O Manifesto-Pirraça da Direita Infantil

Ao acessar o Facebook na data de ontem, fui surpreendido por mais uma prova de que certos seguidores da nossa direita parecem comer capim (isso se não comem cocô mesmo). Trata-se de um texto tão inacreditável e tão tosco que eu ainda prefiro acreditar que é uma gozação que alguém escreveu para ridicularizar o pensamento direitista nacional. E se não for isso, por favor, não me contem. Comentarei o tal texto, mas partindo do pressuposto de que ele é uma trollagem.

O texto saiu no blog da UFSCON e logo a seguir foi reproduzido em outros focos virtuais de pensamento reacionário, como o “Direitas Já”. Se a aparente seriedade do blogue de onde saiu não bastasse para atestar que o texto foi escrito a sério, a republicação depõe seriamente contra a inteligência dos responsáveis pelas páginas que o repetiram.

O “Manifesto” é de João Victor Gasparino Silva, do curso de Relações Internacionais na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina, e contém um protesto contra a solicitação de um trabalho de pesquisa sobre Karl Marx, feita por um professor.

Direitista empedernido, o aluno se recusa a sequer tomar conhecimento da existência do marxismo e rejeita a pesquisa pedida. No manifesto, procura justificar porque não fez o trabalho.

São tantas as coisas erradas na atitude em si que é quase supérflua a análise do texto. A recusa em estudar um pensamento diverso do próprio já é motivo mais do que suficiente para classificar o aluno como obscurantista e intolerante. Mas tal impressão poderia ser evitada se o texto contivesse embasamento teórico e desenvolvesse uma argumentação sólida, em vez de uma reclamação imatura.

A análise é útil, porém, para compreender como funciona a propagação de uma ideologia de extrema direita em nosso país. Segue a transcrição comentada do “Manifesto”:

Como o senhor deve saber, eu repudio o filósofo Karl Marx e tudo o que ele representa e representou na história da humanidade, sendo um profundo exercício de resistência estomacal falar ou ouvir sobre ele por mais de meia hora.

Infelizmente para o enjoado reacinha, Karl Marx teve um papel fundamental no desenvolvimento da ciência econômica, das ideologias polí­ticas, das lutas sociais e da metodologia histórica. Mesmo que rejeitemos por alguma razão a validade de seu trabalho, é impossível ignorar o impacto que ele teve sobre a História contemporânea. Por isso, o nosso reacinha enjoado que trate de tomar um Engov e aprender tudo.

Os personagens históricos não deixam de ser importantes só porque nós não gostamos deles. A atitude do nosso reacinha é a de um menino pirracento que sempre teve satisfeitas todas as suas vontades e agora se sente no direito de decidir o que é ou não importante no currículo da própria faculdade onde estuda. Trata-se de um ato infantilidade tão gigantesca que os direitistas não imbecis (temos agora a oportunidade para saber quão poucos são) devem estar sentindo vergonha alheia pelo rapaz, que passou tremendo recibo de imaturidade. Se algum dia alguém mereceu ser qualificado de “moleque de apartamento, criado a leite de pera e ovomaltino” esse cara é o autor do texto.

Aproveito através deste trabalho, não para seguir as questões que o senhor estipulou para a turma, mas para expor de forma livre minha crítica ao marxismo, e suas ramificações e influências mundo afora.

A proposta até que é interessante. Uma crítica ao marxismo, se fundamentada, certamente mereceria uma boa nota, pois, para poder fazê-la, o aluno teria de estudar a obra de Marx e demonstrar que compreendeu-a tanto que conseguiu refutá-la.

Quero começar falando sobre a pressão psicológica que é, para uma pessoa defensora dos ideais liberais e democráticos, ter que falar sobre o teórico em questão de uma forma imparcial, sem fazer justiça com as próprias palavras.

O pirralho que nunca ouviu um “não” e sempre o papai lhe comprou tudo o que quis acha que é “pressão psicológica” ter de falar imparcialmente sobre um autor de que discorda. Que grande tragédia forçar um pobre coxinha a estudar uma ideologia de esquerda, isso deve ser pior que uma noite no pau de arara!

Infelizmente, por toda a vida, deparamo-nos com ideias ou pessoas de que discordamos. Não podemos fechar os olhos para essa realidade, não temos o poder de escolher o que queremos saber e estudar. Estudamos e aprendemos aquilo que é “necessário”.

Observem, ao final da citação acima, como o aluno se sente frustrado por não poder “fazer justiça com as próprias palavras”. Acredito que, se Marx já não estivesse morto há mais de 150 anos, o cara bem gostaria de matá-lo, e fazer justiça com as próprias mãos, ou pelo menos de xingá-lo, vilipendiá-lo, fazendo justiça com palavras. A impossibilidade do linchamento (literal ou verbal) de Karl Marx é a causa da “pressão psicológica” vivida pelo aluno reacinha.

Me é uma pressão terrível, escrever sobre Marx e sua ideologia nefasta, enquanto em nosso país o marxismo cultural, de Antonio Gramsci, encontra seu estágio mais avançado no mundo ocidental, vendo a cada dia, um governo comunista e autoritário rasgar a Constituição e destruir a democracia, sendo que foram estes os meios que chegaram ao poder, e até hoje se declararem como defensores supremos dos mesmos ideais, no Brasil.

A típica paranoia apocalíptica e hiperbólica do extremista de direita coxinha. Qualificar o nosso governo atual de comunista é prova de uma ignorância tão grande que somente esta frase já justificaria a reprovação do aluno. Afinal, ele não só desconhece o que é “comunismo” mas também não consegue uma análise coerente da situação política que tem diante de si.

Outros reflexos disso, a criminalidade descontrolada, a epidemia das drogas cujo consumo só cresce (São aliados das FARCs), a crise de valores morais, destruição do belo como alicerce da arte (funk e outras coisas), desrespeito aos mais velhos, etc. Tudo isso sintomas da revolução gramscista em curso no Brasil.

Aqui vemos um salto lógico (ou melhor, ilógico) de amplitude absurda. Se o trabalho era sobre a obra de Marx, por que o reacinha saltou tão rapidamente para o governo brasileiro atual, que de marxista só mantém uma leve tintura? Trazer o governo atual para um debate sobre a obra de Marx é uma apelação sem sentido, uma fuga ao tema.

Mas pelo menos esta fuga nos permite boas gargalhadas, ao percebermos que o idiota que escreveu este texto fantasia que o governo atual é o culpado por todas as mazelas que afligem nosso país. Da maneira como fala, fica parecendo até que não havia crime no Brasil antes de Lula, que o consumo de drogas era minúsculo, que o PT inventou o funk, que toda vez que alguém bate num velhinho é porque era petista, “coisas assim”. É verdade que os governos petistas desde 2002 não conseguiram resolver muitos de nossos problemas, mas atribuir-lhes culpa por tais problemas é algo que só se explica por muita ignorância ou pela deliberação de mentir.

A revolução leninista está para o estupro, assim como a gramscista está para a sedução, ou seja, se no passado o comunismo chegou ao poder através de uma revolução armada, hoje ele buscar chegar por dentro da sociedade, moldando os cidadãos para pensarem como socialistas, e assim tomar o poder.

À parte o fato de que nunca houve uma tomada de poder por meio de tal estratégia “gramscista”, o próprio conceito parece absurdo (e é), uma vez que seriam necessárias várias gerações para o pensamento revolucionário chegar a uma massa crítica. Ainda mais considerando a incrível eficiência de nossas escolas. Uma estratégia de tão longo prazo é tão ineficaz que os membros de qualquer grupo ou partido que a estivesse implementando estariam mortos ou muito velhos quando (e se) ela chegasse a ser bem sucedida. Esta estratégia assume, então, ares meio sobrenaturais, um quê de conspiração milenar, um jeitão meio óbvio de delírio das minhocas da cabeça de quem não sabe o que diz.

Fazem isso através da educação, o velho e ‘’bom’’ Paulo Freire, que chamam de “educação libertadora” ou “pedagogia do oprimido”, aplicando ao ensino, desde o infantil, a questão da luta de classes, sendo assim os brasileiros sofrem lavagem cerebral marxista desde os primeiros anos de vida.

Então os alunos do prézinho estudam a luta de classes. Os alunos das escolas estaduais paulistas (onde não se ensina mais História) também estudam luta de classes. Os alunos dos colégios religiosos idem. Pois todos são comunistas. Até a Igreja Católica é comunista.

Em nosso país, os meios culturais, acadêmicos, midiáticos e artísticos são monopolizados pela esquerda a [sic] meio século, na universidade é quase uma luta pela sobrevivência ser de direita.

Os jornais são de esquerda. A Globo é de esquerda. É tudo esquerda. Só temos jornais e emissoras de rádio e TV esquerdistas desde o golpe militar de 1964. Os generais derrubaram Jango e depois deram todos os canais de rádio e TV para os esquerdistas! Esse cara é um maluco.

Quanto à luta pela sobrevivência que ele enfrenta na faculdade, pouco se pode dizer, a não ser que realmente é uma inglória guerra a que se trava contra o conhecimento. Se o seu direitismo é baseado; como viu-se até agora; em ignorância, teimosia e preconceitos; realmente deve ser muito difícil protegê-los dos contínuos ataques da razão e do conhecimento. Em um ambiente um pouco mais “liberal” (um beco escuro à noite, por exemplo), talvez os nossos reacinhas virassem o jogo e eliminassem essa ameaça na base de muita porrada.

Agora gostaria de falar sobre as consequências físicas da ideologia marxista no mundo, as nações que sofreram sob regimes comunistas, todos eles genocidas, que apenas trouxeram miséria e morte para os > seus povos. O professor já sabe do ocorrido em países como URSS, China, Coréia do Norte, Romênia e Cuba, dentre outros, mas gostaria de falar sobre um caso específico, o Camboja, que tive o prazer de visitar em 2010.

À parte a simplificação grosseira (somente trouxeram miséria e morte) dos resultados das revoluções socialistas, o parágrafo é de uma empáfia raríssima. O aluno se mete a lecionar para o professor! E o pior, ainda pior, é que a lição provavelmente está fora do tema do trabalho encomendado (aparentemente, o “marxismo”).

Segue-se um relato bastante factual dos acontecimentos do Camboja nos anos 1970, governo do Khmer Vermelho. Só que este relato, além de ser um parêntese no raciocínio que o autor tentava (em vão) desenvolver, não está relacionado diretamente com o tema e resvala, perigosamente, no apelo emocional, como neste trecho:

Os castigos e formas de extermínio, mais uma vez preciso de uma resistência estomacal, incluíam lançar bebês recém-nascidos para o alto, e apanhá-los no ar, utilizando a baioneta do rifle, sim, isso mesmo, a baioneta contra um recém-nascido indefeso.

Por mais horrível que tenha sido o regime do Khmer Vermelho (e deve ter sido mesmo, pois ele causou uma diminuição de quase um quarto da população do país), essas atrocidades não afetam o valor da obra de Karl Marx nem minimamente, pois este nunca mandou, por exemplo, que soldados espetassem bebês em baionetas. Atribuir a Karl Marx a culpa pelos erros e crimes de regimes que se inspiraram nele, é atribuir à Bíblia a culpa por pregadores malucos, como Jim Jones e David Koresh.

Bem, com isto, acho que meu manifesto é suficiente, para expor meu repúdio ao simples citar de Marx e tudo o que ele representa.

Não obstante seu repúdio, a relevância de Marx continua a mesma, e se você quiser obter a nota terá de apresentar outro trabalho.

Diante de um mundo, e particularmente o Brasil, em que comunistas são ovacionados como os verdadeiros defensores dos pobres e da liberdade, me sinto obrigado a me manifestar dessa maneira, pois ele está aí ainda, assombrando este mundo sofrido.

O aluno poderia pelo menos ter se perguntado por que o comunismo conserva esta reputação, apesar de seus erros. Poderia ter obtido algumas respostas interessantes. Mas preferiu manter distância do tema, o que fez o seu texto ser raso, parecendo ser mais uma desculpa para não ter entregue o trabalho dentro do prazo.

Em seguida o aluno cita um suposto “decálogo de Lênin” que não existe (pelo menos não como um texto determinado). Mais uma vez ele se posta como professor, revelando uma mentalidade predeterminada, e mais uma vez o faz para difundir uma informação incorreta.

Depois da difusão inicial pelos canais alternativos, na internet, o texto chegou à grande mídia, sendo replicado pelo blogueiro Rodrigo Constantino, que escreve na Veja. Rodrigo, no entanto, possui um grau suficiente de honestidade intelectual e admite que o texto fica longe de ser mítico como a direita o julgou. Especificamente, Constantino admite o emprego de uma informação falsa, justamente o “decálogo de Lênin”:

O decálogo de Lênin, ainda que soe verdadeiro para quem conhece o leninismo, é falso até onde sei. O que não tira o mérito do manifesto.

Se o Constantino não estivesse tão interessado com a descoberta de um raro exemplo de texto direitista articulado que não resvala no neonazismo ou na escrotice pura e simples, poderia ter admitido outras das muitas falhas do texto, como emprego de evidência anedótica (quando o autor usa a viagem ao Camboja como “fonte”) e o fato de que o uso do “decálogo” (que é citado integralmente) tira, sim, o mérito do manifesto. Se os dados são viciados, o resultado é viciado. Boa parte das acusações feitas pelo autor ao marxismo podem derivar de textos, como o “decálogo”, que difundem desinformação. Então, o emprego de fontes tais sugere que a revolta do autor é causada pela sua seleção de textos inconfiáveis. Donde podemos concluir que o ferrenho antimarxismo exibido pelo autor se enraíza em informações distorcidas, contidas em textos apócrifos como o “decálogo”. E podemos concluir, então, que se o autor não sabe selecionar uma fonte legítima, um documento real, de uma fonte forjada, ele não tem nenhum comando da metodologia, e isso é uma bala de prata contra seu argumento: por isso eu disse desde lá no início que o “manifesto” depõe contra quem o escreveu.

Sim, contra quem o escreveu. A julgar por esse texto que divulgou, o Sr. João Victor Gasparino Silva não domina o discurso acadêmico com a proficiência necessária, não sabe diferenciar documentos legítimos de outros forjados, expressa opiniões engajadas que acompanham sua incapacidade de diferenciar entre a realidade e a invenção dos adversários do marxismo. Em vez de prestar um grande serviço à direita, este texto mostra um direitismo imaturo, pirracento, ignorante e, o que se mostra ainda mais surpreendente, oposto à hierarquia e sem respeito formal pelos ritos acadêmicos.

Quando a Justiça Odeia

Não é nenhuma novidade mais que estamos vivendo um processo intenso de radicalização, com o terreno do centro sendo gradualmente comprimido pelos extremismos e com os rituais da democracia sendo estuprados em nome de interesses pessoais. Isto inclui os partidos, que planejam golpes ou eternização no poder, passa pelas instituições da sociedade civil, que frequentemente se fundam na defesa de privilégios e na construção de barreiras contra o outro, e pervade a sociedade como um todo, que começa a regurgitar episódios de ódio contra minorias raciais, ideológicas ou comportamentais.

Quando, porém, alguma voz nos tenta convencer de que não é tão grave assim a doença de nossa democracia, eis que uma voz rouca ecoa de dentro das cavernas, um promotor público utiliza o Facebook para mandar um recado à polícia de choque para que reprima com violência uma manifestação popular pois ele se encarregaria de arquivar o inquérito contra os responsáveis:

Alguém poderia avisar à tropa de choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial.
Petista de merda. Filhos da puta. Vão fazer protesto na puta que os pariu… Que saudades da época em que esse tipo de coisa era resolvida [sic] com borrachada nas costas dos medras…

O ódio é incompatível com a justiça, isto é algo que nem seria necessário dizer. Infelizmente, o Brasil não só é um país onde tem feito falta enfatizar o óbvio — como as noções básicas de cidadania, direitos humanos, justiça, dignidade etc. — como é um país onde dizer o óbvio parece cada vez mais causa de escândalo. Quando o rei está nu, para evitar o escândalo, é necessário reagir com toda radicalidade diante de quem ameace dizer isso. Por isso, no Brasil de hoje, quem diz o óbvio costuma ser atacado com mais força do quem expressa o absurdo.

O que este promotor de justiça disse é absurdo, mas muita gente aplaude. Aplaude porque o ódio está na moda, especialmente entre os simpatizantes de forças políticas que vem sendo deixadas para trás pelo trem da história. Almejam descarrilar o futuro e, se possível, empurrar tudo de volta para trás. O reacionarismo precisa de muito ódio e violência, porque não é possível explicar racionalmente às pessoas porque elas devem abrir mão de tudo que tornou sua vida melhor nos últimos dez ou vinte ou trinta anos. O reacionarismo precisa subjugar porque não consegue convencer. Ele precisa de uma tropa de choque, e de um promotor previamente comprometido a arquivar os inquéritos contra os policiais que aceitem matar aqueles de quem o promotor discorda.

Cada dia que passa nós damos um passo rumo ao abismo. Episódios como esse nos mostram que o fundo do poço moral tem porão. Que não existem limites para a falta de ética, de cidadania e de responsabilidade. Quando um membro do judiciário exibe total descompromisso com a Lei, e mesmo com os princípios que norteiam a Lei, cabe perguntar como podemos confiar nessa justiça. Nessa justiça sem freios e sem controle externo, onde a punição para um discurso de ódio como esse se limita a uma “aposentadoria”.

Havia uma antiga piada contada por um amigo meu, estudante de Direito, segundo a qual a diferença entre um juiz e um advogado é que o advogado apenas acha que é Deus. Só uma piada de advogado, claro, mas esse promotor leva tudo isso muito a sério. Ele se arroga o direito de decidir sobre a vida e a morte de pessoas que não conhece, apenas porque simpatizam com um partido (isso segundo sua percepção, pois não há provas de que os manifestantes seriam exclusiva ou mesmo majoritariamente “petistas”). Se algum dia, em um curso de direito, houver a necessidade de exemplificar o que é “injustiça”, basta exibir o print dessa postagem desse promotor, que violou a constituição e se tornou um criminoso ao se tornar mandante de assassinatos (o fato de tais assassinatos não terem sido cometidos não diminuiu o fato de que ele os ordenou).

A continuidade deste promotor em seu cargo, após isso, é um estupro ao direito constitucional e uma cuspida na cara da sociedade. Principalmente porque, se ficar claro que um membro do judiciário pode cometer tal temeridade impunemente, a perspectiva é que, cada vez mais, as vozes das cavernas ousem berrar na cara do povo, especialmente do povo “petista” (ou seja, aqueles a quem os reacionários acusam de ser petistas) que eles não têm direitos.

O ovo da serpente já está no ninho. Resta saber se vamos ser tolerantes contra  a intolerância ou seremos capazes de mostrar organização para resistir ao desmonte da democracia por aqueles que têm saudades do tempo em que podiam dar “borrachadas” em quem protestava.

Já que Castro Alves não Está Vivo para Defender-se

Recente artigo de autoria da “psicóloga cristã” Marisa Lobo publicado no portal GospelMais procurou diminuir o peso das bobagens ditas a respeito da África pelo pastor e dublê de deputado Marco Feliciano. Já que as declarações do indivíduo são indefensáveis perante o bom senso (embora não perante a justiça que, neste país, tem apenas uma relação remota com tal conceito), é de se esperar que a autora tente encontrar autoridades para referendá-las. De preferência autoridades mortas, que não reclamarão de serem alistadas como guarda costas das ideias tramontanas do tartaruga.1

Buscar autoridades para apoiar algo que é uma bobagem óbvia não diminui o tamanho do erro do que foi dito, ainda mais quando, para justificar uma peruada dita a respeito de um tema científico (no caso também teológico) você evoca uma autoridade literária. Mas fica ainda mais injusto quando um pobre poeta do século XIX é sequestrado pelo discurso de intolerância, e justamente um poeta que dedicou sua vida a combater justamente o obscurantismo e o racismo! Que buscassem algum outro poeta eu não me importaria, pois houve vários outros, filhos de seu tempo, que não conseguiram elevar-se acima da turba. Mas Castro Alves!

Como pode a criatura evocar para a defesa de alguém que dá declarações racistas justamente os versos do poeta baiano, maior (talvez único grande) de nossos abolicionistas e autor de uma obra imortal justamente porque isenta dos preconceitos comuns ao século em que viveu? Um homem bem informado, à frente de seu tempo, que afrontou com sua vida e seu verso uma sociedade cruel, racista e conservadora, em nome de seus ideias e de seus amores.

Pode parecer inacreditável, mas a autora da peça de excremento linkada acima, tenta defender o discurso racista  do deputado argumentando que as mesmas coisas que Feliciano declarou, em momentos de verborreia desatada pelo deslumbramento dos holofotes, usando, principalmente, Castro Alves:

A literatura negra, e poemas como Vozes D’África, do Livro “Navio Negreiro” do poeta abolicionista Castro Alves (1896) provam que Marco Feliciano não é racista, apenas um afrodescendente que como outros poetas, descreveu sua história.

Uma tal declaração revela um grau tão profundo de ignorância generalizada sobre coisas que a pessoa obviamente deve ter estudado, que a única explicação possível é a da dissonância cognitiva: de fato Marisa sabe muito bem do que está falando, mas por razões afetivas e religiosas ela desenvolve teorias estapafúrdias para manter sob controle a constatação do absurdo. Em primeiro lugar, é uma bobagem (para ser educado) evocar uma obra literária, ainda mais um poema lírico, como autoridade em História. Mesmo que houvesse algum valor de conteúdo nessa obra, tal valor estaria condicionado a uma série de fatores interpretativos, os mesmos que nos dizem que nenhum documento é por si bastante para explicar um fato.

O erro metodológico cometido pela afirmativa acima citada é chamado de “abordagem reducionista” e já foi devidamente exorcizado pelos historiadores há mais de oitenta anos, exorcismo que começou com o marxismo e se completou (com louvor) com o desenvolvimento da “História das Mentalidades”. Segundo a abordagem positivista (que já era rejeitada no século XVIII por nomes como Edward Gibbon) os documentos contêm informações sobre fatos, e nenhum conhecimento que não seja documentado pode ser considerado como fato. Disso resulta um peso excessivo ao que está escrito, levando, nos casos de demência intelectual mais agudos, a conclusões reducionistas, como a de que os autores de documentos são sinceros até prova em contrário. Os historiadores mais racionais, desde bem antes de Marx, já tinham por princípio que os documentos devem ser confrontados. Uma consequência do destronamento da abordagem reducionista foi o início dos estudos históricos sobre os povos iletrados e a bem aventurada superação do uso da invenção da escrita como “marco inicial” da História.

Mas Marisa vai mais longe, ao afirmar que:

Citar a história da civilização humana em nenhum momento poderia ser motivo para atribuir a uma pessoa o rótulo de racista para disfarçar outros interesses sórdidos.

Obviamente Marisa considera a Bíblia um relato histórico inquestionável e que, portanto, qualquer coisa ali escrita é parte da história da civilização humana. Somente sob o prisma de um tratamento especial do texto bíblico esta afirmativa é aceitável pois, sem tal condicionante, nenhum documento, por mais alheio à realidade que seja, pode ser questionado em seu valor verdade, nem mesmo “Os Protocolos dos Sábios de Sião” (comprovadamente falsificado, inclusive com as confissões dos autores e com a “árvore genealógica” dos textos e ideias) ou “O Livro de Mórmom”.

Faço esta afirmativa para deixar bem claro a falácia em que Marisa incorre, ao considerar que um texto de sua preferência contém a verdade, enquanto outros textos discordantes não a contêm. As teses levantadas pela autora só fazem sentido se admitirmos previamente que a Bíblia tem tal valor. Mas isto é uma falácia formal (petitio principii), uma vez que o valor de uma afirmativa não pode ser condicionado pela prévia aceitação de outra afirmativa não provada.

Mas o mais engraçado dos efeitos colaterais do argumento é que a legitimação de Castro Alves como fonte histórica traz de contrabando vários fatores altamente problemáticos para o argumento de Marisa Lobo em defesa de Feliciano. Em primeiro lugar, o poeta baiano era, tal como seu ídolo Lord Byron, um ateu declarado — que só não se esforçava mais para exibir sua falta de fé porque a sociedade da época não permitia. Castro Alves viveu maritalmente com uma atriz de teatro (profissão que tinha, na época, um status equivalente ao de meretriz) mais velha e divorciada, um acinte para a sociedade de seu tempo, quase equivalente ao que o comportamento homossexual é para a sociedade de hoje. Além disso, em mais de um momento, usou seus versos para propor a abolição das religiões.

Mas o mais curioso é que, pelas teses aventadas pela psicóloga e dublê de crítica literária, Castro Alves deveria corroborar a origem bíblica da maldição africana, mas não é isso que ele faz. Ou Marisa nunca leu Castro Alves (provável, visto que a leitura das obras do poeta baiano é altamente salutar para o intelecto e o bom gosto) ou leu e não conseguiu enxergar, logo na segunda estrofe (para que não diga como desculpa que é um trechinho perdido lá no meio), que o poeta vincula a suposta maldição da África à mitologia grega:

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé!…
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé…

Não creio que Marisa Lobo seja devota dos deuses olímpicos. Mas, mesmo sem ser, ela deveria ter percebido, em uma leitura mais apressada, que Castro Alves, longe de aludir a uma maldição vergonhosa que pesa sobre a África, está, de fato, sugerindo que o continente sofre uma vingança ignominiosa da divindade por algo que fez de bom ao mundo.

Como sabem os que estudaram mitologia, Prometeu roubou dos deuses o fogo sagrado e ensinou aos homens o seu segredo. De posse do fogo os homens deixaram de ser animais indefesos perante a natureza (governada pelos deuses). Por causa disso, Zeus acorrentou Prometeu nas montanhas do Cáucaso e enviava toda semana a sua águia de estimação para devorar o fígado do herói. Desta forma, o benfeitor original da humanidade sofreu por milhares de anos (até ser libertado por Héracles) injustamente.

Neste magnífico trecho, o poeta baiano compara a África injuriada à figura de Prometeu. Elogio maior não pode haver ao mais injustiçado dos continentes: aqui está implícito o reconhecimento do papel da África na História, não apenas como berço da humanidade, mas também de uma das mais antigas e importantes civilizações. Se o sofrimento dessa África prometeica é uma maldição divina, a divindade responsável é um ser de infinita escrotidão, e não de infinita bondade. E claramente esse deus inicialmente não é Jeová, mas Zeus.

Em outro trecho o poema finalmente alude à maldição de Cã, de uma forma porém incompatível com  a narrativa bíblica. Pois, na sequência dos fatos narrados pelo poema, somente depois que a África acolheu Cã foi que “a Ciência desertou do Egito”. Não faria sentido, se Deus queria amaldiçoar a África, primeiro permitir que Egito florescesse para depois destruí-lo.

Combinadas, as duas citações se anulam em termos de autoridade, pois fica evidente que são usadas meramente como ilustração mitológica, como figura de retórica para dar carne às ideias do poeta. 

Mais à frente Castro Alves fulmina o cristianismo de uma forma tão inapelável que eu não entendo como Marisa Lobo ousa citar Vozes d'África para legitimar suas agressões verbais contra os povos africanos:

Cristo! Embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal…


É isso mesmo que você está lendo, caro leitor, o poeta, em uma estrofe só, afirma que a morte de Cristo foi em vão e que o seu sangue não lavou da fronte africana a mancha de seu suposto pecado. Esta afirmação é extremamente contundente, para os fins da argumentação da autora desse texto, porque havia diversos reinos cristianizados na África e eles não foram poupados do tráfico negreiro. Notadamente o Reino do Congo e a Abissínia. Se a razão das mazelas africanas estivesse em uma maldição “lavável” no sangue de Cristo, a Etiópia e a Eritreia, herdeiras da antiga Abissínia, deveriam ser países bem superiores em “bem aventurança” se comparados aos seus paupérrimos vizinhos. Na verdade, muito pelo contrário, os países menos miseráveis do continente são os de religião islâmica. Talvez Maomé tenha sido melhor nesse negócio de lavar maldições mitológicas…

A verdade é que o poeta, como legítimo ateu, não recorre à narrativa bíblica senão como uma cor mitológica para aumentar a expressividade de seu texto. E faz questão de deixar isso bem claro quando faz sua alusão a Cã ser precedida de outra alusão ao mito de Prometeu: são só dois mitos utilizados com finalidade alegórica, retórica, poética. Ver neles mais do que isso é simplesmente ignorância do que seja literatura (e nem vou falar de outras demonstrações de ignorância despejadas pela dita cuja).

Mas foi importante eu ter começado essa dissertação sobre a argumentação de Marisa Lobo porque me deu a oportunidade de encontrar, na leitura dOs Escravos diversos outros trechos que talvez a autora devesse ter lido, para construir sua tese de que o poeta baiano corrobora as lendas bíblicas. Porém, muito mais do que isso, os valores almejados pelo poeta, com os quais certamente concordo. Valores expressos em algumas das últimas estrofes do poema O Século, que começa com uma longa e desanimadora análise da política internacional da época e termina convocando os povos a um programa que em nada se assemelha com o reacionarismo obscurantista de certos setores da direita religiosa:

E vós, arcas do futuro,
Crisálidas do porvir,
Quando vosso braço ousado
Legislações construir,
Levantai um templo novo,
Porém não que esmague o povo,
Mas lhe seja o pedestal.
Que ao menino dê-se a escola,
Ao veterano — uma esmola...
A todos — luz e fanal!


Luz!... sim; que a criança é uma ave,
Cujo porvir tendes vós;
No sol — é uma águia arrojada,
Na sombra — um mocho feroz.
Libertai tribunas, prelos...
São fracos, mesquinhos elos...
Não calqueis o povo-rei!
Que este mar d'almas e peitos,
Com as vagas de seus direitos,
Virá partir-vos a lei.


Quebre-se o cetro do Papa,
Faça-se dele — uma cruz!
A púrpura sirva ao povo
Pra cobrir os ombros nus,
Que aos gritos do Niagara
— Sem escravos, — Guanabara
Se eleve ao fulgor dos sóis!
Banhem-se em luz os prostíbulos,
E das lascas dos patíbulos
Erga-se a estátua aos heróis!


Além de ateu, nestes versos o poeta se mostra exatamente um comunista, ou seja, o tipo de gente mais indicado para uma religiosa fundamentalista ter como ídolo! Observem que o poeta prevê o fim da religião: Levantai um templo novo, / Porém não que esmague o povo, / Mas lhe seja o pedestal. Este templo não é um templo religioso (observe a curiosa conjunção adversativa “porém” sugerindo que os templos a que o leitor estava acostumado eram do tipo que, sim, esmagava o povo). Em lugar dela, o homem deveria cultuar a si mesmo e às suas realizações (pois os novos templos seriam pedestais do povo). O programa político de Castro Alves incluía educação para todos (Que ao menino dê-se a escola), um sistema público de previdência social (Ao veterano — uma esmola) e até mesmo um programa de renda mínima (A todos — luz e fanal!). Este último aspecto ecoa de modo curioso a máxima marxista (“de todos segundo sua capacidade, a todos segundo sua necessidade”).

Nestes versos o poeta também defende as liberdades de expressão e de imprensa (Libertai tribunas, prelos), afirma que todo o poder emana do povo (povo-rei) e profetiza a Revolução contra os governos que não se submeterem a tal reinado (Que este mar d'almas e peitos, / Com as vagas de seus direitos, / Virá partir-vos a lei.) Não apenas o poeta propõe a derrubada do poder temporal dos reis, ele vai além e propõe a abolição do poder político da igreja:  
Quebre-se o cetro do Papa. Esse poema é do tipo que faria os bolcheviques salivarem. Uma tradução em russo teria se tornado muito popular na União Soviética.

Em suma, se considerarmos a obra e a vida do poeta baiano, nada está mais distante do fundamentalismo racista que Marisa Lobo defende, nada é mais avesso ao reacionarismo do tipo de religião cristã a que ela adere.

1 Diz um antigo ditado que quando vemos uma tartaruga no alto de um poste podemos ter várias dúvidas: como vai descer, como se equilibra lá, quanto tempo vai permanecer ali, se vai sobreviver à queda etc. Mas podemos ter uma certeza: ela não subiu até lá sozinha, mas foi posta lá.

O Trote como uma Expressão do Conservadorismo Social Brasileiro

Sempre fui contra o trote, e isso independe de ser trote machista, homofóbico ou o que seja. Minha análise é visceral: o trote é um instrumento de controle da ascensão social das classes oprimidas, originalmente concebido para uso direto das classes opressoras e posteriormente manipulado em seu nome pelos anteriormente aceitos, criando uma “cultura” continuísta deletéria a todos os valores que supostamente são praticados na vida acadêmica. E o trote brasileiro, como costuma acontecer por aqui com quase tudo, tem adquirido gradualmente um aspecto cada vez mais bestial.

Os trotes descendem das cerimônias iniciáticas das antigas religiões. Os gregos, por exemplo, tinham rituais que envolviam embebedar os neófitos e fazê-los participar de orgias (culto de Dioniso) e submeter os homens a provações físicas extremas (Olimpíadas) etc. A submissão dos jovens aos seus “mestres” (efebofilia) era proverbial. Embora não haja registros diretos disto, existem certos indícios de que certos cultos de mistérios incluíam o acasalamento de mulheres com animais (mito de Pasifaé, mito dos sátiros). Outros povos anteriores sempre tiveram seus rituais de iniciação, nem todos tão sistematizados quanto os gregos.

Não farei aqui um histórico detalhado dos ritos de iniciação antigos porque isto vai muito além dos objetivos modestíssimos desse artigo, que é uma breve reelaboração de um comentário deixado no blogue “Escreva, Lola, Escreva” em resposta a um artigo sobre os acontecimentos recentes durante o trote de início de ano na Universidade de São Carlos, no estado de São Paulo. Basta-me pincelar amplamente que existe uma relação de continuidade do trote universitário, criado na Idade Média, com os ritos de passagem dos povos antigos (alguns bastante dolorosos, como a circuncisão, uma espécie de “trote” imposto por certas religiões e costumes tribais).

A Igreja Católica aboliu os antigos cultos e suas práticas apenas gradual e nominalmente. No fundo, foram adaptados em festivais e ritos cristãos, mas continuaram existindo humilhações (como a raspagem do cabelo das noviças e os jejuns) e demonstrações públicas de estoicismo, como o andar sobre as brasas da fogueira de São João. Para os monges e freiras era pior, pois, de certa forma, era como se a vida religiosa fosse um trote para entrar na universidade de Deus.

Os alunos das primeiras universidades criaram suas iniciações para testar se os novos alunos eram “dignos” dos diplomas que ostentariam. Tal dignidade incluía certos valores morais, como a disposição de “fechar” com os valores do grupo (corporativismo). Isso era importante em uma época durante a qual os segredos de certas profissões eram heréticos e sua revelação poderia ensejar grandes perseguições contra seus praticantes (como de fato houve contra os fisiologistas pioneiros, por exemplo). Um dos meios de se evitar que o neófito eventualmente desse com a língua nos dentes era levá-lo a cometer um crime, acobertado pela irmandade. Caso futuramente ele não se mostrasse digno, sua participação seria revelada, destruindo sua reputação e provavelmente custando-lhe a vida. Estuprar camponesas ou cometer sacrilégios eram boas opções. Os maçons incluíam em seus ritos práticas e ícones notoriamente controversos, facilmente interpretáveis como satânicos, justamente para que, no caso de haver uma quebra de sigilo, todos os envolvidos serem inculpados (a Inquisição salvava a alma do arrependido, mas não o seu corpo).

Sobrevivem nos trotes universitários elementos desse trote original que buscava trazer a solidariedade pelo crime. Um bom exemplo é o Dia da Pendura praticado pelos futuros advogados. Em algumas faculdades, os calouros são instados a participar de um lauto jantar em determinado restaurante, sem pagar a conta. As más línguas dizem que é para que o futuro causídico aprenda desde cedo a apoderar-se do alheio… Os advogados que se ofendem com isso certamente não consideram que a maioria das pessoas chamaria isso de roubo. Maioria constituída pela totalidade da população menos os advogados.

O trote não sobrevive apenas no Brasil, mas em outros lugares ele mudou de figura ao longo do tempo, indo numa direção diferente. Nos Estados Unidos, por exemplo, o aluno entra em uma fraternidade para participar da vida social da universidade. Não ser membro de uma significa ser excluído. Nem todas as fraternidades têm prestígio igual. Algumas são patrocinadas por nomes famosos, ex membros seus. Algumas chegam a ter fama internacional, como a Skull and Bones, da Universidade de Yale, à qual pertenceu George W. Bush, presidente americano. Ao pertencer a uma fraternidade, secreta ou não, o aluno usufrui de sua “proteção” e de sua influência, não só durante o curso, mas em sua carreira posterior. Conseguir entrar para uma boa fraternidade abre portas, mesmo se o seu talento for pouco notável, o que explica que um homem como George W. Bush tenha chegado à presidência americana. Falhar em entrar para uma delas pode ser uma sentença de morte acadêmica: a constante pressão dos demais alunos pode dificultar as mais simples das tarefas quotidianas, prejudicando as horas de estudo, interferindo em experimentos ou até danificando manuscritos. Episódios que podem resultar em reações indisciplinadas, que prejudicam ainda mais o futuro profissional da vítima, manchada por um comportamento inadequado. Em um mundo no qual o sucesso a qualquer preço é exigido dos alunos, que estudam em universidades cada vez mais caras, isto explica que alguns percam a cabeça e usem de violência. Adicione à equação aquela típica facilidade americana para comprar armas e você tem explicação interessante para os tiroteios em escolas e universidades.

Lá como cá, porém, o trote é um instrumento de poder, que reflete estruturas de poder existentes dentro e fora do ambiente acadêmico. Em vez de selecionar neófitos confiáveis para proteger um segredo profissional, o trote hoje seleciona adeptos dispostos a aceitar o enquadramento social que lhes seja imposto, ensaiando assim o papel subalterno que se espera que estes futuros profissionais tenham ao saírem da graduação, pois no Brasil ainda impera mais o poder da grana sobre o poder do conhecimento, e não é incomum que o diplomado vá trabalhar sob as ordens de alguém que não possui graduação. Antigamente o coronel semi analfabeto tinha ao seu serviço o doutor advogado, o contador, o padre, o médico etc. Não era conveniente que esses profissionais tivessem uma atitude arrogante, deviam ser desde cedo treinados a ter a cabeça baixa. E abaixar cabeças é uma das funções do trote que, como a raspagem da cabeça dos recrutas, não tem finalidade prática a não ser a subjugação do ego.

Não é uma cena de filme pornográfico sadomasoquista

Porque os trotes quase sempre envolvem a “submissão” do calouro ao veterano, ensaio da submissão do profissional ao mercado. Para filhos dos milionários, o trote pode ser mais benigno, muitas vezes substituído por “dar festas” — uma espécie nada sutil de exibição do poderio econômico, que já qualifica o “festeiro” como alguém que é do grupo e que, por isso, não precisará ter a cabeça baixa na vida. Em outras épocas e países, os trotes foram usados também em questões nacionalistas. Estudantes galeses, por exemplo, seriam humilhados pilhados conversando em galês dentro das universidades britânicas. E isso foi parte importante na supressão da cultura galesa.

No Brasil, que costuma exarcebar o que outras culturas têm de ruim, o trote virou uma instituição, que choca a sociedade como um todo, em vez de ser só um segredo podre dentro dos portões das universidades. Aliás, nem poderia ser de outra forma, pois a maioria de nossas instituições de ensino mais antigas não goza da privacidade das americanas e nem de sua autonomia política. Então o trote deixa de ser algo que acontece dentro das “casas de fraternidade”, de forma não só tolerada, mas protegida pelo sistema. Deixa de ser uma “festinha” para a qual é fácil fechar os olhos, desde que se tenha o cuidado de não matar, mutilar nem engravidar ninguém, do tipo “se todos amanhecerem inteiros, então não aconteceu nada”. Ao sair para as ruas, o trote esfrega na cara do século XXI como nós ainda somos primitivos, e isso incomoda. Incomoda, mas continua.

O episódio mais recente na história dos trotes bestiais brasileiros aconteceu em São Carlos: incomodados com o protesto de um grupo de feministas contra a degradante submissão a que as calouras eram submetidas, um grupo de veteranos exibiu-lhes os seus genitais, atitude que, comportamentalmente falando, está um passo apenas acima de atirar excrementos. O que se expressa como machismo nesse caso reflete uma estrutura mais profunda de perpetuação de um sistema de “controle” da ascensão social, que envolve não só a opressão horizontal (misoginia e homofobia), mas também a opressão vertical (dita luta de classes).

Exibir os genitais é uma tentativa bizarra e infantil de mostrar “eu tenho e você não tem”, usando o pênis como um símbolo de poder. Alguém associará esse ato com as concepções arquetípicas de Jung, que nos lembram que tais símbolos são fálicos: lanças, espadas, vara, cetros, báculos, batutas, cassetetes. Não é à toa que existem palavras como “varão”. Esses atos, porém, não ocorrem de forma totalmente espontânea: são alimentados pela mídia manipuladora.

Dia desses, em um bate papo informal, dei-me conta de algo estranho, que certamente não é casual: vocês já repararam que desde o início das restrições à publicidade de bebidas alcoólicas a baixa música popular passou a investir no álcool como tema? A música sertaneja, por exemplo, nunca cessou, de 2006 para cá, de ter um sucesso mencionando cachaça. Houve casos mais escrotos que chegaram a mencionar marcas comerciais, como a música que Seu Jorge fez para a cachaça Sagatiba e um recente sucesso de funk-sertanejo mencionando a vodca Absolut. E isto simultaneamente à Lei Seca no trânsito e a grandes campanhas governamentais de combate ao alcoolismo. Será que isso é por acaso? Alguns dirão que letras sobre alcoolismo sempre existiram e sempre existirão, mas será que elas existiam em tal quantidade e apresentando-o de forma sempre tão positiva?

Dito isto a respeito do álcool, que pensar dos temas sexuais na música popular? Qual é o principal tema dos funks, sertanejos e outros? Nada é mais semelhante do que a figura troglodita de um machinho idiota balançando o pinto em cima de um trio elétrico do que as letras desse tipo rasteiro de música. E quem aqui acredita que a música popular é assim porque simplesmente os artistas e o povo “querem assim”? As pessoas aprenderam a querer isso porque é isso que lhes é dado desde a mais tenra idade através do rádio e da televisão e, recentemente, outros meios de comunicação mais novos.

Será que faz sentido pensarmos em lutar contra o machismo e a homofobia sem pensarmos em uma luta mais ampla contra as manipulações midiáticas que ecoam e amplificam esses sentidos primitivos? Acho que o inimigo é maior do que um grupo de alunos de uma universidade, mas é bom usá-los como exemplo, porque da mesma forma como se pode implantar a ideia da banalização do sexo através de uma música comercial manipulada, pode-se implantar a ideia do respeito ao próximo através de ações pontuais, mas consistentes. Está mais do que na hora de socializarmos esses episódios, deixar de vê-los como “problema da calourada”. Só porque já passamos por isso, não temos a obrigação de passar adiante a imbecilidade de que fomos vítimas ou partícipes.

O trote universitário, mesmo o tal “trote solidário”, precisa acabar. E digo que até o solidário precisa porque este nada mais é do que uma dourada pílula com o mesmo significado de rito de passagem imposto. E serve como cortina de fumaça para a perpetuação de relações impositivas que vão muito além das salas de aula.

Em Defesa do Indefensável, Novamente.

O site www.ceticismo.net (que usurpa o nome para difundir ignorância, preconceitos e desinformação) novamente passou dos limites do tolerável (se é que se pode tolerar estes elementos diuturnamente). A primeira vez tinha sido quando, sob o pretexto de atacar uma decisão equivocada da justiça, André cometeu injúria racial contra o povo cigano, episódio documentado aqui no Arapucas.


Desta vez o «André» partiu em defesa do colunista Walter Navarro, demitido do jornal mineiro O Tempo por ter escrito um verdadeiro libelo contra os índios guarani-kaiowá (e contra os indígenas em geral) e ter, de forma muito previsível, ofendido a sensibilidade dos leitores do jornal (pois, aparentemente, entre os mineiros ainda não se encontra nem tão difundido e nem tão arraigado o tipo de racismo hidrofóbico praticado por certos colunistas de outros estados da federação). Defender alguém pelo que escreve implica em defender também o que foi escrito, a menos que nos dediquemos a deixar bem claro a separação entre a defesa do homem e a defesa da obra, coisa que André não fez.

Quando digo que o André é um idiota eu me refiro ao sentido grego do termo: ele está focado exclusivamente em si, sentado no próprio rabo, e não tem uma compreensão do outro (ou da «alteridade», como diria um filósofo). Esta idiotia o leva à falta de empatia, que o impede de compreender as motivações de pessoas que estejam fora de seu contexto cultural imediato. Em suma, André é um provinciano (mesmo que seja urbano): ele mede o tamanho do mundo com a régua de sua ignorância.

Ignorância, aliás, que ele exibe, sem nenhuma vergonha, em mais de um parágrafo do texto. Aliás, parece que André a considera uma virtude, um tipo de «poder mental» que o capacita a desqualificar o que não entende. Quer um exemplo?

Bem, você nunca ouviu falar nessa tribo antes das notícias (inclusive esta aqui) e é bem provável que até depois do feriado já tenha esquecido.


Se André e seus leitores nunca ouviram falar dos guarani-kaiowá (em minúsculas, pois em português os nomes de etnias e povos são escritos assim), isto deveria lhes sugerir a necessidade de buscar esta informação antes de emitir opinião. Infelizmente não é assim que funciona o Ceticismo.net. Essa coisa de buscar informações antes de emitir opiniões é coisa de «esquerdista» e de «intelectualóide». Se eu  não conheço é porque é irrelevante, porque não presta.

O pior de tudo é que há muitas pessoas que repercutem esse discurso raso pela internet, não apenas concordando com ele, mas dizendo-se «cem por cento de acordo» (estar «cem por cento de acordo» com um texto é uma prova de falta de autonomia intelectual, porque dificilmente um texto coincide «cem por cento» com nossas opiniões, ideias e conhecimentos). Se você que me lê também achou que o André «mandou bem», isto é um sinal de que você também é ignorante, pois não conseguiu, com as informações que tinha, perceber as falácias e as bobagens outras ditas pelo André.

Digo «pior de tudo» porque já cheguei à conclusão de que o André está adotando a «postura da vaca» em relação a tudo isso (cagando e andando) porque tudo que quer é criar polêmica com base nas notícias mais comentadas do momento, a fim de atrair tráfego para ganhar dinheiro com os cliques em anúncios (algo não muito diferente do que eu faço aqui, só que eu procuro ser mais responsável e não espalhar nem preconceito, nem desinformação e nem coisas que eu reconheça como falsas). Ou seja: o André está oferecendo capim para quem gosta de capim, e está ganhando AdSense com isso. É imoral? Pode até ser, mas o pior não é que ele escreva, é que haja tanta gente receptiva isso, a ponto de ele ganhar dinheiro oferecendo esse feno.

Passemos agora a analisar o conteúdo propriamente dito do artigo do Ceticismo.net (aliás este termo vai para o glossário).

Bem, você nunca ouviu falar nessa tribo antes das notícias (inclusive esta aqui) e é bem provável que até depois do feriado já tenha esquecido.

O caso dos guaranis-kaiowá é conhecido pelo menos desde 1989 (quando a Rede Manchete fez um «Documento Especial: Televisão Verdade» sobre eles, aproveitando a onda da novela Pantanal. O caso atual não começou ontem, mas é o clímax de uma situação que começou há pelo menos um ano.

Mesmo que ninguém nunca tivesse ouvido falar do caso, porém, isto é irrelevante. Um povo não precisa estar na mídia para ter direitos. O direito não é afetado (ou não deveria ser, em um mundo ideal) nem pela popularidade e nem pelo poder de influência econômica das partes. Os guaranis estão reivindicando algo cuja justiça deve ser apreciada pela justiça, com base em informações e documentos, e não julgado por colunistas ignorantes do assunto. A lógica do André, porém, nos diz que se você não é famoso, então foda-se.

Gente se matando por causa da perda de terras é algo que eu acho estúpido.

Se eu quisesse ser realmente deselegante eu diria que o que «acham» de um tema as pessoas que se mostram ignorantes dele não merece nenhuma consideração. Aliás, pensando bem, eu quero ser deselegante sim, porque o Ceticismo.net merece: se você desconhece um assunto, o que você diz sobre ele não tem valor algum.

Digo mais: se você não conhece um tema, tudo que você «acha» sobre ele está errado, e todos que concordam com você são, no mínimo, tão ignorantes quanto você. Como pode alguém que usa o nome de Ceticismo.net não compreender que opiniões e conclusões precisam de embasamento em informações? É por isso que eu comecei esse artigo dizendo que o Ceticismo.net usurpa o nome.

Estúpido é julgar os atos de membros de uma cultura diferente da sua, sem sequer conhecer o que está acontecendo (visto que ele próprio admite nunca ter ovuido falar do caso). Estúpido é largar uma achologia desinformada. A lógica? Eu nunca ouvi falar disso, mas acho estúpido.

Entrou em cena um monte de gente sem muito o que fazer e resolveram protestar a favor de um bando de índios, cuja tribo não é muito diferente da tribo do Raoni ou mesmo do Touro Sentado.

Uma das primeiras arjumentações desqualificativas empregadas pelo André contra as pessoas de quem discorda é dizer que são pessoas «sem o que fazer». Pessoas sem o que fazer protestam em favor de índios. Pessoas sem o que fazer fazem greves. Pessoas sem o que fazer protestam contra guerras. Pessoas sem o que fazer exigem respeito aos seus direitos. Pessoas sem o que fazer, em suma, tentam mudar o mundo. Viva as pessoas que não têm o que fazer! Que menos gente no mundo esteja ocupada demais consigo que não tenha tempo de ocupar-se do outro!  Que bom que sobra a muita gente tempo suficiente para erguerem a cabeça das cangas e cochos que a vida lhes impõe, para olhar longe, pensar com mais discernimento e procurar melhorar o mundo.

De tudo, porém, o que menos entendo é de que forma a comparação do «bando de índios» com a tribo do Raoni ou a do Touro Sentado seria uma desqualificação. Raoni é um líder indígena respeitado até internacionalmente, mas talvez o André se incomode com o seu botoque (bem, eu jamais me poria um, mas a boca é do índio, e ele que faça dela o que quiser). Touro Sentado é um personagem histórico fascinante, heróico até. Só parece vilão sob a ótica do faroeste, que, aliás, também achava que índio bom era índio morto. Touro Sentado merece respeito, muito respeito. Aliás, vou acrescentar uma foto dele na barra lateral deste blogue.

Walter Navarro trabalhava no jornal «O Tempo», um jornal tão importante quanto… sei lá, nunca ouvi falar dele antes.

Novamente André medindo o mundo com a régua de sua ignorância. Se ele não conhece, então não é importante. O mundo gira em torno de seu umbigo. Muito prazer, senhor ignorante. «O Tempo» é o segundo maior jornal de Minas Gerais, depois do Estado de Minas e um poucochinho à frente do Hoje em Dia.

Em seguida André transcreve na íntegra o libelo de Walter Navarro contra os indígenas em geral, e contra os guarani-kaiowá em especial. Isto é bom, pois significa que o Ceticismo.net não pode alegar que defendeu a liberdade de expressão do autor, sem se ater ao conteúdo em si do que ele escreveu. Ao defender enfaticamente a liberdade de expressão do autor, sem dedicar uma linha de crítica sequer ao texto dele, o André está obviamente endossando, ou, no mínimo, não vendo motivo para crítica, naquilo que foi escrito. E me surpreenderia muito se o André tivesse alguma discordância, haja vista o que ele já escreveu, em outra oportunidade, contra os ciganos.

André novamente comete o mesmo erro do artigo contra os ciganos, ao julgar a dignidade (ou o direito à dignidade) de um povo com base em seu desenvolvimento tecnológico e/ou suas realizações culturais na História. A lógica disso é que se determinado povo não tem realizações significativas, então ele pode ser exterminado porque defendê-los é ser social-intelectualóide.

A defesa do artigo de Walter Navarro confunde liberdade de expressão (o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos) com liberdade de imprensa (capacidade de um indivíduo de publicar e acessar informação através de meios de comunicação em massa, sem interferência do estado). Todos sabemos que o primeiro deve ser ilimitado porque isto é um princípio basilar da democracia. Mas o segundo, não necessariamente.

A liberdade de expressão é um direito individual, que envolve um ato privado (ou de alcance limitado e controlável): você diz o que quer, para quem quer, onde quer. A liberdade de imprensa é um direito coletivo, que envolve um ato público. Direito coletivo porque quem tem o direito à liberdade de imprensa não é só o jornalista que escreve, mas o público que o lê. A publicação é um ato público (dããã) e de alcance ilimitado (no espaço e no tempo) e incontrolável (todos leem em todos os lugares, e tudo tem o potencial de ficar para a posteridade). Isso quer dizer que a palavra publicada, devido ao impacto que tem sobre outras pessoas e sua capacidade de influenciar a opinião pública, deve ser usada com responsabilidade.

Responsabilidade quer dizer que um meio de comunicação de massas não pode ser usado para difundir o ódio, ou corre-se o risco de produzir algo como o genocídio ruandês. Eu sei que o André ignora isso, aliás, eu não posso partir do pressuposto de que ele conheça qualquer coisa que esteja fora de seu pequeno mundinho, mas é fácil encontrar na internet informações sobre como o discurso do ódio contra os tutsi, iniciado por políticos demagogos, saiu do controle, contaminou a cultura popular, dominou os meios de comunicação de massa e gerou um clima irrestrito de ódio contra a minoria, a ponto de as estações de rádio e TV, no auge do evento, terem utilizado seu jornalismo para orientar o genocídio, informando sobre locais onde os refugiados se escondiam, caminhos que usavam para fugir etc., e ensinar técnicas para praticá-lo. Não sei se vocês notaram, mas eu nem precisei falar do III Reich para exemplificar como a liberdade de imprensa precisa ser exercida com responsabilidade! Godwin, Godloses!

De que forma podemos compactuar com um colunista que escreve que «índio bom é índio morto». Como defender alguém que diz isso? Se a liberdade de imprensa permite que isto seja dito, então melhor limitar a liberdade de imprensa, pois um direito (à liberdade de imprensa) não pode ser exercido à custa de todos os outros direitos (entre os quais o direito dos indígenas à vida, à liberdade e à dignidade enquanto seres humanos — direitos esses que precedem a liberdade de imprensa em importância). Absolutizar a liberdade de imprensa desta forma é uma coisa inexplicável, a não ser que você compactue com o que está sendo expresso e esteja protestando não contra a restrição em si, mas contra a repressão das ideias expressas.

Além disso, os jornais já praticam uma forma de censura, que é a de limitar seus textos aos que se alinham com o pensamento («linha editorial») dos donos. A linha editorial, obviamente, procura analisar o comportamento dos leitores, pois o jornal vende mais quando os agrada. Isso quer dizer que a suposta liberdade de imprensa (do jornalista) já se encontra restrita pelas determinações do patrão. Contra isso o Adnré não comenta nada. O Walter foi demitido pelos donos do jornal porque estes perceberam que o seu discurso reacionário e racista seria rejeitado pelo público leitor mineiro. Isso equivale a uma gravadora demitir um artista que não vende. Se o André achou a demissão um absurdo, que proteste com os donos do jornal «irrelevante». Só faltou culpar o «governo do PT» pela demissão.

Basicamente André ficou revoltado porque um colunista que escreveu um texto que ofendeu a muita gente foi demitido de seu jornal. O errado em sua defesa do Walter Navarro é ele justamente não compreender porque as pessoas se ofendem. A tal falta de empatia, gerada pela falta de noção de alteridade que mencionei lá no começo. Ele não compreende porque não se solidariza com a causa indígena. Ele não se solidariza porque não compreende como seres humanos aqueles que são diferentes de si, quer na aparência física quer na cultura. Ele não compreende porque é ignorante, fechado em seu mundinho urbanoide de kitchenettes, elevadores e automóveis. Ele é ignorante porque não busca conhecer culturas diferentes da sua.

No fundo o que ecoa de seu texto é um ódio às minorias que não tem jornal para se defenderem. Ele não compreende as razões da revolta dos mineiros contra o artigo de Walter Navarro porque não enxerga os indígenas como seres humanos, ao menos não como humanos semelhantes seus. Por isso ele não vê problemas em uma declaração como essa:

Como diriam o Marechal Rondon e os irmãos Villas Boas, “Índio bom é índio morto”! “Matar, se preciso for, morrer, nunca!”.

Obviamente Walter Navarro sabe quem disse a frase «índio bom é índio morto». Então quando ele a atribui ao Marechal Rondon ele está espalhando desinformação. E, obviamente, os comedores de capim em breve estarão difundindo no Facebook a frase com esta autoria alterada. Para você que não sabe, e não quer ser confundido com um herbívoro ungulado, o autor foi o general Phillip Sheridan, um dos maiores genocidas das guerras indígenas dos Estados Unidos. Responsável por vingar a morte de outro genocida, George Armstrong Custer. A atribuição equivocada da frase também aos irmãos Villas-Boas, que ainda estão vivos, pode ser objeto, inclusive, de ação penal por difamação. Mas Navarro conta com a imunidade da imprensa, que, no Brasil, tem a liberdade de demolir reputações impunemente.

O artigo original também é desinformado a respeito das origens dos topônimos tupis pelo Brasil afora:

Tudo em São Paulo tem nome de índio. Consciência pesada dos bandeirantes: Anhanguera, Ibirapuera, Canindé, Aricanduva, Morumbi, Jabaquara, Tucuruvi, Tatuapé e agora Haddad, da tribo dos Ali Babás… Ô raça!


Aparentemente nem Walter Navarro e nem o Ceticismo.net sabem (aliás, o tamanho do que o André não sabe é praticamente cósmico) que esses nomes não se devem à «consciência pesada» dos bandeirantes (que, diga-se de passagem, tinham menos remorsos de matar índios e escravizar do que o general Sheridan), mas ao fato (conhecido até de quem só lê os livros didáticos de história do Brasil) de que os habitantes de São Paulo, até pelo menos o terceiro quarto do século XVIII, falavam nheengatu (um dialeto tupi) em vez de português. Inclusive os bandeirantes. Isso explica a existência (ou até prevalência) de topônimos tupis pelo país afora, inclusive em regiões que não eram originalmente habitadas por tribos tupis, como Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Tocantins e o interior do Nordeste.

Walter Navarro ainda aproveita o artigo para dar uma passadinha em São Paulo e escrever isso para falar mal do PT:

É assim: Lula liga pro Zé Dirceu, que liga pro Gilberto Carvalho; daí pro Genoíno, que liga pro Marcos Valério, que liga pros presídios e manda matar o Celso Daniel; quer dizer, matar policiais e concorrentes, em troca de banho de sol, visita íntima e regalias mensais.

Isto é algo muito grave, porque é uma acusação séria e irresponsável. O Walter Navarro está acusando pessoas públicas, inclusive um ex presidente da república, de conspirarem com o crime organizado para matarem pessoas (200 só nestes últimos trinta dias na capital paulista) por razões políticas (obviamente). Não é o tipo de coisa que um jornalista, em um jornal sério, em um país sério, escreveria sem ter em mãos provas contundentes. Um jornalista americano que escrevesse isso sem ter provas seria não somente demitido como, provavelmente, terminaria atrás das grades ele mesmo. No entanto, a flacidez de nossas leis permitem que um colunista levianamente avente essa hipótese e saia impune (pelo menos o jornal o demitiu). Infelizmente parece que há entre nós uma tolerância com a mentira, a leviandade e as acusações infundadas, desde que em nome de uma boa causa. Isso transforma os debates de nossa imprensa em um duelo de ficções ideologicamente opostas, com predominância da ideologia direitista dos grandes empresários do setor. Como diria Raul Seixas (esta citação não é apócrifa): «Eu não preciso ler jornais / mentir sozinho eu sou capaz».

Ao acusar pessoas públicas de conspirarem para cometer crimes, Walter cometeu crime. É bom Walter ter provas de que é Lula que está mandando o PCC matar em são Paulo, porque se não pode ser processado por calúnia (ou algo assim, não sou advogado).

Outro parágrafo lindo do texto do Walter, que o André defende porque ecoa o mesmo tipo de racio símio empregado pelo Ceticismo.net no célebre artigo dos ciganos, é esse aqui:

Os guaranis kaiowá não passam de recolhedores de mel no meio do mato. É o povo mais primitivo do mundo, nem chegou à Idade da Pedra. Petistas “avant la lettre”! Comem cupim. Intimidam até malária! Pigmeus, parecem formigas gigantes e caracterizam-se pela insuportável pneumatose intestinal, o que faz deles companhia deveras desagradável.


Já que os guaranis são poucos e pobres, então podemos falar mal deles. Podemos dizer até que «parecem formigas» (desumanização) e que todos peidam fedendo (imagino que os peidos do Walter têm cheiro de Chanel nº 5). Se, como disse o Nihil Lemos, não existe racismo nenhum aí, então não existia racismo nenhum no Mein Kampf. Bem, tive de recorrer ao III Reich. Godwon!

As ideias de André e seu Ceticismo.net são muito mais reacionárias e chauvinistas do que parecem. De fato, se você olhar bem, notará que ele possui uma certa aversão ao direito e uma idolatria pela força bruta. Isso deve, aliás, ter um sentido mais profundo — que não vou explorar porque detesto o tal Godwin. Por enquanto apenas olhe a figura à esquerda e pense.

Mas a ideia da força bruta como legitimação de um argumento, ou como medida de valor, parece estar se popularizando na internet recentemente. O que não deixa de ser esperado, visto que might is right é uma ideologia fascista típica, e o fascismo anda em alta no mundo virtual recentemente.

Para André e seu Ceticismo.net, a força/poder empresta legitimidade e valor ao seu possuidor. Isso, claro, é um argumento irracional tão escroto que a usurpação do termo «ceticismo» pelo André se torna ainda mais evidente. Vejam só esta pérola:

Da mesma maneira, se eu disser que hebreus nunca foram expressivos em termos de civilização, a ponto de terem sido chutados para tudo que é canto na Palestina o século 6 A.E.C, não é racismo. Eles até desenvolveram boas tecnologias, mas não eram páreo para o Egito, Assíria e Babilônia.

Observe que o André está julgando as civilizações do Antigo Oriente Próximo com base em seu poderio militar e nas tecnologias que desenvolveram. O fato de os povos da Palestina terem inventado o alfabeto, graças ao qual esta anta está agora difundido merda pela internet, é irrelevante. Bom mesmo é pegar no tacape e amassar a moleira do inimigo. É como se o André, a exemplo dos marombeiros autores desta imagem, estivessem dividindo os povos entre «povos nerds» (que [só] inventam coisas intelectuais, como alfabetos, religiões, filosofia, sistemas éticos, ciências) e «povos sarados» (que [também] inventam coisas como armas, exércitos, guerras e afins). Como disse um marombeiro no Facebook, em reação a críticas feitas à imagem inclusa (correção gramatical e ortográfica aplicada):

Lógico que as pessoas que treinam possuem infinita vantagem sobre um nerd cabaço, e exatamente por isso cidadãos desse naipe deveriam respeitar quem treina, para preservar sua integridade física e moral. Ou então quem treina tem que se submeter à idiotas como esses? Não, pelo simples fato de poder mandá-los para a UTI.


Logicamente os hebreus (que, diga-se de passagem nunca foram tão numerosos) jamais seriam páreo para os egípcios ou os mesopotâmicos. A simples disponibilidade de água em abundância permitia que tais povos fossem mais populosos — e isso indicava uma prevalência militar na antiguidade, tanto quanto possuir mais músculos indica uma prevalência física no mundo de hoje, se você tirar armas de fogo da jogada. Mas o André julga os hebreus «menos expressivos em termos de civilização» do que os assírios, por exemplo, com base exclusivamente no fato de que os assírios exterminaram mais da metade dos poucos hebreus que havia em 722 a.C.

Essa idolatria fascista da força é o que justifica desumanizar e desqualificar os indígenas, que são poucos, não tem jornais e não tem armas de destruição em massa. É o que justifica propor seu extermínio, devido à sua irrelevância. Essa é a lógica egoísta e fascista que está se popularizando na internet, e que este blogue, humildemente, se propõe a combater.

Cotas Raciais e Racismo

Ontem tive a oportunidade de ser sabatinado no Facebook por alguns amigos virtuais que questionaram meu pensamento sobre as famigeradas quotas raciais criadas pelo atual governo (considero Dilma uma continuadora de Lula, então o «atual governo» começou em 2003). Dentre as muitas bobagens que disse, selecionei algumas mais elaboradas para compartilhar convosco…

«Cotas raciais existem apenas em sociedades racistas»: este deve ser o princípio de qualquer debate sobre o tema. Acho que assim fica melhor. Não se pode falar sobre o assunto sem abordar a questão da materialidade do racismo. Não vou cometer a ignomínia de dizer que ser contra cotas é ser racista, mas digamos que ser contra ou a favor das cotas envolve (não exclusivamente) o entendimento de que exista ou não racismo no Brasil. O outro elemento envolvido é a análise de natureza mais prática se as quotas são uma resposta adequada ao racismo que se crê existir (caso você conclua que ele existe).

Antes de chegarmos, porém, ao racismo, devemos passar pelo tema do chauvinismo, que é a crença de que uma determinada cultura seja superior a outra. O chauvinismo está muito próximo do nacionalismo e, de fato, muitos estados-nação europeus se construíram a partir desta complexa relação. Exemplo clássico é a França republicana, que impôs a langue d'oïl como único idioma oficial do estado, procurando ativamente suprimir línguas regionais. Outros países que adotaram políticas similares foram a Grã Bretanha, a Itália, a Grécia, a Turquia, a Alemanha, o Japão… e o Brasil (pelo menos desde Vargas). A supressão da língua é reconhecida internacionalmente como uma das formas de supressão do povo que a fala: roubando-lhe a língua, força-se a assimilação à maioria. A política linguística excludente procura sedimentar a nacionalidade. Somente estados «fracos» (como a Bélgica, a Tcheco-Eslováquia, a Finlândia e o Canadá) toleram a existência livre de línguas minoritárias, um desafio à cultura dominante. No Brasil, a supressão das línguas indígenas e africanas foi parte importante do processo de subjugação.

Mais do que forçar que uma minoria adote a língua da maioria, é necessário estigmatizar a influência do substrato linguístico, o que faz com que os povos assimilados pratiquem uma forma linguística mais conservadora e requintada (isso explica o florescimento de autores irlandeses e galeses entre o fim do século XIX e o começo do século XX). Quem não consegue obter essa chancela de pureza é discriminado ainda, no plano linguístico, como demonstra brilhantemente Marcos Bagno em sua obra «Preconceito Linguístico: o que é e como se faz», na qual explica que as variantes que padecem de desprestígio são justamente aquelas faladas pelos mestiços ou descendentes dos povos subjugados.

Mais do que meramente o preconceito linguístico, existiu no Brasil um preconceito materializado em múltiplas formas, um preconceito que tinha uma cara e tinha um alvo. A pobreza brasileira tem cor, e tem sotaque.

Infelizmente, não acredito que a política de cotas resolverá isso. Na verdade, parece que ela piorou tudo porque gerou um reacionarismo muito mais forte do que se podia supor. Era preciso algum tipo de ação afirmativa para equilibrar a balança em favor dos historicamente desfavorecidos, mas acho que o governo errou a mão nas quotas educacionais. E acho isso por quatro razões:

  • Não se tocou na criminosa ineficiência do nosso ensino público.

O ensino PRECISA ser em tempo integral, e precisa incluir duas línguas estrangeiras, música e esportes. Não se faz isso porque tocaria no grande negócio dos cursos de inglês nesse país, além do que, o ensino em tempo integral requereria mais estrutura física, professores com dedicação integral e outras coisas. Como nada disso se faz da noite para o dia, o governo preferiu a abordagem fast food e universalizou a precariedade.

  • Os quotistas não recebem nenhum preparo para se adequarem aos cursos, o que significa que as bolsas que recebem podem ser desperdiçadas devido a escolhas erradas.

Já que o governo vai investir em um jovem dando-lhe bolsa, seria necessário orientar esse jovem para que escolha um curso de acordo com a sua aptidão e a necessidade pública. O Brasil não precisa de tantos contadores, advogados ou pedagogos. Precisa de mais engenheiros, arquitetos, geógrafos, geólogos, químicos, médicos, enfermeiros etc. E uma vez que o governo pagou pela educação do sujeito, ele deveria ter que pagar por isso não com uma dívida a longo prazo, mas com dedicação ao serviço público. O estudante quotista deveria ser mandado para os lugares onde sua profissão faz falta, por exemplo. Médico do SUS por exemplo: quem que se forma na USP quer ir clinicar no interior do Amapá?

  • Parece estar havendo um rebaixamento da qualidade do ensino superior devido à dificuldade de elevação do padrão do ensino formativo.

Sobre este item muita gente já comentou bem. Vou citar o recente caso da greve como um episódio que pareceu destinado a quebrar a espinha do sindicalismo docente e preparar caminho para um aviltamento da carreira.

  • As quotas foram estabelecidas de acordo com o vago conceito de «raça» quando deveriam ter privilegiado grupos sociais geograficamente localizados.

Todo mundo sabe que o Brasil é um país miscigenado e que raramente algum de nós poderá exibir uma árvore genealógica isenta de antepassados indígenas ou africanos. Mais do que isso: a grande maioria dos que possuem fenótipo negro possuem antepassados brancos. Desta forma, uma classificação racial é muito complexa de se fazer, e falha. Eu acho bacana o governo construir IFETs nas regiões mais desassistidas do país. Isso sim é uma abordagem justa. Com uma massa crítica de gente bem formada, a região tende a atrair empresas ou os próprios formados iniciam seus negócios. Mesmo que alguns saiam para trabalhar longe, remeterão parte do dinheiro para a família. Da mesma forma, acho que vale mais a pena investir em educar o povo de uma área carente (uma favela por exemplo) do que selecionar por cor um negro que pode estar muito bem na zona sul. Acho que a Dilma tentou melhorar isso criando cotas sociais para o ensino público, mas não sei se vai funcionar.

É necessário ter muito cuidado, porém, com as críticas às quotas. Há críticas justas e outras nem tanto. Uma crítica apressada, que associe a oposição às quotas a um «racismo» é uma exibição gratuita de totalitarismo e culpa por associação que a esquerda não poderia cometer (mas comete, claro, desde Marx). Claro que existem setores da sociedade aos quais interessa a manutenção do status quo, e claro que estes setores são compostos majoritariamente por brancos (porque, a grosso modo, nosa elite é branca e nosso povo é preto).

Claro que isso não quer dizer que qualquer crítica seja motivada por racismo. Esta é a falácia da culpa por associação (ou «envenenamento da fonte»), que desqualifica opiniões aludindo a interesses escusos de quem as expressa. Isso é errado. Mas não muda o fato de que muitas (eu diria até a maioria) das críticas feitas às cotas são mesmo de cunho racista. Temos é que resistir a tentação de associar uma coisa com outra.

O que ocorre é que, tentando consertar o mundo a marreta, o governo acabou criando muita animosidade, que se revelou no reacionarismo mais agressivo e radical que chega a mandar matar nordestino ou a dizer que «tudo deveria ser privatizado e cada um use o que puder pagar». Essa agressividade existe porque o governo enfiou com força demais o dedo na ferida do racismo e da imobilidade social de que padece nossa sociedade, ainda presa a ranços de coronelismo, mas fingindo que é liberal inspirada em Ludwig von Mises para ter argumentos contra a distribuição de renda e qualquer política de redução de privilégios.

Um dos argumentos problemáticos envolve a oposição entre os descendentes de imigrantes europeus e os negros. Os primeiros se sentem ofendidos com a sugestão de que gozaram de «benefícios» negados aos negros e, para defender a própria dignidade, atacam os negros, juntando-se ao coro do racismo latente. Ocorre que tal acusação não é muito justa. Primeiro porque a maioria dos imigrantes que para cá vieram não tinha muita escolha: eram um bando de mortos de fome ou perseguidos políticos, que escaparam da cova imigrando para os trópicos. Segundo que a exclusão dos negros não foi obra deles, mas de quem os contratou.

Primeiro, eles herdaram os empregos que deveriam ser dos negros. Não só os empregos qualificados nas indústrias, para os quais teria sido necessário educar os negros, mas até os braçais. Os negros foram empurrados para os quilombos, as favelas, os subemprego, o desemprego, a criminalidade ou a dependência clientelista.

Depois herdaram a organização política popular, que eles, alfabetizados e educados, criaram através de partidos anarquistas e socialistas para defenderem seus direitos. Enquanto os negros, imersos na ignorância, demoraram em começar a criar consciência de classe.

Isso não é acusação. É fato histórico. O que se pretende reparar é justamente esta exclusão dos negros do processo histórico, que foi causada por uma política deliberada de «branqueamento» da população, que foi bastante bem sucedida a ponto de a proporção de brasileiros de pele clara ter subido de 40% para 54% entre 1900 e 2000, enquanto a de negros caiu de 14% para 5% (dados do IBGE). Uma política que, porém, ficou longe de dar vida mansa aos imigrantes.

Uma acusação comumente feita aos negros é a de que eles ficaram excluídos porque abandonaram as fazendas tão logo se viram libertados pela Lei Áurea. Duvido que os autores de tais acusações ficariam um dia a mais dentro da cadeia depois que fossem autorizados a sair. Para o escravo, o seu local de trabalho é uma prisão. O negro que «fugiu» da fazenda onde originalmente estava embengado estava experimentando a tal liberdade, a ver se existia mesmo. Queria um emprego em outro lugar, mas ninguém deu, pois todos queriam europeus branquinhos.

A política de branqueamento nunca foi praticada abertamente pelo govero. Era algo mais oficioso, sub reptício. Não houve medidas explícitas e sistemáticas de expulsão, mas casos em que os negros foram expulsos, de forma pontual, criando um padrão segundo o qual, sempre que começavam a incomodar em certo lugar eles eram reprimidos, forçados a fugir para outro, indefinidamente.

Desta forma, é bastante justo pensar em políticas de compensação para minorar o dano histórico que o Brasil de ontem causou aos antepassados dos que hoje formam o maior contingente de excluídos. Difícil, a esta altura, é acreditar que a estratégia adotada é a melhor possível.

Se a Propaganda Substitui a Notícia

Tomei conhecimento através do Facebook de uma matéria publicada neste domingo na Folha de São Paulo que me deixou profundamente revoltado. Trata-se da história em quadrinhos sobre o mensalão. Antes que meus leitores reaças me acusem (se ainda estão lendo) de estar apenas reagindo ao ataque às minhas crenças, esclareço que a revolta não é causada pela tese apre­sentada no texto, pelas acusações a certos políticos ou mesmo pela ideologia subjacente à iniciativa. Posso perfeita­mente enten­der e aceitar que existam pessoas que pensam diferente de mim, posso aceitar (mas não entender) que exista quem espose uma ide­ologia reacionária de direita. E posso perfeitamente tolerar que uma coisa e outra sejam difundidas pela impresa. O motivo de minha profunda revolta é muito outro.

Referida história em quadrinhos é um desrespeito ao leitor da Folha da São Paulo, mesmo àquele que é reacionário, odeia Lula e sonha em organizar uma Marcha da Família com Deus Pela Liberdade e iniciar outra Redentora. Trata-se de um tratamento condescendente e infantilizado do leitor, que é tratado como um débil mental pelo simples fato de um tema tão complexo ser tra­tado por uma história em quadrinhos, com as características desta, no contexto em que o foi. Lamento se você gostou e aplau­diu, você faz parte do público que a Folha procurou atingir, e em você ela acerto. Sinta-se «especial».

O caso é que a Folha de São Paulo se prestou a fazer o chamado «jornalismo marrom», a busca da audiência (ou da vendagem, no caso de um jornal) através da divulgação exagerada de notícias sem compromisso com a autenticidade. Embora meus leitores reaças não admitam isso, os mais esclarecidos perfeitamente entenderão a associação do mesmo episódio com a chamada «imprensa golpista», que é o uso da mídia como um instrumento de pressão (e enventualmente de conspiração) contra o governo. Temos jornalismo marrom quando se emprega o recurso sensacionalista da história em quadrinhos para apresentar a notícia (foi justamente o emprego de histórias em quadrinhos coloridas que motivou o primeiro rotulamento de um jornal como sensacionalista, nos Estados Unidos, ainda no século XIX), quando um tema é apresentado de forma desproporcional, quando uma versão (no caso a de Roberto Jefferson) é assumida como verdade, sem ouvir o contraditório. Temos imprensa golpista quando a desproporcionalidade da representação atinge apenas um lado do espectro político, quando busca influenciar o comportamento das instituições.

O caso é grave, mas passará batido porque ninguém que tenha coragem de processar a Folha de São Paulo eficientemente tem dinheiro para isso, e a ausência de uma Lei de Imprensa torna impossível responsabilizar a mídia pelas irresponsabilidades que comete.

Uma rasa análise dos quadrinhos apresentados (para minha grande decepção assinados pelo cartunista Angeli, embora com um traço tosco que sugere alguma coisa) mostra o recurso a vários tipos de técnicas subliminares de deturpação da mensagem. Mas antes de falar do emprego de símbolos e arquétipos em lugar de argumentos, antes de falar de propaganda em vez de notícia, falemos do quadrinho inicial.

Logo no início a historinha apresenta o Brasil inteiro como uma vala de esgoto onde chafurdam personagens que se dividem entre a esperança («às vezes do lodo nasce uma flor de lótus») ao cinismo («mas em outras dali só sai mais lama mesmo»). Trata-se de uma generalização ofensiva, que deveria ofender a cada cidadão brasileiro de bem, a cada um que não seja um porco enfiando o focinho na lama em que ele mesmo defeca. Como não sou um destes porcos eu me senti ofendido. Mas o Facebook está cheio de gente que se sentiu homenageada. Não discutirei este mérito. Preferia que as pessoas votassem com suas carteiras. Eu votei com a minha há bastante tempo: não compro a Folha de São Paulo nem como embrulho de peixe na feira: peço para embrulharem no Meia Hora.


A primeira parte da história em quadrinhos se baseia exclusivamente na versão de Roberto Jefferson, que, diga-se de passagem, foi cassado porque, não conseguindo provar nada contra mais ninguém, acabou réu confesso de abuso do cargo de deputado (a posterior cassação de José Dirceu e a prosseguimento das investigações são um outro momento e obedecem a dinâmica diferente). Normalmente se deve ter certo ceticismo quanto à versão de um réu confesso, especialmente uma versão na qual tenta inocentar-se ou diminuir sua culpa. Não existem muitos culpados nas celas das prisões. Talvez haja mais «inocentes» atrás das grades do que fora delas. Portanto, ao basear-se exclusivamente na versão de Jefferson a Folha definitivamente não pratica bom jornalismo. Mesmo porque (e isto é espantoso, pois poderia servir até mesmo aos objetivos inconfessos do jornal) o depoimento do deputado fluminense foi apenas o estopim de uma longa investigação que certamente aperfeiçoou o conhecimento do caso. Limitar-se ao depoimento inicial é uma escolha incompreensível.

O segundo problema é uma contradição lógica inexplicada: se a Folha vê o Brasil, ou pelo menos o Congresso, como aquela pocilga imunda, como se fia na versão apresenta por um dos «porcos» e referendada por outros? Por que a versão de pessoas tão desprezíveis a ponto de serem postas na lama merece todo o crédito?

O terceiro problema é a contradição entre o texto e as imagens, e aqui ser revela deliberada desonestidade por parte de quem concebeu esta HQ (se me processarem, pago a pena mas não retiro a acusação). Desonestidade porque o texto é contido, comedido, faz questão de sempre dizer que «Jefferson disse», jogando toda a responsabilidade no colo do ex deputado. Se alguém meter um processo na Folha ela sempre poderá dizer que apenas reproduziu a versão dele. Mas as imagens não tem esse comedimento e nem essa continência. As imagens são claramente partidárias, persuasivas. Quem passar pela história dando pouca atenção ao texto ficará com uma impressão totalmente diversa da que teria alguém que lesse o texto isoladamente. As imagens têm força, elas atingem um nível subsconsciente de pensamento. A Folha fez esta HQ para influenciar semiletrados. Eles adoraram, tal como as crianças gostam dos livros ilustrados e com letras grandes. É preciso ganhar os corações dos semiletrados.

E o que estas imagens falam não é bonito. Empregam todo tipo de artimanha de propaganda para argumentar não verbalmente e levar o leitor a ter um sentimento difuso de rejeição ao «mensalão», mesmo antes de se chegar ao ponto em que a própria versão de Jefferson é posta para escanteio e parte-se para afirmações sequer referenciadas (mas histórias em quadrinhos, não custa lembrar, não têm referências bibliográficas). Cores escuras de plano de fundo servem para sugerir que as negociações foram feitas «na calada da noite», «nos porões», etc. O tipo de imagem conspiracionista que nos remete até mesmo aos Protocolos.

A manipulação inclui até mesmo mostrar o publicitário Duda Mendonça com um galo na mão, em um quadrinho sem legenda, antes de apresentá-lo como parte da história. Trata-se de uma referência ao obscuro episódio da rinha de galos em que Duda se envolveu (obscuro porque é um absurdo que algo proibido seja tão tolerado nesse país). Antes de mostrar Duda fazendo qualquer outra coisa, é preciso vinculá-lo a um caso vexaminoso e que tem certo apelo entre boa parte da população, que tem sentimentos ecológicos fofuchos embora navegue pelas ruas em carros beberrões de gasolina, entre outras coisas.

Particularmente difícil de engolir é a caricatura de Lula, que evoca os piores momentos desta arte, quando foi usada a serviço da propaganda política de regimes execrados pela História (inclusive regimes de esquerda, para que meus leitores reaças que chegaram até aqui não me acusem de ser parcial). Dotada de bem pouca semelhança com o rosto real do presidente (e assim quebrando uma marca da caricatura política), a figura apresentada tem todas as características de um vilão de história em quadrinhos em regimes totalitários. Completa com a animalização (figura hirsuta, feições de roedor) e os olhos vidrados de inimigo obcecado do povo.

Semelhante até no terno preto e no nariz proeminente, Lula é o Judeu Errante que lidera o cabal demoníaco que se insurge, do fundo do mar de lama, contra o país em crise.

Acredito que ao longo dos próximos dias terei refletido melhor sobre  o caso e talvez escreva mais. Por enquanto estas são as minhas regurgitações... Sintam-se à vontade para apedrejar.

A Psicologia e a Homossexualidade: Uma Visão Leiga e Desinformada

Detesto fazer análises pseudo antropológicas. Mas há momentos em que língua coça com a ideia de que é necessário comentar alguma coisa quando percebemos a manifestação evidente daquilo que análises antropológicas anteriores afirmaram que aconteceria. Sempre que uma teoria científica se confirma na prática devemos entender isso como prova de força da teoria, e da própria ciência.

Refiro-me ao caso da psicóloga Marisa Lobo, declaradamente evangélica, que está sob ameaça de perder suas credenciais por oferecer «tratamento» para homossexuais. O Conselho Federal de Psicologia não considera a homossexualidade uma doença mental, ou mesmo um distúrbio de comportamento, e por isso não permite que os psicólogos façam esse tipo de tratamento. Quem insiste, como Marisa, é publicamente censurado e, em último caso, pode vir a ser expulso, perdendo o direito de clinicar. Se isso vier a ocorrer, Marisa não poderá mais exercer nenhuma atividade análoga à de psicóloga, sob pena de ser então processada por «exercício ilegal da medicina». Quem não é psicólogo e tenta curar homossexuais será, por sua vez, acusado de «charlatanismo» (inventar curas imaginárias para doenças também imaginárias).

O caso todo é muito espinhoso porque, em se tratando da alma humana, é, de fato, muito tênue a linha que separa a sanidade da insanidade, o normal do anormal, o aceitável do que é tabu. Essas definições são, em grande parte, culturais e não existe nenhuma ferramenta óbvia que permita discernir uma coisa da outra. Os profetas da Bíblia, por exemplo, seriam tratados de esquizofrenia se vivessem nos dias de hoje. Na época vitoriana a ansiedade da mulher era diagnosticada como uma doença, a «histeria», e o tratamento era a estimulação clitoriana, diligentemente aplicada por médicos, com o auxílio dos primeiros vibradores.

Ao ler, recentemente, a entrevista do psicólogo americano Robert Spitzer, maior responsável pela exclusão da homossexualidade da lista de «distúrbios» diagnosticados pela APA (o CRP americano) e recentemente envolvido em uma polêmica sobre a possibilidade de inversão da orientação sexual mediante tratamentos ambulatoriais e aconselhamento, pude ver o quanto foi nebuloso o processo que, finalmente, nos preveniu de absurdos como o tratamento a que foi submetido o cientista inglês Alan Turing, e que causou sua morte. Longe de haver um consenso científico objetivo, a exclusão pareceu mais uma medida nascida do bom senso:

A iniciativa provocou uma série de debates amargos, colocando Spitzer contra dois importantes psiquiatras influentes que não cediam. No final, a associação psiquiátrica ficou ao lado de Spitzer em 1973, decidindo remover a homossexualidade de seu manual e substituí-la pela alternativa dele, “transtorno de orientação sexual”, para identificar as pessoas cuja orientação sexual, gay ou hétero, lhes causava angústia.

Como se pode ver, não houve nenhuma pesquisa real sobre o tema: apenas um embate teórico (e certamente carregado de ideologia) que resultou no convencimento de um lado e no descrédito de outro. Não houve pesquisa de campo, não houve uma abordagem metodológica rigorosa. Apenas um comitê resolveu que a homossexualidade em si deixaria de ser considerada um transtorno. O termo «transtorno de orientação sexual» ainda continuou lá, mas definido como uma situação indiferente à orientação sexual, e concernente apenas à identificação do indivíduo com ela. Fica parecendo que a APA simplesmente teve que engolir (e com grande amargura) que não havia bases científicas para considerar como doença a homossexualidade. A remoção do diagnóstico foi mais um recuo do que um avanço: seus integrantes perceberam que seria muito difícil definir a homossexualidade em termos que permitissem uma abordagem terapêutica. Isso fica evidente neste trecho da entrevista:

Ele comparou a homossexualidade com outras condições definidas como transtornos, tais como depressão e dependência de álcool, e viu imediatamente que as últimas causavam angústia acentuada e dano, enquanto a homossexualidade frequentemente não.

Ocorre um fato interessante a esse respeito, porém. Se aceitarmos como válido o raciocínio de Spitzer, concluiremos que um louco feliz está são. Esta é, aliás, uma forma poética, concisa e ligeiramente deturpada de expressar o conceito central do movimento antimanicomial: loucos não precisam de tratamento a não ser para evitar que sofram ou façam aos outros sofrerem. Não se busca uma «cura» para a loucura, tal como não se busca para a homossexualidade. Os limites do normal e do anormal são difusos: podemos enxergar os extremos, mas no meio a diferença é mínima.

O movimento antimanicomial certamente tem seus extremos, mas é inegável perante um mínimo de racionalidade, que não há vantagem nenhuma em dopar, lobotomizar, encarcerar ou submeter a eletrochoques uma pessoa apenas p0r ela ter um comportamento diferente da norma. A esse respeito, aliás, não custa lembrar que a mesma APA que não considera a homossexualidade um transtorno passou, recentemente, a considerar o luto como sendo. Portanto, se você estiver residindo nos EUA e decidir prantear por meses ou anos a memória de um ente querido que faleceu, especialmente se você decidir não mais se casar após a viuvez, corre o risco de ser internado pela família e submetido a tratamento com antidepressivos. A indústria farmacêutica precisa faturar. Em outras épocas era quase uma falha de caráter a superação súbita do luto. No interior de Minas Gerais, onde vivo, casar-se menos de dois anos após ter enviuvado gera comentários: «já tinha amante, a falecida morreu de desgosto e ele nem esperou o cadáver esfriar para trazer a piranha para casa». Nos EUA, pela ótica da APA, é bom começar a paquerar em menos de um mês, ou os filhos poderão querer interditá-lo por senilidade.

Aonde quero chegar com todas estas tergiversações? Comecei falando de uma psicóloga que quer curar gays, falei sobre o homem que acabou com estas curas perante os órgãos oficiais da ciência e acabei mencionando o quão arbitrária é a chancela de um organismo como a APA para orientar o que é certo e errado. Devemos considerar algo normal ou anormal porque apenas está ou não está nos manuais de diagnóstico de uma entidade que decide quem é louco ou não é com base em discussões de comitê?

Não me parece muito cético e nem muito correto tomar como bíblia o que decide uma entidade como a APA. Não custa lembrar que houve uma época em que esta mesma entidade considerava a homossexualidade como uma doença e recomendava-se tratamento hormonal (como o que vitimou Alan Turing). Seria correto, então, seguir piamente o que a APA propunha?

Mas, se os manuais de entidades como a APA e o CRP devem ser tomados sempre com ceticismo e um grãozinho de sal, devemos concluir que um psicólogo tem o direito de agir como Marisa Lobo? Deste trecho para a frente eu aposto «duzentim» que os evangélicos falaciosos não vão citar quando disserem que um «blogueiro ateu critica CRP no caso Marisa Lobo».

Há três lados no caso Marisa Lobo, em minha opinião. Por qualquer dos três a atuação do CRP nem deveria ser necessária para indicar o erro da psicóloga. Assim como a polícia não é necessária para sabermos o que é crime, mas o é para nos protegermos dele, o CRP só entra em cena para tirar «das ruas» um profissional que é uma ameaça aos seus pacientes.

O primeiro lado (e o menos importante) é a questão do método científico. Por mais falacioso que tenha sido o processo que levou a APA a deixar de considerar a homossexualidade como desvio (e ele foi), cabe ao profissional consciencioso, diante do entendimento de que uma posição de que discordo não é sustentável empiricamente, buscar justamente obter para si a sustentação que seus opositores não têm. Ciência não é uma competição de quem joga merda em quem: se você vê um erro deve denunciá-lo com demonstrações, não com palavras ocas.

O segundo lado repousa sobre os direitos humanos. Esta consagrado nas constituições de todos os países democráticos que ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer coisa alguma, salvo determinação da lei. A observação clínica de Spitzer e de outros psicólogos americanos era que a homossexualidade não vinha acompanhada de dano ou angústia e que esta, quando presente, era provocada por fatores externos ao indivíduo (pressão da família ou da sociedade, medo de ser preso, agredido ou rejeitado etc.). Ora, se ser homossexual em si não é causa de nenhum problema ao «paciente», então por que criminalizar ou mesmo medicalizar a condição homossexual. Se os problemas do gay são causados pelo modo como a sociedade o vê, é preciso, ainda que isso seja utópico, mudar a sociedade. O erro está na sociedade. Infelizmente, porém, é típico do ser humano considerar como «bom senso» o caminho de menor resistência. Por isso é mais «fácil» mudar (ou eliminar) o indivíduo do que todo o resto do mundo.

O terceiro lado é o mais importante e o mais espinhoso. A condenação da homossexualidade tem cunho religioso, as resistências contra a eliminação do diagnóstico pela APA tiveram forte influência religiosa e sempre são os religiosos que se insurgem contra ela. O distúrbio trazido pela homossexualidade não é na vida dos homossexuais, mas na vida dos que não os aceitam porque um livro escrito há milhares de anos os condena. Este livro é parte da sociedade em que vivemos, é utópico propor que seja eliminado ou esquecido e as instituições que o promovem gozam de grande prestígio, apesar de historicamente terem se associado com a violência, a corrupção, a opressão e o obscurantismo e, para fins práticos, atuado como freio em todo e qualquer processo de progresso da humanidade. Estas religiões não veem o «ser homossexual» mas apenas o «ato homossexual». Esta separação entre o indivíduo e seus atos não é de cunho empírico, não vem de nenhuma experimentação, ela vem da combinação da ilusão do livre arbítrio, um de nossos ideais mais antigos, e de conceitos ultrapassados, como o criacionismo, que embute uma idealização de um universo rigidamente hierarquizado e categorizado, de forma que as exceções são vistas sempre como influências diabólicas na harmonia desejada pelo Criador.

Marisa Lobo, adepta de uma de tais religiões, comete, portanto, o erro imperdoável e indesculpável, de mesclar suas crenças, anteriores ao estudo da psicologia, e sua práxis profissional. Ela não discorda do CRP porque concluiu em seu trabalho que seja possível tratar a homossexualidade, ela se enfrenta com o CRP porque quer continuar usando sua condição de psicóloga licenciada para continuar difundindo suas ideias preconcebidas sobre o fenômeno da homossexualidade.

É difícil quantificar o quanto isso é inaceitável. Equivale a um pediatra receitar benzeduras para «vento virado», «espinhela caída», «aguamento», «mau olhado» ou coisa parecida. Equivale a um agrônomo que ainda recomenda fazer queimada.

Claro que Marisa tem o direito de crer no que quiser. Mas o CRP também tem o direito de só aceitar em seus quadros os profissionais que sigam sua linha de atuação. A sutil diferença, que determina quem tem a razão, é que Marisa não precisa ser psicóloga para crer no que deseja. Mas o CRP não pode ter Marisa em seus quadros se quiser conservar seu caráter isento e científico. Porque o que a Marisa faz não é ciência, é proselitismo. Então que a Marisa seja gentilmente expulsa e siga crendo no que quer.

Não lamentemos que perderá sua profissão, o seu «ganha pão». Ela tem grande futuro como pastora ou escrevendo sobre a «injustiça» que sofreu. E mesmo que tudo isso falhe, o que lhe venha a acontecer é fruto de suas escolhas. Ela poderia perfeitamente ter suas crenças religiosas e mantê-las de lado durante o exercício da profissão, tal como fazem os deputados da bancada evangélica.

Ceticismo em Crise: A Infinita Querela Entre as Ciências Formais, Naturais e Sociais

É um tanto difícil abordar este tema sem parecer que estou puxando a brasa para a minha própria sardinha porque, de fato, estou. Acredito que é necessário admitir isso honestamente desde o princípio para evitar que os leitores tenham uma compreensão errada do que virá a seguir. Infelizmente, esta honestidade de declarar explicitamente de onde vem e para onde vai está ausente na maior parte dos debates sobre ciência que acontecem na internet. Ali o que se vê é a tentativa de desqualificar o lado oposto de qualquer maneira e reivindicar para si o reinado da cocada preta.

As Ciências Sociais, sendo «irmãs mais jovens» da família científica, ainda não levadas tão a sério pelas demais ciências, já melhor estabelecidas na tradição. Além disso, pelo fato de terem o «poder» de construir ou explodir coisas e de matar ou salvar gente, as demais ciências parecem ter uma «superioridade evidente», que os seus adeptos tentam cristalizar desenvolvendo definições de ciência que favoreçam justamente essa posição de superioridade. Essa crendice serve de base para a desqualificação das Ciências Sociais, ainda mais porque ninguém explode nem constrói coisas com História, Psicologia, Sociologia, Antropologia, Linguística etc. Ainda há muita gente que acredita no mito da «objetividade» das Ciências Formais e na eficácia absoluta do «método científico», como o forista que afirmou: O método científico existe justamente para eliminar todo resquício de subjetividade.

Já falei aqui sobre o preconceito que as pessoas têm contra a Linguística. Duzentos e tantos anos «no mercado» e produzindo conhecimentos importantíssimos para a compreensão do mundo não foram suficientes para que esta ciência fosse respeitada: qualquer zé mané se sente à vontade para exibir sua idolatria pela gramática normativa e seu preconceito contra qualquer abor­dagem educacional científica, especialmente aquelas que reconhecem a existência dos falares regionais e/ou variações de prestígio. Mas a coisa vai mais longe: o mesmo preconceito se estende a todas as ciências sociais.

Como dito no começo, em parte isto se deve à juventude das Ciências Sociais (exceto da História que, no entanto, era considerada até relativamente há pouco tempo como uma espécie de Literatura). Em parte, porém, isto se deve a motivações ideológicas. Ao estudarmos uma realidade imper­feita — a sociedade — é natural que tenhamos de apresentar tais imperfeições nos resultados. Aqueles, porém, que se beneficiam das imperfeições não se beneficiam da exposição delas. Natural, portanto, que denunciem o caráter «subversivo» e «esquerdista» das Ciências Sociais para evitar que seus resultados definam prioridades políticas ou impactem no imaginário coletivo. A posição das Ciências Sociais não é ajudada pelo fato de tantos «esquerdistas» de fato terem se dedi­cado a elas, especialmente por causa do legado de Karl Marx. Por outro lado, é difícil saber se nesse caso as pessoas esquerdistas procuram as Ciências Sociais ou se é natural mover-se para a esquerda do espectro ideológico quando se conhece a realidade imperfeita da sociedade capitalista em que vivemos.

Seria aceitável tal atitude preconceituosa proveniente de alguém obviamente ignorante e incapaz de raciocínios abstratos. Mas na prática o que se verifica é que muito frequentemente as acusa­ções contra as Ciências Sociais partem de pessoas que aparentemente estudaram um pouco, pelo menos o estritamente necessário para saber quem foi Karl Popper, embora não o suficiente para se livrarem da concepção positivista, como na ilusão de que é possível conhecer exatamente «como a História é» (palavras tomadas de um forista no Facebook). Não podemos, então, pensar que tais acusações sejam fruto da mera ignorância e temos que avançar a tese de que envolvem um pensamento ideológico de direita e/ou um preconceito contra formas de pensar diferentes.

Em geral, pessoas que procuram desqualificar o caráter científico das Ciências Sociais, espe­cialmente da História, da Geografia Humana e da Sociologia, o fazem por discordarem de um difuso «marxismo» que imaginam ainda definir de forma intransigente toda esta área do conhe­ci­mento humano. Tipicamente estas desqualificações são precedidas ou vêm acompanhadas de críticas a Cuba ou menções às ditaduras comunistas, que são usadas como argumento contra uma abor­dagem metodológica de fatos sociais. A falácia do non sequitur deveria ser óbvia nestes casos, porém é mais fácil amestrar um rebanho de gatos do que convencer um direitista que os erros come­tidos por políticos simpáticos a uma ideologia não são argumentos contra análises influen­ciadas pela mesma ideologia. Se o argumentador for cristão, ele não verá, inclusive, nenhum pro­blema em insistir em uma visão cristã do mundo apesar das violências praticadas no passado em nome do cristianismo. A analogia entre os dois casos nunca será evidente o bastante.

Tal preconceito se cristaliza também por culpa dos próprios profissionais das áreas de Ciências Sociais, quando não «vestem a camisa» nem se embasam para defender sua posição e quando fazem trabalhos porcos baseados exclusivamente em fontes secundárias e opinativas para defen­der ridículas «pós graduações» de merda que só servem para angariar-lhes títulos em con­cursos públicos para subempregos municipais. Estas pessoas, que muitas vezes foram parar num curso de Letras, História ou Serviço Social por não terem preparo suficiente para obter uma vaga onde realmente queriam (um curso de Direito, Medicina ou Engenharia), não tendo realmente amor pelo que fazem, não se importam em contribuir para a melhora da imagem de sua profissão. Como o homem que casa com a amiga feia porque foi rejeitado na disputa pela beldade da classe, mas depois vive falando mal da esposa ou não lhe dá a atenção de que precisa. Às vezes, porém, esta frustração não impede que o indivíduo empregue sua posição enquanto estudante, licenciado, bacharel ou mestre em alguma ciência social para embasar um falso argumento de autoridade que ataca estas ciências, como o forista que disse: E, antes de você vir com a acusação de que tenho preconceito contra as Ciências Humanas, sou da área de Letras…

Mas, deixando de lado estas analogias machistas e autoflagelação, é preciso gritar pelos quatro mil alto-falantes que as Ciências Sociais são ciências (até Popper admitia isso) e que sua desqualificação é um ataque falacioso, motivado ideologicamente. Falacioso porque se baseia em exigir delas que sejam capazes de cumprir tarefas para as quais não são adequadas. Não se julga o golfinho por sua capacidade de escalar árvores, tal como não se pode rebaixar as Ciências Sociais por não construírem nem explodirem coisas, como fez o forista que comentou: Um computador não pode ser construído com base em estudos de Ciências Humanas. Assim, não foram elas que ajudaram a criar as vacinas, por exemplo. Diante deste tipo de argumento, é dever de todo aquele que possui uma formação na área de Humanas defender-se deste tipo de abuso. A defesa não deve se basear em argumentos de autoridade, mas na própria lógica formal, que está de nosso lado de várias maneiras:

As Ciências Sociais não são abstrações. Elas procuram estudar fatos que realmente aconteceram. Sua limitação reside na impossibilidade de conhecer com plena exatidão todos os fatos, devido à precariedade dos registros ou a impossibilidade de verificar in loco os fatos deduzidos a partir dos dados parciais. Neste caso, é útil apontar que esta limitação é a mesma que afeta ciências como a Paleontologia, a Arqueologia e a Cosmologia, bem como ramos importantes de outras ciências, como a Taxonomia.

O fato de haver discordância entre vários autores quanto à interpretação dos dados conhecidos não é privativo das Ciências Sociais. Temos exemplos em outros ramos do conhecimento de teorias conflitantes, até mutuamente excludentes, ou baseadas em pura especulação. Pode ser interessante citar aqui a dificuldade para se harmonizar a Teoria da Evolução com a classificação taxonômica dos animais, o que só foi possível com o desenvolvimento da Genética e da Microbiologia, graças as quais se pôde detectar que a divisão da vida em dois «reinos» era uma arbitrariedade e descobrir relações entre espécies que não se baseavam apenas na aparência, dando origem à «síntese moderna» da Teoria da Evolução. A diferença em relação à História reside unicamente em que não temos a esperança de encontrar dados suficientes para dirimir todas as dúvidas persistentes. Então, a consequência disso é que teremos de conviver, em muitos casos, com interpretações vagas ou explicações parciais. Estas divergências ou incompletudes não invalidam as Ciências Sociais porque o objeto do conhecimento é real, embora conhecido de forma parcial. Não se pode comparar, por exemplo, a História com Ufologia ou Criptozoologia, por exemplo, que obviamente são pseudociências, pois procuram justificar a própria existência provando a realidade daqueles que seriam seus objetos de estudo: a humanidade existe e tem um passado, não é necessário provar isso.

O problema metodológico reside na suposta não falseabilidade do conjunto teórico dos postulados das ciências sociais. Entretanto, dentro de tal conjunto existem postulados que foram falseados com sucesso: sabemos, por exemplo, que determinado sítio arqueológico foi ocupado há tantos milhares de anos com base na análise por estratigrafia, carbono-14 ou decifração epigráfica. Podem haver aspectos controversos na interpretação dos dados, mas é inegável, por exemplo, que o sítio de Jericó foi habitado desde há cerca de 10 mil anos e que realmente os cruzados europeus estiveram na Palestina medieval. Outras ciências também possuem aspectos controversos entre seus postulados. Na Astrofísica, por exemplo, a «Teoria das Cordas» ainda não é considerada seriamente por todos os acadêmicos. No máximo, admitem que ela é um «modelo teórico promissor» para harmonizar a Física Quântica com a Teoria da Relatividade, mas que ainda precisa de comprovação. Ninguém em sã consciência diria que a Astrofísica é uma «balela» por causa de precariedade da «Teoria das Cordas», mas há quem considere a História uma «balela» só porque existem explicações diferentes para as causas da queda do Império Romano, por exemplo.

O mais curioso é que podemos concluir estas observações notando que o comportamento destas pessoas em relação às Ciências Sociais é análogo ao dos criacionistas. Tal como o cria­cionista rejeita em bloco toda uma gama de fatos e teorias no âmbito da Biologia, por não con­cor­darem com a conclusão a que apontam, o «objetivista-direitista» moderno rejeita em bloco toda uma série de campos de conhecimento, as «Ciências Sociais», com base em suas concepções equi­vocadas e positivistas do método científico e na rejeição das consequências de tais estudos por razões ideológicas. O criacionista não pode aceitar a Biologia porque ela invalida sua crença na inerrância do livro sagrado. A atitude dos que rejeitam as «Ciências Sociais» enquanto ciên­cias é mais matizada, havendo os que o fazem por serem adeptos de uma crença ingênua na objeti­vi­dade científica, os que o fazem por seguirem uma ideologia política direitista e os que o fazem por uma interpretação utilitarista do conhecimento. Para os primeiros, as inter­pretações feitas pelos cientistas sociais não são científicas porque procuram ir além dos dados; para os segundos, as ciências sociais são «comunistas» (ou algo assim) porque criticam o capitalismo, a sociedade de classes e os construtos ideológicos nos quais se assenta a ideologia predominante e difundida pelos meios de comunicação de massa; para os terceiros as Ciências Sociais não são ciência porque não podem criar nem explodir coisas.

Por mais ofensiva que esta analogia seja (afinal, nem mesmo os criacionistas aceitam mais serem chamados de criacionistas, tendo desenvolvido todo um sistema de argumentação em torno do conceito do desígnio inteligente a fim de não terem que afirmar abertamente suas motivações religiosas), é necessário apresentá-la, para que os envolvidos percebam que não se pode, a priori, negar a legitimidade de um ramo do conhecimento apenas porque não concordamos com seus postulados. Espero que este artigo tenha contribuído com algo neste sentido.

Ceticismo Enxovalhado Pelo Preconceito

O uso do termo “cético” tem sido muito banalizado nos últimos tempos. Não me admira que haja quem reaja com horror diante das opiniões expressar por algumas pessoas que empregam o termo. Sou uma de tais pessoas, desde que detectei que o “movimento ateu” estava sendo inflado por um número expressivo de participantes que só poderiam ser descritos em termos depreciativos, pois desonram as categorias em que pretendem inscrever-se. 

Pode parecer exagerado dizer tal coisa, mas há pessoas assim. Desonram o ceticismo quando aderem de forma ideológica a tradições ou opiniões, muitas vezes rasas e preconceituosas. Desonram a filosofia quando empregam falácias para defender suas opiniões e rejeitam correções. Desonram a esquerda quando se transformam em microditadores de seus espaços virtuais. Desonram o ateísmo quando reduzem-no à “crença na inexistência” de um conceito que sequer pôde ser definido de maneira coerente pelos seus proponentes. Desonram o agnosticismo quando o empregam como se fosse a concessão do benefício da dúvida quanto à existência de uma divindade curiosamente parecida com o Velho Barbudo do Céu. Não basta, não basta jamais, dizer-se algo. É preciso ser.

Todos os movimentos sofrem com essa crise de identidade quando começam a ganhar corpo. Há uma diferença importante entre crescer, inflar e inchar. Por isso não é de estranhar que o  “movimento ateu” se veja diante de uma multiplicação de blogues e sites de associações, clubes e conciliábulos diversos. Não me parece que haja no país bastante gente capaz de produzir conteúdo de qualidade, na frequência e no volume suficiente para alimentar tanto veículo faminto.

Imagem: Álbum de Justin McWilliams

A blogosfera ateísta está se tornando mais ruidosa, mais radical, mais intolerante e menos interessante. Ainda mais difícil se torna a situação quando notamos que as vozes que tentam produzir um conteúdo de qualidade, ou pelo menos matizado e menos raso, acabam sendo vítimas de “expurgos” ideológicos que lembram a fase mais vergonhosa dos totalitarismos. Aquela fase na qual os ideólogos que pensavam no poder como uma ferramenta de transformação são postos na cadeia, ou em covas, e os “pragmáticos” tomam o controle da revolução. Pragmático é, essencialmente, um sujeito que não pensa em objetivos, a não ser como concessões necessárias para justificar o seu poder.

Certas coisas me espantam. Mas poucas coisas me espantam mais quanto um cético preconceituoso. São coisas que absolutamente não se casam. Como pode alguém que se diz “cético” aderir acriticamente a preconceitos, especialmente, note bem, especialmente, a preconceitos que têm sua origem na religião?

O “cético” esperneará dizendo que não é um preconceito, mas uma opinião refletida, que, apenas casualmente, confere com oito séculos de discriminação e bullying contra certa minoria. O “cético” ignorante não conhece as raízes dos próprios preconceitos — e é por isso que não consegue entendê-los como tal. Os “pragmáticos” não ligam para isso: o importante é engrossar as fileiras, é fazer barulho, é marcar presença. Então aceitam o tacape do bárbaro porque ele intimida mais que a palavra do professor. O “movimento ateu” brasileiro se “monoteiza” (em breve publicarei aqui um estudo sobre isso) e migra à direita. Os “pragmáticos” rejeitam a utopia revolucionária: não vale a pena lutar por algo difícil ou impossível, é melhor perfumar a merda que temos.

Estes comentários servem-me de introdução para o que direi a respeito de uma publicação feita por um conhecido site da blogosfera ateísta brasileira, o www.ceticismo.net. Nela um autor identificado como “André”, aparentemente colunista regular, tece uma série de comentários sobre o recente caso de um processo movido, através do Ministério Público Federal, na cidade de Uberlândia, Minas Gerais, por um cidadão de etnia cigana, contra a Editora Objetiva, que publica o Dicionário Houaiss, em razão de duas das oito acepções do vocábulo “cigano” serem, supostamente, ofensivas à nação cigana. Não darei detalhes do caso porque a notícia pode ser achada facilmente na rede, pesquisando-se por “Houaiss cigano”.

Acho importante ressaltar que considero a ação um absurdo jurídico, uma tentativa de cerceamento do conhecimento, algo quase equivalente à queima dos arquivos sobre a escravidão, levada a efeito por Rui Barbosa, curiosamente também jurista. Tendo estabelecido que sou contra a supressão das definições do Houaiss, espero evitar o desgosto de receber comentários idiotas de pessoas que dirão que as minhas considerações a seguir estão cheias de “politicamente correto” ou absurdos semelhantes. Posso, então, comentar o que foi escrito a respeito, no www.ceticismo.net.

No artigo em questão temos um desfile de linguagem provocativa, sucessivas rajadas verbais que beiram o chulo e raciocínios primários. Trata-se do estilo consagrado pelos brucutus da imprensa semifascista, o estilo Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo, para quem “liberdade de expressão” é o direito de atacar insistentemente a honra de pessoas públicas com acusações dúbias ou difamações, até ser processado e posar de Líbero Badaró para uma platéia que nem sabe quem foi esse cara (uma dica: alguém que merece ser mais lembrado). O estilo de “André” já desfilou anteriormente pelo mesmo site em pérolas “céticas” com títulos como: “Pesquisadores” ainda enchem o saco com túmulo que dizem provar que Jesus ressuscitou e Salém revisitado: Hóstia da lata faz senhoras surtarem e atacarem padre. Nunca havia lido nada do autor porque este estilo de escrever pouco me interessa, isso é capim para consumo de gente que engole sem pensar aquilo que lê. Pessoas que acreditam em tudo que se lê na Internet; se foi escrito por alguém que se diz “ateu”, “cético” ou “cientista”; mas reagem com “moderação” quando os comentários da artigo começam a indicar que alguma criança viu que o rei estava nu. Porém, como esse artigo me foi indicado pelo Nihil Lemos, um dos poucos blogueiros de direita que me impõem respeito, resolvi ler. E tendo lido, me vejo forçado a comentar.

O artigo começa com uma grosseria ignominiosa, mas não inominável: “Se tem duas coisas que realmente infinitas é a ignorância boçal das pessoas e a estúpida ideia que querer aparecer.” Nesta oração tão curta provavelmente há mais problemas, gramaticais e lógicos, do que seria aceitável em alguém que se diz “cético”. Além da lamentável falha de concordância entre o sujeito e o verbo (“duas coisas … é”) existe uma falácia ainda mais elementar: acusar as pessoas envolvidas no processo, que ainda nem fora mencionado, de serem ignorantes boçais e estúpidos que só querem aparecer. As palavras procuram intimidar: uma pessoa pouco confiante não teria coragem de discordar e enfrentar o dilema de, possivelmente, também ser boçal ignorante ou um estúpido que só quer aparecer. Uma análise lógica do texto já poderia parar nessa frase. Porque não há muito que se possa de esperar de quem começa um comentário com um ad hominem desse tamanho.

No segundo parágrafo o autor, ainda lutando contra os verbos (e perdendo), detecta no episódio “um acicate a qualquer meio, veículo e/ou instrumento de educação, ensino e aprendizagem.” Embora esteja analisando um caso pontual, um processo contra o Dicionário Houaiss, o autor vê nele um fenômeno muito mais abrangente, chegando a aludir, obliquamente, ao romance Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, no qual o estado determinava a queima de todos os livros. Para este “cético”, o fato de estar em questão o conteúdo de um livro é um perigoso precedente que pode levar à destruição de todos os outros. Mais ou menos o que sugere o pregador fundamentalista quando diz que, se tolerarmos os gays, logo teremos de tolerar necrófilos, zoófilos e pedófilos também.

Acho curioso que o autor diga não ter partido, quando parte para afirmar, no parágrafo a seguir, que “o caso tem início num governo tosco, autocrático e inimigo de qualquer manifestação que vise a educação e cultura.” Certamente a crase não foi feita para humilhar ninguém, mas eu não entendo como alguém que não tem partido encontra razões para criticar o governo com tanta virulência. Isso me soa como alguém que “não torce para futebol” mas tem um ódio exacerbado ao Flamengo. Tal posicionamento só não parece tão absurdo quanto é porque o “movimento ateu”, integrado por pessoas que supostamente não seguem nenhuma religião, tem uma necessidade recorrente de atacar com todas as armas possíveis o cristianismo, mas estes valentes pouco ou nada falam contra o islamismo ou contra as religiões afro. No primeiro caso porque gostam de seus pescoços, provavelmente, e no segundo porque não querem enfrentar a acusação de racismo, mesmo que absurda.

Absurdo é dizer que este governo seja inimigo da educação e da cultura, sendo que, com todos os seus defeitos, está semeando IFET pelo país, especialmente onde são mais necessários: as regiões de nível educacional mais baixo, ao mesmo tempo em que criou e tem reajustado um piso salarial para os professores que, se existisse em 2002, talvez me tivesse estimulado a ficar no magistério. Claro que este governo merece críticas, e críticas acerbas, mas não esta crítica. Então não causa surpresa que o autor “sem partido” termine o parágrafo dizendo que é uma sorte ainda termos políticos que pensam, e mencione Álvaro Dias, líder da oposição a esse governo “tosco, autoritário e inimigo”.

Mais grave, porém, do que mentir sobre sua inclinação política (embora ele provavelmente não seja mesmo filiado a nenhum partido e talvez até anule o voto) é ignorar que o Ministério Público não está de nenhuma forma subordinado ao governo Poder Executivo, ou a qualquer outro dos poderes, diga-se de passagem. “André” sugere que existe uma relação entre o ato de um Procurador do Ministério Público e o atual governo, o que é mais ou menos que culpar o judiciário por uma arbitrariedade cometida por um prefeito. Ignora como funciona a hierarquia entre os poderes da República e chega a uma conclusão equivocada, municiado por seus conhecimentos inexistentes ou incorretos. Este é o nível do colunista.

No mesmo parágrafo, o autor relembra o episódio recente de um livro didático que tolerava o padrão coloquial. Ao fazê-lo, revela-se não apenas uma vez mais desinformado, pois o livro não preconizava que se deve escrever “de qualquer jeito”, mas também incoerente: “não posso esquecer do caso em que um idiota achou que deveríamos escrever de qualquer jeito pois era preconceito linguístico.”

A baixa qualidade da redação do autor, super evidenciada nesta frase truncada, mais do que nos erros de concordância verbal, é o motivo pelo qual iniciei este texto observando que parece não haver uma oferta suficiente de conteúdo de qualidade para alimentar os blogues e sites do “movimento ateu” brasileiro. Este colunista é um exemplo: incapaz de redigir em um português coerente, cheio de erros de sintaxe, ignorante de coisas básicas sobre o sistema político nacional, mas devidamente carregado de preconceitos. Desinformado e preconceituoso: eis este “cético”.

Aos que possam me achar injusto ou “caga-regra” por apontar, “pedantemente”, os erros de português cometidos pelo “André”, gostaria de lembrar que isso é justíssimo, visto que o autor mesmo se coloca numa posição superior aos que escrevem “de qualquer jeito”, a ponto de criticar violentamente aqueles que pregam a tolerância contra os erros. Acho curioso que alguém que enche a boca para falar cobras e lagartos do Criacionismo por ser “pseudo científico” tenha a cara limpa para desconsiderar toda a Linguística ao aderir ao discurso obscurantista dos que criticaram o livro em questão. Mas já que o autor optou por seguir o Professor Pasquale em vez de pessoas que entendem de povo e de língua, por experiência e por diploma, não deverá se opor ao modo como lhe abordarei os erros que comete. Com a medida que medirdes sereis medidos.

Este “cético” e “apartidário” autor nos manifesta todo o seu humanismo no quinto parágrafo, que eu só não qualifico devidamente por não querer incorrer tão cedo na Lei de Godwin. A pérola é tão perfeita e digna de nota que só posso mesmo citá-la:

O problema está no verbete cigano (você sabe… aquele pessoal cuja cultura passou por gerações e influenciou impérios e sociedades com seus jumentos mais coloridos e enfeitados que jumentos de ciganos).

Eu não estava convencido da necessidade de se suprimir um verbete de dicionário até ler esta afirmação odiosamente racista e começar a ter simpatia pelo cigano que iniciou esse processo. Sim, eu sei que “racismo” é crime e que, portanto, acusar alguém de sê-lo é um crime de calúnia, me processe, Senhor “André”, já tirei os prints para me defender.

O autor, acostumado a usar a ironia “cortante” para decepar ideias de que discorda, aqui resolveu usá-la para atacar todo um povo, negando-lhe o direito à dignidade por causa das características peculiares de sua cultura. Se você pertence a um povo que enfeita jumentos então você não é digno de respeito. Não sei o que o autor diria se visse como se pinta caminhão no subcontinente indiano.

Nem sei por onde começar a comentar, o sangue me ferve diante disso, posso imaginar perfeitamente como deve estar se sentindo alguém de etnia cigana que leia esse parágrafo, embora não possa sentir a mesma coisa exatamente, pois não sou cigano e não tenho a ousadia besta de dizer que dói tanto em mim quanto neles. Este é o motivo pelo qual acabei resvalando em falácias neste texto: não escrevo hoje com a lógica, mas com a raiva. Este é um J’Accuse.

Eu acuso o “André” de racismo contra o povo cigano ao desvalorizar sua cultura e sua cidadania através do emprego da ironia. Eu acuso o “André” de racismo contra o povo cigano ao deixar subentendido que os povos devam ser julgados pela relevância de seu papel na História do mundo como um todo e que os ciganos, por não terem deixado realizações tão visíveis quanto às de outros povos, seriam menos dignos de respeito. Eu acuso o “André” de racismo contra o povo cigano por afirmar textualmente “Sério que ciganos têm nação, Cléber? Eles têm patrimônio cultural ONDE, Cléber?” Entre as muitas formas de ignorância manifestadas por “André”, encontra-se a ignorância do sentido dos termos “nação” e “patrimônio cultural”. Mas, pior do que isso, a desqualificação brandida por “André” contra os ciganos evoca, perigosamente, outras que foram feitas no passado, contra ameríndios, africanos, judeus, irlandeses e muitos outros.Eu acuso o “André” de racismo contra o povo cigano por negar que eles tenham o direito de ser considerados como “nações” (não há somente uma nação “cigana”, mas várias) com o mesmo argumento através do qual os antissemitas negavam a identidade dos judeus antes da criação do Estado de Israel. Eu acuso o “André” de racismo contra todos os povos nômades de todas as épocas, que não deixaram em lugar algum um patrimônio cultural que possa ser visitado turisticamente. Acuso-o de racismo contra todos os povos não dotados de escrita, a quem até bem recentemente a própria historiografia negava a humanidade. Acuso-o de condicionar a dignidade da pessoa humana à relevância de realizações passadas, que nem foram produzidas pelos atuais membros dos povos e nem foram, em muitos casos, produzidas para servir ao povo, mas aos caprichos de tiranos obcecados com a glória póstuma.

Mas para provar que as minhas acusações não sejam vistas como interpretação incoerente de coisas ditas apenas nas entrelinhas, segue uma transcrição ipsis litteris, de um trecho que quase se poderia ter extraído do Mein Kampf.

Ciganos: Não possuem escrita própria, não possuem livros, panfletos, poemas, nem nada. Sua música é pobre, sua cultura baseia-se em… em quê? O Tarot [sic] não foi inventado por eles. Quiromancia já era praticada na China, Egito e Babilônia. Onde está sua cultura? Onde estão as características desse povo? Andar vagueando por aí? Nem isso fazem mais. Ficar pedindo dinheiro na rua ou fazendo “adivinhações”? Judeus possuem escrita própria, reinventaram mitos, criando uma teologia toda particular, trabalhando o Mythos e o Logos (recomendo a leitura de “Bíblia, uma biografia”, da Karen Armstrong). Qual é a cultura cigana? Andar com vestidos velhos, descalços e lendo mãos nas ruas? Literatura? Pintura? Não? Ora bolas!

A visão preconceituosa de “André” considera que somente são dignos de respeito os povos que realizaram um mesmo processo histórico, o do estado-nação ocidental e/ou que através dele, ou de estrutura análoga, construíram uma identidade constante, manifesta em obras arquitetônicas e literárias ou através de tradições estáveis. Esta é uma visão racista, totalmente superada em ciências sociais. Esta é uma visão que ignora que certos povos nunca tiveram a oportunidade de consolidar-se em estados — caso, inclusive, dos ciganos, que foram escravizados na Europa praticamente desde que lá chegaram, principalmente no Leste Europeu. Ignora que os povos, por serem conjuntos de indivíduos, podem, tal como estes, fazer opções diferentes, condicionadas não apenas pelas opiniões predominantes no grupo, mas também pelo meio (não há pirâmides na Mesopotâmia porque lá não havia pedras, a navegação não foi inventada pelos mongóis porque estes não tinham acesso ao mar) e pela pressão da interação com outros, mais “adiantados” na formação do estado.

Considerar como inferiores os povos que não chegaram a consolidar civilizações ou estados é uma abordagem “darwinista” das culturas humanas, que procura medi-las com bases em suas realizações materiais, tal como o capitalismo mede seu valor enquanto indivíduo pelo saldo bancário.

Mas o que mais me espanta é que tal lixo racista — carregado de falácias, de ironia grosseira e de valores arraigados de retórica fascistoide — seja publicado em um site que se intitula “Ceticismo.net”, por alguém que há um bom tempo parece ter conquistado um palanque. Ou redefiniram “ceticismo” enquanto eu estava dormindo, ou há algo muito mais errado do que supunha no “movimento ateu”.

PÓS-ESCRITO: Gostaria de reafirmar que sou CONTRA a condenação da Editora Objetiva neste caso. Minha opinião é mais ou menos a mesma expressa neste comentário da Folha de São Paulo. Acredito que é função dos dicionários registrar o uso das palavras, para o bem e para o mal.