O Dilema da Grécia

O que mais se tem dito, com um «moralismo monetário» de dar nojo, é que a Grécia está a cometer uma espécie e de crime, como se cada grego do mundo estivesse «roubando» de outros aquilo que seu país não tem mais conseguido pagar (e que aparentemente não mais pagará). A hipocrisia é uma homenagem envergonhada que o vício presta à virtude, como disse La Rochefoucauld, mas a falsa analogia é a homenagem que a estupidez faz à racionalidade.

Relações internacionais não são pautadas pelo moralismo. Países não são pessoas. As relações que concebemos entre indivíduos não podem ser estendidas automaticamente às alianças entre nações. Crimes, como «roubo», são definidos pelos estados segundo leis que devem ser obedecidas por seus cidadãos. Tão relativo é o conceito de crime que é frequente que o mesmo ato, tolerado em um lugar, seja severamente punido em outro — e vice-versa. Se as nacionalidades, tomadas em seu coletivo, podem cometer «crimes» (tal como sugeriu Euclides da Cunha), estes não são análogos aos crimes que as pessoas cometem, justamente porque o marco legal que os define é outro. Devemos, pois, deixar de lado todo moralismo pedestre ao analisarmos o caso da Grécia, pois não estamos a falar de alguém que tomou a bolsa de uma velhinha. Nem a Grécia é um punguista e nem os seus credores são uma inocente senhora. Malcolm X disse, com alguma propriedade, que, se não prestarmos atenção, os meios de comunicação podem nos fazer amar ao opressor e detestar ao oprimido. Ponha-se de lado tudo o mais que Malcolm X disse e fez, por esta frase ele já merece ser lembrado, pois é evidentemente assim que as coisas se dão — o caso da Grécia é apenas um exemplo.

A dívida de um país não é como a dívida assumida por um indivíduo. Existem diversas diferenças e pouquíssimas semelhanças. Para começar, a dívida do indivíduo é pessoal, geralmente fruto de um ato de sua vontade, enquanto a dívida nacional é impessoal, fruto de uma política adotada por um governante eleito que apenas supostamente expressa a vontade do povo. Digo que apenas «supostamente» porque é impossível que o povo saiba tudo o que faz o seu governo (se soubesse, como disse Bismarck, não haveria governo) e, ainda que saiba e consinta, é impossível que a tudo entenda e preveja. A maioria das pessoas já tem alguma dificuldade para gerir a própria vida e não reserva muito tempo para pensar «grande» nos destinos do país. Em vez disso, confiam estas decisões aos seus líderes, eleitos ou não, limitando-se a acompanhar, muito mal e porcamente, e a manifestar-se, periodicamente, nas eleições, a respeito do trabalho que se faz. A democracia representativa pode, muito facilmente, conduzir o povo à alienação — e os políticos, de todas as cores ideológicas, se comprazem nisso porque lhes é conveniente que o povo saiba pouco. Um povo que pouco sabe e pouco entende é um povo cujo voto pode ser conquistado com pouco esforço (embora se possa requerer um custo alto, ainda assim).

Se a dívida nacional é fruto da vontade de um governo — que pode expressar a vontade da maioria do povo, mas nunca representa o entendimento e o consentimento bem informado desta mesma maioria — e da liberalidade do emprestador, resulta que não pode existir quanto a ela o mesmo grau de responsabilidade pessoal que existe na dívida que você, leitor, contrai com o banco para comprar um novo televisor em prestações mensais.

Especialmente porque a dívida nem sempre resulta em benefício ao povo. Nos anos oitenta era voz corrente cá na América Latina que as dívidas do chamado «Terceiro Mundo» deveriam ser auditadas. Dizia-se isso porque as pessoas bem-informadas sabiam que boa parte dos recursos emprestados (e transformados em dívida nacional) nunca, de fato, chegavam cá, mas eram desviados no meio do caminho e retornavam aos mesmos países emprestadores (ou a outros) na forma de «contas secretas» em nome de chefes de estado corruptos ou seus apaniguados.

Até as pedras de Zurique sabem que a prosperidade helvética se construiu com as fortunas depositadas de boa gente como Mobutu Sese Seko, Papa Doc, Idi Amin Dadá, Joaquín Balaguer e uma multidão de outros tiranos corruptos da África e da América. Condenar os povos do Terceiro Mundo a pagar estas dívidas é uma injustiça suprema. É como condenar você, leitor, a pagar a conta do seu cartão de crédito que foi fraudado.

No mundo das finanças pessoais existem inúmeras formas de proteção do indivíduo. Se o seu cartão de crédito for fraudado você será ressarcido pelo banco emissor. Se não puder pagar seus empréstimos, poderá renegociá-los (frequentemente a taxas mais baixas e com prazos maiores). Se em último caso inadimplir e nunca pagar, terá caducados os seus registros negativos de crédito após cinco anos e poderá voltar a atuar. Todas estas salvaguardas (e outras que nem lembro) existem para que o indivíduo não seja condenado a arrastar miseravelmente até o fim de sua vida uma dívida impagável. Elas não existem para que você não pague, mas para que os bancos se lembrem de lhe dar crédito em condições razoáveis, ou você fica inadimplente e eles perdem, não só o dinheiro emprestado, mas também o cliente. Nenhuma destas salvaguardas existem para os países.

Se uma nação se endivida, mesmo que seja mediante a fraude de um governo corrupto, ditatorial, impopular ou pouco transparente, a dívida deve ser paga. As renegociações nunca são a taxas mais baixas e prazos maiores simultaneamente. Diferentemente das finanças pessoais, os credores dos países se arvoram ao direito de entrar em sua casa, fazê-lo desligar alguns eletrodomésticos, obrigá-lo a vender objetos de valor (pelo preço que eles decidem, não pelo que você venderia) e ainda o obrigam a trabalhar horas extras, mesmo que o seu patrão não as pague.

Basicamente é o que ocorre quando o FMI, o Banco Mundial e outras instituições «inspecionam» as finanças de um país, obrigam-no a desativar programas sociais, vender empresas estatais ou patrimônios públicos, aumentar os impostos, baixar investimentos etc. E tais medidas devem ser seguidas à risca, mesmo não dando resultado, assim como o agiota o obrigaria a trabalhar mais para pagar as prestações, mesmo que você não receba as horas extras.

Uma nação endividada perde a sua soberania. E não importa como se endividou. Em alguns casos sequer importa «quanto» se endividou. O que importa é se consegue repagar os empréstimos feitos. Mas este repagamento não significa que o país está saudável, porque se os credores quiserem eles podem emprestar dinheiro para pagar as dívidas anteriores, mantendo a bicicleta a rodar. Um país se torna inadimplente, muitas vezes, apenas porque os credores decidiram que ele deve se tornar inadimplente.

Enquanto os credores ainda não decidiram que o país deve inadimplir, ele terá acesso fácil ao crédito e poderá acumular um nível de endividamento inimaginável para uma pessoa física. A Grécia, por exemplo, deve 180% do PIB. Isso é o mesmo que uma pessoa que recebe R$ 60.000,00 por ano ter uma dívida de R$ 108.000,00. Não parece muito (na verdade, se você fez financiamento imobiliário este deve ser o patamar de endividamento que você tem agora, desconsiderando seu patrimônio como fonte potencial de receita em caso de venda). De fato não é muito.

Um endividamento de 180% do PIB é menor, por exemplo, do que o endividamento do Japão. Não me consta que o Japão esteja inadimplente com seus compromissos ou que os credores temam uma bancarrota nipônica iminente. Os fatores que explicam a crise grega são outros. A Grécia está em crise, e finalmente inadimpliu, porque, à parte o seu endividamento, o país está há quase uma década em recessão. Se a economia estivesse crescendo normalmente, a Grécia poderia fazer algumas reformas estruturais, gerar superavit e continuar pagando a dívida até extingui-la, dentro de décadas ou séculos. Mas a agudização da recessão levou o país ao deficit, a má gestão econômica agravou isso e o FMI, com sua receita de desastre, determinou o desfecho ao obrigar a Grécia a fazer exatamente tudo que deprime a economia em vez de fazê-la crescer.

O FMI é o médico que receita o mesmo remédio para todos os pacientes e, mesmo vendo-os sempre morrer, continua acreditando na cura e culpando os falecidos por o remédio não ter funcionado com eles.

A receita do FMI para a Grécia foi a mesma que causou a «década perdida» da América Latina. A diferença é que a Grécia é menor, menos populosa e tem menos recursos naturais do que os países latino-americanos. A Grécia não tem como gerar superavit exportando produtos primários porque tem uma economia subdesenvolvida e limitada ao setor de serviços (turismo e navegação). Todo o resto da economia grega tem pequena importância relativa ao PIB. A economia grega é extremamente vulnerável à «confiança» externa porque de fato não possui nenhuma commoditie significativa para oferecer e nem se industrializou como uma Coreia do Sul ou uma Taiwan.

O que está acontecendo na Grécia não é, portanto, um caso análogo ao batedor de carteiras roubando a velhinha. A menos que a velhinha seja a Grécia e o batedor de carteiras seja o sistema financeiro internacional.

Os gregos não têm nenhuma falha moral, não estão «roubando» nada aos demais países do mundo, mesmo porque não foi aos cidadãos desses países que os gregos andaram a pagar suas dívidas, mas a um grupo pequeno de grandes empresas financeiras e seus controladores.

O caso da Grécia se parece mais com o do sujeito que se endividou com o agiota e, não tendo como pagar, teve as pernas quebradas por um capanga e ainda assim tem de trabalhar para pagar, ou terá os braços quebrados também. O que estamos vendo na Grécia não é um país que não honra seus compromissos, mas um país que decidiu que a dívida, por mais que se deva pagar, é uma preocupação posterior. Na hierarquia de necessidades, nesse momento salvar o país é mais importante do que pagar a dívida.

Nos anos 1980 o ditador Nicolae Ceausescu decidiu pagar a íntegra de sua dívida com o FMI através de um esforço de exportação agrícola e industrial combinado com redução de salários e racionamento de bens de necessidade, como carvão para calefação. Milhares de pessoas morreram de fome ou de frio na Romênia durante anos. Mas a dívida foi paga. Afinal, era o que os romenos deviam fazer, pois «eles» haviam contraído aquela dívida e era seu dever moral pagar. Não é mesmo?

O Bipartidarismo: uma Democracia de Fachada

A democracia é uma coisa que a gente, muitas vezes acha que é tão estável e confiável quanto os horários dos ônibus: pode ter seus contratempos, mas estão sempre aí passando para nos levar aonde queremos. A verdade é que a democracia é uma coisa tão recente que até assusta quando a gente para a pensar o quanto nos acostumamos com ela em tão pouco tempo. A nossa própria democracia tem pouco menos de trinta anos, e antes dela o mais parecido com democracia que vivêramos não durara mais que escassos dezoito anos. Somente os brasileiros que hoje têm menos de trinta anos gozam do privilégio de jamais terem vivido sob o arbítrio de uma ditadura. Talvez isto explique porque tantos deles gastem sua liberdade de expressão dizendo bobagens, como elogiar a ditadura e falar mal da liberdade de expressão.

Lá fora a coisa não é significativamente melhor. Na nossa América Latina a democracia, regra geral, é muito menos confiável do que podemos supor. Não há nenhum país do México para baixo que tenha gozado de um regime democrático, com sufrágio universal, liberdade de expressão, alternância no poder e independência de decisões econômicas por mais do que vinte anos, os últimos vinte anos, quase sempre. Os casos que antigamente eram citados como exemplos de democracia e estabilidade institucional não passam no crivo da mais básica análise: Venezuela, Costa Rica, Chile e Uruguai viveram décadas de eleições e mandatos cumpridos, mas só porque as oligarquias se revezavam nas cadeiras executivas e legislativas, através de eleições de fachada, nas quais o povo não tinha o que escolher.

A Europa, por sua vez, que adora nos dar lições, tem democracias mais jovens que a nossa (Turquia) ou viveu períodos de arbítrio ainda mais negros do que a nossa «Revolução» (casos do franquismo espanhol, que durou até 1975, ou da Cortina de Ferro socialista, caída entre 1989 e 1992). Mesmo países que empinam o nariz para falar de instituições e direitos humanos tiveram seu passado autoritário, como a França gaullista ou a Itália dos eternos parlamentos que duravam seis meses enquanto o «sistema» governava a partir de funcionários não eleitos. Países que ainda nos anos setenta estavam perseguindo e matando sindicalistas, artistas, estudantes ou gente que se vestia de forma suspeita.

Não é surpresa, então, considerar que a raiz de todo este mal continue firme e forte onde sempre esteve: os Estados Unidos. Os ianques sempre foram a inspiração universal dos sistemas democráticos, eles mesmos se intitulam, nada modestamente, a terra da liberdade («dos hambúrgueres e da azia», completou um personagem de famoso enlatado dos anos oitenta). Mas se o modelo que difundem é viciado, como podem as democracias que inspiram serem melhores? Toda cópia piora um pouco o original.

Então nos lugares onde os Estados Unidos calharam de implantar democracias em vez de ditaduras, caso do Japão, o sistema político resultante espelha o que tem de pior o sistema ianque: a plutocracia. E plutocracia não é democracia.

Sempre que você restringe as escolhas de alguém, você está, obviamente, dirigindo esta pessoa a escolher aquilo que você quer. Então, se a pessoa escolhe uma entre duas alternativas, não se pode dizer que ela realmente escolheu o que queria. Se você chega em um bar e só tem Coca Cola ou Pepsi, ninguém pode dizer que você não gosta de guaraná. Em um bipartidarismo, quem gosta de guaraná não tem a oportunidade de beber, menos gente percebe que gostaria de beber guaraná, todos são levados a crer que tiveram a liberdade de escolher o que beber, mas no fundo estão apenas fazendo girar uma roda de interesses econômicos, um jogo de cartas marcadas entre duas marcas.

Assim são os partidos em uma democracia bipartidária. Acostumados a conviver e a revezar-se, criam leis e estruturas que favorecem um ao outro e dificultam a competição. Isto faz com que as pessoas procurem fazer política dentro destes partidos, em vez de criarem partidos adicionais para defender ideias diferentes. Mas a mensagem que passa, em nível nacional, é a do consenso partidário, que será sempre fabricado por influência das lideranças, visto que os movimentos dissidentes não têm o poder de pagar matérias na imprensa para propagandear suas teses.

Toda democracia tende ao bipartidarismo, tal como o capitalismo tende ao monopolismo, a menos que o Estado crie leis para obstar isso. Mesmo países bastante democráticos podem cristalizar-se em regimes bipartidários, como aconteceu na França. Em um estágio mais profundo de degeneração, o sistema se consolida com um partido eternamente na situação e outro na oposição, como aconteceu com o México durante boa parte do século XX, ou o Paraguai de Stroessner. Isso quase sempre ocorre pelas armas, mas pode ser resultado também de eleições sucessivas em que um mesmo partido se sagre vitorioso.

Como não existe real liberdade de escolha quando as opções são limitadas (sejam duas, sejam três), a conclusão a que se pode facilmente chegar é a de que os regimes bipartidários não são democráticos em geral, mas são especialmente menos democráticos quando se desenvolveu um sistema para bloquear a entrada de novos partidos. Existem dois métodos principais de bloqueio: as restrições de registro e o voto distrital.

O primeiro método é usado em ditaduras ou democracias imperfeitas, e é utilizado para impedir ou cassar o registro de partidos que ameacem o sistema. Na América Latina, durante a maior parte do século XX, os partidos comunistas estiveram proibidos e os partidos de esquerda tiveram sua atuação notavelmente restringida. Na Turquia, durante muito tempo, partidos religiosos foram proibidos. No Brasil, notavelmente, vivemos um bipartidarismo imposto pelo regime militar entre 1967 e 1980.

Em geral os bipartidarismos deste tipo tendem a ser muito antidemocráticos e eventualmente se pode chegar ao bipartidarismo engessado, com a proibição de outros partidos. Mas pode haver um bipartidarismo “suave” no qual a hegemonia substitui a proibição. Nestes sistemas, existem vários métodos para impedir que os demais partidos cheguem ao poder. O sistema de voto distrital é um destes, usado para restringir o acesso de novos partidos quando o sistema quer guardar uma aparência de pluralidade. Os que defendem a democracia americana gostam de citar que o país possui centenas de partidos políticos registrados e que lá é mais fácil fundar um partido que abrir uma empresa. Só que esses partidos não têm futuro porque o sistema eleitoral desenvolvido pelos dois partidos majoritários impede que qualquer terceiro partido se consolide. De fato, é mais fácil concorrer como candidato independente do que como um candidato de um partido minoritário.

O sistema a que me refiro é chamado em inglês de “first past the post” ou “winner-takes-all”, que significam, basicamente, “o primeiro a chegar” ou “o vencedor leva tudo”. Este sistema é característico da Grã Bretanha e dos Estados Unidos e se caracteriza pela divisão do país em distritos eleitorais, cada um elegendo um representante para o congresso (estadual ou municipal). Em cada distrito se elege o candidato mais votado, mesmo que ele detenha menos de 50% dos votos. Combinando isso com o voto facultativo e já houve casos de candidatos eleitos por menos de 10% da população.

Este sistema ainda é burlado de várias formas:

  1. Gerrymandering, ou manipulação dos distritos. O partido que está no poder altera os limites dos distritos para agrupar os núcleos urbanos de forma a favorecer a reeleição de seus candidatos. Um distrito onde o partido vencedor tenha obtido mais de dois terços dos votos será repartido entre outros distritos onde ele perdeu, de forma que na eleição seguinte esses eleitores ajudem a vitória do partido governista nos distritos onde ele perdera a eleição anterior. Esse processo é tão acentuado nos Estados Unidos que há distritos onde o mesmo partido vem ganhando há décadas. Há estados onde o mesmo partido vem ganhando há décadas. Nas eleições você já deve ter visto o mapinha com os estados azuis (democratas) ou vermelhos (republicanos) e note bem que eles raramente mudam. Os poucos estados onde ocorre alternância no poder são chamados de “swing states” (estados-gangorra) e sempre é neles que se resolve a eleição.
  2. Exigência de apoio popular prévio para o registro de candidaturas. Em alguns estados americanos, um terceiro partido, se quiser concorrer, terá que obter assinaturas populares muitas vezes equivalentes a mais do que os votos necessários para vencer a eleição.
  3. “Pork”, ou sistema de retribuição. Os candidatos independentes ou pertencentes a partidos minoritários são excluídos da distribuição de verbas, o que faz com que seus eleitores os vejam como incapazes de trazer benefícios para a comunidade. Nesse sentido, os dois partidos majoritários, e teoricamente adversários, sempre estão unidos contra os partidos alternativos.
  4. “Rotten boroughs”, ou distritos apodrecidos. Na Grã Bretanha, durante muito tempo foi comum que os distritos eleitorais, estabelecidos no século XVII, não guardassem relação com sua densidade demográfica. A importância histórica das cidades valia mais do que sua importância econômica e sua população. Cidades novas não tinham representação própria, eram representadas pelo condado (“shire”) onde se encontravam, enquanto antigos vilarejos tinham até dois representantes próprios. No auge do absurdo, a cidade de Birmingham, segundo maior centro populacional do Reino Unido, tinha somente um representante, enquanto algumas cidades desabitadas tinham dois ou três.

Eu finjo que não sei o que pretendem os partidos que propõem voto distrital no Brasil, mas quero crer que isso é até irrelevante, se considerarmos que toda democracia tende a polarizar-se e somente se renova nas crises periódicas dos grandes partidos e dos grandes movimentos. Democracias excessivamente estáveis envelhecem e se tornam endurecidas, incapazes de promover as mudanças necessárias.

Democracias excessivamente estáveis tendem a deixar de ser democráticas ao longo do tempo.

O Especialista em Helicópteros

Bateu o desespero na imprensa. Comprometida em bater no governo a todo custo, louca para ungir um político de oposição que derrube a situação, ela não hesita mais em nenhum tipo de manobra. Então, quando uma bomba atômica cai no colo de um de seus eleitos, fica evidente que o compromisso com a verdade, com a imparcialidade e com a notícia deixou de existir muito antes da virgindade da mãe do dono da revista. Afinal, não é mais possível esconder que o filho de um importante aliado do principal político de oposição hoje foi surpreendido pela apreensão de um helicóptero de sua propriedade traficando cocaína (daremos nomes aos bois aqui, "tráfico" é cognato de "tráfego", e, portanto, "levar drogas" é "traficar drogas"). E se não dá mais para esconder, o remédio é ironizar, é tentar achar furinhos por onde se possa inserir a dúvida, para que nada seja levado sério, tudo se esqueça, e esse pequeno detalhe seja varrido como pó para debaixo do tapete. E que imenso tapete vai ser preciso.

Esta semana o folclórico Reinaldo Azevedo resolveu pesquisar sobre helicópteros para tentar achar algo a dizer em defesa dos donos do "helipóptero". Sua pesquisa foi feita no lugar óbvio, o site do fabricante do modelo de helicóptero envolvido no caso. Sei disso porque achei o fabricante no Google e os dados conferem.

Com base no que achou lá, Tio Rei inventou uma estranha matemática para provar que o dito "helipóptero" jamais poderia ter transportado 445 kg de pasta base de coca. Afinal, matemática não se discute, não é?

Bem, matemática não existe. Números são apenas rótulos que damos a quantidades de coisas. Números nada significam em si mesmos, tanto quanto palavras não significam mais do que as próprias coisas a quem dão nomes. Se as palavras adquirem algum sentido extra material, e os números também, isto é uma espécie de misticismo que não se ampara nos fatos reais. E não estamos aqui discutindo filosofia, mas se um helicóptero voa ou não com 445kg de pasta base de coca.

Os números do Reinaldo devem ter sido retirados do site do fabricante. Se não foram, então os meus são melhores que os dele. A Robinson Helicopters dá os seguinte números ao seu modelo R-66:

  1. Peso Bruto Máximo: 1225 kg (dado fornecido corretamente pelo Reinaldo)
  2. Peso vazio aproximado (incluindo óleo e equipamentos padrão, informação que ele sonegou): 581 kg
  3. Tripulação: 1
  4. Capacidade: 5 (trata-se de um helicóptero de passageiros, ora pois)
  5. Combustível máximo: 224 kg (ok)
  6. Passageiros e bagagem com o combustível máximo: 420 kg (ok)

Quantidade de pessoas presas no voo: 2 (informação importante, anote isso). ISSO QUER DIZER QUE HAVIA TRÊS LUGARES VAZIOS. O próprio Reinaldo admite que o helicóptero estava "adaptado para cargas" (o que significa que ele não tinha os três assentos traseiros).

A carga máxima com bagagem considera 5 a bordo, não 2. Considerando 70 kg para cada pessoa (pilotos de aeronaves costumam ser levinhos) temos que o helicóptero teria uma capacidade restante de

1225 - 140 - 224 = 861 kg.

Nesses 861 kg temos que descontar 445 kg de cocaína e sobram 416 kg para a aeronave. Mas a aeronave pesa 581 kg. Estão faltando, portanto:

581 - 416 = 165 kg.

Se você vai transportar uma carga valiosíssima (como pasta base de coca) e tem três lugares sobrando, o que é mais racional fazer?

  1. Remover três assentos sem uso para levar mais carga
  2. Levar menos carga

Três assentos pesariam 165 kg? Facilmente. Esses assentos pesariam, cada um, no mínimo, 35 a 50 kg. Pois incluem bases de metal, forro, cinto de segurança, etc. No mínimo estamos falando de eliminar 100 a 120 kg. No mínimo. Podemos eliminar ainda mais se diminuirmos combustível. Se a autonomia do helicóptero é de 660 km e a maior distância percorrida foi, segundo o próprio Reinaldo, de 513 km, temos aí 150 km a menos. O próprio Tio Rei diz que 59 kg são suficientes para 173 km. Portanto, para 150 km precisamos de apenas 50 kg. Dos 165 kg que faltam, podemos reduzir 50 em combustível. E três assentos facilmente economizam 100 kg.

Agora a conta fechou para você?

Não, eu não sou mais inteligente que o Reinaldo Azevedo nem sou especialista em helipóptero.

Porque os EUA Precisavam Neutralizar a Coreia do Norte

Ao contrário da maioria, e à semelhança de Nélson Rodrigues, eu tenho uma certa aversão à unanimidade. Não porque ela seja burra, mas porque enquanto todos estão concordando, não sobra tempo para se analisar o lado oposto, o que significa que, se a unanimidade estiver errada, e ela pode estar, não há ninguém preparando um plano B. É muito importante duvidar, mesmo daquilo que parece certo. Duvidar não é descartar, duvidar é especular alternativas, é tentar chegar mais perto da verdade mesmo quando todos insistem que já estamos o mais perto possível. Só que não existe um horizonte de eventos para verdade, e geralmente as unanimidades são construídas através do efeito de manada.

Este post é ilustrado por uma foto do “Bosque dos Heróis”, um monumento em Windhoek, na Namíbia. Este é um dos vários monumentos comemorativos construídos pelo mundo por uma empresa chamada Mansudae Overseas Projects, da Coreia do Norte. Somente em 2011 esta empresa, apesar do bloqueio econômico a que o país de brinquedo de Kim Jong-Un está submetido, trouxe mais de US$ 160 milhões em divisas para Pyongyang. A MOP é uma das mais de cem empresas criadas pelo governo da Coreia do Norte nos últimos dez anos em vários ramos da indústria pesada (construção civil, aço) e leve (componentes eletrônicos, plástico, processamento de pesca, etc.). Será que isso parece com um país morto de fome a ponto de seus habitantes estarem supostamente comendo uns aos outros?

Quando você terminar de ler este artigo, eu espero ter conseguido abrir seus olhos para muita coisa que não vem à tona do debate sobre a Disneylândia dos comunistas.

A primeira destas coisas é o estado real da economia norte coreana. A julgar pelas notícias veiculadas pela imprensa alinhada com os interesses americanos, a Coreia do Norte vive desde 1992 em um estágio pré falimentar, caracterizado pela fome generalizada, a obsolescência de toda a infraestrutura e a corrupção desenfreada do governo. Em suma, um país tão pronto para se liquefazer amanhã quanto Jesus está pronto para voltar.

Mas um país em tal estado não conseguiria dar mostras de vigor industrial e econômico, não conseguiria retomar e terminar a construção do mais famoso prédio inacabado do mundo. Não conseguiria fazer três testes nucleares e vários lançamentos de foguetes em um curto espaço tempo.

É verdade que esses triunfos devem estar sendo conseguidos à custa do sofrimento do povo, mas não há muito leite para se ordenhar em uma pedra: se o país não estivesse recuperado da crise de meados da década de 1990, não haveria nada para roubar do povo e destinar à megalomania de seu governo. É preciso ter a cabeça firmemente enterrada na areia para conseguir acreditar que um país que só piora economicamente teria capacidade para criar novas indústrias, desenvolver tecnologia bélica e começar a prestar consultoria a outros países. Sim, a Coreia do Norte presta consultoria em engenharia e administração de sistemas. Só não tem mais fregueses por causa do embargo, e do fato de que não há muito mercado para computadores em coreano.

Então fica evidente que o discurso da Coreia combalida deve ser só uma mentira a mais contada pelos americanos para criar empatia na comunidade internacional, assim as pessoas ficam com peninha dos coreanos mortinhos de fome e apoiam que sejam bombardeados de volta à Idade da Pedra, como no Iraque.

A verdade deve ser que os americanos receiam que esse relativo ressurgimento da Coreia do Norte vai dar fôlego  aos tiranetes de lá para continuarem brincando por mais algumas décadas, especialmente depois que a transição de poder do descabelado para o gorduchinho parece ter se consolidado, ao contrário do que esperavam os analistas ianques.

A segunda coisa parte justamente desta transição: parece haver consenso de que o novo tiranete consegue ser mais ridículo que seu pai (que já fora ridículo a ponto de sequestrar um diretor de cinema e forçá-lo para fazer uma paródia socialista de Godzilla, pentear o cabelo para cima para parecer mais alto e mandar construir pelo país auto-estradas de oito pistas em cada direção, que ficam vazias quase todo o tempo). Ora, se um óbvio idiota conseguiu ficar no poder de uma ditadura cruel, isso deve significar que ele não tem poder nenhum, deve ser só um fantoche, uma face humana do jogo de poder dos bastidores, um Grande Irmão vivo. Vocês já devem ter reparado que ele está quase sempre acompanhado de alguns generais com quepes altos e dólmãs tão condecorados que é preciso usar a calça para exibir o resto das insígnias. Se isto for verdade, não adianta esperar pela morte dele, não adianta nem matar ele. Sempre haverá um outro rosto para pôr no lugar e o regime ficará de pé.

Então, as tentativas americanas de agredir a Coréia do Norte revelam o desespero de quem já percebeu que não adianta esperar pela combustão espontânea do regime de Pionguiangue. A Coréia do Norte está aí para ficar, incomodando os Estados Unidos durante ainda algumas décadas. E agora que o Irã e a Síria caíram debaixo da asa amiga da Rússia, o mundo está começando a ficar salpicado de lugares onde Tio Sam não põe o pé. Uma nova cortina de ferro está se formando devagarinho.

Sobre os Malefícios Mentais do “Anarcomiguxismo” (2)

Sendo o anarcomiguxismo um sistema de crenças essencialmente irracional, como demonstrado acima, a continuidade da crença depende da supressão do espírito crítico. Refiro-me a uma atitude receptiva em relação a conhecimentos obtidos de certa fonte (especialmente os artigos do Instituto Mises e os dados do Heritage Foundation, mas não somente) aliada à rejeição apriorística de informações obtidas de outras origens. Essa "endogamia" intelectual, na qual as ideias do indivíduo são alimentadas exclusivamente por textos que reforçam seus conceitos anteriores (pré-conceitos) produz uma baixa gradual do ceticismo, pois um texto é aceito como corroboração de outro, de forma recursiva, em um gradual afastamento em relação a qualquer capacidade de questionar.

Essa autorreferência do pensamento anarcomiguxo produz um descolamento da realidade tão profundo que somente aos olhos de quem está "de fora" é possível discernir o grau de absurdo. O "anarcomiguxismo" é, então, uma espécie de Cientologia econômica, cujos artigos que mencionam Xenu só são apresentados a quem já leu as obras mais básicas. Da mesma forma que a Cientologia não começa por pregar ao neófito que há bilhões de anos um vilão espacial transportou seus inimigos para a Terra a bordo de aviões DC-10 e os explodiu com bombas atômicas dentro de vulcões, os anarcomiguxos não começam explicando textos polêmicos, tais como:

  • A Ética da Liberdade (Murray Rothbard), em cujo capítulo XIV ele diz que os pais deveriam ter poder ilimitado sobre seus filhos --- inclusive podendo matá-los, vendê-los ou prostituí-los --- e que a educação infantil deveria ser facultativa.
  • Legalize Drunk Driving (Lew Rockwell), onde se argumenta que o Estado não tem o direito de, mesmo sob o pretexto de proteger a vida de outras pessoas, impedir que o proprietário de um veículo o dirija.
  • O Caminho da Servidão (Frederik Hayek), onde se argumenta que a adoção de medidas humanitárias e a concessão de direitos às massas produziriam o fim da liberdade (econômica, claro), criando ditaduras e destruindo o mundo…

A adesão a esse sistema de crenças enviesado e em franca contradição com o bom senso (Rockwell e Rothbard) ou com os fatos históricos observados (Hayek) tem sobre o "anarcomiguxo" o efeito de condicionar a sua própria interpretação da realidade, levando-o a agir de forma equivocada diante de situações que exijam uma leitura correta dos acontecimentos.

Um exemplo deste efeito "alucinógeno" do "anarcomiguxismo" sobre seus adeptos é o que está acontecendo com o Dâniel Fraga.

Dâniel é figurinha carimbada dos fóruns internéticos há muitos anos. Nunca foi muito certo da bola, tendendo a ter opiniões exacerbadas e uma reção meio infantil diante de contestações firmes. Certamente alguém com certo problema mal resolvido com autoridade, sei lá, talvez um complexo de Édipo.

Ele aderiu às ideias "anarcomiguxas" de uns dois ou três anos para cá. Pelo menos esse é o horizonte de tempo ao longo do qual eu me lembro de tê-lo visto discursando enfaticamente contra as maldades do Estado e as maravilhas das empresas e dos indivíduos. Seu canal no YouTube foi, durante este tempo todo, uma das maiores fontes de difusão do pensamento "anarcomiguxo". De fato, eu uso este termo, que não foi cunhado por mim, de forma a evocar aquilo que Fraga se tornou. Minha definição de "anarcomiguxo" é Daniel Fraga.

A fama lhe subiu à cabeça, embora não lhe tenha sido suficiente para subir de nível a mobília de seu quarto (que, ainda assim, parece mais organizado que o meu). Isso fez com que ele subisse de nível em suas críticas, adotando um tom cada vez mais destemido, belicoso até. Desenvolvou uma entortada de boca que sugere alguém que morde as palavras com raiva quando as diz, e expele seus argumentos com força e dor, como quem expele cálculos. Não sei se isso foi intencional, mas ele copiou de muitas formas os trejeitos de Olavo de Carvalho. A diferença é que Olavo se auto-exilou nos EUA, de onde pode dizer o que quiser sem riscos. Fraga ficou no Brasil, e aqui, como sabemos, não existe liberdade de expressão absoluta.

Eventualmente Fraga cometeu algo temerário: criticou um juiz. Juízes são bichos difíceis de criticar porque, apesar de todo o aperfeiçoamento de nossa democracia desde 1988, eles ainda são, praticamente, acima da lei. A pior coisa que pode acontecer a um cidadão é incorrer no desagrado de um juiz. Melhor blasfemar contra Deus do que contra um juiz, se é que vocês me entendem. Porque, mesmo que não façamos nada de errado, não é desejável o incômodo de um longo processo, com todo o seu custo monetário e o desgaste de imagem que isso traz. Dependendo das circunstâncias, um veredito de inocente pode ser totalmente irrelevante, pois o processo em si já foi uma punição cruel.

Mas Fraga fez pior: ele não se limitou a criticar o juiz, ele o fez de forma insultuosa, estendeu a crítica a outros juízes, e explicitou em sua crítica que o juiz seria "ignorante" (sic) do assunto sobre o qual decidiria.

Por mais que eu ache que a liberdade de expressão deva ser mais garantida neste país, eu não consigo achar certo o modo como Fraga se expressou. Um juiz é uma autoridade, e uma autoridade que não tem origem democrática, ainda. Isso quer dizer que existe certo protocolo envolvido. Você não pode simplesmente tratar um juiz como trata um vereador, que pode perder a próxima eleição e cuja autoridade é limitada por essa e outras circunstâncias. O juiz não está sujeito a eleições, ele não presta contas a ninguém, e ele tem suas prerrogativas de forma vitalícia.

Não que eu concorde com esse estado de coisas. Longe de mim. Mas essa é uma leitura realista da mundo real. Diante de uma leitura realistas, devemos tomar medidas realistas. O mundo real não é um fórum da internet, onde você se esconde atrás de um fake para xingar um desafeto. Em certo momento, Fraga se esqueceu de que não estava "na internet" quando fez uma crítica sobre um fato do mundo real. O juiz, ser material existente no mundo real, tomou conhecimento e agiu.

Imagino que Fraga, ao fazer sua crítica, não supôs que haveria consequências. Ele está acostumado a usar palavras muito fortes para se referir a seus desafetos e a políticos de quem discorda. A impunidade o fez ficar descuidado. Não entendeu que não podia simplesmente chamar um juiz de "ignorante" e que não tinha o direito (nesse caso eu afirmo que ele não tinha o direito) de falar rosnando para uma autoridade como ele falou.

Foi um erro grave, mas ainda não foi o mais grave de seus erros. Tamanho era o descolamento de Fraga em relação à realidade que, mesmo depois de notificado judicialmente, ele continuou a agir de forma tresloucada, sem levar a sério a situação em que se metera, tal como Josef K. Se amanhã ou depois tiver um triste fim, "como um cão", terá sido por sua própria falta de juízo. Se é que me entendem.

O juiz ofendido, aparentemente, acionou-o por calúnia e pediu segredo de justiça porque Fraga, tendo acesso ao YouTube, poderia fazer uma grande celeuma sobre o caso, prejudicando o processo. Entendo que o pedido de segredo de justiça foi desnecessário, mas eu entendo aonde o juiz quis chegar e não consigo discordar totalmente de sua interpretação. Opinião minha achar desnecessário. Mas absurdo o pedido não foi.

Porém "Fraga Man" --- o super herói anarcomiguxo, que combate o Malvado Estado usando sua camisa azul-água, seus óculos sem aro, seu roupeiro padrão cerejeira e seu teclado --- não se conformou em não poder noticiar o acontecido! Não, o povo precisa saber. E já que o juiz botou segredo de justiça, what would Misus do? Se ele tivesse simplesmente continuado a falar do caso, mesmo com ordem de manter segredo, já estaria fazendo uma cagada grande, mas o típico anarcomiguxo não se contenta com pouco: Fraga precisava fazer uma cagada gigantesca. Ele mesmo confessou em um vídeo que "na internet não existe segredo de justiça" e exibiu cópias impressas de documentos referentes ao processo.

Não tenho palavras para descrever o que pensei ao vê-lo dizer isso. Meu queixo caiu no chão e quicou. Se um documento está em segredo de justiça e ele o obteve através da internet, esse arquivo só pode ter sido obtido mediante uma invasão do sistema do TJ-SP, um acesso não autorizado. Espionagem, se é que vocês me entendem. Fraga confessou publicamente que obteve por meio ilegal (possivelmente criminoso) documentos que um juiz determinara serem segredo de justiça. Não apenas ele violou o segredo de justiça decretado, como fez questão de dizer que a violação ocorreu por um meio ilegal!

É difícil acreditar que uma ameba destas tenha inteligência normal. Na minha opinião, a partir do momento em que ele CONFESSOU ter violado o site do TJ-SP para obter os documentos, a punição de Fraga não apenas se tornou inevitável, mas é agora necessária. Em nome da democracia e da segurança das instituições, um sujeito que viola o site do Tribunal de Justiça para ter acesso a documentos sob segredo de justiça não pode ficar impune. Isso desmoraliza a própria justiça e achincalha a democracia.

Gostaria de deixar aqui bem claro que existem dois momentos separados nesse evento. O momento em que Fraga faz uso de sua liberdade de expressão para criticar um juiz e o momento em que ele se vangloria de apresentar documentos obtidos apesar do segredo de justiça.

No primeiro momento Daniel tem a minha solidariedade, embora eu ache que ele foi ingênuo, idiota e sem educação (coisa que ele normalmente é na internet). Acho que ele merecia uma reprimenda. Possivelmente o caso estava sendo tratado com exagero (talvez por vaidades envolvidas), mas ele precisava de um susto para "tomar tenência na vida". Para não ficar achando que pode falar o que quer, do jeito que quer, com qualquer pessoa. Para alguém que propõe a viabilidade dum "pacto de não agressão" entre os indivíduos numa sociedade sem Estado, Daniel é agressivo demais.

Mas eu não me solidarizo com Daniel Fraga pelo seu segundo ato. Se ele se sentia injustiçado, tinha todo o direito de se defender, constituir advogado, lançar uma campanha de solidariedade, apelar à Anistia Internacional, acender uma vela para Exu e outra para Jeová; fazer o que quisesse, DENTRO DA LEI. Recursos existem para isso mesmo. O processo é doloroso, a última coisa que eu quero é ficar inimigo de um juiz, mas chutar para o alto as leis e os costumes da democracia têm um custo maior.

Talvez Dâniel tenha querido brincar de desobediência civil. Leu demais Henry David Thoureau. Duvido que tenha pensado em se fazer de mártir da liberdade de expressão, ou do movimento libertário (t.c.c. "anarcomiguxo"). Talvez apenas não tenha se dado conta em tempo da necessidade de racionalidade para agir no mundo real, visto que no mundo virtual a sua persona se caracteriza pelo exercício contínuo da irracionalidade. Minha impressão é que Dâniel se tornou uma vítima da distorção cognitiva que o "anarcomiguxismo" provoca, incapacitando o indivíduo para compreender a realidade de forma útil.

E desta forma, Fraga se vê no meio desse redemoinho, totalmente despreparado para compreender esta cruel realidade, tão diferente do universo mágico em que viveu por tantos anos. Para tornar seu caso ainda mais trágico, ele não me parece ter os meios materiais para se defender eficazmente e a própria ideologia que defende parece ser incompatível com a solidariedade de outros como ele.

Diante destas circunstâncias, acho que a melhor saída é pedir que alguém da família requisite sua tutela por insanidade.

O Pobre Pode

Temos uma revolução silenciosa em curso nesse país, uma que não lutará com baionetas nem canhões, mas pode mudar a cara da nação muito rápido, se os poderes de fato não conseguirem dar o que golpe que andam sonhando: você pode não ter reparado, mas o pobre começou a perceber que pode votar em pobre, porque o pobre também pode governar bem.

Méritos do Lula, que não se formou na Sorbonne mas fez um governo que, mesmo admitindo que não foi o melhor da História, foi pelo menos «na média» ou pouco acima dela. Então, se um homem sem doutorados nem teses conseguiu fazer o basicão, e até o fez bem, então qual é exatamente a necessidade de votar nos luminares, especialmente quando eles são pouco sensíveis ao que povo pensa?

Outros exemplos começaram logo a surgir. O jogador de futebol Romário revelou-se um parlamentar ativo e articulado, apresentando projetos interessantes na defesa dos deficientes físicos e mentais, investigando as obras da Copa do Mundo e das Olimpíadas, tentando de alguma forma ajudar as entidades de apoio à Ciência e à Educação, etc. Até o palhaço Tiririca revelou-se bom deputado, apresentando projetos viáveis e válidos na área cultural e educacional.

Esses exemplos começaram a fazer o povo criar coragem de experimentar. Fortaleceram nossa democracia, as pessoas começam a votar em pessoas que espelhem os seus próprios ideais. E aí começaram a surgir casos folclóricos, como o trocador de ônibus eleito prefeito, o filho estudioso do carroceiro que jurou deslocar-se até a prefeitura em primeiro de janeiro na carroça com que o pai trabalhador pagou os seus estudos.

O velho discurso do «mais preparado» está ruindo pelo país inteiro: as pessoas estão começando a ver que para ser político, especialmente em nível municipal, não é preciso nenhuma formação específica, apenas lucidez, certa inteligência, alguma matreirice e uma boa dose de idealismo e boa vontade. Quanto tempo até que isso comece a influenciar nossos partidos e a transformar nossa prática política?

Difícil dizer, mas se os coturnos não vierem pisotear a flor da democracia, cada vez mais viçosa, ela logo desabrochará em um sistema mais humano e mais próximo do povo. Talvez exatamente por isso haja tanta gente influente apavorada. O povo, ora, o povo...

No Futebol e na Política

Nosso país sempre se caracterizou, a partir da introdução do futebol, pela confusão entre as esfersa pública e privada no que tange à prática do rude esporte bretão e também ao relacionamento desta com os chamados «torcedores», aqueles que, praticantes ou não (de «peladas»), se reúnem à beira da cancha para assistir às partidas disputadas pelas equipes formais. O futebol, muito cedo, se mostrou uma forma de expressão política e até mais do que isso, uma forma de expressão política possível, mesmo diante de regimes de arbítrio.

Provas dessa relação biunívoca entre o esporte e a política se encontram, por exemplo, na questão da admissibilidade de jogadores negros, e mais tarde de jogadores profissionais, que se confundem com a luta pelos direitos civis dos afrodescendentes e pelos direitos políticos dos pobres em geral, de todas as cores. A própria formação das federações, espelhando as estruturas coronelistas estaduais, reflete o status quo da República Velha — e nesse quesito o futebol é um dos bastiões de resistência da política dos governadores. A CBF ainda funciona como uma sucursal dos interesses das federações dos estados e dos presidentes de clubes dentro destas federações, o que se traduz na grande força política dos clubes protegidos por interesses políticos de grande força, como o Flamengo, o Corinthians, o São Paulo, o Fluminense e alguns outros, oposta ao desamparo de clubes postos para escanteio por estarem localizados em estados periféricos ou não possuírem costas quentes.

Esta força política de alguns entre os grandes se traduz em favorecimentos mais ou menos descarados, conforme a necessidade, o que gera uma espécie de «carta branca» para que certos clubes empreguem certas táticas e estratégias, contando com a mão amiga de uma arbitragem que, se não é mal intencionada (longe de mim fazer tal acusação), é condicionada a tender para um lado determinado, o que pode resultar no «árbitro caseiro», que tende a se deixar influenciar pela torcida e beneficiar o dono da casa, no «árbitro quixote», que gosta de prejudicar os grandes contra os pequenos, achando que está fazendo justiça, no «árbitro heróico», que odeia a torcida e favorece o visitante para irritá-la, e outras figuras pitorescas.

Como a CBF não é uma entidade democrática, mas uma espécie de clube de interesses escusos onde manda mais quem tem o melhor patrocínio no momento ou está devidamente respaldado pela imprensa ou pela política, as comissões de arbitragem se revelam impotentes para solucionar o caos da arbitragem tendenciosa. Palhaços furiosos, como o folclórico Armando Marques, durante sua passagem ridícula pela Confederação, servem muito bem de inspiração para humoristas pastelão, mas não conseguem impor sua autoridade porque não é possível exigir respeito quando todos sabem que a própria entidade que lhe dá o bastão está, por detrás, orientando favorecimentos.  De troca em troca do cabeça da vez a imprensa vai vendendo a ilusão de que alguém salvará a pátria do futebol da «corrupção» do árbitro vendido, como se o comércio de si mesmo fosse o maior dos crimes cometidos pela arbitragem. Ninguém fala das pressões sobre árbitros jovens, para que favoreçam X ou Y, ninguém fala das campanhas nojentas contra jogadores como o Kléber «Gladiador» (em quem a falta só é falta se sair sangue) ou contra os «cai-cai» dos times pequenos, que não têm o direito de tentar um drible de Neymar ou são trucidados por brucutus das defesas «eficientes» dos grandes, especializadas em plantar-se como palmeiras e perder vexaminosamente os jogos contra os times da Europa, onde qualquer joão ninguém pode dar seu drible sem correr risco de vida. E assim o «futebol macho» de que gosta uma parte estúpida (mas muito grande) de nosso povo vai colecionando humilhações internacionais, que desembocam nesse time ridículo do Mano Menezes.

E nós assistimos a tudo isso, nós ainda nos iludimos, ainda compramos camisas de nossos times, mesmo sabendo que o campeonato é um jogo de cartas marcadas, no qual um time grande só cairá se não for o Flamengo e se conseguir um nível estratosférico de incompetência. Nos iludimos com o discurso de que cada certame começa com «vinte favoritos». Mas quando se torna necessário operar mais abertamente, porque as manobras sutis não estão sendo suficientes para assegurar ao predestinado da vez a pontuação necessária ao título, a torcida não tem o direito de protestar, ou o clube será punido.

Vivemos supostamente em uma democracia. Mas a torcida, que está para o futebol como o povo está para a política, deve permanecer calada. O povo deve permanecer em seu lugar. Não basta que não desça ao campo para expressar sua dor ou sua alegria, não basta que se comporte civilizadamente não destruindo o estádio, não basta que aceite ser tratado como gado por uma polícia que vai ao estádio proteger crianças e mulheres com cassetetes de madeira e armas de gás lacrimogêneo. Não, não basta. É preciso fiscalizar o que está escrito em cada faixa. Impedir que o torcedor expresse seu inconformismo. Punir o grito de «ladrão» se for premeditado. A acusação só é desculpável se for apenas uma «reação impensada», uma conclusão racional, fruto de análise e observação, esta não pode nunca ser dita. Por isso a torcida do pequeno bravo Náutico não podia protestar contra a arbitragem, que precisa salvar o Flamengo da degola, cortando a cabeça do Timbu e da Ponte Preta. Por isso a torcida do Galo, que já andava revoltada com misteriosos favorecimentos ao adversário e uma estranha punição de seu maior ídolo, não podia entrar no estádio usando narizes de palhaço. E não podia gritar «vergonha» quando o árbitro anulou um gol perfeitamente legítimo de Ronaldinho Gaúcho, feito que quase resultou num rumo totalmente inesperado para o jogo, feito que quase deu ao Fluminense o título antecipado.

O povo não pode falar. Afinal, a torcida é mesmo intrusa no estádio, segundo a visão da CBF. Tanto quanto, na visão de nossa elite, o povo é intruso na política. O juiz que anule todos os gols que quiser, como quiser. O gado, digo, a torcida, tem que ficar em seu lugar, sem protesto, sem trazer faixa no jogo seguinte.

Ao final da partida o zagueiro atleticano Júnior César provocou deliberadamente o centroavante fluminense Fred, ao chutar a bola do reinício. Fez isso calculadamente porque se Fred o agredisse seria expulso, por já ter cartão amarelo.  Júnior César foi matreiro, mas a catimba é uma arma que não serve para todos os clubes igualmente. A catimba só serve quando os clubes certos estão autorizados a usá-la para provocar os adversários. Entre os clubes autorizados a catimbar estão o Flamengo, o Fluminense, o Corinthians, o São Paulo, o Santos. Como a catimba só é possível se a arbitragem já tiver combinado antes que sim, o zagueiro atleticano foi advertido com o cartão amarelo e o atacante tricolor, mesmo agredindo-o com um safanão, não foi punido. A intenção do atleticano era óbvia: desfalcar o Fluminense de seu principal jogador na partida seguinte. Ele mesmo, Júnior César, sacrificando-se no ato. Tal como o gol teria sido validado por qualquer outro árbitro, em qualquer outro jogo, a agressão de Fred teria sido punida, por qualquer outro árbitro, em qualquer outro jogo, se fosse qualquer outro jogador.

E a torcida não pode pôr nariz de palhaço no estádio.

Infelizmente Faltou o «Tio Ben»

Dizia o mais famoso dos tios de heróis de histórias em quadrinhos que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. A frase se tornou um meme na internet, tornando-se de conhecimento quase universal, embora só tenha sido dita uma vez, na revista Homem Aranha número um, lá em 1960 e alguma coisa (houve reedições, claro). Deixando de lado a pieguice a simplicidade desta pseudopérola de auto ajuda, podemos ver nela um conselho realmente sábio, baseado no velho bom senso de guerra, afinal, quando você pode provocar grandes consequências, tem de medir os seus atos. Como um elefante na loja de cristais.
O julgamento da Ação Penal 470, que agora está por encerrar-se, com a condenação da ampla maioria dos indiciados, deixará para a História outras pérolas, não necessariamente impregnadas de bom senso, cujos efeitos-borboleta reverberarão por décadas, até que se esvaiam no seu ridículo ou sejam finalmente sepultados pela pá da revolução, que parece avolumar-se no horizonte cada vez mais radicalizado da política nacional. Não julgarei os juízes, pois juiz não sou, e para tal não me ousaria. Mas posso julgar as frases lapidares que os meios de comunicação extraíram de seus votos e que, se extraídas foram, era porque lá estavam. Tais frases não têm a poesia simples do bom senso aracnídeo, esperemos apenas que tenham o mesmo destino: Peter Parker não obedeceu a máxima do Tio Ben e disso resultou ele ser morto pelo bandido que, tendo poderes, não se importou em prender. Moído pelo remorso, passou a se dedicar a prender outros bandidos, para salvar tios alheios, mesmo que isso não comprasse de volta o próprio que perdera. Espero que as lapidares sentenças de nossos máximos juízes igualmente ignoradas sejam, restando-lhes apenas a lápide dos próprios como homenagem à sua memória.

A primeira de tais máximas devemos a Luís Fux, segundo quem «a verdade é uma quimera». Frase esta dita para justificar a dificuldade de aproximar-se de uma verdade em consonância com os autos. Condenou-se pois, mesmo na dúvida, pois se fôssemos aguardar pela verdade ninguém seria punido. Verdade é, mas também não esqueçamos que, se inatingível, a verdade é pelo menos aproximável. Podemos nunca estar plenamente sobre ela, mas há uma diferneça entre estarmos a um metro ou a um quilômetro. Quimera? Monstro que assusta menos que a perspectiva da queda do antigo princípio da inocência. Abolido este, o que temos é um tribunal de inquisidores, dedos apontados à bruxa que se precisa condenar, porque um de seus crimes maiores é ocultar todos os seus crimes. A verdade é uma quimera, quando o réu é uma bruxa.

Mas esta frase, por medieval que seja, revela uma índole, um sistema, mas não um vácuo. É perfeitamente compreensível que haja pessoas saudosas dos santos ofícios, afinal não sentariam nas cadeiras de judas senão os judas natos. Mas o que dizer deste portentoso parágrafo, de autoria do doutíssimo Ayres Brito?

Basta lembrar que, mesmo nos períodos pré-eleitorais, o sentido das alianças é o da sua transitoriedade, cada partido político é autônomo, goza de autonomia política, administrativa e financeira em boa medida. Tem a sua identidade ideológica, ou político-filosófica, mas tudo isso é suspenso, legitimamente suspenso, para a formação de coligações durante o período eleitoral. Terminado o período eleitoral, as coligações se desfazem, de direito. E são substituídas por alianças tópicas, pontuais, episódicas, para a aprovação de projetos específicos. Não faz sentido, à luz da autonomia política de cada partido e da sua identidade inconfundível, ideológica e política, uma aliança formal ad aeternum, porque isso, mais do que a perenização no tempo dessas coalizões, implica em um condicionamento material na hora das votações.

Senhor ministro, não questionarei jamais sua honradez enquanto indivíduo nem sua sabedoria enquanto jurisconsulto, mas quanto aos seus conhecimentos de política, só posso dizer que eles me espantam, e não por sua amplitude, muito pelo contrário.

A afirmação que acima transcrevi revela uma mentalidade estreita, tanto que se poderia dizer que é uma mentalidade de acrobata, desses que andam na corda sobre o abismo. O conceito de política que Vossa Excelência manifesta é o do bipartidarismo, característico de democracias imperfeitas, com tendências oligárquicas ou plutocráticas. Bipartidarismo que evoca os parlamentos sem ideologia, uma política feita de nuanças pequenas, sem contraste de ideias. Vossa Excelência evoca os tempos de Liberais e Conservadores nos gabinetes do Império, os tempos de Arena e MDB sob a tutela dos coturnos. Ou, para recorrer ao exemplo mais admirável deste modelo, o bipartidarismo ianque, inspirador de muita ideologia de direita neste país.

Antes de passar a explicar porque se discerne tão limitada a sua compreensão do que seja política, a ponto de se poder dizer que Vossa Excelência é ignorante de muito do que se sabe por política, é preciso lembrar que as democracias bipartidárias são democracias necessariamente imperfeitas, porque a limitação do debate a apenas dois discursos é algo que não se pode fazer, a não ser pela exclusão de todos os demais discursos. O bipartidarismo é uma falsa dicotomia a céu aberto, é a expressão política do «oito ou oitenta», atenuada, com o passar do tempo, entre o «sete vírgula nove» e o «oito vírgula vinte e cinco». O maior vício, porém, do bipartidarismo nem é o fato de limitar-se a dois discursos entre múltiplos, mas o de impor barreiras a voz de todos os que não estão contemplados pelo sistema. Quem acompanha a história dos Estados Unidos sabe o quanto tem sido difícil a tentativa de se construir naquele país uma terceira via política, porque os discursos alternativos não chegam aos eleitores, sufocados pelo poder secular dos dois volumosos partidos consolidados.

Tendo explicado bem a natureza da opressão sutil que se faz através de um sistema bipartidário, é preciso lembrar que tal sistema não é universal, mas uma peculiaridade dos Estados Unidos, que sempre os interesses americanos tentam exportar como modelo. Peculiaridade americana que descende de um modelo inglês, nascido da guerra civil entre os realistas e os parlamentaristas, no século XVII. Modelo anterior, portanto, à Revolução Francesa, às democracias modernas e aos conceitos salutares dos Direitos Humanos, como a liberdade de expressão e de associação. Disso resulta que o bipartidarismo é um sistema obsoleto, fóssil de uma época em que a política não se fazia através do povo, mas dos líderes do povo. A democracia americana é uma relíquia do século XVIII que nunca foi derrubada por nenhuma revolução por causa do sucesso econômico que lhe está associado. It's the economy, stupid — famosamente disse o assessor de um presidente americano.

Fora dos Estados Unidos e de sua esfera de influência vicejam sistemas multipartidários, que podem ter de três a trezentos partidos inscritos. Todos legítimos representantes de correntes da sociedade, mesmo com seus poucos votos. Em várias democracias antigas e estáveis do mundo estes partidos múltiplos se associam livremente em coalizões que duram décadas, tanto informalmente, como o apoio dado na Alemanha pelo Partido Liberal Democrata à União Democrática Cristã, quanto formalmente, através de listas comuns que englobam vários partidos, de que são exemplo La Gauche, a coalizão de esquerda que quase elegeu Jean Louis Mélenchon nas últimas eleições francesas, e o Syriza grego, que há várias eleições se comporta como um partido, composto de tendências internas que são efetivamente partidos independentes. Outros exemplos são o Likud, partido israelense, originalmente fundado como uma coligação de partidos de direita, que posteriormente se formalizou como uma identidade única.

O que Vossa Excelência faz, ao atacar desta forma arrasadora a política de coligações, é ameaçar a sobrevivência dos pequenos partidos, que representam as vozes minoritárias da sociedade. Estes partidos, captando votos de nicho e articulando com a transferência de sua influência em votações em troca da incorporação de suas bandeiras pelos partidos maiores, efetivamente ajudam a consolidar uma democracia plural. Não é anti ético que um partido pequeno negocie a influência que o povo lhe emprestou, se esta negociação se faz a fim de que os princípios defendidos por ele sejam aceitos ou apoiados pelos grandes.

Partidos pequenos permitem uma renovação contínua das lideranças políticas, ao oferecer palanques para candidatos que não os teriam em um sistema centralizado. Eventualmente alguns destes nomes, até folclóricos ou eleitos por voto de protesto, se mostram dignos dos cargos que receberam, e se tornam políticos permanentes, enquanto outros desaparecem na eleição seguinte.

Não é à toa que a primeira providência de qualquer golpe de estado seja cassar partidos. Nos casos mais óbvios cassam-se todos, mas os mais sutis ditadores cassam apenas alguns, e mantêm uma lista expurgada de siglas, excluindo do debate as opiniões que não interessam.

Na qualidade de guardião da democracia, por estar investido da função de Supremo Juiz da república, Vossa Excelência não poderia dar declarações tão ameaçadoras ao pluralismo democrático, especialmente sendo a especialidade do jurisconsulto a interpretação e  a dispensa da lei, não a auscultação ou representação da vontade popular. O povo não vota em juízes, na esperança que os juízes sejam independentes e isentos. Não é cabível temermos que tal independência seja usada para agredir as instituições através das quais o povo se expressa.

As coligações, claro, devem ser regulamentadas de maneira mais clara, mas tal maneira deve ser oposta ao que Vossa Excelência vê como ideal. Em vez de enfatizar a efemeridade das alianças, que justamente enseja os conluios nascidos da corrupção, com fins meramente imediatistas, deve-se criar um sistema que favoreça as coligações duradouras, entre partidos afins. Coligações que representem programas comuns aos diversos partidos que a integram. E que, eventualmente, possam resultar na fusão de seus membros em um partido só, tanto quanto um namoro, se não for de cunho imediatista, voltado exclusivamente para o sexo, tenderá ao casamento dos pombinhos.

O que Vossa Excelência aconselha como modelo é a promiscuidade das relações partidárias, na qual medra prostituição dos encontros em nome de interesses rasos. O povo não quer partidos promíscuos e muito menos prostituídos. O povo quer compromissos duradouros com o futuro. A natureza das alianças políticas é justamente a de serem duradouras as boas e breves as más. Más alianças que fundam golpes ou fraudam pleitos. Boas alianças que desenvolvem projetos de longo prazo.

Infelizmente, Ministro Ayres de Britto, ao justificar-se perante a sociedade pela polêmica oriunda de uma condenação que é quase unânime entre vós, juízes, mas é polêmica entre nós, este desimportante sujeito da lei, o povo, Vossa Excelência proferiu uma frase que é um escárnio à política e à democracia. Uma frase que será inscrita nos livros de História como corolário jurídico do princípio «franciscano» da política, expresso na frase lapidar de Roberto Cardoso Alves: «É dando que se recebe». Esta é a lógica das alianças curtas, negociadas a cada voto, como Vossa Excelência prefere. É como Vossa Excelência figurará no futuro.

Que lhe seja gentil o espelho.

«O Julgamanto»

Tradução de um trecho avulso de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (obra que se acha em domínio público, tradução feita por mim, ao improviso, já aviso). Com um título novidadoso, homenageante aos recentemente condenados. Dedicado aos que foram condenados, independente de serem ou não culpados, não pelo que fizeram, mas pelo que são.


Disse-lhe o gato
ao rato: «Venha
logo seu bobo
jogarmos
um jogo:
Vamos
ambos
à lei.
Eu lhe serei
promotor
e tu réu.
Venha agora
o tribunal
não demora.
Julgaremos
teu mal
no final.
É que
hoje estou
sentido
e vazio
e mal consigo
o que sirva
para fazer.»
Disse-lhe
o pobre rato
ao gato:
Um júri assim
de improviso,
companheiro,
sem juízo e
nem jurado,
tão sorrateiro
seria errado,
uma perda
de tempo.»
«Júri
e juiz
posso eu
mesmo ser»,
Explicou,
esperto,
o bichano.
«Farei
de tudo
no ato,
que a ti, rato,
réu nato,
condenará,
sem pena,
ao prato.»

Permita a reprodução em qualquer meio, com crédito ao tradutor, que soy yo, se possível sempre com link.

Se a Propaganda Substitui a Notícia

Tomei conhecimento através do Facebook de uma matéria publicada neste domingo na Folha de São Paulo que me deixou profundamente revoltado. Trata-se da história em quadrinhos sobre o mensalão. Antes que meus leitores reaças me acusem (se ainda estão lendo) de estar apenas reagindo ao ataque às minhas crenças, esclareço que a revolta não é causada pela tese apre­sentada no texto, pelas acusações a certos políticos ou mesmo pela ideologia subjacente à iniciativa. Posso perfeita­mente enten­der e aceitar que existam pessoas que pensam diferente de mim, posso aceitar (mas não entender) que exista quem espose uma ide­ologia reacionária de direita. E posso perfeitamente tolerar que uma coisa e outra sejam difundidas pela impresa. O motivo de minha profunda revolta é muito outro.

Referida história em quadrinhos é um desrespeito ao leitor da Folha da São Paulo, mesmo àquele que é reacionário, odeia Lula e sonha em organizar uma Marcha da Família com Deus Pela Liberdade e iniciar outra Redentora. Trata-se de um tratamento condescendente e infantilizado do leitor, que é tratado como um débil mental pelo simples fato de um tema tão complexo ser tra­tado por uma história em quadrinhos, com as características desta, no contexto em que o foi. Lamento se você gostou e aplau­diu, você faz parte do público que a Folha procurou atingir, e em você ela acerto. Sinta-se «especial».

O caso é que a Folha de São Paulo se prestou a fazer o chamado «jornalismo marrom», a busca da audiência (ou da vendagem, no caso de um jornal) através da divulgação exagerada de notícias sem compromisso com a autenticidade. Embora meus leitores reaças não admitam isso, os mais esclarecidos perfeitamente entenderão a associação do mesmo episódio com a chamada «imprensa golpista», que é o uso da mídia como um instrumento de pressão (e enventualmente de conspiração) contra o governo. Temos jornalismo marrom quando se emprega o recurso sensacionalista da história em quadrinhos para apresentar a notícia (foi justamente o emprego de histórias em quadrinhos coloridas que motivou o primeiro rotulamento de um jornal como sensacionalista, nos Estados Unidos, ainda no século XIX), quando um tema é apresentado de forma desproporcional, quando uma versão (no caso a de Roberto Jefferson) é assumida como verdade, sem ouvir o contraditório. Temos imprensa golpista quando a desproporcionalidade da representação atinge apenas um lado do espectro político, quando busca influenciar o comportamento das instituições.

O caso é grave, mas passará batido porque ninguém que tenha coragem de processar a Folha de São Paulo eficientemente tem dinheiro para isso, e a ausência de uma Lei de Imprensa torna impossível responsabilizar a mídia pelas irresponsabilidades que comete.

Uma rasa análise dos quadrinhos apresentados (para minha grande decepção assinados pelo cartunista Angeli, embora com um traço tosco que sugere alguma coisa) mostra o recurso a vários tipos de técnicas subliminares de deturpação da mensagem. Mas antes de falar do emprego de símbolos e arquétipos em lugar de argumentos, antes de falar de propaganda em vez de notícia, falemos do quadrinho inicial.

Logo no início a historinha apresenta o Brasil inteiro como uma vala de esgoto onde chafurdam personagens que se dividem entre a esperança («às vezes do lodo nasce uma flor de lótus») ao cinismo («mas em outras dali só sai mais lama mesmo»). Trata-se de uma generalização ofensiva, que deveria ofender a cada cidadão brasileiro de bem, a cada um que não seja um porco enfiando o focinho na lama em que ele mesmo defeca. Como não sou um destes porcos eu me senti ofendido. Mas o Facebook está cheio de gente que se sentiu homenageada. Não discutirei este mérito. Preferia que as pessoas votassem com suas carteiras. Eu votei com a minha há bastante tempo: não compro a Folha de São Paulo nem como embrulho de peixe na feira: peço para embrulharem no Meia Hora.


A primeira parte da história em quadrinhos se baseia exclusivamente na versão de Roberto Jefferson, que, diga-se de passagem, foi cassado porque, não conseguindo provar nada contra mais ninguém, acabou réu confesso de abuso do cargo de deputado (a posterior cassação de José Dirceu e a prosseguimento das investigações são um outro momento e obedecem a dinâmica diferente). Normalmente se deve ter certo ceticismo quanto à versão de um réu confesso, especialmente uma versão na qual tenta inocentar-se ou diminuir sua culpa. Não existem muitos culpados nas celas das prisões. Talvez haja mais «inocentes» atrás das grades do que fora delas. Portanto, ao basear-se exclusivamente na versão de Jefferson a Folha definitivamente não pratica bom jornalismo. Mesmo porque (e isto é espantoso, pois poderia servir até mesmo aos objetivos inconfessos do jornal) o depoimento do deputado fluminense foi apenas o estopim de uma longa investigação que certamente aperfeiçoou o conhecimento do caso. Limitar-se ao depoimento inicial é uma escolha incompreensível.

O segundo problema é uma contradição lógica inexplicada: se a Folha vê o Brasil, ou pelo menos o Congresso, como aquela pocilga imunda, como se fia na versão apresenta por um dos «porcos» e referendada por outros? Por que a versão de pessoas tão desprezíveis a ponto de serem postas na lama merece todo o crédito?

O terceiro problema é a contradição entre o texto e as imagens, e aqui ser revela deliberada desonestidade por parte de quem concebeu esta HQ (se me processarem, pago a pena mas não retiro a acusação). Desonestidade porque o texto é contido, comedido, faz questão de sempre dizer que «Jefferson disse», jogando toda a responsabilidade no colo do ex deputado. Se alguém meter um processo na Folha ela sempre poderá dizer que apenas reproduziu a versão dele. Mas as imagens não tem esse comedimento e nem essa continência. As imagens são claramente partidárias, persuasivas. Quem passar pela história dando pouca atenção ao texto ficará com uma impressão totalmente diversa da que teria alguém que lesse o texto isoladamente. As imagens têm força, elas atingem um nível subsconsciente de pensamento. A Folha fez esta HQ para influenciar semiletrados. Eles adoraram, tal como as crianças gostam dos livros ilustrados e com letras grandes. É preciso ganhar os corações dos semiletrados.

E o que estas imagens falam não é bonito. Empregam todo tipo de artimanha de propaganda para argumentar não verbalmente e levar o leitor a ter um sentimento difuso de rejeição ao «mensalão», mesmo antes de se chegar ao ponto em que a própria versão de Jefferson é posta para escanteio e parte-se para afirmações sequer referenciadas (mas histórias em quadrinhos, não custa lembrar, não têm referências bibliográficas). Cores escuras de plano de fundo servem para sugerir que as negociações foram feitas «na calada da noite», «nos porões», etc. O tipo de imagem conspiracionista que nos remete até mesmo aos Protocolos.

A manipulação inclui até mesmo mostrar o publicitário Duda Mendonça com um galo na mão, em um quadrinho sem legenda, antes de apresentá-lo como parte da história. Trata-se de uma referência ao obscuro episódio da rinha de galos em que Duda se envolveu (obscuro porque é um absurdo que algo proibido seja tão tolerado nesse país). Antes de mostrar Duda fazendo qualquer outra coisa, é preciso vinculá-lo a um caso vexaminoso e que tem certo apelo entre boa parte da população, que tem sentimentos ecológicos fofuchos embora navegue pelas ruas em carros beberrões de gasolina, entre outras coisas.

Particularmente difícil de engolir é a caricatura de Lula, que evoca os piores momentos desta arte, quando foi usada a serviço da propaganda política de regimes execrados pela História (inclusive regimes de esquerda, para que meus leitores reaças que chegaram até aqui não me acusem de ser parcial). Dotada de bem pouca semelhança com o rosto real do presidente (e assim quebrando uma marca da caricatura política), a figura apresentada tem todas as características de um vilão de história em quadrinhos em regimes totalitários. Completa com a animalização (figura hirsuta, feições de roedor) e os olhos vidrados de inimigo obcecado do povo.

Semelhante até no terno preto e no nariz proeminente, Lula é o Judeu Errante que lidera o cabal demoníaco que se insurge, do fundo do mar de lama, contra o país em crise.

Acredito que ao longo dos próximos dias terei refletido melhor sobre  o caso e talvez escreva mais. Por enquanto estas são as minhas regurgitações... Sintam-se à vontade para apedrejar.