Quando a Justiça Odeia

Não é nenhuma novidade mais que estamos vivendo um processo intenso de radicalização, com o terreno do centro sendo gradualmente comprimido pelos extremismos e com os rituais da democracia sendo estuprados em nome de interesses pessoais. Isto inclui os partidos, que planejam golpes ou eternização no poder, passa pelas instituições da sociedade civil, que frequentemente se fundam na defesa de privilégios e na construção de barreiras contra o outro, e pervade a sociedade como um todo, que começa a regurgitar episódios de ódio contra minorias raciais, ideológicas ou comportamentais.

Quando, porém, alguma voz nos tenta convencer de que não é tão grave assim a doença de nossa democracia, eis que uma voz rouca ecoa de dentro das cavernas, um promotor público utiliza o Facebook para mandar um recado à polícia de choque para que reprima com violência uma manifestação popular pois ele se encarregaria de arquivar o inquérito contra os responsáveis:

Alguém poderia avisar à tropa de choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial.
Petista de merda. Filhos da puta. Vão fazer protesto na puta que os pariu… Que saudades da época em que esse tipo de coisa era resolvida [sic] com borrachada nas costas dos medras…

O ódio é incompatível com a justiça, isto é algo que nem seria necessário dizer. Infelizmente, o Brasil não só é um país onde tem feito falta enfatizar o óbvio — como as noções básicas de cidadania, direitos humanos, justiça, dignidade etc. — como é um país onde dizer o óbvio parece cada vez mais causa de escândalo. Quando o rei está nu, para evitar o escândalo, é necessário reagir com toda radicalidade diante de quem ameace dizer isso. Por isso, no Brasil de hoje, quem diz o óbvio costuma ser atacado com mais força do quem expressa o absurdo.

O que este promotor de justiça disse é absurdo, mas muita gente aplaude. Aplaude porque o ódio está na moda, especialmente entre os simpatizantes de forças políticas que vem sendo deixadas para trás pelo trem da história. Almejam descarrilar o futuro e, se possível, empurrar tudo de volta para trás. O reacionarismo precisa de muito ódio e violência, porque não é possível explicar racionalmente às pessoas porque elas devem abrir mão de tudo que tornou sua vida melhor nos últimos dez ou vinte ou trinta anos. O reacionarismo precisa subjugar porque não consegue convencer. Ele precisa de uma tropa de choque, e de um promotor previamente comprometido a arquivar os inquéritos contra os policiais que aceitem matar aqueles de quem o promotor discorda.

Cada dia que passa nós damos um passo rumo ao abismo. Episódios como esse nos mostram que o fundo do poço moral tem porão. Que não existem limites para a falta de ética, de cidadania e de responsabilidade. Quando um membro do judiciário exibe total descompromisso com a Lei, e mesmo com os princípios que norteiam a Lei, cabe perguntar como podemos confiar nessa justiça. Nessa justiça sem freios e sem controle externo, onde a punição para um discurso de ódio como esse se limita a uma “aposentadoria”.

Havia uma antiga piada contada por um amigo meu, estudante de Direito, segundo a qual a diferença entre um juiz e um advogado é que o advogado apenas acha que é Deus. Só uma piada de advogado, claro, mas esse promotor leva tudo isso muito a sério. Ele se arroga o direito de decidir sobre a vida e a morte de pessoas que não conhece, apenas porque simpatizam com um partido (isso segundo sua percepção, pois não há provas de que os manifestantes seriam exclusiva ou mesmo majoritariamente “petistas”). Se algum dia, em um curso de direito, houver a necessidade de exemplificar o que é “injustiça”, basta exibir o print dessa postagem desse promotor, que violou a constituição e se tornou um criminoso ao se tornar mandante de assassinatos (o fato de tais assassinatos não terem sido cometidos não diminuiu o fato de que ele os ordenou).

A continuidade deste promotor em seu cargo, após isso, é um estupro ao direito constitucional e uma cuspida na cara da sociedade. Principalmente porque, se ficar claro que um membro do judiciário pode cometer tal temeridade impunemente, a perspectiva é que, cada vez mais, as vozes das cavernas ousem berrar na cara do povo, especialmente do povo “petista” (ou seja, aqueles a quem os reacionários acusam de ser petistas) que eles não têm direitos.

O ovo da serpente já está no ninho. Resta saber se vamos ser tolerantes contra  a intolerância ou seremos capazes de mostrar organização para resistir ao desmonte da democracia por aqueles que têm saudades do tempo em que podiam dar “borrachadas” em quem protestava.

O Mundo Mudou, e Eu Não me Encontro Mais Nele

Quando eu era adolescente, a gente tinha uma intuição secreta de que todos mentiam para nós, o tempo todo. Sabíamos mais ou menos que estávamos saindo de uma ditadura, havia uma certa perplexidade com a televisão, que exibia nu frontal em propaganda do jeans Villejack e um busto feminino nu em uma propaganda de iogurte. Havia algumas vozes dissonantes na mídia: bandas de rock e pop que criticavam o «sistema» com versos que denunciavam a manipulação da opinião pública pelo governo: Plebe Rude, Capital Inicial, Lobão, Legião Urbana. Os mais comportados, claro, faziam mais sucesso: Kid Abelha, Biquíni Cavadão, Ultraje a Rigor, Marina Lima. Havia uma sensação generalizada de que era preciso questionar o que aparecia. Os «descolados» eram os que traziam esse ceticismo. Chamavam-nos a um canto e diziam: a televisão mente para você, o governo mente para você. As teorias de conspiração rolavam soltas, desde as de fundo místico, como o menino diabo paulista, até as mais politizadas, que diziam que as vacinas eram usadas pelo governo para marcar as pessoas. À medida em que fomos crescendo, essa desconfiança em relação à informação disponível nos levou a buscar conhecimento. Algumas dessas crenças e desconfianças desapareceram diante da luz dos fatos, outras apenas mudaram de forma.

Uma coisa, porém, a nossa geração tinha de sobra: vontade de mudar o mundo. Essa vontade ficou um pouco frustrada quando o palhaço do Fernando Collor, — que se elegeu com uma imagem de juventude e contestação, prometendo mundos e fundos mesmo depois de eleito — teve aquele triste fim. Alguns se despolitizaram, outros foram em busca de outros rumos. Mas é certo que a maioria continuou desconfiando da verdade fácil.

Mas aquela mídia que nós sabíamos que estava mentindo conseguiu continuar mentindo sem questionamento por tanto tempo que provocou um refluxo nesse estado de espírito. Os filhos da revolução que se tornariam burgueses sem religião e cuspiriam de volta o lixo em cima das elites acabaram se tornando adultos conformados, fãs de novelas e times de futebol, consumidores vorazes e apetitosos do lixo que o adolescente sentia ser forçado pela sua garganta abaixo, do lixo que queríamos vomitar. Se é verdade que a audiência televisiva diminuiu e que os jornais vendem menos, é verdade que estão hoje muito mais ousados do que nos anos oitenta. As pessoas parece que perderam o pudor não só em relação ao sexo, mas em relação ao ridículo. Imitam qualquer «dancinha» que algum grupo musical «novo» apresente em um programa de auditório, assimilam qualquer gíria de novela, macaqueiam qualquer estilo. Isso, claro, já existia nos anos oitenta, mas não era tão vigoroso: as pessoas faziam isso inocentemente. Hoje há quem o faça de propósito.

O mundo virou ao contrário. Se antes era chique duvidar, hoje é chique aderir. Adere-se à direita ou à esquerda como quem veste um estilo ou se filia a uma tribo urbana. Para a maioria, o importante é entrar em algum clima, refletir está fora de moda.

Então entrou em cena a internet. Aí a coisa ficou séria. Se ela teve o poder de facilitar a difusão de conteúdos alternativos, foi ela também a responsável pela difusão irrefletida de conteúdo. As lendas urbanas de minha adolescência, que se propagavam com a lentidão do disse me disse ao pé do ouvido, hoje se espalham como fogo no pasto no inverno. E as pessoas cada vez menos se importam em criticar o que repassam. Mesmo pessoas aparentemente bem informadas. Se um pedaço de conteúdo está de acordo com o que a pessoa já pensa, ela imediatamente o compartilha, sem pensar se aquilo ali procede. Com o tempo, mentiras vão se acumulando, turvando o horizonte da verdade. E o questionamento do conhecimento hegemônico é usado como ferramenta para reforçar este conhecimento hegemônico, só que on a computer,* o que, na opinião de muita gente, significa que ele é diferente. A velha manipulação midiática continua existindo, só que agora ela não é movida pela imposição dos jornais e do rádio, mas impulsionada pela própria irreflexão do povo.

Há coisas que as pessoas têm vergonha de admitir em público, como os seus preconceitos sexuais, raciais ou de classe. Estas coisas, porém, não causam a mesma vergonha on a computer. Alguém que jamais chama um negro de ladrão quando o vê na rua tem coragem de difundir supostos estudos comprovando que negros cometem mais crimes. Como as pessoas não verificam e não questionam, especialmente se a fonte for «alternativa», fica fácil criar factoides e transformá-los em «memes» na internet. O anonimato, e a difusão descontrolada, dificultam o desmentido. Se alguém o chamar de ladrão na internet não haverá como defender-se disso. Só que «a internet» não é um justiceiro mascarado idealista para apontar os erros do mundo.

Estas reflexões me vieram à cabeça quando uma pessoa que conheço, que regula idade comigo e que estudou História como eu, saiu compartilhando por uma rede social esta imagem:

Existem vários problemas com esta imagem, problemas que desaconselham que uma pessoa bem informada a compartilhe, especialmente se tal pessoa, além do benefício do conhecimento histórico, teve o azar de ser contemporânea do fato citado. Por uma questão de ideologia política (a pessoa em questão parece ter um claro alinhamento oposicionista em relação ao governo de centro-esquerda, a julgar pelo que anda compartilhando), este imagem foi passada adiante mesmo que para isso fosse preciso desconsiderar fatos históricos conhecidos e esquecer dores vividas na pele enquanto assalariado. E este esforço de esquecimento requerido para se compartilhar esta imagem me assustou com o nível de negacionismo que se tornou possível atualmente nesse país.

Ao tempo em que negam as conquistas reais de um governo que; com todas as suas falhas e incompetências, levou o país mais à frente do que o antecessor; procuram embasar isto com dados falsos ou interpretações superficiais.

O dado falso é o índice de 19,2%. Em maio de 2000 o salário mínimo aumentou de R$ 136,00 para R$ 151,00. Isso significa um aumento de 11,02% (façam a conta, amigos, os dados históricos do salário mínimo são fáceis de achar na internet). Portanto, é mentira que o aumento aprovado foi de generosos 19,2%. Se você acha que 8,18% são uma diferença irrelevante, apenas considere que o aumento de 19,2% teria elevado o salário mínimo a R$ 162,11.

No entanto, apesar de ser o mais gritante, por ser uma simples e verificável mentira, esse não é o problema mais grave. Afinal, uma pessoa tem o direito de se enrolar com números. Quem hoje se lembra de quanto era o salário mínimo há dez, doze, vinte anos? Não censuro minha amizade por causa disso. O que realmente eu não entendo é como pode ser possível esquecer as agruras por que passavam os assalariados naquela época, com um nível de vida lastimável, pois o salário mínimo legal não era suficiente para comprar nem uma cesta básica. Vivemos quase uma década e meia (de 1991 a 2003) reclamando que o salário mínimo era insuficiente e agora, de repente, pessoas que viveram esta época e fizeram esta reclamação, se esquecem disso e distribuem imagens celebrando os «grandes aumentos» que o salário mínimo teve naquela época.

Se isto não é uma campanha de desinformação articulada através das redes sociais, por pessoas muito bem informadas, contando com a irreflexão de quem o compartilha, então não existe campanha de desinformação. Se isto não é o bicho, o bicho não existe. Se tem duas patas, penas, bico, crista, asas, bota ovo e faz cocoricó e não é uma galinha, então galinha é um ser legendário.

Para os que nasceram depois, e não tiveram que sofrer uma década na esperança do mítico dia em que o salário mínimo chegaria a «cem dólares» (isso foi promessa de campanha de todos os candidatos a presidente até 2001), uma rápida consulta à mídia vendida ao «lulopetismo» nos mostra os dados: Um artigo de 16/02/2011 — um mês após o salário mínimo ter sido aumentado para R$ 540,00 (um aumento de 5,88%) — revela os valores históricos do salário mínimo desde a sua criação, atualizados para o real de 16/02/2011.

Quando criado, em 1940, o salário mínimo equivalia a 1.202 reais de 16/02/2011. Ele perdeu valor rapidamente até 1951, quando chegou a equivaler R$ 491. Então houve o polêmico aumento decretado por Getúlio Vargas e João Goulart, que valeu ao primeiro uma articulação de golpe de estado e ao segundo, a eterna pecha de «comunista»: o salário foi restaurado em seu poder aproximado de compra, para R$ 1.252. Este valor se manteve alto, com oscilações, até 1963, atingindo seu maior valor em 1959, sob Juscelino, R$ 1.732. Com a «Revolução» (ahã) de 1964 iniciou-se uma longa fase de baixo valor real, pois foi feito um grande expurgo de correção monetária. Os militares entregaram o salário mínimo equivalendo a cerca de R$ 603.

A aceleração da inflação após a redemocratização fez erodir ainda mais o valor do mínimo. Quando Fernando Henrique implantou o Plano Real, ele equivalia a R$ 346, cerca de pouco menos de um quarto do valor original. Sob Fernando Henrique presidente, o mínimo se manteve nos seus índices históricos mais baixos, chegando a equivaler a meros R$ 266 em 1996. O famoso aumento de maio de 2000, descontada a inflação, melhorou em R$ 7 reais o poder de compra do salário mínimo em relação ao valor de dois anos antes. Um aumento merecedor do gesto de desdém protagonizado por José Dirceu, Aloízio Mercadante, Ricardo Berzoini e de todos os brasileiros, petistas ou não. Houve até aliados do presidente que criticaram o aumento tão baixo.

A série histórica mostra que após a virada política de 2001 o valor do mínimo só fez aumentar, com correções sempre acima da inflação. A ponto de este aumento ter efeitos sobre o mercado de trabalho, com a quase extinção das domésticas (que ganhando mais podem investir em sua formação e buscar outras profissões menos degradantes), entre outros efeitos amplamente estudados e conhecidos. O governo petista pode ter seus pecados, mas ele certamente fez por merecer os altos índices de aprovação de que goza porque melhorou o poder de compra do assalariado, restando a quem se opõe a ele inventar mentiras e manipulações, contando com a irreflexão dos internautas para difundi-las como ser verdade fossem.

Alguns dizem que o governo, com medidas redistributivas como essa, está «comprando sua aprovação». Eu não entendo o que se passa na cabeça de quem pensa assim, pois me pareceu sempre óbvio que a aprovação de um governo é resultado de ele atender às demandas legítimas do povo e melhorar a vida de todos. Melhorar a vida do povo sempre rendeu votos. Isso não é demagogia. Dinheiro no bolso não mente. Salário maior não mente. E então não é demagogia essa «compra de aprovação». Estranho é alguém supor que um governo deva ser aprovado sem nada fazer para melhorar o padrão de vida dos eleitores.

O que mais me deixa triste nisso tudo é que as pessoas deixam de criticar as verdadeiras falhas que esse governo tem, e ficam inventando mentiras para desacreditar os seus acertos. Talvez seja porque uma crítica construtiva ao governo possa resultar — ó que horror — em um aperfeiçoamento dessas políticas de empoderamento do povo e melhora do seu nível de vida. Melhor fazer piadinha no Facebook. Afinal, essa droga de povo já levantou demais a crista.

* Sátira ao sistema americano de patentes, que parece estar disposto a considerar como novas invenções a implementação informática de coisas triviais.

Em Defesa do Indefensável, Novamente.

O site www.ceticismo.net (que usurpa o nome para difundir ignorância, preconceitos e desinformação) novamente passou dos limites do tolerável (se é que se pode tolerar estes elementos diuturnamente). A primeira vez tinha sido quando, sob o pretexto de atacar uma decisão equivocada da justiça, André cometeu injúria racial contra o povo cigano, episódio documentado aqui no Arapucas.


Desta vez o «André» partiu em defesa do colunista Walter Navarro, demitido do jornal mineiro O Tempo por ter escrito um verdadeiro libelo contra os índios guarani-kaiowá (e contra os indígenas em geral) e ter, de forma muito previsível, ofendido a sensibilidade dos leitores do jornal (pois, aparentemente, entre os mineiros ainda não se encontra nem tão difundido e nem tão arraigado o tipo de racismo hidrofóbico praticado por certos colunistas de outros estados da federação). Defender alguém pelo que escreve implica em defender também o que foi escrito, a menos que nos dediquemos a deixar bem claro a separação entre a defesa do homem e a defesa da obra, coisa que André não fez.

Quando digo que o André é um idiota eu me refiro ao sentido grego do termo: ele está focado exclusivamente em si, sentado no próprio rabo, e não tem uma compreensão do outro (ou da «alteridade», como diria um filósofo). Esta idiotia o leva à falta de empatia, que o impede de compreender as motivações de pessoas que estejam fora de seu contexto cultural imediato. Em suma, André é um provinciano (mesmo que seja urbano): ele mede o tamanho do mundo com a régua de sua ignorância.

Ignorância, aliás, que ele exibe, sem nenhuma vergonha, em mais de um parágrafo do texto. Aliás, parece que André a considera uma virtude, um tipo de «poder mental» que o capacita a desqualificar o que não entende. Quer um exemplo?

Bem, você nunca ouviu falar nessa tribo antes das notícias (inclusive esta aqui) e é bem provável que até depois do feriado já tenha esquecido.


Se André e seus leitores nunca ouviram falar dos guarani-kaiowá (em minúsculas, pois em português os nomes de etnias e povos são escritos assim), isto deveria lhes sugerir a necessidade de buscar esta informação antes de emitir opinião. Infelizmente não é assim que funciona o Ceticismo.net. Essa coisa de buscar informações antes de emitir opiniões é coisa de «esquerdista» e de «intelectualóide». Se eu  não conheço é porque é irrelevante, porque não presta.

O pior de tudo é que há muitas pessoas que repercutem esse discurso raso pela internet, não apenas concordando com ele, mas dizendo-se «cem por cento de acordo» (estar «cem por cento de acordo» com um texto é uma prova de falta de autonomia intelectual, porque dificilmente um texto coincide «cem por cento» com nossas opiniões, ideias e conhecimentos). Se você que me lê também achou que o André «mandou bem», isto é um sinal de que você também é ignorante, pois não conseguiu, com as informações que tinha, perceber as falácias e as bobagens outras ditas pelo André.

Digo «pior de tudo» porque já cheguei à conclusão de que o André está adotando a «postura da vaca» em relação a tudo isso (cagando e andando) porque tudo que quer é criar polêmica com base nas notícias mais comentadas do momento, a fim de atrair tráfego para ganhar dinheiro com os cliques em anúncios (algo não muito diferente do que eu faço aqui, só que eu procuro ser mais responsável e não espalhar nem preconceito, nem desinformação e nem coisas que eu reconheça como falsas). Ou seja: o André está oferecendo capim para quem gosta de capim, e está ganhando AdSense com isso. É imoral? Pode até ser, mas o pior não é que ele escreva, é que haja tanta gente receptiva isso, a ponto de ele ganhar dinheiro oferecendo esse feno.

Passemos agora a analisar o conteúdo propriamente dito do artigo do Ceticismo.net (aliás este termo vai para o glossário).

Bem, você nunca ouviu falar nessa tribo antes das notícias (inclusive esta aqui) e é bem provável que até depois do feriado já tenha esquecido.

O caso dos guaranis-kaiowá é conhecido pelo menos desde 1989 (quando a Rede Manchete fez um «Documento Especial: Televisão Verdade» sobre eles, aproveitando a onda da novela Pantanal. O caso atual não começou ontem, mas é o clímax de uma situação que começou há pelo menos um ano.

Mesmo que ninguém nunca tivesse ouvido falar do caso, porém, isto é irrelevante. Um povo não precisa estar na mídia para ter direitos. O direito não é afetado (ou não deveria ser, em um mundo ideal) nem pela popularidade e nem pelo poder de influência econômica das partes. Os guaranis estão reivindicando algo cuja justiça deve ser apreciada pela justiça, com base em informações e documentos, e não julgado por colunistas ignorantes do assunto. A lógica do André, porém, nos diz que se você não é famoso, então foda-se.

Gente se matando por causa da perda de terras é algo que eu acho estúpido.

Se eu quisesse ser realmente deselegante eu diria que o que «acham» de um tema as pessoas que se mostram ignorantes dele não merece nenhuma consideração. Aliás, pensando bem, eu quero ser deselegante sim, porque o Ceticismo.net merece: se você desconhece um assunto, o que você diz sobre ele não tem valor algum.

Digo mais: se você não conhece um tema, tudo que você «acha» sobre ele está errado, e todos que concordam com você são, no mínimo, tão ignorantes quanto você. Como pode alguém que usa o nome de Ceticismo.net não compreender que opiniões e conclusões precisam de embasamento em informações? É por isso que eu comecei esse artigo dizendo que o Ceticismo.net usurpa o nome.

Estúpido é julgar os atos de membros de uma cultura diferente da sua, sem sequer conhecer o que está acontecendo (visto que ele próprio admite nunca ter ovuido falar do caso). Estúpido é largar uma achologia desinformada. A lógica? Eu nunca ouvi falar disso, mas acho estúpido.

Entrou em cena um monte de gente sem muito o que fazer e resolveram protestar a favor de um bando de índios, cuja tribo não é muito diferente da tribo do Raoni ou mesmo do Touro Sentado.

Uma das primeiras arjumentações desqualificativas empregadas pelo André contra as pessoas de quem discorda é dizer que são pessoas «sem o que fazer». Pessoas sem o que fazer protestam em favor de índios. Pessoas sem o que fazer fazem greves. Pessoas sem o que fazer protestam contra guerras. Pessoas sem o que fazer exigem respeito aos seus direitos. Pessoas sem o que fazer, em suma, tentam mudar o mundo. Viva as pessoas que não têm o que fazer! Que menos gente no mundo esteja ocupada demais consigo que não tenha tempo de ocupar-se do outro!  Que bom que sobra a muita gente tempo suficiente para erguerem a cabeça das cangas e cochos que a vida lhes impõe, para olhar longe, pensar com mais discernimento e procurar melhorar o mundo.

De tudo, porém, o que menos entendo é de que forma a comparação do «bando de índios» com a tribo do Raoni ou a do Touro Sentado seria uma desqualificação. Raoni é um líder indígena respeitado até internacionalmente, mas talvez o André se incomode com o seu botoque (bem, eu jamais me poria um, mas a boca é do índio, e ele que faça dela o que quiser). Touro Sentado é um personagem histórico fascinante, heróico até. Só parece vilão sob a ótica do faroeste, que, aliás, também achava que índio bom era índio morto. Touro Sentado merece respeito, muito respeito. Aliás, vou acrescentar uma foto dele na barra lateral deste blogue.

Walter Navarro trabalhava no jornal «O Tempo», um jornal tão importante quanto… sei lá, nunca ouvi falar dele antes.

Novamente André medindo o mundo com a régua de sua ignorância. Se ele não conhece, então não é importante. O mundo gira em torno de seu umbigo. Muito prazer, senhor ignorante. «O Tempo» é o segundo maior jornal de Minas Gerais, depois do Estado de Minas e um poucochinho à frente do Hoje em Dia.

Em seguida André transcreve na íntegra o libelo de Walter Navarro contra os indígenas em geral, e contra os guarani-kaiowá em especial. Isto é bom, pois significa que o Ceticismo.net não pode alegar que defendeu a liberdade de expressão do autor, sem se ater ao conteúdo em si do que ele escreveu. Ao defender enfaticamente a liberdade de expressão do autor, sem dedicar uma linha de crítica sequer ao texto dele, o André está obviamente endossando, ou, no mínimo, não vendo motivo para crítica, naquilo que foi escrito. E me surpreenderia muito se o André tivesse alguma discordância, haja vista o que ele já escreveu, em outra oportunidade, contra os ciganos.

André novamente comete o mesmo erro do artigo contra os ciganos, ao julgar a dignidade (ou o direito à dignidade) de um povo com base em seu desenvolvimento tecnológico e/ou suas realizações culturais na História. A lógica disso é que se determinado povo não tem realizações significativas, então ele pode ser exterminado porque defendê-los é ser social-intelectualóide.

A defesa do artigo de Walter Navarro confunde liberdade de expressão (o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos) com liberdade de imprensa (capacidade de um indivíduo de publicar e acessar informação através de meios de comunicação em massa, sem interferência do estado). Todos sabemos que o primeiro deve ser ilimitado porque isto é um princípio basilar da democracia. Mas o segundo, não necessariamente.

A liberdade de expressão é um direito individual, que envolve um ato privado (ou de alcance limitado e controlável): você diz o que quer, para quem quer, onde quer. A liberdade de imprensa é um direito coletivo, que envolve um ato público. Direito coletivo porque quem tem o direito à liberdade de imprensa não é só o jornalista que escreve, mas o público que o lê. A publicação é um ato público (dããã) e de alcance ilimitado (no espaço e no tempo) e incontrolável (todos leem em todos os lugares, e tudo tem o potencial de ficar para a posteridade). Isso quer dizer que a palavra publicada, devido ao impacto que tem sobre outras pessoas e sua capacidade de influenciar a opinião pública, deve ser usada com responsabilidade.

Responsabilidade quer dizer que um meio de comunicação de massas não pode ser usado para difundir o ódio, ou corre-se o risco de produzir algo como o genocídio ruandês. Eu sei que o André ignora isso, aliás, eu não posso partir do pressuposto de que ele conheça qualquer coisa que esteja fora de seu pequeno mundinho, mas é fácil encontrar na internet informações sobre como o discurso do ódio contra os tutsi, iniciado por políticos demagogos, saiu do controle, contaminou a cultura popular, dominou os meios de comunicação de massa e gerou um clima irrestrito de ódio contra a minoria, a ponto de as estações de rádio e TV, no auge do evento, terem utilizado seu jornalismo para orientar o genocídio, informando sobre locais onde os refugiados se escondiam, caminhos que usavam para fugir etc., e ensinar técnicas para praticá-lo. Não sei se vocês notaram, mas eu nem precisei falar do III Reich para exemplificar como a liberdade de imprensa precisa ser exercida com responsabilidade! Godwin, Godloses!

De que forma podemos compactuar com um colunista que escreve que «índio bom é índio morto». Como defender alguém que diz isso? Se a liberdade de imprensa permite que isto seja dito, então melhor limitar a liberdade de imprensa, pois um direito (à liberdade de imprensa) não pode ser exercido à custa de todos os outros direitos (entre os quais o direito dos indígenas à vida, à liberdade e à dignidade enquanto seres humanos — direitos esses que precedem a liberdade de imprensa em importância). Absolutizar a liberdade de imprensa desta forma é uma coisa inexplicável, a não ser que você compactue com o que está sendo expresso e esteja protestando não contra a restrição em si, mas contra a repressão das ideias expressas.

Além disso, os jornais já praticam uma forma de censura, que é a de limitar seus textos aos que se alinham com o pensamento («linha editorial») dos donos. A linha editorial, obviamente, procura analisar o comportamento dos leitores, pois o jornal vende mais quando os agrada. Isso quer dizer que a suposta liberdade de imprensa (do jornalista) já se encontra restrita pelas determinações do patrão. Contra isso o Adnré não comenta nada. O Walter foi demitido pelos donos do jornal porque estes perceberam que o seu discurso reacionário e racista seria rejeitado pelo público leitor mineiro. Isso equivale a uma gravadora demitir um artista que não vende. Se o André achou a demissão um absurdo, que proteste com os donos do jornal «irrelevante». Só faltou culpar o «governo do PT» pela demissão.

Basicamente André ficou revoltado porque um colunista que escreveu um texto que ofendeu a muita gente foi demitido de seu jornal. O errado em sua defesa do Walter Navarro é ele justamente não compreender porque as pessoas se ofendem. A tal falta de empatia, gerada pela falta de noção de alteridade que mencionei lá no começo. Ele não compreende porque não se solidariza com a causa indígena. Ele não se solidariza porque não compreende como seres humanos aqueles que são diferentes de si, quer na aparência física quer na cultura. Ele não compreende porque é ignorante, fechado em seu mundinho urbanoide de kitchenettes, elevadores e automóveis. Ele é ignorante porque não busca conhecer culturas diferentes da sua.

No fundo o que ecoa de seu texto é um ódio às minorias que não tem jornal para se defenderem. Ele não compreende as razões da revolta dos mineiros contra o artigo de Walter Navarro porque não enxerga os indígenas como seres humanos, ao menos não como humanos semelhantes seus. Por isso ele não vê problemas em uma declaração como essa:

Como diriam o Marechal Rondon e os irmãos Villas Boas, “Índio bom é índio morto”! “Matar, se preciso for, morrer, nunca!”.

Obviamente Walter Navarro sabe quem disse a frase «índio bom é índio morto». Então quando ele a atribui ao Marechal Rondon ele está espalhando desinformação. E, obviamente, os comedores de capim em breve estarão difundindo no Facebook a frase com esta autoria alterada. Para você que não sabe, e não quer ser confundido com um herbívoro ungulado, o autor foi o general Phillip Sheridan, um dos maiores genocidas das guerras indígenas dos Estados Unidos. Responsável por vingar a morte de outro genocida, George Armstrong Custer. A atribuição equivocada da frase também aos irmãos Villas-Boas, que ainda estão vivos, pode ser objeto, inclusive, de ação penal por difamação. Mas Navarro conta com a imunidade da imprensa, que, no Brasil, tem a liberdade de demolir reputações impunemente.

O artigo original também é desinformado a respeito das origens dos topônimos tupis pelo Brasil afora:

Tudo em São Paulo tem nome de índio. Consciência pesada dos bandeirantes: Anhanguera, Ibirapuera, Canindé, Aricanduva, Morumbi, Jabaquara, Tucuruvi, Tatuapé e agora Haddad, da tribo dos Ali Babás… Ô raça!


Aparentemente nem Walter Navarro e nem o Ceticismo.net sabem (aliás, o tamanho do que o André não sabe é praticamente cósmico) que esses nomes não se devem à «consciência pesada» dos bandeirantes (que, diga-se de passagem, tinham menos remorsos de matar índios e escravizar do que o general Sheridan), mas ao fato (conhecido até de quem só lê os livros didáticos de história do Brasil) de que os habitantes de São Paulo, até pelo menos o terceiro quarto do século XVIII, falavam nheengatu (um dialeto tupi) em vez de português. Inclusive os bandeirantes. Isso explica a existência (ou até prevalência) de topônimos tupis pelo país afora, inclusive em regiões que não eram originalmente habitadas por tribos tupis, como Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Tocantins e o interior do Nordeste.

Walter Navarro ainda aproveita o artigo para dar uma passadinha em São Paulo e escrever isso para falar mal do PT:

É assim: Lula liga pro Zé Dirceu, que liga pro Gilberto Carvalho; daí pro Genoíno, que liga pro Marcos Valério, que liga pros presídios e manda matar o Celso Daniel; quer dizer, matar policiais e concorrentes, em troca de banho de sol, visita íntima e regalias mensais.

Isto é algo muito grave, porque é uma acusação séria e irresponsável. O Walter Navarro está acusando pessoas públicas, inclusive um ex presidente da república, de conspirarem com o crime organizado para matarem pessoas (200 só nestes últimos trinta dias na capital paulista) por razões políticas (obviamente). Não é o tipo de coisa que um jornalista, em um jornal sério, em um país sério, escreveria sem ter em mãos provas contundentes. Um jornalista americano que escrevesse isso sem ter provas seria não somente demitido como, provavelmente, terminaria atrás das grades ele mesmo. No entanto, a flacidez de nossas leis permitem que um colunista levianamente avente essa hipótese e saia impune (pelo menos o jornal o demitiu). Infelizmente parece que há entre nós uma tolerância com a mentira, a leviandade e as acusações infundadas, desde que em nome de uma boa causa. Isso transforma os debates de nossa imprensa em um duelo de ficções ideologicamente opostas, com predominância da ideologia direitista dos grandes empresários do setor. Como diria Raul Seixas (esta citação não é apócrifa): «Eu não preciso ler jornais / mentir sozinho eu sou capaz».

Ao acusar pessoas públicas de conspirarem para cometer crimes, Walter cometeu crime. É bom Walter ter provas de que é Lula que está mandando o PCC matar em são Paulo, porque se não pode ser processado por calúnia (ou algo assim, não sou advogado).

Outro parágrafo lindo do texto do Walter, que o André defende porque ecoa o mesmo tipo de racio símio empregado pelo Ceticismo.net no célebre artigo dos ciganos, é esse aqui:

Os guaranis kaiowá não passam de recolhedores de mel no meio do mato. É o povo mais primitivo do mundo, nem chegou à Idade da Pedra. Petistas “avant la lettre”! Comem cupim. Intimidam até malária! Pigmeus, parecem formigas gigantes e caracterizam-se pela insuportável pneumatose intestinal, o que faz deles companhia deveras desagradável.


Já que os guaranis são poucos e pobres, então podemos falar mal deles. Podemos dizer até que «parecem formigas» (desumanização) e que todos peidam fedendo (imagino que os peidos do Walter têm cheiro de Chanel nº 5). Se, como disse o Nihil Lemos, não existe racismo nenhum aí, então não existia racismo nenhum no Mein Kampf. Bem, tive de recorrer ao III Reich. Godwon!

As ideias de André e seu Ceticismo.net são muito mais reacionárias e chauvinistas do que parecem. De fato, se você olhar bem, notará que ele possui uma certa aversão ao direito e uma idolatria pela força bruta. Isso deve, aliás, ter um sentido mais profundo — que não vou explorar porque detesto o tal Godwin. Por enquanto apenas olhe a figura à esquerda e pense.

Mas a ideia da força bruta como legitimação de um argumento, ou como medida de valor, parece estar se popularizando na internet recentemente. O que não deixa de ser esperado, visto que might is right é uma ideologia fascista típica, e o fascismo anda em alta no mundo virtual recentemente.

Para André e seu Ceticismo.net, a força/poder empresta legitimidade e valor ao seu possuidor. Isso, claro, é um argumento irracional tão escroto que a usurpação do termo «ceticismo» pelo André se torna ainda mais evidente. Vejam só esta pérola:

Da mesma maneira, se eu disser que hebreus nunca foram expressivos em termos de civilização, a ponto de terem sido chutados para tudo que é canto na Palestina o século 6 A.E.C, não é racismo. Eles até desenvolveram boas tecnologias, mas não eram páreo para o Egito, Assíria e Babilônia.

Observe que o André está julgando as civilizações do Antigo Oriente Próximo com base em seu poderio militar e nas tecnologias que desenvolveram. O fato de os povos da Palestina terem inventado o alfabeto, graças ao qual esta anta está agora difundido merda pela internet, é irrelevante. Bom mesmo é pegar no tacape e amassar a moleira do inimigo. É como se o André, a exemplo dos marombeiros autores desta imagem, estivessem dividindo os povos entre «povos nerds» (que [só] inventam coisas intelectuais, como alfabetos, religiões, filosofia, sistemas éticos, ciências) e «povos sarados» (que [também] inventam coisas como armas, exércitos, guerras e afins). Como disse um marombeiro no Facebook, em reação a críticas feitas à imagem inclusa (correção gramatical e ortográfica aplicada):

Lógico que as pessoas que treinam possuem infinita vantagem sobre um nerd cabaço, e exatamente por isso cidadãos desse naipe deveriam respeitar quem treina, para preservar sua integridade física e moral. Ou então quem treina tem que se submeter à idiotas como esses? Não, pelo simples fato de poder mandá-los para a UTI.


Logicamente os hebreus (que, diga-se de passagem nunca foram tão numerosos) jamais seriam páreo para os egípcios ou os mesopotâmicos. A simples disponibilidade de água em abundância permitia que tais povos fossem mais populosos — e isso indicava uma prevalência militar na antiguidade, tanto quanto possuir mais músculos indica uma prevalência física no mundo de hoje, se você tirar armas de fogo da jogada. Mas o André julga os hebreus «menos expressivos em termos de civilização» do que os assírios, por exemplo, com base exclusivamente no fato de que os assírios exterminaram mais da metade dos poucos hebreus que havia em 722 a.C.

Essa idolatria fascista da força é o que justifica desumanizar e desqualificar os indígenas, que são poucos, não tem jornais e não tem armas de destruição em massa. É o que justifica propor seu extermínio, devido à sua irrelevância. Essa é a lógica egoísta e fascista que está se popularizando na internet, e que este blogue, humildemente, se propõe a combater.

O PT e seu Projeto de Perpetuação no Poder

Todo reacionário nutre uma espécie de desprezo absoluto pelo Partido dos Trabalhadores e tudo o que ele representa, de bom ou de ruim, indistintamente. O PT só é unanimidade entre os reaças: eles o detestam sem ressalvas. Uma das muitas acusações que é feita contra o partido é que possui um projeto de perpetuação no poder. Tão forte é essa «acusação» que ela já transbordou dos núcleos mais duros do reacionarismo e atingiu o mainstream político. Hoje você vê políticos de várias correntes oposicionistas e veículos da grande imprensa dando vazão ao conceito de que existe uma tentativa «lulopetista» de eternizar-se na presidência. Para uma acusação que começou com Olavo de Carvalho e Merval Pereira (o imortal que não escreveu nenhuma obra literária) é até uma difusão surpreendente.

 Trata-se, porém, de uma acusação absurda, se você parar para analisá-la em seus próprios termos.

Em primeiro lugar, as ressalvas habituais (melhor aqui do que em notas de rodapé que ninguém lê): não sou petista, não tenho procuração para defender o governo (e nem obrigação moral) e não acho que tudo que se fez no Brasil lulista de 2002 para cá esteja certo. Não, não e não. Feitas as ressalvas, e também enfatizando que não  tenho informações privilegiadas, passo ao caso.

Imagino que todos os partidos políticos tenham projetos de perpetuação no poder. Considero que faz parte do jogo político a ambição de ganhar sucessivas eleições e manter-se no controle indefinidamente. Não acho que existam partidos que planejem perder a próxima eleição e entregar seus cargos aos adversários em nome de uma «alternância do poder». Creio que esta se faz pela vontade do povo, se e quando o povo quiser. Não cabe a nenhum partido decidir que não quer mais que o povo o queira. Tanto isso é verdade que no mundo todo existem casos de longos predomínios de partidos políticos em regimes democráticos:

  • O Partido do Povo da Áustria (ÖVP) manteve-se no poder, sozinho ou em coligação, por 16 anos (1946-1971), ao que se seguiu um longo predomínio do seu principal adversário, o Partido Social Democrata Austríaco (SPÖ), entre 1971 e 2000.
  • A Noruega foi governada pelo Partido Trabalhista entre 1936 e 1981, exceto durante a II Guerra Mundial (sob ocupação nazista) e por breves intervalos nos anos 1960.
  • Os Estados Unidos foram governados pelo Partido Democrata entre 1933 e 1953.
  • A  Grã Bretanha foi governada pelo Partido Conservador entre 1979 e 1997.

Nenhum desses casos foi apresentado como um risco à democracia (embora eu afirme isso com grandes ressalvas no caso britânico).

É natural que os partidos possuam «projetos de perpetuação no poder» quando eles possuem projetos de longo prazo, visões estratégicas que ultrapassam a eleição seguinte. Se nós justamente criticamos a miopia de nossos políticos, deveríamos festejar que alguns pensem no futuro mais distante.

Disso resulta que a existência de tal projeto não é nenhum mal em si. Mal haveria se o pensamento de perpetuação fosse acompanhado de estratégias para solapar a democracia, limitar a expressão da vontade do povo e estabelecer um autoritarismo. Enquanto existirem eleições livres, garantias constitucionais, livre acesso à justiça e integridade das instituições, não há mal nenhum em um partido ganhar eleições seguidamente. Um dia o povo cansa.

Esta acusação é, porém, muito reveladora das limitações intelectuais e programáticas de nossa oposição. Incapaz de pensar a longo prazo, refém de medidas paliativas, que visam à próxima eleição apenas, ela estranha que algum partido conceba uma visão de futuro que descortina um horizonte mais longo.