Revolutions Inc.

Bom dia para você, reacionário de direita travestido de jovem anarquista, que saiu às ruas nesse fim de semana querendo causar impacto. Devia ter ouvido o Humberto Gessinger e feito o pacto.1 Você está, conscientemente ou não, fazendo seu trabalho de formiguinha na preparação do caos. Eu sou astrólogo, vocês precisam acreditar em mim. Eu sou astrólogo e conheço a história do princípio ao fim.2

Digo isto apoiado em uma leitura porca dos mais recentes descobrimentos da psicologia (por mais recentes eu me refiro a mais de meio século, mas você, reacinha, talvez não tenha nem ouvido falar de Freud) e uma leitura um pouco mais cuidadosa de fatos que já são história. Fatos da história mundial recente que sugerem que o Império mudou sua tática e não está mais investindo nos militares para derrubar os governos que não lhe interessam: militares podem não ser confiáveis, podem estar interessados em fazer algo de bom pelo próprio país, podem sair do controle e custa caro recuperar os que fogem da gaiola, como Noriega, Saddam Hussein e Hugo Chávez.

Símbolo da Otpor!

Na verdade o processo é bem simples, já está amplamente documentado, e já foi empregado com sucesso em pelo menos oito oportunidades. Mesmo assim a nossa juventude "descolada", utilizando em larga escala um superpoder chamado "ignorância", fecha os olhos para os indícios de manipulação. Desde que os puxões nas cordas sejam feitos com suavidade, não se importam de ser marionetes.

Refiro-me aqui ao "pacote revolucionário libertador" financiado por entidades interessadas apenas no progresso dos povos e no aperfeiçoamento da civilização, como a USAID, o National Endowment for Democracy, o American Center for International Labor Solidarity, o European Endowment for Democracy, o Center for International Media Assistance e a CIA. Paralelamente a estas entidades, think tanks ligados às grandes multinacionais, como o Heritage Foundation, o American Enterprise Institute e o Open Society Institute.

Se você vive dentro de uma pedra, ou se é tão impermeável quanto uma pedra a notícias que se choquem com suas ideias preconcebidas, provavelmente não sabe que estas entidades, e outras antecessoras suas, têm atuado na desestabilização de regimes contrários aos interesses americanos desde os anos 70 e já tiveram sucesso em produzir pelo menos sete movimentos de massa liderados por organizações não governamentais financiadas pelas entidades citadas.

  • Derrubada de Slobodán Milosević (Sérvia, 2000), liderada pelo movimento "Otpor!" (Recuse!), tendo como símbolo a cor negra e um punho fechado. Milosević foi substituído por um líder mais afeito aos interesses americanos e abriu caminho para a independência de Kossovo, criando um protetorado euroamericano nos Bálcãs (área de interesse russa).
  • Revolução Rosa (Geórgia, 2003), liderada pelo movimento "Kmara" (Chega!), tendo como símbolo a cor negra e um punho fechado. Derrubou Eduard Shevardnadze, que se mantinha alinhado com a Rússia, e o substituiu por Mikhail Saakashvilli, que se alinhou com os EUA, tentou entrar para a OTAN e acabou eventualmente sendo posto em seu lugar pela invasão russa de 2008.
  • Revolução Laranja (Ucrânia, 2004), liderada pelo movimento "Pora!" (Chega!), tendo como símbolo as cores preta e laranja e o sol nascente. Conseguiu anular as eleições, fraudadas por Viktor Yanukovich, e colocar no poder o controverso presidente Viktor Yushenko, que quase morreu envenenado durante a campanha eleitoral, supostamente por obra do FSB (novo nome da KGB). Yushenko, sob forte oposição, não conseguiu avançar muito em sua política internacional, apenas criou leis de autonomia política e cultural favorecendo os ucranianos em relação aos russos. Acabou derrotado nas eleições seguintes pela lindíssima e gatíssima (mas aparentemente perigosíssima e corruptíssima) Yulia Timoshenko, que atualmente come cana braba por supostamente aceitar dinheiro de potências estrangeiras.
  • Revolução das Tulipas (Quirguízia, 2005), liderada pelo movimento "KelKel" (Renascença), tendo como símbolo as cores rosa e amarela e o sol nascente. Conseguiu derrubar Askar Akaev, um dinossauro que permanecia desde os tempos comunistas, e implantar um regime mais democrático.

Símbolo do Pora!

Estes movimentos tiveram características em comum:

  • liderados por uma ONG financiada por uma ou mais das entidades citadas mais acima;
  • caracterizados por um slogan que se confunde com o nome da organização;
  • o nome da organização inclui um ponto de exclamação, para maior ênfase;
  • adoção de um logotipo e de uma cor para simbolizar o movimento;
  • identificação com um líder político "novo";
  • esvaziamento do movimento após o sucesso inicial (mudança de regime).

Em alguns casos, símbolos idênticos foram utilizados (Sérvia e Geórgia), ou um slogan que é praticamente o mesmo (Sérvia e Ucrânia). Os regimes afetados sempre são adversários dos interesses americanos em regiões de interesse geopolítico americano (Bálcãs, Mar Negro e Ásia Central) e os regimes substitutos são liderados por políticos que são claramente alinhados com Washington ou, pelo menos, no caso da Quirguízia, tem o potencial de se alinharem mais facilmente.

Os líderes adotados pelas revoluções coloridas foram Yushenko (Ucrânia) e Saakashvilli (Geórgia).

Símbolo do Kmara!

Em todos os casos, o movimento original se esvazia após produzir seu efeito (certamente por não mais receber tanta assessoria e financiamento). O movimento ucraniano "Pora!" não consegue nem 2% dos votos nas eleições e tem ficado fora do parlamento. Na Geórgia o "Kmara" jamais conseguiu se formalizar como partido. O "Otpor!" da Sérvia ficou de fora do parlamento, embora tenha conseguido cerca de 5% dos votos certa vez.

As semelhanças ficam mais interessantes quando avaliamos que não foram somente estes casos. Houve outros movimentos fundados em outros países, com objetivos semelhantes:

  • Zubr -Bielorrússia
  • Oborona ("Defesa") - Rússia
  • Mjaft! ("Basta!") - Albânia

Símbolo da Oborona!

A cor negra está presente nos símbolos de quase todos esses movimentos, ainda que os movimentos tenham sido identificados por cores diferentes (branco, na Sérvia, laranja, na Ucrânia, rosa, na Geórgia, amarelo, na Quiguízia, azul, na Bielorrússia). Símbolos de origem anarquista (punho fechado, bandeira negra) idem. Os movimentos se solidarizam e chegam a prestar assistência mútua. Agentes sérvios organizaram o "Pora!" na Ucrânia e o "Kmara!" na Geórgia. Os georgianos, por sua vez, prestaram assistência aos quirquizes, enquanto os ucranianos auxiliaram os bielorrussos.

Após uma onda inicial de sucesso das revoluções coloridas, alguns países expulsaram as instituições citadas, o que evitou que o movimento crescesse na Bielorrússia, no Uzbequistão e na Albânia. Na Rússia o protesto chegou a ser grande, exigindo a renúncia de Vladimir Putin, mas foi reprimido e passou à clandestinidade. Onde as instituições de ajuda americana não atuam, os movimentos sociais de oposição não se desenvolvem.

A inspiração desses movimentos remete à Revolução dos Cravos (em Portugal, 1974) e à Revolução Amarela (nas Filipinas, 1986). Ambos movimentos não-violentos de resistência civil com o objetivo de derrubar ditaduras. Vale lembrar, porém, que a Geórgia e a Ucrânia não eram ditaduras.

Além dos contatos diretos entre os líderes desses movimentos, há uma clara articulação através da internet, mesmo no caso da Quirguízia, onde uma parcela ínfima da população conhecia a informática.3. A associação com a internet, naquela fase, deu ao movimento um ar de novidade, de poder espontâneo do povo.

Como os regimes fortes perceberam a jogada e começaram a se proteger, a estratégia mudou ligeiramente. Em vez de financiar a fundação de organizações formais, com sede e hierarquia públicas, os Estados Unidos passaram a patrocinar uma atuação desconcentrada, informal e sem hierarquia definida. Ou melhor, com um único centro de decisões, "virtual", localizado fora do país alvo. Muitas características permaneceram, ainda:

  • A Revolução do Cedro (Líbano, 2005) catalisou-se em torno do ex primeiro ministro Rafik Hariri, recentemente morto. O objetivo alcançado foi forçar a saída do exército sírio que tutelava o regime libanês.
  • A Revolução Verde (Irã, 2009), tentou questionar a eleição de Mahammound Ahmadinejad e forçar uma transição para o "moderado" Mir-Hussein Mussavi. Fracassou devido à forte repressão e à incapacidade de Moussavi para fornecer evidências firmes de fraude na eleição (além de ele não ter e mantido firme até as últimas consequências, preferindo contemporizar com o regime).

A tecnologia social desenvolvida através destas maquinações foi rapidamente assimilada em lugares onde a juventude é mais inteligente do que no Brasil, de forma que regimes autoritários alinhados aos EUA começaram a ser vítimas de estratégias semelhantes, desenvolvidas de forma autônoma:

  • Revolução do Jasmin (Tunísia, 2010) retirou do poder um grande aliado americano e abriu caminho para uma geração de políticos nacionalistas, muitos deles tendentes a aproximar-se do Irã e da Rússia.
  • Revolução do Lótus (Egito, 2010) retirou do poder aquele que talvez fosse o mais fiel aliado americano e abriu caminho para a legalização da Irmandade Muçulmana, considerada pelos EUA uma organização terrorista.

Estas duas revoluções se caracterizaram pela falta de um controle central definido, pelo emprego das redes sociais para articular os protestos e pela falta de líderes políticos óbvios, embora em momento algum seus participantes as tenham concebido como apolíticas. O apartidarismo desses movimentos se devia unicamente ao fato de não haverem partidos políticos legais e legítimos em atuação naqueles países. Estas revoluções estiveram fortemente ligadas (biunivocamente) com o Movimento Ocupem Wall Street (Estados Unidos) e com o Grito dos Indignados (Espanha).

O caso da Líbia é sui generis, pois a tentativa americana de produzir uma revolução colorida no país levou a uma guerra civil de grandes proporções, que quase destruiu o país. Por um momento, as estratégias americanas ficaram paralisadas em torno da questão líbia.

Mas no momento seguinte temos a reação. No Egito, organizações semelhantes às que haviam atuado nas revoluções coloridas vão às ruas contra o presidente Mohammed Morsi (que, por sua vez, demonstrava um alto grau de incompetência e sede precoce de controle) e legitimam um golpe de estado que restabelece no poder homens de confiança de Washington. Temos então o começo da revolta síria, desde o início planejada já tendo em vista a perspectiva de uma evolução idêntica à da Líbia. As estratégias foram, inclusive, as mesmas (criação de um governo de oposição, que adota a bandeira anterior do país).

O último elo desta corrente é o Anonymous, uma "grife" de protestos pela internet que surgiu como um grupo de pessoas interessadas em expor a Igreja da Cientologia.

O Anonymous pode ser descrito como um coletivo informal de usuários avançados de computadores (tanto crackers como phreakers e hackers) com a adesão de inúmeros script kiddies e n00bs interessados em fama.

De 2003 a 2011 o Anonymous, cujos membros adotaram como símbolo a máscara usada pelo personagem de Hugo Weaving no filme "V de Vingança", que, por sua vez, é uma referência a Guy Fawkes.4 A partir de 2011, porém, com a prisão de dezenas de seus mais brilhantes operadores, o grupo perde sua aura heróica e passa a segundo plano. Não sem antes contribuir ideológica e estruturalmente para o conceito da e-Revolução.

[CONTINUA]

1"Por isso, garota, façamos um pacto de não usar a highway para causar impacto." (Gessinger, H. "Infinita Highway". In: Longe Demais das Capitais. BMG/Ariola: 1987.

2Seixas, Raul. "Al Capone". In: Krig-Há, Bandolo!. EMI/1973.

3 http://www.academia.edu/2446594/e-Revolution_in_Kyrgyzstan

4 "Terrorista" inglês do século XVI (uma época na qual a palavra, obviamente, ainda não era conhecida), Fawkes pretendia explodir o Parlamento Britânico, matando o rei e todos os deputados, para facilitar a retomada do trono por uma dinastia católica.

Sobre os Malefícios Mentais do “Anarcomiguxismo” (2)

Sendo o anarcomiguxismo um sistema de crenças essencialmente irracional, como demonstrado acima, a continuidade da crença depende da supressão do espírito crítico. Refiro-me a uma atitude receptiva em relação a conhecimentos obtidos de certa fonte (especialmente os artigos do Instituto Mises e os dados do Heritage Foundation, mas não somente) aliada à rejeição apriorística de informações obtidas de outras origens. Essa "endogamia" intelectual, na qual as ideias do indivíduo são alimentadas exclusivamente por textos que reforçam seus conceitos anteriores (pré-conceitos) produz uma baixa gradual do ceticismo, pois um texto é aceito como corroboração de outro, de forma recursiva, em um gradual afastamento em relação a qualquer capacidade de questionar.

Essa autorreferência do pensamento anarcomiguxo produz um descolamento da realidade tão profundo que somente aos olhos de quem está "de fora" é possível discernir o grau de absurdo. O "anarcomiguxismo" é, então, uma espécie de Cientologia econômica, cujos artigos que mencionam Xenu só são apresentados a quem já leu as obras mais básicas. Da mesma forma que a Cientologia não começa por pregar ao neófito que há bilhões de anos um vilão espacial transportou seus inimigos para a Terra a bordo de aviões DC-10 e os explodiu com bombas atômicas dentro de vulcões, os anarcomiguxos não começam explicando textos polêmicos, tais como:

  • A Ética da Liberdade (Murray Rothbard), em cujo capítulo XIV ele diz que os pais deveriam ter poder ilimitado sobre seus filhos --- inclusive podendo matá-los, vendê-los ou prostituí-los --- e que a educação infantil deveria ser facultativa.
  • Legalize Drunk Driving (Lew Rockwell), onde se argumenta que o Estado não tem o direito de, mesmo sob o pretexto de proteger a vida de outras pessoas, impedir que o proprietário de um veículo o dirija.
  • O Caminho da Servidão (Frederik Hayek), onde se argumenta que a adoção de medidas humanitárias e a concessão de direitos às massas produziriam o fim da liberdade (econômica, claro), criando ditaduras e destruindo o mundo…

A adesão a esse sistema de crenças enviesado e em franca contradição com o bom senso (Rockwell e Rothbard) ou com os fatos históricos observados (Hayek) tem sobre o "anarcomiguxo" o efeito de condicionar a sua própria interpretação da realidade, levando-o a agir de forma equivocada diante de situações que exijam uma leitura correta dos acontecimentos.

Um exemplo deste efeito "alucinógeno" do "anarcomiguxismo" sobre seus adeptos é o que está acontecendo com o Dâniel Fraga.

Dâniel é figurinha carimbada dos fóruns internéticos há muitos anos. Nunca foi muito certo da bola, tendendo a ter opiniões exacerbadas e uma reção meio infantil diante de contestações firmes. Certamente alguém com certo problema mal resolvido com autoridade, sei lá, talvez um complexo de Édipo.

Ele aderiu às ideias "anarcomiguxas" de uns dois ou três anos para cá. Pelo menos esse é o horizonte de tempo ao longo do qual eu me lembro de tê-lo visto discursando enfaticamente contra as maldades do Estado e as maravilhas das empresas e dos indivíduos. Seu canal no YouTube foi, durante este tempo todo, uma das maiores fontes de difusão do pensamento "anarcomiguxo". De fato, eu uso este termo, que não foi cunhado por mim, de forma a evocar aquilo que Fraga se tornou. Minha definição de "anarcomiguxo" é Daniel Fraga.

A fama lhe subiu à cabeça, embora não lhe tenha sido suficiente para subir de nível a mobília de seu quarto (que, ainda assim, parece mais organizado que o meu). Isso fez com que ele subisse de nível em suas críticas, adotando um tom cada vez mais destemido, belicoso até. Desenvolvou uma entortada de boca que sugere alguém que morde as palavras com raiva quando as diz, e expele seus argumentos com força e dor, como quem expele cálculos. Não sei se isso foi intencional, mas ele copiou de muitas formas os trejeitos de Olavo de Carvalho. A diferença é que Olavo se auto-exilou nos EUA, de onde pode dizer o que quiser sem riscos. Fraga ficou no Brasil, e aqui, como sabemos, não existe liberdade de expressão absoluta.

Eventualmente Fraga cometeu algo temerário: criticou um juiz. Juízes são bichos difíceis de criticar porque, apesar de todo o aperfeiçoamento de nossa democracia desde 1988, eles ainda são, praticamente, acima da lei. A pior coisa que pode acontecer a um cidadão é incorrer no desagrado de um juiz. Melhor blasfemar contra Deus do que contra um juiz, se é que vocês me entendem. Porque, mesmo que não façamos nada de errado, não é desejável o incômodo de um longo processo, com todo o seu custo monetário e o desgaste de imagem que isso traz. Dependendo das circunstâncias, um veredito de inocente pode ser totalmente irrelevante, pois o processo em si já foi uma punição cruel.

Mas Fraga fez pior: ele não se limitou a criticar o juiz, ele o fez de forma insultuosa, estendeu a crítica a outros juízes, e explicitou em sua crítica que o juiz seria "ignorante" (sic) do assunto sobre o qual decidiria.

Por mais que eu ache que a liberdade de expressão deva ser mais garantida neste país, eu não consigo achar certo o modo como Fraga se expressou. Um juiz é uma autoridade, e uma autoridade que não tem origem democrática, ainda. Isso quer dizer que existe certo protocolo envolvido. Você não pode simplesmente tratar um juiz como trata um vereador, que pode perder a próxima eleição e cuja autoridade é limitada por essa e outras circunstâncias. O juiz não está sujeito a eleições, ele não presta contas a ninguém, e ele tem suas prerrogativas de forma vitalícia.

Não que eu concorde com esse estado de coisas. Longe de mim. Mas essa é uma leitura realista da mundo real. Diante de uma leitura realistas, devemos tomar medidas realistas. O mundo real não é um fórum da internet, onde você se esconde atrás de um fake para xingar um desafeto. Em certo momento, Fraga se esqueceu de que não estava "na internet" quando fez uma crítica sobre um fato do mundo real. O juiz, ser material existente no mundo real, tomou conhecimento e agiu.

Imagino que Fraga, ao fazer sua crítica, não supôs que haveria consequências. Ele está acostumado a usar palavras muito fortes para se referir a seus desafetos e a políticos de quem discorda. A impunidade o fez ficar descuidado. Não entendeu que não podia simplesmente chamar um juiz de "ignorante" e que não tinha o direito (nesse caso eu afirmo que ele não tinha o direito) de falar rosnando para uma autoridade como ele falou.

Foi um erro grave, mas ainda não foi o mais grave de seus erros. Tamanho era o descolamento de Fraga em relação à realidade que, mesmo depois de notificado judicialmente, ele continuou a agir de forma tresloucada, sem levar a sério a situação em que se metera, tal como Josef K. Se amanhã ou depois tiver um triste fim, "como um cão", terá sido por sua própria falta de juízo. Se é que me entendem.

O juiz ofendido, aparentemente, acionou-o por calúnia e pediu segredo de justiça porque Fraga, tendo acesso ao YouTube, poderia fazer uma grande celeuma sobre o caso, prejudicando o processo. Entendo que o pedido de segredo de justiça foi desnecessário, mas eu entendo aonde o juiz quis chegar e não consigo discordar totalmente de sua interpretação. Opinião minha achar desnecessário. Mas absurdo o pedido não foi.

Porém "Fraga Man" --- o super herói anarcomiguxo, que combate o Malvado Estado usando sua camisa azul-água, seus óculos sem aro, seu roupeiro padrão cerejeira e seu teclado --- não se conformou em não poder noticiar o acontecido! Não, o povo precisa saber. E já que o juiz botou segredo de justiça, what would Misus do? Se ele tivesse simplesmente continuado a falar do caso, mesmo com ordem de manter segredo, já estaria fazendo uma cagada grande, mas o típico anarcomiguxo não se contenta com pouco: Fraga precisava fazer uma cagada gigantesca. Ele mesmo confessou em um vídeo que "na internet não existe segredo de justiça" e exibiu cópias impressas de documentos referentes ao processo.

Não tenho palavras para descrever o que pensei ao vê-lo dizer isso. Meu queixo caiu no chão e quicou. Se um documento está em segredo de justiça e ele o obteve através da internet, esse arquivo só pode ter sido obtido mediante uma invasão do sistema do TJ-SP, um acesso não autorizado. Espionagem, se é que vocês me entendem. Fraga confessou publicamente que obteve por meio ilegal (possivelmente criminoso) documentos que um juiz determinara serem segredo de justiça. Não apenas ele violou o segredo de justiça decretado, como fez questão de dizer que a violação ocorreu por um meio ilegal!

É difícil acreditar que uma ameba destas tenha inteligência normal. Na minha opinião, a partir do momento em que ele CONFESSOU ter violado o site do TJ-SP para obter os documentos, a punição de Fraga não apenas se tornou inevitável, mas é agora necessária. Em nome da democracia e da segurança das instituições, um sujeito que viola o site do Tribunal de Justiça para ter acesso a documentos sob segredo de justiça não pode ficar impune. Isso desmoraliza a própria justiça e achincalha a democracia.

Gostaria de deixar aqui bem claro que existem dois momentos separados nesse evento. O momento em que Fraga faz uso de sua liberdade de expressão para criticar um juiz e o momento em que ele se vangloria de apresentar documentos obtidos apesar do segredo de justiça.

No primeiro momento Daniel tem a minha solidariedade, embora eu ache que ele foi ingênuo, idiota e sem educação (coisa que ele normalmente é na internet). Acho que ele merecia uma reprimenda. Possivelmente o caso estava sendo tratado com exagero (talvez por vaidades envolvidas), mas ele precisava de um susto para "tomar tenência na vida". Para não ficar achando que pode falar o que quer, do jeito que quer, com qualquer pessoa. Para alguém que propõe a viabilidade dum "pacto de não agressão" entre os indivíduos numa sociedade sem Estado, Daniel é agressivo demais.

Mas eu não me solidarizo com Daniel Fraga pelo seu segundo ato. Se ele se sentia injustiçado, tinha todo o direito de se defender, constituir advogado, lançar uma campanha de solidariedade, apelar à Anistia Internacional, acender uma vela para Exu e outra para Jeová; fazer o que quisesse, DENTRO DA LEI. Recursos existem para isso mesmo. O processo é doloroso, a última coisa que eu quero é ficar inimigo de um juiz, mas chutar para o alto as leis e os costumes da democracia têm um custo maior.

Talvez Dâniel tenha querido brincar de desobediência civil. Leu demais Henry David Thoureau. Duvido que tenha pensado em se fazer de mártir da liberdade de expressão, ou do movimento libertário (t.c.c. "anarcomiguxo"). Talvez apenas não tenha se dado conta em tempo da necessidade de racionalidade para agir no mundo real, visto que no mundo virtual a sua persona se caracteriza pelo exercício contínuo da irracionalidade. Minha impressão é que Dâniel se tornou uma vítima da distorção cognitiva que o "anarcomiguxismo" provoca, incapacitando o indivíduo para compreender a realidade de forma útil.

E desta forma, Fraga se vê no meio desse redemoinho, totalmente despreparado para compreender esta cruel realidade, tão diferente do universo mágico em que viveu por tantos anos. Para tornar seu caso ainda mais trágico, ele não me parece ter os meios materiais para se defender eficazmente e a própria ideologia que defende parece ser incompatível com a solidariedade de outros como ele.

Diante destas circunstâncias, acho que a melhor saída é pedir que alguém da família requisite sua tutela por insanidade.

A Classe Média Aprendeu a Matar

O recente latrocínio cometido com requintes de crueldade contra uma dentista em São Paulo, com a vítima sendo queimada viva porque tinha somente R$ 30,00 em sua conta bancária, vem suscitando muito questionamento sobre os motivos do crime. Existe uma corrente sociológica, muito significativa no lado esquerdo do espectro político, segundo a qual o crime é uma reação dos excluídos a uma situação opressiva de miséria. Enquanto isso, no lado direito, a violência é vista como uma falha de caráter, um pecado cometido em plena consciência, por alguém dotado de pleno livre arbítrio. A solução proposta pelos primeiros é intensificar a redistribuição de renda, a dos segundos é prender e punir (coisas diferentes no jargão direitista, que vê a cadeia como uma espécie de colônia de férias).

Acredito que ambos os lados estão errados, embora não completamente. A verdade, como sempre, é complexa, fica no meio. Não é correto dizer que a causa da violência é exclusivamente a miséria econômica, ou teríamos mais crimes em países mais pobres (como a Índia e a Bolívia) e não é correto dizer que o criminoso faz uso de seu livre arbítrio, ignorando os condicionamentos a que somos submetidos.

Bem, eu li em algum lugar, talvez dentro de minha própria mente falha e pervertida, que a verdadeira causa do crime é a eterna insatisfação do ser humano, resultante de sua desconexão com os valores da família/tribo/coletividade/etc. em uma situação de injustiça.


Funcionaria assim: vivemos em uma sociedade que nos julga pelo que temos, não pelo que somos, e ao mesmo tempo não nos oferece oportunidades iguais de adquirirmos aquilo que a sociedade valoriza. Então, sabemos que “ficaremos doces” se tivermos um Camaro amarelo, mas esse só está acessível a uns poucos. Aos demais sobra o ressentimento de, por exemplo, ver as garotas bonitas dando para caras ricos (ou filhinhos de papai rico) enquanto eles chupam o dedo. Mas a falta de acesso ao Camaro amarelo não é, ao contrário dos estúpidos libertários acham, resultado da discrepância do esforço individual.

Em primeiro lugar, porque a construção de uma fortuna costuma ser um processo que dura gerações: os Rotschild, por exemplo, não se tornaram o que se tornaram em cinco ou dez anos de “trabalho duro”. Essa acumulação rápida só acontece quando alguém tem muita sorte de estar no lugar certo e na hora certa (o que é necessariamente raro). Se a acumulação é um processo que dura gerações, a “culpa” dos pobres por sua miséria acaba sendo uma espécie de “carma” e o discurso moral do esforço pessoal se desfaz no ar.

Em segundo lugar, porque, ainda que originalmente todos estivessem no mesmo nível social e possuidores das mesmas oportunidades, as discrepâncias surgidas ao longo das gerações colocariam em diferentes patamares de oportunidade os descendentes das gerações anteriores. E então, essas diferenças pré-existentes criariam uma situação injusta que permitiria que idiotas preguiçosos nascidos em famílias ricas gozassem de um padrão de vida muito superior ao de espertos trabalhadores nascidos em famílias pobres, simplesmente porque o pai do primeiro fora esperto e o do segundo, não.

Esse caráter cármico da miséria é o que torna o discurso libertário do esforço individual uma crença irracional, essencialmente irracional, a ponto de ser religiosa fundamentalista (fundamentalista em relação à crença na perfeição do “mercado”, esta entidade abstrata que é mais importante que pessoas, na visão libertária).

Porém, em um mundo reverso, no qual as pessoas fossem julgadas pelo que são, e não pelo que têm, ainda existiria injustiça equivalente. Porque pessoas trabalhadoras e competentes, que se esforçaram para ganhar muito dinheiro, ainda seriam vistas de forma inferior a outras que tivessem talentos, beleza, ou outras coisas que não podem exatamente ser ganhadas. E esta desigualdade inerente seria ainda pior do que a existente em nossa sociedade do “ter em vez de ser” porque aquilo que somos é algo muitas vezes inato, ou fruto de processos longos, sobre os quais não temos nenhum controle. Como explicar para um garoto que ele é tido como socialmente inferior por ser menos bonito ou menos inteligente? Na minha opinião, não há diferença entre essa explicação e alguma outra, segundo a qual a inferioridade resultaria da etnia ou  da orientação sexual. Ambos os extremos são errados. Nem o ter e nem o ser deveriam determinar parâmetros para a injustiça. Como diziam os romanos, a virtude está no meio.

Há que se dizer, também, que a carência é algo relativo: alguns carecem de pão, outros de colares de diamantes. Alguns se sentem o máximo por comerem num restaurante junto com a classe média, outros invejam o Rolls-Royce do vizinho mesmo tendo um Camaro amarelo na própria garagem. A insatisfação não é racional. Por isso o crime não está restrito aos pobres, que “invejam” aos ricos e por isso votam em candidatos “comunistas” que os expropriarão (outra boçalidade libertária), mas se propaga por toda a sociedade, mudando apenas o tipo de crime. Certamente uma pessoa inculta tenderá a compensar suas carências de forma violenta, cometendo um latrocínio, enquanto outra mais culta as compensará de forma não violenta, cometendo uma fraude. Mas a imprensa só enxerga sangue, não enxerga sangrias contábeis. Por isso hediondo é o estupro da patricinha pelo menino do morro, mas o desvio por um político ou empresário de milhões de reais que seriam destinados à habitação popular é tratado como um pecadilho.

Existe um problema, também, com os sistemas de correção desta injustiça, quando eles absolutizam um lado. Como a injustiça é inerente a qualquer sistema fundamentalista (de mercado ou de valores) e o equilíbrio do "meio" é difícil, o resultante é que todas as sociedades serão injustas em certa medida, e o que manterá a paz da sociedade será uma ideologia que ensine as pessoas a se conformarem com as diferenças. Para que isso funcione é preciso que as diferenças não sejam grandes demais (para que as pessoas consigam desconsiderá-las como exceções ou mesmo nem enxergá-las) e que as ideologias sejam razoavelmente igualitárias (seja no lado social democrata, seja no lado cristão ou budista ou sei lá o que). É preciso também que exista uma forma de controle da própria sociedade sobre si, através das instituições espontâneas, como a família, os amigos, os clubes, os grupos etc. Instituições que dependem de um nível de interrelacionamento entre as pessoas que parece impossível no mundo superpopuloso e egoísta em que vivemos.

Então, a causa da violência é complexa, mas evidente. Temos pessoas frustradas por suas carências (absolutas ou relativas), vivendo em um mundo no qual não têm de prestar contas a ninguém e, por isso, acham que podem fazer tudo impunemente. Isso é explosivo porque elas tentarão suprir suas carências, materiais ou afetivas, rompendo as regras do convívio social. Isso funciona em todas as sociedades, variando apenas a frequência. O garoto que estupra a patricinha está, muitas vezes, se rebelando contra  a falta de oportunidades reprodutivas que a sociedade lhe oferece: evolutivamente falando, é melhor engravidá-la hoje do que trabalhar uma vida para, talvez, tentar fazer isso depois de velho. O instintos humanos não conhecem o conceito de futuro.

Se quisermos reduzir a violência, precisamos reduzir a pressão sobre o indivíduo, mantida pela desigualdade (mesmo que uma desigualdade fútil entre marcas de carro), aumentar a coesão social e diminuir a sensação de liberdade individual que existe nas grandes metrópoles. Precisamos de uma ideologia que pregue a harmonia e a solidariedade entre os indivíduos, e não o direito dos vencedores a obterem supremacia sobre os vencidos. Precisamos diminuir a escala das instâncias de poder, fazendo a sociedade funcionar a partir da base, e não a partir de cima. Eleger os líderes comunitários antes de elegermos o prefeito. Substituir a partidarização em larga escala, que reduz as ideologias a marcas de sabão, pela organização das pessoas em seus locais de trabalho, em suas ruas, em suas famílias, em suas escolas. Dirão que proponho uma “sovietização”. Não tenho medo da palavra. A ideia essencial era boa, não se pode culpar uma ideia por ter sido mal interpretada ou mal implementada.

Vá Pelo Raso, meu Filho

Para todo fato complexo existe uma explicação simples... e furada.

Quanto mais simples a pessoa, maior sua tendência a buscar explicações simples, para não ter que lidar com ideias complexas.

A grande ilusão de nosso tempo é substituir o esforço pela mágica. A malhação pelo anabolizante, a construção pela prefabricação, a dieta e o exercício pelo remédio milagroso que "seca gordura", o conhecimento profundo pelas teorias rápidas e redutoras.

A internet é o veículo destas simplificações, que apelam aos simples.

Quem não sabe nadar, procura cruzar o rio pelo vau.

Redistribuição de Renda "for Dummies"

Certos conceitos são melhor entendidos quando transportados do terreno vago da terminologia para a solidez do dia a dia. Um exemplo é a tal “redistribuição de renda” de que tantos políticos falam, e que tanta gente é contra ou a favor sem nem saber o que é. Tentarei demonstrar como isso funciona usando como exemplo uma recente campanha no Facebook contra um supermercado de minha cidade natal que passou a cobrar pelas entregas em domicílio. Segundo a campanha, a cobrança seria desta forma:

  • R$ 6,00 por entregas no “centro da cidade”,
  • R$ 10,00 por entregas em “bairros próximos”,
  • R$ 15,00 por entregas em “bairros distantes”.
As aspas foram empregadas porque, sendo Cataguases uma cidade de meros 70 mil habitantes, os conceitos de “centro”, “bairros” e “distante” terão um significado muito diferente do que têm para um habitante de metrópole. Existem “bairros” (como o BNH ou a Vila Domingos Lopes) que estão mais próximos da loja do supermercado em questão do que certas áreas do “centro” que, aliás, não mede mais que um quilômetro de um lado a outro. Certos distritos (fora do perímetro urbano) são também mais próximos da loja do que certos “bairros distantes”. Enfim, os conceitos são vagos o suficiente para haver interpretações contraditórias.

O supermercado em questão possui um enorme estacionamento próprio e não cobra taxa de quem compre a partir de certo valor (se não me engano R$ 30,00). Combine este fato com a recente cobrança por entregas em domicílio e podemos entender disso que se está estimulando o uso do automóvel em detrimento do ônibus, da bicicleta ou da sola do sapato. 

O que este supermercado está fazendo é uma discriminação contra o pobre. A mensagem passada é que ele não quer ter clientes “pedestres” porque estes, em sua  maioria, são os que não têm condição de ter carro. Certa vez uma famosa loja de luxo paulista, a Daslu, construiu uma sede que só era acessível através do estacionamento, que cobrava R$ 100,00 por hora. Obviamente a Daslu, hoje falida, queria que pobre passasse longe. O supermercado cataguasense também parece que quer o pobre longe, comprando no mercadinho de bairro. Como não pode pôr na porta um aviso de que está “proibida a entrada de pobre”, o supermercado resolve penalizar com uma taxa as entregas das compras de quem não tem condição de levar de carro. Observe que a taxa é significativamente maior para “bairros distantes” (definidos de uma forma vaga). Com R$ 15,00 o pobre poderia comprar 10 kg de arroz, por exemplo. Difícil esperar que alguém troque tanta comida pelo conforto de receber as compras em casa.

Alguns de meus leitores; especialmente anarcomiguxos, escroques individualistas e antissociais em geral; reclamarão desta postagem dizendo que o supermercado está certo, porque o custo da entrega era embutido na margem de lucro e que, ao cobrar à parte, o preço das mercadorias poderá ser reduzido. “Não é justo que todos os fregueses fiquem pagando mais caro,  mesmo quando levam eles mesmos suas compras, para os que usam o serviço de entrega em domicílio” — dirão eles, ingenuamente acreditando que a redução de custos será transformada em redução de preços. Aqui temos, então, o conceito de redistribuição de renda sendo discutido, sutilmente.

Uma política de redistribuição de renda significa, entre outras coisas, que os bens, serviços e impostos são mais baratos para quem ganha menos e mais caros para quem ganha mais, a fim de facilitar o acesso a esses bens e serviços por pessoas que ganham menos. Redistribuição de renda é você fazer por cinco reais o preço do prato feito para aquele mendigo esfomeado que chega com uma nota amarrotada de cinco paus, mesmo que você esteja cobrando oito dos clientes normais. Redistribuição de renda é não cobrar a entrega das compras dos pobres, embutindo o custo nas mercadorias, dividindo entre todos os fregueses.

Quando um Estado, ou uma empresa, resolve individualizar os custos e os serviços, sem olhar quem paga, sobre o pretexto de “igualdade”, o que ocorre é justamente punir o pobre. Porque o rico, que já estava de passagem pelo centro em seu automóvel, não se importa de levar a compra ou mesmo de pagar pela entrega. Sem falar que o rico não vive, normalmente, em “bairros distantes” e que, de certa forma, o bairro pobre é sempre “mais distante” que o bairro rico, se não em quilômetros, certamente em percepção.

O resultado destas políticas de individualização de custos é a redução da capacidade de consumo das pessoas que ganham menos, esvaziando as lojas dessa gente “diferenciada” que atrapalha as compras dos “bons clientes”.

Infelizmente, pelo menos na internet, esse tipo de ideologia parece estar ficando popular. E medidas ocasionais, como essa do  supermercado, nos sugerem que a mentalidade do "cada um por si" está ganhando terreno. Esperemos que esta erva não vingue, porque as dificuldades de cada um não são aumentadas pela solidariedade com quem tem ainda  mais dificuldades. 

Preparados Para Perder

A torcida do Santos deve estar até agora atônita com o que aconteceu em Yokohama. Menos atônita, porém, do que os próprios jogadores e a comissão técnica, que certamente ainda não se deram conta do que foi que os atingiu. Não há meias palavras para o que houve na final do Mundial Interclubes, o que houve foi uma goleada regulamentar que só não foi maior por razões secundárias: alguns impedimentos indevidamente marcados contra o Barcelona, pelo menos um pênalti não dado, um festival de erros de finalização (para os padrões do time catalão) e um certo desinteresse em dedicar-se mais.

Numa hora dessas certamente surgem as tentativas de indicar os culpados. Em um país que tem noventa e cinco milhões de técnicos de futebol (as mulheres não ligam tanto assim para o esporte), surgirão dezenas de milhões de análises e é até possível que uma boa parte delas admita o óbvio ululante de que o Barcelona foi inexpugnavelmente superior durante todo o tempo e que o santos foi absolutamente inofensivo desde o primeiro apito do árbitro. Mas poucas delas dirão o que agora vou dizer: o Santos já entrou em campo devidamente preparado para PERDER.

Pelo discurso de Muricy Ramalho e Neymar na véspera do jogo, pela escalação retranqueira que foi apresentada, pela maneira excessivamente respeitosa e lambe-botas com que os jogadores se comportavam diante da equipe catalã, pelas falhas grotescas que foram cometidas por Borges e Neymar quando tiveram chance de modificar, ainda que temporaria e infrutiferamente, o placar do jogo; por tudo isso eu divisei e afirmo que em momento algum aquele Santos que jogou o mundial teve a pretensão de ganhar, teve a ideia de que pudesse ganhar, teve sequer o sonho de ganhar. Como não acredito que seja possível subornar um time para entregar um jogo desse nível, porque nem o mais mercenário deles seria suficientemente débil mental para abdicar do brilho de ser campeão do mundo, concluo que o Santos não perdeu por nenhum fator econômico direto. Mas restam duas possibilidades: o deslumbramento e cálculo. Tentarei explicar-lhes porque eu acredito no segundo e não na primeira.

É evidente que o deslumbramento teve seu papel no desastre (uma derrota nos termos da que foi imposta ao Santos pelo Barcelona não pode ser descrita com outra palavra), e acredito até que ele teria sido suficiente para levar a um desastre exatamente igual, ou pior. Mas o simples deslumbramento não explicaria a sucessão de «erros» cometidos pelo time em seu conjunto, ou a atitude conformada dos jogadores, antes, durante e depois.

Em primeiro lugar, admitamos sem falsa modéstia que o Barcelona realmente joga uma bola de primeira categoria. Isso está fora de questão. Obviamente não é um time imbatível. No atual campeonato espanhol já foi derrotado pelo modesto Getafe, e no último sofreu duas derrotas, contra o Hércules e o Real Sociedad. São poucas derrotas, é verdade, mas mostram que não existe isso de «imbatível». Difícilmo de bater é verdade, mas imbatível jamais. No entanto, por mais que o Barcelona seja incrível, o fato de que ele ocasionalmente perde ou empata deveria dar a qualquer adversário dotado de certa qualidade uma esperança, ínfima que seja, de tentar a vitória. Esta esperança estaria traduzida em um esquema tático inovador em relação ao dos times que estão regularmente apanhando do mítico adversário e em um nível tal de entrega física e tática que resultaria, ao final de jogo, em evidentes expressões de decepção por parte dos jogadores e da comissão técnica. 

O que se viu, porém, foi uma escalação retranqueira, um time que jogou o tempo todo com o freio de mão puxado e todo mundo com uma expressão conformada ao final. Não havia ninguém chorando pela vitória que não houve, ninguém de cara queimando pela vergonha dos quatro a zero. Pelo contrário, lá estavam todos com expressões estóicas, humildemente reverenciando os adversários a quem, durante o jogo, faziam questão de pedir desculpas a cada falta.

O maior craque do Santos, Neymar, havia pedido antes do jogo para trocar de camisa com Puyol, uma estrela de segunda grandeza em uma equipe que tem nomes como Iniesta, Messi, David Villa e Xavi. Neymar não ousou pedir a camisa de Messi, preferiu a daquele que seria seu marcador na partida. Mais do que isso, pediu antes, porque previa a vergonha de tentar o gesto e ser afastado arrogantemente pelo catalão. Não apenas não se julgou ao nível de Messi, como ainda estava convencido de que precisava pedir licença para trocar de camisa com o Puyol. Na cabeça de Neymar a festa era do Barcelona e o Santos só estava lá de convidado, ou pior, como parte do «sistema de quotas» da FIFA, que tenta fingir que os riquíssimos clubes europeus são a mesma coisa que as pobres agremiações do resto do mundo. Eis o que quero dizer quando afirmo que o Santos entrou em campo devidamente preparado para perder.

Esse estado de espírito começou já na final da Libertadores, quando o Santos começou a «sonhar» com o momento em que se encontraria com o Barcelona, tal como um menino de favela sonha em conhecer o astro da televisão. O peso da responsabilidade afetou a equipe, que caiu de produção e perdeu a possibilidade de lutar pelo título brasileiro. A aproximação da data da final exigia, porém, que alguma estratégia fosse traçada. Não sei quem foi o responsável por esta estratégia, não vou acusar ninguém sem provas, mas a estratégia me pareceu ser desde o início a da redução de danos.

Vejamos. Convencido desde sempre que não teria a mínima chance de vencer o Barcelona, a equipe santista preparou-se para perder com honra e não voltar para casa excessivamente chamuscada. O treinador, obviamente, preparou-se para não ganhar o título mas continuar no emprego, certamente vislumbrando um trabalho de médio e longo prazos. A preparação não deve ter sido fácil, pois todo esportista tem dentro de si a ambição de vencer. Imagino como deve ter sido complicado para convencer cada um daqueles garotos e marmanjos que eles não deveriam sequer sonhar com a possibilidade de ganhar. Imagino que mais de uma vez algum deles deve ter levantado a voz: «Mas, professor, o Getafe, o Hércules e o Real Sociedad conseguiram, não podemos conseguir também?». Independente da dificuldade, porém, todos chegaram à final sintonizados em uma mesma «emoção», e esta não era o desejo da glória, mas a reverência por quem já tem a glória.

Em um país onde o torcedor de futebol; traumatizado pelas «derrotas honrosas» de 1978, 1982 e 1986; ainda é saturado por uma mídia míope que só pensa no curto prazo e que vende aqui dentro os clubes da Europa, a ousadia tornou-se um defeito grave, especialmente nos treinadores. Nunca alguém culpou um retranqueiro por uma derrota, mas milhões estigmatizam derrotas sofridas por times que ousavam. No deserto da década de 1990, povoada por equipes sem inspiração, sob a batuta de xerifes autoritários e histriônicos que se sentiam deuses, o «esquema tático» prometia ser o futuro militarista do futebol, e os nossos alegres jogadores saíam daqui cedo e franzinos, como Ronaldo, para voltarem da Europa meses depois parecendo lutadores de Jiu-Jitsu. Joelhos em frangalhos não importavam, pois os europeus nos revendiam a xepa da feira a preço de ocasião, depois de terem usado os melhores anos de nossos garotos. E o brasileiro médiu desistiu de pensar futebol como um esporte, para vê-lo meramente como competição.

Por isso Muricy Ramalho tentou uma barreira de cinco defensores para «conter» o talento do adversário. Exatamente como tentaram fazer todos os times que foram goleados pelo Barcelona nos últimos anos. Ele próprio sabia que seu esquema era falho pois declarou a imprensa que «não tinha a fórmula». Mas, se não tinha a fórmula, ninguém o culparia por cinco defensores. Então, ponha-se cinco caras em linha para tentar marcar o ataque adversário, e torçamos para perdermos de dois ou três só. A única surpresa para o Santos foi o terceiro gol tão cedo. Estava tudo devidamente calculado para uma derrota de dois a zero, talvez até com olé, mas nada tão grave.

Alguns devem estar se sentindo orgulhosos da postura altaneira do Santos, que perdeu o jogo mas não descambou para a violência. Não vejo orgulho algum em perder sem sequer lutar. Faltou sangue ao jovem time paulista. Faltou sangue nos olhos, sangue vermelho e não sangue de barata. Faltou sonho.

Pode ser difícil o quanto for, mas nenhum jogo está perdido antes de começar, a menos que você esteja convencido de sua incapacidade. E se você se crê incapaz, então estarão perdidos até mesmo jogos que poderiam ser apenas difíceis, estarão difíceis jogos que poderiam ser fáceis. Quando você se apequena diante do adversário, não há grandeza em sua derrota. Vejo mais honra na derrota de El Salvador por 10 x 1 contra a Hungria, em 1982. Isto porque, quando estava o jogo em 5 x 0 e o árbitro já expulsara um salvadorenho, o pobre time centroamericano marcou um gol e os jogadores correram ao meio de campo entusiasmados, prontos para o reinício. Ali ficou evidente que eles, mesmo sabendo de suas limitações, estavam fazendo o que podiam e ainda sonhavam com algo, mesmo sabendo-o tão impossível. Por causa do solitário gol de Zapata, marcado ao final de uma desconcertante jogada coletiva que deixou a defesa húngara sentada no chão, a equipe salvadorenha figura com honra na história das Copas do Mundo, exemplo de esportividade e amor à camisa. Diferente do Santos, que entrou em campo sabendo que ia perder, calculando em perder de pouco, e sequer preparado para a possibilidade de ganhar. Com um pouco menos de derrotismo na cabeça, o Santos poderia ter marcado um ou dois gols na primeira metade do segundo tempo, talvez não tivesse tomado um ou dois dos gols que tomou, poderia ter arrancado um empate em tempo normal, poderia talvez até ter ganhado.

Eu me sinto mais feliz quando meu time perde tentando ganhar, do que quando perde tentando perder mesmo.

Pânico Eletrônico

Quando comecei a comprar meus primeiros CDs, em 1995, ainda eram primordialmente versões importadas, geralmente dos Estados Unidos ou da Alemanha. Havia uma mensagem impressa neles, ao final de uma breve seqüência de instruções para cuidado e limpeza que, afinal, não era mais do que recomendações de bom-senso: “se você seguir estas instruções, o CD lhe proporcionará uma vida inteira de puro prazer auditivo” (If you follow these instructions, the compact disc will provide you with a lifetime of listening enjoyment).

Certamente esta promessa era reconfortante. Eu tinha meus vinte e poucos anos e imaginava que viveria, no mínimo, mais uns sessenta ou setenta. A perspectiva de conservar comigo os meus discos até o fim — e talvez até legá-los a meus descendentes — era algo que imaginava muito vivamente. Por isso não hesitei em investir milhares de reais em discos. Considerando todos os que ainda tenho e os que cheguei a ter, mas vendi por não ter gostado, devo ter comprado em vida quase novecentos discos. A preços corrigidos para valores atuais, isto quer dizer que eu comprei, facilmente, mais de doze mil reais em música.

Este investimento me proporcionou, de fato, um enorme prazer auditivo. Um rápido cálculo me diz que os meus CDs contêm nada menos do que vinte e quatro mil minutos de música, ou quatrocentas horas. Considerando que ouvisse uma média de uma hora e meia por dia (o equivalente a um álbum duplo ou a dois álbuns), eu levaria 267 dias para ouvir toda a minha coleção uma única vez. Mas como eu não ouviria todos os dias, posso afirmar sem sombra de dúvida que os meus CDs equivalem a um ano do prometido prazer.

Levando mais adiante o cálculo, considerei que houve certos álbuns que eu certamente ouvi mais de uma vez. É impossível ouvir uma vez só certas pérolas, como The Dark Side of the Moon (Pink Floyd), Trespass (Genesis), Argus (Wishbone Ash), Bad Company (Bad Company), History (America), Harbour of Tears (Camel), In Rock (Deep Purple), Revoluções por Minuto (RPM), Houses of the Holy (Led Zeppelin), Molten Gold (Free), Power and the Passion (Eloy) ou Nightingales and Bombers (Manfred Mann’s Earth Band). Desta forma, não é difícil imaginar que foram, na verdade, dois anos em vez de um.

E por fim, não comprei os discos para ouvi-los uma única vez, ou mesmo para ouvi-los todos repetindo alguns. A conclusão a que cheguei foi a de certamente não conseguiria, mesmo que tentasse, enjoar da música neles gravada, pois quando tivesse acabado de ouvir o último já teria quase esquecido do primeiro.

A conseqüência disso é que rapidamente percebi que possuo mais discos do que consigo ouvir em uma vida inteira (e eu nem estou considerando os discos que peguei emprestados ou as músicas que ouvi efemeramente na Internet). Da mesma forma, hoje percebi que há certos discos que possuo há anos e que nunca ouvi, tal como um obscuro álbum de rock progressivo inglês que chegou às minhas mãos sei lá como, talvez como parte de uma barganha…

Eu poderia estar feliz com isso, imaginando que jamais me fartarei de música enquanto estiver vivo. Mas estou, em vez disso, deprimido por duas razões que apavoram meu senso musical. A primeira é que o CD é um gênero em extinção: dentro de poucos anos já não será possível comprar discos em formato tangível e o antigo prazer de folhear encartes com letras, ler fichas técnicas e contemplar fotos terá desaparecido, inclusive antes que tenha tido dinheiro e tempo para adquirir todos os discos que gostaria de possuir — e há tantos bons discos no mundo que eu ainda não ouvi. A segunda razão é que a promessa feita pelos fabricantes é uma mentira.

Não, o CD não proporciona, por mais cuidado que tenhamos, “uma vida inteira” de puro prazer auditivo. A menos que a vida a que se referem seja a de um cão doméstico ou de um hamster. O primeiro CD que eu adquiri fora fabricado em 1990, no Canadá. Sim, ele tinha um “Made in Canada” estampado. Em 2006, apenas dezesseis anos depois de feito, começou a se desfazer. O plástico esfarelava, o selo descascava e a gravação se perdeu. Tive de readquiri-lo, em uma versão nacional inferior (com capa de péssima qualidade gráfica, como é o compromisso jurado de nossas gravadoras) para poder continuar ouvindo ao épico 2112, do Rush.

Eu não submetera o disco a nenhuma intempérie a não ser alguns invernos em uma casa fria. Eu jamais tocara com os dedos a face gravada. Eu jamais o lavara com outra coisa que não água pura e detergente neutro e jamais o secara com outra coisa que não lenços de papel suavíssimos. E mesmo assim o plástico começara a apodrecer.

Agora, em 2009, percebo que há outros discos com sinais do mesmo mal. Estão sob a mesma ameaça a minha coleção completa de Deep Purple e minha série quase inteira do Wishbone Ash — entre outros. Não é verdade, os CDs não duram uma vida inteira, tal como nem todos nós duramos uma vida inteira.

Melancolicamente os transformo em arquivos digitais, que nunca têm o calor do original. E melancolicamente espero por esse estranho e imaterial futuro no qual não possuiremos nada fisicamente, para tocar, cheirar e sentir, mas apenas virtualmente, limitadamente. Mas enquanto isso me pergunto: sou eu que estou chegando ao fim da vida, ou foi a promessa do fabricante do plástico dos CDs que furou?