preocupado com as sensibilidades alheias, Gentili propagou um discurso agressivo a todas as sensibilidades alheias, do tipo que só é aceito por pessoas isentas de empatia.

Sua última patacoada foi a ridicularização de uma auxiliar de enfermagem residente no interior de Pernambuco, que se tornou a recordista mundial em doação de leite materno. Na curiosa mentalidade de Danilo Gentili, o fato de alguém praticar uma boa ação tão rara é motivo para ridículo, e assim ele passou a tentar fazer piada com o caso, comparando-a com um notório ator de filmes pornográficos, enquanto o seu auxiliar de palco, Marcelo Mansfield, sexualizava o caso lembrando a utilização dos seios em uma prática sexual chamada “espanhola”.

Ambas as piadas foram fracas, mas seriam apenas piadas fracas se, além de meramente ridicularizar algo que não é ridículo, Gentili não tivesse exibido a imagem da mulher em questão. Neste momento, o que poderia ser apenas uma piada ruim se tornou uma lamentável agressão verbal a uma pessoa. Personalizar a piada, exceto quando a vítima já é uma pessoa pública, não é somente agressivo, mas é também opressivo. Pois uma pessoa comum, que não tem acesso aos meios de comunicação, não tem como retrucar, não tem como explicar, não tem como resistir ao veneno de alguém que tem o microfone na mão.

O resultado da piada foi a execração pública da moça, que chegou a ser chamada publicamente de “vaca” (palavra que tem conotações extremamente desagradáveis). Humilhada por alguns habitantes de sua cidade, envergonhada também pelas humilhações a que foi submetido seu marido, aquele que doava mais de um litro e meio de leite por dia deixou de fazê-lo, deixou de produzi-lo, chegou a ver secar uma de suas mamas. Para Danilo Gentili, foram menos de dois minutos de graça meio sem graça. Para seus telespectadores, foi apenas uma risada ou duas, destas risadas amarelas que esse humor cruel arranca de pessoas que não sabem rir. Mas para a vítima, foram dias de agonia, conflito conjugal, dúvidas existenciais, inconformismo com o sofrimento com que o mundo lhe pagou um bonito gesto de doação.

Por muito menos que isso (“comia ela e o bebê”) o apresentador Rafinha Bastos foi sumariamente demitido da mesma Rede Bandeirantes, pois a vítima de sua infame piada fora Wanessa Camargo, que é famosa e casada com um empresário influente. Mas a insensata agressão verbal praticada por Danilo Gentili contra uma simples dona de casa nordestina não mereceu do canal de televisão nenhum repúdio, nenhuma medida. Rafinha não se desculpou, mas pelo menos perdeu o emprego (e até hoje não conseguiu nenhum outro equivalente, seus projetos sistematicamente naufragam). Danilo Gentili não apenas não perdeu o emprego, como não se desculpou e ainda tripudiou da reclamação da moça. Foi preciso que esta recorresse à justiça para tentar obter algum tipo de reparação e, pelo menos, a cessação do dano, com a retirada do vídeo do site da Bandeirantes.

Danilo Gentili pode achar que faz humor politicamente incorreto e contestador, pode achar que está ajudando a combater a caretice do mundo e que toda reação às suas piadas é “censura” ou ameaça à sua liberdade de expressão. Mas de fato ele é um bobo da corte que conta piadas para os donos do poder. Ele não é livre para fazer o humor que quer, ele é censurado previamente pelos anunciantes, pelos donos do poder, pelo público reacionário ao qual se dirige. Diferente de Rafinha Bastos, que contou uma piada escrota, mas pelo menos contou uma piada sem pensar em quem ofendia, realmente exercendo, mesmo que para o mal, a liberdade de expressão, Danilo Gentili contou sua piada contra uma desconhecida, que não tem mídia e nem poder econômico para exigir sua cabeça.

A mensagem que a Rede Bandeirantes e Danilo Gentili passam, nesse caso, é a de que não tem problema caçoar e ofender pessoas que não têm meios para se defender. Mas não se pode atacar gente que tem bala na agulha.

Por essa razão é que muitos já qualificam Gentili e outros novos humoristas com um adjetivo forte: COVARDES. É muito fácil bater em cachorro morto, é muito fácil cuspir nos cadáveres depois da guerra, é muito fácil ofender gente que não tem poder econômico ou midiático. A agressão cometida por Gentili e pela Rede Bandeirantes contra esta mulher foi como os episódios em que três ou quatro valentões de intervalo cercam o “nerd” da turma para se vingarem das notas baixas. Todo o poder de mídia de uma rede nacional de televisão foi usado para ridicularizar uma mulher. E a isso chamam de humor contestador. Contesta apenas a sanidade mental e a ética de quem o faz e, principalmente, do país que ainda o aplaude e o permite.

Os COVARDES são numerosos. Eles tem argumentos, eles têm certezas. Eles acham que não há nada errado em ridicularizar uma pessoa que faz o bem POR FAZER o bem.

A Rede Bandeirantes conseguiu errar nos dois casos. Errou com Rafinha, pois a ofensa era branda e, se não fosse o espírito de vendetta de um empresário poderoso, ele poderia ter se saído dessa com um simples mea culpa. O caso de Gentili é muito mais grave, pois envolveu até mesmo consequências para terceiros: quem resolverá o problema das crianças que ficaram subitamente sem alimento? Como fazer se a mulher perder uma mama em consequência da retenção do leite? Mas a Bandeirantes nada fez contra o caso, e ainda presta assistência jurídica ao humorista.

Passou recibo de que se ajoelha diante de poderosos enquanto zomba de gente do povo, sem medo das consequências, pois tem bons advogados para arrastar o processo até as calendas gregas. Passou recibo de que é uma empresa sem ética.

Em outros tempos, se alguém chamasse a mulher de um cabra nordestino de “vaca” o resultado seria, no mínimo uma morte na peixeira. Mesmo que o marido fosse uma boa pessoa, a pressão social exigiria o sangue do ofensor. Até os inimigos do ofendido lhe ajudariam a “capar” o insolente porque certas coisas eram inaceitáveis.

Mas, isolado pela distância, protegido por seguranças, portando um microfone na mão, o humorista pode zombar de quem quiser, desde que seja de alguém que está fora dos muros que o protegem. Ele sabe que não vai enfrentar peixeira e nem mesmo uma cusparada. Por isso agride, com a “coragem” que só os muito covardes têm: a coragem de ofender os indefesos.

O Manifesto-Pirraça da Direita Infantil

Ao acessar o Facebook na data de ontem, fui surpreendido por mais uma prova de que certos seguidores da nossa direita parecem comer capim (isso se não comem cocô mesmo). Trata-se de um texto tão inacreditável e tão tosco que eu ainda prefiro acreditar que é uma gozação que alguém escreveu para ridicularizar o pensamento direitista nacional. E se não for isso, por favor, não me contem. Comentarei o tal texto, mas partindo do pressuposto de que ele é uma trollagem.

O texto saiu no blog da UFSCON e logo a seguir foi reproduzido em outros focos virtuais de pensamento reacionário, como o “Direitas Já”. Se a aparente seriedade do blogue de onde saiu não bastasse para atestar que o texto foi escrito a sério, a republicação depõe seriamente contra a inteligência dos responsáveis pelas páginas que o repetiram.

O “Manifesto” é de João Victor Gasparino Silva, do curso de Relações Internacionais na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina, e contém um protesto contra a solicitação de um trabalho de pesquisa sobre Karl Marx, feita por um professor.

Direitista empedernido, o aluno se recusa a sequer tomar conhecimento da existência do marxismo e rejeita a pesquisa pedida. No manifesto, procura justificar porque não fez o trabalho.

São tantas as coisas erradas na atitude em si que é quase supérflua a análise do texto. A recusa em estudar um pensamento diverso do próprio já é motivo mais do que suficiente para classificar o aluno como obscurantista e intolerante. Mas tal impressão poderia ser evitada se o texto contivesse embasamento teórico e desenvolvesse uma argumentação sólida, em vez de uma reclamação imatura.

A análise é útil, porém, para compreender como funciona a propagação de uma ideologia de extrema direita em nosso país. Segue a transcrição comentada do “Manifesto”:

Como o senhor deve saber, eu repudio o filósofo Karl Marx e tudo o que ele representa e representou na história da humanidade, sendo um profundo exercício de resistência estomacal falar ou ouvir sobre ele por mais de meia hora.

Infelizmente para o enjoado reacinha, Karl Marx teve um papel fundamental no desenvolvimento da ciência econômica, das ideologias polí­ticas, das lutas sociais e da metodologia histórica. Mesmo que rejeitemos por alguma razão a validade de seu trabalho, é impossível ignorar o impacto que ele teve sobre a História contemporânea. Por isso, o nosso reacinha enjoado que trate de tomar um Engov e aprender tudo.

Os personagens históricos não deixam de ser importantes só porque nós não gostamos deles. A atitude do nosso reacinha é a de um menino pirracento que sempre teve satisfeitas todas as suas vontades e agora se sente no direito de decidir o que é ou não importante no currículo da própria faculdade onde estuda. Trata-se de um ato infantilidade tão gigantesca que os direitistas não imbecis (temos agora a oportunidade para saber quão poucos são) devem estar sentindo vergonha alheia pelo rapaz, que passou tremendo recibo de imaturidade. Se algum dia alguém mereceu ser qualificado de “moleque de apartamento, criado a leite de pera e ovomaltino” esse cara é o autor do texto.

Aproveito através deste trabalho, não para seguir as questões que o senhor estipulou para a turma, mas para expor de forma livre minha crítica ao marxismo, e suas ramificações e influências mundo afora.

A proposta até que é interessante. Uma crítica ao marxismo, se fundamentada, certamente mereceria uma boa nota, pois, para poder fazê-la, o aluno teria de estudar a obra de Marx e demonstrar que compreendeu-a tanto que conseguiu refutá-la.

Quero começar falando sobre a pressão psicológica que é, para uma pessoa defensora dos ideais liberais e democráticos, ter que falar sobre o teórico em questão de uma forma imparcial, sem fazer justiça com as próprias palavras.

O pirralho que nunca ouviu um “não” e sempre o papai lhe comprou tudo o que quis acha que é “pressão psicológica” ter de falar imparcialmente sobre um autor de que discorda. Que grande tragédia forçar um pobre coxinha a estudar uma ideologia de esquerda, isso deve ser pior que uma noite no pau de arara!

Infelizmente, por toda a vida, deparamo-nos com ideias ou pessoas de que discordamos. Não podemos fechar os olhos para essa realidade, não temos o poder de escolher o que queremos saber e estudar. Estudamos e aprendemos aquilo que é “necessário”.

Observem, ao final da citação acima, como o aluno se sente frustrado por não poder “fazer justiça com as próprias palavras”. Acredito que, se Marx já não estivesse morto há mais de 150 anos, o cara bem gostaria de matá-lo, e fazer justiça com as próprias mãos, ou pelo menos de xingá-lo, vilipendiá-lo, fazendo justiça com palavras. A impossibilidade do linchamento (literal ou verbal) de Karl Marx é a causa da “pressão psicológica” vivida pelo aluno reacinha.

Me é uma pressão terrível, escrever sobre Marx e sua ideologia nefasta, enquanto em nosso país o marxismo cultural, de Antonio Gramsci, encontra seu estágio mais avançado no mundo ocidental, vendo a cada dia, um governo comunista e autoritário rasgar a Constituição e destruir a democracia, sendo que foram estes os meios que chegaram ao poder, e até hoje se declararem como defensores supremos dos mesmos ideais, no Brasil.

A típica paranoia apocalíptica e hiperbólica do extremista de direita coxinha. Qualificar o nosso governo atual de comunista é prova de uma ignorância tão grande que somente esta frase já justificaria a reprovação do aluno. Afinal, ele não só desconhece o que é “comunismo” mas também não consegue uma análise coerente da situação política que tem diante de si.

Outros reflexos disso, a criminalidade descontrolada, a epidemia das drogas cujo consumo só cresce (São aliados das FARCs), a crise de valores morais, destruição do belo como alicerce da arte (funk e outras coisas), desrespeito aos mais velhos, etc. Tudo isso sintomas da revolução gramscista em curso no Brasil.

Aqui vemos um salto lógico (ou melhor, ilógico) de amplitude absurda. Se o trabalho era sobre a obra de Marx, por que o reacinha saltou tão rapidamente para o governo brasileiro atual, que de marxista só mantém uma leve tintura? Trazer o governo atual para um debate sobre a obra de Marx é uma apelação sem sentido, uma fuga ao tema.

Mas pelo menos esta fuga nos permite boas gargalhadas, ao percebermos que o idiota que escreveu este texto fantasia que o governo atual é o culpado por todas as mazelas que afligem nosso país. Da maneira como fala, fica parecendo até que não havia crime no Brasil antes de Lula, que o consumo de drogas era minúsculo, que o PT inventou o funk, que toda vez que alguém bate num velhinho é porque era petista, “coisas assim”. É verdade que os governos petistas desde 2002 não conseguiram resolver muitos de nossos problemas, mas atribuir-lhes culpa por tais problemas é algo que só se explica por muita ignorância ou pela deliberação de mentir.

A revolução leninista está para o estupro, assim como a gramscista está para a sedução, ou seja, se no passado o comunismo chegou ao poder através de uma revolução armada, hoje ele buscar chegar por dentro da sociedade, moldando os cidadãos para pensarem como socialistas, e assim tomar o poder.

À parte o fato de que nunca houve uma tomada de poder por meio de tal estratégia “gramscista”, o próprio conceito parece absurdo (e é), uma vez que seriam necessárias várias gerações para o pensamento revolucionário chegar a uma massa crítica. Ainda mais considerando a incrível eficiência de nossas escolas. Uma estratégia de tão longo prazo é tão ineficaz que os membros de qualquer grupo ou partido que a estivesse implementando estariam mortos ou muito velhos quando (e se) ela chegasse a ser bem sucedida. Esta estratégia assume, então, ares meio sobrenaturais, um quê de conspiração milenar, um jeitão meio óbvio de delírio das minhocas da cabeça de quem não sabe o que diz.

Fazem isso através da educação, o velho e ‘’bom’’ Paulo Freire, que chamam de “educação libertadora” ou “pedagogia do oprimido”, aplicando ao ensino, desde o infantil, a questão da luta de classes, sendo assim os brasileiros sofrem lavagem cerebral marxista desde os primeiros anos de vida.

Então os alunos do prézinho estudam a luta de classes. Os alunos das escolas estaduais paulistas (onde não se ensina mais História) também estudam luta de classes. Os alunos dos colégios religiosos idem. Pois todos são comunistas. Até a Igreja Católica é comunista.

Em nosso país, os meios culturais, acadêmicos, midiáticos e artísticos são monopolizados pela esquerda a [sic] meio século, na universidade é quase uma luta pela sobrevivência ser de direita.

Os jornais são de esquerda. A Globo é de esquerda. É tudo esquerda. Só temos jornais e emissoras de rádio e TV esquerdistas desde o golpe militar de 1964. Os generais derrubaram Jango e depois deram todos os canais de rádio e TV para os esquerdistas! Esse cara é um maluco.

Quanto à luta pela sobrevivência que ele enfrenta na faculdade, pouco se pode dizer, a não ser que realmente é uma inglória guerra a que se trava contra o conhecimento. Se o seu direitismo é baseado; como viu-se até agora; em ignorância, teimosia e preconceitos; realmente deve ser muito difícil protegê-los dos contínuos ataques da razão e do conhecimento. Em um ambiente um pouco mais “liberal” (um beco escuro à noite, por exemplo), talvez os nossos reacinhas virassem o jogo e eliminassem essa ameaça na base de muita porrada.

Agora gostaria de falar sobre as consequências físicas da ideologia marxista no mundo, as nações que sofreram sob regimes comunistas, todos eles genocidas, que apenas trouxeram miséria e morte para os > seus povos. O professor já sabe do ocorrido em países como URSS, China, Coréia do Norte, Romênia e Cuba, dentre outros, mas gostaria de falar sobre um caso específico, o Camboja, que tive o prazer de visitar em 2010.

À parte a simplificação grosseira (somente trouxeram miséria e morte) dos resultados das revoluções socialistas, o parágrafo é de uma empáfia raríssima. O aluno se mete a lecionar para o professor! E o pior, ainda pior, é que a lição provavelmente está fora do tema do trabalho encomendado (aparentemente, o “marxismo”).

Segue-se um relato bastante factual dos acontecimentos do Camboja nos anos 1970, governo do Khmer Vermelho. Só que este relato, além de ser um parêntese no raciocínio que o autor tentava (em vão) desenvolver, não está relacionado diretamente com o tema e resvala, perigosamente, no apelo emocional, como neste trecho:

Os castigos e formas de extermínio, mais uma vez preciso de uma resistência estomacal, incluíam lançar bebês recém-nascidos para o alto, e apanhá-los no ar, utilizando a baioneta do rifle, sim, isso mesmo, a baioneta contra um recém-nascido indefeso.

Por mais horrível que tenha sido o regime do Khmer Vermelho (e deve ter sido mesmo, pois ele causou uma diminuição de quase um quarto da população do país), essas atrocidades não afetam o valor da obra de Karl Marx nem minimamente, pois este nunca mandou, por exemplo, que soldados espetassem bebês em baionetas. Atribuir a Karl Marx a culpa pelos erros e crimes de regimes que se inspiraram nele, é atribuir à Bíblia a culpa por pregadores malucos, como Jim Jones e David Koresh.

Bem, com isto, acho que meu manifesto é suficiente, para expor meu repúdio ao simples citar de Marx e tudo o que ele representa.

Não obstante seu repúdio, a relevância de Marx continua a mesma, e se você quiser obter a nota terá de apresentar outro trabalho.

Diante de um mundo, e particularmente o Brasil, em que comunistas são ovacionados como os verdadeiros defensores dos pobres e da liberdade, me sinto obrigado a me manifestar dessa maneira, pois ele está aí ainda, assombrando este mundo sofrido.

O aluno poderia pelo menos ter se perguntado por que o comunismo conserva esta reputação, apesar de seus erros. Poderia ter obtido algumas respostas interessantes. Mas preferiu manter distância do tema, o que fez o seu texto ser raso, parecendo ser mais uma desculpa para não ter entregue o trabalho dentro do prazo.

Em seguida o aluno cita um suposto “decálogo de Lênin” que não existe (pelo menos não como um texto determinado). Mais uma vez ele se posta como professor, revelando uma mentalidade predeterminada, e mais uma vez o faz para difundir uma informação incorreta.

Depois da difusão inicial pelos canais alternativos, na internet, o texto chegou à grande mídia, sendo replicado pelo blogueiro Rodrigo Constantino, que escreve na Veja. Rodrigo, no entanto, possui um grau suficiente de honestidade intelectual e admite que o texto fica longe de ser mítico como a direita o julgou. Especificamente, Constantino admite o emprego de uma informação falsa, justamente o “decálogo de Lênin”:

O decálogo de Lênin, ainda que soe verdadeiro para quem conhece o leninismo, é falso até onde sei. O que não tira o mérito do manifesto.

Se o Constantino não estivesse tão interessado com a descoberta de um raro exemplo de texto direitista articulado que não resvala no neonazismo ou na escrotice pura e simples, poderia ter admitido outras das muitas falhas do texto, como emprego de evidência anedótica (quando o autor usa a viagem ao Camboja como “fonte”) e o fato de que o uso do “decálogo” (que é citado integralmente) tira, sim, o mérito do manifesto. Se os dados são viciados, o resultado é viciado. Boa parte das acusações feitas pelo autor ao marxismo podem derivar de textos, como o “decálogo”, que difundem desinformação. Então, o emprego de fontes tais sugere que a revolta do autor é causada pela sua seleção de textos inconfiáveis. Donde podemos concluir que o ferrenho antimarxismo exibido pelo autor se enraíza em informações distorcidas, contidas em textos apócrifos como o “decálogo”. E podemos concluir, então, que se o autor não sabe selecionar uma fonte legítima, um documento real, de uma fonte forjada, ele não tem nenhum comando da metodologia, e isso é uma bala de prata contra seu argumento: por isso eu disse desde lá no início que o “manifesto” depõe contra quem o escreveu.

Sim, contra quem o escreveu. A julgar por esse texto que divulgou, o Sr. João Victor Gasparino Silva não domina o discurso acadêmico com a proficiência necessária, não sabe diferenciar documentos legítimos de outros forjados, expressa opiniões engajadas que acompanham sua incapacidade de diferenciar entre a realidade e a invenção dos adversários do marxismo. Em vez de prestar um grande serviço à direita, este texto mostra um direitismo imaturo, pirracento, ignorante e, o que se mostra ainda mais surpreendente, oposto à hierarquia e sem respeito formal pelos ritos acadêmicos.

Acabou a Era das Revoluções

Feliz era o tempo em que se podia gritar que “o povo unido jamais será vencido”. Não só porque foram inventadas centenas de maneiras de dividir o povo; cada uma apropriada para um tipo de indiferença, egoísmo ou medo que exista no mundo; mas também porque vencer o povo já não gera as mesmas reações de antes. Houve um tempo em que, pelo menos, as pessoas podiam contar que o mundo encararia com universal opróbrio aqueles que afogassem em sangue a insatisfação popular com seu governo.

Mas tudo mudou depois que os Estados Unidos empregaram todo tipo de chicanas jurídicas para tornar ilegal o protesto do movimento Occupy Wall Street e, posteriormente, com a bênção de um judiciário recheado de conservadores, soltar os cachorros sobre os pacíficos manifestantes de uma maneira não muito diferente da repressão chinesa contra a seita Falun Gong. O mundo foi poupado de cenas emblemáticas como o “tank man”, mas isso foi mais pela censura à cobertura jornalística mainstream.

Um pouco antes, a ida de multidões às ruas do Egito fora vista pelo mesmo governo americano como algo alvissareiro, os protestos dos jovens líbios, uma prova de coragem. Depois que o OWS foi dissipado por meio de gás lacrimogêneo, balas de borracha e bombas de efeito moral, curiosamente mudou o tom das manifestações ianques sobre os continuados protestos egípcios, surgiu uma cautela curiosa quanto aos protestos sírios. Esperava-se um silêncio ensurdecedor sobre outros protestos.

Agora que a Turquia está tendo o seu próprio movimento de ocupação popular, em protesto contra um regime que se torna cada vez mais autoritário, os Estados Unidos falaram baixo, por meio de um funcionário de terceiro escalão. Falaram apenas para cumprir o script, porque não poderiam falar muito alto. Não depois de reprimirem manifestações populares, criarem o maior sistema de espionagem interna em tempos de paz que jamais se teve notícia, não depois de manterem por mais de uma década uma prisão ilegal onde são mantidos sem julgamento cidadãos suspeitos de crimes cometidos em outras jurisdições.

A assustadora perda de legitimidade moral pelo governo dos Estados Unidos é algo que deveria causar grande preocupação. Muitas vezes, a autoridade moral é eficaz para prolongar a paz, para costurar acordos, para promover o bem comum. Mas na falta de qualquer autoridade moral, resta apenas a autoridade das armas, e é bem possível que estas tenham de ser usadas com cada vez mais frequência.

Com a falta desta autoridade moral, os Estados Unidos não servem mais de exemplo positivo para o mundo. Em verdade, os países de tendência autoritárias tendem a exatamente imitar o que os EUA fazem: reprimindo manifestações, como na Turquia, criando redes internas de espionagem, como na Rússia e no Irã, criando acusações sem fundamento contra opositores ideológicos, e outras formas mais insidiosas. Em vez de ensinarem ao mundo sua democracia, os Estados Unidos agora ensinam a destruir a democracia. Felizes éramos nós no tempo em que eles apenas eram hipócritas, e praticavam fora de suas fronteiras coisas diferentes do que faziam em casa: ainda podíamos olhar para dentro deles e ver virtudes imitáveis. Hoje as virtudes deles parecem bem menos significativas. Acabou a hipocrisia, porque no fundo eles já não diferem. Restou só o discurso, mas de belos discursos não se faz melhor o mundo.


Quando a Justiça Odeia

Não é nenhuma novidade mais que estamos vivendo um processo intenso de radicalização, com o terreno do centro sendo gradualmente comprimido pelos extremismos e com os rituais da democracia sendo estuprados em nome de interesses pessoais. Isto inclui os partidos, que planejam golpes ou eternização no poder, passa pelas instituições da sociedade civil, que frequentemente se fundam na defesa de privilégios e na construção de barreiras contra o outro, e pervade a sociedade como um todo, que começa a regurgitar episódios de ódio contra minorias raciais, ideológicas ou comportamentais.

Quando, porém, alguma voz nos tenta convencer de que não é tão grave assim a doença de nossa democracia, eis que uma voz rouca ecoa de dentro das cavernas, um promotor público utiliza o Facebook para mandar um recado à polícia de choque para que reprima com violência uma manifestação popular pois ele se encarregaria de arquivar o inquérito contra os responsáveis:

Alguém poderia avisar à tropa de choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial.
Petista de merda. Filhos da puta. Vão fazer protesto na puta que os pariu… Que saudades da época em que esse tipo de coisa era resolvida [sic] com borrachada nas costas dos medras…

O ódio é incompatível com a justiça, isto é algo que nem seria necessário dizer. Infelizmente, o Brasil não só é um país onde tem feito falta enfatizar o óbvio — como as noções básicas de cidadania, direitos humanos, justiça, dignidade etc. — como é um país onde dizer o óbvio parece cada vez mais causa de escândalo. Quando o rei está nu, para evitar o escândalo, é necessário reagir com toda radicalidade diante de quem ameace dizer isso. Por isso, no Brasil de hoje, quem diz o óbvio costuma ser atacado com mais força do quem expressa o absurdo.

O que este promotor de justiça disse é absurdo, mas muita gente aplaude. Aplaude porque o ódio está na moda, especialmente entre os simpatizantes de forças políticas que vem sendo deixadas para trás pelo trem da história. Almejam descarrilar o futuro e, se possível, empurrar tudo de volta para trás. O reacionarismo precisa de muito ódio e violência, porque não é possível explicar racionalmente às pessoas porque elas devem abrir mão de tudo que tornou sua vida melhor nos últimos dez ou vinte ou trinta anos. O reacionarismo precisa subjugar porque não consegue convencer. Ele precisa de uma tropa de choque, e de um promotor previamente comprometido a arquivar os inquéritos contra os policiais que aceitem matar aqueles de quem o promotor discorda.

Cada dia que passa nós damos um passo rumo ao abismo. Episódios como esse nos mostram que o fundo do poço moral tem porão. Que não existem limites para a falta de ética, de cidadania e de responsabilidade. Quando um membro do judiciário exibe total descompromisso com a Lei, e mesmo com os princípios que norteiam a Lei, cabe perguntar como podemos confiar nessa justiça. Nessa justiça sem freios e sem controle externo, onde a punição para um discurso de ódio como esse se limita a uma “aposentadoria”.

Havia uma antiga piada contada por um amigo meu, estudante de Direito, segundo a qual a diferença entre um juiz e um advogado é que o advogado apenas acha que é Deus. Só uma piada de advogado, claro, mas esse promotor leva tudo isso muito a sério. Ele se arroga o direito de decidir sobre a vida e a morte de pessoas que não conhece, apenas porque simpatizam com um partido (isso segundo sua percepção, pois não há provas de que os manifestantes seriam exclusiva ou mesmo majoritariamente “petistas”). Se algum dia, em um curso de direito, houver a necessidade de exemplificar o que é “injustiça”, basta exibir o print dessa postagem desse promotor, que violou a constituição e se tornou um criminoso ao se tornar mandante de assassinatos (o fato de tais assassinatos não terem sido cometidos não diminuiu o fato de que ele os ordenou).

A continuidade deste promotor em seu cargo, após isso, é um estupro ao direito constitucional e uma cuspida na cara da sociedade. Principalmente porque, se ficar claro que um membro do judiciário pode cometer tal temeridade impunemente, a perspectiva é que, cada vez mais, as vozes das cavernas ousem berrar na cara do povo, especialmente do povo “petista” (ou seja, aqueles a quem os reacionários acusam de ser petistas) que eles não têm direitos.

O ovo da serpente já está no ninho. Resta saber se vamos ser tolerantes contra  a intolerância ou seremos capazes de mostrar organização para resistir ao desmonte da democracia por aqueles que têm saudades do tempo em que podiam dar “borrachadas” em quem protestava.

O Estelionato Eleitoral Praticado Pela Esquerda

A direita chama de populismo qualquer coisa que beneficie o povo: reforma educacional é populismo, corte de imposto é populismo, reforma agrária é populismo, concurso público é populismo, fazer escola é populismo, abrir estrada é populismo. Fica parecendo que a função do governo não é trazer benefício ao povo. Como a boca fala aquilo de que o coração está cheio, essas pessoas provavelmente acham que o governo existe para beneficiar uns poucos e para desviar dinheiro público para contas na Suíça. Quero crer, porém, que só uma minoria pensa assim: a maioria simplesmente não sabe para que serve um governo, e nem como ele pode chegar aos seus objetivos.

Digo que as pessoas acham errado beneficiar o povo porque praticamente todas as medidas tomadas positivas que foram tomadas em benefício do povo nos últimos vinte anos (sim, o Fernando Henrique também beneficiou o povo, mesmo que por descuido) foram criticadas como populistas. Todos os aumentos de salário mínimo acima da inflação foram tachados de populistas, a queda dos juros é populista, a expansão do financiamento imobiliário é populista, redução de impostos sobre bens de consumo é populista … e segue uma série imensa de adjetivações.

Esse populismo tem, claramente, um objetivo eleitoral. Como se fosse errado ter objetivos eleitorais. Vivemos em uma democracia, na qual os governantes precisam ser confirmados periodicamente, e não em uma monarquia vitalícia e hereditária que nunca presta contas de seus atos. Claro que o governo precisa mostrar serviço para que o povo reconheça seu valor e o reeleja. Está para nascer um governante que trabalhe incansavelmente para ser derrotado na eleição seguinte.

Claro que é errado ter objetivos exclusivamente eleitorais, priorizar medidas de curto prazo. Quem faz isso muitas vezes o faz por não ter a competência de capitalizar em cima de projetos de grande envergadura. Mas se for errado pensar em fazer o bem ao povo para colher votos então qual é o sentido que resta à política? Na minha opinião, esse tipo de crítica ao populismo revela é desprezo pela democracia.

Como se fosse errado pensar em beneficiar o cidadão comum, como se este não fosse cidadão. Como se fosse ideal beneficiar a poucos, em vez de beneficiar a muitos. Essas medidas são classificadas de estelionato eleitoral, como se fosse uma falha moral o povo votar em quem lhe atende, como se o certo fosse governar sem fazer nada pelo povo e esperar ter o seu voto.

No fundo isso mostra que existe uma incompatibilidade insanável entre o pensamento e o projeto da direita, de um lado, e as ferramentas e objetivos de uma democracia. A democracia é uma entidade essencialmente esquerdista, construída por revoluções e reivindicações. O direitista transita nela como quem enfrenta o inevitável, como quem é obrigado a morar na casa construída por seu inimigo.

Redistribuição de Renda "for Dummies"

Certos conceitos são melhor entendidos quando transportados do terreno vago da terminologia para a solidez do dia a dia. Um exemplo é a tal “redistribuição de renda” de que tantos políticos falam, e que tanta gente é contra ou a favor sem nem saber o que é. Tentarei demonstrar como isso funciona usando como exemplo uma recente campanha no Facebook contra um supermercado de minha cidade natal que passou a cobrar pelas entregas em domicílio. Segundo a campanha, a cobrança seria desta forma:

  • R$ 6,00 por entregas no “centro da cidade”,
  • R$ 10,00 por entregas em “bairros próximos”,
  • R$ 15,00 por entregas em “bairros distantes”.
As aspas foram empregadas porque, sendo Cataguases uma cidade de meros 70 mil habitantes, os conceitos de “centro”, “bairros” e “distante” terão um significado muito diferente do que têm para um habitante de metrópole. Existem “bairros” (como o BNH ou a Vila Domingos Lopes) que estão mais próximos da loja do supermercado em questão do que certas áreas do “centro” que, aliás, não mede mais que um quilômetro de um lado a outro. Certos distritos (fora do perímetro urbano) são também mais próximos da loja do que certos “bairros distantes”. Enfim, os conceitos são vagos o suficiente para haver interpretações contraditórias.

O supermercado em questão possui um enorme estacionamento próprio e não cobra taxa de quem compre a partir de certo valor (se não me engano R$ 30,00). Combine este fato com a recente cobrança por entregas em domicílio e podemos entender disso que se está estimulando o uso do automóvel em detrimento do ônibus, da bicicleta ou da sola do sapato. 

O que este supermercado está fazendo é uma discriminação contra o pobre. A mensagem passada é que ele não quer ter clientes “pedestres” porque estes, em sua  maioria, são os que não têm condição de ter carro. Certa vez uma famosa loja de luxo paulista, a Daslu, construiu uma sede que só era acessível através do estacionamento, que cobrava R$ 100,00 por hora. Obviamente a Daslu, hoje falida, queria que pobre passasse longe. O supermercado cataguasense também parece que quer o pobre longe, comprando no mercadinho de bairro. Como não pode pôr na porta um aviso de que está “proibida a entrada de pobre”, o supermercado resolve penalizar com uma taxa as entregas das compras de quem não tem condição de levar de carro. Observe que a taxa é significativamente maior para “bairros distantes” (definidos de uma forma vaga). Com R$ 15,00 o pobre poderia comprar 10 kg de arroz, por exemplo. Difícil esperar que alguém troque tanta comida pelo conforto de receber as compras em casa.

Alguns de meus leitores; especialmente anarcomiguxos, escroques individualistas e antissociais em geral; reclamarão desta postagem dizendo que o supermercado está certo, porque o custo da entrega era embutido na margem de lucro e que, ao cobrar à parte, o preço das mercadorias poderá ser reduzido. “Não é justo que todos os fregueses fiquem pagando mais caro,  mesmo quando levam eles mesmos suas compras, para os que usam o serviço de entrega em domicílio” — dirão eles, ingenuamente acreditando que a redução de custos será transformada em redução de preços. Aqui temos, então, o conceito de redistribuição de renda sendo discutido, sutilmente.

Uma política de redistribuição de renda significa, entre outras coisas, que os bens, serviços e impostos são mais baratos para quem ganha menos e mais caros para quem ganha mais, a fim de facilitar o acesso a esses bens e serviços por pessoas que ganham menos. Redistribuição de renda é você fazer por cinco reais o preço do prato feito para aquele mendigo esfomeado que chega com uma nota amarrotada de cinco paus, mesmo que você esteja cobrando oito dos clientes normais. Redistribuição de renda é não cobrar a entrega das compras dos pobres, embutindo o custo nas mercadorias, dividindo entre todos os fregueses.

Quando um Estado, ou uma empresa, resolve individualizar os custos e os serviços, sem olhar quem paga, sobre o pretexto de “igualdade”, o que ocorre é justamente punir o pobre. Porque o rico, que já estava de passagem pelo centro em seu automóvel, não se importa de levar a compra ou mesmo de pagar pela entrega. Sem falar que o rico não vive, normalmente, em “bairros distantes” e que, de certa forma, o bairro pobre é sempre “mais distante” que o bairro rico, se não em quilômetros, certamente em percepção.

O resultado destas políticas de individualização de custos é a redução da capacidade de consumo das pessoas que ganham menos, esvaziando as lojas dessa gente “diferenciada” que atrapalha as compras dos “bons clientes”.

Infelizmente, pelo menos na internet, esse tipo de ideologia parece estar ficando popular. E medidas ocasionais, como essa do  supermercado, nos sugerem que a mentalidade do "cada um por si" está ganhando terreno. Esperemos que esta erva não vingue, porque as dificuldades de cada um não são aumentadas pela solidariedade com quem tem ainda  mais dificuldades. 

«O Julgamanto»

Tradução de um trecho avulso de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (obra que se acha em domínio público, tradução feita por mim, ao improviso, já aviso). Com um título novidadoso, homenageante aos recentemente condenados. Dedicado aos que foram condenados, independente de serem ou não culpados, não pelo que fizeram, mas pelo que são.


Disse-lhe o gato
ao rato: «Venha
logo seu bobo
jogarmos
um jogo:
Vamos
ambos
à lei.
Eu lhe serei
promotor
e tu réu.
Venha agora
o tribunal
não demora.
Julgaremos
teu mal
no final.
É que
hoje estou
sentido
e vazio
e mal consigo
o que sirva
para fazer.»
Disse-lhe
o pobre rato
ao gato:
Um júri assim
de improviso,
companheiro,
sem juízo e
nem jurado,
tão sorrateiro
seria errado,
uma perda
de tempo.»
«Júri
e juiz
posso eu
mesmo ser»,
Explicou,
esperto,
o bichano.
«Farei
de tudo
no ato,
que a ti, rato,
réu nato,
condenará,
sem pena,
ao prato.»

Permita a reprodução em qualquer meio, com crédito ao tradutor, que soy yo, se possível sempre com link.

O Desgosto que Lula me Deu

Este artigo ficou voejando pela minha cabeça nos últimos dias sem que eu tivesse realmente a coragem de escrevê-lo. Tenho tido uma profunda preguiça mental para escrever, tanto textos literários quanto polêmicos, pois o meu corpo e a minha alma têm sido absorvidos no aprendizado de uma nova função em meu emprego. Mas há casos nos quais o casulo da inércia não consegue conter muito tempo uma ideia que pulsa até que finalmente purga, como um tumor.

Esta foi a semana na qual todos os brasileiros de esquerda; eu entre eles; tiveram o estranho espetáculo do apoio de Paulo Maluf à candidatura petista na cidade de São Paulo. Este apoio, e as reações que provocou, à direita e à esquerda, é o tumor que latejou dentro de mim durante vários dias, até eu me dispor a perfurá-lo.

Podemos empregar uma metáfora sexual para o caso, já que se trata de um episodio de pornografia política como poucas vezes se viu. Lembro-me de quando, ainda cheio de culpas por ter transado com uma namoradinha, pensava em amor eterno, casamento, filhos e até dois túmulos lado a lado no cemitério. Meu pai, bem mais realista do que eu, e muito menos romântico desde sempre, beneficiado por nunca ter lido poesia romântica, aconselhou-me a não fazer nada depressa, porque a vida é longa e temos mais mais tempo para enfrentar as consequências dos erros do que para fazer as escolhas certas. Terminou o conselho com uma frase rudemente lapidar: só porque comeu, não tem que casar.

Algo semelhante se aplica ao apoio político em questão: eu já sabia desde há muito tempo que o “Partido Progressista” (atual nome da legenda que já foi o PDS e, em tempos obscuros, a Arena) era apoiador da coligação governista. Se não o foi desde a primeira campanha eleitoral de Lula, pelo menos reconheço suas impressões digitais gordurosas no governo desde o escândalo do mensalão, que teve o envolvimento de Valdemar da Costa Neto, então presidente do Partido. Sabia, também, que há cada vez uma tendência maior à harmonização das alianças locais com as nacionais --- o que não deixa de ser salutar, visto que as coligações tornavam nossas eleições uma verdadeira salada partidária sem nenhum tempero definido. Sabia, mas vivia me recusando a pensar nisso, que o apoio do PP implicava no apoio de Maluf, uma das personalidades brasileiras que, graças ao nosso justíssimo sistema judiciário, tem a prerrogativa de andar livremente pelas ruas e até de influir nos destinos do país apesar de crimes cometidos internacionalmente que o tornam procuradíssimo pela Interpol. Existe até uma lenda de que não pode sair do país para não ser preso e extraditado para algum dos vários países onde cometeu fraudes (entre eles, notoriamente, Estados Unidos e Grã Bretanha).

Ocorre que o fato de o PT estar “comendo” desde 2003 pelo menos não significava, pelo menos não até agora, uma obrigação de “casar”. Ainda que, pelas vias do fato, o casamento seja hoje apenas uma cerimônia pública, que poucos direitos retira ou acrescenta, para além do dinheiro gasto com a pantomima toda. O governo pôde continuar usufruindo do apoio suspeito dos partidários de Maluf sem precisar “casar” porque no pântano do congresso, répteis de todas as cores serpenteiam pelos meandros se acasalando, sem chamar atenção de muita gente, só dos especialistas, e a maioria tem um certo asco por essas coisas. Somente para tentar ganhar a prefeitura paulistana é que se imaginou que a cerimônica pública, com direito ao equivalente político do beijo na boca, seria um espetáculo interessante. Um triste espetáculo, no qual o jovem Fernando Haddad aparece numa posição fisicamente análoga à de padre.

Foi grande o desgosto que me sobreveio ao ver Lula confraternizando com um dos políticos que mais representam o pensar e o fazer político dos apoiadores civis da Ditadura. O político que foi, por muito tempo, a cara do PDS, por ter sido seu candidato no colégio eleitoral que escolheu Tancredo para conduzir a transição; um episódio de triste memória que resultou em cinco anos de um mandato totalmente inconstitucional que nada fez pelo país além de fazê-lo perder tempo. Foi grande o desgosto de vê-lo abraçando um homem que é internacionalmente procurado por malversação de dinheiro público e que foi por anos o próprio ícone da “política de resultados”.

Foi mais ou menos a sensação de ver a namoradinha de infância batendo bolsinha na esquina. “É só um apoiozinho para ganhar mais uma eleição, depois eu me lavo e tá novo”.

Não Escreverei uma Elegia para Muammar

Muammar Khadafi (ou seja lá como se escreve) foi morto. Não chorarei por ele nenhuma lágrima de crocodilo. Nenhuma vela merece ser queimada por tal defunto. Acredito que é sempre uma alegria para a humanidade quando um ditador encontra seu destino “nos braços do povo”, tristeza é quando um monstro desses rende o espírito confortavelmente deitado em uma cama, ao lado da família e assistido por um doutor. O mundo precisa que mais ditadores acertem as contas com o povo, exemplos deprimentes como Idi Amin Dadá (que ganhou um exílio de luxo na Arábia Saudita, com suas várias esposas e os milhões que roubou da miserável Uganda) ou Francisco Franco (que recebeu extrema unção da Santa Madre Igreja e teve luto nacional decretado) tornam o mundo um lugar pior. Ditador não pode morrer de morte morrida, mas de morte matada.

Espanta-me que certas pessoas, entre elas a Excelentíssima Senhora Presidente de nossa República, encontrem uma tortuosa maneira de lamentar que tenham esticado as canelas do Muammar (vou chamá-lo assim por uma questão de praticidade, aproveitando que não lhe devo respeito algum): “isso não significa que a gente comemore a morte de qualquer líder que seja”, diz a Senhora Rousseff, que teve o meu voto útil, mas não tem o meu apoio quanto a esta declaração. Teria Dilma empregado as mesmas palavras em reação ao espancamento (seguido de enforcamento) de Benito Mussolini pelos partigiani em 1945? Teria ela reservado esta simpatia para o vampiro Nicolae Ceausescu, julgado e executado ao vivo na TV pelo povo da Romênia? Por uma questão de coerência, sim.

Ver matarem um ditador sanguinário, que ordena que sua Força Aérea ataque com metralhadoras antitanque uma manifestação do povo, não é algo que se deva lamentar. É um bom exemplo para a humanidade que massacrem o Muammar, joguem pedra no Muammar. Muammar é a Geni desse mundo onde ninguém ousa tacar pedra nos grandes ditadores. Chutar cachorro de rua é mais fácil do que desafiar o pitbull do pitboy filho do empresário milionário. Vocês, que estão lamentando, gostariam que o Brasil tivesse dado asilo a Muammar? O que estariam dizendo da Dilma se ela abrisse as portas de uma mansão no Lago Sul para receber o sujeito? Muammar morreu, antes ele do que eu. Muammar se fodeu, e mereceu.

Claro que isto, porém, não significa que a morte do Muammar resolve todos os problemas da humanidade. Ainda tem muita ditadura por aí, algumas bem disfarçadas por eleições a prazos regulares e uma salutar rotatividade entre os que se sentam na cadeirinha. Um bom teste para uma democracia é ver se você tem o direito de não gostar do governo. E este anos nos tem mostrado que é mais fácil protestar nas “ditaduras” sanguinárias no que em certas democracias exangues.

Claro, também, que a morte de Muammar não foi um gesto bonito. Para um movimento que começou evocando Gandhi e Martin Luther King, com jovens vestindo jeans e cantando slogans quase flower power pelas ruas, a Revolução da Líbia terminou como uma guerra civil suja, comandada por gente com mais de trinta (não custa lembrar que em uma revolução de verdade os jovens não devem, nunca, confiar em alguém com mais de trinta [anos de carreira]) e com brutais batalhas e linchamentos que vão deixar cicatrizes por um longo tempo. Mais do que o mal feito ao Muammar, o episódio, entre outros anteriores, causou muito mal ao sofrido povo da Líbia. Não sei quem disse isso, mas se ninguém disse eu digo agora: você morre também a cada vez que mata alguém. Os tiros dados no Muammar (bem feito, canalha) atingem também a legitimidade da Revolução, que ficou parecendo uma bagunça sádica conduzida mais por vingança do que por sede de justiça. Não nego aos líbios o direito de quererem vingança. Todo mundo tem esse direito, especialmente quando se vive uma espécie de Lei da Selva. Mas a justiça sempre é mais bonita do que a vingança.