Zeitgeist Desmascarado

Artigo anônimo publicado no blogue socialista britânico “Third Estate”. Traduzido por José Geraldo Gouvêa (com ajuda do Google Translator, dada a urgência). Todas as notas de rodapé escritas pelo tradutor.

Esta tradução é a primeira de uma série que contribuirei ao blogue Universo Racionalista com o objetivo de informar à comunidade cética nacional sobre o modo como o filme Zeitgeist e o movi­mento derivado a partir dele são vistos e analisados pelos sítios de movimentos céticos gringos. Praticamente não existem análises independentes em português sobre o filme. É surpreendente que, quase quatro anos após minhas críticas iniciais ao filme Zeitgeist, não tenha surgido na blogosfera cética brasileira nenhuma análise mais profunda do filme — em vez disso vão surgindo simpatizantes do Movimento Zeitgeist tentando usar os blogues céticos para difundir suas ideias.

Acredito que parte do problema deriva da falta de respeito com que, tradicionalmente, os céticos brasileiros encaram as ciências humanas, a História principalmente. O seu conceito delas já é previamente direcionado a considerá-las inconfiáveis e presas da ideologia (no pior dos casos o indivíduo considerará que as ciências sociais são marxistas ou parte de um Grande Plano frustrado de implantação do comunismo) — o que explica a popularidade de “filósofos” como Olavo de Carvalho. Temos um caldo de cultura favorável à desqualificação do conhecimento e receptivo a teorias de conspiração que consigam se disfarçar de iconoclasmo

Espero que a continuidade deste projeto sirva para ensejar um debate mais maduro sobre o filme Zeitgeist e o Movimento criado a partir dele. Um debate no qual as estratégias diversionistas e as falácias sejam desmascaradas honestamente, e do qual os leitores de mente aberta saiam com mais conhecimento do que entraram.

Links importantes

  • http://thethirdestate.net/2010/03/zeitgeist-exposed/ (fonte do artigo em inglês)
  • http://www.biblebelievers.org.au/przion1.htm (edição atualizada dos Protocolos)

No romance policial clássico de Agatha Christie Os Assassinatos ABC, o detetive Hercule Poirot se sai com a seguinte frase:

Quando você menos percebe um alfinete faltando? Quando se está em uma almofada de alfinetes. Quando você menos nota um assassinato específico? Quando faz parte de uma série de assassinatos relacionados.

Eu gostaria de expandir um pouco o raciocínio de Poirot:

Quando você menos nota uma teoria da conspiração extremamente perniciosa e perigosa? Quando estiver incluída em um filme de duas horas, entre muitas outras teorias da conspiração.

Ao longo do último ano um número de pessoas já me disseram que eu deveria assistir Zeitgeist: The Movie. Todas estas pessoas de esquerda ou inclinadas à esquerda, e cada uma me disse que o filme dá uma boa ideia das estruturas de poder no mundo moderno. Essas pessoas pertencem a uma grande variedade de origens e idades, algumas delas ambientalistas, algumas sindicalistas, alguns socialistas, algumas britânicas, algumas americanas. O filme alcançou índices de audiência em massa a nível mundial, com mais de 3.000.000 de pessoas assistindo-o no YouTube, e muitos mais em DVD ou Google Video. E de todas as pessoas que recomendaram o filme para mim, ninguém notou sua dependência em relação ao velho mito da “conspiração judaica mundial”. Neste artigo espero expor a relação do filme com textos e mitos antissemitas mais antigos e ver mais de perto como essas teorias são feitas para enganar os esquerdistas. Gostaria de explicar porque esse filme se tornou tão atraente para pessoas que, de outra forma, estão envolvidas no bom combate contra o capitalismo, contra a guerra e para salvar o meio ambiente. Estou particularmente interessado na relação entre o filme e um livro chamado Os Protocolos dos Sábios de Sião e com o uso de outros temas antissemitas que existiram ao longo da modernidade.1

Zeitgeist: The Movie é dividido em três partes: A primeira centra-se na relação entre a simbologia astrológica e da história de Jesus, o segundo a respeito da “verdade sobre o 11/9” e o terceiro sobre mercado financeiro internacional. Em toda a honestidade a primeira parte não tem muita importância. O argumento é que o cristianismo não é original na sua forma particular de mitologia, e em vez disso é uma reconfiguração dos mitos mais antigos focando sol deuses. Se vamos ou não tomar esse argumento como verdade tem muito pouco impacto sobre a forma como entendemos a sociedade moderna. A segunda parte do filme expõe uma teoria que 9/11 foi um trabalho interno, cometido pelo Estado americano. Muitas pessoas acreditam nisso em sério, e muita da informação é inacessível, mas o argumento que eu gostaria de fazer é que essas duas teorias da conspiração são, em muitos aspectos, sem consequências para o sentido geral do filme. Ao contrário, são usadas ​​como cortina de fumaça para justificar a difusão de material antissemita na seção final do filme.

O que São Os Protocolos dos Sábios de Sião?

Trata-se de um livro publicado pela primeira vez por volta da virada do século XX na Rússia. É um documento fraudulento e fictício, feito para ler como se fosse a troca de informações entre diver­sos grupos de judeus influentes que planejam dominar o mundo. Ele sugere que o povo judeu pre­tende dominar o mundo através de um processo de controle dos governos, da imprensa e dos ban­cos, enganando a população em geral. A alegação é de que os judeus pretendem escravizar o mundo através da criação de um “governo mundial”. É claro que o texto é profundamente antis­se­mita, e foi demonstrado várias vezes como uma falsificação,2 mas tem sido utilizado de forma con­sistente em todo desde então para justificar as atrocidades cometidas contra judeus. Além disso, continua popular em algumas partes do mundo, e entre algumas organizações de direita e grupos fascistas.3

A relação entre dois textos

É bastante fácil encontrar evidências de que há uma grande influência dos Protocolos dos Sábios de Sião sobre o conteúdo de Zeitgeist. Dá para encontrar até citações. Por exemplo, quando Zeit­geist diz que “os banqueiros internacionais têm agora uma máquina eficiente para expandir as suas ambições pessoais”, os Protocolos dizem que “as engrenagens das máquinas de todos os esta­dos são movidas pela força do motor, que está em nossas mãos, e o motor da máquina de nossos estados é o ouro”. Mas gostaria de dizer que esse tipo de crítica não vai longe o suficiente. Em vez disso gostaria de mostrar que todo o argumento da terceira seção do filme foi levantado a partir dOs Protocolos. É o mesmo argumento, muitas vezes em linguagem ligeiramente alterada, e é por isso que parece tão antissemita. Vou me concentrar em cinco aspectos particulares.

O Governo Mundial

Um dos grandes temores dos teóricos da conspiração é um governo mundial. Este ponto é expli­cado claramente na parte final do Zeitgeist em uma discussão sobre uma União da América do Norte, uma união asiática, a União Europeia, e uma União Africana. Até que, finalmente, se diz que “quando for a hora certa, elas vão se fundir e formar as fases finais do plano em que estes homens têm estado a trabalhar há mais de 60 anos: Um governo mundial… Um banco, um exér­cito, um centro de poder.” Este argumento é particularmente relacionado com a abertura do Pro­tocolo 3, em que lemos:

Hoje posso dizer que a nossa [dos judeus] meta agora está apenas a poucos passos. Resta somente um pequeno espaço a atravessar no longo caminho que temos trilhado antes que ciclo da Serpente Simbólica, por que nós simbolizamos nosso povo, seja concluído. Quando este anel se fechar, todos os Estados da Europa estarão bloqueados em seus anéis como em uma poderosa prisão.

Os Protocolos continuam no Protocolo 5:

Por todos esses meios vamos assim desgastar os goyim [não-judeus] até que eles sejam obrigados a oferecer-nos poder internacional de uma natureza que nos permitirá absor­ver todas as forças estatais do mundo e formar um Super-Governo.

O uso da guerra

Há uma seção no filme em que se afirma que as justificativas para os Estados Unidos entrarem em uma série de guerras mundiais foram orquestradas por “homens por trás do governo.” Dizem-nos que o naufrágio do Lusitânia foi planejado, que o incidente do Golfo do Tonkin nunca aconteceu, que se sabia sobre Pearl Harbor com a devida antecedência4 e é claro que 11/9 foi um trabalho interno. Diz-se que ambos os lados do conflito têm sido financiados pelos mesmos “banqueiros internacionais”. Esta seção do filme é levantada diretamente do protocolo nº 7, que diz:

Ao longo de toda a Europa, e por meio de relações na Europa, e também em outros con­tinentes, devemos criar fermentos, discórdia e hostilidade. É assim que ganhamos uma dupla vantagem. Em primeiro lugar, manter sob controle todos os países, pois bem eles sabem muito bem que temos o poder de criar distúrbios quando quisermos e res­taurar a ordem… Precisamos ficar em uma posição para responder a todos os atos de oposição pela guerra com os vizinhos do país que ouse se opor a nós, mas se esses vizinhos também se aventurarem a ficar coletivamente contra nós, então devemos oferecer resistência pela guerra universal.

Não vou negar aqui que guerras foram travadas cinicamente, porque é claro que foram, e também não estou dizendo que não deveríamos nos opor a certas guerras só porque outras guerras mere­ceram nossa oposição. O ponto aqui é, porém, que esse argumento em particular sobre a guerra, baseado na ideia de que os judeus mandam no mundo, deveria ser jogado fora.

Manipular a população

Existem dois tipos de pensamento nas teorias clássicas da conspiração judaica sobre a forma como as pessoas são feitas de bobas e enganadas. O primeiro, e o que foi realmente mais significativo na história das teorias da conspiração judaica, é a ideia de judeus controlando os meios de comuni­cação. O segundo, que se tornou menos utilizado, mas ainda existe em Zeitgeist: The Movie é a ideia de controle judaico do sistema de ensino para torná-lo ineficaz.

A questão do controle judeu da mídia é coberto no Protocolo 12, em que está escrito:

Nem um único anúncio chegará ao público sem nosso controle. Mesmo agora isso é alcan­çado por nós na medida em que todas as notícias são recebidas por algu­mas agên­cias em cujos escritórios são focadas de todas as partes do mundo. Tais agên­cias então já serão inteiramente nossas e darão publicidade apenas ao que ditarmos.

E no Protocolo 13:

Nós os distraímos ainda mais [aos não-judeus] com divertimentos, jogos, passatempos, paixões, palácios públicos… Estamos para começar a propor através da imprensa com­petições de arte e de todos os tipos de esportes. Esses interesses finalmente distrairão suas mentes das questões de que devemos nos encontrar compelidos opor-nos a eles.

Em Zeitgeist questões idênticas são cobertos o tempo todo, mas existe em particular a discussão de uma “cultura totalmente saturada de entretenimento através dos meios de comunicação em massa.” Dizem-nos que as mesmas pessoas por trás da tomada planejada do governo estão “por trás da grande mídia”.5

Em ambos Zeitgeist e os Protocolos vemos alguma discussão sobre o sistema de ensino. Em Zeitgeist nos é mencionada “a decadência do sistema de ensino dos EUA” e que “eles [o governo] não querem que seus filhos sejam educados”. Não é surpresa que o mesmo argumento seja feito no Protocolo 16: “Quando estivermos no poder, removeremos todo tipo de assunto perturbador do curso da educação e faremos dos jovens filhos obedientes da autoridade”. O narrador de Zeitgeist diz: “a última coisa que os homens atrás da cortina querem é um consciente, público informado”, ecoando o sentimento do protocolo 5: “não há nada mais perigoso para nós [os judeus] que a iniciativa pessoal.”

Ouro ou dinheiro, reserva federal e usura judaica

Tanto os Protocolos (particularmente Protocolos 21 e 22) e Zeitgeist focam fortemente sobre ques­tões relacionadas a dinheiro ou ouro. Ambos oferecem a teoria de que os problemas da sociedade são causados ​​por sistemas monetários e que o dinheiro está sendo controlado por um pequeno grupo de pessoas de moral duvidosa. O importante aqui é que o foco está no dinheiro e não no capi­tal ou no sistema de produção. Em vez de oferecer perspectivas críticas sobre as estruturas da sociedade que causam a opressão e a pobreza, a opinião geral é que a sociedade atual é benevo­lente e tal benevolência está subvertida por problemas na esfera da circulação.

Ao longo dos séculos, desde a expulsão dos judeus da Grã-Bretanha em 1290, a acusação de usura foi dirigida contra estes para fins antissemitas. Zeitgeist diz do imposto de renda federal:

Cerca de 25% da renda média do trabalhador é levado através deste imposto, e adi­vinha onde esse dinheiro vai? Vai pagar os juros sobre a moeda que está sendo pro­duzida pelo Federal Reserve Bank. O dinheiro que você ganha trabalhando por quase três meses ao ano vai quase literalmente para os bolsos dos banqueiros internacionais.

Mais uma vez, por uma questão de tentar fazer com que as palavras não apareçam como racistas que são, o termo judeu é substituído por “banqueiros internacionais”. Esta é mais uma vez a reafirmação de um mito antissemita. Assim como em todos esses exemplos, os argumentos aqui são levantadas a partir de teorias antissemitas mais antigas. Zeitgeist não está oferecendo uma explicação do mundo, ou dos sistemas econômicos políticos nacionais. Estes argumentos só existem para promover uma atitude de ódio a um determinado grupo pré-definido da sociedade.

A cabala secreta?

Em última análise, o argumento que está sendo feito em todo Zeitgeist é que o mundo está sendo controlado por uma pequena sociedade secreta de indivíduos. No contexto da história das teorias da conspiração, isto quer dizer “os judeus”. Quando nos é dito pelo filme sobre reuniões destes “banqueiros internacionais” que são “secretas e escondidas da vista do público”, as discussões sobre “uma agenda defendida pela elite impiedosa”, ou “as pessoas por trás do governo”, eles estão dando novo alento a um velho mito racista que devemos tentar manter distância.

Há uma insistência em toda a teorias da conspiração de que alguém ou algum grupo de pessoas é pessoalmente responsável por todos os males do mundo, e isso está muito relacionado com o antis­semitismo ao longo da modernidade. Por centenas de anos, os judeus têm sido o bode expi­a­tório oficial do capitalismo. Quando os sistemas de produção empobreceram povo, os judeus foram responsabilizados, onde as pessoas sentiram os impostos como injustos, os judeus foram responsabilizados, onde as pessoas se sentiram alienados pelas estruturas da sociedade, foram informados de que são de fato alienadas porque não fazem parte das reuniões secretas de judeus.

Em última análise, estas teorias nos levam para longe de uma crítica do capitalismo. O filósofo esloveno, Slavoj Zizek defende exatamente este ponto com referência ao antissemitismo de Wagner quando escreve:

Ele precisa de um judeu, de modo que, em primeiro lugar, a modernidade — este pro­cesso impessoal abstrato — tenha um rosto humano, seja identificada com uma carac­terística concreta e palpável; então, em um segundo movimento, rejeitando o judeu que incorpora tudo o que se desintegrou na modernidade, podemos manter as suas van­tagens. Em suma, o antissemitismo não representa anti-modernismo como tal, mas uma tentativa de combinar a modernidade com o corporativismo social que é carac­te­rís­tico dos revolucionários conservadores.

Quem foi o senador Louis McFadden?

Louis McFadden, que é muito cotado em Zeitgeist, era um senador dos EUA na primeira parte do século XX. Ele também calhou de ser um antissemita decidido e se saiu com frases como “nos Estados Unidos de hoje, os gentios têm tiras de papel enquanto os judeus têm o dinheiro legal”

Ele é citado duas vezes no filme dizendo o seguinte: “Um sistema bancário mundial estava a ser criado aqui… um superestado controlado por banqueiros internacionais, agindo em conjunto para escravizar o mundo para seu próprio prazer…” e “Foi uma ocorrência cuidadosamente planejada. Banqueiros internacionais procuraram trazer uma condição de desespero para que pudessem aparecer como governantes de todos nós.”

Dentro do contexto da visão de mundo de McFadden, ele usa “banqueiros internacionais” como um epíteto para os judeus. O que é notável é que os realizadores de Zeitgeist parecem dispostos a omitir este contexto, para sugerir que McFadden simplesmente está a oferecer uma crítica do capi­talismo. O fato é que, dentro de teorias de conspiração, a rotulagem dos judeus como “banqueiros internacionais” e “capital financeiro internacional” é um traço comum. Estas citações teriam sido entendidas na época, e ainda são entendida por muitos, agora, como antissemitas.

O caso de Jeremiah Duggan e a verdade sobre Lyndon LaRouche

Outro personagem bastante obscuro que aparece em Zeitgeist é o ativista político norte-americano Lyndon LaRouche. Senti que deveria incluir a seguinte história como evidência anedótica de quão perigosas estas pessoas podem ser:

Jeremiah Duggan era um estudante britânico na Sorbonne que morreu em 2003 em circunstâncias extremamente suspeitas. Nos meses que antecederam a sua morte, Duggan tinha se envolvido no que acreditava ser uma organização pacifista. Na verdade, tinha se enrascado com um grupo de organizações políticas liderados pelo ativista político norte-americano Lyndon LaRouche. Em março daquele ano, Duggan participou de uma conferência dessas organizações no Instituto Schiller (um local de propriedade do movimento de LaRouche) em Wiesbaden, Alemanha. No trans­correr das reuniões Duggan revelou ser judeu e, no entanto, em tais reuniões do movi­mento de LaRouche, judeus são os culpados pelo início da guerra, reanimando os velhos mitos da cons­pi­ra­ção sobre judeus incentivando guerras como ajudar no controle social. Ele disse em seu discurso de abertura da conferência:

Este plano para lançar uma nova guerra mundial foi intelectualmente influenciado por pessoas que, como Hitler, admiram Nietzsche, mas por “serem judias”, não poderiam se qualificar para a liderança do partido nazista, apesar de seu fascismo ser absoluta­mente puro! Tão extremo qaunto o de Hitler! Eles as enviaram para os Estados Unidos. […] Quem está por trás disso?… A turma do sistema de banco central independente, a escória do lodo. Os interesses financeiros.

Por volta das 05:00, depois que Duggan tinha revelado sua identidade judaica na conferência, ele telefonou para sua mãe. Disse: “Mãe, estou em apuros… Você conhece essa Nouvelle Solidarité?…” Ele disse: “Eu não posso suportar isso… Quero sair.” E nesse ponto o telefone foi cortado. E então o telefone tocou de novo, quase que imediatamente… E, em seguida, a primeira coisa que disse daquela vez: “Mamãe, estou com medo”. Ela percebeu que ele estava em tal perigo que ela lhe disse: “Eu te amo.” E então ele disse: “Eu quero vê-la agora.” Ela disse: Bem, onde você está, Jerry?” E ele disse: “Wiesbaden.” E ela disse: “Como é que você escreve?” E ele disse: “W I E S” E então o telefone foi cortado.

No dia seguinte, Jeremiah foi encontrado morto, com membros do movimento de LaRouche ale­gando que ele cometera suicídio. Inquéritos ainda estão em andamento para determinar o que houve naquela noite. Nas últimas semanas, um segundo inquérito sobre sua morte foi anunciado.6

LaRouche foi conhecido como um teórico da conspiração judaica por mais de 30 anos. Sua organi­zação é cultista e perigosa (uma das razões pelas quais eu escolho para escrever este artigo anoni­ma­mente), e o conteúdo de muito do que ele diz pode ser rastreada até o tipo de alegações apre­sen­tadas nOs Protocolos dos Sábios de Sião. O que é, então, que um homem como este está fazendo em um filme que pretende ser uma crítica esquerdista liberal da sociedade?7

Zeitgeist e a Esquerda

Sob muitos aspectos, o que há de mais inquietante a respeito deste filme é ele pretender ser de esquerda, ou liberal. À medida que o filme termina, vemos imagens de três homens aparecerem e desaparecerem: Mahatma Gandhi, Martin Luther King e John Lennon. Ao longo do filme, temos citações do comediante esquerdista Bill Hicks e uma parte é reservada a Michael Meacher, um político do New Labour. Afirma-se mais uma vez que o objetivo deste filme é a afirmação da uni­dade da humanidade, de acabar com a diferença, seja ela de classe, raça ou sexo. Somos levados a pensar que o filme está a oferecer uma crítica radical, pela esquerda, do poder estabelecido. Em vez disso ele chafurda no tipo de teorias que se casam mais com os libertários de direita. Eu não sei por que o grupo Zeitgeist foca especialmente a esquerda. É, talvez, uma medida de divisão, mas também, possivelmente, apenas uma arena onde eles sentem que podem converter as pessoas à sua maneira de pensar. O que está claro, porém, é que a sugestão de que as ideias expressas são de esquerda ou liberais, com a implantação de citações de esquerdistas e liberais bem conhecidos, é absolutamente cínica.

O problema positivista

Há uma razão em particular para que essas conspirações possam parecer compatíveis com os modos de pensamento de esquerda, e que tem a ver com o problema filosófico do positivismo. Dito de forma mais simples, isto quer dizer que ideias sobre a transformação de uma sociedade não podem ser diretamente expressas na linguagem ou modos de pensar correntes na sociedade que pretendem transformar. E este problema é comum a todas as teorias de transformação da sociedade. Provavelmente, o ramo mais influente deste tipo de pensamento derivou de Hegel a Marx e até os marxistas dos séculos 20 e 21. A solução para eles é falar em termos de uma dialética, ou seja, comparando-se a consciência de uma sociedade para a realidade material. A conclusão significativa deste tipo de pensamento é que a consciência da sociedade, até um certo ponto é sempre falsa.

Os teóricos da conspiração retomam esta questão de outra maneira. Dizem que, se a nossa consci­ên­cia da sociedade é sempre falsa, ela é forçada a ser falsa por um pequeno número de poderosos que tornam falsas.8 Eles acreditam que somos constantemente enganados por uma quadrilha que tudo sabe e que controla cada aspecto de nossas vidas. E as soluções diferem demasiado. Para os marxistas e socialistas o problema é que a sociedade produz uma consciência que não nos permite compre­ender plenamente a nossa miséria no trabalho, do desemprego, ou impotência e a solução é a transfor­mação radical da sociedade em um mundo mais justo e menos exploradora. Para os teóricos da cons­pi­ração, a resposta é a eliminação de tal pequena e poderosa elite. Eles não acre­ditam que a sociedade precisa de mais transformação do que isso.

Este é um terreno filosófico difícil de trilhar. Corremos um grande risco se quisermos criticar os teó­ricos da conspiração por não serem positivistas e por não trabalharem dentro dos modos acei­tos de pensamento. Em vez disso, o que temos de dizer é que o seu modo particular de pen­sa­mento crítico não propõe uma solução correta para a solução de problemas da sociedade e, ade­mais, não se baseia na unificação, mas na divisão. Devemos mostrar que a desigualdade na socie­dade é estrutural em vez de ser baseada nos desejos de um pequeno grupo de judeus.9

O que deve ser feito?

O filme Zeitgeist parece ter uma popularidade crescente e, além disso, está surgindo um movi­mento baseado nele. Mais e mais pessoas estão sendo influenciadas pelo que o filme tem a dizer, sem per­ce­ber bem onde ele está vindo. É importante que possamos expor o mais amplamente possível o subtexto antissemita deste filme. Devemos expô-lo como sendo cinicamente posicio­nado de maneira a influ­enciar os liberais e esquerdistas. Ao atacarmos as ideias apresentadas por Zeitgeist, não é suficiente discutir meros detalhes, e devemos, em vez disso, tentar compreender a política que este filme, como um todo, tenta apresentar. Precisamos ler através das muitas cama­das de teorias da conspiração aqui, e entender que há uma em particular em que eles querem nos fazer crer, e que esta é, naturalmente, a mais perigosa e perniciosa.

É importante entender que o tipo de crítica da sociedade oferecido pelo movimento Zeitgeist não pode ser separada da teoria conspiração judaica. Não se pode tomar os textos antissemitas clás­sicos, subs­ti­tuir a palavra “judeu” por “banqueiros internacionais” ou “capital financeiro inter­na­cional” e acre­di­tar que sua teoria não é mais antissemita. Claro que existem bons argumentos de que o capitalismo e impe­rialismo são de fato extremamente perigosos. Há bons argumentos em uma perspectiva de esquerda ou liberal para dizerem que as guerras no Afeganistão e no Iraque nunca deveria ter sido travadas. E é aqui que temos de reconhecer que os fins não justificam os meios. Não podemos nos dar ao luxo de apoiar qualquer causa que é simplesmente anticapitalista, ou qualquer outra causa que é simplesmente antiguerra, caso contrário, corremos o risco de ir para a cama com os fascistas. Em vez disso, nossas posições sobre o capitalismo e da guerra devem surgir a partir de crítica profunda, em vez de uma reedição revista de narrativas antis­semitas antigas.

A fim de difundir esta mensagem o mais amplamente possível, encorajo a todos que republiquem esta peça em seus próprios sítios, que a enviem a amigos e camaradas, a mostrá-la a quem lhe apre­sen­tar “este novo filme fabuloso você simplesmente tem que assistir”. Uma das maneiras mais fáceis é, se você está no Twitter, clicar no botão Tweet deste post. Se possível, dê-nos retorno aqui nO Terceiro Estado para que possamos monitorar quão amplamente este material está sendo dissemi­nado. Nas próximas semanas recriarei este artigo como um vídeo narrado, bastante no estilo de Zeitgeist: The Movie, a fim de que podemos espalhar esses pontos de vista para ainda mais pessoas que possam vir a ser influenciadas por este filme repugnante.

  1. O antissemitismo é um pensamento caracteristicamente direitista, estando fartamente documentada a tentativa de associar as teorias socialistas com o pensamento judaico. A circunstância fortuita de que alguns expoentes do pensamento esquerdista (começando por Karl Marx) eram judeus foi utilizada como arma de propaganda por todos os tipos de reacionários, começando pela Igreja Católica, que tentou criar sua própria doutrina social para contrabalançar o sindicalismo socialista e ateu, passando pelos nacionalistas e fascistas até chegar a regimes de centro-esquerda interessados em conter o avanço do “bolchevismo”. Mesmo nos regimes socialistas o antissemitismo encontrou certo espaço, estando presente, por exemplo, na onda de perseguições a Trotsky e seus seguidores. No entanto, esta identificação do socialismo como uma “doutrina judaica” é falsa, pois um número significativo de outros famosos socialistas não tinha qualquer relação com o judaísmo: Friedrich Engels, Mikhail Kropotkin, Lênin, Stálin, Mikhail Bakunin, Pierre Proudhon, Antonio Gramsci etc.

  2. São conhecidas as fontes. O plano de conspiração deriva de um romance satírico escrito por Maurice Joly para zombar de Napoleão III, intitulado “O Diálogo no Inferno Entre Maquiavel e Montesquieu” — que não possui conteúdo antissemita. O cenário no cemitério, a ideia de um complô de dominação mundial e alguns conceitos adicionais foram acrescentados por Herman Goedsche, que plagiou a obra de Joly transformando-a no romance gótico Biarritz. A partir desta segunda fonte o chefe da Polícia Secreta czarista, a Okhrana, criou a primeira edição dos Protocolos. A farsa foi desmontada pelo jornal britânico, The Times, ainda em 1921.

  3. Uma das razões da contínua popularidade dOs Protocolos é o seu caráter aparentemente “profético”, por descre­ve­rem uma realidade muito próxima à nossa. Esta circunstância, porém, não passa de vaticinium ex post facto, pois sucessivas edições introduzem alterações (às vezes sutis) de forma a “atualizar” o conteúdo. Como não há direito autoral que possa controlar a republicação e tampouco existem manuscritos originais fide­dig­nos que possam ser usados para dirimir dúvidas (pois a obra em si é forjada a partir do plágio de outras, que tam­bém estão em domí­nio público), não há limites para novas falsificações do texto. Uma boa medida destas falsificações pode ser obtida na comparação com o texto original russo (publicado em 1902) com o texto da primeira edição em inglês, datada de 1919, que, curiosamente, substitui os judeus por bol­che­viques. A mais famosa edição americana foi a finan­ci­ada por Henry Ford, que, embora não tenha sido a pri­meira a restaurar a menção dos judeus, foi a primeira a redi­vidir o conteúdo em “protocolos”, isto é, propostas de ação feitas pelos líderes judeus aos seguidores do mundo.

  4. Ao atacar a participação americana na II Guerra Mundial esta teoria de conspiração, obviamente, enfraquece a posição ideológica dos Aliados, abrindo espaço para uma rediscussão do “outro lado”, o nazifascismo.

  5. Acredito que o autor deste texto não pretendeu negar a realidade do controle da mídia mundial por um grupo res­trito de pessoas, como o magnata Rupert Murdoch, que controla diversos órgãos de imprensa na Austrália, na Grã Bretanha, no Canadá e nos Estados Unidos. A existência de tais pessoas e o seu controle efetivo sobe nume­rosos órgãos de imprensa não são teorias de conspiração, mas fatos conhecidos e documentados. O que se pretendeu negar é que os meios de imprensa seriam, na verdade, de propriedade de outras pessoas, judeus, claro, que os usariam para seus fins.

  6. O inquérito sobre a morte de Jeremiah Duggan reiterou que se tratou de suicídio, sem apresentar novas evidências. Acredito que, exceto pela identificação de Lyndon La Rouche como um líder de extrema direita (e bota extrema nisso) a menção do caso não acrescenta ao texto.

  7. Não se trata aqui de induzir a culpa por associação, mas apenas observar que uma das pessoas que Zeitgeist escolheu citar é de um caráter duvidoso, para dizer o mínimo. A citação de La Rouche, além de ser um apelo falacioso à autoridade, pois ele não tem embasamento para fazer as análises que faz, é um indicativo das tendências perigosas de extrema direita que estão envolvidas no filme.

  8. Atenção para a diferença entre a dialética marxista, que enxerga uma limitação metodológica em nossa capacidade de compreender a sociedade, e a retórica conspiracionista, segundo a qual nossa falta de entendimento da sociedade resulta de sermos deliberadamente enganados.

  9. O artigo original falha por não mencionar dois outros notórios simpatizantes do nazismo citados no filme: Charles Lindbergh e Henry Ford (este não tem sua fala narrada, mas apenas exibida em um quadro fixo e não está incluído na transcrição). Lindbergh era um proponente da eugenia e Ford financiou uma edição em massa dos Protocolos dos Sábios de Sião, para distribuição entre seus empregados e por todo o país. Seu jornal, o "Dearborn Independent", foi o maior responsável pela difusão do antissemitismo nos EUA.

Ateísmo e Vegetarianismo: Reloaded

De tempos em tempos a velha polêmica ressurge: existe algum imperativo moral envolvido na opção pela descrença em deuses? Para muitas pessoas, como eu, não existe nenhum: suas convicções morais dependem de fatores sociais e familiares e a descrença não afeta positiva e nem negativamente — a não ser que esses fatores sejam originalmente fracos e a crença funcionava como a tranca da Caixa de Pandora. Para outras pessoas, porém, tudo é muito diferente: tornar-se ateu envolveria necessariamente uma opção ética e lógica, com implicações morais.


Não é preciso elaborar muito para perceber que posições diferentes quanto ao vegetarianismo correspondem, na verdade, a duas formas diferentes de encarar o ateísmo. Em uma sociedade plural, na qual todos têm o direito de associar-se e de expressar seus pontos de vista impunemente, não deveria haver nenhuma surpresa quanto à existência de posicionamentos discordantes sobre qualquer assunto. Isso quer dizer que eu aceito como perfeitamente naturais e válidos os argumentos dos que são simultaneamente ateus e vegetarianos: essa associação surgiu neles por consequência de suas convicções pessoais, de suas vivências sociais e de suas aprendizagens. Não se pode negar a ninguém o direito de associar dois comportamentos, mesmo que pareçam incompatíveis aos nossos olhos. Até mesmo um açougueiro vegetariano é aceitável, visto que você não precisa necessariamente gostar daquilo com que trabalha (se fosse assim, ginecologista seria sempre homem heterossexual ou mulher lésbica). A falha, grave, está em enxergar uma obrigatoriedade nesta associação. O tal “imperativo moral” de que falei. Neste artigo pretendo demonstrar onde está a falha.

Comecemos pelo próprio conceito de vegetarianismo. Não me venham com chorumelas, “veganismo” é apenas um termo fresco para diferenciar um vegetarianismo radical do vegetarianismo moderado. E nem sequer houve uma guerra civil para separar os dois. Nenhum vegetariano que eu conheça diz que fez sua escolha de dieta baseado em sua preferência ou apenas porque acha mais saudável. Existe um certo grau de messianismo nos vegetarianos: eles parecem achar que estão salvando o mundo, que estão mudando a humanidade rumo a uma utopia, ou sei lá o que. Mesmo quando alguns de seus argumentos fazem sentido (realmente comer carne não faz lá muito bem, segundo certos estudos), eles conseguem achar um jeito de fazer com que se tornem um verdadeiro chamado às armas. Não deveria ser assim, porque quando você cria um proselitismo ideológico em torno de uma causa, você começa a afastar aqueles que discordam de sua causa. No caso do vegetarianismo, o que fica parecendo é que ninguém, em sã consciência, se tornaria vegetariano apenas por uma questão de gosto, preferência ou escolha: você precisa inculcar no sujeito nada menos que um sentimento de culpa pelo futuro da humanidade. Ou então compartilhar com ele a sua paranoia de que todos os animais pensam e sentem como nós e que comer uma vaca é mais ou menos a mesma coisa que desossar e assar uma coleguinha de escola de sua filha. Quando você parte para esses apelos às consequências e para essa argumentação emocional, é sinal de que você já está cagando e andando para a racionalidade, e as suas opiniões passaram ao terreno da religião. E religião não se discute.

Detectar um imperativo moral a unir ateísmo e vegetarianismo é só uma outra forma de implorar por atenção. Sendo, inclusive, uma forma bastante rasteira de fazê-lo, visto que apela justamente aos sentimentos confusos de rejeição e de alienação de que padecem os ateus, especialmente os mais jovens, em uma sociedade que lhes nega exatamente a moralidade que o vegetarianismo se propõe a restituir-lhes. Um ateu vegetariano é alguém que quer legitimar sua descrença perante uma sociedade que exige crenças, ser vegetariano dá ao neófito uma sensação de pertencimento: ele está fazendo “alguma coisa” pela salvação da humanidade. E isto é quase como estar na plataforma portando um sabre de lua diante de Darth Vader.

Mas tudo isso é uma grande bobagem. Ele não está em uma luta épica pelo futuro, mas em um complicado processo de afirmação da própria personalidade, em um contexto social no qual esta afirmação frequentemente se faz por meio da alienação religiosa, no conformismo cristão. O medo à maioridade mental faz com que as pessoas se apeguem a muletas, por isso se aferram a religiões, mesmo quando elas são questionadas com sucesso, por isso aceitam ideologias que pregam algum tipo de transcendência. É mais fácil tirar o homem de dentro da igreja do que tirar a igreja de dentro do homem.

Ateísmo e vegetarianismo não estão de forma alguma interligados por qualquer tipo de laço causal ou imperativo moral. Ateísmo é apenas a descrença (ampla ou específica) em divindades (tal como definidas por uma cultura) e vegetarianismo é apenas uma dieta restritiva, que pode ser adotada pelas mais variadas razões. Originalmente o era por motivos religiosos, mas desde o século XIX surgiram movimentos laicos que a propuseram não mais pelos seus benefícios “espirituais”, mas porque supostamente seria mais saudável ou socialmente mais justa. Mesmo nesta época, porém, a maioria dos vegetarianos pertencia a alguma religião: um católico, anglicano ou presbiteriano não saía de sua igreja por tornar-se vegetariano porque não havia imperativo ético e nem conteúdo teológico em deixar de comer carne. Tanto quanto não poderia haver na preferência por vinho em vez de cerveja, ou no hábito de barbear-se com navalha ou com aparelho. Essa coisa de dar um sentido maior ao vegetarianismo começou nos anos 1960, com a influência hindu sobre o movimento hippie. Quando as preocupações ecológicas afloraram, nos anos 1970, os hindus embarcaram no discurso da preocupação com o futuro, dizendo que sua religião era melhor porque sempre propusera o vegetarianismo. Esse foi o nascimento do caldo de cultura new age, no qual está inserido o vegetarianismo que se popularizou no Ocidente nas últimas décadas.

A ideia de associar o movimento ateu com essa corrente de pensamento se popularizou no Brasil graças ao Daniel Sottomaior. Há várias versões para suas motivações, mas eu não quero aventar nenhuma, para evitar calúnias e difamações. Mesmo porque, versões na internet são só boatos. O que sei foi que Daniel criou muito sectarismo no “movimento ateu” por causa desta associação, que me parece ser peculiar ao movimento ateísta brasileiro (mas me iluminem se me engano). De lá para cá o próprio Sottomaior mudou de ideia, mas o conceito ficou “no ar” e tem recorrido. Agora mesmo o Bule Voador está começando a assimilar o discurso vegetariano, inclusive adotando parte de sua terminologia, como “antropocentrismo” e “especismo”. Conceitos esses que estão fortemente carregados da doutrina hinduísta do “karma” (segundo a qual não devemos devorar nenhum animal porque humanos podem reencarnar neles, o que faz com que a morte de um animal equivalha a um assassinato). A obsessão em demonstrar a senciência dos animais faz parte desta preocupação cármica que, subitamente, parece estar se apossando de grande parte de nossos jovens padawans ateus.

Espero que este artigo tenha contribuído para esclarecer um pouco o assunto, e que ajude a desmontar o sectarismo que se cria quando um grupo, mesmo se intitulando cético, arroga para si  o monopólio da verdade.

A Conspiração Anarcomiguxa

Qual a relação que você consegue enxergar entre o filme Zeitgeist e a modinha liber­tária que perpassa a internet? Nenhuma? Alguma vaga conexão que você não consegue explicar direito? Chega mais, senta e relaxa. Prepare-se para ler muito, e para descobrir a grande manipu­lação a que estamos sendo submetidos. Prepare-se para ter abertos os seus olhos: eu não espero convencer você, espero apenas apontar para onde o vento sopra, para que você olhe e veja por si aquilo que descobri agora há pouco, enquanto comia uma pizza de sala­minho com catupiry.

Mesmo mantendo um razo­ável ceticismo, não se deve excluir de antemão a possibi­lidade de que seja verdade aquilo que parece improvável. Pelo menos não enquanto não surgir uma explicação fun­cional que recorra apenas ao que é possível. A navalha de Occam, quando apli­cada de forma indiscriminada, funciona mais como um obstá­culo do que como um guia. Foi utilizando um princípio seme­lhante que Aristóteles desconsiderou a teoria atômica de Demócrito e propôs sua versão simples e cética dos quatro elementos. Com isso e mais a sua auto­ridade, atrasou o desenvolvimento da química por milênios.
Esta defesa prévia que proponho acima se deve à natureza do que vou escrever abaixo, que parecerá uma reles Teoria de Conspiração. Muitas pessoas se esquecem, ao fazer esse tipo de acusação, que, de fato, conspi­rações existem. As teorias de conspiração só se tornam ridículas quando envolvem participantes sobrenaturais (como os aliení­genas cinzentos) ou quando exigem o conluio de tantas partes diferentes, e durante tanto tempo, criando tantas difi­cul­dades, que a simples concepção de uma tal teoria dá mais trabalho do que supor, simplesmente, que a conspiração não existe. Não é o caso do que vou explicar. Posso estar enganado, mas mesmo que a conspiração não exista de forma deliberada e de antemão — e eu não afirmo que exista — o encadeamento do fato nos autoriza supor que, pelo menos, os fatos posteriores foram postos em ação a partir do conhe­cimento das condições prévias, de forma muito cuidadosa. Então, é irrele­vante a acusação de que tudo não passa de mera teoria de cons­piração: o simples encade­amento dos fatos já é um fenômeno interes­sante em si mesmo.

Comecemos por algumas definições importantes (algumas delas vão para o glossário). O «movimento anarco­miguxo» é a mais recente modinha entre os descolados da internet, tal qual o «movimento ateu» já foi um dia (e lamen­tavel­mente reconheço que o foi apenas como uma prepa­ração para um passo posterior, como passo a demonstrar). Trata-se da difusão de um deter­minado dis­curso político e econômico através de blogues, vlogues e perfis em redes sociais. Um discurso ultra­­conservador em termos políticos (mas suposta­mente «liberal» em relação aos costumes) e ultra­liberal em termos econômicos, a partir dos trabalhos da chamada «escola austríaca» de economia (que, apesar do nome, hoje se baseia nos Estados Unidos) e suas teses minar­quistas (estado mínimo) e ultra­capitalistas (libera­lismo econômico máximo). Este discurso não é novo, claro, mas um velho conhecido de quem estuda História ou se prende aos aspectos históricos da ciência econômica: trata-se do discurso do liberalismo, herdeiro dos fisio­cratas franceses (Turgot e Quesnay) por meio dos liberais ingleses (Adam Smith, David Ricardo e Stanley Jevons) e com um pedágio entre os aristocratas reacionários do império austro-húngaro (Menger, Böhm-Bawerk e Mises) que se refugiaram nos Estados Unidos diante da ameaça do nazismo e lá encontraram o terreno ideal para difundir suas ideias, iniciando seguidores como Murray Rothbard. Este discurso é temperado pela ideologia de Ayn Rand, uma escritora americana de origem russa autointitulada filósofa, expresso em calhamaços de difícil leitura, como A Rebelião de Atlas (Atlas Shrugged) e A Fonte (The Fountainhead).

Existem boas razões para se pensar que estamos vivendo um imenso processo de astroturfing (ou «lavagem cerebral através de propa­ganda de massas», se você prefere) que tem por objetivo dire­cionar a opinião pública em um sentido mais conser­vador, prepa­rando ter­reno, talvez, para interfe­rências políticas que satisfaçam essa «opinião pública espontânea». Um processo que pode ter sido preme­ditado, ou estar sendo «surfado» por pessoas que sentiram para onde soprava o vento. Um processo que começou com o filme Zeitgeist. Ou talvez antes, mas eu só o detecto a partir dali. As ideias ainda estão confusas, mais ou menos como você se sente quando tem a sensação de que tropeçou em algo grande. É o que sinto. Tenho até medo das conclusões a que estou chegando: nem todas eu incluirei neste texto. Que, no entanto, é o corolário deste blogue: é o desmas­cara­mento da «arapuca libertária» que eu, indis­tinta­mente, farejava no ar quando comecei a blogar aqui, faz uns dois anos.

Comecemos por Zeitgeist. A menos que você seja um imbecil quase completo ou não conheça quase nada nem de História, nem de economia e nem de engenharia ou física, você percebeu que esse filme, do qual hoje quase nem se fala mais, possuía mais furos do que um queijo suíço. Na época eu me senti ultrajado de ver a gros­seria com que o realizador, «Peter Joseph», manipulava a mitologia egípcia (minha mais ou menos conhecida) a fim de «provar» que Jesus e Hórus possuíam dezenas de elementos comuns na biografia. O filme foi bem sucedido em plantar essa ideia de jerico na cabeça do povo (pelo menos na parte do povo que pensa e age como jerico), tanto assim que Jesus = Hórus se tornou um meme na internet: volta e meia vê-se um ateu «jogando na cara» de algum religioso essa «informação revolucionária». Dá vontade de olhar-lhe fixamente dizer: «ó, que descobrida cê fazeu!» O sucesso de Zeitgeist em incorporar essa informação falsa no imaginário popular, ou pelo menos no imaginário da subcultura virtual a que chamo de «movimento ateu», é uma prova do quanto é perigoso o processo de astroturfing a que me refiro, e que passarei a qualificar, dora­vante, de «A Conspiração Anarcomiguxa».

Zeitgeist possuía três partes, e nem mesmo os fãs do filme conse­guiam entender completamente a relação entre elas: a primeira argumentando que Jesus é um mito astrológico de origem egípcia, a segunda dizendo que o atentado de 11/09/2001 foi feito por agentes do próprio governo americano e a terceira dizendo que o sistema bancário internacional se sustenta em uma fraude, a moeda fidu­ciária (fiat money, como eles gostam de dizer). A aparente desco­nexão entre os assuntos levou a muitas teorias mirabolantes sobre as razões dos temas terem sido inseridos em um mesmo filme. A minha teoria mirabolante particular era de que o filme procurava inculcar em quem o visse uma menta­lidade anti-semita. Afinal, o filme começava «provando» que Jesus não era um judeu, dizia que o maior atentado da história americana fora come­tido pelo próprio governo ianque e terminava dizendo que o governo estava sob o controle dos judeus (que não têm, claro, nenhum parentesco com Jesus). Faz sentido sim, e até pode ter sido uma das intenções originais dos realizadores de Zeitgeist, mas isto não explica tudo.

Existem duas maneiras de encarar a História. Uma que a vê como o enca­de­amento de fatos sucessivos, sempre influ­en­ciados pelo passado, e raramente resultantes de deli­be­ra­ções. E uma que a vê como um processo cheio de idas e vindas, influenciado não exatamente pelo passado, mas por fluxos e conjunturas que, em certas fases, parecem antecipar momentos futuros. Se analisarmos as modinhas da internet que têm relação com os três temas abor­dados no filme, veremos que as explica­ções que obtemos pela apli­cação de cada uma das duas maneiras resultam diferentes. Se pensarmos na história como um processo unívoco, então a modinha libertária pegou carona no refluxo do movimento Zeitgeist, do qual ninguém quase ouve falar mais, e requentou alguns dos mesmos temas, radicalizando naqueles que interessam aos que seguram a mangueira que faz a lavagem cere­bral das massas. Mas se pensarmos na História como algo um pouco mais dinâmico, nos perguntamos se esse próprio refluxo não era esperado, ou até previsto, e se não teria havido, desde o início, um direcionamento que permitisse o surgimento, após o refluxo do MZ, de uma nova modinha exatamente com as características da que surgiu de fato. Mineiro que sou, declaro-me adepto de ambas as teses, mas não vejo motivos para negligenciar a segunda: de fato ela me parece sugestivamente forte, como vou argu­mentar.

O primeiro sinal em minha consciência de que havia uma coisa qualquer de podre na metafórica Dinamarca foi quando tomei conhe­cimento do rompimento entre o Movimento Zeitgeist e o Projeto Vênus. Isso ocorreu em abril de 2011, mas o MZ é tão rele­vante que eu demorei um ano e meio para ficar sabendo, e ninguém notou nenhuma diferença no universo por causa disso. Not a single fuck was given. Eu sempre achei que ambos (MZ e PV) eram mastur­bações intelectuais de ativistas inter­néticos movidos a leite de pera, ovomaltine e generosas baforadas de mari­juana. Estava enganado (eu me engano muito, mas raramente alguém se importa de me mostrar isso). Embora previsto e previsível, o refluxo do MZ era parte de um processo. Depois de se apropriar das ideias de Jacque Fresco e Roxanne Meadows, as pessoas por trás do MZ passaram a ter um conjunto bastante grande de ideias e propostas, a ponto de poderem se caracterizar como um tipo de partido político ou religião — só não tinham projeção social para isso, porque o MZ era tudo menos receptivo. Então era neces­sário tirar de cena o MZ e passar à fase seguinte do projeto. E vocês repararam que a modinha anarcomiguxa começou a criar força à medida em que o MZ perdia força? Vocês acham isso coincidência?

Poderíamos resumir dizendo que o filme Zeitgeist prepara caminho para uma ideo­logia direitista extremamente reacionária poli­ti­ca­mente, ultraliberal no sentido econômico. Faz isso desacre­di­tando o cris­tianismo, que oferece uma mensagem social que pode ser usada para defender um socia­lismo que não seja ateísta. Desa­credi­tado o cristianismo, é possível insurgir contra todas as formas de cole­ti­vismo e preocupação social sem o risco de vê-las legitimadas pela religião. Depois Zeitgeist apresenta o estado como inimigo do povo, o que legitima o ataque ao estado como uma guerra liber­tadora — ainda que boa parte das garantias de direitos só existam através do Estado. Por fim, lança dúvidas sobre o sistema econô­mico existente, preparando caminho para as teses da escola austríaca e seu ultraliberalismo.


Por isso eu digo que o movimento anarco­mi­guxo não existiria sem que Zeitgeist tivesse existido. A modinha anarco­mi­guxa inclui quatro elementos centrais:
  1. pensamento individualista
  2. radicalismo da ação política
  3. o ultraliberalismo econômico
  4. dicotomia maniqueísta

O individualismo exacerbado, a ponto de alguns usarem mesmo o termo egoísmo e se negarem qualquer responsabilidade sobre as conse­quências de seus atos sobre outrem (ou melhor, conforme correção enviada por um leitor abaixo: qualquer obri­gação de agirem em benefício de outrem), deriva das obras de Ayn Rand, romancista americana de origem russa, auto­intitulada filósofa (embora suas obras sejam livros de ficção).  Este tipo de postura, obvia­mente, induz ao radica­lismo, pois uma filosofia destas fatal­mente resulta em um pequeno número de satis­feitos e grandes massas de explo­rados. Nas obras de Rand isso redunda em dita­duras que subjugam as massas, destroem suas formas de organização solidária (sindicatos, por exemplo) e impõem um tipo de governo «dos melhores». Defensores mais modernos e menos deslavados, que não teriam coragem de, como Rand, admirar um estu­prador e esquarte­jador de meninas, preferem propor a coisa em termos mais pala­táveis, suge­rindo uma tecno­cracia ao exigir que os gover­nantes sejam «preparados». Alguns chegaram a exigir pré-requisitos para o exercício da adminis­tração pública tão elevados que pratica­mente nenhum líder mundial se qualificaria.

Percebe-se, clara­mente, que as teses anarco­mi­guxas (ou minar­co­mi­guxas, para agradar a alguns mais específicos) formam um todo coerente, embora trazidas da obra de dois autores de origens tão diversas: Mises um lambe-botas dos aristocratas do Império Austro-Húngaro que foi ado­tado como guru nos EUA na época do macar­thismo e Rand uma judia russa dotada de um forte senti­mento anti­popular, antis­sindical, antis­social e anti­ético (no sentido de que negava uma ética comum à cole­ti­vidade, propondo um egoísmo racional que, logicamente, só seria ético para quem a adotasse). Esses autores possuem suas idios­sincrasias: o ateísmo egoísta de Rand e o mani­queísmo into­lerante de Mieses poderiam causar certos atritos com persona­li­dades mais sofis­ticadas ou mais religiosas. Isso explica o filme Zeitgeist.

Se pensarmos que havia, desde o início, a intenção de estimular o surgi­mento de uma «opinião pública» girada à direita e que os deten­tores de tal inten­ção perce­beram que isso poderia ser feito apenas através da subver­são da ética, insti­lando um egoísmo cuja justi­ficação mais acessível estava na obra de Rand; percebe-se a neces­sidade de aplainar as arestas da perso­na­li­dade desta para torná-la mais aceitável ao grande público. Em outra época uma pessoa como Rand seria tachada de epítetos desa­gra­da­bi­lís­simos. Particular­mente proble­mático seria o seu ateísmo.  Além do mais, uma crítica defini­tiva ao socia­lismo não pode ser feita sem se ter primeiro desa­cre­ditado o cristia­nismo, devido às muitas seme­lhanças existentes entre as propostas sociais cristãs contidas na Bíblia em si e aquelas teorias avan­çadas pelos marxistas.

Então, quem criou o filme Zeitgeist fez uma parte para «provar» que o mito de Jesus é «falso», o que serviu para esti­mular o surgi­mento e popu­la­ri­zação de um tipo de «ateísmo miguxo» baseado na revol­tinha e em doses cavalares de igno­rância, leite de pera e ovo­mal­tine. Daí, quando é apre­sentado às ideias de Rand, não acha problema algum o ateísmo dela, acha até vantagem. O neo-ateísmo, voltado para a direita, não deriva do ateísmo histórico, tradicionalmente de esquerda, mas dos delírios egoístas de Rand, que leu Nietzsche, entendeu mal e o perverteu de forma a justificar sua revolta pessoal contra o Estado soviético.

As outras partes do filme atacam o sistema econômico. Elas são, de fato, o objetivo central do filme. A primeira parte é só uma isca para ateus revol­tados. O anar­co­mi­gu­xismo propaga a ideia de que um «estado mínimo» seria mais pacífico, princi­pal­mente porque não poderia coagir os seus cidadãos (que, diga-se de passagem, estariam armados até os dentes, com todo tipo de armas de fogo que pudes­sem comprar). Isto explica porque o primeiro filme fez tanta força para provar que um órgão do governo, a CIA, planejou e exe­cutou o atentado de 11/09/2001. Ao organizar um atentado contra o povo, o Estado se revela «o que é»: inimigo do povo. Então o povo deve enfra­quecer o Estado para libertar-se (por isso os anar­co­mi­guxos se dizem «libertários»).


A suposta paz de que se desfrutaria com a eliminação, ou pelo menos a inanição do Estado, é tão irrealista que os próprios anar­co­mi­guxos admitem que a função de polícia teria que ser mantida, a fim de poder garantir a «ordem social». Uma ordem social opres­sora mantida por uma polícia a serviço de uma elite egoísta não me parece algo muito liberto, mas os liber­tá­rios não estão interessados em libertar a todos, apenas a si mesmos. Então faz sentido.

Finalmente, temos algo bem mais explícito, que é a relação entre a crítica dos «austríacos» à moeda fiduciária e aos bancos centrais, encon­trada quase ipsis litteris na terceira parte de Zeitgeist, na qual temos a «revelação» de que o dinheiro que conhece­mos não possui valor intrín­seco (ó, que descubrida!) e que a função dos bancos centrais é inter­mediar o endi­vi­da­mento do Estado. De certa forma, sim, mas esta inter­me­diação deveria ser no sentido de controlá-lo. Engraçado que os anar­co­mi­guxos são contra os controles estatais, mas protes­tam contra o endi­vi­da­mento descon­tro­lado do Estado, que é causado justa­mente pela elimi­nação de regu­lações. É uma valsa do austríaco doido isso aí.

Vemos, então, que as três partes prefiguram. Colocando tudo em um caldeirão e deixando fermentar, perce­bemos que alguém, em algum lugar, concebeu Zeitgeist como a semente de um movi­mento direitista ultra­liberal suposta­mente espon­tâneo, mas de fato diri­gido difusa­mente através de vídeos virais e sites de refe­rência (como o Instituto Mises). Isto é o astro­turfing de que falei. Para isso atacou a religião cristã, preparando terreno para a aceitação das ideias de Ayn Rand (que são essen­cial­mente anticristãs e, por isso mesmo, também anti­co­munistas). Ao mesmo tempo criou a teoria de que o atentado de 11/09/2001 teria sido promovido pelo governo ame­ri­cano, a fim de fazer com que muitas pessoas passassem a des­confiar do governo enquanto insti­tuição. E por fim, difundiu a men­sagem de que o dinheiro não tem valor intrínseco e que os gover­nos se endi­vidam inde­fi­ni­da­mente, preparando-se para enfrentar a crise ine­vitável, durante a qual os valores liberais seriam postos em xeque.

Em relação às teses do filme, deve-se dizer que se elas fossem intei­ra­mente absurdas elas não teriam credi­bi­li­dade. Elas são falsas não porque são absurdas, mas porque mis­turam absurdos e verdades, de forma que um conta­mina o outro. O absurdo reduz a credi­bi­li­dade do que é verdadeiro, e a verdade empresta valor ao que é absurdo. Em relação a Jesus, por exemplo, é verdade que ele é um mito. É mentira que esse mito não tem conexão com uma figura histórica real. É verdade que este mito tem origem helenística, influ­en­ciada pelo judaísmo, e não judaica. Mas é mentira que seja pura­mente um culto astro­lógico. É verdade que Jesus foi miti­fi­cado usando elementos comuns e arque­típicos. Mas é mentira que havia um protótipo de «Deus sofredor» no qual Jesus, Dionísio, Hórus e Adônis estariam compre­endidos. É verdade que vários ele­mentos da biografia de Jesus se base­aram nas biografias de outros perso­na­gens de outras mitologias. Mas é mentira que algum perso­na­gem tenha todos os elementos da biografia de Jesus (e se tem, não é Hórus o melhor modelo, mas Hércules). Não me atrevo a comentar demais sobre as outras duas partes, porque a minha área é a História. Mas suponho que também nelas impera esta mistura indis­cri­mi­nada de verdade e mani­pu­lação deslavada. Existem boas fontes na internet para se pesquisar isso, mas eu não preciso pesquisar, porque pelo dedo se conhece o gigante.

Depois de ter difundido esse conjunto aparentemente desconexo de ideias, os idea­li­za­dores do Zeitgeist descobriram o Projeto Vênus, com suas ideias de tecno­cracia futurista e governo mínimo, baseado em «cidades susten­táveis». Ao mesmo tempo começou a bombar na internet o conceito das «cidades-estado» (charter cities), proposto pelo cien­tista polí­tico ame­ri­cano Paul Romer. Tanto as cidades sus­ten­táveis de Jacque Fresco quanto as cidades estado de Romer seriam uni­dades autô­no­mas, fechadas em si. Comu­ni­dades isoladas e autos­sufi­ci­entes como Galt's Gulch (o refúgio dos super homens de Ayn Rand, em A Revolta de Atlas). A separação entre o Projeto Vênus e o Movimento Zeitgeist indica que, de fato, essa união não foi nunca essencial: o Projeto Vênus era esquer­dista demais em suas preo­cu­pações sociais. A separação era esperada. No entanto, o Projeto Vênus e a difusão do conceito de cidades-estado tiveram sua função: criar a impressão de que existe na aca­demia um pensa­mento liberal minar­quista relevante e que não é carac­te­ris­ti­ca­mente vinculado com a direita.

O conceito básico envolvido é a minarquia, a diminuição do poder do Estado até ele se tornar mera­mente um instru­mento de orga­ni­zação ao nível local e básico, algo suposta­mente melhor do que o grande estado que conhe­cemos. Quando tudo isto alcançou uma massa crítica, ao se tornar viral na internet, os movimentos ori­gi­nais foram aban­do­nados porque já se havia criado um estado mental recep­tivo à propo­sição das ideias inicial­mente aven­tadas pelo Zeit­geist e pelo Projeto Vênus. Foi então que se começou a ouvir falar de Mises e da Escola Austríaca e o governo de Honduras, fruto daquele golpe canhestro patro­cinado pelos EUA, resolveu criar duas cidades estado no padrão de Romer para testar sua hipótese. São várias fren­tes de batalha simul­tâneas, todas bombar­de­ando a ideia ultraliberal no fim.

Conforme se nota no gráfico forne­cido pelo Alexa.com, ao longo de quase todo o ano de 2011 há um aumento (não muito regular) dos aces­sos ao site www.mises.org, a nave mãe do movi­mento anar­co­miguxo. Em 2012 já se nota um decrés­cimo sig­ni­fi­ca­tivo, pois parece que, enfim, as pessoas não gos­ta­ram muito da verda­deira face do que estava por trás da modinha. Pelo menos não a nível global. Mas há algo dife­rente  a se notar quando ana­li­samos o mesmo gráfico em relação ao capítulo bra­si­leiro do Instituto Mises.

Aqui a coisa é diferente, enquanto lá fora os acessos ao Insti­tuto Mises estão caindo, entre nós parece haver um inte­resse cres­cente nas ideias ultra­li­berais da Escola Austríaca. Enquanto nos anos anteriores os acessos pouco pas­sa­vam do traço, em 2012 , espe­cial­mente nos últimos meses, ocorre um cres­ci­mento bastante claro, a ponto de o tráfego brasi­leiro, sozinho, quase igua­lar o da matriz ameri­cana. Evi­den­te­mente o movimento anar­co­mi­guxo inter­na­cional deu chabu, mas anda bom­bando no Brasil.

E isso nos leva a… essa tentativa ridícula de se criar de novo como partido a Aliança Reno­vadora Nacional (Arena), o espan­talho ide­o­ló­gico que dava cober­tura pseudo­par­ti­dária à dita­dura mili­tar bra­sileira. Não teríamos chegado ao ponto de se propor aber­ta­mente a recria­ção da Arena se não tivesse acon­tecido antes um longo pro­cesso de pre­pa­ração. A ideia de uma direita total­mente des­co­nec­tada de pre­ocu­pa­ções sociais, aven­tando uma meri­to­cracia que não exis­tiu nunca. Isso só está acon­te­cendo porque há pelo menos uns cinco ou seis anos a menta­li­dade do povo vem sendo pre­pa­rada por con­te­ú­dos difun­di­dos digi­tal­mente para legi­ti­mar as teses da direita mais extrema.

Perceberam aonde quero chegar: alguém em algum lugar teve a boa ideia de tentar criar uma geração de jovens reaças a fim de dar subs­tância a um movi­mento rea­cio­nário. Isto era muito neces­sário, tendo em vista as suces­sivas crises do capi­ta­lismo a par­tir dos anos oitenta, aliadas ao cres­ci­mento de certas eco­no­mias emer­gentes, o sucesso de pro­je­tos que confli­tam com o pen­sa­mento esta­be­lecido (como Argen­tina, Islân­dia e Vene­zu­ela) e também a orga­ni­zação para­lela dos países peri­fé­ricos (como os BRICS). Estes desen­vol­vi­mentos ame­açam o con­senso capi­ta­lista e liberal, que triunfou com a queda do comu­nismo em 1989, especial­mente agora que a Europa está em crise também.

O fascismo se alimenta de crises. Não é surpre­endente que justa­mente Grécia e Espanha estejam vendo crescer seus movi­mentos de ultra-direita (Aurora Dourada e Falange Católica, respec­ti­vamente). Mas o fas­cismo também pode ser utili­zado para insu­flar insta­bi­li­dade em países que se quer deses­ta­bilizar — e me parece muito claro que há um inte­resse em deses­ta­bi­lizar as insti­tui­ções brasi­leiras, já que em vez de alinhar-se aos inte­res­ses pre­do­mi­nantes o Brasil pre­fe­riu aproximar-se de Venezuela, Argentina, Rússia e outras ovelhas negras.

As ideias ultraliberais e fascistóides parecem não ter sido muito bem sucedidas lá fora, onde as pessoas são, em geral, mais bem infor­madas do que aqui — e menos inte­res­sadas em maca­quear os ian­ques. Somente estão funcionando em países acu­ados por crises eco­nô­micas extre­mas, como os citados. Mas entre nós, os boto­cudos, todo espe­lhinho que venha de fora parece o máximo, mesmo essas ide­o­logias conce­bidas para nos fazerem mal. Isso explica por­que, fora a Guatemala, citada pelos próprios mise­anos como exemplo de país onde a Escola Austríaca é ensi­nada como dou­trina main­stream, o Brasil seja um dos países onde o inte­resse pela babo­seira pseudo­cien­tí­fica da Escola Austríaca esteja ganhando popu­laridade.

E simultaneamente querem refundar a Arena, cri­mi­na­li­zar a polí­tica (jul­ga­mento do Men­sa­lão) e usar o terror como jus­ti­fi­ca­tiva para o endu­re­ci­mento (vio­lência em São Paulo). O ovo da serpente está chocando. E há polí­ticos opor­tu­nistas esquentando-o, pen­sando em votos. Ou pisamos logo nele, ou em breve esta­remos fugindo de uma cobra bem venenosa.

Deixemos que os Mortos Enterrem os Seus Mortos

Dois tipos de pessoas me incomodam neste mundo: as que defendem ideias mirabolantes somente pelo amor de destoarem do consenso, mesmo que tais ideias sejam absurdas, e as que se com­por­tam de forma incompatível com aquilo que proclamam ser. Exemplos do primeiro caso são os adep­tos de teorias minoritárias que resolvem ser céticos em relação ao conhecimento estabelecido, sem aplicar o mesmo ceticismo às teorias que atacam o «sistema». Assim são os que duvidam que o homem tenha ido à lua, os criacionistas, os anarco capitalistas, os últimos stalinistas e os propo­nen­tes do multiculturalismo. Exemplos do segundo caso são mais difíceis de discernir, porque é mui­tas vezes difícil discernir o que pessoas e grupos se propõem a ser. Como não publicam mani­festos nem estatutos, na maioria dos casos somos forçados a julgá-los pelos seus atos aparentes, uma circunstância que faz com que sempre nos acusem de interpretá-los mal. Existem, porém, alguns casos nos quais pessoas ou grupos efetivamente divulgam o que pretendem ser — nesses casos não há nenhuma defesa possível quando pilhados fazendo algo diverso do que consta em seus propósitos formais. A contradição não pode ser explicada senão por desvios éticos ou pela per­versão dos objetivos originais.


Desde 2007 eu venho acompanhando de longe (e com certo receito salutar) as idas e vindas do «movimento ateu» brasileiro. Foi um longo processo de aprendizado, tenho de confessar, e hoje eu sou bem mais sofisticado do que era no começo, graças à convivência com pessoas interes­santes que conheci nos grupos de discussão da Internet, desde antes até dos tempos de Orkut. Estas pessoas me ensinaram pelo exemplo, positivo ou negativo: algumas eu procurei emular, outras serviram como paradigma do tipo de papel que eu não pretendo interpretar. Sábios, tolos, convencidos, idealistas, heróicos, idiotas, attention whores, bebedores de Q-Suco, abraçadores de árvores, excêntricos, quinta-colunas, «gayzistas», criacionistas, organizadores, anarquistas, fundamentalistas, partidá­rios da esquerda ou da direita, químicos, viciados em químicos, historiadores, contadores de histórias, homofóbicos, bichos-grilos, filósofos, randroides, suicidas em potencial, sapatonas, apedeutas, bichas, econo­mistas de apostila, homens de um livro só, ratos de biblioteca, malhadores de ferro frio, esmurra­dores de pontas de faca, ledores de um autor apenas, vagabundos sustentados pelos pais, patri­cinhas, farofeiros, marombeiros, macumbeiros, putanheiros, maconheiros e marinheiros das mais diversas viagens. Toda essa variedade de gente com quem convivi me ensinou alguma coisa. Dentre todas as lições aprendidas, uma em especial: ninguém convence ninguém com argumentos porque todos entram em qualquer debate encouraçados por seus preconceitos, protegidos por uma grossa carapaça de ignorância, que só pode ser rachada a golpes lentos. E ninguém realmente muda ninguém: cada um vai se tornando gradualmente aquilo que pensa em ser. Só pode ocorrer uma mudança de ideia no meio do caminho, e nisso reside a esperança do mundo. Apesar de que a mudança de opinião raramente é para melhor, como dizia o meu avô: o bom ficar ruim basta um escorregão, para o ruim ficar bom, só com uma corda e uma junta de bois.

Enquanto fui aprendendo estas coisas, fui percebendo sucessivas tentativas de controlar a massa crescente de descrentes através de órgãos supostamente representativos da antirreligião ou da irreligião. Regra geral, os líderes que surgiram nesses momentos nunca estavam à altura de quem se propunham a representar — o que parece ser uma maldição da política brasileira, caracterizada por uma quase cacocracia. As figuras mais legítimas no seio do «movimento ateu» nunca avança­ram com a ideia de criar coletivos («igrejas ateístas», como os cristãos costumam chamar a tais iniciativas) e, quando muito, entraram em alguma como seguidores, não como pastores. Cada nova iniciativa parecia mais atenuada e menos focada que a anterior. Eximo-me de mencionar cada uma porque não estou aqui para escrever a história do «movimento ateu», nem para isso estou plenamente qualificado. O que me importa é que todas estas instituições traíram seus objetivos originais por causas as mais variadas, a principal sendo o desejo de agregar suficientes seguidores para ter visibilidade fora da internet.

Não há nenhum problema na ambição de crescer. O problema está em não conseguir discernir a dife­rença entre crescer, inflar e inchar. Ou entre ocupar um espaço e espalhar-se num espaço. Algumas organizações ateístas encontradas na internet possuem defeitos graves, mas têm, pelo menos, a decência de se manterem fieis aos seus objetivos e público originais, adaptando-se gra­du­al­mente à própria evolução de sua liderança, pelo próprio processo dialético de liderar. Outras, como a que passo a comentar, parecem ter posto de lado sua visão inicial e partido definitiva­mente para um compromisso amplo e inclusivo, desfocando a identidade cética presente no começo. Refiro-me, claro, à Liga Humanista Secular e ao seu blog oficial, o «Bule Voador».

O sitio da Liga Humanista Secular já passou por várias encarnações, nem todas de meu conhe­ci­mento, e é bem possível que ele tenha contido originalmente informações além das que hoje posso ver lá. No entanto, se não possui uma página «Quem Somos» na qual se delineie, preto-no-branco, em que realmente está baseada a atuação da LiHS, ainda exibe uma curta descrição que diz: Associação dedicada ao humanismo secular: causas céticas e ciência com valores baseados na ética consequencialista e nos direitos humanos. Ademais, o Bule Voador explica seu nome citando Bertrand Russell:

Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados, em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro.

De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um bule de chá de porcelana girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o bule de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos.

Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice.

Entretanto, se a existência de tal bule de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada.


Não pode haver uma defesa mais enfática do ceticismo e nem um ataque mais eficiente contra o pen­samento religioso e seu modus operandi do que as observações feitas por Russell nestes pará­grafos. Não parece haver nenhuma dúvida de que o «agnosticismo» do filósofo britânico era uma mera precaução epistemológica e que, aos olhos do vulgo, ele seria um paradigma perfeito de ateu, tal como o biólogo Richard Dawkins, que também é agnóstico. Nunca compreendi de onde foi que tiraram que o agnosticismo se contrapõe ao ateísmo. Infelizmente perdi muito e amigos tentando argu­mentar que as pessoas que enxergam tal contraposição e se identificam com ela só estão que­rendo construir um muro sobre o qual possam se proteger da acusação quase ofensiva de ateísmo, ao mesmo tempo em que não conseguem mais voltar ao seio de uma religião pura e simples.

Partindo de tais premissas, o Bule Voador se apresentou a princípio com uma linha de atuação iden­ti­fi­cada com o pensamento racional e laico, embora tenha preferido os termos «humanista» e «secular» para expressar as respectivas posições. No começo pareceu que isto se deveu apenas a uma tentativa de identificação com entidades internacionais que a LiHS dizia representar, como a International Humanist and Ethical Union. Porém algo começou a parecer turvo na água do bule. O primeiro sintoma de que o chá servido pelo Fervoroso estava batizado aconteceu quando o blogue da LiHS abriu espaço para os advocati fidei. O segundo foi a obsessão do «Bule Acadêmico» em negar o caráter cético da posição ateísta, preferindo reduzi-la a uma crença, em artigo que já comentei aqui (e cuja última parte o autor até hoje não ousou publicar, mas estou monitorando).

Não é nada fácil explicar o motivo pelo qual um blogue cético, muito justamente inspirado por uma das mais devastadoras demonstrações do absurdo da crença religiosa que uma mente humana foi capaz de conceber, calhou de convidar pregadores religiosos para «dizerem alguma coisa» através do Bule Voador. Que os religiosos aceitassem era previsível, pois todo adepto sincero faz proselitismo, para poder atrair para o seio de seu rebanho aquele que pasta fora da cerca. O que não faz sentido é que tal convite tenha sido feito por pessoas que deveriam ter entendido a metá­fora do Bule de Chá com o que realmente é: a afirmação de que, racionalmente falando, a religião nada mais é do que a crença em coisas que não se pode ver, legitimada pela tradição e imposta pelo costume, pela coerção social e pelos interesses ideológicos. O que os membros da LiHS espe­ra­vam que os advogados da fé fizessem? Que postassem letras de música? Bem, alguns até fizeram isso, ao perceberem que não teriam como enfrentar o debate pelo lado da argumentação: restava-lhes tentar «tocar corações» (algo que, para falar a verdade, eram os sacerdotes astecas que faziam melhor). Mas o convite subitamente faz todo sentido se você esquecer que a LiHS surgiu no seio do «movimento ateu» e pensá-la como um projeto mais amplo, sem compromisso algum com o ateísmo, com Bertrand Russell ou com o ceticismo. Um movimento que precisa de adeptos, mesmo quem não tenha lido filosofia e nem entenda que raios é «ceticismo», mas que possui um sentimento difuso de que «não é ateu» (embora muitas vezes tal rejeição seja fruto de uma ideia deturpada do ateísmo) ou que não segue nenhuma religião em especial mas acredita em «algo maior» (que não sabe dizer o que é, mas curiosamente se parece com um Velho Barbudo que fica sentado numa nuvem). Esse bando de pessoas confusas que já são bastante inteligentes para não se deixarem ordenhar por televangelistas, que são bastante autônomas para recusarem que um velhinho que vive na Itália lhes proíba de transar com camisinha, mas que ainda se apegam ao medo atávico de se verem «sem religião» — esse é o público no qual a LiHS quer crescer. Para chegar até eles é preciso ter advogados da fé, é preciso esconder a cara do Russell e seu cachimbo, é preciso adotar um ícone, um discurso, uma ética consequencialista ou qualquer bandeira incontroversa, como os «direitos humanos». Desapegando o Bule do discurso raivoso dos ateus que sofreram na carne e na alma os preconceitos e violências da sociedade que os demoniza e reprime, a «Liga Voadora» quer ir mais alto, mesmo que ao preço de deixar os ateus no chão, afinal, eles são uma pequena minoria.

Houve outros indícios de que o Bule estava se transformando num projeto político voltado justa­mente para a maioria, esta mesma que já tem todos os outros partidos e bandeiras. Indícios de que o crescimento que importava era em números, mesmo que os novos adeptos não se enquadrassem com sinceridade em nenhuma das minorias tradicionalmente associadas ao «movimento ateu». Indícios, enfim, de que a LiHS estava buscando adesismo e não crescimento verdadeiro.

A comprovação definitiva de que o Bule não está mais compromissado com a defesa dos objetivos e valores das minorias irreligiosas veio neste mês de setembro, época em que desabrocham as flores, os amores e as ideias estranhas. Refiro-me a duas coisas específicas: uma série de artigos «Desmentindo Imagens Religiosas Preconceituosas» e o texto «Religiosidade e Bondade: o Bom Samaritano». Já que o pessoal do Bule anda gostando de epigrafar artigos com versículos bíblicos, vou lhes deixar um de sugestão: «Que os mortos enterrem os seus mortos» — Lucas 9:60 (ou Mateus 8:22, se você preferir).

Da mesma forma que o cético não deve tomar para si o fardo de destrinchar e explicar toda a floresta de ilusões, enganos, mentiras, superstições, medos atávicos e lógica torta que caracteriza uma religião; não deve também tomar para si o trabalho de defendê-la. É verdade que há muitos comentários contra a religião que são feitos por pessoas ignorantes ou preconceituosas. Feliz­mente para as religiões existem no mundo inteiro milhões de clérigos e teólogos de todos os tipos que podem encarregar-se de desmentir essas peças irritantes. Não há uma quantidade equivalente de pessoas com acesso à mídia capacitadas ou interessadas em defender as minorias irreligiosas dos ataques que são feitos contra todas as formas de descrença por pessoas também ignorantes e parciais. Não seria sábio, então, deixar que todos esses religiosos que aparecem na televisão e no rádio e nos jornais se encarregassem de defender suas respectivas fés e instituições desses ataques preconceituosos? Por que ocupar com esta defesa espaço precioso em um blogue que deveria ajudar a defender as minorias que não têm voz? Dirão que há muito espaço no blogue e que este tipo de conteúdo não prejudica os objetivos outros do Bule Voador. Direi que existe muito espaço no copo de cerveja e não há de ser uma mosca que vai prejudicar o meu prazer de beber.

Da mesma forma não faz sentido argumentar em favor da religião em um blogue inspirado por Bertrand Russell. Sei muito bem que a inspiração se prende mais a palavras do que pessoas — e é por isso eu exibo como frontispício deste meu blogue uma frase do Buda Gautama. Não faz dife­rença quem disse o que, o importante é aonde as palavras nos levam. Não sei se as palavras de Russell estão guiando o Bule Voador mais.

No referido artigo sobre o Bom Samaritano o Bule Voador ajuda a difundir uma série de coisas que só fazem bem aos movimentos religiosos. Primeiro, a noção de que a religião é essencial para a difusão de valores éticos. Segundo, que a Madre Teresa de Calcutá é uma figura positiva para a construção de uma sociedade mais humana. Terceiro que os indivíduos religiosos apresentam com maior frequência do que os irreligiosos uma série de qualidades que vão desde o altruísmo até a preocupação com a autoimagem. Sai-se do artigo com uma certa culpa por ter saído da igreja e com a dúvida de que talvez fosse uma boa ideia voltar para lá. Este é o papel do Bule Voador agora? Fazer proselitismo religioso amparado em qualquer dos inúmeros estudos publicanos anualmente nos Estados Unidos para legitimar a religião?

E nem falemos que o artigo não menciona a controvérsia sobre o papel de Madre Teresa, a natureza real de sua «compaixão» pelos pobres indianos, os discursos medievais e absurdos que fez contra o aborto, a contracepção, o divórcio e toda uma série de coisas já amplamente discutidas no movimento cético (a ponto de terem sido assunto de famoso documentário apresentado por Christopher Hitchens e posterior livro e serem mencionadas no artigo sobre Madre Teresa na Wikipédia) e que foram suficientes para barrar sua canonização, mesmo o ex papa João Paulo II tendo uma obsessão por isso. Em vez disso o artigo a chama de «sinônimo de bondade» e apenas menciona a «constante benevolência que ela demonstrou ao longo de sua vida». Este é agora o papel do Bule Voador? Difundir uma imagem rósea de líderes religiosos, mesmo havendo uma clara polêmica sobre seu caráter? A quem serve esse novo Bule Voador?

A mim ele não serve, não serve a ninguém que pertença a qualquer das minorias irreligiosas que existem no seio de nossa sociedade, à sombra das tetas gordas que sustentam os líderes de igrejas, com seus iates e mansões. Não serve a quem perde empregos por ser «servo de Satanás», não serve a quem é hostilizado pela família por não ir ao culto, não serve a quem recebe pregações prometendo convertê-lo «pelo amor ou pela dor», não serve a quem vê espaços públicos apropriados para usos eclesiásticos, e não serve a quem contempla, estarrecido, o esquartejamento da democracia pela insana farra dos partidos religiosos e suas bancadas, o «Centrão» contemporâneo.

Quando uma Organização Ateísta se Aproxima de uma Religião

Está lá em qualquer manual introdutório de lógica básica de argumentação que os argumentos que não seguem regras racionais são inválidos. Mesmo assim, as chamadas «falácias» (minimizaremos o uso do termo daqui para a frente) seguem sendo mais populares do que o feijão, exceto que todo mundo sabe como se chama o feijão, mas ninguém quase identifica, por nome e sobrenome, os erros de argumentação que se pode cometer. Estes erros, porém, estão cuidadosamente catalogados, cada um em seu escaninho, e há alguns guias na internet que podem servir de base a quem queira conhecê-los.

Um dos usos mais comuns das tais falácias é na tentativa de desqualificar o ateísmo como sendo uma crença ou, de uma forma menos sofisticada, como uma religião. É preciso ter muito cuidado com esse tipo de argumentação porque se trata de uma «faca de dois gumes» e qualquer um deles parece igualmente válido. Mas na prática, nenhum é cem por cento garantido.


O primeiro gume é a comparação entre as atitudes de organizações ateístas e de seus líderes em relação ao que dizem e fazem os líderes e organizações comumente tidos como religiosos.  Esta é uma comparação válida, porque é comum que as pessoas creiam estar combatendo eficazmente por uma causa quando estão, de fato atrapalhando-a. Desta forma, não há problema algum em apontar semelhanças entre ateus e suas organizações com qualquer instituição religiosa. Desde que a comparação seja demonstrada.

Mas disso não se segue (non sequitur) que o ateísmo seja uma religião. Este é o segundo e traiçoeiro gume que corta a mão de muita gente que não sabe brincar, mas desce para o play.

O fato de uma pessoa estar equivocada quanto à definição de seu posicionamento quanto a um determinado conceito nada tem a ver com a validade da definição em si. Pondo isto de uma forma mais fácil de visualizar, o fato de um louco se achar uma cenoura não significa que ele seja uma cenoura. Esta é apenas a sua percepção distorcida de sua identidade.

As semelhanças entre os dizeres e atitudes de algumas pessoas ligadas ao «movimento ateu» e os dizeres e atitudes de outras pessoas ligadas a religiões apenas demonstram uma dificuldade para desvencilharem-se completamente de modelos mentais muito arraigados culturalmente.

Outro exemplo fácil: só porque um líder esquerdista se tornou autoritário, isto não quer dizer que a esquerda seja autoritária.

Aqui temos outra faca de dois gumes. Alguns dirão que minha afirmação anterior padece de argumentação improvisada (argumentum ad hoc), também conhecido como a falácia do verdadeiro escocês. Que pode ser demonstrada assim: Todo X = Y, Este X não é Y, então este X não é X. A acusação pode ser facilmente desmontada se lembrarmos que a acusação padece da falácia da composição (generalização): como se pode afirmar que todo X = Y?

Então, o fato de um líder ter se desviado da doutrina não invalida a doutrina. O mesmo se aplica ao ateísmo. Dizermos que determinado líder ou determinada organização assumiu um comportamento análogo ao religioso, ou mesmo, simplesmente, dizer que «virou religião», não significa que o ateísmo em si seja religião.

Estas distinções precisam ser feitas, sempre e com muito cuidado, quando criticarmos os desvios cometidos por entidades que desaprovamos. Para que nossas palavras não acabem na boca de líderes religiosos, sendo usadas para provar que o ateísmo se dividiu em «seitas» como qualquer religião.

Coerência Humanista

No dia 27 de julho último um blogueiro reacionário chamado Nihil Lemos (ligeiramente à direita de Rush Limbaugh) publicou um texto chamado Funk: uma Poderosa Arma Idiotizadora, no qual tece suas críticas de praxe ao Estado. Na cabeça desse cidadão o funk carioca é uma espécie de arma musical desenvolvida pelo PT para alienar o povo e afastar os candidatos «mais preparados» dos postos que merecem por direito de nascimento, ou algo assim, eu não entendo direito o que esse cara tem em mente.


Não me interessa dissecar os argumentos contidos na postagem original, pois ela desmente a si mesma quando o leitor, em vez de engolir o texto sem mastigar, resolve fazer as indagações necessárias na situação. Eu espero que meus leitores sejam capazes de detectar o que está errado em típicas peças de direita estrábica como essa, ou não serão, tampouco, capazes de seguir o meu raciocínio.

O que me interessa é dissecar de que forma o presidente da Liga Humanista Secular, o Sr. Eli Vieira, reagiu às críticas feitas por Nihil Lemos.

Ele poderia ter reagido demonstrando que o atual governo não tem nenhuma responsabilidade nem pelo surgimento e nem pelo desenvolvimento do funk carioca. Que se algum governo tem alguma responsabilidade sobre isso, tal deve ser buscada nos governos fluminenses após 1982, aí incluído o Brizola, apenas para evitar, com sua exclusão, um debate absurdo sobre o sexo dos anjos. Ele poderia, inclusive, ter aludido que o referido estilo musical já não conta hoje com tanta popularidade quanto já contou, que está sendo gradualmente destronado por outros estilos, como o brega e o sertanojo universitário (sic) — o que indica que a estratégia «do governo» está falhando. Enfim, havia uma infinidade de coisas que Eli Vieira poderia ter argumentado contra Nihil Lemos, a maioria delas teria atingido o alvo, pois o texto em questão tem mais furos que «táuba de tiro ao álvaro» (como disse o Adoniran, e por favor, vá pesquisar quem foi Adoniran, você que nasceu ontem). Porém Eli Vieira preferiu declarar o seguinte:

Atualização: Print da resposta original.


Existem vários problemas envolvidos neste comentário, alegadamente em privado (mas todo mundo sabe que se alguma coisa é realmente privada você jamais deverá publicar na internet, tanto quanto não deve contar seu segredo mortal para seu «melhor amigo»). Trata-se de uma prova do nível «batom na cueca» de que o Sr. Eli Vieira possui algum tipo de dissonância cognitiva (uma condição, não congênita, não hereditária e não definitiva, que impede que uma pessoa processe informações que se choquem com o seu ponto de vista).

Refiro-me às insistentes campanhas que a Liga Humanista Secular sempre faz contra o estupro. Como esta aqui:

Postagem do blogue da Liga Humanista Secular festejando o impacto de sua campanha de protesto contra uma propaganda viral das camisinhas Prudence, que supostamente incentivaria o estupro.

Como é possível que alguém que está à frente de uma organização que faz campanhas tão visíveis e bem sucedidas contra o estupro não veja nenhum problema em simpatizar-se com o funk carioca, um «gênero musical» que dispensa apresentações quanto ao seu conteúdo apologístico a estupros, pedofilia, tráfico e uso de drogas ilícitas, formação de quadrilha, tortura e assassinato de desafetos, roubo e etc?

Uma pergunta dessas não pode ficar sem resposta. Mas a única resposta que Eli Vieira deu foi sair pela tangente, alegando que o conteúdo reproduzido era «privado». Uma vez mais me pergunto que privacidade se deve esperar no Facebook. Mas o que me importa é que Eli não se retratou e pouco explicou sobre o conteúdo estranho de sua postagem:

 Não foi a primeira vez em que esse prócer do «humanismo» foi pego em contradições e esquivou-se de reconhecer o próprio erro. O famoso episódio da «enfermeira crente fanática» parece ter ensinado pouco ao Bule Voador e à LiHS.

GLOSSÁRIO:

educar no sistema antigo : educa pelo uso da violência, apologia da tortura
um tapinha não dói : «canção» do funk que fazia apologia à violência contra a mulher
soltar as cachorras : submeter a uma agressão coletiva
pentada : efeito do descarregamento de um pente de balas

Manifestações Inúteis de «Sofativismo» do «Movimento Ateu»

Rejeitar «Deus Seja Louvado» das Notas de Real

Todo ateu que se preze acredita piamente que vivemos sob um «estado laico» e que, por esta razão, qualquer manifestação da religiosidade hegemônica deve existir tão somente na esfera pessoal. Isso explica porque essa gente não tolera que nossas notas de real tenham a inscrição «Deus Seja Louvado», nelas instalada por um nosso ex presidente que não se notabilizou nunca por seu cristianismo. Como essa gente não tem latim (ou bufunfa) suficiente para impetrar um mandado de segurança contra o Banco Central e a Casa da Moeda, resolve cometer um ato pessoal de terrorismo para «mostrar o dedo» ao «sistema», na melhor tradição da rebeldia punk: suja, ineficaz, ininteligível, equivocada e contraproducente. Estou falando de hábito, muito festejado nas rodinhas ateístas nas redes sociais, de rabiscar nas notas a inscrição maldita.

É um ato sujo porque emporcalha o nosso dinheiro, que já é um dos mais vilipendiados do mundo. É ineficaz porque alguns poucos idiotas fazendo isso com as vinte ou trinta notas que passam pelo seu bolso por semana não conseguem fazer ninguém notar que existe um «movimento» de rejeição ao Deus-Seja-Louvado. É ininteligível porque, mesmo se alguém perceber os rabiscos, dificilmente entenderá a mensagem de que «o estado é laico e esta inscrição viola os direitos constitucionais de isonomia entre os credos, ao não contemplar crenças não cristãs ou não monoteístas». Em vez disso, a pessoa pensará que um satanista porco estragou aquela nota. Isso, claro, é ótimo para os objetivos do «movimento ateu» — e explica porque o ato é equivocado e contraproducente.

PODIA PIORAR? Sim, sempre pode. Se rasurar a inscrição já é uma atitude tosca, existe uma maneira de levar isso ao modo berserk: encomende um carimbo contendo uma tarja preta (para cobrir a inscrição) e uns dizeres explicando o porquê em poucas palavras («o estado é laico»).

PORQUE É AINDA PIOR? Porque dificilmente as pessoas compreenderão o protesto. Continua sendo sujo, continua-se estragando o dinheiro, continua sendo irrelevante, continua sendo ininteligível porque quase ninguém sabe o que é «laico» e a maioria acha que «estado» se refere a Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, Pernambuco… 
 

QUAIS OS RESULTADOS? As notas estragadas pelos dementes serão recolhidas tão logo passem pelas mãos de um caixa cuidadoso, em qualquer agência bancária. Serão encaminhadas ao Banco do Brasil, e posteriormente ao Banco Central, como «numerário não utilizável». Serão incineradas e substituídas por notas novas. Ao rasurar a inscrição, o ateu «modinha» apenas aumentou a despesa do BaCen com a manutenção do meio circulante.

O QUE DEVERIA SER FEITO? Junte um bando de gente interessada e impetre um mandado de segurança contra o Banco Central citando o artigo constitucional que veda ao Estado estabelecer cultos religiosos (Artigo 19, inciso I da Constituição Federal). Ao inscrever «Deus Seja Louvado» no meio circulante o Estado está determinando que a divindade monoteísta seja cultuada, o que viola uma cláusula constitucional explícita. Se a ação for derrotada, então o estado não é laico, coisa alguma. Que tal mudar-se para os States? Oh, esqueci… «In God We Trust».

Debates em Blogues ou Redes Sociais Ateístas

Blogar é muito útil para quem é ateu. Pois é somente através da internet que muitas pessoas, vivendo em cidadezinhas ou em comunidades urbanas de mentalidade estreita, conseguem entrar em contato com outros que pensam igual, ou mesmo desabafar para o vento. Quem não é tão bom para escrever se conforma em visitar os blogues e páginas sociais de quem escreve e deixa lá seus comentários elogiosos. Trata-se de algo tão natural que as pessoas não percebem o quanto é inútil.

É inútil porque, para falar a verdade, cada vez menos gente lê blogues. Tenho os meus já faz quase quatro anos e até hoje só ganhei treze dólares de AdSense e tive 28200 visitantes. Então ficar vociferando contra criacionistas, «crentelhos», pastores dinheiristas, «homofóbicos» ou testemunhas de Jeová em blogues como este (ou como aquele em que você está pensando, mesmo que ele tenha mais visitantes…) é como gritar para dentro de uma caverna. Ninguém importante vai ouvir e o máximo que pode lhe acontecer é levar pela cara uma revoada de morcegos.

MAS PODE FICAR PIOR. Claro que pode. Tem gente que faz disso uma verdadeira cruzada. Só que, em vez de garbosos cavaleiros andantes lidando pela verdade, essas pessoas estão brandindo suas espadas enferrujadas contra inimigos imaginários. Chega a ser deprimente pensar que tem gente que gasta preciosas horas de sua vida «debatendo» contra crentes e criacionistas, que se orgulhe de «humilhar» os pobres «cristõezinhos». Como se esmagando baratas avulsas pudéssemos higienizar uma casa infestada de pragas. Não são moinhos de vento, não, amigo, são mesmo gigantes. E dê um abraço no Sancho Pança.

PORQUE AINDA É PIOR? Porque o criacionista não é um ser maligno em si, ele é fruto de um sistema que precisa de idiotas desinformados, convencidos de que suas certezas superficiais o tornam especial. Esse é o tipo de gente que se alista em exércitos e enfrenta o canhão do inimigo com uma baioneta na mão, que encara doze horas de chão de fábrica durante a semana e ainda vai torcer pelo seu time no domingo. Tire desses pessoas sua ilusão de que «alguém lá em cima gosta de mim e odeia meu patrão» e você terá uma revolução. Só que todo mundo já entendeu como funciona esse troço e sabe muito bem que é só não adubar o chão que a sementinha vermelha não brota. Se você realmente quer que existam menos criacionistas e menos crentes em geral, precisa provar ao «sistema» que é possível hipnotizar as massas usando outra cenoura. Enquanto as elites estiverem convencidas de que o povo sem religião vai cantar a Internacional pelas ruas, continuará estimulando esses ridículos pregadores que tentam nos convencer de que uma mulher realmente pariu caveirinhas de «prástico» porque se afastou dos caminhos do «sinhô».

QUAIS OS RESULTADOS? Quanto mais virulentos, mais folclóricos se tornam esses paladinos do ateísmo. Além do ridículo pessoal eles conseguem fazer a reputação justamente daqueles a quem pretendem neutralizar. Existe uma razão pela qual biólogos «de verdade» não debatem contra criacionistas em lugar algum, e é a mesma razão pela qual você não joga xadrez com uma pomba. Dawkins explicou isso muito bem ao se negar a debater com William Lane Craig: «tal debate ficaria muito melhor em sua biografia do que na minha». Ao aceitar debater contra pessoas obviamente despreparadas você facilmente aparece como um vilão orgulhoso, no dia em que se deparar com uma pessoa preparada, mas mal intencionada, poderá não conseguir uma vitória tão fácil e então esse seu «engasgo» será contabilizado como «vitória» pelo seu oponente. Se William Lane Craig está até hoje cantando vitória porque Dawkins «não teve coragem» de debater contra ele, imagine o que não estaria fazendo se ele conseguisse fazer uma pergunta que o biólogo britânico não soubesse responder… 
 

O QUE DEVERIA SER FEITO? Primeiro, vá estudar. Se já estudou, pense em começar a compartilhar conhecimento (e não patadas). Ajude a divulgar conhecimentos históricos, científicos e filosóficos para quem deles precisa. Torne-se um professor ou então voluntarie-se em alguma ONG ou cursinho. Seja respeitoso com essas pessoas: ignorância não é falha moral. Quando você conseguir aumentar sua cultura geral, perceberá que elas terão mais autonomia intelectual e, mesmo que nunca se tornem ateístas, pelo menos vão aprender a respeitar melhor modos diferentes de pensar e de seguir pastores folclóricos com chapelões ou gírias cafajestes envolvendo falsas dicotomias sexuais porque deixarão de acreditar que o Ser «Oni-Fodão» que criou o universo precisa de dinheiro e tem uma estranha preocupação com o uso que fazem de seus orifícios corporais.

Ler o Cânone do Neo-Ateísmo Moderno Contemporâneo e Atualizado

Não importa se Hitchens escrevia sob uma perspectiva rigidamente eurocêntrica, se Dawkins argumenta para um público familiarizado com a cultura britânica, se Sam Harris é um chauvinista americano, etc. Não importa. Somente pela leitura das obras mais recentes dos Grandes Ateus de hoje é que você se torna um ateu de verdade. Quem não leu nenhuma destas obras sequer tem o direito de opinar em voz alta, no máximo comentários curtos e respeitosos no blogue, nunca contestando o genius loci.

MAS PODE FICAR PIOR. Validar o posicionamento político e filosófico de uma pessoa com base no que leu é imaginar que as pessoas só podem chegar ao posicionamento x através da leitura, nunca por meios autônomos. É negar a autonomia intelectual que os ateus supostamente, muito supostamente, defendem. É transferir a responsabilidade pelo pensamento aos grandes centros filosóficos que, curiosamente, escrevem em inglês, a língua que tanta gente aprende bem em cursinhos pelo Brasil afora. Isso se transforma em idiota berserk quando a vítima, tão bem educada por tantas leituras úteis, começa a defender a primazia dos States e seus valores, preconizando que façamos exatamente como a elite americana propagandeia que deveríamos fazer. Lavagem cerebral auto induzida pela leitura acrítica de obras de qualidade variável, de autores muitas vezes comprometidos com a defesa dos interesses das sociedades em que estão inseridos. Esta história de «cidadão do mundo» é uma forma de dourar a pílula do imperialismo para os colonizados engolirem.

PORQUE É PIOR? Porque o «libertarianismo» que anda tão em voga nada mais é do que uma ideologia de extrema direita que descende do vigilantismo, do Macartismo, da Ku Klux Klan, dos sobrevivencialistas e do Tea Party. Esses caras negam a própria civilização ocidental, ao negar os valores sobre os quais se assentam as poucas coisas boas que temos (ou achamos que temos): a solidariedade social. Essa gente quer abolir a aposentadoria, acabar com as garantias trabalhistas, acabar com os impostos, o diabo. Consideram o Estado o seu maior diabo. Quem come desse feno com a boca boa não percebe que o Estado de fato nunca deixará de existir: essa pantomima toda é só um jogo de cena para justificar o desmonte das garantias sociais, já que estamos chegando ao fim dos tempos em que era possível sonhar com uma prosperidade universal. Entrar nessa onda de libertarianismo é como chegar numa Assembleia Geral da ONU representando seu país de cidadãos barbados e turbantados usando um cartaz escrito «Bomb Us Next».

QUAIS OS RESULTADOS? Um bando de gente que se acha inteligentinha porque comprou e leu, ou leu sem comprar, alguns livros que a maioria não se interessa em ler.

O QUE DEVERIA SER FEITO. Estudar a história do pensamento político humano. Um bom livro de «História da Filosofia» e alguns exemplares da coleção «A Obra Prima de Cada Autor» da Martim Claret já seria de boa ajuda.

Pedras Ateias ou «Será o Ateísmo um Aprendizado?»

Este artigo vai dedicado a três pessoas em especial. Primeiramente ao Eli Vieira e ao Gregory Gaboardi, da Liga Humanista Secular do Brasil, com quem certa vez travei um interessante debate sobre «pedras ateias» (mais adianta explicarei o conceito) e a Neli Espanhol, amiga dos tempos de Orkut que fez um comentário no mesmo sentido, na postagem do Google Plus referente ao artigo imediatamente anterior a este.

A motivação deste artigo está em uma frase solta contida naquele texto: a afirmativa de que «ninguém nasce ateu». Para Neli, todo indivíduo ao nascer, estando isento da crença em divindades, seria ateu. Para Eli e Gregory, no referido debate travado nos comentários do blog do Paulopes, não faz sentido imaginar o ateísmo como algo inato, pois então teríamos que admitir que até pedras, que nunca pensam sobre Deus (uma vez que nunca pensam) teriam de ser atéias.

Se não me falha a memória (mas eu sei muito bem que ela falha) eu me pus contra a tese de Eli e Gregory nos seguintes termos:

  1. Não faz sentido dizer que pedras são ateias porque pedras não pensam. Ateísmo é um posicionamento epistemológico, pedras não sabem o que é epistemologia.
  2. Um indivíduo que nunca foi apresentado ao conceito de Deus (tal como um bebê recém nascido) certamente não é teísta, e portanto não podemos considerar o teísmo como «natural».
  3. Se os recém nascidos não conhecem nenhum conceito de Deus, resulta que o teísmo é um aprendizado.
  4. Se não aceitamos que a ausência do conhecimento do conceito de Deus seja chamada de «ateísmo» então precisamos de uma definição melhor do conceito porque certamente uma pessoa que nunca foi apresentada a Deus não tem em relação à divindade a «suspensão de crença» que caracteriza o agnosticismo.
  5. Então, se a situação de ignorância do conceito de divindade não é nem teísmo e nem agnosticismo, só pode ser ateísmo.

O erro conceitual cometido tanto por Gregory (inclusive em sua série «Porque o Ateísmo É uma Crença») é considerar ateísmo e agnosticismo como posicionamentos antagônicos. Eu também cometia esse engano até que li um pouco mais sobre a filosofia do ateísmo e compreendi que não apenas os dois posicionamentos não são mutuamente excludentes como também se complementam. Bertrand Russell chegou a afirmar que se declarava ateu quando uma pessoa comum lhe perguntava se acreditava em deus, mas agnóstico quando conversava sobre o tema com outros filósofos. Muitos neo ateus se surpreendem com isso, mas o próprio Richard Dawkins se diz agnóstico. Com o tempo fui percebendo que «agnóstico» é apenas uma das formas de ser ateísta.

Então, quando busquei entender o que seria o ateísmo, que não era algo oposto ao agnosticismo, compreendi que ele só pode ser entendido quando contraposto ao teísmo. Pode parecer besta essa conclusão, visto que a própria palavra «ateísmo» revela esta contraposição, mas muita gente tem se empenhado, por décadas, a borrar esta oposição e convencer ao mundo de que existe uma rixa entre ateus e agnósticos. Até mesmo muitos ateus compraram essa briga. Só que isso não existe. A rixa do ateísmo é contra o teísmo, nunca, jamais contra outras formas de ateísmo.

Tudo aquilo que não é teísmo nem panteísmo e nem deísmo forçosamente é ateísmo. Ou você crê em deuses personificados, ou crê na natureza como um deus, ou crê em um deus impessoal ou… não crê em deus(es).

Então, uma criança nasce ateísta porque não crê em deuses. Uma criança não tem conhecimento do conceito de divindade, portanto não pode nem aceitar nem rejeitar e nem suspender sua crença quanto a esse conceito. E mesmo assim é ateísta. Porque ateísmo não é rejeição e nem suspensão de crença, é a ausência de crença em divindades. Ausência que pode se manifestar pelo desconhecimento (caso do bebê), pela suspensão (agnóstico) ou pela rejeição (ateísta positivo). Mesmo a rejeição pode ser explícita (racional ou não) ou implícita (irreverência, indiferentismo). Querer reduzir toda essa variedade de posições a um conceito único é um projeto sem sentido, tanto quanto é um conceito sem valor pretender definir animal de uma forma restrita. Não podemos negar a validade das diversas formas de não ser teísta da mesma forma como não podemos afirmar que animais necessariamente tenham pêlos, patas ou dentes.

Com tudo isso quero chegar  a um mea culpa: de fato eu não fui claro nem correto ao afirmar que ninguém nasce ateu. A verdade é justamente o contrário: todos nascemos ateus. O que eu quis dizer é justamente que ninguém nasce com a consciência disso, pois não nasce sabendo o que é deus. De qualquer forma, errei e admito.

O Grande Conflito do «Movimento Ateu»

Nunca se discutiu tão abertamente o ateísmo no Brasil quanto se há discutido em anos recentes. Durante a maior parte da nossa história, o ateísmo foi anátema ou visto como coisa de “intelectuais”. Há grande confusão entre o simbolismo cristão, especialmente católico, e as criações culturais específicas de nosso povo: muitas de nossas “festas populares” nada mais são que ritos católicos medievais que sobrevivem em nossos rincões. Some-se a isso o processo lento de aculturação pelo qual passamos (só tivemos universidades já no século XX, enquanto no resto da América Latina elas existem desde os séculos XVI ou XVII) e fixa-se a ideia de que ateísmo é uma novidade, uma moda estrangeira ou coisa de loucos, como sugere a “sabedoria popular” (essa que elegeu Tiririca o deputado mais votado do Brasil).

O próprio conceito de “liderança” ideológica está contaminado pela aspiração de monopólio do conhecimento e, concomitante a ele, de tomada de decisões. Infelizmente isto se reproduz no movimento ateu. Aqueles que se assentam nas posições superiores são os que detêm o controle de meios de difusão (blogues, sites) ou de produção de conteúdo (polemistas, vloggers, debatedores) e dos demais se espera basicamente que sejam comentaristas cordatos, sempre prontos a aplaudir, nunca a criticar. Eventuais manifestações de discordância resultam em exclusões formais ou informais (meramente passar a ignorar o que é produzido pela dissidência). A linha de separação entre as duas categorias está na habilidade para manejar uma linguagem razoavelmente rebuscada, o conhecimento de termos de lógica argumentativa (como “falácia”) e o acesso direto a instrumentos eficazes de difusão do próprio discurso.

Este tipo de estrutura argumentativa não só apresenta analogias com o funcionamento de partidos políticos mas também, dolorosamente, com seitas, motivando que alguns religiosos se referissem a certas entidades representativas de ateus como “igrejas” ateístas. O termo é sempre empregado para ofender e desqualificar algum setor do “movimento ateu” que se organize de alguma forma e faz parte da acusação falaciosa de que o ateísmo é somente outra religião. Ainda que este tipo de situação seja mais típico do funcionamento de partidos políticos e sistemas ideológicos e não reflita o modo de funcionamento de nenhuma organização ateísta específica. Não obstante, o filósofo inglês Alan de Botton parece determinado a justamente criar uma “igreja ateísta”, com o objetivo de permitir que os ateus experimentem aquilo que a religião tem de bom, que é, em sua opinião, o senso de comunidade.

Houve, por fim, casos de pessoas e entidades que haviam adquirido ascendência por sua fama ou propostas e acabaram se aproveitando da situação para avançar objetivos pessoais e casos em que guerras de egos e inveja impediram o sucesso de iniciativas de união. Citando Dawkins: arrebanhar ateus é como pastorear gatos.

Aos olhos de quem está “de fora”, fica a impressão de que os ateus vivem às turras. O que não deixa de ser uma impressão semelhante que os “de fora” têm em relação aos religiosos, que não perdem uma oportunidade para anatematizar-se reciprocamente. As diferenças entre as concepções ideológicas e políticas no “movimento” tornam impossível criar a partir dele um partido ou organização formal.

Em parte isto se deve à oposição entre “esquerda” e “direita” já mencionada, com a segunda sendo responsável pela maioria dos seguidores e a primeira, pela maioria dos produtores de conteúdo de qualidade. Uma recente iniciativa de criação de um partido “laico” resultou em grande decepção pois a maioria direitista conseguiu expurgar a minoria esquerdista mas não soube o que fazer com o projeto, devido a falta de conhecimentos básicos até mesmo de como funciona o sistema político brasileiro. Assim, o grupo se transformou em apenas mais um grupo cético no Facebook.

Disto se aproveitam os religiosos para atacar e enfraquecer as iniciativas de controle do poder da religião sobre o estado laico — notadamente diante da transformação demográfica por que passa o país, com o crescimento notável da adesão a igrejas neopentecostais que, apesar de fragmentadas, atuam de forma sincronizada na defesa de seus interesses. Este crescimento não é bem recebido pelo “movimento ateu” pelos mais diversos motivos. Para os ateus de esquerda trata-se da difusão de uma ideologia alienante propagada pelos ianques, para os ateus de direita trata-se de um retrocesso cultural puro e simples, mas ambos concordam que esse é o inimigo comum. Difícil é concordarem em uma estratégia comum contra este inimigo. Especialmente porque ambos os lados parecem ter outras fidelidades a zelar, tão significativas quanto o ateísmo, ou até mais.

Mas esta fraqueza é também a grande força do “movimento ateu”: como ele não é uma coisa única, não pode ser simplesmente descartado com um argumento único e nem suprimido através da repressão a uma entidade única. A incompreensão deste ponto é que leva certos setores do “movimento ateu” a criticarem esta pluralidade de opiniões. Vivemos em uma sociedade onde o pensamento único ainda é visto como uma utopia possível, e não como uma violência inominável contra a humanidade. Por não estar ajustado a este paradigma mental, Como diz uma genial frase apócrifa atribuída a Krishnamurti: Não é grande prova de sanidade ser perfeitamente ajustado a um mundo doente. O “movimento ateu” acaba sendo, tanto à esquerda quanto à direita, uma força criativa importante, pela qual até mesmo certos líderes religiosos aprenderam a ter respeito. A fragmentação é também a prova mais cabal de que o “movimento ateu” não é voltado para a lavagem cerebral das pessoas (pela impossibilidade de, sendo tão desorganizado, poder fazê-lo). Desta forma, a fraqueza surgida da fragmentação acaba sendo algo bom, pois:

Toda autoridade de qualquer espécie, especialmente nos campos do pensamento e do entendimento, é o que pode haver de mais destrutivo e mau. Os líderes destroem os seus seguidores e os seguidores destroem aos seus líderes. Cada um deve ser seu próprio Mestre e seu único discípulo. Deve questionar tudo que o homem aceitou como venerável, se isto for necessário (Krishnamurti).

Persiste, porém, a ilusão de que um movimento assim tão fraturado seria “fraco” e que a criação de um “núcleo duro” ou de um setor “mais coerente” resultaria em uma força transformadora mais eficaz — tal é o cerne da preocupação política a que se aludiu acima. É nesse contexto que vem a ideia de propor definições excludentes para o ateísmo — especialmente as imperativas. Claramente tal objetivo é uma quimera, pois no campo das Ciências Sociais as tentativas de definições positivas de conceitos historicamente resultaram em modelos absurdos, como a frenologia e os estudos raciais eurocêntricos desenvolvidos no século XIX e difundidos até meados do século XX, ou a louvável, porém incompleta, tentativa freudiana de explicar o comportamento humano a partir de um conjunto restrito de conflitos e arquétipos.

Pior do que isso: nosso desejo de força não deve servir de pretexto para a rendição a coletividades sufocantes da liberdade individual. Se nos deixamos cooptar por grupos grandes, pela sedução de seu tamanho, nos veremos reduzidos a meros integrantes de uma vaga cujos rumos não temos como escolher. Não há nenhum mérito em ser membro de tal vaga por livre e espontânea vontade. O mérito está justamente em tentar freá-la ou desviá-la do futuro.

Porque o Ateísmo Continua Não Sendo uma Crença – Parte 1

Está por concluir-se por esses dias uma série de postagens feitas no Bule Voador com o título «Porque o Ateísmo É uma Crença», assinadas por Gregory Gaboardi, estudante de comunicação na UFRGS (até onde pude apurar pela internet, mas aguardo correção de quem possa perguntar-lhe diretamente suas credenciais). Considerando que finalmente o autor concluiu sua argumentação, inicio hoje aqui uma série de comentários a respeito de suas colocações.

Introdução

Gostaria de advertir os meus leitores que ainda não sabem (sempre se deve estar precavido contra distraídos ou recém-chegados) que eu sou um crítico do que chamo de «movimento ateu» brasileiro, mesmo sendo eu mesmo um ateu. Minhas críticas não se dirigem ao ateísmo em si, em nenhuma de suas correntes, mas à atuação de seus pretensos líderes, próceres e ídolos, e se limitam estritamente àqueles pontos nos quais posso discernir o que considero erros estratégicos. Em resumo: acredito que a maioria dos ateus brasileiros que têm visibilidade na blogosfera ou nas redes sociais são pessoas muito imaturas e despreparadas para uma argumentação racional, embora se considerem, devido ao ateísmo (o que é a maior tragédia), mais preparadas que qualquer reles papa hóstias. Acima de tudo, percebo nestas pessoas um alto grau de dependência em relação ao que se escreve, diz e pensa sobre ateísmo em inglês. A falta de originalidade faz com que reajam de forma às vezes desconexa ou até incompreensível diante de desafios específicos de nossa realidade.

Portanto, nesta postagem, como de vezes anteriores, procurarei desmascarar, na medida em que minha limitada formação acadêmica e cultura geral o permita, os equívocos cometidos por Gaboardi, um prócer do movimento cético. Não sei se o autor se auto intitula ateu ou outra coisa e o Bule Voador parece não tomar um lado nesta questão, preferindo alargar o muro para que o maior número possível de pessoas possa estar em cima.

Como não pretendo discutir o tema deixando meu leitor «no vácuo», a série de artigos escrita por Gaboardi pode ser encontrada integralmente nos links a seguir:

  1. Parte I
  2. Parte II
  3. Parte III
  4. Parte IV
  5. Parte V
  6. Parte VI
  7. Parte VII
  8. Parte VIII
  9. Parte IX — pendente

Ao contrário de Gaboardi, que dividiu sua argumentação em várias partes para evitar uma leitura muito longa e intimidante, eu dividirei a minha em partes para simplesmente separar diferentes linhas de raciocínio. Cada parte subsequente a esta pode repetir e repisar conceitos aqui já abordados, apenas sob outro ponto de vista. As diferentes partes de meu argumento são como diferentes ângulos, e não partes sequenciais de um todo.

Por que Escrevi esta Réplica

Normalmente só me dou ao trabalho de responder na forma de um artigo  alguma coisa escrita em outro blogue quando o tema é realmente polêmico e o potencial do assunto é grande. Neste caso específico, determinei-me a escrever estas respostas porque percebi dois grandes equívocos na série de argumentos alinhavada por Gaboardi:

  1. Apesar de uma preocupação terminológica obsessiva, Gaboardi não parece perceber — ou faz questão de dissimular — que para poder empregar o termo «crença» em relação ao ateísmo, seria necessário não empregá-lo simultaneamente para o que se entende normalmente como crença referente a religião. A consequência desta obscuridade é a impressão que se passa ao leitor desavisado (ou ao leitor mal intencionado e muito bem avisado) de que é possível igualar toda a ampla gama de conceitos relacionados ao ateísmo com todo e qualquer conceito esposado pelas religiões.
  2. A espinha do argumento de Gaboardi se insurge contra a validade da falácia da inversão do ônus da prova. Ou seja: o autor sugere (obliquamente, mas sugere) que inverter o ônus da prova não é uma falácia e que as pessoas que rejeitam afirmações positivas precisam embasar sua rejeição, ainda que as afirmações originais jamais tenham sido embasadas. Obviamente Gaboardi não leu o artigo de Bertrand Russell no qual se criou o conceito do Bule Voador.

Pelos três motivos acima, considero que o autor, que não é filósofo, empreendeu-se a uma tarefa hercúlea, contrapondo-se a uma imensa parede de tradição filosófica (inclusive a base da epistemologia moderna, Karl Popper) usando apenas sua atiradeira e saiu-se muito mal. E por considerar que saiu-se mal, propus-me a demonstrar de que maneira.

Inicialmente esta réplica sairia em forma de livro eletrônico. Porém, quando percebi que o texto estava ultrapassando as cem páginas, notei que o foco havia sido perdido e, mesmo que o trabalho fosse ainda justificável, era preciso produzir uma peça menor e mais ágil para abordar o tema.

O Significado de «Crença»: Armando o Inimigo

Independente dos erros argumentativos cometidos por Gaboardi, que serão melhor explicitados em outra postagem, existe um outro problema envolvido no conjunto de sua argumentação: ao igualar no nível do termo «crença» tanto as posições aceitas pelos religiosos quanto a negação delas (o ateísmo), o autor efetivamente legitima as religiões — ainda que apenas aos olhos das pessoas que não consigam perceber a sutiliza envolvida nas diferentes acepções da palavra «crença». A este respeito, eu só posso fazer minhas as palavras da «Atéia Zangada» (Greta Christina): precisamos buscar a precisão para evitar armar o inimigo.

A falta de clareza a que me refiro está no emprego de um termo carregado de simbolismos religiosos para algo que de forma alguma está relacionado a imaginar um Velho Barbudo no Céu que criou tudo e dirige nossas vidas. Nossa língua é rica o bastante para possuir uma quantidade bastante variada de termos que se prestam a isso, sem que precisemos abusar da palavra «crença». Se for para dizer que achamos que algo está certo, poderíamos usar verbos como «concluir», «supor», «achar», etc. Nunca «crer». Infelizmente a palavra «crença» está de tal forma contaminada pelo uso em contextos religiosos que qualquer tentativa de retirá-la de lá será contraproducente, só servirá para confundir a todo mundo, religiosos e ateus, sobre o que realmente pensamos. Greta Christina expressou este dilema de forma quase lapidar:

É impossível evitar que os religiosos deturpem nossas ideias. É impossível evitar que os religiosos ponham palavras em nossas bocas e finjam que dissemos coisas que claramente nunca dissemos e que não pensamos. Mas não temos que ajudá-los a fazer isso.

Portanto, o primeiro grande equívoco de Gaboardi é empregar um termo ambíguo em um texto dirigido a um público amplo e leigo, que não tem conhecimento das sutilezas envolvidas.

Prove-me que Estou Errado

A mais extraordinária das colocações feitas por Gaboardi em sua série de artigos (emprego este adjetivo por amor de ser educado) é esta aqui, na abertura da segunda parte:

Este argumento costuma acompanhar a conversa sobre o ônus da prova: cabe ao teísta provar qualquer coisa, o ateu não precisa provar nada, o ateu supostamente não tem crença alguma e não faz afirmações extravagantes. Chamo esta confortável posição na qual o ateu tenta se colocar de comodismo argumentativo, terei mais a dizer sobre ela nas partes finais deste ensaio, por ora o que posso adiantar é que ela é desastrosa para o ateísmo.

Acho muito imprópria a preocupação de Gaboardi com a suposta comodidade da posição ateísta. Existe, de fato, uma grande comodidade em estar assentado sobre alguma medida de ceticismo e racionalidade em vez de fazendo malabarismos verbais para justificar sua crença em entidades nunca evidenciadas. Se o ateísmo está em uma posição cômoda, isso é problema dos teístas, não dos ateus.

Uma das bases da epistemologia, ou seja, da filosofia subjacente ao método científico, que produziu este computador através do qual você me lê, é que não é necessário provar uma negação, a menos que a afirmação correspondente tenha sido inicialmente demonstrada. Rejeitar este princípio remove a melhor ferramenta que temos para discernir entre o que é fantasia e o que é interpretação válida da realidade. Sem empregarmos o princípio do ônus da prova, não temos como descartar a afirmação feita por uma criança segundo a qual existe um dragão na Lua, a menos que tenhamos meios para fisicamente subir até lá e procurar dentro de cada cratera. Não custa lembrar que descartar o argumento da criança pura e simplesmente é uma falácia: o argumento da respeitabilidade, ou da idade (argumentum ad verecundiam).

Então, somente devemos crer naquilo que puder ser demonstrado. Enquanto indemonstrado, um conceito é apenas um conceito, uma ideia, uma hipótese, mera «achologia». Não existe nenhuma justificativa lógica para promover a inversão do ônus da prova: mesmo quando se trata de provar que um conceito está errado, o que se faz é provar que outro conceito está certo. Por exemplo: quando se descartou a física aristotélica (aquela dos Quatro Elementos) isto se fez pela demonstração da existência de uma grande variedade de elementos diferentes. Não se provou que Aristóteles estava errado senão através da proposição de uma explicação funcional que era incompatível com sua visão.

Existem, porém, duas formas através das quais os teístas escapam desta limitação lógica. A primeira é induzindo o incauto a aceitar que o conceito de Deus já está demonstrado pela crença recorrente há tantos milênios. Existem dois erros lógicos graves envolvidos nesta acepção: o primeiro é o argumento pela antiguidade, segundo a qual as ideias vão se tornando verdadeiras à medida em que se tornam antigas, e o segundo é a confusão entre a crença na existência e existência propriamente dita. A segunda forma é o recurso às «provas lógicas da existência de Deus», cujo corolário foi obtido por São Tomás de Aquino.

Imagino que Gaboardi nunca imaginou (ou nunca pretendeu) que sua distinção especial ao conceito de Deus rendesse homenagem a estas duas estratégias teístas típicas. Mas é isso, de fato, o que ele faz. Preocupado com a posição cômoda do ateu diante da crença do religioso, ele reivindica para a filosofia a tarefa anômala de provar que Deus não existe. Como tal prova não pode ser obtida, conclui que o ateísmo é uma crença. Três observações importantes devem ser feitas neste ponto:

  1. Fica evidente que quando o autor fala que ateísmo é crença ele quer dizer «crença-crença» mesmo, e não «crença opinião» ou qualquer outro conceito filosófico. Crença enquanto aceitação de algo que não pode ser racionalmente demonstrado.
  2. Para concluir que a inexistência de Deus não pode ser provada, o autor ainda recorre a outro truque argumentativo, que bem poderia ser classificado como «sofístico»: o ceticismo absoluto justificado pela inaplicabilidade da prova lógica. 
  3. Em momento algum de sua exposição o autor explica porque o conceito do Deus monoteísta merece a distinção de ser aceito a priori pela filosofia.

Afirmo que a segunda parte da argumentação de Gaboardi (e talvez todas as outras) se baseia em sofismas vazios porque o autor supõe que se possa empregar a lógica formal estrita para provar um conceito tão fugidio quanto o de Deus. A conclusão de que a impossibilidade de se falsear Deus usando a lógica implica em que o ateísmo é uma crença está perigosamente perto do limite do argumentum ad ignorantiam, a falácia lógica que afirma que o fato de não haver evidência contrária é uma prova em si contra a proposição inicial.  Ainda que o conceito de Deus fosse suficientemente delimitado (e não é) e falseável (idem), a falta da demonstração contrária nada diz sobre a validade ou não deste.

Tão absurda é a exigência de tal prova que o autor admite (como não o faria) que não se pode sequer provar que temos perna ou que porcos não voam. Não podemos porque os fatos naturais não estão sobre controle estrito da lógica matemática e podem, frequentemente, ser acidentais ou irrepetíveis. As ciências naturais buscam o fenômeno, para derivar dele suas teorias, o que é diferente da sofística, que busca as teorias, para enfiar o mundo dentro delas. Ainda mais que o autor não percebe dois equívocos que comete ao mencionar o conceito de prova.

  1. Não percebe que a afirmativa negativa de que exista um número maior que todos os outros se baseia num axioma (o de que os números naturais são infinitos) e que números são conceitos abstratos, desprovidos de existência real (diferentemente de coisas que existem ou deveriam existir).
  2. Afirma (e nisso sim temos uma crença) que se pode provar que não é possível existir um homem com oito metros de altura. Neste caso o erro é novamente a falácia do apelo à ignorância: não se observou ainda um homem com oito metros de altura, mas não se pode descartar que possa vir a existir um (e se ele pode vir a existir, é possível que já exista agora, apenas incógnito).

A manipulação do conceito de prova aplicado ao conceito de Deus resulta em prejuízo da racionalidade e da lógica, pois não se pode aplicar um método matemático para analisar fenômenos existenciais.

Mas, Porém, No Entanto, Todavia...

EXISTEM evidências lógicas que amparam a inexistência de deuses. Estas evidências são amplamente conhecidas de todos, apenas não são por todos interpretadas como tal. A compreensão de tais evidências surge quando nos perguntamos qual é, essencialmente, a diferença entre crer em Deus ou no Monstro Voador de Espaguete (no original fica ambíguo se a propriedade de voar pertence ao espaguete ou ao monstro que é feito dele).

Normalmente as pessoas educadamente distinguem o Monstro como uma criação deliberada de um único indivíduo, em tempos recentes. Isto implica em negar que os deuses das religiões foram inventados um dia, por indivíduos. Implica em admitir alguma forma sobrenatural de descoberta destes conceitos. «Deus é diferente» porque não o vimos nascer.

Ocorre que a evolução dos conceitos de Deus pode ser acompanhada de forma até clara pelos estudos históricos, analisando os livros sagrados (ou não) desde a remota antiguidade. Isto é uma evidência forte de que Deus foi progressivamente desenvolvido como um conceito cultural (tanto assim que há concepções diferentes de divindade em cada cultura). Não há nenhum requisito de fé para esta constatação, a menos que se resolva duvidar do conteúdo dos próprios livros sagrados e negar a validade das próprias Ciências Sociais como um todo. Devido ao alto para se descartar a evidência da historicidade de Deus, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o ateísmo não é uma «crença» no sentido em que as diversas formas de teísmo o são.

Elaborando um pouco mais, podemos dizer que a própria historicidade do conceito de Deus é prova da má fé da argumentação teísta, pois as sucessivas redefinições do conceito nada mais são do que estratégias ad hoc para manter a crença, mesmo diante da refutação parcial apresentada pela ciência. É por isso que Deus vai progressivamente se afastando de nós, de uma presença diuturna e imediata na antiguidade, presidindo cada relâmpago, à sua inefabilidade atual, que chega a ser classificada por teólogos mais argutos como uma «existência além da existência». O nome dessa estratégia é «mudança de meta» (em inglês, moving the goalposts, uma metáfora futebolística) e consiste em redefinir os critérios de forma a impedir que sejam refutados. É uma variação da falácia terminológica, que consiste em redefinir as definições de forma a impedir a refutação.

Conclusões

O ateísmo é um fenômeno cultural muito complexo. Devido à multiplicação dos conceitos de deuses, é natural que pessoas diferentes entendam o ateísmo também de forma diferente. Porém, mesmo que algumas pessoas efetivamente «creiam» (no sentido de crença-crença) que Deus não existe, isto não torna o ateísmo em si uma crença. Primeiro porque o ateísmo não se limita a um posicionamento quanto à existência de divindades, mas inclui um estilo de vida e um conjunto de valores (variáveis ambos, de pessoa a pessoa) derivado de não se crer em Deus. O próprio agnosticismo não é incompatível com o ateísmo e muitos ateus de fato se identificam como agnósticos apenas porque não desejam expor-se a manipulações sofísticas como a tentada por Gaboardi. Richard Dawkins, por exemplo, se diz «agnóstico», mas é difícil imaginar que alguém possa ser mais descrente do que ele hoje em dia. Contrariamente ao que muita gente pensa, agnosticismo não é ficar «em cima do muro» quanto à possibilidade de existência do Velho Barbudo do Céu.

Em outras oportunidades voltarei a abordar o tema, notadamente depois que Gaboardi publicar a nona parte de seu ensaio.