Corra, Kim, que a Polícia do Mundo Vem Aí.

Potências imperiais gostam de brincar de polícia com o mundo. Claro, no papel da polícia e chamando de ladrão quem esteja no seu caminho. Pode ser um regime realmente maligno, como a Alemanha nazista, ou um governo bem intencionado e absolutamente inofensivo, como a Nicarágua sandinista. Pode ser um regime realmente adversário, como a URSS, ou um simplesmente um amigo que tinha o defeito de se preocupar com o próprio povo, como a Guatemala de Árbenz.

No fundo a política internacional é um jogo sujo, baseado na mais abjeta e escrota hipocrisia. Para as potências hegemônicas, principalmente, princípios não existem, apenas conveniências. Pelo pretexto de combater uma “ditadura” comunista, os EUA apoiaram durante mais de uma década a ditadura comunista e genocida do Khmer Vermelho contra o governo de reconstrução nacional criado pela intervenção vietnamita. Diz que se importa com a democracia na América, mas patrocinou, a partir do final do século XIX, as ditaduras mais cruéis e caricatas da história de cada um dos países ao sul do Río Grande. Rejeita a legitimidade das eleições venezuelanas, atestada por observadores internacionais, mas teve um presidente eleito em um pleito marcado pela fraude e pela obscuridade e há menos de um ano abençoou um pleito mexicano com sinais evidentes de trapaça. E enquanto tenta erradicar o extremismo religioso talibã no Afeganistão, mantém a Arábia Saudita como “nação mais favorecida” de seu comércio, justamente o país de onde emana a maior parte do fundamentalismo islâmico de hoje.

Infelizmente, as pessoas se esquecem muito fácil desse passado de crimes dos Estados Unidos contra a soberania de outros países, esquecem das mentiras que inventaram para justificar intervenções nas quais o único interesse a se preservar era o de Wall Street. Agora a máquina de propaganda ianque está a todo vapor tentando criar um pretexto para aniquilar a deprimente Coreia do Norte, último reduto comunista tr00 deste planeta. E uma quantidade enorme de macacas de auditório senta e levanta ao ritmo ditado pela imprensa, aplaudindo e apupando conforme quem aparece tenha olhos amendoados ou não.


Para começo de conversa, vamos deixar estabelecido que este post não tem por objetivo nenhum tipo de solidariedade com a tosca Coreia do Norte, lugar aonde não quero ir morar (principalmente “morar”) nem no pior de meus pesadelos.1 E certamente se eu tivesse que escolher entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos para serem meus senhores, eu certamente preferiria os segundos. O objetivo deste post é demonstrar o funcionamento dos mecanismos que estão em ação neste episódio, e lembrar, através de paródia, um momento da história:

Primeiro foram atrás do Iraque,
e eu não disse nada porque não sou iraquiano.
Depois foram atrás do Afeganistão,
e eu não disse nada porque não sou afegão.
Então foram atrás de Honduras,
e eu não disse nada porque não sou hondurenho.
Então foram atrás da Tunísia,
e eu não disse nada porque não sou tunisino.
Então foram atrás da Líbia,
e eu não disse nada porque não sou líbio.
Estão indo atrás da Coreia do Norte,
e eu nada digo porque não sou norte-coreano.
Um dia virão atrás de nós,
e não haverá ninguém para dizer coisa alguma.

Existe um princípio na dinâmica da política internacional que diz que o inimigo é sempre bárbaro. Desumanizar o adversário faz parte do jogo. Isso se faz com palavras e com imagens, mas com palavras é melhor, porque elas atuam de forma mais subreptícia. Lembra do tempo em que se dizia que comunista comia criancinha?2

Houve uma época em que os britânicos chamavam os alemães de “hunos”, diziam que os cientistas do Kaiser tinham inventado uma arma terrível que envenenava os soldados à distância e que, se as potências centrais ganhassem a Grande Guerra, toda a Europa seria anexada ao Império Alemão.

Os hunos originais foram um povo de raça turca (ou mongólica, ou mestiça, ou negra, ou sabe-se lá o que) que atacaram a Europa Oriental no fim da Antiguidade. Os romanos os descreviam como comedores de carne crua, praticantes da automutilação, imundos, canibais etc. Quatrocentos anos antes as legiões romanas conquistaram a Gália e denunciaram a prática de sacrifícios humanos pelos druidas. Sacrifícios tão cruéis e desumanos que os pobres gauleses foram submetidos a um verdadeiro genocídio, alimentando por séculos os “circos” romanos, onde se sacrificava gente não a deuses, mas ao divertimento. Era obsceno que os gauleses sacrificassem virgens nos seus feriados. Era civilizado que os romanos sacrificassem todo tipo de gente a cada domingo.

Assim se repete a história desde sempre,  e sempre há um bárbaro novo cuja conquista se tem que justificar. Tal como Trajano pintou os dácios como monstros para poder roubar seu ouro, o império americano pinta os árabes como monstros para poder roubar seu petróleo. Certamente havia monstros entre os dácios e certamente os há entre os árabes. Mas maior foi a monstruosidade do genocídio romano, como maior é a monstruosidade dos genocídios em curso atualmente, no Iraque, na Líbia, na Síria, no Afeganistão e no Paquistão.

Quando o inimigo é fraco, às vezes nem precisa inventar muita coisa, pois a ação já terá sido concluída antes que a opinião pública tenha tempo de assimilá-la. Assim foi na Guatemala, na República Dominicana, em Granada… Mas o inimigo pode prolongar a ação, então é preciso preparar terreno. E aí é preciso inventar que ele tem “armas de destruição em massa”, “que ele é uma ameaça à paz internacional” ou que faz parte de um “eixo do mal”.

A Coreia do Norte é a bola da vez — o que significa que as baterias midiáticas ianques, tanto as próprias quanto as terceirizadas, atirarão à vontade contra o regime que se quer derrubar. Foi para vingar o 11 de Setembro e acabar com as “armas de destruição em massa” que se atacou um Iraque já exangue por mais de uma década de fortes sanções econômicas. Foi para acabar com o “terrorismo de estado” sudanês que se bombardeou o principal complexo industrial do país e se impôs um bloqueio econômico que levou o país ao caos econômico e à guerra civil. Foi para “Caçar Osama bin Laden” que se invadiu o Afeganistão e se matou mais gente que o talibã havia matado antes. Mas no fim das contas Saddam não tinha nenhuma das tais armas, a fábrica bombardeada era uma indústria farmacêutica que produzia principalmente remédios contra doenças tropicais, e Osama bin Laden estava escondido no Paquistão, país “amigo” dos Estados Unidos.

A única coisa que todos esses regimes tinham em comum era que, por serem detestáveis violadores de direitos humanos, ninguém se levantou para denunciar a violação de sua soberania. Tal como no “poema” de Martin Niemöller. Mas um dia talvez venham atrás de nós, e o resto do mundo nos verá como detestáveis também, violadores de direitos, cortadores de árvores, estupradores de turistas, possuidores de armas de destruição em massa, ou seja o que for. E ninguém falará contra nós.

[continua] — na parte 2: Por que atacar a Coreia do Norte?


1 A palavra “morar” significava originalmente trabalhar e residir em um mesmo lugar. Aplicava-se a colonos e escravos.
2 Não se sabe se alguma vez alguém comeu criancinha por ser comunista, mas é sabido que houve algumas fomes terríveis em países comunistas como União Soviética (nos anos 1930), na China (nos anos 1950), no Camboja (anos 1970) e na Etiópia (anos 1980). Não que tenham deixado de haver fome em lugares sob influência capitalista, mas fatos são fatos.

Hugo Chávez e o Herói Padrão de Lord Raglan

Você provavelmente já deve ter percebido algo de estranho na recorrência de certas características na biografia de personagens mitológicos (e às vezes personagens históricos). É como se a maioria dos nomes famosos tivesse em comum algo além da fama em si. Pode parecer teoria de conspiração barata, mas essa impressão não é fruto de sua imaginação: ela já foi detectada, estudada e sistematizada por historiadores. Enfim: já se comprovou que existe mesmo um padrão que se aplica à maioria dos relatos biográficos, hagiográficos ou mitológicos de personalidades reais, mitificadas ou míticas.

A comprovação está em uma obra intitulada “O Herói: Um Estudo da Tradição, da Mitologia e da Literatura” — publicada em 1936 pelo folclorista britânico FitzRoy Somerset, Barão de Raglan. Nesta obra, Lord Raglan sintetizou 22 características que são encontradas nos relatos sobre uma grande variedade de personagens reais ou não. Não são as únicas características compartilhadas, mas as que mais frequentemente se repetem.

O estudo destas características não é muito útil para identificar a historicidade de personagens duvidosos, visto que o czar Nicolau II, personagem histórico amplamente conhecido, morto em 1917, tinha 14 das 22 características (uma pontuação superior à de Harry Potter, Ulisses, Sansão e Aquiles); mas é muito interessante para avaliar possíveis interpolações laudatórias feitas em relatos genuínos sobre personagens reais (“mitificação”) e a possibilidade de que um personagem real seja futuramente elevado a um nível de mito ou santo.

Com a recente morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, parece estar havendo uma tentativa de apropriação da sua biografia pelos seus herdeiros políticos, transformando-o em um herói. A análise a seguir procurará coincidências de sua biografia com o padrão do herói de Lord Raglan, para avaliar o potencial de Chávez como futuro arquétipo revolucionário latinoamericano (tal como Sandino, Guevara e Bolívar).

1. A mãe do herói é uma virgem de sangue real.


Verdadeiro no caso de Jesus Cristo, mas não no caso de Chávez, que sequer era o filho mais velho.

2. Seu pai era um rei


Filho de pais pobres, Chávez não se enquadra aqui. Mas o seu bisavô tinha sido um oficial do exército federalista de Ezequiel Zamora, e por isso Chávez merece marcar meio ponto nesse item.

3. Fruto de um amor incestuoso ou ilegal


Nenhuma coincidência conhecida.

4. As circunstâncias de sua concepção são incomuns


Nenhuma coincidência conhecida.

5. Ele é também considerado filho de um deus


Nenhuma coincidência conhecida.

6. Ao nascer ocorre um atentado contra a sua vida, geralmente cometido por um membro da família, ou por sua ordem


Não consta nas biografias oficiais que isto tenha ocorrido.

7. Ele é salvo e levado embora


Como não houve o atentado, não pode haver coincidência aqui.

8. Criado por pais adotivos em um lugar distante.


Chávez foi criado durante vários anos por sua avó, Rosa, em outra cidade, devido às dificuldades econômicas dos seus pais. Um ponto.

9. Quase nada sabemos de sua infância.


Existem poucas fontes sobre sua infância. Não localizei menção a nenhum episódio. Isto, claro, é de se esperar de uma criança pobre. Mas é também característico do herói de Raglan. Outro ponto.

10. Ao se fazer homem, ele volta (ou vai) para o seu futuro Reino.


Aos dezessete anos, Chávez entrou, por escolha própria, para uma academia militar, sendo parte da primeira turma submetida a um novo e mais rigoroso programa de treinamento, que incluía todas as disciplinas militares normais e também vários tipos de conhecimentos técnicos e gerais. Tendo Chávez se notabilizado como um líder do exército antes de ser presidente, esta sua ida para as forças armadas por escolha própria lhe faz marcar mais um ponto.

11. Depois de uma vitória sobre o rei e/ou sobre um gigante ou dragão ou fera...


Apesar de derrotado na quartelada que organizou em 1992, Chávez acabou sendo, de fato, um vencedor, ao defenestrar o odiado presidente Carlos Andrés Pérez e, dessa formar, frustrar os planos do Consenso de Washington. Como os EUA são representados heraldicamente por uma águia, temos aqui uma fera também. Ou seja, Chávez marca esse ponto com pleno louvor.

12. Ele se casa com uma princesa, que pode ser filha/parente do seu predecessor.


Enquanto estava na cadeia, foi abandonado por sua primeira mulher, Nancy Colmenares, e posteriormente por sua amante, Herma Marksman, uma historiadora, que havia sido sua grande inspiradora durante o primeiro período revolucionário. Pouco antes de ser eleito presidente, Chávez se casou com uma jornalista bonita e de origem rica chamada Marisabel Rodríguez.  Se considerarmos o papel influente da imprensa na América Latina, e especialmente na Venezuela, e ainda mais especialmente em relação a Chávez, Marisabel pode ser considerada uma “princesa” (metaforicamente), ligada aos seus maiores inimigos. Casar-se com uma mulher da elite, às vezes abandonando a antiga namorada/amiga, é um mau passo que quase todo herói dá (Sansão, Artur...) e por isso Chávez marca mais um lindo e perfeito ponto.

13. E se torna rei.


Como a Venezuela não é uma monarquia, esse “tornar-se rei” precisa ser entendido como “ser eleito presidente”. Mas ressaltemos que nem toda monarquia era hereditária e vitalícia. Os reis da Polônia, da Lituânia, da Irlanda, do Sacro-Império Romano-Germânico e da Noruega eram eleitos pelos seus pares. Os sultões do mundo islâmico e os imperadores romanos raramente escolhiam descendentes diretos como sucessores. Monarquias nas quais o rei tinha poder temporário incluem as antigas monarquias gregas e as monarquias célticas em geral (especialmente na Irlanda, em Gales e na antiga Escócia). Então, a necessidade de metáfora é bem secundária aqui. Ponto para Chávez.

14. Por algum tempo reina pacificamente.


O tempo de reinado pacífico de Chávez se refere ao período posterior ao golpe de estado que sofreu em 2002. Até esse momento todos os seus movimentos fazem parte da acomodação da situação política. Sua vitória sobre o golpe é a sua definitiva entronização, pois a partir daí ele não teve praticamente oposição alguma que conseguisse impedi-lo de fazer o que quisesse. E seu reinado foi pacífico porque não houve nenhuma oposição militar ao seu mando, nem ameaça externa real. Ponto para Chávez.

15. Promulga leis.


Esta é sem dúvida a característica mais marcante do governo Chávez, que implementou na Venezuela uma verdadeira revolução institucional, derrubando leis antiquadas e aumentando o poder dos órgãos de representação popular mais próximos do povo. A rapidez com que lançou leis e criou instituições torna seu governo o mais criativo de toda a história daquele país. E por isso ele marca mais um ponto.

16. Porém ele perde o favor dos deuses ou de seus súditos


A coisa mais parecida com uma divindade no contexto político latinoamericano é o poder dos Estados Unidos de fazer e desfazer lideranças (e às vezes até governos). Chávez claramente perdeu o favor desse “deus” metafórico. Na mitologia a perda do favor divino era o início da derrocada do herói. A perda de tal favor poderia ser causada por coisas mínimas (Moisés perdeu o favor de Deus porque bateu com cajado em uma pedra e Sansão porque cortou o cabelo). No caso de Chávez, o simples fato de priorizar a melhora das condições de vida do povo o tornou inimigo dos EUA, que, historicamente, não ligam para o bem estar de nenhum outro povo, especialmente se não for branco. Ponto para Chávez.

17. Após o que é retirado do trono e do reino.


Observe que não há relação de causalidade. A retirada do herói de seu trono é posterior à perda do favor dos deuses, mas não necessariamente causada por ela. Digo isto para arrefecer os apressadinhos que me acusarão de acreditar na história da arma cancerígena da CIA (se bem que eu acredito). No caso de Chávez, após anos de embate contra os EUA ele adoece (câncer) e resolve se tratar em Cuba (sua retirada do trono) por períodos cada vez mais longos. Ponto para Chávez.

18. Sua morte é misteriosa.


Se misteriosa não foi, pelo menos os seus aliados tentam fazer ao máximo que se pareça sendo. A acusação de que seu câncer foi causado por interferência da CIA (ou do Mossad) cria essa aura de mistério e faz Chávez marcar mais um ponto. Sem falar em outras circunstâncias misteriosas, como a data de sua morte, os motivos de não ter sido embalsamado e o misterioso rejuvenecimento de seu cadáver.

19. Comumente no topo de uma montanha.


Nenhuma coincidência conhecida.

20. Seus filhos, se os tem, não o sucedem.


Sucedido por um aliado, não por seus filhos. Mais um ponto.

21. Seu corpo não é enterrado.


Parte do mistério que cerca sua morte envolve o lugar onde deveria ser enterrado. Embora ele tenha acabado por ser enterrado no Forte Montaña, já existe a proposta de uma emenda constitucional para que seja transladado para o Panteão Nacional, ao lado de Bolívar, onde ele não ficaria enterrado, mas depositado em um ossuário suspenso.

22. Mesmo assim ele tem um ou mais sepulcros.


Sendo transferido para o Panteão Nacional, Chávez terá dois locais conhecidos de sepultamento (Forte Montaña, o provisório, e Panteão Nacional, o definitivo). Sem falar nos possíveis boatos de que teria sido, na verdade, enterrado em outro lugar. Mas tais boatos não seriam necessários, porque o ponto já está marcado.

Conclusões


Chávez marca surpreendentes 14 pontos no padrão do herói de Lord Raglan, mesma pontuação de Nicolau II. Para se ter uma ideia de onde Chávez se situa na escala, observemos as seguintes pontuações:

  • Édipo e Krishna : 21
  • Moisés e Teseu : 20
  • Dionísio, Jesus e Artur : 19
  • Perseu e Rômulo : 18
  • Hércules e Maomé : 17
  • Beowulf e Buda : 15
  • Hugo Chávez, Zeus e Nicolau II : 14
  • Sansão e Robin Hood : 13 
  • São Jorge : 12
  • Sigurd (Siegfried) : 11
  • Aquiles : 10
  • Harry Potter e Ulisses : 8

Os mitologistas interpretam a escala de Lord Raglan da seguinte forma: uma pontuação inferior a seis indica que a biografia do personagem é provavelmente factual e as coincidências são apenas coincidências, mas uma pontuação superior a seis sugere que o personagem não é real ou então que a sua biografia sofreu/sofre adulterações mitificantes.

Sendo o herói um arquétipo, existe uma tendência humana a adulterar a história de pessoas tidas como heróicas (ou que se pretende fazer parecidas com heróis) de forma a se tornarem parecidas com o herói arquetípico. No passado, a transmissão oral do conhecimento sobre o herói favorecia esta adulteração, sendo inúmeros os casos conhecidos de personagens  cujas biografias contêm elementos atribuídos com finalidade mitificante.

Finalmente, para os que acham que há imperfeições na escala (sim, ela não é perfeita), existem propostas de expandi-la da seguinte forma:

  • Separar “virgem” de “real” em relação à donzela mãe do herói.
  • Adicionar a categoria “prodígios na infância”
  • Adicionar a categoria “cumprimento de profecia”, tanto em relação ao nascimento quanto em relação à morte.

Com tais adições, alguns personagens religiosos (como Jesus e Maomé) marcariam mais pontos, porém a pontuação de personagens reais (como Nicolau II e Chávez) seria menos impressionante. O que é certo é que o falecido presidente da Venezuela tem um grande potencial para ser herói nacional, e a pontuação deve aumentar ao longo do tempo, especialmente se os seus aliados durarem algumas décadas no poder.

A Moda É Ser Idiota

“Idiota” era como os gregos chamavam aqueles cidadãos que cuidavam exclusivamente de seus negócios pessoais e não participavam da vida política. Somente muito mais tarde a palavra ganhou um sentido mais negativo. Fazia parte do conjunto de crenças comum a todos os gregos que cada cidadão deveria ser responsável pelo governo de sua cidade. De tal forma se valorizava isso que a participação em certos órgãos governamentais, como o tribunal do Areópago, em Atenas, ou a assembléia dos éforos, em Esparta, era, em certa época, sorteada entre todos os homens aptos. Esse era o conceito de “liberdade” defendido pelos antigos filósofos: livre era o homem que era dono de si, não possuía senhores. A liberdade era contraposta à escravidão.

Quando o pensamento grego foi revalorizado, a partir da Renascença, o conceito de liberdade dos gregos pareceu anacrônico e inadequado. Era impossível governar países extensos com base em uma democracia direta, da qual todos os cidadãos participassem por sorteio, mesmo que fossem considerados cidadãos apenas os nobres. Não obstante, certos estados menores, como a Holanda e as cidades livres hanseáticas, tiveram uma forma de governo razoavelmente parecida, na qual todos os “homens bons” tinham sua voz ouvida.

Existe uma nobreza nesta definição de liberdade, nobreza que fascinou aos filósofos iluministas e também a Nietzsche. A liberdade dos antigos não era uma liberdade egoísta, não era uma busca hedonista. O homem não era livre para agradar a si mesmo, mas para fazer o bem à comunidade. E havia uma identificação do cidadão com a cidade. A raiz dessa identificação está na percepção da política como uma extensão de si. O estado (pólis) não era visto como um ente estranho, mas como uma espécie de família estendida, à qual se pertence, mesmo nos momentos em que algum dos membros faz algo de que discordamos. Desta forma, sempre que um indivíduo procurava impor sua opinião através das armas, do dinheiro ou da oratória, a cidade lhe reservava a pena do ostracismo (exílio), com o objetivo de reduzir-lhe ainda mais a capacidade de convencer aos outros. Nunca, porém, ninguém foi forçado a deixar a cidade: era o cidadão que percebia, no voto do ostracismo, a rejeição da cidade contra si e contra tudo o que ele representava. Exilar-se era a única opção. Mas reconciliar-se era o único objetivo. Somente os escravos não almejavam retornar à sua cidade original.

No embate das forças ideológicas posteriormente à revolução francesa, o tipo de liberdade cidadã que os gregos compreendiam foi abraçado pelos socialistas. Não por acaso escolheram essa denominação para si. Divergindo dos gregos apenas na noção nova, francesa, de que todo filho da nação é um cidadão seu. A essência do pensamento altruísta, que logo se confundiu com a esquerda, e parcialmente com o socialismo, é a de que cada indivíduo pertence a um conjunto, a sociedade, e não lhe é lícito fazer nada que cause dano à sociedade. Diferentemente dos socialistas, os diversos tipos de ideologias individualistas sempre preconizaram o direito individual de fazer mesmo aquilo que prejudicasse à sociedade. As posições centristas admitem que o indivíduo possa moderadamente causar dano à sociedade, conquanto sempre  menor do que dispêndio que a sociedade precisaria fazer para impedi-lo. Se, como disse Oscar Wilde, a sociedade embrutece mais com a reiteração de castigos do que com a recorrência dos delitos, é mais sábio tolerar certa ordem de transgressões, a fim de diminuir o embrutecimento coletivo.

Nos últimos anos e meses começou a ganhar popularidade aqui no Brasil uma corrente de pensamento de extrema direita e de extremo individualismo chamada libertarianismo (alvo preferencial deste blogue, daí o título), que defende exatamente o oposto do pensamento atruísta. Supostamente baseada em Nietzsche (na verdade derivada de um pastiche mal construído de alguns aspectos de sua filosofia, por intermédio dos romances de Ayn Rand), essa ideologia propõe que ninguém deve jamais se preocupar com o próximo, nem de forma alguma unir-se a quem quer que seja em nome de objetivos comuns, pois a “virtude” estaria em enfrentar as consequências e vicissitudes da vida de forma “livre”. Um exemplo de texto difundido pelos libertários na internet é o citado a seguir:

  1. Quando uma pessoa de direita não gosta de armas, não as compra. Quando uma pessoa de esquerda não gosta das armas, proíbe que você as possua.
  2. Quando uma pessoa de direita é vegetariana, não come carne. Quando uma pessoa de esquerda é vegetariana, faz campanha contra os produtos à base de proteínas animais.
  3. Quando uma pessoa de direita conhece uma pessoa de orientação sexual diferente, vive tranquilamente a sua vida. Quando uma pessoa de esquerda é homossexual, faz um movimento com alarde para que todos também se tornem homossexuais e os respeitem.
  4. Quando uma pessoa de direita é prejudicada no trabalho, reflete sobre a forma de sair dessa situação e age em conformidade. Quando uma pessoa de esquerda é prejudicada no trabalho, levanta uma queixa contra a discriminação de que foi alvo e vai à justiça do trabalho pedir indenização por dano moral (e o pior: ganha!).
  5. Quando uma pessoa de direita não gosta de um debate transmitido pela televisão, desliga a televisão ou muda de canal. Quando uma pessoa de esquerda não gosta de um debate transmitido pela televisão, quer entrar na justiça contra os sacanas que dizem essas sandices. E até uma pequena queixa por difamação será bem-vinda.
  6. Quando uma pessoa de direita é ateísta, não vai à igreja, nem à sinagoga e nem à mesquita. Quando uma pessoa de esquerda é ateísta, quer que nenhuma alusão a deus ou a uma religião seja feita na esfera pública, exceto para o islã (com medo de retaliações provavelmente).
  7. Quando uma pessoa de direita, mesmo sem dinheiro disponível, tem necessidade de cuidados médicos, vai ver o seu médico e, a seguir, compra os medicamentos receitados. Quando uma pessoa de esquerda tem necessidade de cuidados médicos, recorre à solidariedade nacional ou ao sírio libanês para tratar.
  8. Quando a economia vai mal, a pessoa de direita diz que é necessário arregaçar as mangas e trabalhar mais. Quando a economia vai mal, a pessoa de esquerda diz que os sacanas dos empresários, proprietários etc… são os responsáveis e punem o país.
  9. Teste final: quando uma pessoa de direita lê esse texto, posta argumentos lógicos. Quando uma pessoa de esquerda lê esse teste, fica puta da vida e quer xingar, além de querer processar e prender quem escreveu…

Como toda comparação estereotipada, esta também é falsa. Mas ele ser falso não me espanta nem me comove. Estranho é que muitas pessoas inteligentes — como +Vides Júnior+Saulo Cesar+Mário César de Araújo e +Francisco Quiumento
— e outras nem tanto, como o +Dâniel Fraga, o difundam sem pensar, aderindo automática e acriticamente a essas afirmações redutoras como se fossem um mantra.

Esse texto nada mais é do que uma mentira. Nem pessoas de direita e nem pessoas de esquerda são assim. Existe um tipo de pessoa de direita que diz/acha que é assim e que tenta impor essa definição de direita como uma universalização do credo e da práxis “direitista”. Esse é o primeiro erro porque, em tese, ninguém que seja direitista se diz ser, porque faz parte da essência do pensamento não esquerdista a negação da existência de luta de classes e da legitimidade da esquerda enquanto teoria política. O pensamento de esquerda é só um desvio, a luta de classes é uma ficção. Mas o texto, obviamente, reivindica uma suposta neutralidade, ao usar os termos “esquerda” e “direita” em terceira pessoa (“uma pessoa”) o autor procura sugerir que está fazendo um exame distanciado das duas formas de pensamento. Essa é uma técnica argumentativa bastante eficaz, porque as pessoas rejeitam pensamentos que honestamente se assumem como parciais: todos querem opiniões isentas, mas que coincidam com determinada forma de pensar.

São muitas as pegadinhas distribuídas pelo texto, e a simples identificação de cada uma delas deveria envergonhar quem o difunde (mas tenho a desiludida certeza de que ninguém se retratará, afinal, compartilhar um texto não é endossá-lo, ou é?).

O primeiro parágrafo faz uma comparação assimétrica entre uma ação individual (“não comprar”) e uma ação que nenhum indivíduo isoladamente teria poder para praticar (“proibir”). O terceiro, pior ainda, compara pontos de vista diferentes sobre uma mesma situação. A pessoa de direita “conhece alguém de orientação homossexual , a pessoa de esquerda “é homossexual”. Além do maldoso subtexto de que o esquerdista é veado, ainda temos uma comparação que não faz sentido, pois é perfeitamente aceitável que tenhamos reações diferentes quando estamos envolvidos. Ou seja, possivelmente uma pessoa que viveria tranquilamente a vida após conhecer um homossexual se sentiria compelida a fazer campanha pelos direitos homossexuais caso se descobrisse homoafetiva, simplesmente porque a percepção da cena muda quando você deixa de ser plateia e passa a ser ator.

Em comum, os sete primeiros parágrafos têm uma característica: a essência da “pessoa de direita” é a passividade diante dos fatos que encontra, caracterizando-se por “não fazer”, “continuar fazendo” ou “apenas refletir”. Não há uma só recomendação de um curso de ação diante dos desafios. O direitista “não compra” armas, não come carne, vive tranquilamente, reflete sobre a injustiça que sofreu,  muda de canal, não vai ao templo/sinagoga/igreja/mesquita. Por outro lado, o esquerdista sempre toma atitudes, apresentadas como equivocadas: ele “proíbe” (sic) a compra de armas (ou procura proibir), faz campanha contra a carne, faz um movimento, presta uma queixa, entra na justiça etc. Independente do fato de que em certas situações é melhor agir e em outras, não, resulta óbvio da análise do texto que o direitista ideal é alguém que age o mínimo possível. Quando alguma ação é recomendada, trata-se de uma ação individual e inócua, como mudar o canal da televisão (o que equivale a enterrar a cabeça na areia e fingir que o problema não existe). Esta é a essência do conservadorismo: qualquer tentativa de melhorar o mundo vai é piorar, então é melhor aceitar tudo do jeito que está. O conservador mais radical difere do reacionário em um simples fato: ele admite o progresso, desde que não seja obra de reivindicações revolucionárias e seja lento.

O silêncio sobre a ação é mais eloquente no quarto parágrafo, quando  a pessoa de direita “reflete” sobre o seu infortúnio. Por um paradoxo inexplicável, mas compartilhável, esse indivíduo de direita não estará agindo “em conformidade” caso escolha usar a justiça para se defender. Como não acredito que o autor do texto esteja defendendo o uso direto da força (vingança), suponho que a inação seja a única forma de ação conforme, sob a ótica direitista.

Não é à toa que um filósofo bem menos burro do que eu classificou a história positivista (conservadora e direitista) como “uma sucessão de fatos sem conexão, ligados a símbolos inexplicáveis e pessoas sem personalidade, em que nada possui causas, nada gera consequências, todas as reviravoltas são completamente inesperadas e todos os acontecimentos, irrepetíveis e desprovidos de qualquer valor moral para o presente.” É uma crítica antiga, do tempo em que ainda se usava falar em “moral” em filosofia, mas segue válida. Na ótica desse direitista ideal, apresentado nesse texto, a única coisa a fazer diante dos obstáculos da realidade é omitir-se, ou então tomar uma atitude isolada. Fica a impressão de que até mesmo formação de quadrilha é uma atividade esquerdista.

Uma vez que o indivíduo não está autorizado a tomar qualquer atitude concreta diante dos fatos, resta-lhe aceitar os fatos, de forma inexplicável. Como se vê no sétimo parágrafo, onde o autor afirma direitista consulta um médico e compra os remédios até quando não possui o dinheiro disponível. Não consigo imaginar como tal seria possível, nem de que forma os médicos e as farmácias andam aceitando pagamento se você for direitista. A atitude do esquerdista pelo menos é coerente: se não tem dinheiro disponível, recorre à solidariedade nacional. Acredito que a chave do enigma esteja no fato de que o autor, provavelmente, não sabe o que é “não ter dinheiro disponível” para pagar uma consulta e comprar remédios.

O oitavo parágrafo é o mais curioso de todos, pois tenta colocar como antônimas duas atitudes que não são sequer incompatíveis. Propor-se a “arregaçar as mangas e trabalhar mais” é algo que qualquer pessoa que dependa de seu trabalho terá de fazer diante de uma crise (mas de nada adiantará esta determinação se não houver trabalho). Mas esta disposição não significa que a pessoa não deva ter sua própria opinião sobre as causas do problema. O mecânico, pode perfeitamente consertar o carro enquanto lhe pergunta se o defeito não foi causado por algum mau hábito seu ao volante, como acelerar o carro embreado. Obviamente o autor do texto acredita que especular sobre as causas dos problemas que afligem a todos (ou pelo menos a muitos) é algo que não se deve fazer.

Por fim, a “chave de ouro” do texto, uma espécie de salvaguarda do seu autor contra as críticas advindas de sua “obra”. Por causa dela eu acredito que seja inútil postar argumentos lógicos contra o texto, porque, na visão em preto e branco da mula que cagou esse pedaço de excremento (só estou xingando para ser fiel ao estereótipo), um argumento de esquerda não pode ser lógico. Mesmo eu tendo feito uma análise moderada e pretensamente lógica do seu conteúdo, minha discordância soará como um zurro, por um fenômeno de pareidolia auditiva, que faz com que ouçamos coisas parecidas com o que nos é familiar.  Mas posto-os mesmo assim, sabendo que pelo menos entre os padawans da esquerda eu serei lido (e também por algum direitista honesto entre os vinte ou trinta que deve haver).

Não consigo entender como pessoas  bem informadas apregoem um texto tão primário e fácil de demolir. Acima de tudo porque o individualismo idiota que ele prega (no sentido grego do termo) é prejudicial à sociedade como um todo. Em nome de uma pseudoliberdade essas pessoas pregam um sistema no qual cada um estaria sozinho e indefeso diante da opressão. Alguém já disse que grandes problemas demandam grandes soluções, e grandes homens. A via proposta pelo texto é que as soluções venham através de atitudes pequenas, de pequenos e isolados homens. É muito triste que pessoas inteligentes difundam isso, de forma tão acrítica, mesmo porque a ignorância dos exemplos da história não é uma desculpa. A ignorância nunca é uma desculpa. Especialmente porque alguns dos que difundem isso de tempo em tempo parecem ter os conhecimentos mínimos necessários para discernir a patranha. Mas parece que, depois que se estuda muito, e se duvida de tanto, começam as pessoas a buscar credos em que descansar seus neurônios. E nesse caso, se a ideologia está certa, o pacote inteiro vai de brinde, e está certo também.

Se a Propaganda Substitui a Notícia

Tomei conhecimento através do Facebook de uma matéria publicada neste domingo na Folha de São Paulo que me deixou profundamente revoltado. Trata-se da história em quadrinhos sobre o mensalão. Antes que meus leitores reaças me acusem (se ainda estão lendo) de estar apenas reagindo ao ataque às minhas crenças, esclareço que a revolta não é causada pela tese apre­sentada no texto, pelas acusações a certos políticos ou mesmo pela ideologia subjacente à iniciativa. Posso perfeita­mente enten­der e aceitar que existam pessoas que pensam diferente de mim, posso aceitar (mas não entender) que exista quem espose uma ide­ologia reacionária de direita. E posso perfeitamente tolerar que uma coisa e outra sejam difundidas pela impresa. O motivo de minha profunda revolta é muito outro.

Referida história em quadrinhos é um desrespeito ao leitor da Folha da São Paulo, mesmo àquele que é reacionário, odeia Lula e sonha em organizar uma Marcha da Família com Deus Pela Liberdade e iniciar outra Redentora. Trata-se de um tratamento condescendente e infantilizado do leitor, que é tratado como um débil mental pelo simples fato de um tema tão complexo ser tra­tado por uma história em quadrinhos, com as características desta, no contexto em que o foi. Lamento se você gostou e aplau­diu, você faz parte do público que a Folha procurou atingir, e em você ela acerto. Sinta-se «especial».

O caso é que a Folha de São Paulo se prestou a fazer o chamado «jornalismo marrom», a busca da audiência (ou da vendagem, no caso de um jornal) através da divulgação exagerada de notícias sem compromisso com a autenticidade. Embora meus leitores reaças não admitam isso, os mais esclarecidos perfeitamente entenderão a associação do mesmo episódio com a chamada «imprensa golpista», que é o uso da mídia como um instrumento de pressão (e enventualmente de conspiração) contra o governo. Temos jornalismo marrom quando se emprega o recurso sensacionalista da história em quadrinhos para apresentar a notícia (foi justamente o emprego de histórias em quadrinhos coloridas que motivou o primeiro rotulamento de um jornal como sensacionalista, nos Estados Unidos, ainda no século XIX), quando um tema é apresentado de forma desproporcional, quando uma versão (no caso a de Roberto Jefferson) é assumida como verdade, sem ouvir o contraditório. Temos imprensa golpista quando a desproporcionalidade da representação atinge apenas um lado do espectro político, quando busca influenciar o comportamento das instituições.

O caso é grave, mas passará batido porque ninguém que tenha coragem de processar a Folha de São Paulo eficientemente tem dinheiro para isso, e a ausência de uma Lei de Imprensa torna impossível responsabilizar a mídia pelas irresponsabilidades que comete.

Uma rasa análise dos quadrinhos apresentados (para minha grande decepção assinados pelo cartunista Angeli, embora com um traço tosco que sugere alguma coisa) mostra o recurso a vários tipos de técnicas subliminares de deturpação da mensagem. Mas antes de falar do emprego de símbolos e arquétipos em lugar de argumentos, antes de falar de propaganda em vez de notícia, falemos do quadrinho inicial.

Logo no início a historinha apresenta o Brasil inteiro como uma vala de esgoto onde chafurdam personagens que se dividem entre a esperança («às vezes do lodo nasce uma flor de lótus») ao cinismo («mas em outras dali só sai mais lama mesmo»). Trata-se de uma generalização ofensiva, que deveria ofender a cada cidadão brasileiro de bem, a cada um que não seja um porco enfiando o focinho na lama em que ele mesmo defeca. Como não sou um destes porcos eu me senti ofendido. Mas o Facebook está cheio de gente que se sentiu homenageada. Não discutirei este mérito. Preferia que as pessoas votassem com suas carteiras. Eu votei com a minha há bastante tempo: não compro a Folha de São Paulo nem como embrulho de peixe na feira: peço para embrulharem no Meia Hora.


A primeira parte da história em quadrinhos se baseia exclusivamente na versão de Roberto Jefferson, que, diga-se de passagem, foi cassado porque, não conseguindo provar nada contra mais ninguém, acabou réu confesso de abuso do cargo de deputado (a posterior cassação de José Dirceu e a prosseguimento das investigações são um outro momento e obedecem a dinâmica diferente). Normalmente se deve ter certo ceticismo quanto à versão de um réu confesso, especialmente uma versão na qual tenta inocentar-se ou diminuir sua culpa. Não existem muitos culpados nas celas das prisões. Talvez haja mais «inocentes» atrás das grades do que fora delas. Portanto, ao basear-se exclusivamente na versão de Jefferson a Folha definitivamente não pratica bom jornalismo. Mesmo porque (e isto é espantoso, pois poderia servir até mesmo aos objetivos inconfessos do jornal) o depoimento do deputado fluminense foi apenas o estopim de uma longa investigação que certamente aperfeiçoou o conhecimento do caso. Limitar-se ao depoimento inicial é uma escolha incompreensível.

O segundo problema é uma contradição lógica inexplicada: se a Folha vê o Brasil, ou pelo menos o Congresso, como aquela pocilga imunda, como se fia na versão apresenta por um dos «porcos» e referendada por outros? Por que a versão de pessoas tão desprezíveis a ponto de serem postas na lama merece todo o crédito?

O terceiro problema é a contradição entre o texto e as imagens, e aqui ser revela deliberada desonestidade por parte de quem concebeu esta HQ (se me processarem, pago a pena mas não retiro a acusação). Desonestidade porque o texto é contido, comedido, faz questão de sempre dizer que «Jefferson disse», jogando toda a responsabilidade no colo do ex deputado. Se alguém meter um processo na Folha ela sempre poderá dizer que apenas reproduziu a versão dele. Mas as imagens não tem esse comedimento e nem essa continência. As imagens são claramente partidárias, persuasivas. Quem passar pela história dando pouca atenção ao texto ficará com uma impressão totalmente diversa da que teria alguém que lesse o texto isoladamente. As imagens têm força, elas atingem um nível subsconsciente de pensamento. A Folha fez esta HQ para influenciar semiletrados. Eles adoraram, tal como as crianças gostam dos livros ilustrados e com letras grandes. É preciso ganhar os corações dos semiletrados.

E o que estas imagens falam não é bonito. Empregam todo tipo de artimanha de propaganda para argumentar não verbalmente e levar o leitor a ter um sentimento difuso de rejeição ao «mensalão», mesmo antes de se chegar ao ponto em que a própria versão de Jefferson é posta para escanteio e parte-se para afirmações sequer referenciadas (mas histórias em quadrinhos, não custa lembrar, não têm referências bibliográficas). Cores escuras de plano de fundo servem para sugerir que as negociações foram feitas «na calada da noite», «nos porões», etc. O tipo de imagem conspiracionista que nos remete até mesmo aos Protocolos.

A manipulação inclui até mesmo mostrar o publicitário Duda Mendonça com um galo na mão, em um quadrinho sem legenda, antes de apresentá-lo como parte da história. Trata-se de uma referência ao obscuro episódio da rinha de galos em que Duda se envolveu (obscuro porque é um absurdo que algo proibido seja tão tolerado nesse país). Antes de mostrar Duda fazendo qualquer outra coisa, é preciso vinculá-lo a um caso vexaminoso e que tem certo apelo entre boa parte da população, que tem sentimentos ecológicos fofuchos embora navegue pelas ruas em carros beberrões de gasolina, entre outras coisas.

Particularmente difícil de engolir é a caricatura de Lula, que evoca os piores momentos desta arte, quando foi usada a serviço da propaganda política de regimes execrados pela História (inclusive regimes de esquerda, para que meus leitores reaças que chegaram até aqui não me acusem de ser parcial). Dotada de bem pouca semelhança com o rosto real do presidente (e assim quebrando uma marca da caricatura política), a figura apresentada tem todas as características de um vilão de história em quadrinhos em regimes totalitários. Completa com a animalização (figura hirsuta, feições de roedor) e os olhos vidrados de inimigo obcecado do povo.

Semelhante até no terno preto e no nariz proeminente, Lula é o Judeu Errante que lidera o cabal demoníaco que se insurge, do fundo do mar de lama, contra o país em crise.

Acredito que ao longo dos próximos dias terei refletido melhor sobre  o caso e talvez escreva mais. Por enquanto estas são as minhas regurgitações... Sintam-se à vontade para apedrejar.