Zeitgeist Desmascarado

Artigo anônimo publicado no blogue socialista britânico “Third Estate”. Traduzido por José Geraldo Gouvêa (com ajuda do Google Translator, dada a urgência). Todas as notas de rodapé escritas pelo tradutor.

Esta tradução é a primeira de uma série que contribuirei ao blogue Universo Racionalista com o objetivo de informar à comunidade cética nacional sobre o modo como o filme Zeitgeist e o movi­mento derivado a partir dele são vistos e analisados pelos sítios de movimentos céticos gringos. Praticamente não existem análises independentes em português sobre o filme. É surpreendente que, quase quatro anos após minhas críticas iniciais ao filme Zeitgeist, não tenha surgido na blogosfera cética brasileira nenhuma análise mais profunda do filme — em vez disso vão surgindo simpatizantes do Movimento Zeitgeist tentando usar os blogues céticos para difundir suas ideias.

Acredito que parte do problema deriva da falta de respeito com que, tradicionalmente, os céticos brasileiros encaram as ciências humanas, a História principalmente. O seu conceito delas já é previamente direcionado a considerá-las inconfiáveis e presas da ideologia (no pior dos casos o indivíduo considerará que as ciências sociais são marxistas ou parte de um Grande Plano frustrado de implantação do comunismo) — o que explica a popularidade de “filósofos” como Olavo de Carvalho. Temos um caldo de cultura favorável à desqualificação do conhecimento e receptivo a teorias de conspiração que consigam se disfarçar de iconoclasmo

Espero que a continuidade deste projeto sirva para ensejar um debate mais maduro sobre o filme Zeitgeist e o Movimento criado a partir dele. Um debate no qual as estratégias diversionistas e as falácias sejam desmascaradas honestamente, e do qual os leitores de mente aberta saiam com mais conhecimento do que entraram.

Links importantes

  • http://thethirdestate.net/2010/03/zeitgeist-exposed/ (fonte do artigo em inglês)
  • http://www.biblebelievers.org.au/przion1.htm (edição atualizada dos Protocolos)

No romance policial clássico de Agatha Christie Os Assassinatos ABC, o detetive Hercule Poirot se sai com a seguinte frase:

Quando você menos percebe um alfinete faltando? Quando se está em uma almofada de alfinetes. Quando você menos nota um assassinato específico? Quando faz parte de uma série de assassinatos relacionados.

Eu gostaria de expandir um pouco o raciocínio de Poirot:

Quando você menos nota uma teoria da conspiração extremamente perniciosa e perigosa? Quando estiver incluída em um filme de duas horas, entre muitas outras teorias da conspiração.

Ao longo do último ano um número de pessoas já me disseram que eu deveria assistir Zeitgeist: The Movie. Todas estas pessoas de esquerda ou inclinadas à esquerda, e cada uma me disse que o filme dá uma boa ideia das estruturas de poder no mundo moderno. Essas pessoas pertencem a uma grande variedade de origens e idades, algumas delas ambientalistas, algumas sindicalistas, alguns socialistas, algumas britânicas, algumas americanas. O filme alcançou índices de audiência em massa a nível mundial, com mais de 3.000.000 de pessoas assistindo-o no YouTube, e muitos mais em DVD ou Google Video. E de todas as pessoas que recomendaram o filme para mim, ninguém notou sua dependência em relação ao velho mito da “conspiração judaica mundial”. Neste artigo espero expor a relação do filme com textos e mitos antissemitas mais antigos e ver mais de perto como essas teorias são feitas para enganar os esquerdistas. Gostaria de explicar porque esse filme se tornou tão atraente para pessoas que, de outra forma, estão envolvidas no bom combate contra o capitalismo, contra a guerra e para salvar o meio ambiente. Estou particularmente interessado na relação entre o filme e um livro chamado Os Protocolos dos Sábios de Sião e com o uso de outros temas antissemitas que existiram ao longo da modernidade.1

Zeitgeist: The Movie é dividido em três partes: A primeira centra-se na relação entre a simbologia astrológica e da história de Jesus, o segundo a respeito da “verdade sobre o 11/9” e o terceiro sobre mercado financeiro internacional. Em toda a honestidade a primeira parte não tem muita importância. O argumento é que o cristianismo não é original na sua forma particular de mitologia, e em vez disso é uma reconfiguração dos mitos mais antigos focando sol deuses. Se vamos ou não tomar esse argumento como verdade tem muito pouco impacto sobre a forma como entendemos a sociedade moderna. A segunda parte do filme expõe uma teoria que 9/11 foi um trabalho interno, cometido pelo Estado americano. Muitas pessoas acreditam nisso em sério, e muita da informação é inacessível, mas o argumento que eu gostaria de fazer é que essas duas teorias da conspiração são, em muitos aspectos, sem consequências para o sentido geral do filme. Ao contrário, são usadas ​​como cortina de fumaça para justificar a difusão de material antissemita na seção final do filme.

O que São Os Protocolos dos Sábios de Sião?

Trata-se de um livro publicado pela primeira vez por volta da virada do século XX na Rússia. É um documento fraudulento e fictício, feito para ler como se fosse a troca de informações entre diver­sos grupos de judeus influentes que planejam dominar o mundo. Ele sugere que o povo judeu pre­tende dominar o mundo através de um processo de controle dos governos, da imprensa e dos ban­cos, enganando a população em geral. A alegação é de que os judeus pretendem escravizar o mundo através da criação de um “governo mundial”. É claro que o texto é profundamente antis­se­mita, e foi demonstrado várias vezes como uma falsificação,2 mas tem sido utilizado de forma con­sistente em todo desde então para justificar as atrocidades cometidas contra judeus. Além disso, continua popular em algumas partes do mundo, e entre algumas organizações de direita e grupos fascistas.3

A relação entre dois textos

É bastante fácil encontrar evidências de que há uma grande influência dos Protocolos dos Sábios de Sião sobre o conteúdo de Zeitgeist. Dá para encontrar até citações. Por exemplo, quando Zeit­geist diz que “os banqueiros internacionais têm agora uma máquina eficiente para expandir as suas ambições pessoais”, os Protocolos dizem que “as engrenagens das máquinas de todos os esta­dos são movidas pela força do motor, que está em nossas mãos, e o motor da máquina de nossos estados é o ouro”. Mas gostaria de dizer que esse tipo de crítica não vai longe o suficiente. Em vez disso gostaria de mostrar que todo o argumento da terceira seção do filme foi levantado a partir dOs Protocolos. É o mesmo argumento, muitas vezes em linguagem ligeiramente alterada, e é por isso que parece tão antissemita. Vou me concentrar em cinco aspectos particulares.

O Governo Mundial

Um dos grandes temores dos teóricos da conspiração é um governo mundial. Este ponto é expli­cado claramente na parte final do Zeitgeist em uma discussão sobre uma União da América do Norte, uma união asiática, a União Europeia, e uma União Africana. Até que, finalmente, se diz que “quando for a hora certa, elas vão se fundir e formar as fases finais do plano em que estes homens têm estado a trabalhar há mais de 60 anos: Um governo mundial… Um banco, um exér­cito, um centro de poder.” Este argumento é particularmente relacionado com a abertura do Pro­tocolo 3, em que lemos:

Hoje posso dizer que a nossa [dos judeus] meta agora está apenas a poucos passos. Resta somente um pequeno espaço a atravessar no longo caminho que temos trilhado antes que ciclo da Serpente Simbólica, por que nós simbolizamos nosso povo, seja concluído. Quando este anel se fechar, todos os Estados da Europa estarão bloqueados em seus anéis como em uma poderosa prisão.

Os Protocolos continuam no Protocolo 5:

Por todos esses meios vamos assim desgastar os goyim [não-judeus] até que eles sejam obrigados a oferecer-nos poder internacional de uma natureza que nos permitirá absor­ver todas as forças estatais do mundo e formar um Super-Governo.

O uso da guerra

Há uma seção no filme em que se afirma que as justificativas para os Estados Unidos entrarem em uma série de guerras mundiais foram orquestradas por “homens por trás do governo.” Dizem-nos que o naufrágio do Lusitânia foi planejado, que o incidente do Golfo do Tonkin nunca aconteceu, que se sabia sobre Pearl Harbor com a devida antecedência4 e é claro que 11/9 foi um trabalho interno. Diz-se que ambos os lados do conflito têm sido financiados pelos mesmos “banqueiros internacionais”. Esta seção do filme é levantada diretamente do protocolo nº 7, que diz:

Ao longo de toda a Europa, e por meio de relações na Europa, e também em outros con­tinentes, devemos criar fermentos, discórdia e hostilidade. É assim que ganhamos uma dupla vantagem. Em primeiro lugar, manter sob controle todos os países, pois bem eles sabem muito bem que temos o poder de criar distúrbios quando quisermos e res­taurar a ordem… Precisamos ficar em uma posição para responder a todos os atos de oposição pela guerra com os vizinhos do país que ouse se opor a nós, mas se esses vizinhos também se aventurarem a ficar coletivamente contra nós, então devemos oferecer resistência pela guerra universal.

Não vou negar aqui que guerras foram travadas cinicamente, porque é claro que foram, e também não estou dizendo que não deveríamos nos opor a certas guerras só porque outras guerras mere­ceram nossa oposição. O ponto aqui é, porém, que esse argumento em particular sobre a guerra, baseado na ideia de que os judeus mandam no mundo, deveria ser jogado fora.

Manipular a população

Existem dois tipos de pensamento nas teorias clássicas da conspiração judaica sobre a forma como as pessoas são feitas de bobas e enganadas. O primeiro, e o que foi realmente mais significativo na história das teorias da conspiração judaica, é a ideia de judeus controlando os meios de comuni­cação. O segundo, que se tornou menos utilizado, mas ainda existe em Zeitgeist: The Movie é a ideia de controle judaico do sistema de ensino para torná-lo ineficaz.

A questão do controle judeu da mídia é coberto no Protocolo 12, em que está escrito:

Nem um único anúncio chegará ao público sem nosso controle. Mesmo agora isso é alcan­çado por nós na medida em que todas as notícias são recebidas por algu­mas agên­cias em cujos escritórios são focadas de todas as partes do mundo. Tais agên­cias então já serão inteiramente nossas e darão publicidade apenas ao que ditarmos.

E no Protocolo 13:

Nós os distraímos ainda mais [aos não-judeus] com divertimentos, jogos, passatempos, paixões, palácios públicos… Estamos para começar a propor através da imprensa com­petições de arte e de todos os tipos de esportes. Esses interesses finalmente distrairão suas mentes das questões de que devemos nos encontrar compelidos opor-nos a eles.

Em Zeitgeist questões idênticas são cobertos o tempo todo, mas existe em particular a discussão de uma “cultura totalmente saturada de entretenimento através dos meios de comunicação em massa.” Dizem-nos que as mesmas pessoas por trás da tomada planejada do governo estão “por trás da grande mídia”.5

Em ambos Zeitgeist e os Protocolos vemos alguma discussão sobre o sistema de ensino. Em Zeitgeist nos é mencionada “a decadência do sistema de ensino dos EUA” e que “eles [o governo] não querem que seus filhos sejam educados”. Não é surpresa que o mesmo argumento seja feito no Protocolo 16: “Quando estivermos no poder, removeremos todo tipo de assunto perturbador do curso da educação e faremos dos jovens filhos obedientes da autoridade”. O narrador de Zeitgeist diz: “a última coisa que os homens atrás da cortina querem é um consciente, público informado”, ecoando o sentimento do protocolo 5: “não há nada mais perigoso para nós [os judeus] que a iniciativa pessoal.”

Ouro ou dinheiro, reserva federal e usura judaica

Tanto os Protocolos (particularmente Protocolos 21 e 22) e Zeitgeist focam fortemente sobre ques­tões relacionadas a dinheiro ou ouro. Ambos oferecem a teoria de que os problemas da sociedade são causados ​​por sistemas monetários e que o dinheiro está sendo controlado por um pequeno grupo de pessoas de moral duvidosa. O importante aqui é que o foco está no dinheiro e não no capi­tal ou no sistema de produção. Em vez de oferecer perspectivas críticas sobre as estruturas da sociedade que causam a opressão e a pobreza, a opinião geral é que a sociedade atual é benevo­lente e tal benevolência está subvertida por problemas na esfera da circulação.

Ao longo dos séculos, desde a expulsão dos judeus da Grã-Bretanha em 1290, a acusação de usura foi dirigida contra estes para fins antissemitas. Zeitgeist diz do imposto de renda federal:

Cerca de 25% da renda média do trabalhador é levado através deste imposto, e adi­vinha onde esse dinheiro vai? Vai pagar os juros sobre a moeda que está sendo pro­duzida pelo Federal Reserve Bank. O dinheiro que você ganha trabalhando por quase três meses ao ano vai quase literalmente para os bolsos dos banqueiros internacionais.

Mais uma vez, por uma questão de tentar fazer com que as palavras não apareçam como racistas que são, o termo judeu é substituído por “banqueiros internacionais”. Esta é mais uma vez a reafirmação de um mito antissemita. Assim como em todos esses exemplos, os argumentos aqui são levantadas a partir de teorias antissemitas mais antigas. Zeitgeist não está oferecendo uma explicação do mundo, ou dos sistemas econômicos políticos nacionais. Estes argumentos só existem para promover uma atitude de ódio a um determinado grupo pré-definido da sociedade.

A cabala secreta?

Em última análise, o argumento que está sendo feito em todo Zeitgeist é que o mundo está sendo controlado por uma pequena sociedade secreta de indivíduos. No contexto da história das teorias da conspiração, isto quer dizer “os judeus”. Quando nos é dito pelo filme sobre reuniões destes “banqueiros internacionais” que são “secretas e escondidas da vista do público”, as discussões sobre “uma agenda defendida pela elite impiedosa”, ou “as pessoas por trás do governo”, eles estão dando novo alento a um velho mito racista que devemos tentar manter distância.

Há uma insistência em toda a teorias da conspiração de que alguém ou algum grupo de pessoas é pessoalmente responsável por todos os males do mundo, e isso está muito relacionado com o antis­semitismo ao longo da modernidade. Por centenas de anos, os judeus têm sido o bode expi­a­tório oficial do capitalismo. Quando os sistemas de produção empobreceram povo, os judeus foram responsabilizados, onde as pessoas sentiram os impostos como injustos, os judeus foram responsabilizados, onde as pessoas se sentiram alienados pelas estruturas da sociedade, foram informados de que são de fato alienadas porque não fazem parte das reuniões secretas de judeus.

Em última análise, estas teorias nos levam para longe de uma crítica do capitalismo. O filósofo esloveno, Slavoj Zizek defende exatamente este ponto com referência ao antissemitismo de Wagner quando escreve:

Ele precisa de um judeu, de modo que, em primeiro lugar, a modernidade — este pro­cesso impessoal abstrato — tenha um rosto humano, seja identificada com uma carac­terística concreta e palpável; então, em um segundo movimento, rejeitando o judeu que incorpora tudo o que se desintegrou na modernidade, podemos manter as suas van­tagens. Em suma, o antissemitismo não representa anti-modernismo como tal, mas uma tentativa de combinar a modernidade com o corporativismo social que é carac­te­rís­tico dos revolucionários conservadores.

Quem foi o senador Louis McFadden?

Louis McFadden, que é muito cotado em Zeitgeist, era um senador dos EUA na primeira parte do século XX. Ele também calhou de ser um antissemita decidido e se saiu com frases como “nos Estados Unidos de hoje, os gentios têm tiras de papel enquanto os judeus têm o dinheiro legal”

Ele é citado duas vezes no filme dizendo o seguinte: “Um sistema bancário mundial estava a ser criado aqui… um superestado controlado por banqueiros internacionais, agindo em conjunto para escravizar o mundo para seu próprio prazer…” e “Foi uma ocorrência cuidadosamente planejada. Banqueiros internacionais procuraram trazer uma condição de desespero para que pudessem aparecer como governantes de todos nós.”

Dentro do contexto da visão de mundo de McFadden, ele usa “banqueiros internacionais” como um epíteto para os judeus. O que é notável é que os realizadores de Zeitgeist parecem dispostos a omitir este contexto, para sugerir que McFadden simplesmente está a oferecer uma crítica do capi­talismo. O fato é que, dentro de teorias de conspiração, a rotulagem dos judeus como “banqueiros internacionais” e “capital financeiro internacional” é um traço comum. Estas citações teriam sido entendidas na época, e ainda são entendida por muitos, agora, como antissemitas.

O caso de Jeremiah Duggan e a verdade sobre Lyndon LaRouche

Outro personagem bastante obscuro que aparece em Zeitgeist é o ativista político norte-americano Lyndon LaRouche. Senti que deveria incluir a seguinte história como evidência anedótica de quão perigosas estas pessoas podem ser:

Jeremiah Duggan era um estudante britânico na Sorbonne que morreu em 2003 em circunstâncias extremamente suspeitas. Nos meses que antecederam a sua morte, Duggan tinha se envolvido no que acreditava ser uma organização pacifista. Na verdade, tinha se enrascado com um grupo de organizações políticas liderados pelo ativista político norte-americano Lyndon LaRouche. Em março daquele ano, Duggan participou de uma conferência dessas organizações no Instituto Schiller (um local de propriedade do movimento de LaRouche) em Wiesbaden, Alemanha. No trans­correr das reuniões Duggan revelou ser judeu e, no entanto, em tais reuniões do movi­mento de LaRouche, judeus são os culpados pelo início da guerra, reanimando os velhos mitos da cons­pi­ra­ção sobre judeus incentivando guerras como ajudar no controle social. Ele disse em seu discurso de abertura da conferência:

Este plano para lançar uma nova guerra mundial foi intelectualmente influenciado por pessoas que, como Hitler, admiram Nietzsche, mas por “serem judias”, não poderiam se qualificar para a liderança do partido nazista, apesar de seu fascismo ser absoluta­mente puro! Tão extremo qaunto o de Hitler! Eles as enviaram para os Estados Unidos. […] Quem está por trás disso?… A turma do sistema de banco central independente, a escória do lodo. Os interesses financeiros.

Por volta das 05:00, depois que Duggan tinha revelado sua identidade judaica na conferência, ele telefonou para sua mãe. Disse: “Mãe, estou em apuros… Você conhece essa Nouvelle Solidarité?…” Ele disse: “Eu não posso suportar isso… Quero sair.” E nesse ponto o telefone foi cortado. E então o telefone tocou de novo, quase que imediatamente… E, em seguida, a primeira coisa que disse daquela vez: “Mamãe, estou com medo”. Ela percebeu que ele estava em tal perigo que ela lhe disse: “Eu te amo.” E então ele disse: “Eu quero vê-la agora.” Ela disse: Bem, onde você está, Jerry?” E ele disse: “Wiesbaden.” E ela disse: “Como é que você escreve?” E ele disse: “W I E S” E então o telefone foi cortado.

No dia seguinte, Jeremiah foi encontrado morto, com membros do movimento de LaRouche ale­gando que ele cometera suicídio. Inquéritos ainda estão em andamento para determinar o que houve naquela noite. Nas últimas semanas, um segundo inquérito sobre sua morte foi anunciado.6

LaRouche foi conhecido como um teórico da conspiração judaica por mais de 30 anos. Sua organi­zação é cultista e perigosa (uma das razões pelas quais eu escolho para escrever este artigo anoni­ma­mente), e o conteúdo de muito do que ele diz pode ser rastreada até o tipo de alegações apre­sen­tadas nOs Protocolos dos Sábios de Sião. O que é, então, que um homem como este está fazendo em um filme que pretende ser uma crítica esquerdista liberal da sociedade?7

Zeitgeist e a Esquerda

Sob muitos aspectos, o que há de mais inquietante a respeito deste filme é ele pretender ser de esquerda, ou liberal. À medida que o filme termina, vemos imagens de três homens aparecerem e desaparecerem: Mahatma Gandhi, Martin Luther King e John Lennon. Ao longo do filme, temos citações do comediante esquerdista Bill Hicks e uma parte é reservada a Michael Meacher, um político do New Labour. Afirma-se mais uma vez que o objetivo deste filme é a afirmação da uni­dade da humanidade, de acabar com a diferença, seja ela de classe, raça ou sexo. Somos levados a pensar que o filme está a oferecer uma crítica radical, pela esquerda, do poder estabelecido. Em vez disso ele chafurda no tipo de teorias que se casam mais com os libertários de direita. Eu não sei por que o grupo Zeitgeist foca especialmente a esquerda. É, talvez, uma medida de divisão, mas também, possivelmente, apenas uma arena onde eles sentem que podem converter as pessoas à sua maneira de pensar. O que está claro, porém, é que a sugestão de que as ideias expressas são de esquerda ou liberais, com a implantação de citações de esquerdistas e liberais bem conhecidos, é absolutamente cínica.

O problema positivista

Há uma razão em particular para que essas conspirações possam parecer compatíveis com os modos de pensamento de esquerda, e que tem a ver com o problema filosófico do positivismo. Dito de forma mais simples, isto quer dizer que ideias sobre a transformação de uma sociedade não podem ser diretamente expressas na linguagem ou modos de pensar correntes na sociedade que pretendem transformar. E este problema é comum a todas as teorias de transformação da sociedade. Provavelmente, o ramo mais influente deste tipo de pensamento derivou de Hegel a Marx e até os marxistas dos séculos 20 e 21. A solução para eles é falar em termos de uma dialética, ou seja, comparando-se a consciência de uma sociedade para a realidade material. A conclusão significativa deste tipo de pensamento é que a consciência da sociedade, até um certo ponto é sempre falsa.

Os teóricos da conspiração retomam esta questão de outra maneira. Dizem que, se a nossa consci­ên­cia da sociedade é sempre falsa, ela é forçada a ser falsa por um pequeno número de poderosos que tornam falsas.8 Eles acreditam que somos constantemente enganados por uma quadrilha que tudo sabe e que controla cada aspecto de nossas vidas. E as soluções diferem demasiado. Para os marxistas e socialistas o problema é que a sociedade produz uma consciência que não nos permite compre­ender plenamente a nossa miséria no trabalho, do desemprego, ou impotência e a solução é a transfor­mação radical da sociedade em um mundo mais justo e menos exploradora. Para os teóricos da cons­pi­ração, a resposta é a eliminação de tal pequena e poderosa elite. Eles não acre­ditam que a sociedade precisa de mais transformação do que isso.

Este é um terreno filosófico difícil de trilhar. Corremos um grande risco se quisermos criticar os teó­ricos da conspiração por não serem positivistas e por não trabalharem dentro dos modos acei­tos de pensamento. Em vez disso, o que temos de dizer é que o seu modo particular de pen­sa­mento crítico não propõe uma solução correta para a solução de problemas da sociedade e, ade­mais, não se baseia na unificação, mas na divisão. Devemos mostrar que a desigualdade na socie­dade é estrutural em vez de ser baseada nos desejos de um pequeno grupo de judeus.9

O que deve ser feito?

O filme Zeitgeist parece ter uma popularidade crescente e, além disso, está surgindo um movi­mento baseado nele. Mais e mais pessoas estão sendo influenciadas pelo que o filme tem a dizer, sem per­ce­ber bem onde ele está vindo. É importante que possamos expor o mais amplamente possível o subtexto antissemita deste filme. Devemos expô-lo como sendo cinicamente posicio­nado de maneira a influ­enciar os liberais e esquerdistas. Ao atacarmos as ideias apresentadas por Zeitgeist, não é suficiente discutir meros detalhes, e devemos, em vez disso, tentar compreender a política que este filme, como um todo, tenta apresentar. Precisamos ler através das muitas cama­das de teorias da conspiração aqui, e entender que há uma em particular em que eles querem nos fazer crer, e que esta é, naturalmente, a mais perigosa e perniciosa.

É importante entender que o tipo de crítica da sociedade oferecido pelo movimento Zeitgeist não pode ser separada da teoria conspiração judaica. Não se pode tomar os textos antissemitas clás­sicos, subs­ti­tuir a palavra “judeu” por “banqueiros internacionais” ou “capital financeiro inter­na­cional” e acre­di­tar que sua teoria não é mais antissemita. Claro que existem bons argumentos de que o capitalismo e impe­rialismo são de fato extremamente perigosos. Há bons argumentos em uma perspectiva de esquerda ou liberal para dizerem que as guerras no Afeganistão e no Iraque nunca deveria ter sido travadas. E é aqui que temos de reconhecer que os fins não justificam os meios. Não podemos nos dar ao luxo de apoiar qualquer causa que é simplesmente anticapitalista, ou qualquer outra causa que é simplesmente antiguerra, caso contrário, corremos o risco de ir para a cama com os fascistas. Em vez disso, nossas posições sobre o capitalismo e da guerra devem surgir a partir de crítica profunda, em vez de uma reedição revista de narrativas antis­semitas antigas.

A fim de difundir esta mensagem o mais amplamente possível, encorajo a todos que republiquem esta peça em seus próprios sítios, que a enviem a amigos e camaradas, a mostrá-la a quem lhe apre­sen­tar “este novo filme fabuloso você simplesmente tem que assistir”. Uma das maneiras mais fáceis é, se você está no Twitter, clicar no botão Tweet deste post. Se possível, dê-nos retorno aqui nO Terceiro Estado para que possamos monitorar quão amplamente este material está sendo dissemi­nado. Nas próximas semanas recriarei este artigo como um vídeo narrado, bastante no estilo de Zeitgeist: The Movie, a fim de que podemos espalhar esses pontos de vista para ainda mais pessoas que possam vir a ser influenciadas por este filme repugnante.

  1. O antissemitismo é um pensamento caracteristicamente direitista, estando fartamente documentada a tentativa de associar as teorias socialistas com o pensamento judaico. A circunstância fortuita de que alguns expoentes do pensamento esquerdista (começando por Karl Marx) eram judeus foi utilizada como arma de propaganda por todos os tipos de reacionários, começando pela Igreja Católica, que tentou criar sua própria doutrina social para contrabalançar o sindicalismo socialista e ateu, passando pelos nacionalistas e fascistas até chegar a regimes de centro-esquerda interessados em conter o avanço do “bolchevismo”. Mesmo nos regimes socialistas o antissemitismo encontrou certo espaço, estando presente, por exemplo, na onda de perseguições a Trotsky e seus seguidores. No entanto, esta identificação do socialismo como uma “doutrina judaica” é falsa, pois um número significativo de outros famosos socialistas não tinha qualquer relação com o judaísmo: Friedrich Engels, Mikhail Kropotkin, Lênin, Stálin, Mikhail Bakunin, Pierre Proudhon, Antonio Gramsci etc.

  2. São conhecidas as fontes. O plano de conspiração deriva de um romance satírico escrito por Maurice Joly para zombar de Napoleão III, intitulado “O Diálogo no Inferno Entre Maquiavel e Montesquieu” — que não possui conteúdo antissemita. O cenário no cemitério, a ideia de um complô de dominação mundial e alguns conceitos adicionais foram acrescentados por Herman Goedsche, que plagiou a obra de Joly transformando-a no romance gótico Biarritz. A partir desta segunda fonte o chefe da Polícia Secreta czarista, a Okhrana, criou a primeira edição dos Protocolos. A farsa foi desmontada pelo jornal britânico, The Times, ainda em 1921.

  3. Uma das razões da contínua popularidade dOs Protocolos é o seu caráter aparentemente “profético”, por descre­ve­rem uma realidade muito próxima à nossa. Esta circunstância, porém, não passa de vaticinium ex post facto, pois sucessivas edições introduzem alterações (às vezes sutis) de forma a “atualizar” o conteúdo. Como não há direito autoral que possa controlar a republicação e tampouco existem manuscritos originais fide­dig­nos que possam ser usados para dirimir dúvidas (pois a obra em si é forjada a partir do plágio de outras, que tam­bém estão em domí­nio público), não há limites para novas falsificações do texto. Uma boa medida destas falsificações pode ser obtida na comparação com o texto original russo (publicado em 1902) com o texto da primeira edição em inglês, datada de 1919, que, curiosamente, substitui os judeus por bol­che­viques. A mais famosa edição americana foi a finan­ci­ada por Henry Ford, que, embora não tenha sido a pri­meira a restaurar a menção dos judeus, foi a primeira a redi­vidir o conteúdo em “protocolos”, isto é, propostas de ação feitas pelos líderes judeus aos seguidores do mundo.

  4. Ao atacar a participação americana na II Guerra Mundial esta teoria de conspiração, obviamente, enfraquece a posição ideológica dos Aliados, abrindo espaço para uma rediscussão do “outro lado”, o nazifascismo.

  5. Acredito que o autor deste texto não pretendeu negar a realidade do controle da mídia mundial por um grupo res­trito de pessoas, como o magnata Rupert Murdoch, que controla diversos órgãos de imprensa na Austrália, na Grã Bretanha, no Canadá e nos Estados Unidos. A existência de tais pessoas e o seu controle efetivo sobe nume­rosos órgãos de imprensa não são teorias de conspiração, mas fatos conhecidos e documentados. O que se pretendeu negar é que os meios de imprensa seriam, na verdade, de propriedade de outras pessoas, judeus, claro, que os usariam para seus fins.

  6. O inquérito sobre a morte de Jeremiah Duggan reiterou que se tratou de suicídio, sem apresentar novas evidências. Acredito que, exceto pela identificação de Lyndon La Rouche como um líder de extrema direita (e bota extrema nisso) a menção do caso não acrescenta ao texto.

  7. Não se trata aqui de induzir a culpa por associação, mas apenas observar que uma das pessoas que Zeitgeist escolheu citar é de um caráter duvidoso, para dizer o mínimo. A citação de La Rouche, além de ser um apelo falacioso à autoridade, pois ele não tem embasamento para fazer as análises que faz, é um indicativo das tendências perigosas de extrema direita que estão envolvidas no filme.

  8. Atenção para a diferença entre a dialética marxista, que enxerga uma limitação metodológica em nossa capacidade de compreender a sociedade, e a retórica conspiracionista, segundo a qual nossa falta de entendimento da sociedade resulta de sermos deliberadamente enganados.

  9. O artigo original falha por não mencionar dois outros notórios simpatizantes do nazismo citados no filme: Charles Lindbergh e Henry Ford (este não tem sua fala narrada, mas apenas exibida em um quadro fixo e não está incluído na transcrição). Lindbergh era um proponente da eugenia e Ford financiou uma edição em massa dos Protocolos dos Sábios de Sião, para distribuição entre seus empregados e por todo o país. Seu jornal, o "Dearborn Independent", foi o maior responsável pela difusão do antissemitismo nos EUA.

Sob o Signo da Águia

Marx inicia O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte tecendo uma série interessante de considerações sobre os processos históricos em perspectiva. Nos primeiros parágrafos encontramos uma das mais famosas invectivas marxistas, segundo a qual "todos os grandes feitos e personagens da história universal aparecem, como se pode dizer, duas vezes[…]: uma vez como tragédia e a outra como farsa.” A exemplo de quase toda a obra do filósofo alemão, esta frase tem sido muito mal interpretada (e não conseguirei corrigir isso, não nesse momento), mas ela expressa algo muito verdadeiro, que só fica claro quando contemplamos o parágrafo seguinte:

Os homens fazem sua própria história, porém não a fazem com o seu livre arbítrio, sob as circunstâncias que eles mesmos escolhem, mas sob as circunstâncias com que se encontram diretamente, que existem e que lhes foram legadas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E quando estes aparentam dedicar-se precisamente a transformar-se e a transformar as coisas, a criar algo nunca visto, nestas épocas de crise revolucionária é precisamente quando conjuram temerosos em seu exílio os espiritos do passado, tomam emprestados seus nomes, suas insígnias de guerra, seus uniformes, para, com este disfarce de velhice venerável e esta linguagem postiça, representar a nova cena da história universal.

Fica claro que “tragédia” e “farsa” são tomadas pelo seu sentido literário, e não pela conotação pedestre que as pessoas normalmente usam. Tragédia é uma história grandiosa e sagrada, de deuses e heróis. Farsa é uma história pequena, limitada e sem sentido. Não há caráter humorístico na segunda, e nem um final necessariamente “trágico” na primeira. O que Marx está querendo dizer é que as repetições se caracterizam pela inautenticidade, pela reivindicação de laços que são, de fato inexistentes.

Os exemplos dados por Marx falam por si em apoio a esta intepretação: Lutero como Paulo, a Revolução Francesa imitando a República Romana e depois o Império. Este artigo pretende apontar mais uma circunstância em que o passado é intencionalmente evocado para legitimar algo novo. Mas não se trata de uma evocação realmente intencional no seu todo, porque os últimos séculos têm mostrado uma estranha tendência dos fatos históricos em espelhar aquilo que houve na noite dos tempos.

Refiro-me à coincidência entre a história da antiga Roma e a história bem conhecida dos Estados Unidos da América. Citei a frase de Marx porque sei que muitos leitores a lembrarão para dizer que várias das semelhanças que vou apontar derivam da imitação intencional dos símbolos do passado. Concordo que tal imitação acontece, apenas não me darei ao trabalho de explicitar quais coincidências eu atribuo a tal imitação e quais não podem receber esta designação. Existem coisas que são mera coincidência, outras que são fruto da imitação e outras que não são nem uma coisa e nem outra, parecendo evocar uma espécie de inércia histórica que move em uma mesma direção genérica as consequências de escolhas parecidas.

Dizendo em palavras mais comuns: não será possível que um país que adote ideologias semelhantes às de um modelo passado venha a se defrontar com desafios parecidos? Será que a História possui uma inércia que permite reproduzir processos antigos a partir de escolhas e circunstâncias parecidas?

Este artigo não pretende argumentar que sim, apenas atiçar a curiosidade do leitor para a possibilidade. Uma resposta definitiva envolveria conhecimento mais profundo das histórias de ambos os países, conhecimento de um nível que não tenho nem esperança de obter. Que o leitor julgue.

Fase Formativa

Ambas as culturas foram eventualmente consideradas "novas" e "sem raízes" porque se formaram a partir de colônias fundadas por culturas mais antigas. Roma pela Etrúria e os Estados Unidos pelo Reino Unido. Ambas as culturas fundadoras eram confederações de estados: Etrúria, uma dúzia de cidades estado de cultura e instituições semelhantes, 1 e o Reino Unido, por pelo menos doze entidades políticas diferentes (embora hoje sejam somente quatro). 2

O fato de ambas as culturas serem monarquias não é exatamente uma surpresa, visto que esta era a forma de governo mais comum entre os países de antigamente, mas é significativo que Etrúria e Inglaterra sejam representadas heraldicamente por predadores carnívoros (lobo e leão, respectivamente) enquanto Roma e os Estados Unidos são representados por aves de rapina (águias, embora de espécies diferentes).

A fundação dos Estados Unidos diverge significativamente da fundação de Roma pelo fato de terem sido fundadas treze colônias, em vez de somente uma, e por não ter sido mitificada na figura de um rei divino (Rômulo). Porém, ambas as culturas foram fundadas por fugitivos. No caso de Roma, os gêmeos Rômulo e Remo foram perseguidos e tiveram negados seus direitos reais, razão pela qual, mesmo após derrotarem seu perseguidor, preferiram deixar sua cidade original, Alba Longa, e fundar uma nova pátria. Alba Longa era uma cidade mestiça, de instituições etruscas e cultura latina, tal como o Reino Unido era uma cultura mestiça, de instituições normandas e cultura anglo-saxã e céltica.

Após a criação da nova cidade, Rômulo tomou uma medida revolucionária, ao convidar a Roma todos os fugitivos e perseguidos, justa ou injustamente. Com este exército de foragidos ele iniciou o seu poder. Da mesma forma os Estados Unidos, não apenas durante sua formação, mas durante séculos, receberam refugiados de todas as partes do mundo. Esta política teve, também, consequências parecidas: no caso romano, atraiu a ira de todas as cidades vizinhas, fazendo com que a nova cidade já nascesse no meio de uma guerra, que obrigou seus cidadãos a recorrer à violência até mesmo para conseguirem mulheres,3 e no caso americano, fez com que o país estivesse envolvido desde o começo em uma grande quantidade de conflitos internacionais.

A independência romana ocorreu ainda sob o signo da monarquia, algo que não aconteceu com os Estados Unidos, mas os historiadores são unânimes em afirmar que a monarquia romana não era efetivamente independente, mas um estado cliente da cidade de Tarquínia (não por outra razão dois dos reis romanos incluíam o nome desta como sobrenome). Hoje em dia se crê que a fundação de Roma foi um ato de colonização levado a efeito pelos etruscos, às custas de cidades latinas como Alba Longa. Se aceitarmos isso como verdadeiro, então a verdadeira independência romana se dá com a derrubada da monarquia, o que nos leva a uma outra série de semelhanças.

Racismo, Genocídios e Consolidação Territorial

Até bem recentemente, os países não se formavam mediante a proteção de órgãos supranacionais, como a ONU, por isso a sua estabilidade só estava garantida se conseguissem consolidar-se e obter um espaço na geopolítica regional. Isso ocorria através da neutralização dos rivais vizinhos e da incorporação de território suficiente para atender à sua economia. No caso de Roma, a fase de consolidação se inicia com a derrubada da monarquia e se conclui com as Guerras Púnicas, nas quais a República assegurou o domínio do Mediterrâneo, eliminou o único estado que lhe fazia frente e aperfeiçoou as suas táticas guerreiras. Durante esse intervalo de tempo, Roma derrotou definitivamente a Etrúria e a incorporou ao seu próprio território. Simultaneamente, o império romano dedicou-se a anexar territórios dos gauleses, até completar a conquista das terras célticas da Europa em 50 a.C.

Evidentemente existem diversas diferenças para o caso dos Estados Unidos, e tais diferenças são esperadas. O inesperado é uma grande quantidade de semelhanças. Primeiramente, os Estados Unidos, uma vez independentes, estavam reduzidos a um pequeno território espremido contra o mar — tal como Roma. Os primeiros anos do novo país foram caracterizados por guerras contra os índios e contra colonizações vizinhas, culminando com a anexação da Luisiana e da Flórida. Por fim, os Estados Unidos derrotaram pela segunda vez sua nação fundadora (na Guerra de 1812), tal como os romanos derrotaram (e anexaram) a Etrúria. Esta derrota rendeu conquistas territoriais, mas diferente da história romana, não resultou na anexação da metrópole.

O melhor paralelo para as Guerras Célticas, no caso americano, é a Guerra do México (1845-1848), ao longo da qual os Estados Unidos tomaram do gigantesco vizinho um território quase equivalente a todo o que tinham antes, correspondendo aos atuais estados do Texas, Novo México, Arizona, Nevada, Califórnia, Utah e Colorado, além de partes do Oklahoma, Kansas e Wyoming. Mas a analogia com os cartagineses funciona para os alemães. Uns e outros foram considerados bárbaros e acusados dos maiores crimes imagináveis. Os romanos não se cansavam de citar os sacrifícios humanos da religião cartaginesa, especialmente a queima de crianças vivas em honra a Moloque, imortalizada no romance histórico Salambô, de Gustave Flaubert. Não se sabe se esta acusação era verdadeira, embora seja muito plausível considerando o que se sabe sobre a religião dos fenícios, fundadores de Cartago. O que se sabe é que nem romanos nem americanos estão isentos dos crimes terríveis que imputaram aos seus inimigos. O sacrifício humano não era desconhecido em Roma mesmo em tempos imperiais (e há quem diga que os espetáculos de gladiadores funcionaram como uma sublimação de tal prática quando ela se perdeu na religião) e a discriminação contra minorias ao ponto do genocídio foi praticada pelos EUA muito antes da Alemanha nazista, sendo que os próprios nazistas herdaram parte de suas ideias de contextos como as guerras indígenas americanas e de obras de eugenistas americanos. Na época da Guerra Fria, pelo menos até os anos 1960, sempre que os americanos acusavam a URSS de não ser um país com eleições livres, os soviéticos replicavam and you lynch negroes (... e vocês lincham negros).

Transição para o Império

No caso romano a transição para o império foi uma movimentação conservadora causada pelo aumento das reivindicações de reformas, que quase chegaram a derrubar o governo. Após a derrota de Espártaco, ficou claro que o antigo modelo oligárquico estava em crise e era preciso mudar alguma coisa. A escolha dos romanos pelo reacionarismo teve muito a ver com o tipo de religiosidade que viviam, e também com o medo de uma realidade desconhecida.

Os Estados Unidos ainda não completaram a sua transição imperial, mesmo porque isto talvez não seja possível no mundo de hoje, com as mudanças culturais que aconteceram desde o século I a.C., entretanto, é possível ver que aconteceram várias guinadas à direita, com a intenção de neutralizar efeitos das reivindicações populares.

Uma das primeiras guinadas foi o macarthismo, nos anos 50, convenientemente surgindo logo após os Estados Unidos lutarem do lado certo em uma guerra de proporções mitológicas contra um inimigo de semelhante categoria. Muitas pessoas teriam se animado com o combate decidido ao racismo científico dos nazistas e com a solidariedade entre americanos e soviéticos. Foi preciso dar então um choque de realidade em todo mundo, fabricando e intensificando uma rivalidade desnecessária, em um mundo no qual os Estados Unidos praticamente imperavam sozinhos, produzindo 54% da soma total dos PIB de todos os países e tendo a mais poderosa força armada do planeta. É interessante notar que o macarthismo não foi uma política presidencial autoritária, mas um “estado de espírito” insuflado pela direita política e exercido através do congresso. Tal como a reação conservadora em Roma foi bancada pelo Senado. Os romanos não teriam aceito um déspota oriental, por isso era preciso manter as aparências republicanas. Da mesma forma, os americanos não aceitariam um ditador, mas tolerariam um sistema político intrinsecamente fechado a projetos alternativos de poder.

A segunda grande guinada à direita ocorreu nos anos 1980, sob o signo de Reagan, o homem que trouxe ao poder os ideais descaradamente reacionários da direita argentária. E esta segunda guinada aconteceu posteriormente ao grande movimento dos direitos civis e da contracultura dos anos 60, tendo até gerado o termo "youppie", em contraposição a "hippie", evidenciando que os valores cultivados naquela década eram diferentes, para dizer o mínimo, do idealismo sessentista.

Podemos associar o episódio do macarthismo com a crise do século I a.C. e seus triunviratos, que terminou com a instalação de um poder imperial mal disfarçado. Nesse caso o grande Júlio César da política americana parece ter sido John Kennedy, sobre cujo assassinato pesa a eterna suspeita de ter sido a mando da própria CIA e das forças armadas, devido à sua resistência aos projetos de poder da direita e sua permeabilidade aos direitos civis dos negros. A CIA, criada para oferecer informação para subsidiar as decisões presidenciais, foi, então, o "Brutus" desse episódio.

Os movimentos da década de 1980 podem ser comparados à reação conservadora dos governos de Vespasiano, Tito e Domiciano, muito embora ideologicamente muito distintos. O que os une não é a identidade ideológica, mas a dinâmica de movimento à direita após um momento de crise (no caso americano a crise é representada pelos desastrosos governos de Kennedy a Carter, que assistiram à diminuição da hegemonia econômica, o crescimento político e militar do bloco comunista e a crise monetária).

Se a analogia se mantiver coerente pelas próximas décadas, podemos dizer que o momento atual da história americana é análogo ao século I d.C., o momento no qual o império já não era tão agressivo militarmente, preferindo conter-se em suas fronteiras após as primeiras derrotas, sofria forte influência cultural estrangeira e via suas tradicionais instituições republicanas serem erodidas por costumes orientalizantes, o agravamento da desigualdade social e ao declínio tecnológico. Não se anime com esta previsão, foi nesta fase que o Império Romano cometeu alguns de seus maiores desatinos, como o genocídio dos dácios e dos bretões e as primeiras perseguições a minorias religiosas!

Religião e Império

Ao contrário do Império Romano, que foi originalmente uma teocracia de certo tipo, os Estados Unidos surgiram com uma promessa de separação entre o governo e a religião. Nunca um presidente americano se comportou, nem mesmo informalmente, como líder religioso, enquanto o estado romano incluía entre seus postos eletivos o de pontifex maximus.

Esta diferença original não significa, porém, que a força da analogia entre as duas culturas se perca. Roma migrou de uma teocracia para um Estado multirreligioso e multiétnico, com tendência a laicização, por um tempo, enquanto os Estados Unidos, originalmente laicos apesar da relativa uniformidade religiosa, migraram para estruturas mais teocráticas, em reação ao surgimento de minorias culturais.

No auge do processo, sob Marco Aurélio, temos um Império praticamente leigo em termos de religião, embora o imperador ainda detivesse o título de pontífice (ainda que desacreditado pelos desatinos que imperadores passados haviam cometido). No auge do processo americano, que vemos atualmente, temos um governo que cede continuamente a uma agenda religiosa cristã.

Entre as minorias religiosas que tensionaram o tecido social romano estavam, certamente, o mitraísmo, o cristianismo, o arianismo, o gnosticismo e o judaísmo. O cristianismo acabou triunfando e absorvendo ensinamentos e teologias de todos os demais, conseguindo quase apagá-los da História. No caso americano, o papel de tensionador é exercido principalmente pelo islamismo, que se apresenta diante do poder imperial americano quase da mesma forma que o cristianismo primitivo em relação às estruturas romanas de poder. Entretando, esta é uma comparação perigosa, porque o cristianismo não era, então, um movimento religioso tão numeroso e tão influente politicamente quanto o islamismo consegue ser no mundo de hoje. Na época em que Roma perseguia cristãos, o único país cristão do mundo era a Armênia!

Símbolos e Instituições

Foi mencionado acima que tanto Roma quanto os Estados Unidos adotaram a águia como insígnia (e curiosamente as nações colonizadoras que deram origem às duas culturas tiveram por símbolo animais carnívoros, lobo e leão). Essa está longe de ser a única semelhança. Deixei, entretanto, essas comparações para o final porque acredito que a sua intencionalidade enfraquece seu sensacionalismo. Talvez tais símbolos tenham sido sugeridos meramente porque, na época da independência americana, era moda o neoclassicismo, que acabou se refletindo na arquitetura política americana, com seus capitólios e palácios colunados. Mas existem semelhanças que não se explicam só com a moda.

Os Estados Unidos criaram um “Senado” inspirado no senado romano (existe um limite mínimo de idade para ser eleito à câmara alta do Capitólio). Enquanto isso, na Revolução Francesa o parlamento era unicameral. O Senado original também era unicameral, posto que não havia câmara eleita entre os romanos.

A instituição presidencial, apesar de um nome não tradicional, deriva da figura do cônsul romano (o título foi efetivamente usado na Revolução Francesa).

A Ideologia Oficial

Romanos e americanos também têm em comum uma ideologia nacional que os apresenta como faróis da civilização. Os romanos se consideravam sucessores dos gregos e chamavam de “bárbaros” a todos os outros povos (esquecidos de que, aos olhos gregos, tanto os etruscos como eles próprios eram “bárbaros”). Ambos os impérios sempre consideraram a difusão de seus valores como um ato civilizatório, ainda que na maioria das vezes tal difusão se tenha feito por métodos violentos e os povos receptores da civilização romana tenham sido, de fato, subjugados e dizimados (o benefício da civilização era dirigido à terra, não ao povo).

Esta ideologia justificou a anexação da Gália, de que resultou o desaparecimento da cultura céltica na Europa continental (os atuais bretões são descendentes de antigos britânicos que se estabeleceram no continente durante a Idade Média), substituída pela romana de uma tal forma que a língua ali se fixou em menos de duzentos anos. Mais tarde, os romanos executaram conquistas sangrentas contra os dácios, os judeus e os britânicos, sempre em nome da expansão da civilização romana.

É difícil não enxergar o mesmo cinismo quando vemos a difusão da civilização americana e seus efeitos sobre países como o México, que perdeu mais da metade de seu território original, Porto Rico, onde a língua espanhola já começa a ceder terreno, Canadá, cuja parte anglófona cada vez mais se assemelha ao grande vizinho do sul, e até mesmo em lugares distantes, como o Brasil e alguns países da África.

A Moeda, as Finanças e as Alianças

Tanto Roma quanto os Estados Unidos enfrentaram em certa época uma crise econômica de caráter muito parecido. Romanos e americanos adotaram originalmente moedas padronizadas segundo metal precioso, o solidus romano e o dólar americano. Ambas as moedas se apreciaram em consequência do expansionismo, no caso romano com as conquistas de Cartago, Egito e Oriente, no caso americano, principalmente, com o ouro da Califórnia e do Alaska.

A apreciação da moeda durante a fase expansionista permitiu que ambos os países acumulassem um grande poderio bélico e construíssem uma infraestrutura que lhes permitiu fazer circular a economia de uma forma muito eficiente. No entanto, as guerras se tornaram progressivamente menos lucrativas porque se tornaram fúteis. As primeiras guerras romanas acrescentaram grandes territórios e aumentaram significativamente o poder da cidade. Mas entre os séculos I a.C. e I d.C. os romanos se envolveram em conflitos desgastantes e infrutíferos em termos de butim, contra os caledônios e britânicos, contra os armênios e persas, contra os judeus, contra os germânicos e, principalmente, contra si mesmos; pois em tempos de paz o belicoso luta contra si.

O exército poderoso precisava ser mantido, e era caro mantê-lo. Quando as guerras começaram a ser principalmente defensivas ou retaliativas, o exército se tornou um peso excessivo para Roma. Uma solução criativa para isso foi a extensão da cidadania romana a algumas províncias (e logo a todas). Nada melhor para o problema do que dividir a despesa com quem se beneficiava da segurança proporcionada pelas legiões. Este tipo de estrutura, o "tratado" (foedus) tem uma analogia curiosa com o estabelecimento da OTAN, como veremos à frente.

O poder, porém, ainda continuou, pelo menos inicialmente, nas mãos dos senadores originários da península itálica.

Algo muito semelhante ocorre no caso americano. Após a consolidação territorial (que se conclui com a Guerra Hispano-Americana, última em que os Estados Unidos anexaram território), o exército deixou de trazer terras e pilhar tesouros para ser um peso para a nação. Inicialmente os governos americanos usaram este exército para defender os interesses econômicos americanos em sua esfera de influência, a América Latina, mas sempre foi evidente que o poder americano era excessivo para esse fim. Isso levou o país a crises periódicas, causadas pela diminuição do ímpeto de anexações, pois o capitalismo imperialista é como uma bicicleta, e só se mantém equilibrado quando se move para frente.

Tal como Nero inventou a inflação ao aviltar as moedas de ouro, recunhando-as com uma liga menos rica, sucessivos governos americanos aviltaram o dólar, reduzindo sua paridade em metal precioso. O primeiro de tais atos foi em 1861, quando o dólar (até então bimetálico) abandonou o padrão prata e ficou restrito ao ouro. O último ocorreu em 1971, quando o dólar definitivamente deixou de ser uma moeda ligada ao metal precioso.

Em ambos os casos a consequência foi o aumento da inflação, muito embora esta tenha sido causada mais pelas instabilidades que levaram ao fim do padrão ouro do que por este fim. A inflação romana foi dramática, levando a fome e desespero porque, já naquela época, os pagadores de salários não queriam reajustar o pagamento de seus empregados. Talvez isto explique a fase violenta que o país viveu após a morte de Nero, só se estabilizando quase vinte anos depois, sob Vespasiano.

A mais chocante semelhança a que aludo neste ponto, porém, é a estratégia adotada por romanos e americanos para reduzir o impacto do exército sobre o orçamento nacional: se os romanos deram cidadania às províncias, os Estados Unidos criaram uma aliança internacional, a OTAN, através da qual outros países tiveram de contribuir para o custeio da máquina de guerra americana, direta ou indiretamente. Vemos então que ambas as culturas procuraram expandir seu alcance fiscal a fim de custear melhor um exército superlativo, e o fizeram através da promessa de segurança, que tinha uma contrapartida em perda de autonomia.

Guerras por Recursos

Em tese toda guerra é por recursos, ainda que isto esteja inicialmente inaparente. Mas quando me refiro aqui a "recursos" eu me refiro a guerras que não têm a intenção de anexar território, mas apenas obter acesso a produtos ou riquezas necessários ao custeio do estado deficitário devido à máquina de guerra. A fase da guerra por recursos é aquela na qual os conflitos deixam de ser focados no aumento do território e passam a buscar a estabilização da economia.

No caso romano, desde o final do século I, as principais guerras travadas foram de cunho econômico ou defensivo. Notório é o caso da conquista da Dácia, última grande conquista romana em termos de território, que, na verdade, teve por objetivo agregar ao erário imperial o imenso tesouro dos dácios, em cujo território se encontravam as maiores minas de ouro da Europa.

Se Roma precisava de ouro (pois não havia uma cultura econômica desenvolvida, que preconizasse algum tipo de produção autônoma e contínua de riqueza), os Estados Unidos dependem, já há um bom tempo, do negro ouro chamado petróleo. É em busca deste que as principais guerras americanas foram travadas, desde há cerca de vinte anos. O principal episódio deste tipo de conflito seguramente foi o Iraque, ainda que haja controvérsia sobre a extensão do controle americano sobre o petróleo de lá.

O Arquiinimigo

Romanos e americanos tiveram de conviver secularmente com nações formidáveis que nunca puderam vencer. No caso romano, a grande Guerra Fria (nem sempre fria) do mundo antigo foi contra os persas (inicialmente o império da Pártia e depois o império sassânida). Esses longos conflitos se caracterivam pelo desgaste contínuo das estruturas militares de ambos os países e por nenhuma solução definida. A fronteira praticamente não avançou em mais 600 anos.

Alguns países se estabeleceram como estados-tampão entre os impérios, como por exemplo a Armênia e a Arábia, que alternavam entre as duas influências.

Pax Romana e Mare Nostrum

Após a consolidação territorial, e institucional, Roma passou a considerar o Mediterrâneo um território exclusivo seu, o que impediu, por exemplo, que a Armênia conseguisse se desenvolver, independente de qualquer desgaste bélico.

Os Estados Unidos consideram o Atlântico, especialmente o Atlântico Norte, um mar tão seu quanto os romanos consideravam o Mediterrâneo. Tanto assim que a aliança militar americana é a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Mas a reivindicação de soberania americana é o mundo todo, claro. Restringe-se na prática ao Atlântico Norte por ser o único oceano limítrofe que não tem contato com o mar territorial de seu grande rival, a Rússia.

Além de um "mar seu", os americanos também estabeleceram uma "esfera de influência" na América Latina, que não tem paralelo no caso da antiga Roma.

Entre meados do século I e o final do século II os romanos experimentaram aquilo que chamaram de Pax Romana, a ausência total de ameaça externa ao império. Este período não foi pacífico internamente, claro, mas durante todo ele nenhum povo bárbaro conseguiu sequer desafiar o império. A Pax Americana surge em 1848, com a derrota definitiva do México, que deixou de ter qualquer chance de surgir como potência mundial. De 1848 a 2001 (ou até hoje, se você pensar bem) nenhum país conseguiu desafiar a hegemonia americana porque nenhum país conseguiu levar o conflito para dentro de seu território. No caso romano isso só vai acontecer no século IV, causando grande espanto.

Conclusões

Este artigo é um mero rascunho, nada exaustivo, mas que eu espero ser provocante o suficiente para que pessoas mais brilhantes do que eu o expandam. Espero que o meu leitor entusiasmado pesquise e encontre ainda mais semelhanças e diferenças. Com base nisso podemos começar a teorizar aquilo a que aludi lá em cima, no comecinho deste artigo:

Dizendo em palavras mais comuns: não será possível que um país que adote ideologias semelhantes às de um modelo passado venha a se defrontar com desafios parecidos? Será que a História possui uma inércia que permite reproduzir processos antigos a partir de escolhas e circunstâncias parecidas?

Com a palavra o leitor.

1O termo “Etrúria” se refere a uma região geográfica, mais ou menos correspondente à Toscana, na Itália, e não a um estado. As cidades originalmente associadas à cultura “etrusca” são (nomes latinos, com os possíveis nomes etruscos em parênteses): Arretium/Arezzo (Arritim), Caere/Cerveteri (Caisra), Clusium/Chiusi (Clevsin), Cortona, Volterra (Felathri), Populonia (Fufluna), Perusia, Tarracina (Tarchna), Tarquinia (Tarchnal), Veio (Veii), Vetulonia (Vetluna), Fiesole (Vipsul), Volci (Velch), Volsinia (Velzna).

2 Quando o Reino Unido se formou, pela união pessoal dos reinos da Escócia e da Inglaterra, um bom número de outras entidades políticas havia sido absorvida anteriormente, por um ou por outro dos reinos unidos. A Inglaterra incorporara, além dos seis reinos anglo-saxões originais, a Cornualha, a Nortúmbria, Gales do Norte, Gales Central, Gales do Sul, Man, Munster, Connaught, Ulster, Leinster e Meade (os cinco últimos os reinos existentes na Irlanda pré-conquista). A Escócia incorporara a Caledônia, as Órcadas e as Shetlands.

3 O episódio do rapto das sabinas.

Hugo Chávez e o Herói Padrão de Lord Raglan

Você provavelmente já deve ter percebido algo de estranho na recorrência de certas características na biografia de personagens mitológicos (e às vezes personagens históricos). É como se a maioria dos nomes famosos tivesse em comum algo além da fama em si. Pode parecer teoria de conspiração barata, mas essa impressão não é fruto de sua imaginação: ela já foi detectada, estudada e sistematizada por historiadores. Enfim: já se comprovou que existe mesmo um padrão que se aplica à maioria dos relatos biográficos, hagiográficos ou mitológicos de personalidades reais, mitificadas ou míticas.

A comprovação está em uma obra intitulada “O Herói: Um Estudo da Tradição, da Mitologia e da Literatura” — publicada em 1936 pelo folclorista britânico FitzRoy Somerset, Barão de Raglan. Nesta obra, Lord Raglan sintetizou 22 características que são encontradas nos relatos sobre uma grande variedade de personagens reais ou não. Não são as únicas características compartilhadas, mas as que mais frequentemente se repetem.

O estudo destas características não é muito útil para identificar a historicidade de personagens duvidosos, visto que o czar Nicolau II, personagem histórico amplamente conhecido, morto em 1917, tinha 14 das 22 características (uma pontuação superior à de Harry Potter, Ulisses, Sansão e Aquiles); mas é muito interessante para avaliar possíveis interpolações laudatórias feitas em relatos genuínos sobre personagens reais (“mitificação”) e a possibilidade de que um personagem real seja futuramente elevado a um nível de mito ou santo.

Com a recente morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, parece estar havendo uma tentativa de apropriação da sua biografia pelos seus herdeiros políticos, transformando-o em um herói. A análise a seguir procurará coincidências de sua biografia com o padrão do herói de Lord Raglan, para avaliar o potencial de Chávez como futuro arquétipo revolucionário latinoamericano (tal como Sandino, Guevara e Bolívar).

1. A mãe do herói é uma virgem de sangue real.


Verdadeiro no caso de Jesus Cristo, mas não no caso de Chávez, que sequer era o filho mais velho.

2. Seu pai era um rei


Filho de pais pobres, Chávez não se enquadra aqui. Mas o seu bisavô tinha sido um oficial do exército federalista de Ezequiel Zamora, e por isso Chávez merece marcar meio ponto nesse item.

3. Fruto de um amor incestuoso ou ilegal


Nenhuma coincidência conhecida.

4. As circunstâncias de sua concepção são incomuns


Nenhuma coincidência conhecida.

5. Ele é também considerado filho de um deus


Nenhuma coincidência conhecida.

6. Ao nascer ocorre um atentado contra a sua vida, geralmente cometido por um membro da família, ou por sua ordem


Não consta nas biografias oficiais que isto tenha ocorrido.

7. Ele é salvo e levado embora


Como não houve o atentado, não pode haver coincidência aqui.

8. Criado por pais adotivos em um lugar distante.


Chávez foi criado durante vários anos por sua avó, Rosa, em outra cidade, devido às dificuldades econômicas dos seus pais. Um ponto.

9. Quase nada sabemos de sua infância.


Existem poucas fontes sobre sua infância. Não localizei menção a nenhum episódio. Isto, claro, é de se esperar de uma criança pobre. Mas é também característico do herói de Raglan. Outro ponto.

10. Ao se fazer homem, ele volta (ou vai) para o seu futuro Reino.


Aos dezessete anos, Chávez entrou, por escolha própria, para uma academia militar, sendo parte da primeira turma submetida a um novo e mais rigoroso programa de treinamento, que incluía todas as disciplinas militares normais e também vários tipos de conhecimentos técnicos e gerais. Tendo Chávez se notabilizado como um líder do exército antes de ser presidente, esta sua ida para as forças armadas por escolha própria lhe faz marcar mais um ponto.

11. Depois de uma vitória sobre o rei e/ou sobre um gigante ou dragão ou fera...


Apesar de derrotado na quartelada que organizou em 1992, Chávez acabou sendo, de fato, um vencedor, ao defenestrar o odiado presidente Carlos Andrés Pérez e, dessa formar, frustrar os planos do Consenso de Washington. Como os EUA são representados heraldicamente por uma águia, temos aqui uma fera também. Ou seja, Chávez marca esse ponto com pleno louvor.

12. Ele se casa com uma princesa, que pode ser filha/parente do seu predecessor.


Enquanto estava na cadeia, foi abandonado por sua primeira mulher, Nancy Colmenares, e posteriormente por sua amante, Herma Marksman, uma historiadora, que havia sido sua grande inspiradora durante o primeiro período revolucionário. Pouco antes de ser eleito presidente, Chávez se casou com uma jornalista bonita e de origem rica chamada Marisabel Rodríguez.  Se considerarmos o papel influente da imprensa na América Latina, e especialmente na Venezuela, e ainda mais especialmente em relação a Chávez, Marisabel pode ser considerada uma “princesa” (metaforicamente), ligada aos seus maiores inimigos. Casar-se com uma mulher da elite, às vezes abandonando a antiga namorada/amiga, é um mau passo que quase todo herói dá (Sansão, Artur...) e por isso Chávez marca mais um lindo e perfeito ponto.

13. E se torna rei.


Como a Venezuela não é uma monarquia, esse “tornar-se rei” precisa ser entendido como “ser eleito presidente”. Mas ressaltemos que nem toda monarquia era hereditária e vitalícia. Os reis da Polônia, da Lituânia, da Irlanda, do Sacro-Império Romano-Germânico e da Noruega eram eleitos pelos seus pares. Os sultões do mundo islâmico e os imperadores romanos raramente escolhiam descendentes diretos como sucessores. Monarquias nas quais o rei tinha poder temporário incluem as antigas monarquias gregas e as monarquias célticas em geral (especialmente na Irlanda, em Gales e na antiga Escócia). Então, a necessidade de metáfora é bem secundária aqui. Ponto para Chávez.

14. Por algum tempo reina pacificamente.


O tempo de reinado pacífico de Chávez se refere ao período posterior ao golpe de estado que sofreu em 2002. Até esse momento todos os seus movimentos fazem parte da acomodação da situação política. Sua vitória sobre o golpe é a sua definitiva entronização, pois a partir daí ele não teve praticamente oposição alguma que conseguisse impedi-lo de fazer o que quisesse. E seu reinado foi pacífico porque não houve nenhuma oposição militar ao seu mando, nem ameaça externa real. Ponto para Chávez.

15. Promulga leis.


Esta é sem dúvida a característica mais marcante do governo Chávez, que implementou na Venezuela uma verdadeira revolução institucional, derrubando leis antiquadas e aumentando o poder dos órgãos de representação popular mais próximos do povo. A rapidez com que lançou leis e criou instituições torna seu governo o mais criativo de toda a história daquele país. E por isso ele marca mais um ponto.

16. Porém ele perde o favor dos deuses ou de seus súditos


A coisa mais parecida com uma divindade no contexto político latinoamericano é o poder dos Estados Unidos de fazer e desfazer lideranças (e às vezes até governos). Chávez claramente perdeu o favor desse “deus” metafórico. Na mitologia a perda do favor divino era o início da derrocada do herói. A perda de tal favor poderia ser causada por coisas mínimas (Moisés perdeu o favor de Deus porque bateu com cajado em uma pedra e Sansão porque cortou o cabelo). No caso de Chávez, o simples fato de priorizar a melhora das condições de vida do povo o tornou inimigo dos EUA, que, historicamente, não ligam para o bem estar de nenhum outro povo, especialmente se não for branco. Ponto para Chávez.

17. Após o que é retirado do trono e do reino.


Observe que não há relação de causalidade. A retirada do herói de seu trono é posterior à perda do favor dos deuses, mas não necessariamente causada por ela. Digo isto para arrefecer os apressadinhos que me acusarão de acreditar na história da arma cancerígena da CIA (se bem que eu acredito). No caso de Chávez, após anos de embate contra os EUA ele adoece (câncer) e resolve se tratar em Cuba (sua retirada do trono) por períodos cada vez mais longos. Ponto para Chávez.

18. Sua morte é misteriosa.


Se misteriosa não foi, pelo menos os seus aliados tentam fazer ao máximo que se pareça sendo. A acusação de que seu câncer foi causado por interferência da CIA (ou do Mossad) cria essa aura de mistério e faz Chávez marcar mais um ponto. Sem falar em outras circunstâncias misteriosas, como a data de sua morte, os motivos de não ter sido embalsamado e o misterioso rejuvenecimento de seu cadáver.

19. Comumente no topo de uma montanha.


Nenhuma coincidência conhecida.

20. Seus filhos, se os tem, não o sucedem.


Sucedido por um aliado, não por seus filhos. Mais um ponto.

21. Seu corpo não é enterrado.


Parte do mistério que cerca sua morte envolve o lugar onde deveria ser enterrado. Embora ele tenha acabado por ser enterrado no Forte Montaña, já existe a proposta de uma emenda constitucional para que seja transladado para o Panteão Nacional, ao lado de Bolívar, onde ele não ficaria enterrado, mas depositado em um ossuário suspenso.

22. Mesmo assim ele tem um ou mais sepulcros.


Sendo transferido para o Panteão Nacional, Chávez terá dois locais conhecidos de sepultamento (Forte Montaña, o provisório, e Panteão Nacional, o definitivo). Sem falar nos possíveis boatos de que teria sido, na verdade, enterrado em outro lugar. Mas tais boatos não seriam necessários, porque o ponto já está marcado.

Conclusões


Chávez marca surpreendentes 14 pontos no padrão do herói de Lord Raglan, mesma pontuação de Nicolau II. Para se ter uma ideia de onde Chávez se situa na escala, observemos as seguintes pontuações:

  • Édipo e Krishna : 21
  • Moisés e Teseu : 20
  • Dionísio, Jesus e Artur : 19
  • Perseu e Rômulo : 18
  • Hércules e Maomé : 17
  • Beowulf e Buda : 15
  • Hugo Chávez, Zeus e Nicolau II : 14
  • Sansão e Robin Hood : 13 
  • São Jorge : 12
  • Sigurd (Siegfried) : 11
  • Aquiles : 10
  • Harry Potter e Ulisses : 8

Os mitologistas interpretam a escala de Lord Raglan da seguinte forma: uma pontuação inferior a seis indica que a biografia do personagem é provavelmente factual e as coincidências são apenas coincidências, mas uma pontuação superior a seis sugere que o personagem não é real ou então que a sua biografia sofreu/sofre adulterações mitificantes.

Sendo o herói um arquétipo, existe uma tendência humana a adulterar a história de pessoas tidas como heróicas (ou que se pretende fazer parecidas com heróis) de forma a se tornarem parecidas com o herói arquetípico. No passado, a transmissão oral do conhecimento sobre o herói favorecia esta adulteração, sendo inúmeros os casos conhecidos de personagens  cujas biografias contêm elementos atribuídos com finalidade mitificante.

Finalmente, para os que acham que há imperfeições na escala (sim, ela não é perfeita), existem propostas de expandi-la da seguinte forma:

  • Separar “virgem” de “real” em relação à donzela mãe do herói.
  • Adicionar a categoria “prodígios na infância”
  • Adicionar a categoria “cumprimento de profecia”, tanto em relação ao nascimento quanto em relação à morte.

Com tais adições, alguns personagens religiosos (como Jesus e Maomé) marcariam mais pontos, porém a pontuação de personagens reais (como Nicolau II e Chávez) seria menos impressionante. O que é certo é que o falecido presidente da Venezuela tem um grande potencial para ser herói nacional, e a pontuação deve aumentar ao longo do tempo, especialmente se os seus aliados durarem algumas décadas no poder.

Mas, e se Ele Existe?

Raros ateus não passaram pelo momento de tal dúvida. Nada mais natural, visto que o ateísmo não é natural. Como ninguém nasce ateu, o estado atual de ateísmo é fruto de coisas que vivemos, pensamos e sentimos. E não faz muita diferença se você é ateu, agnóstico ou algum outro tipo de água morna. Na verdade, seria sábio supor que os próprios religiosos não pensam muito como é que as coisas seriam de fato no caso desse deus que para quem as suas orações se dirigem existisse mesmo. Desta forma, só posso pensar que este exercício mental é muito relevante, para mim e para quem mais leia, seja qual for o time para que torça.

Como seria, então, contemplar a existência de Deus, nos termos normalmente atribuídos a Ele pelos cristãos? Como nos veríamos diante da realidade se tal ser existisse?

Se existe o Deus do cristianismo, da forma como ele é descrito pela teologia, ele é terrível, temerário e aterrorizante. Pois tal ser eterno criou tudo que existe em determinado momento de sua existência. NINGUÉM no mundo tem a mínima ideia do que ele fazia antes de criar tudo que existe. Não é impossível que ele tenha criado outras vezes antes e DESTRUÍDO tudo.

Tal ser eterno é extremamente arbitrário em seus atos, como um professor que exige dos alunos que tirem nota boa em uma prova sobre uma matéria muito vaga e contraditória, estudada através de livros didáticos incompletos e cheios de erros. Uma matéria na qual ninguém tem certeza se a resposta para uma determinada questão é “a”, “b” ou “c”. Este professor que aplica tal prova uma única vez, sem ter dado nenhum exercício de fixação, e não dá recuperações posteriores. Se bem que o catolicismo inventou uma “recuperação”, diminuindo um pouco esse caráter arbitrário e irracional da divindade, e o espiritismo, além de pensar nos exercícios de fixação, ainda adicionou infinitas oportunidades de recuperação, ao ponto de praticamente desmoralizar a prova: no fim todo mundo vai passar.

Este ser, por uma razão totalmente ilógica, jamais disse coisa alguma diretamente aos seres humanos (ainda que, sendo o único ser onipotente deste universo, nada lhe obstasse) porém, mesmo assim espera que cada indivíduo nascido neste planeta não só o conheça mas também o reconheça. O mais perto que ele chegou de uma “abertura” para a humanidade foi por meio de profetas e de santos — pessoas esquisitas que faziam coias como passar meses dormindo do mesmo lado, cozinhar pão envolvido em fezes, viver décadas no alto de uma pilastra ou vagar pelo deserto, comendo gafanhotos e mel silvestre. Supostamente, essas pessoas teriam visto ou ouvido a Deus. Aham...

Foram pessoas como estas os supostos autores dos livros com os quais temos que nos virarmos para entender o que esse Deus nos pede para fazer a fim de termos o seu favor. Porém, como esses livros foram escritos por pessoas diferentes, em épocas também diferentes, cada um de seus autores entendeu de um jeito muito diferente o que Deus quis dizer. Misteriosamente, Ele nunca se importou em corrigir.

Supostamente, segundo dizem alguns desses livros, Deus não tem o menor interesse em fazer com que nos comportemos melhor, mas que estejamos prontos para submeter nossos intelectos e nossas vidas à Sua vontade; expressada, na maioria das vezes, através de entidades políticas muito poderosas e que afirmam expressar tal vontade). Por alguma razão, tal ser onipotente e imaterial estaria, segundo alguns entre seus “profetas” mais conhecidos, estranhamente interessado em dinheiro, a ponto de até destinar a um tal de “inferno” todos que não puderem pagar regularmente pela sua proteção, digo, salvação.

O «inferno» é um conceito desses que a gente fala o tempo todo mas ninguém nunca para a pensar profundamente a respeito. Nada é mais estranho do que o «inferno». Supostamente é uma espécie de estacionamento imenso e sem carros, aonde ficam aglomerados todos os que não conseguiram entrar na rave party vip de Deus. Lá não tem água mineral, nem música, nem doce e nem bebidas. A turma fica debaixo de um solão fortíssimo, lamentando que não pôde entrar porque comprou ingressos falsos com um cambista chamado Satanás.

Parece estranho, mas esse tal Satanás tem algum tipo de acordo com Deus porque o Poderoso não faz coisa nenhuma para coibir a empulhação dos otários. De forma que a quantidade de gente que acaba retida na portaria do «paraíso» vai só aumentando. O que é ainda mais estranho é que, a julgar pelo que está nos livros religiosos, Deus andou dizendo algumas vezes foi ele mesmo que imprimiu os ingressos falsos.

Essa rave do paraíso, por sua vez, não parece ser muita coisa, pelo que dizem. Do jeito que a descrevem, parece que o que tem de bom é uma série de «nãos»: você não ficará afastado de Deus para sempre, não será torturado eternamente em fogo e enxofre, não vai chorar (na verdade você não «poderá» chorar), não terá ninguém pentelhando, não vai mais transar, não fará nada a não ser louvar a Deus, não sentirá nenhuma dó de seus amigos tolos que compraram ingressos de Satanás e estão fritando do lado de fora, não vai mais sentir nem fome nem sede e nem frio. Alguns santos, como Teresa de Lisieux e Francisco de Assis chegaram a dizer que a suprema felicidade do paraíso seria a de poder ser «mais pobre e despossuído que o mais pobre e despossuído entre os habitantes da terra».

Fica parecendo, então, que toda essa gente querendo entrar não tem nenhum gosto pelas atividades do paraíso — exceto quem for louco, pois tem louco de todo tipo no mundo. O que todos estão querendo é pelo menos ficar no ar condicionado.

Tem um ditado popular que diz que «todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer» — mas está errado: o que todo o mundo quer é continuar vivo. Essa história de paraíso é só a escolha tolerável diante da merda que o tal «inferno» é. Como se trata de religião, as promessas do paraíso não podem falar de coisas como fígado «flex power», setenta e duas virgens, banquetes ou planetas primitivos para escravizar. Resta então a alternativa de ir piorando o inferno para ninguém querer ir para lá.

Enfim, se Deus existe mesmo e é do jeito que os cristãos dizem que ele é, nós estamos todos fodidos.

Zeitgeist: Uma Crítica ao Espírito dos Tempos

Artigo nada modesto, escrito por mim em novembro de 2009 e publicado originalmente no Orkut e no blog da UNA.

Zeitgeist é sedutor, e muito, para os que têm o ateísmo como opinião preconcebida e gostariam de bases “formais” para debater contra os crentes, “provar” que Jesus Cristo é só um mito entre tantos e triunfalmente pôr-se de pé no pedestal da razão. Por esta sedução, eu diria até desta “adulação”, dos anseios do neo-ateu, consegue manter-se na crista da onda: há quase dois anos não cessa de ser comentado e, quando achamos que caiu no limbo, eis que alguém o “descobre” e lança novamente à baila, como novidade — e novidade ele é para o incauto, o desinformado, o novato da rede, e para os que estão dispostos a aceitar mentiras que estejam de acordo com suas crenças. Mas isto é ateísmo?

Em primeiro lugar eu gostaria de despir de mim este rótulo agressivo e desnecessário. Não acho mais que, por não crer em Deus, alguém deva rotular-se de “ateísta”, da mesma forma como alguém que deixou de crer no bicho-papão não precisa se rotular de coisa alguma. Aceitar tal título equivale equivale a autoinflingi-lo. E com ele vem a inversão do ônus da prova, a aceitação do conceito de “Deus” como fato consumado. Eu não creio em Deus, mas ateu é apenas o nome que me é dado por aqueles que creem.

Sou cético, ao menos parcialmente. Tento ser lógico, ao menos na medida em que isto me é útil intelectual, artística e profissionalmente. Mas reconheço que o ceticismo é uma atitude tensa que somente os comedidos podem ter sem o risco do pedantismo. Céticos bem informados costumam filosofar, céticos mal informados se acham filósofos só porque duvidam daquilo que não conseguem vislumbrar. Ceticismo é um método, não uma virtude: o mundo não é do tamanho de nossa ignorância, mas tampouco é do tamanho de nossas esperanças.

É do tamanho de nossas ignorâncias que Zeitgeist se aproveita. Traveste-se de ceticismo, mas traz um sistema de crença, ilógico como os outros. Pode não ser uma religião, mas tem o efeito sedativo da razão que o fanatismo produz. Por isso é ruim. Por isto é deletério. Por isso precisa ser combatido. Ele não traz nenhum bem à causa da razão contra o obscurantismo, porque não há racionalidade em teorias de conspiração, especialmente as que se apoiam em mentiras.

Imagens Violentas

Zeitgeist aparece na tela com uma série de chocantes imagens de guerra, algumas possivelmente montagens feitas por especialistas em efeitos. Depois, vem uma série de imagens de corpos celestes e, por fim, pacíficas imagens da superfície terrestre, seguidas pelo conhecido (e incorreto) desenho animado que mostra a “evolução do homem”, de organismo unicelular a bípede implume que se chama de sapiens. Então uma mão que tenta escrever 1+1=2 é apresentada, meio que à força, a uma Bíblia e uma bandeira dos Estados Unidos.

Estas cenas apelam à razão? Dificilmente. São demasiado panfletárias, didáticas além do necessário. A razão não precisa ser tão rigorosamente tutelada. Fica claro, desde esse princípio, que o filme não é obra de Filosofia ou de História, mas um manifesto político — e do pior tipo. Zeitgeist é um filme persuasivo, no mau sentido. Procura convencer pela emoção, e nisto se assemelha a qualquer filme de propaganda produzido por algum regime totalitário da Europa Central.

Pior ainda, os autores de Zeitgeist parecem saber que imagens violentas atiçam nossos centros cerebrais mais primitivos, amortecem a razão mais refinada. O objetivo esclarecido desta forma, tão emblemática, não pode ser uma reflexão profunda. Mas o que não é profundo, faz-se necessário ressaltar, reforçar e repisar; o que se faz com imagens de crianças e mulheres chorando desamparadas, soldados mortos, cadáveres de meninas, tudo ao som de uma música triste, música para criar o clima: uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade.

Súplica especial

Nos fachos de luz sobre os quais se inscreve o título do filme, desenha-se, subliminarmente, repetidas vezes, uma série de estrelas de cinco e de seis pontas. Então uma voz começa a declamar, com voz de professor primário, que temos sido enganados por tudo e por todos, de todas as formas, o tempo todo, ao longo de toda a História.

Após decretar a implosão, em uma frase, de toda a cultura ocidental, o filme se propõe a justificar as razões pelas quais despreza tudo, ao mesmo tempo em que implora que você conceda à nova versão dos fatos que lhe é apresenta toda a credulidade que ele quer que você abandone em relação a tudo que jamais lhe foi dito. Alguém já ouviu falar da falácia da súplica especial?

  • Você tem sido enganado por todo mundo!
  • Por que devo, então, crer que você não está me enganando?
  • Porque EU estou abrindo os seus olhos para a verdade.

Se você aceita teorias de conspiração que afagam a sua vontade de não crer no Velho Barreiro, digo, no Velho Barbudo do Céu, nada impede que você igualmente creia em profetas, em reptilianos, em arrebatamento, em urinoterapia, em “viver de luz”, em crianças índigo, na capacidade de Paulo Coelho fazer chover. Se você aceita a súplica especial em um caso, porque está de acordo com seus desejos, nada impede que futuramente você a aceite em relação a outros casos, quando seus desejos mudarem. Você não é um ateu, um cético, um agnóstico, sequer um não-praticante de verdade: é só alguém escolheu para si um rótulo, mas que o trocará por outro quando não servir mais. Isto não é ateísmo, não é ceticismo, não é agnosticismo, é apenas modismo. Algo extremamente característico da cultura “new age”, juntamente com cristais, chakras, xamanismo, viagem astral e terapias de vidas passadas. Bem vindo ao clube dos crentes, amigo que se acha descrente.

Mitomania e Mitologia

Os primeiros 45 minutos de Zeitgeist tentam explicar de forma detalhada que Jesus é um mito e o Cristianismo é uma farsa. Esta tese não é difícil de argumentar, havendo uma volumosa e inquestionável biblioteca de escritos e pesquisas das mais diversas disciplinas humanas que pode ser usada para sustentá-la. Causa-me profunda estranheza, então, que o filme pretenda defendê-la com base justamente em informações falsas, comparações anacrônicas, associações forçadas, explicações que não fazem sentido algum ou que, quando fazem, estão contaminadas na fonte pelo vício dos dados incorretos.

Pode-se chegar a uma conclusão falsa partindo de dados verdadeiros, tanto quanto se pode ter uma conclusão verdadeira a partir dos mais ridículos e absurdos argumentos. Desta forma, a validade dos dados não quer dizer que as conclusões são válidas, e a validade das conclusões não garante a validade das premissas. Por isso é preciso sermos prudentes ao analisar qualquer tipo de argumento, recusando legitimar as premissas só porque a conclusão é correta e recusando legitimar a conclusão só porque as premissas conferem.

Esta necessidade é ainda mais evidente quando, por insuficiência de bases ou por influência de nossas crenças, passamos a “buscar” conclusões com que concordemos. E sabemos que mesmo os mais sábios estão sujeitos a tomar por “correto” o que confere com o que pensam. Sem ceticismo e racionalidade, podemos legitimar, a partir de nossas crenças, uma série de premissas risíveis.

Entre os argumentos apresentados está uma incursão pouco referenciada pela astrologia, tentando convencer-nos de que todas as religiões da orla do Mediterrâneo estavam organizadas em termos astronômicos e que sua evolução esteve relacionada às mudanças de era. Jesus Cristo é o arauto da Era de Peixes, que supostamente começa com a Era Cristã (há controvérsias quanto a isso entre os astrólogos) e, ainda por cima, deixa entredito que o cristianismo tinha duração determinada até a Era de Aquário (cujo início varia, de astrólogo para astrólogo, com uma incrível margem de erro de dois mil anos). O cristianismo seria a religião da Era de Peixes tal como o Judaísmo o fora na Era de Áries.

Mas tais explicações ignoram que o símbolo do peixe no cristianismo é um acrônimo para “Jesus Cristo, Filho de Deus e Salvador” em grego, não explicam como a Era de Peixes supostamente duraria 2.400 anos, mas a Era de Áries durara cerca de 1.200 e tampouco considera que a ovelha era símbolo do judaísmo porque tal animal era a base da economia dos antigos israelitas, um povo pastor. Pior ainda, deixa-se estranhamente implícita a crença de que haveria mesmo alguma mensagem oculta sendo transmitida por Jesus, quando ele faz a “profecia” sobre a Era de Aquário! Sim, amigo neo-ateu! O filme que você idolatra, de alguma forma e por alguma razão, não retira de Jesus um caráter sobrenatural! No máximo altera a natureza desta sobrenaturalidade. Com menos esforço do que o necessário para demolir a argumentação furada de Zeitgeist é possível identificar influências gnósticas nesse Jesus profeta da Era de Aquário.

Não é preciso que me estenda muito sobre os erros de Zeitgeist. Aquele que busca verdadeiramente o conhecimento encontrará na rede mundial uma longa lista de sítios que desmascaram com grande eficácia as tolices cometidas por “Peter Joseph”. Os cristãos evangélicos, em especial, têm feito um ótimo serviço nesse ponto. Ao contrário do que pensam muitos neo-ateus, os cristãos, em especial suas lideranças, não são um bando de abobados pagadores de dízimos, embora seja inexplicável que se aferrem a crenças ilógicas. Eles souberam fazer bom proveito de Zeitgeist.

Desta forma, é desnecessário refutar ponto a ponto tudo que está errado no filme: eu prefiro me alongar sobre sua estrutura geral do que me perder em detalhes, nos quais posso até me enganar também, visto que as pesquisas sobre as antigas civilizações têm evoluído desde que me formei na faculdade de História. Basta-me sugerir ao leitor que uma leitura, por mais superficial que seja, de quaisquer obras de referência sobre as antigas religiões, descortinará uma quantidade tão expressiva de erros e interpretações forçadas que o leitor se verá obrigado a imaginar que os responsáveis por Zeitgeist não podem ser levados a sério.

Um Grande Plano Para Ferrar Você

Em seguida o filme se dedica a “desconstruir” as explicações oficiais sobre os atentados de 11 de setembro, recorrendo a teorias conspiratórias. De que maneira este assunto está interligado ao primeiro é algo que, inicialmente, o público de Zeitgeist demora a digerir. Mas, de alguma forma, apesar da estranheza das teorias de conspiração nesse ponto, os neo-ateus engolem esta parte, mesmo meio a contragosto, porque de bom grado consumiram a primeira. O fato de que algumas pessoas que se identificam como “engenheiros” darem depoimentos sobre como o WTC deveria ter caído é suficiente para emprestar credibilidade à tese de que os aviões foram apenas uma desculpa, de que o acontecido foi uma demolição controlada, que tudo foi um “trabalho interno” em nome de algum interesse escuso. O fato evidente de que foi a primeira vez na História em que aviões carregados de combustível foram propositalmente dirigidos contra edifícios não impede que esses “especialistas” saibam qual o efeito que isso deveria ter sobre as estruturas do WTC e do Pentágono. Talvez esses especialistas também possam dizer-nos os números da Mega-Sena.

Quando chegamos à terceira parte o filme já se tornou cansativo e os argumentos estão cada vez mais confusos e menos afirmativos. Fica-se com a impressão de que “tudo” faz parte de um Grande Plano executado por Certas Pessoas que têm o poder dos Estados em suas mãos e que trabalham para construir uma Nova Ordem Mundial, sabe-se lá com que interesses. O clímax emocional do filme acontece aqui, quando o diretor entrevista um membro falastrão da família Rockefeller que menciona fatos análogos ao 11 de setembro, um ano antes de que acontecessem. Se isto é verdade ou não, não posso afirmar. O que se pode, sim, afirmar, com base em uma rápida busca pela rede mundial, é que este tipo de tese é defendido normalmente pela extrema direita religiosa americana, aquela que mata médicos à porta de clínicas que fazem aborto, defende o direito dos pais de espancarem seus filhos, numerosos por sinal, vive na expectativa do arrebatamento e tem em casa pelo menos um rifle para cada mão válida. Nova Ordem Mundial é o nome pelo qual movimentos como o The Cutting Edge e o Vigilant Citizen denominam uma suposta conspiração da maçonaria e dos Iluminati a serviço de Satanás.

Essa história de Grande Plano por Pessoas Ocultas, que dominam todos os países e querem estabelecer uma Nova Ordem é muito antiga e muitas vezes desmentida. Iluminati, Sábios de Sião, Priorado de Sião, Sinarquia, etc. O nome muda, a acusação é a mesma, e o objetivo tampouco muda: de alguma forma sempre se insinua que os culpados incluem o “Grande Capital”, os judeus, a Igreja Católica e os governos. Boa parte desta terceira parte de Zeitgeist ecoa, melhor seria dizer que “fede” a argumentos extraídos dos Protocolos dos Sábios de Sião, a fraude perpetrada pela polícia secreta da Rússia czarista que até hoje é combustível para anti-judaísmo no mundo todo.

Esta estrutura dada ao filme é fascinante. Primeiro o filme destrói a idéia do Deus a que estamos acostumados, então, através das lentes da conspiração do Onze de Setembro, nos apresenta um outro deus, uma espécie de Deus Bizarro, um deus que é o negativo do Velho Barbudo do Céu. Em vez de um ser onipotente e benevolente, há uma organização todo-poderosa e bem-informada, dirigida por impiedosos magnatas que detestam a humanidade como ela é e que se dedicam a destruí-la ou modificá-la segundo seu interesse, se necessário mandando todo mundo para o campo de concentração ou matando seis bilhões de pessoas, como o Vigilant Citizen menciona. Esta organização possui ou quer possuir praticamente os mesmos poderes que o diabo tinha antes de ser descartado pela modernidade, mas Zeitgeist não chega a dizer qual é o deus que combate tal inimigo da humanidade.

Conspirações

Devido à sua estrutura argumentativa e à montanha desconexa de dados que vocifera, em ritmo de videojogo, sem dar tempo para refletir, Zeitgeist é convincente aos olhos dos marinheiros de primeira viagem em teorias de conspiração, uma estranha espécie de crédulos que se identifica com a idéia de que vive em um mundo mágico dominado por vilões do mal e que em breve será destruído. Tal pensamento não é característico de pessoas racionais, ou sequer de quem esteja em plena sanidade mental: esta é a visão de mundo dos cristãos fundamentalistas milenaristas dispensacionalitas: a nata da extrema direita religiosa de AR-15 na mão e abrigo anti-aéreo no fundo do quintal. Gente que espera a volta de Jesus para antes do próximo domingo e que deseja regozijar-se vendo seus desafetos fritando na chapa quente do inferno. Causa-me espanto que tal visão de mundo esteja presente em um filme que pretende divulgar o ateísmo. Causa-me espanto exponencialmente maior que pessoas que pensam que são ateístas se identifiquem com tal filme e comprem esta visão de mundo de contrabando.

Quando vi Zeitgeist pela primeira vez ocorreu-me um insight que quase passou despercebido, mas felizmente registrei: a estrutura do filme lembra os passos iniciais de uma lavagem cerebral, conforme definida pelos autores mais clássicos sobre o tema.

Claro que isto é de uma forma muito limitada, visto que, ao contrário do que ocorre na lavagem cerebral propriamente dita, os responsáveis pelo filme não têm controle absoluto sobre o ambiente e sobre o corpo dos que são submetidos ao processo. Porém, como temos visto ao longo dos anos, as pessoas tendem a encarar a internet como um tipo de experiência pessoal, substituta dos êxtases místicos do passado e suas revelações, e acabam recebendo como “especialmente para si” as informações, mesmo que massificadas, a que têm acesso. Por esta razão, os boatos (“lendas urbanas”) se mantêm vivos por muito tempo, adquirindo, inclusve, uma força que nunca tiveram.

Tal fenômeno é devido à abundância de ingênuos: não apenas sempre há um novo otário para crer nos celulares que a Ericsson distribuirá de graça, como há ferramentas através das quais os boatos podem ser ecoados impunemente e a baixo custo: o correio eletrônico e os sítios de relacionamento. Graças a esta combinação de circunstâncias, obras que jamais teriam qualquer distribuição, atingem um grande público, passando a interferir de forma interativa com a cultura de um modo geral.

Adula-me e te seguirei

A internet é um meme de distribuição de conteúdo que dá a quem o experimenta a sensação de experiência pessoal da verdade. As pessoas criticam pouco o que vêem na internet porque estão possuídas pela ilusão de que a independência da fonte em relação à “mídia” (esse dragão de várias cabeças) supostamente assegura fidedignidade. Acredita-se que uma informação “suprimida” ou seja, não divulgada pela mídia, está provavelmente certa, enquanto as informações da mídia, mesmo que corroboradas por algo tão óbvio como a experiência do dia-a-dia, passam a ser vistas sob suspeita.

Só porque Zeitgeist parte de uma idéia que agrada ao grosso dos ateus/agnósticos/céticos/libertários (negação da divindade de Jesus), ele atrai simpatizantes para outras idéias, estranhas à proposta inicial, mas que, estranhamente, parecem as idéias dos que mais ferrenhamente defendem a divindade de Jesus: A serpente morde o próprio rabo.

Zeitgeist emprega em prol de um “ateísmo” aparente as mesmas armas e conspirações que as religiões brandiram por séculos. Poderia ser, mas talvez não. A serpente morde o próprio rabo, lembrem-se. O símbolo não é só da reencarnação, ele também alude à dialética que conduz os movimentos da História e — frequentemente — os atos praticados pelas pessoas socialmente organizadas.

Mecanismos de lavagem cerebral em Zeitgeist

Não sei se lavagem cerebral funciona ou não. Sou “agnóstico” quanto a isso, diante de minha falta de formação na área. O que percebi foi que, válida ou não a técnica, os realizadores de Zeitgeist a levam tão a sério que a seguiram rigorosamente na estruturação de ambos os filmes.

Dirão que não é justo descartar o todo por causa de erros das partes, devido ao “valor” que supostamente teria para os secularistas. Basicamente este é o argumento que é usado pelos religiosos para defender a Bíblia de acusações de contradições, erros e absurdos. Você vê esse argumento em ação praticamente todo dia quando visita certas comunidades teístas do Orkut. Então temos na boca de pessoas que se julgam a “nata” da sociedade por serem ateístas o mesmo tipo de falácia que é usada na defesa ingênua da Bíblia ou outro livro religioso.

Porém, uma obra que contem predominantemente dados incorretos em meio a alguns verificáveis como corretos está tentando manipular o público para aceitar os incorretos como verdade. Como as pessoas não costumam checar tudo, se apenas notarem que algumas coisas procedem, vão imaginar que todo o resto procede da mesma forma. Assim, torna-se eficaz como panfleto de recrutamento de simpatizantes para suas duas verdadeiras causas, causas essas que tangenciam perigosamente o tipo de idéias que andam na cabeça dos fundamentalistas mais tacanhos.

Lavagem cerebral se faz colocando grãos de verdade na ração dos ingênuos, para que engulam no meio do que acham certo uma informação de interesse do condutor do processo. E se faz repercutindo e repetindo, vezes sem conta, para vencer pelo cansaço. Não vou explicar como funciona, artigos sobre lavagem cerebral são fáceis de achar na rede. Apenas peço que você, por conta própria, faça a pesquisa. Vale a pena.

Zeitgeist reaparece a cada semana na internet, há quase três anos. Nenhum filme realmente bom sobre a História jamais teve esta atenção. Para mim está muito claro o que ele é. Mas não é fácil convencer disso facilmente o público cativo que ele angariou porque quem é submetido pela lavagem cerebral se torna um fanático por ela. É por isso que não adianta ser ateu se você não é cético de verdade e se não tem bons conhecimentos para defendê-lo de manipulações como essa.

Formas ateístas de ser religioso

Eu tenho tentado não ser excessivamente polêmico em meus debates no Orkut, afinal moderação é uma qualidade. Mas diante da insistência de certas posições “iluminadas” por aí e da forte tendência a um consenso (coisa que absolutamente não é recomendável num debate entre céticos), vejo-me forçado a fazer uma intervenção mais provocativa que — tenho certeza — fará poucos pensarem, mas atrairá muita ira sobre mim. “Matem o mensageiro” parece ser uma prática comum diante de fatos ou relatos que não agradam.

Uma característica do ser humano é procurar atribuir significados transcendentais aos seus atos. Nós precisamos que nossos atos tenham implicações além do mero momento, além da pura satisfação. Uma das maneiras de fazer isso é através da religião. Ela permite que sublimemos muitos aspectos de nossa personalidade. Um assassino, por exemplo, pode tornar-se um cruzado. Um tímido pode virar um sacerdote e seguir o celibato. Um suicida se transforma em um mártir em troca de setenta e duas virgens. Um toxicômano vê deus quando toma o santo daime. Todos estes atos (matar, abster-se do sexo, matar-se, drogar-se) respondem a necessidades que derivam, por sua vez, da personalidade de cada um e das circunstâncias. Eles podem ser reprimidos (mas nós, é claro, vivemos numa época em que reprimir as coisas é caretice) ou podem ser vividos. Mas se tivermos que vivê-los, é melhor vivê-los de uma forma que seja respeitável. Se for possível o respeito da sociedade, ótimo. Mas se não for, o respeito próprio já está bom.

A religião cristã não é, porém, a única válvula de escape do transcendentalismo. É mais fácil tirar o homem de dentro da igreja do que tirar a igreja de dentro dele. Há maneiras seculares de sublimação que funcionam da mesma maneira. Porque o transcendental não é cristão. Ele é anterior ao cristianismo, anterior à própria religião. Séculos antes de os primeiros deuses serem imaginados, certamente o homem já tinha uma percepção de transcendentalidade.

Um usuário de drogas, por exemplo, muitas vezes, dirá que usa não porque gosta da onda mas porque a droga o relaxa, ajuda a meditar, abre as portas da mente ou simplesmente o separa dos “caretas”. Um leitor compulsivo poderá dizer que seu hábito de leitura não é uma mera fruição estética, mas uma forma de adquirir conhecimentos. Isto vale para atos “negativos” e “positivos”. Atribuir um significado transcendental aos seus atos não é uma justificativa moral perante a sociedade, mas uma forma de conectar-se a um “nível superior”, uma espécie de imanência que nos liberta da prisão do instante e nos conecta a algo “além”.

As pessoas não agem assim por acaso. Este é o famoso “ranço religioso” de que tanto falam nos círculos ateístas. Religião não é só o cristianismo e sua moral. A prostituição ritual nos templos da antiga Babilônia ou os sacrifícios humanos dos astecas eram tão sagrados e respeitosos quanto as irmãs de caridade com seus “trajes de voar” e seus himens intactos (supostamente). O ranço religioso não se manifesta na adesão a uma série de dogmas, mas em estar ainda preso a um modo de pensar que independe dos dogmas.

Isto me lembra como alguns aqui relatam que o sexo os “libertou”. São ateus, afirmam estar fora da esfera da religião. Mas mesmo assim procuram ressignificar as suas práticas sexuais. Dar-lhes uma roupagem racional, uma finalidade. Não. Não são adeptos do sexo promíscuo simplesmente porque resolveram trepar. Não. Seus atos têm uma motivação superior: são atos libertários, cheios de significado. São uma forma de revolucionar a sociedade, de reformar a si mesmos. Pensam exatamente como o jovem muçulmano fundamentalista que se mata em um atentado acreditando que seu ato está mudando o mundo. Eles precisam pensar desta forma para poderem levar a efeito o seu ato sem autopiedade, sem culpa e — acima de tudo — com a cara cheia do orgulho de estarem mudando o mundo “errado”.

Sinto muito, garotos. Vocês só trocaram de religião. É mais fácil tirar o homem de dentro da igreja, do que tirar a igreja de dentro do homem.

Vashti: A Feminista Original

A Rainha Vashti era uma mulher muito bonita, segundo reza o livro. Tinha de ser, pois os reis antigos eram bem exigentes quanto a isso. A história de sua desgraça exemplifica muito bem como as religiões abraâmicas veem as mulheres e quais são os valores sociais nos quais somos educados.


“Vashti recusa o chamado do rei” — pintura de Edwin Long (1829-1921)

Durante um banquete dado pelo rei aos seus sátrapas, ministros e funcionários — um banquete que já durava sete dias — o rei, alegre pelo vinho, pediu aos seus camareiros que trouxessem a rainha diante dos convivas, para que o rei lhes exibisse a sua beleza.

Há duas interpretações para a natureza do chamado que Assuero faz:

  1. Embora isto não seja dito diretamente no livro, está implícito que a rainha foi convocada para aparecer em trajes sumários, pois completamente vestida a sua figura já devia ser conhecida de todos, não fazendo sentido que o rei a mandasse chamar para isso. Outros indícios das intenções do rei se encontram nas observações, algo maliciosas, de que ele se encontraria “com o coração alegre pelo vinho” e de que os camareiros deviam trazer a rainha “vestindo sua coroa”. Mais à frente o texto bíblico enfatiza que a razão pela qual Assuero fez-lhe tal pedido era que Vashti era “bonita de se olhar”. As representações tradicionais da cena sempre colocam-na vestida de uma camisola—sugerindo que ela se encontraria no harém real. Esta sugestão fica mais forte quando consideramos que Vashti estava dando seu próprio banquete para suas amigas, parentes e visitantes, no momento em que foi chamada.
  2. Uma outra possível interpretação é de que realmente não haveria nenhuma nudez, mas que a simples aparição pública de Vashti seria inaceitável, pois nas culturas do mundo antigo era a norma que as mulheres ficassem protegidas da visão profana (em um harém, por exemplo). Neste contexto, a indecência não estaria nos trajes sumários da rainha, mas em trazê-la — sem véu — diante de um número indistinto de homens, nem todos de alta classe social, apenas para mostrar o quanto era bela. Temos um aspecto de sacrilégio envolvido, além da pura humilhação pessoal de Vashti.

As intenções de Assuero eram totalmente fúteis: exibir a mulher, como um bibelô, diante de uma multidão de homens bêbados. Vashti era, para Assuero, apenas algo bonito de se olhar, uma joia rara que ele devia mostrar aos seus convivas. A convocação de Vashti era uma humilhação, especialmente se considerarmos o papel sagrado que as rainhas ainda possuíam em certas culturas antigas, antes do predomínio do patriarcalismo que está expresso, por exemplo, no Livro de Ester. As circunstâncias do banquete de Assuero são uma afronta completa à dignidade de Vashti enquanto rainha, mulher e ser humano — e por isso não era mais do que natural que ela hesitasse em obedecer. A desobediência de Vashti pode ter três significados, dependendo de como a história for interpretada:

  1. Trata-se de uma manifestação ainda de autoridade, em desafio ao poder monocrático do rei. Neste contexto, a rainha reivindica para si algo da dignidade ancestral da mulher, em uma época e em uma cultura na qual o matriarcado ainda não estaria totalmente esquecido. Esta tese não faz muito sentido se tomarmos o contexto medo-persa, pois tais povos eram pastores e patriarcais há milênios. Mas faz sentido se ela fosse originária de uma cultura diferente.
  2. Trata-se de uma atitude coerente com o papel religioso que a rainha poderia ter, seja no culto oficial persa, seja no culto originário no qual Vashti se inscreveria, no caso de ser estrangeira.
  3. Pode ser uma recusa pessoal a ser exibida como um troféu no salão de banquetes do palácio. Esta interpretação, algo curiosamente, é a que a Bíblia tenta nos convencer a aceitar. De certa forma, é a que parece fazer, também, mais sentido.

Conclui-se isso porque os conselheiros reais argumentaram com Assuero que a recusa de Vashti era uma afronta não apenas ao monarca, mas a todos os homens do Império Persa, cujas mulheres começariam a desobedecer se soubessem que o próprio rei não tinha a obediência da rainha. Então, para evitar que tal coisa acontecesse, Assuero rejeita Vashti, recusando-se a recebê-la (ou seja, negando-lhe não apenas sexo, mas uma descendência) e tomando para si várias concubinas entre as donzelas do reino. Uma destas foi Ester, que justamente obteve seu status graças à sua estrita obediência a Assuero.

Mas antes de passarmos a falar de Ester, é preciso notar a total ausência de julgamento, na Bíblia, sobre a ética do rei em exibir sacrilegamente a beleza de sua esposa. Certamente naquela época a ICAR não havia inventando os “sete pecados capitais”, mas fica claro aí que o rei cometeu, no mínimo, o pecado da futilidade (que não é capital, mas deveria ser). Só que isso não interessa ao autor bíblico: quem teria de se haver com Deus por seus pecados seria o rei em pessoa: à mulher cabe obedecer até quando o marido lhe ordena que cometa um pecado (pois, logicamente, a mulher — eterna criança — não é nem responsável por seus atos perante Deus: é o marido que por ela responde).

Seja qual for a relevância que se atribua aos atos posteriores de Ester (salvar todo o povo judeu, por exemplo), é inegável que a mensagem que se passa é de que se você desobedece ao seu marido, será abandonada e ele escolherá outra mais jovem; mas se você o obedece, consegue influenciá-lo de forma que ele fará o que você deseja.

Tropa de Elite: A Mitificação como Arma de Guerra

Durante décadas o Brasil assistiu ao surgimento e ao crescimento do poder paralelo do tráfico no Rio de Janeiro, à sombra de um coquetel de incompetência, indiferença e conveniência. Causas que me esquivo de analisar a fundo, mas que os cariocas certamente entendem bem melhor do que eu, que olho de fora e com apenas solidariedade. A derrocada deste poder paraestatal que pareceu, em certo momento, triunfar sobre o Estado — sentimento magistralmente expresso pelo gaiato que certa vez declarou que «o crime organizado triunfa sobre o governo desorganizado» — deu-se no entanto, na esteira de um curioso fenômeno sociológico que quase ninguém ainda percebeu. Do que estou falando? Bem, «tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você».

Tudo começou quando o crime organizado rompeu o acordo tácito que sempre teve com a imprensa sensacionalista: «nós fazemos a notícia, vocês fazem o noticiário». A morte de Tim Lopes sinalizou que os líderes do narcoestado em gestação haviam começado a perceber na imprensa uma fonte de problemas, não mais uma aliada. Se antes os repórteres construíam as reputações de «malvadões» — de que tanto gostavam os jovens semianalfabetos e descalços que se alçavam ao poder propelidos pelo vício das classes superiores — agora ela passava a incomodar, à medida em que expunha os excessos a que os baronetes do tóxico haviam chegado, em sua ditadura sobre as vidas dos habitantes das localidades onde haviam se instalado. Tim Lopes morreu para mostrar que a favela não era um lugar pitoresco — ao contrário do que décadas de políticos conciliadores e ONGs escorregadias tentaram fazer ver.

Mais importante do que tudo: Tim Lopes era empregado de um Leviatã midiático bem musculoso, embora ferido, as Organizações Globo. Sua morte coincidiu com a derrocada definitiva da televisão aberta no Brasil, destinada desde já a transformar-se cada vez mais num monturo fétido de sobras. A Rede Globo de Televisão, cabeça deste império, precisava buscar outras frentes de expansão para precaver-se contra a iminente e inevitável decadência de suas receitas de publicidade oriundas deste veículo. Neste contexto, a exploração de novos mercados midiáticos já era uma realidade, mas faltava à Globo obter o impacto necessário para fincar bandeira.

Ao mesmo tempo, a política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro dava sinais de agonizar: nada parecia funcionar, nada parecia adiantar. Nesse cenário de desespero, em que todos pareciam desorientados, especialmente os pobres diabos que conviviam com loucos toxicômanos tarados armados de AR-15 na vizinhança, era absolutamente imperioso encontrar um herói. Melhor ainda se este herói, bem na tradição do herói brasileiro, não fosse um self-made man ou um cavaleiro solitário, mas um líder — algo de que tanto carece esse país.

Com a colaboração dos melhores cérebros que o dinheiro pode contratar, com atores globais em profusão, aproveitados da geladeira obrigatória por que passam para evitar desgaste de imagem, eis que surge «Tropa de Elite», o filme que transforma o antes pouco conhecido Batalhão de Operações Especiais da polícia fluminense em um fenômeno de mídia inusitado e inédito. «Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você». A mensagem é dirigida ao traficante, e tem a intenção de profecia: um dia a casa vai cair e vai ser o caveira que vai dizer «perdeu, playboy» para o traficante descalço e sem camisa, cuja prisão emblemática funciona quase como símbolo heráldico da luta de classes, como expressão caricatural da subjugação do povo pela elite, quando incomodada.

Criado o mito do BOPE como reserva incorruptível dos valores da «boa polícia» e fixada a imagem do Capitão Nascimento como verdadeiro super-herói brasileiro, a Rede Globo entregou, de bandeja, nas mãos de um dos poucos governadores competentes que o Rio de Janeiro já teve desde que me entendo por gente, um cartucho de legitimidade para as forças da ordem, uma potência que poderia ser usada para terraplenar o crime organizado sem necessidade de ser politicamente correto. O povo carioca queria sangue, estava cansado de dar o próprio sangue e exigia o sangue dos bandidos (mas urina nas calças também serviria).

Não é necessário entrar nos detalhes de cada ato ou de cada política que foi levada a efeito no Rio de Janeiro desde que o primeiro Tropa de Elite invadiu a cultura de massas com sua mensagem clara de que, para o carioca e para o brasileiro, já bastava, já havia bastado há muito tempo, já havia bastado há muito tempo mesmo, só faltava os políticos, esses eternos maridos traídos, finalmente conseguirem enxergar, antes que dessem com a verdade como quem dá com o nariz na parede. O plano para matar Brizola, que aparece nessa história, não é detalhe desimportante: ele significa que é necessário matar o legado do caudilho gaúcho que introduziu a política de tolerância com a favela.

Quando Tropa de Elite saiu, alguns articulistas ventilaram na imprensa que o filme tinha uma mensagem fascista. Possivelmente. Mas poucos articulistas ventilaram que o crime organizado que se estabelecia em pseudoestado impunha, também, um totalitarismo manco.

Por isso Tropa de Elite 2 foi além do livro e colocou o Capitão Nascimento, já grisalho, tentando executar, através da política, o que não pudera executar com um fuzil na mão. Mas o poder do crime subornava deputados, juízes e sabe deus quem mais. Com o sucesso ainda maior, do segundo filme, ficou bem claro que todos que ventilassem qualquer coisa contra a arremetida inevitável contra o crime só poderiam estar mancomunados. Todos precisavam aplaudir, mesmo que tivessem as mãos sujas de sangue e o nariz entupido de cocaína.

Então, quando enfim, com apoio de blindados e bazucas, de marinha e de exército e de aeronáutica, o BOPE subiu a favela deixando atrás de si as crianças (em sua inocência) cantando o poderoso refrão, não foi inesperado que os «machos» do crime mijassem nas calças. Imaginar que dois mil homens treinados para matar estão subindo o morro atrás de você e que cada vizinho ou conhecido, de oito a oitenta anos, está com o dedo pronto para apontar seu esconderijo deve ser uma das coisas mais desesperadoras que se possa conceber. Tanto assim que o líder do Afro-Reggae chegou a declarar à imprensa que muitos chefões do tráfico estariam dispostos a render-se, que sabiam que pegariam «cana longa», alguns sabiam que até seriam mortos, mas eles pediam apenas que não fossem humilhados. Os facínoras se renderiam, até se entregariam à morte, diante de apenas a promessa de uma réstia de dignidade. Nenhum queria terminar como o Zeu, descalço e seminu, com as calças molhadas da própria urina e um olhar perdido, endurecido de medo, levado morro abaixo por um PM grisalho que tinha idade para ser seu pai. Em algum momento aquele jovem deve ter pensado na figura do próprio progenitor, de cita à mão, pronto para marcar suas nádegas de rebelde.

E assim a Rede Globo inspirou, guiu e cobriu um episódio quase orwelliano. Em que pese a necessidade de se destruir o crime, de se pacificar a cidade, de se destronar a ditadura do tóxico; é também verdade que esta destruição foi mais em efígie do que em fato, que ela foi preparada como espetáculo politicamente correto e funciona como exemplo do poder que Rede Globo ainda tem, apesar do sonho fútil de grandeza a que a Record aspira apenas. A Globo mostrou que tem o poder de produzir mais do que bordões de novela: ela produziu um mito que funcionou como instrumento de um fato histórico. Algum dia os historiadores se referirão a este ano de 2010 como o ano no qual um império midiático, ofendido em sua honra pela ousadia de matarem um protegido seu, orquestrou fria e meticulosamente, um fenômeno de massas de grande envergadura que terminou em uma cobertura jornalística de um fato real (embora transcrito da ficção).

E ficou o bordão, como um mantra a ameaçar doravante os que ousarem tentar criar outro pseudoestado ou que se opuserem à clara hegemonia cultural de que se fala: «Tropa de Elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você.»

Porque os Religiosos Precisam de Hitler

Sempre me perguntei por que razão os religiosos precisam insistir em “acusar” Adolf Hitler de ateu. Parece haver uma profunda necessidade, em pelo menos boa parte dos apologistas cristãos, de afastar o “coisa-ruim” austríaco das fileiras do cristianismo e associá-lo, a todo custo, ao ateísmo em particular (não serve nem mesmo o paganismo, tem que ser ateísmo).

Os motivos disso são estranhos. Afinal, há ateus definitivamente tão “coisa-ruim” quanto o ditador nazista que poderiam ser usados para difamar a causa. A lista é longa: Mao Tse-Tung, Josef Stalin, Lênin, Pol Pot… Cada um deles protagonizou crimes tão ou mais hediondos (pelo menos proporcionalmente) do que Hitler. Sobre as costas de Mao pesam pelo menos 60 milhões de mortes em uma grande epidemia de fome causada por seu programa de reforma agrária súbita — sem falar nos que morreram durante a guerra civil e nos que mandou matar durante a Revolução Cultural. Stálin foi responsável por expurgos violentos de todo tipo de gente de que suspeitasse de algo menos que 100% de fidelidade — e também esteve envolvido em mortes de fome por equívocos de uma política agrária anti-científica (lysenkoísmo). Que dizer de Pol Pot, que matou 40% da população de seu país em nome de um socialismo puro?

Esses ditadores, porém, não são tão facilmente lembrados como “paradigmas do ateu comedor de criancinha”. Acredito que as razões disso passam por três níveis.

Em primeiro lugar, ele é um arquétipo do mal. Nenhum ditador na História foi tão odiado. Na URSS há quem fale bem de Stálin (e não poucos). Mas somente loucos falam bem de Hitler na Alemanha (mesmo porque é crime elogiar Adolfinho na terra do chucrute, mas é permitido elogiar Zezé na terra da vodca). Há um consenso cultural no sentido de que Hitler representa tudo aquilo que o Ocidente rejeitou: tirania política, terror estatal, racismo, massacre de minorias, imperialismo, entronização da pseudociência, etc.

Além disso, para coroar sua “gloria imorredoura”, era um homem de sexualidade dúbia; havendo relatos que variam entre impotência, doenças sexualmente transmissíveis e pelo menos a suspeita de um caso incestuoso (com sua prima). Há indícios fortes de que sua união com Eva Braun não teria sido jamais consumada e nunca ninguém afirmou ser seu filho ou filha (e todos sabem que ser filho de gente famosa dá ibope). Por fim, o austríaco ainda sofria de problemas mentais não identificados (opiniões variam entre epilepsia desenvolvida após ferimentos na cabeça recebidos na I Guerra, esquizofrenia paranoide, sociopatia e sequelas de sífilis). Como sabemos, os cristãos mais fanáticos acreditam que a homossexualidade é coisa do diabo, então é altamente importante que as pessoas que pertençam ao diabo sejam igualmente homossexuais ou, pelo menos, que sejam incapazes de gerar vida (pois infestar o mundo de crias é o que o fundamentalismo religioso acha mais importante).

Bicha (ou broxa), louco e assassino em uma escala inaudita. Eis o pacote completo do que deveria ser o “ateu exemplar” (os cristãos fundamentalistas, de forma geral, acham que todo ateu é um louco assassino em potencial e que também dá ré no quibe).

Hitler é a Geni da História: atribuem-lhe tudo de ruim. Fazem dele o parâmetro do intolerável. Usam seu nome como “abracadabra” para em debates simbolizar o anátema. É uma das poucas pessoas na História a ter nomeado uma falácia, o “Argumentum ad Hitlerum”, que consiste em inserir indevidamente em um debate uma comparação com o nazismo a fim de sugerir que determinada posição é “ruim”.

O segundo ponto é o raciocínio cristão segundo o qual a fé torna as pessoas melhores e (inversamente, como é lógico) a falta de fé as torna piores. Desta forma, “ser cristão” implica em tornar-se bom e “ser ateu” implica em tornar-se ruim. Se alguém se diz cristão e é “mau”, então não é verdadeiramente um cristão, mas alguém que apenas se diz cristão. Se alguém se diz ateu e é “bom”, então ou não é de fato ateu ou não é de fato bom. A implicação disso é que toda pessoa que cometa atos obviamente maus será acusada de “no fundo” ser ateísta. Isso vale até para líderes religiosos como Jim Jones.e o Bispo Edir Macedo (que é acusado por certos fundamentalistas de não ser verdadeiramente cristão devido às suas doutrinas controversas).

Nada disso é novo: há séculos e séculos os cristãos praticam a máxima de Jesus, segundo a qual “quem não está comigo está contra mim”. Seguem também rejeitando as maçãs podres de uma forma singular: em vez de apenas admitir que são maçãs podres, os fundamentalistas mais aguerridos querem nos convencer de que só apodreceram porque são, na verdade, abacaxis e que as verdadeiras maçãs não apodrecem. O raciocínio cristão julga os frutos pela árvore e não a árvore pelos frutos. Esquecem que Jesus disse que se Deus precisasse de “filhos de Abraão” poderia criá-los até a partir das pedras de Jerusalém.

A implicação óbvia deste raciocínio é que Hitler NÃO PODE, de forma alguma, ser cristão. Seria um desastre para a doutrina cristã fundamentalista se ele fosse cristão, ao mesmo tempo em que seria extremamente conveniente que fosse ateu — dessa combinação de fatores produz-se um milagre argumentativo “toma que o filho é teu” e começam a buscar por quaisquer meios “provar” que Hitler seria qualquer outra coisa, menos cristão — de preferência ateu.

As opiniões variam. Os cristãos mais toscos dirão que Hitler era ateu, mesmo ao custo de ignorar uma quantidade inumerável de fontes que mostram-no usando a religião em seu favor, punindo ateus, construindo igrejas, assinando acordos com o Vaticano, tentando estabelecer uma religião de Estado, etc. Os mais moderados e educados dirão que ele seguia uma forma peculiar de “paganismo nórdico” ou de “cristianismo herético”. Em essência ambas as posições estão incorretas tecnicamente, mas a segunda ainda tem o benefício da dúvida porque é possível interpretar a doutrina religiosa do Reich como uma heresia cristã.

O terceiro ponto é que, por corolário do “Ad Hitlerum”, todas as coisas relacionadas a Hitler são imediatamente julgadas como ateístas e más. Mesmo uma besta como Hitler, no entanto, teve a competência de não passar pelo mundo sem cometer alguns acertos. Mas a lógica maniqueista do cristianismo fundamentalista julga os frutos pela árvore, e não a árvore pelos frutos. Em vez de admitir pontos positivos no governo de Hitler (houve alguns) eles preferem condenar em bloco tudo que ele fez e classificar como “nazista” qualquer política que coincida com algo que Hitler fez em vida.

Mesmo esse argumento, porém, é usado de forma deliberadamente desonesta (não existem cristãos fundamentalistas honestos, ao que parece). Digo isso porque os fundamentalistas condenam como “nazistas” campanhas antitabagistas, defesa do meio ambiente, controle de armas civis, polícia de quarteirão, leis escritas etc. mas não estendem o mesmo opróbrio à política natalista do Reich ou sua aversão ao aborto e à anticoncepção (uma vez mais: o cristão fundamentalista parece achar a procriação sem limites um supremo ato de piedade).