Porque os EUA Precisavam Neutralizar a Coreia do Norte

Ao contrário da maioria, e à semelhança de Nélson Rodrigues, eu tenho uma certa aversão à unanimidade. Não porque ela seja burra, mas porque enquanto todos estão concordando, não sobra tempo para se analisar o lado oposto, o que significa que, se a unanimidade estiver errada, e ela pode estar, não há ninguém preparando um plano B. É muito importante duvidar, mesmo daquilo que parece certo. Duvidar não é descartar, duvidar é especular alternativas, é tentar chegar mais perto da verdade mesmo quando todos insistem que já estamos o mais perto possível. Só que não existe um horizonte de eventos para verdade, e geralmente as unanimidades são construídas através do efeito de manada.

Este post é ilustrado por uma foto do “Bosque dos Heróis”, um monumento em Windhoek, na Namíbia. Este é um dos vários monumentos comemorativos construídos pelo mundo por uma empresa chamada Mansudae Overseas Projects, da Coreia do Norte. Somente em 2011 esta empresa, apesar do bloqueio econômico a que o país de brinquedo de Kim Jong-Un está submetido, trouxe mais de US$ 160 milhões em divisas para Pyongyang. A MOP é uma das mais de cem empresas criadas pelo governo da Coreia do Norte nos últimos dez anos em vários ramos da indústria pesada (construção civil, aço) e leve (componentes eletrônicos, plástico, processamento de pesca, etc.). Será que isso parece com um país morto de fome a ponto de seus habitantes estarem supostamente comendo uns aos outros?

Quando você terminar de ler este artigo, eu espero ter conseguido abrir seus olhos para muita coisa que não vem à tona do debate sobre a Disneylândia dos comunistas.

A primeira destas coisas é o estado real da economia norte coreana. A julgar pelas notícias veiculadas pela imprensa alinhada com os interesses americanos, a Coreia do Norte vive desde 1992 em um estágio pré falimentar, caracterizado pela fome generalizada, a obsolescência de toda a infraestrutura e a corrupção desenfreada do governo. Em suma, um país tão pronto para se liquefazer amanhã quanto Jesus está pronto para voltar.

Mas um país em tal estado não conseguiria dar mostras de vigor industrial e econômico, não conseguiria retomar e terminar a construção do mais famoso prédio inacabado do mundo. Não conseguiria fazer três testes nucleares e vários lançamentos de foguetes em um curto espaço tempo.

É verdade que esses triunfos devem estar sendo conseguidos à custa do sofrimento do povo, mas não há muito leite para se ordenhar em uma pedra: se o país não estivesse recuperado da crise de meados da década de 1990, não haveria nada para roubar do povo e destinar à megalomania de seu governo. É preciso ter a cabeça firmemente enterrada na areia para conseguir acreditar que um país que só piora economicamente teria capacidade para criar novas indústrias, desenvolver tecnologia bélica e começar a prestar consultoria a outros países. Sim, a Coreia do Norte presta consultoria em engenharia e administração de sistemas. Só não tem mais fregueses por causa do embargo, e do fato de que não há muito mercado para computadores em coreano.

Então fica evidente que o discurso da Coreia combalida deve ser só uma mentira a mais contada pelos americanos para criar empatia na comunidade internacional, assim as pessoas ficam com peninha dos coreanos mortinhos de fome e apoiam que sejam bombardeados de volta à Idade da Pedra, como no Iraque.

A verdade deve ser que os americanos receiam que esse relativo ressurgimento da Coreia do Norte vai dar fôlego  aos tiranetes de lá para continuarem brincando por mais algumas décadas, especialmente depois que a transição de poder do descabelado para o gorduchinho parece ter se consolidado, ao contrário do que esperavam os analistas ianques.

A segunda coisa parte justamente desta transição: parece haver consenso de que o novo tiranete consegue ser mais ridículo que seu pai (que já fora ridículo a ponto de sequestrar um diretor de cinema e forçá-lo para fazer uma paródia socialista de Godzilla, pentear o cabelo para cima para parecer mais alto e mandar construir pelo país auto-estradas de oito pistas em cada direção, que ficam vazias quase todo o tempo). Ora, se um óbvio idiota conseguiu ficar no poder de uma ditadura cruel, isso deve significar que ele não tem poder nenhum, deve ser só um fantoche, uma face humana do jogo de poder dos bastidores, um Grande Irmão vivo. Vocês já devem ter reparado que ele está quase sempre acompanhado de alguns generais com quepes altos e dólmãs tão condecorados que é preciso usar a calça para exibir o resto das insígnias. Se isto for verdade, não adianta esperar pela morte dele, não adianta nem matar ele. Sempre haverá um outro rosto para pôr no lugar e o regime ficará de pé.

Então, as tentativas americanas de agredir a Coréia do Norte revelam o desespero de quem já percebeu que não adianta esperar pela combustão espontânea do regime de Pionguiangue. A Coréia do Norte está aí para ficar, incomodando os Estados Unidos durante ainda algumas décadas. E agora que o Irã e a Síria caíram debaixo da asa amiga da Rússia, o mundo está começando a ficar salpicado de lugares onde Tio Sam não põe o pé. Uma nova cortina de ferro está se formando devagarinho.

O Manifesto-Pirraça da Direita Infantil

Ao acessar o Facebook na data de ontem, fui surpreendido por mais uma prova de que certos seguidores da nossa direita parecem comer capim (isso se não comem cocô mesmo). Trata-se de um texto tão inacreditável e tão tosco que eu ainda prefiro acreditar que é uma gozação que alguém escreveu para ridicularizar o pensamento direitista nacional. E se não for isso, por favor, não me contem. Comentarei o tal texto, mas partindo do pressuposto de que ele é uma trollagem.

O texto saiu no blog da UFSCON e logo a seguir foi reproduzido em outros focos virtuais de pensamento reacionário, como o “Direitas Já”. Se a aparente seriedade do blogue de onde saiu não bastasse para atestar que o texto foi escrito a sério, a republicação depõe seriamente contra a inteligência dos responsáveis pelas páginas que o repetiram.

O “Manifesto” é de João Victor Gasparino Silva, do curso de Relações Internacionais na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina, e contém um protesto contra a solicitação de um trabalho de pesquisa sobre Karl Marx, feita por um professor.

Direitista empedernido, o aluno se recusa a sequer tomar conhecimento da existência do marxismo e rejeita a pesquisa pedida. No manifesto, procura justificar porque não fez o trabalho.

São tantas as coisas erradas na atitude em si que é quase supérflua a análise do texto. A recusa em estudar um pensamento diverso do próprio já é motivo mais do que suficiente para classificar o aluno como obscurantista e intolerante. Mas tal impressão poderia ser evitada se o texto contivesse embasamento teórico e desenvolvesse uma argumentação sólida, em vez de uma reclamação imatura.

A análise é útil, porém, para compreender como funciona a propagação de uma ideologia de extrema direita em nosso país. Segue a transcrição comentada do “Manifesto”:

Como o senhor deve saber, eu repudio o filósofo Karl Marx e tudo o que ele representa e representou na história da humanidade, sendo um profundo exercício de resistência estomacal falar ou ouvir sobre ele por mais de meia hora.

Infelizmente para o enjoado reacinha, Karl Marx teve um papel fundamental no desenvolvimento da ciência econômica, das ideologias polí­ticas, das lutas sociais e da metodologia histórica. Mesmo que rejeitemos por alguma razão a validade de seu trabalho, é impossível ignorar o impacto que ele teve sobre a História contemporânea. Por isso, o nosso reacinha enjoado que trate de tomar um Engov e aprender tudo.

Os personagens históricos não deixam de ser importantes só porque nós não gostamos deles. A atitude do nosso reacinha é a de um menino pirracento que sempre teve satisfeitas todas as suas vontades e agora se sente no direito de decidir o que é ou não importante no currículo da própria faculdade onde estuda. Trata-se de um ato infantilidade tão gigantesca que os direitistas não imbecis (temos agora a oportunidade para saber quão poucos são) devem estar sentindo vergonha alheia pelo rapaz, que passou tremendo recibo de imaturidade. Se algum dia alguém mereceu ser qualificado de “moleque de apartamento, criado a leite de pera e ovomaltino” esse cara é o autor do texto.

Aproveito através deste trabalho, não para seguir as questões que o senhor estipulou para a turma, mas para expor de forma livre minha crítica ao marxismo, e suas ramificações e influências mundo afora.

A proposta até que é interessante. Uma crítica ao marxismo, se fundamentada, certamente mereceria uma boa nota, pois, para poder fazê-la, o aluno teria de estudar a obra de Marx e demonstrar que compreendeu-a tanto que conseguiu refutá-la.

Quero começar falando sobre a pressão psicológica que é, para uma pessoa defensora dos ideais liberais e democráticos, ter que falar sobre o teórico em questão de uma forma imparcial, sem fazer justiça com as próprias palavras.

O pirralho que nunca ouviu um “não” e sempre o papai lhe comprou tudo o que quis acha que é “pressão psicológica” ter de falar imparcialmente sobre um autor de que discorda. Que grande tragédia forçar um pobre coxinha a estudar uma ideologia de esquerda, isso deve ser pior que uma noite no pau de arara!

Infelizmente, por toda a vida, deparamo-nos com ideias ou pessoas de que discordamos. Não podemos fechar os olhos para essa realidade, não temos o poder de escolher o que queremos saber e estudar. Estudamos e aprendemos aquilo que é “necessário”.

Observem, ao final da citação acima, como o aluno se sente frustrado por não poder “fazer justiça com as próprias palavras”. Acredito que, se Marx já não estivesse morto há mais de 150 anos, o cara bem gostaria de matá-lo, e fazer justiça com as próprias mãos, ou pelo menos de xingá-lo, vilipendiá-lo, fazendo justiça com palavras. A impossibilidade do linchamento (literal ou verbal) de Karl Marx é a causa da “pressão psicológica” vivida pelo aluno reacinha.

Me é uma pressão terrível, escrever sobre Marx e sua ideologia nefasta, enquanto em nosso país o marxismo cultural, de Antonio Gramsci, encontra seu estágio mais avançado no mundo ocidental, vendo a cada dia, um governo comunista e autoritário rasgar a Constituição e destruir a democracia, sendo que foram estes os meios que chegaram ao poder, e até hoje se declararem como defensores supremos dos mesmos ideais, no Brasil.

A típica paranoia apocalíptica e hiperbólica do extremista de direita coxinha. Qualificar o nosso governo atual de comunista é prova de uma ignorância tão grande que somente esta frase já justificaria a reprovação do aluno. Afinal, ele não só desconhece o que é “comunismo” mas também não consegue uma análise coerente da situação política que tem diante de si.

Outros reflexos disso, a criminalidade descontrolada, a epidemia das drogas cujo consumo só cresce (São aliados das FARCs), a crise de valores morais, destruição do belo como alicerce da arte (funk e outras coisas), desrespeito aos mais velhos, etc. Tudo isso sintomas da revolução gramscista em curso no Brasil.

Aqui vemos um salto lógico (ou melhor, ilógico) de amplitude absurda. Se o trabalho era sobre a obra de Marx, por que o reacinha saltou tão rapidamente para o governo brasileiro atual, que de marxista só mantém uma leve tintura? Trazer o governo atual para um debate sobre a obra de Marx é uma apelação sem sentido, uma fuga ao tema.

Mas pelo menos esta fuga nos permite boas gargalhadas, ao percebermos que o idiota que escreveu este texto fantasia que o governo atual é o culpado por todas as mazelas que afligem nosso país. Da maneira como fala, fica parecendo até que não havia crime no Brasil antes de Lula, que o consumo de drogas era minúsculo, que o PT inventou o funk, que toda vez que alguém bate num velhinho é porque era petista, “coisas assim”. É verdade que os governos petistas desde 2002 não conseguiram resolver muitos de nossos problemas, mas atribuir-lhes culpa por tais problemas é algo que só se explica por muita ignorância ou pela deliberação de mentir.

A revolução leninista está para o estupro, assim como a gramscista está para a sedução, ou seja, se no passado o comunismo chegou ao poder através de uma revolução armada, hoje ele buscar chegar por dentro da sociedade, moldando os cidadãos para pensarem como socialistas, e assim tomar o poder.

À parte o fato de que nunca houve uma tomada de poder por meio de tal estratégia “gramscista”, o próprio conceito parece absurdo (e é), uma vez que seriam necessárias várias gerações para o pensamento revolucionário chegar a uma massa crítica. Ainda mais considerando a incrível eficiência de nossas escolas. Uma estratégia de tão longo prazo é tão ineficaz que os membros de qualquer grupo ou partido que a estivesse implementando estariam mortos ou muito velhos quando (e se) ela chegasse a ser bem sucedida. Esta estratégia assume, então, ares meio sobrenaturais, um quê de conspiração milenar, um jeitão meio óbvio de delírio das minhocas da cabeça de quem não sabe o que diz.

Fazem isso através da educação, o velho e ‘’bom’’ Paulo Freire, que chamam de “educação libertadora” ou “pedagogia do oprimido”, aplicando ao ensino, desde o infantil, a questão da luta de classes, sendo assim os brasileiros sofrem lavagem cerebral marxista desde os primeiros anos de vida.

Então os alunos do prézinho estudam a luta de classes. Os alunos das escolas estaduais paulistas (onde não se ensina mais História) também estudam luta de classes. Os alunos dos colégios religiosos idem. Pois todos são comunistas. Até a Igreja Católica é comunista.

Em nosso país, os meios culturais, acadêmicos, midiáticos e artísticos são monopolizados pela esquerda a [sic] meio século, na universidade é quase uma luta pela sobrevivência ser de direita.

Os jornais são de esquerda. A Globo é de esquerda. É tudo esquerda. Só temos jornais e emissoras de rádio e TV esquerdistas desde o golpe militar de 1964. Os generais derrubaram Jango e depois deram todos os canais de rádio e TV para os esquerdistas! Esse cara é um maluco.

Quanto à luta pela sobrevivência que ele enfrenta na faculdade, pouco se pode dizer, a não ser que realmente é uma inglória guerra a que se trava contra o conhecimento. Se o seu direitismo é baseado; como viu-se até agora; em ignorância, teimosia e preconceitos; realmente deve ser muito difícil protegê-los dos contínuos ataques da razão e do conhecimento. Em um ambiente um pouco mais “liberal” (um beco escuro à noite, por exemplo), talvez os nossos reacinhas virassem o jogo e eliminassem essa ameaça na base de muita porrada.

Agora gostaria de falar sobre as consequências físicas da ideologia marxista no mundo, as nações que sofreram sob regimes comunistas, todos eles genocidas, que apenas trouxeram miséria e morte para os > seus povos. O professor já sabe do ocorrido em países como URSS, China, Coréia do Norte, Romênia e Cuba, dentre outros, mas gostaria de falar sobre um caso específico, o Camboja, que tive o prazer de visitar em 2010.

À parte a simplificação grosseira (somente trouxeram miséria e morte) dos resultados das revoluções socialistas, o parágrafo é de uma empáfia raríssima. O aluno se mete a lecionar para o professor! E o pior, ainda pior, é que a lição provavelmente está fora do tema do trabalho encomendado (aparentemente, o “marxismo”).

Segue-se um relato bastante factual dos acontecimentos do Camboja nos anos 1970, governo do Khmer Vermelho. Só que este relato, além de ser um parêntese no raciocínio que o autor tentava (em vão) desenvolver, não está relacionado diretamente com o tema e resvala, perigosamente, no apelo emocional, como neste trecho:

Os castigos e formas de extermínio, mais uma vez preciso de uma resistência estomacal, incluíam lançar bebês recém-nascidos para o alto, e apanhá-los no ar, utilizando a baioneta do rifle, sim, isso mesmo, a baioneta contra um recém-nascido indefeso.

Por mais horrível que tenha sido o regime do Khmer Vermelho (e deve ter sido mesmo, pois ele causou uma diminuição de quase um quarto da população do país), essas atrocidades não afetam o valor da obra de Karl Marx nem minimamente, pois este nunca mandou, por exemplo, que soldados espetassem bebês em baionetas. Atribuir a Karl Marx a culpa pelos erros e crimes de regimes que se inspiraram nele, é atribuir à Bíblia a culpa por pregadores malucos, como Jim Jones e David Koresh.

Bem, com isto, acho que meu manifesto é suficiente, para expor meu repúdio ao simples citar de Marx e tudo o que ele representa.

Não obstante seu repúdio, a relevância de Marx continua a mesma, e se você quiser obter a nota terá de apresentar outro trabalho.

Diante de um mundo, e particularmente o Brasil, em que comunistas são ovacionados como os verdadeiros defensores dos pobres e da liberdade, me sinto obrigado a me manifestar dessa maneira, pois ele está aí ainda, assombrando este mundo sofrido.

O aluno poderia pelo menos ter se perguntado por que o comunismo conserva esta reputação, apesar de seus erros. Poderia ter obtido algumas respostas interessantes. Mas preferiu manter distância do tema, o que fez o seu texto ser raso, parecendo ser mais uma desculpa para não ter entregue o trabalho dentro do prazo.

Em seguida o aluno cita um suposto “decálogo de Lênin” que não existe (pelo menos não como um texto determinado). Mais uma vez ele se posta como professor, revelando uma mentalidade predeterminada, e mais uma vez o faz para difundir uma informação incorreta.

Depois da difusão inicial pelos canais alternativos, na internet, o texto chegou à grande mídia, sendo replicado pelo blogueiro Rodrigo Constantino, que escreve na Veja. Rodrigo, no entanto, possui um grau suficiente de honestidade intelectual e admite que o texto fica longe de ser mítico como a direita o julgou. Especificamente, Constantino admite o emprego de uma informação falsa, justamente o “decálogo de Lênin”:

O decálogo de Lênin, ainda que soe verdadeiro para quem conhece o leninismo, é falso até onde sei. O que não tira o mérito do manifesto.

Se o Constantino não estivesse tão interessado com a descoberta de um raro exemplo de texto direitista articulado que não resvala no neonazismo ou na escrotice pura e simples, poderia ter admitido outras das muitas falhas do texto, como emprego de evidência anedótica (quando o autor usa a viagem ao Camboja como “fonte”) e o fato de que o uso do “decálogo” (que é citado integralmente) tira, sim, o mérito do manifesto. Se os dados são viciados, o resultado é viciado. Boa parte das acusações feitas pelo autor ao marxismo podem derivar de textos, como o “decálogo”, que difundem desinformação. Então, o emprego de fontes tais sugere que a revolta do autor é causada pela sua seleção de textos inconfiáveis. Donde podemos concluir que o ferrenho antimarxismo exibido pelo autor se enraíza em informações distorcidas, contidas em textos apócrifos como o “decálogo”. E podemos concluir, então, que se o autor não sabe selecionar uma fonte legítima, um documento real, de uma fonte forjada, ele não tem nenhum comando da metodologia, e isso é uma bala de prata contra seu argumento: por isso eu disse desde lá no início que o “manifesto” depõe contra quem o escreveu.

Sim, contra quem o escreveu. A julgar por esse texto que divulgou, o Sr. João Victor Gasparino Silva não domina o discurso acadêmico com a proficiência necessária, não sabe diferenciar documentos legítimos de outros forjados, expressa opiniões engajadas que acompanham sua incapacidade de diferenciar entre a realidade e a invenção dos adversários do marxismo. Em vez de prestar um grande serviço à direita, este texto mostra um direitismo imaturo, pirracento, ignorante e, o que se mostra ainda mais surpreendente, oposto à hierarquia e sem respeito formal pelos ritos acadêmicos.

A Classe Média Aprendeu a Matar

O recente latrocínio cometido com requintes de crueldade contra uma dentista em São Paulo, com a vítima sendo queimada viva porque tinha somente R$ 30,00 em sua conta bancária, vem suscitando muito questionamento sobre os motivos do crime. Existe uma corrente sociológica, muito significativa no lado esquerdo do espectro político, segundo a qual o crime é uma reação dos excluídos a uma situação opressiva de miséria. Enquanto isso, no lado direito, a violência é vista como uma falha de caráter, um pecado cometido em plena consciência, por alguém dotado de pleno livre arbítrio. A solução proposta pelos primeiros é intensificar a redistribuição de renda, a dos segundos é prender e punir (coisas diferentes no jargão direitista, que vê a cadeia como uma espécie de colônia de férias).

Acredito que ambos os lados estão errados, embora não completamente. A verdade, como sempre, é complexa, fica no meio. Não é correto dizer que a causa da violência é exclusivamente a miséria econômica, ou teríamos mais crimes em países mais pobres (como a Índia e a Bolívia) e não é correto dizer que o criminoso faz uso de seu livre arbítrio, ignorando os condicionamentos a que somos submetidos.

Bem, eu li em algum lugar, talvez dentro de minha própria mente falha e pervertida, que a verdadeira causa do crime é a eterna insatisfação do ser humano, resultante de sua desconexão com os valores da família/tribo/coletividade/etc. em uma situação de injustiça.


Funcionaria assim: vivemos em uma sociedade que nos julga pelo que temos, não pelo que somos, e ao mesmo tempo não nos oferece oportunidades iguais de adquirirmos aquilo que a sociedade valoriza. Então, sabemos que “ficaremos doces” se tivermos um Camaro amarelo, mas esse só está acessível a uns poucos. Aos demais sobra o ressentimento de, por exemplo, ver as garotas bonitas dando para caras ricos (ou filhinhos de papai rico) enquanto eles chupam o dedo. Mas a falta de acesso ao Camaro amarelo não é, ao contrário dos estúpidos libertários acham, resultado da discrepância do esforço individual.

Em primeiro lugar, porque a construção de uma fortuna costuma ser um processo que dura gerações: os Rotschild, por exemplo, não se tornaram o que se tornaram em cinco ou dez anos de “trabalho duro”. Essa acumulação rápida só acontece quando alguém tem muita sorte de estar no lugar certo e na hora certa (o que é necessariamente raro). Se a acumulação é um processo que dura gerações, a “culpa” dos pobres por sua miséria acaba sendo uma espécie de “carma” e o discurso moral do esforço pessoal se desfaz no ar.

Em segundo lugar, porque, ainda que originalmente todos estivessem no mesmo nível social e possuidores das mesmas oportunidades, as discrepâncias surgidas ao longo das gerações colocariam em diferentes patamares de oportunidade os descendentes das gerações anteriores. E então, essas diferenças pré-existentes criariam uma situação injusta que permitiria que idiotas preguiçosos nascidos em famílias ricas gozassem de um padrão de vida muito superior ao de espertos trabalhadores nascidos em famílias pobres, simplesmente porque o pai do primeiro fora esperto e o do segundo, não.

Esse caráter cármico da miséria é o que torna o discurso libertário do esforço individual uma crença irracional, essencialmente irracional, a ponto de ser religiosa fundamentalista (fundamentalista em relação à crença na perfeição do “mercado”, esta entidade abstrata que é mais importante que pessoas, na visão libertária).

Porém, em um mundo reverso, no qual as pessoas fossem julgadas pelo que são, e não pelo que têm, ainda existiria injustiça equivalente. Porque pessoas trabalhadoras e competentes, que se esforçaram para ganhar muito dinheiro, ainda seriam vistas de forma inferior a outras que tivessem talentos, beleza, ou outras coisas que não podem exatamente ser ganhadas. E esta desigualdade inerente seria ainda pior do que a existente em nossa sociedade do “ter em vez de ser” porque aquilo que somos é algo muitas vezes inato, ou fruto de processos longos, sobre os quais não temos nenhum controle. Como explicar para um garoto que ele é tido como socialmente inferior por ser menos bonito ou menos inteligente? Na minha opinião, não há diferença entre essa explicação e alguma outra, segundo a qual a inferioridade resultaria da etnia ou  da orientação sexual. Ambos os extremos são errados. Nem o ter e nem o ser deveriam determinar parâmetros para a injustiça. Como diziam os romanos, a virtude está no meio.

Há que se dizer, também, que a carência é algo relativo: alguns carecem de pão, outros de colares de diamantes. Alguns se sentem o máximo por comerem num restaurante junto com a classe média, outros invejam o Rolls-Royce do vizinho mesmo tendo um Camaro amarelo na própria garagem. A insatisfação não é racional. Por isso o crime não está restrito aos pobres, que “invejam” aos ricos e por isso votam em candidatos “comunistas” que os expropriarão (outra boçalidade libertária), mas se propaga por toda a sociedade, mudando apenas o tipo de crime. Certamente uma pessoa inculta tenderá a compensar suas carências de forma violenta, cometendo um latrocínio, enquanto outra mais culta as compensará de forma não violenta, cometendo uma fraude. Mas a imprensa só enxerga sangue, não enxerga sangrias contábeis. Por isso hediondo é o estupro da patricinha pelo menino do morro, mas o desvio por um político ou empresário de milhões de reais que seriam destinados à habitação popular é tratado como um pecadilho.

Existe um problema, também, com os sistemas de correção desta injustiça, quando eles absolutizam um lado. Como a injustiça é inerente a qualquer sistema fundamentalista (de mercado ou de valores) e o equilíbrio do "meio" é difícil, o resultante é que todas as sociedades serão injustas em certa medida, e o que manterá a paz da sociedade será uma ideologia que ensine as pessoas a se conformarem com as diferenças. Para que isso funcione é preciso que as diferenças não sejam grandes demais (para que as pessoas consigam desconsiderá-las como exceções ou mesmo nem enxergá-las) e que as ideologias sejam razoavelmente igualitárias (seja no lado social democrata, seja no lado cristão ou budista ou sei lá o que). É preciso também que exista uma forma de controle da própria sociedade sobre si, através das instituições espontâneas, como a família, os amigos, os clubes, os grupos etc. Instituições que dependem de um nível de interrelacionamento entre as pessoas que parece impossível no mundo superpopuloso e egoísta em que vivemos.

Então, a causa da violência é complexa, mas evidente. Temos pessoas frustradas por suas carências (absolutas ou relativas), vivendo em um mundo no qual não têm de prestar contas a ninguém e, por isso, acham que podem fazer tudo impunemente. Isso é explosivo porque elas tentarão suprir suas carências, materiais ou afetivas, rompendo as regras do convívio social. Isso funciona em todas as sociedades, variando apenas a frequência. O garoto que estupra a patricinha está, muitas vezes, se rebelando contra  a falta de oportunidades reprodutivas que a sociedade lhe oferece: evolutivamente falando, é melhor engravidá-la hoje do que trabalhar uma vida para, talvez, tentar fazer isso depois de velho. O instintos humanos não conhecem o conceito de futuro.

Se quisermos reduzir a violência, precisamos reduzir a pressão sobre o indivíduo, mantida pela desigualdade (mesmo que uma desigualdade fútil entre marcas de carro), aumentar a coesão social e diminuir a sensação de liberdade individual que existe nas grandes metrópoles. Precisamos de uma ideologia que pregue a harmonia e a solidariedade entre os indivíduos, e não o direito dos vencedores a obterem supremacia sobre os vencidos. Precisamos diminuir a escala das instâncias de poder, fazendo a sociedade funcionar a partir da base, e não a partir de cima. Eleger os líderes comunitários antes de elegermos o prefeito. Substituir a partidarização em larga escala, que reduz as ideologias a marcas de sabão, pela organização das pessoas em seus locais de trabalho, em suas ruas, em suas famílias, em suas escolas. Dirão que proponho uma “sovietização”. Não tenho medo da palavra. A ideia essencial era boa, não se pode culpar uma ideia por ter sido mal interpretada ou mal implementada.

Direito de Escolha e Direito de Resistir

A ideologia da direita ensina que, diante de qualquer coisa errada,  devemos nos omitir ou então adotar uma saída individual. Um caso clássico é a programação da televisão: se acha ruim, troque de canal, mas não proteste, nem processe e nem tente enquadrar na lei. O povo nunca pode organizar-se para nada, pois isso seria “coletivismo”, “corporativismo”, “comunismo”. Anátema, enfim.

Acontece que a liberdade de escolha é uma ilusão, quando a escolha só pode se dar entre alternativas predeterminadas. Se eu só tenho dois ou três canais de televisão, eu não tenho escolha. Se eu só tenho quatro ou cinco marcas de carro, eu não tenho escolha. Escolha existe numa biblioteca, entre milhares de títulos. Não no supermercado, entre sete ou oito marcas, muitas vezes fabricadas por empresas relacionadas ou unidas em cartéis e oligopólios.

Muito mais importante que a liberdade de escolher é a liberdade de organizar-se para resistir às imposições do sistema. A resistência não tem por objetivo aumentar as opções, mas evitar que as opções existentes sejam abusivas. Não se trata de criar mais canais de televisão, todos reproduzindo o mesmo modelo de programação apelativa e emburrecedora, mas de impedir que a televisão abuse de sua liberdade de expressão para suprimir a verdade jornalística ou oferecer uma programação que não contribui para a cultura nacional. Você não é livre para escolher a quem servir, é livre quando não serve. Você não é livre para optar entre mentiras, é livre quando pode buscar a verdade.

Esse tipo de reação coletiva tem sido muito demonizado pelo ultra-liberalismo, a ponto de as pessoas começarem a aceitar a ideia de que são livres porque vivemos numa democracia representativa e podemos votar em quem quisermos. Ninguém percebe o jogo de cartas marcadas entre os partidos e a limitação das alternativas possíveis.

Se existem monopólios, duopólios e oligopólios econômicos; por que não existiriam na política também. Um sistema bipartidário, ou mesmo multipartidário, não é essencialmente diferente de um unipartidarismo a menos que funcione de forma diferente. Se os partidos estão mancomunados em torno de objetivos comuns e só divergem cosmeticamente para fins de propaganda, então funcionam como facções internas de um partido único. E se consideramos democrático um tal sistema, no qual os partidos tendem a um discurso único, temos de considerar democrático um sistema de partido único também. A conclusão é que a democracia não está na quantidade de partidos, mas na pluralidade de discursos e na praticabilidade de mudanças reais através do voto.

A essência desta praticabilidade depende, também, da liberdade do povo em organizar novos partidos se rejeitar o(s) existente(s). E essa liberdade só é materializada mesmo se esses partidos novos puderem disputar com os antigos de uma forma factível. Criar um partido e nunca conseguir acesso à urna, por exemplo, como é comum acontecer nos EUA, não é criar um partido. O partido só fica criado quando o povo toma conhecimento dele.

Em regimes bipartidários baseados em voto distrital (“first past the post”), como os EUA e a Grã Bretanha, é extremamente improvável que um novo partido consiga adquirir relevância porque em cada distrito somente o primeiro colocado obtém vagas. Isto gera distorções, muitas vezes o partido terceiro colocado em votos populares nem consegue eleger deputados, suprimindo um discurso que foi aceito por dez, vinte ou até trinta por cento do eleitorado.

Não é à toa que a direita lançou essa campanha pelo voto distrital, porque através dele é possível bloquear o surgimento de novos partidos e impedir discursos alternativos. Então, tecnicamente, tanto faz um partido único (como em Cuba) ou dois partidos protegidos contra novos entrantes (como nos EUA). O que importa é haver um bloqueio da representação popular. A democracia não está em números, mas na prática.

A Crítica Anarcocapitalista ao Estado

A posição anarcocapitalista é de uma inépcia total. Porque parte do princípio de que o mundo é simples (ele sempre é, se você deixa de lado os fatores que o complicam) e que, portanto, seria possível existir um Estado simples para administrá-lo. Veja bem que eu não estou desconsiderando totalmente, como inepta, a posição minarquista: apenas acho que um Estado simples deve, também, ser pequeno. Mas se for pequeno, só poderá ser pequeno se todos os demais também o forem. E mesmo que todos sejam, eventualmente alguns se aliarão, para usufruir da vantagem real de serem maiores unidos. Então a existência de Estados grandes é uma realidade dada, com a qual temos que nos conformar — tanto quanto o capitalismo o é. Quaisquer alternativas propostas são utópicas.


Veja bem, você diz que o Estado somente deve garantir a segurança de uma pessoa contra as outras na questão da força bruta. Isto, claro, parte do princípio de que o Estado foi criado para proteger os cidadãos — o que é uma compreensão errada da História herdada de Thomas Hobbes (estou educado hoje, pode me chamar de miguxo). O Estado não surgiu para proteger os indivíduos uns dos outros. Ele é uma extensão da tribo (ou clã), que é uma extensão da família. A família (no sentido estendido e originalmente poligâmico) surge para proteger as crias (e em certa medida os seus membros adultos) contra os predadores e contra outras famílias. Você vê isso funcionando ainda entre os macacos antropóides. O clã (grupo de famílias) e a tribo (grupo de clãs) surgem para proteger as famílias contra outras famílias (você não vê mais isso entre humanos, só lê em livros de História, e os macacos ainda não chegaram a esse ponto). Não existe aí uma preocupação com o indivíduo, mas com a sobrevivência coletiva. A individualidade é uma invenção relativamente recente na História.

Quando você tem clãs e tribos, as famílias passam a alimentar-se e defender-se com mais eficácia: surge o pastoreio (você não pastoreia gado sozinho), a agricultura (ainda transumante, mas já importante e precisando de trabalho especializado). É em algum ponto por aqui que temos o surgimento da língua e da religião, que explicam e justificam a existência dos clãs e suas regras (clã X não casa com clã Y, um clã não briga com outr etc.).

O Estado surge onde desafios grandes se impõem: observe que o Estado surge inicialmente nos lugares onde a sociedade só pode existir pela união contra as forças da natureza. Cheias do Nilo, do Tigre/Eufrates, do Indo, do Bramaputra, do Yang-Tse. Onde não existe essa necessidade de grande coordenação a sociedade surge tardiamente. Sim, esse determinismo geográfico é puro marxismo, mas você tem toda liberdade para me arranjar outra explicação para esta incrível coincidência entre agricultura dependente de irrigação e surgimento de civilizações. Cento de cinquenta anos de determinismo geográfico marxista estão aguardando serem derrubados por você. Não quero, porém, ser dogmático. O determinismo geográfico marxista não é uma explicação universal para tudo (embora ele explique, por exemplo, por que não se pratica muita agricultura na Groenlândia e porque a navegação não foi inventada pelos mongóis).

O contratualismo (um termo horrível e equivocado para descrever um fenômeno real) reflete esta necessidade: as pessoas não estão juntas porque alguém as obriga, mas porque, desde a pré-História, quem estava junto ficava vivo e os outros não. Ser banido era uma sentença de morte piorada: o cara morreria sozinho e ainda deixaria de ser contado entre os «espíritos» da tribo.


Existe um erro fundamental do anarcocapitalismo. Um erro realmente boçal. O erro foi cometido por Ayn Rand, que leu Nietzsche e não entendeu. O individualismo de Ayn Rand é uma bastardização do conceito nietzscheano do «homem superior». Mas esta descendência depende de um erro de tradução. Que beleza você criar uma filosofia porque um tradutor errou. Nietzsche não era um egoísta no sentido hoje aplicado pelos anarcomiguxos, ele não se insurge contra a sociedade em si, mas contra um tipo específico de sociedade, contra uma cultura abordagens paliativas dos problemas.

Um bom exemplo disso está no «Assim Falou Zaratustra». Ao comentar sobre as esmolas dadas ao mendigo, o filósofo afirma que nada é tão «sujo» (no sentido ético) do que dar ou receber esmolas e que o ato de «caridade» constrói, de fato, uma relação de inveja e de ressentimento (do lado de quem recebe) e de falsa santidade e auto elogio (da parte de quem dá), pervertendo as virtudes de ambos. Para evitar isso, Zaratustra propõe que sejam definitivamente abolidos os mendigos. Muitos leitores superficiais identificam na proposição uma convocação ao genocídio dos pobres (e muita gente na internet já deve estar urrando, sem ter lido o livro), mas o contexto é claro: É preciso acabar com a instituição da mendicância, não com os mendigos fisicamente. É preciso evitar que as pessoas sejam reduzidas à mendicância, não matá-las quando estiverem nas ruas. É preciso construir uma sociedade na qual não haja mendigos, ou haja tão poucos que seja possível atacar o problema topicamente.

Nietzsche não propôs nada parecido com esse endeusamento do ego que a Rand propôs (e que foi exacerbadoi ainda mais por seus seguidores anarcomiguxos). Ele propôs um hovo homem, sim, um «Übermensch», mas este ser hipotético não seria um indivíduo isolado e melhor que os outros, seria um homem que alcançou a compreensão e o pertencimento a uma humanidade melhor. Melhor não porque restrita a privilegiados, mas porque resultante da abolição dos valores corrompidos da sociedade ocidental, doente de uma «mentalidade de rebanho». Rand provavelmente não sabia ler alemão (ou não se deu ao trabalho de ler) e não percebeu que Mensch não é um sinônimo de Mann e que, por isso, o sentido do termo empregado por Nietzsche não corresponde ao do ideal egoísta propalado por uma pseudo filósofa americana. Mann é homem/indivíduo enquanto Mensch é homem/pessoa, mas esta «pessoa» possui uma acepção sutilmente diferente da palavra portuguesa, mais no sentido de possuidor de qualidades humanas do que no sentido de pessoa enquanto indivíduo . O Übermensch não é um indivíduo superior, mas o membro de uma «humanidade superior».

Desse erro total e incontornável cometido por Rand ao ler Nietzsche surge sua glorificação do egoísmo, que é uma filosofia de grande sucesso porque ela, afinal, ajusta os desajustados de forma que eles se sentem superiores sem que tenham de fazer qualquer concessão. É sempre uma ideologia de sucesso aquela que prega não haver necessidade de mudança e tudo que os calhordas querem é um motivo para se mostrarem como «bons» (no sentido social do termo). Rand ordenha essa «Vontade de Potência» de gerações de jovens inseguros (entre eles até o Neil Peart, baterista do Rush, hoje já curado) e cria um verdadeiro culto em torno de si (leia mais procurando referências na Internet, sobre as esquisitices envolvidas, incluindo os favores sexuais que exigia dos mais chegados).

Ocorre que o egoísmo, ou seja, o individualismo levado às últimas consequências, é algo que só se tornou possível em nossa sociedade atual, na qual a família se reduziu ao núcleo doméstico (mesmo ele incompleto muitas vezes) e onde sucessivas gerações foram criadas na base da punição/recompensa em termos materiais, sem nenhuma educação moral ou conhecimentos profundos de filosofia. Esta ignorância é um grande espaço em branco, pronto para ser preenchido com qualquer ideologia simples e confortável. O resultado é o Dâniel Fraga (mas eu tenho uma teoria que ele está só trollando e em breve vai começar a pedir favores monetários e sexuais de seus seguidores) e toda uma geração de pessoas que se sentem bem como estão e padecem de um pavor de terem que, de repente, terem que lutar para mudar o mundo.