O Manifesto-Pirraça da Direita Infantil

Ao acessar o Facebook na data de ontem, fui surpreendido por mais uma prova de que certos seguidores da nossa direita parecem comer capim (isso se não comem cocô mesmo). Trata-se de um texto tão inacreditável e tão tosco que eu ainda prefiro acreditar que é uma gozação que alguém escreveu para ridicularizar o pensamento direitista nacional. E se não for isso, por favor, não me contem. Comentarei o tal texto, mas partindo do pressuposto de que ele é uma trollagem.

O texto saiu no blog da UFSCON e logo a seguir foi reproduzido em outros focos virtuais de pensamento reacionário, como o “Direitas Já”. Se a aparente seriedade do blogue de onde saiu não bastasse para atestar que o texto foi escrito a sério, a republicação depõe seriamente contra a inteligência dos responsáveis pelas páginas que o repetiram.

O “Manifesto” é de João Victor Gasparino Silva, do curso de Relações Internacionais na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina, e contém um protesto contra a solicitação de um trabalho de pesquisa sobre Karl Marx, feita por um professor.

Direitista empedernido, o aluno se recusa a sequer tomar conhecimento da existência do marxismo e rejeita a pesquisa pedida. No manifesto, procura justificar porque não fez o trabalho.

São tantas as coisas erradas na atitude em si que é quase supérflua a análise do texto. A recusa em estudar um pensamento diverso do próprio já é motivo mais do que suficiente para classificar o aluno como obscurantista e intolerante. Mas tal impressão poderia ser evitada se o texto contivesse embasamento teórico e desenvolvesse uma argumentação sólida, em vez de uma reclamação imatura.

A análise é útil, porém, para compreender como funciona a propagação de uma ideologia de extrema direita em nosso país. Segue a transcrição comentada do “Manifesto”:

Como o senhor deve saber, eu repudio o filósofo Karl Marx e tudo o que ele representa e representou na história da humanidade, sendo um profundo exercício de resistência estomacal falar ou ouvir sobre ele por mais de meia hora.

Infelizmente para o enjoado reacinha, Karl Marx teve um papel fundamental no desenvolvimento da ciência econômica, das ideologias polí­ticas, das lutas sociais e da metodologia histórica. Mesmo que rejeitemos por alguma razão a validade de seu trabalho, é impossível ignorar o impacto que ele teve sobre a História contemporânea. Por isso, o nosso reacinha enjoado que trate de tomar um Engov e aprender tudo.

Os personagens históricos não deixam de ser importantes só porque nós não gostamos deles. A atitude do nosso reacinha é a de um menino pirracento que sempre teve satisfeitas todas as suas vontades e agora se sente no direito de decidir o que é ou não importante no currículo da própria faculdade onde estuda. Trata-se de um ato infantilidade tão gigantesca que os direitistas não imbecis (temos agora a oportunidade para saber quão poucos são) devem estar sentindo vergonha alheia pelo rapaz, que passou tremendo recibo de imaturidade. Se algum dia alguém mereceu ser qualificado de “moleque de apartamento, criado a leite de pera e ovomaltino” esse cara é o autor do texto.

Aproveito através deste trabalho, não para seguir as questões que o senhor estipulou para a turma, mas para expor de forma livre minha crítica ao marxismo, e suas ramificações e influências mundo afora.

A proposta até que é interessante. Uma crítica ao marxismo, se fundamentada, certamente mereceria uma boa nota, pois, para poder fazê-la, o aluno teria de estudar a obra de Marx e demonstrar que compreendeu-a tanto que conseguiu refutá-la.

Quero começar falando sobre a pressão psicológica que é, para uma pessoa defensora dos ideais liberais e democráticos, ter que falar sobre o teórico em questão de uma forma imparcial, sem fazer justiça com as próprias palavras.

O pirralho que nunca ouviu um “não” e sempre o papai lhe comprou tudo o que quis acha que é “pressão psicológica” ter de falar imparcialmente sobre um autor de que discorda. Que grande tragédia forçar um pobre coxinha a estudar uma ideologia de esquerda, isso deve ser pior que uma noite no pau de arara!

Infelizmente, por toda a vida, deparamo-nos com ideias ou pessoas de que discordamos. Não podemos fechar os olhos para essa realidade, não temos o poder de escolher o que queremos saber e estudar. Estudamos e aprendemos aquilo que é “necessário”.

Observem, ao final da citação acima, como o aluno se sente frustrado por não poder “fazer justiça com as próprias palavras”. Acredito que, se Marx já não estivesse morto há mais de 150 anos, o cara bem gostaria de matá-lo, e fazer justiça com as próprias mãos, ou pelo menos de xingá-lo, vilipendiá-lo, fazendo justiça com palavras. A impossibilidade do linchamento (literal ou verbal) de Karl Marx é a causa da “pressão psicológica” vivida pelo aluno reacinha.

Me é uma pressão terrível, escrever sobre Marx e sua ideologia nefasta, enquanto em nosso país o marxismo cultural, de Antonio Gramsci, encontra seu estágio mais avançado no mundo ocidental, vendo a cada dia, um governo comunista e autoritário rasgar a Constituição e destruir a democracia, sendo que foram estes os meios que chegaram ao poder, e até hoje se declararem como defensores supremos dos mesmos ideais, no Brasil.

A típica paranoia apocalíptica e hiperbólica do extremista de direita coxinha. Qualificar o nosso governo atual de comunista é prova de uma ignorância tão grande que somente esta frase já justificaria a reprovação do aluno. Afinal, ele não só desconhece o que é “comunismo” mas também não consegue uma análise coerente da situação política que tem diante de si.

Outros reflexos disso, a criminalidade descontrolada, a epidemia das drogas cujo consumo só cresce (São aliados das FARCs), a crise de valores morais, destruição do belo como alicerce da arte (funk e outras coisas), desrespeito aos mais velhos, etc. Tudo isso sintomas da revolução gramscista em curso no Brasil.

Aqui vemos um salto lógico (ou melhor, ilógico) de amplitude absurda. Se o trabalho era sobre a obra de Marx, por que o reacinha saltou tão rapidamente para o governo brasileiro atual, que de marxista só mantém uma leve tintura? Trazer o governo atual para um debate sobre a obra de Marx é uma apelação sem sentido, uma fuga ao tema.

Mas pelo menos esta fuga nos permite boas gargalhadas, ao percebermos que o idiota que escreveu este texto fantasia que o governo atual é o culpado por todas as mazelas que afligem nosso país. Da maneira como fala, fica parecendo até que não havia crime no Brasil antes de Lula, que o consumo de drogas era minúsculo, que o PT inventou o funk, que toda vez que alguém bate num velhinho é porque era petista, “coisas assim”. É verdade que os governos petistas desde 2002 não conseguiram resolver muitos de nossos problemas, mas atribuir-lhes culpa por tais problemas é algo que só se explica por muita ignorância ou pela deliberação de mentir.

A revolução leninista está para o estupro, assim como a gramscista está para a sedução, ou seja, se no passado o comunismo chegou ao poder através de uma revolução armada, hoje ele buscar chegar por dentro da sociedade, moldando os cidadãos para pensarem como socialistas, e assim tomar o poder.

À parte o fato de que nunca houve uma tomada de poder por meio de tal estratégia “gramscista”, o próprio conceito parece absurdo (e é), uma vez que seriam necessárias várias gerações para o pensamento revolucionário chegar a uma massa crítica. Ainda mais considerando a incrível eficiência de nossas escolas. Uma estratégia de tão longo prazo é tão ineficaz que os membros de qualquer grupo ou partido que a estivesse implementando estariam mortos ou muito velhos quando (e se) ela chegasse a ser bem sucedida. Esta estratégia assume, então, ares meio sobrenaturais, um quê de conspiração milenar, um jeitão meio óbvio de delírio das minhocas da cabeça de quem não sabe o que diz.

Fazem isso através da educação, o velho e ‘’bom’’ Paulo Freire, que chamam de “educação libertadora” ou “pedagogia do oprimido”, aplicando ao ensino, desde o infantil, a questão da luta de classes, sendo assim os brasileiros sofrem lavagem cerebral marxista desde os primeiros anos de vida.

Então os alunos do prézinho estudam a luta de classes. Os alunos das escolas estaduais paulistas (onde não se ensina mais História) também estudam luta de classes. Os alunos dos colégios religiosos idem. Pois todos são comunistas. Até a Igreja Católica é comunista.

Em nosso país, os meios culturais, acadêmicos, midiáticos e artísticos são monopolizados pela esquerda a [sic] meio século, na universidade é quase uma luta pela sobrevivência ser de direita.

Os jornais são de esquerda. A Globo é de esquerda. É tudo esquerda. Só temos jornais e emissoras de rádio e TV esquerdistas desde o golpe militar de 1964. Os generais derrubaram Jango e depois deram todos os canais de rádio e TV para os esquerdistas! Esse cara é um maluco.

Quanto à luta pela sobrevivência que ele enfrenta na faculdade, pouco se pode dizer, a não ser que realmente é uma inglória guerra a que se trava contra o conhecimento. Se o seu direitismo é baseado; como viu-se até agora; em ignorância, teimosia e preconceitos; realmente deve ser muito difícil protegê-los dos contínuos ataques da razão e do conhecimento. Em um ambiente um pouco mais “liberal” (um beco escuro à noite, por exemplo), talvez os nossos reacinhas virassem o jogo e eliminassem essa ameaça na base de muita porrada.

Agora gostaria de falar sobre as consequências físicas da ideologia marxista no mundo, as nações que sofreram sob regimes comunistas, todos eles genocidas, que apenas trouxeram miséria e morte para os > seus povos. O professor já sabe do ocorrido em países como URSS, China, Coréia do Norte, Romênia e Cuba, dentre outros, mas gostaria de falar sobre um caso específico, o Camboja, que tive o prazer de visitar em 2010.

À parte a simplificação grosseira (somente trouxeram miséria e morte) dos resultados das revoluções socialistas, o parágrafo é de uma empáfia raríssima. O aluno se mete a lecionar para o professor! E o pior, ainda pior, é que a lição provavelmente está fora do tema do trabalho encomendado (aparentemente, o “marxismo”).

Segue-se um relato bastante factual dos acontecimentos do Camboja nos anos 1970, governo do Khmer Vermelho. Só que este relato, além de ser um parêntese no raciocínio que o autor tentava (em vão) desenvolver, não está relacionado diretamente com o tema e resvala, perigosamente, no apelo emocional, como neste trecho:

Os castigos e formas de extermínio, mais uma vez preciso de uma resistência estomacal, incluíam lançar bebês recém-nascidos para o alto, e apanhá-los no ar, utilizando a baioneta do rifle, sim, isso mesmo, a baioneta contra um recém-nascido indefeso.

Por mais horrível que tenha sido o regime do Khmer Vermelho (e deve ter sido mesmo, pois ele causou uma diminuição de quase um quarto da população do país), essas atrocidades não afetam o valor da obra de Karl Marx nem minimamente, pois este nunca mandou, por exemplo, que soldados espetassem bebês em baionetas. Atribuir a Karl Marx a culpa pelos erros e crimes de regimes que se inspiraram nele, é atribuir à Bíblia a culpa por pregadores malucos, como Jim Jones e David Koresh.

Bem, com isto, acho que meu manifesto é suficiente, para expor meu repúdio ao simples citar de Marx e tudo o que ele representa.

Não obstante seu repúdio, a relevância de Marx continua a mesma, e se você quiser obter a nota terá de apresentar outro trabalho.

Diante de um mundo, e particularmente o Brasil, em que comunistas são ovacionados como os verdadeiros defensores dos pobres e da liberdade, me sinto obrigado a me manifestar dessa maneira, pois ele está aí ainda, assombrando este mundo sofrido.

O aluno poderia pelo menos ter se perguntado por que o comunismo conserva esta reputação, apesar de seus erros. Poderia ter obtido algumas respostas interessantes. Mas preferiu manter distância do tema, o que fez o seu texto ser raso, parecendo ser mais uma desculpa para não ter entregue o trabalho dentro do prazo.

Em seguida o aluno cita um suposto “decálogo de Lênin” que não existe (pelo menos não como um texto determinado). Mais uma vez ele se posta como professor, revelando uma mentalidade predeterminada, e mais uma vez o faz para difundir uma informação incorreta.

Depois da difusão inicial pelos canais alternativos, na internet, o texto chegou à grande mídia, sendo replicado pelo blogueiro Rodrigo Constantino, que escreve na Veja. Rodrigo, no entanto, possui um grau suficiente de honestidade intelectual e admite que o texto fica longe de ser mítico como a direita o julgou. Especificamente, Constantino admite o emprego de uma informação falsa, justamente o “decálogo de Lênin”:

O decálogo de Lênin, ainda que soe verdadeiro para quem conhece o leninismo, é falso até onde sei. O que não tira o mérito do manifesto.

Se o Constantino não estivesse tão interessado com a descoberta de um raro exemplo de texto direitista articulado que não resvala no neonazismo ou na escrotice pura e simples, poderia ter admitido outras das muitas falhas do texto, como emprego de evidência anedótica (quando o autor usa a viagem ao Camboja como “fonte”) e o fato de que o uso do “decálogo” (que é citado integralmente) tira, sim, o mérito do manifesto. Se os dados são viciados, o resultado é viciado. Boa parte das acusações feitas pelo autor ao marxismo podem derivar de textos, como o “decálogo”, que difundem desinformação. Então, o emprego de fontes tais sugere que a revolta do autor é causada pela sua seleção de textos inconfiáveis. Donde podemos concluir que o ferrenho antimarxismo exibido pelo autor se enraíza em informações distorcidas, contidas em textos apócrifos como o “decálogo”. E podemos concluir, então, que se o autor não sabe selecionar uma fonte legítima, um documento real, de uma fonte forjada, ele não tem nenhum comando da metodologia, e isso é uma bala de prata contra seu argumento: por isso eu disse desde lá no início que o “manifesto” depõe contra quem o escreveu.

Sim, contra quem o escreveu. A julgar por esse texto que divulgou, o Sr. João Victor Gasparino Silva não domina o discurso acadêmico com a proficiência necessária, não sabe diferenciar documentos legítimos de outros forjados, expressa opiniões engajadas que acompanham sua incapacidade de diferenciar entre a realidade e a invenção dos adversários do marxismo. Em vez de prestar um grande serviço à direita, este texto mostra um direitismo imaturo, pirracento, ignorante e, o que se mostra ainda mais surpreendente, oposto à hierarquia e sem respeito formal pelos ritos acadêmicos.

Sobre os Malefícios Mentais do “Anarcomiguxismo” (2)

Sendo o anarcomiguxismo um sistema de crenças essencialmente irracional, como demonstrado acima, a continuidade da crença depende da supressão do espírito crítico. Refiro-me a uma atitude receptiva em relação a conhecimentos obtidos de certa fonte (especialmente os artigos do Instituto Mises e os dados do Heritage Foundation, mas não somente) aliada à rejeição apriorística de informações obtidas de outras origens. Essa "endogamia" intelectual, na qual as ideias do indivíduo são alimentadas exclusivamente por textos que reforçam seus conceitos anteriores (pré-conceitos) produz uma baixa gradual do ceticismo, pois um texto é aceito como corroboração de outro, de forma recursiva, em um gradual afastamento em relação a qualquer capacidade de questionar.

Essa autorreferência do pensamento anarcomiguxo produz um descolamento da realidade tão profundo que somente aos olhos de quem está "de fora" é possível discernir o grau de absurdo. O "anarcomiguxismo" é, então, uma espécie de Cientologia econômica, cujos artigos que mencionam Xenu só são apresentados a quem já leu as obras mais básicas. Da mesma forma que a Cientologia não começa por pregar ao neófito que há bilhões de anos um vilão espacial transportou seus inimigos para a Terra a bordo de aviões DC-10 e os explodiu com bombas atômicas dentro de vulcões, os anarcomiguxos não começam explicando textos polêmicos, tais como:

  • A Ética da Liberdade (Murray Rothbard), em cujo capítulo XIV ele diz que os pais deveriam ter poder ilimitado sobre seus filhos --- inclusive podendo matá-los, vendê-los ou prostituí-los --- e que a educação infantil deveria ser facultativa.
  • Legalize Drunk Driving (Lew Rockwell), onde se argumenta que o Estado não tem o direito de, mesmo sob o pretexto de proteger a vida de outras pessoas, impedir que o proprietário de um veículo o dirija.
  • O Caminho da Servidão (Frederik Hayek), onde se argumenta que a adoção de medidas humanitárias e a concessão de direitos às massas produziriam o fim da liberdade (econômica, claro), criando ditaduras e destruindo o mundo…

A adesão a esse sistema de crenças enviesado e em franca contradição com o bom senso (Rockwell e Rothbard) ou com os fatos históricos observados (Hayek) tem sobre o "anarcomiguxo" o efeito de condicionar a sua própria interpretação da realidade, levando-o a agir de forma equivocada diante de situações que exijam uma leitura correta dos acontecimentos.

Um exemplo deste efeito "alucinógeno" do "anarcomiguxismo" sobre seus adeptos é o que está acontecendo com o Dâniel Fraga.

Dâniel é figurinha carimbada dos fóruns internéticos há muitos anos. Nunca foi muito certo da bola, tendendo a ter opiniões exacerbadas e uma reção meio infantil diante de contestações firmes. Certamente alguém com certo problema mal resolvido com autoridade, sei lá, talvez um complexo de Édipo.

Ele aderiu às ideias "anarcomiguxas" de uns dois ou três anos para cá. Pelo menos esse é o horizonte de tempo ao longo do qual eu me lembro de tê-lo visto discursando enfaticamente contra as maldades do Estado e as maravilhas das empresas e dos indivíduos. Seu canal no YouTube foi, durante este tempo todo, uma das maiores fontes de difusão do pensamento "anarcomiguxo". De fato, eu uso este termo, que não foi cunhado por mim, de forma a evocar aquilo que Fraga se tornou. Minha definição de "anarcomiguxo" é Daniel Fraga.

A fama lhe subiu à cabeça, embora não lhe tenha sido suficiente para subir de nível a mobília de seu quarto (que, ainda assim, parece mais organizado que o meu). Isso fez com que ele subisse de nível em suas críticas, adotando um tom cada vez mais destemido, belicoso até. Desenvolvou uma entortada de boca que sugere alguém que morde as palavras com raiva quando as diz, e expele seus argumentos com força e dor, como quem expele cálculos. Não sei se isso foi intencional, mas ele copiou de muitas formas os trejeitos de Olavo de Carvalho. A diferença é que Olavo se auto-exilou nos EUA, de onde pode dizer o que quiser sem riscos. Fraga ficou no Brasil, e aqui, como sabemos, não existe liberdade de expressão absoluta.

Eventualmente Fraga cometeu algo temerário: criticou um juiz. Juízes são bichos difíceis de criticar porque, apesar de todo o aperfeiçoamento de nossa democracia desde 1988, eles ainda são, praticamente, acima da lei. A pior coisa que pode acontecer a um cidadão é incorrer no desagrado de um juiz. Melhor blasfemar contra Deus do que contra um juiz, se é que vocês me entendem. Porque, mesmo que não façamos nada de errado, não é desejável o incômodo de um longo processo, com todo o seu custo monetário e o desgaste de imagem que isso traz. Dependendo das circunstâncias, um veredito de inocente pode ser totalmente irrelevante, pois o processo em si já foi uma punição cruel.

Mas Fraga fez pior: ele não se limitou a criticar o juiz, ele o fez de forma insultuosa, estendeu a crítica a outros juízes, e explicitou em sua crítica que o juiz seria "ignorante" (sic) do assunto sobre o qual decidiria.

Por mais que eu ache que a liberdade de expressão deva ser mais garantida neste país, eu não consigo achar certo o modo como Fraga se expressou. Um juiz é uma autoridade, e uma autoridade que não tem origem democrática, ainda. Isso quer dizer que existe certo protocolo envolvido. Você não pode simplesmente tratar um juiz como trata um vereador, que pode perder a próxima eleição e cuja autoridade é limitada por essa e outras circunstâncias. O juiz não está sujeito a eleições, ele não presta contas a ninguém, e ele tem suas prerrogativas de forma vitalícia.

Não que eu concorde com esse estado de coisas. Longe de mim. Mas essa é uma leitura realista da mundo real. Diante de uma leitura realistas, devemos tomar medidas realistas. O mundo real não é um fórum da internet, onde você se esconde atrás de um fake para xingar um desafeto. Em certo momento, Fraga se esqueceu de que não estava "na internet" quando fez uma crítica sobre um fato do mundo real. O juiz, ser material existente no mundo real, tomou conhecimento e agiu.

Imagino que Fraga, ao fazer sua crítica, não supôs que haveria consequências. Ele está acostumado a usar palavras muito fortes para se referir a seus desafetos e a políticos de quem discorda. A impunidade o fez ficar descuidado. Não entendeu que não podia simplesmente chamar um juiz de "ignorante" e que não tinha o direito (nesse caso eu afirmo que ele não tinha o direito) de falar rosnando para uma autoridade como ele falou.

Foi um erro grave, mas ainda não foi o mais grave de seus erros. Tamanho era o descolamento de Fraga em relação à realidade que, mesmo depois de notificado judicialmente, ele continuou a agir de forma tresloucada, sem levar a sério a situação em que se metera, tal como Josef K. Se amanhã ou depois tiver um triste fim, "como um cão", terá sido por sua própria falta de juízo. Se é que me entendem.

O juiz ofendido, aparentemente, acionou-o por calúnia e pediu segredo de justiça porque Fraga, tendo acesso ao YouTube, poderia fazer uma grande celeuma sobre o caso, prejudicando o processo. Entendo que o pedido de segredo de justiça foi desnecessário, mas eu entendo aonde o juiz quis chegar e não consigo discordar totalmente de sua interpretação. Opinião minha achar desnecessário. Mas absurdo o pedido não foi.

Porém "Fraga Man" --- o super herói anarcomiguxo, que combate o Malvado Estado usando sua camisa azul-água, seus óculos sem aro, seu roupeiro padrão cerejeira e seu teclado --- não se conformou em não poder noticiar o acontecido! Não, o povo precisa saber. E já que o juiz botou segredo de justiça, what would Misus do? Se ele tivesse simplesmente continuado a falar do caso, mesmo com ordem de manter segredo, já estaria fazendo uma cagada grande, mas o típico anarcomiguxo não se contenta com pouco: Fraga precisava fazer uma cagada gigantesca. Ele mesmo confessou em um vídeo que "na internet não existe segredo de justiça" e exibiu cópias impressas de documentos referentes ao processo.

Não tenho palavras para descrever o que pensei ao vê-lo dizer isso. Meu queixo caiu no chão e quicou. Se um documento está em segredo de justiça e ele o obteve através da internet, esse arquivo só pode ter sido obtido mediante uma invasão do sistema do TJ-SP, um acesso não autorizado. Espionagem, se é que vocês me entendem. Fraga confessou publicamente que obteve por meio ilegal (possivelmente criminoso) documentos que um juiz determinara serem segredo de justiça. Não apenas ele violou o segredo de justiça decretado, como fez questão de dizer que a violação ocorreu por um meio ilegal!

É difícil acreditar que uma ameba destas tenha inteligência normal. Na minha opinião, a partir do momento em que ele CONFESSOU ter violado o site do TJ-SP para obter os documentos, a punição de Fraga não apenas se tornou inevitável, mas é agora necessária. Em nome da democracia e da segurança das instituições, um sujeito que viola o site do Tribunal de Justiça para ter acesso a documentos sob segredo de justiça não pode ficar impune. Isso desmoraliza a própria justiça e achincalha a democracia.

Gostaria de deixar aqui bem claro que existem dois momentos separados nesse evento. O momento em que Fraga faz uso de sua liberdade de expressão para criticar um juiz e o momento em que ele se vangloria de apresentar documentos obtidos apesar do segredo de justiça.

No primeiro momento Daniel tem a minha solidariedade, embora eu ache que ele foi ingênuo, idiota e sem educação (coisa que ele normalmente é na internet). Acho que ele merecia uma reprimenda. Possivelmente o caso estava sendo tratado com exagero (talvez por vaidades envolvidas), mas ele precisava de um susto para "tomar tenência na vida". Para não ficar achando que pode falar o que quer, do jeito que quer, com qualquer pessoa. Para alguém que propõe a viabilidade dum "pacto de não agressão" entre os indivíduos numa sociedade sem Estado, Daniel é agressivo demais.

Mas eu não me solidarizo com Daniel Fraga pelo seu segundo ato. Se ele se sentia injustiçado, tinha todo o direito de se defender, constituir advogado, lançar uma campanha de solidariedade, apelar à Anistia Internacional, acender uma vela para Exu e outra para Jeová; fazer o que quisesse, DENTRO DA LEI. Recursos existem para isso mesmo. O processo é doloroso, a última coisa que eu quero é ficar inimigo de um juiz, mas chutar para o alto as leis e os costumes da democracia têm um custo maior.

Talvez Dâniel tenha querido brincar de desobediência civil. Leu demais Henry David Thoureau. Duvido que tenha pensado em se fazer de mártir da liberdade de expressão, ou do movimento libertário (t.c.c. "anarcomiguxo"). Talvez apenas não tenha se dado conta em tempo da necessidade de racionalidade para agir no mundo real, visto que no mundo virtual a sua persona se caracteriza pelo exercício contínuo da irracionalidade. Minha impressão é que Dâniel se tornou uma vítima da distorção cognitiva que o "anarcomiguxismo" provoca, incapacitando o indivíduo para compreender a realidade de forma útil.

E desta forma, Fraga se vê no meio desse redemoinho, totalmente despreparado para compreender esta cruel realidade, tão diferente do universo mágico em que viveu por tantos anos. Para tornar seu caso ainda mais trágico, ele não me parece ter os meios materiais para se defender eficazmente e a própria ideologia que defende parece ser incompatível com a solidariedade de outros como ele.

Diante destas circunstâncias, acho que a melhor saída é pedir que alguém da família requisite sua tutela por insanidade.

Sobre os Malefícios Mentais do “Anarcomiguxismo” (1)

Toda ideologia é uma prisão mental em termos: ela condiciona o indivíduo a pensar de determinada forma, e com tal intensidade que somente à custa de muito esforço ele consegue superar estas amarras invisíveis e pensar "fora da caixa".

Entretanto, a existência de ideologias é um fato dado, principalmente se considerarmos o termo em um sentido mais amplo, significando algo mais do que seu significado mais recorrente. Da inevitabilidade da ideologia surge uma necessidade imperiosa de selecionar as ideologias que nos convém abrigar. Há ideologias positivas e negativas, benéficas e prejudiciais, boas ou más. É um equívoco supor que exista inocência nas ideologias, equívoco tão grande, mas tão útil, que ele próprio se transmutou em uma ideologia, o apoliticismo, que serve para castrar grandes contigentes de potenciais pensadores, facilitando o trabalho da minoria que idealiza.

Não pretendo fazer aqui um apanhado de quais ideologias são boas ou más, primeiro porque confesso minha imensa ignorância em relação a uma ampla quantidade de assuntos e fatos que eu precisaria dominar para sequer começar a entender o tema em profundidade. Nunca li Adorno, Althusser, Harendt, Freud, etc. Minhas leituras são irregulares demais para que eu, simples sapateiro, me aventure além das sandálias.

Minha análise será muito mais humilde e restrita: pretendo demonstrar, de forma quase prosaica, que aquilo a que tenho chamado "anarcomiguxismo" é uma ideologia absurda e totalmente nociva não só ao conjunto da sociedade, mas, e nisso meu argumento talvez encontre apelo entre os adeptos, ao próprio indivíduo que a siga.

Em primeiro lugar, recuperar a definição usual de "anarcomiguxismo", uma ideologia de difícil classificação no espectro ideológico tradicional (esquerda/direita), trata-se de uma mistura em partes desiguais de uma série de conceitos de diversas origens, entre os quais:

  • Primazia do indivíduo sobre a sociedade, por intermédio de uma interpretação limitada de parte da filosofia de Nietzsche ("Humano, Demasiado Humano", "Gaia Ciência", "Assim Falava Zaratustra" e "Ecce Hommo", principalmente).
  • Valor moral do egoísmo, por intermédio de Ayn Rand, romancista americana de origem russa que tinha uma interpretação pervertida de outra parte da filosofia de Nietzsche.
  • Crença fundamentalista no capitalismo e rejeição enfática do socialismo, obtida por leituras de artigos publicados pelo Instituto Mises.
  • Ideal de autossuficiência não muito diferente do de comunidades religiosas ultramontanas, como os Amish, e a extrema direita sulista americana (Minutemen, Survivalists e o Militia Movement).
  • Aspiração anarquista ("AnCaps") ou secessionista ("Seasteading", "Charter Cities") em relação à sociedade existente.
  • Negação da solidariedade social, não apenas de forma ideológica ("moral") mas afirmando mesmo a impossibilidade desta.
  • Negação da intervenção estatal no contrato social, propondo ideias como "Pacto de Não Agressão" e "Autorregulamentação Privada".
  • Crenças dogmáticas sobre princípios econômicos ou relações sociais herdadas da teoria econômica pseudocientífica de Mises e Hayek, especialmente derivando através dos artigos inacreditáveis de Murray "Direito de Dirigir Bêbado e de Vender os Filhos" Rothbard.
  • Afirmativas behavioristas e mecanicistas sobre o comportamento humano.

Esse sistema ideológico abstruso e desconexo tem se popularizado muito nos últimos anos, especialmente entre a classe média brasileira, única do mundo que consome avidamente os artigos do Instituto Mises. Já disse anteriormente que há indícios de que a divulgação desta ideologia seja uma estratégia de "astroturfing" com o objetivo de "bagunçar o coreto" ideológico do Brasil neste momento em que o país começa a ensaiar passos mais ousados no cenário mundial (vide "A Conspiração Anarcomiguxa"). No Brasil, especificamente, o anarcomiguxismo se manifesta com características excepcionais:

  • Antipetismo histérico, como se o PT fosse o único partido corrupto (ou o mais corrupto) e como se ele fosse resposável pelos maiores atos de corrupção da história do Brasil. O antipetismo histérico se caracteriza por oposição automática a tudo que seja anunciado como polítia do governo, mesmo que atenda a reivindicações feitas anteriormente (vide a postura reacionária frente ao "Mais Médicos", criado em resposta às manifestações de junho).
  • Desprezo quase racista pela América Latina, especialmente Cuba, Venezuela, Paraguai e Bolívia.
  • Apoliticismo, enquanto os anarcomiguxos norte-americanos têm cerrado fileiras com o Partido Republicano, a ponto de causarem êxodo de republicanos tradicionais (o que pode criar condições para, finalmente, o surgimento de um terceiro partido nos EUA), os brasileiros insistem no discurso supra ou antipartidário.
  • Vínculos com o movimento "Anonymous", que tem atuado como um apêndice da CIA desde a prisão de seus principais líderes.

Quando tomamos os princípios e práticas do anarcomiguxismo sobre mesa e tentamos analisá-los de forma racional, é difícil imaginar que alguém consiga engolir um todo tão contraditório e sem sentido. De fato o é, pois raramente estas características acima elencadas pertencem a um indivíduo único. Aliás, parte do discurso dos anarcomiguxos é justalmente salientar as diferenças entre o "anarcomiguxismo padrão" e sua ideologia pessoal, como forma de negar a validade do rótulo. No entanto, mesmo rejeitando o termo pejorativo, existem indivíduos que, de forma espantosa, conseguem encarnar todos esses princípios e ainda não entrar em convulsão. Não citarei nomes. Analisemos inicialmente de que forma a difusão excessiva de ideias anarcomiguxas seria prejudicial à sociedade.

A difusão de uma ideologia individualista mina as estruturas democráticas de decisão, pois o individualista, por negar-se a cumprir o consenso da sociedade, ameça a legitimidade das instituições. Isto não é necessariamente ruim quando um número significativo de pessoas se opõe a instituições por discordâncias ideológicas ou humanitárias (caso dos que combatem ditaduras, lutam por mudanças na legislação etc.), mesmo que essa oposição seja por canais não institucionais. Mas quando o solapamento das instituições democráticas não se faz visando ao aperfeiçoamento da liberdade democrática, mas meramente em nome das idiossincrasias dos que não aceitam as decisões da maioria, temos uma situação na qual não há solução possível, a não ser a ruptura institucional, com consequencias violentas. Uma luta contra uma ditadura desagua numa democracia, uma exigência de mudança na legislação pode ser atendida com o atendimento do pleito; mas como solucionar um conflito social se os que protestam apenas não querem ser parte de um sistema democrático de decisão?

A crença fundamentalista no capitalismo, sob a vertente da escola austríaca, é um grave problema epistemológico, pois borra a fronteira entre ciência e pseudociência, especialmente na área de Humanas, onde tal fronteira é sempre acusada de já ser tênue. O enfraquecimento da área de Humanas é útil ao status quo, especialmente porque o conhecimento da história e da economia favorecem ao entendimento dos mecanismos de atraso e de dominação. Desacreditar a História é útil aos revisionistas, aos relativistas e à ultra-direita neoliberal. Não é por acaso que, apesar da crítica de Hayek e Mises aos fascismos, muitos neonazistas e neofascistas têm aderido a certas ideias "anarcomiguxas": o individualismo exacerbado favorece a tolerância a movimentos que seriam intoleráveis em uma sociedade democrática funcional e capaz de se defender de seus detratores.

O ideal de autossuficiência, da forma como difundido, emprega jargão e literatura herdados de movimentos ultradireitistas americanos, ligados a igrejas fundamentalistas, a Associação Nacional do Rifle e aos Baby Shakers. Trata-se do tipo de gente que produziu fenômenos religiosos como Jim Jones e David Koresh, a mesma gente que criava e implementava informalmente as chamadas "Leis Jim Crow" (costumes e práticas racistas no sul dos EUA). Isso abre espaço para a doutrinação de nossa juventude por textos de gente que inspirou terroristas como Timothy McVeigh. Imagino quantos até não estarão lendo o próprio Manifesto do Unabomber ou o livro de Anders Breivik, que dialoga com todo esse movimento.

As aspirações anarquistas ou autonomistas dos "anarcomiguxos" muitas vezes supoem a secessão de parte do território nacional (vide, novamente, o artigo sobre Charter Cities) ou a emigração para um tal território cedido por outro país. Na prática, isto quer dizer que os anarcomiguxos que esposam estas ideias são suscetíveis a apoiar a tomada de território nacional por potências estrangeiras se estiverem convencidos de que seus ideais serão implementados lá. Isto, obviamente, os coloca na direção de eventualmente se tornarem traidores da pátria (embora, espero, não "muito perto").

As proposições que fazem em relação ao convívio social, como substitutos da atuação "repressora" do Estado são quimeras irrealizáveis ou, pior, propostas absolutamente imorais (quando não ineficazes). A substituição da polícia e da justiça por serviços privados, como alguns propõem, é um retrocesso ao feudalismo ou, de forma mais caricata, ao coronelismo brasileiro (se bem que, no caso deste último, havia uma aparência de legalismo). A ideia de um pacto de não agressão para explicar como a sociedade se sustentaria sem a coação da lei é uma crença ingênua digna de um cristão embevecido. Por sua vez, a expectativa de que as empresas possam se autorregular, prescindindo da fiscalização pelo poder público e evitando mecanismos típicos do mercado imperfeito (como monopólios, oligopólios, trustes e cartéis), vai contra tudo que já se observou na história human.

O antipetismo histérico esteriliza o debate político, criando uma situação maniqueísta na qual o governo está sempre errado, ou até, em alguns casos, propostas se tornam erradas por serem encampadas pelo governo. O que conduz a um impasse, que impossibilita um debate racional. O recente caso da reação da classe médica às medidas do Ministério da Saúde é um claro exemplo de como a obsessão em bloquear a política do governo foi priorizada em detrimento de qualquer contribuição que as entidades de classe pudessem dar em relação ao tema.

O apoliticismo, combinado com o antipetismo, produz um esvaziamento do debate político, favorecendo discursos golpistas ou autoritários e criando falsas expectativas de um governo "forte" que "resolva" os dilemas, o tipo de caldo de cultura em que cresceu Mussolini.

Mas estes aspectos prejudiciais do "anarcomiguxismo" para a sociedade não serão compreendidos nem aceitos pelos simpatizantes de tais ideologias justamente porque eles raciocinam que eu, como esquerdista assumido, tenho por bandeira desqualificar ideias que vejo como "reacionários". Nisso eles têm certa razão. As críticas que faço são as críticas que um esquerdista pode fazer. Imagino que algumas delas, especialmente quanto ao potencial de traição pátria contido na ideologia "anarcomiguxa", também poderiam ser feitas por um direitista duro, mas em sua maioria elas estão, pelo menos, vazadas numa linguagem que trai conceitos exclusivos de esquerda. Existe algo, porém, que um esquerdista pode dize e que sensibilizará um "anarcomiguxo": uma demonstração de que este naipe de ideias é prejudicial ao indivíduo.

No próximo capítulo.

Adeus Facebook: Está Chegando o Dia 31

Tenho uma promessa feita de excluir meu perfil do Facebook no dia 31 de maio de 2013. A promessa já era antiga, mas eu só a divulguei na própria rede social no final do mês passado porque, durante muito tempo, hesitei em tomar esta medida tão radical. Por mais que entendesse que a participação na rede social estava prejudicando vários aspectos de minha vida pessoal e profissional, eu ainda tinha alguma percepção de que continuar participando estava trazendo outros benefícios que compensavam. As últimas semanas, porém, foram me convencendo de que os lucros não são suficientes para cobrir os prejuízos.

Primeiro abandonei definitivamente as comunidades de debate, onde ideias diferentes permanentemente se chocam e nunca se chega a nenhum consenso. Depois abandonei as comunidades literárias, onde se fala de muita coisa (até de literatura) e nada se produz de interessante. Comecei a excluir amizades com pessoas que não conheço pessoalmente e com quem não interajo: essas pessoas podem ser testemunhas inúteis de coisas que digo e penso, ou  podem estar coletando informações contra mim. Se gostam, convido-as a assinarem os feeds de meus blogues. Até para a finalidade de futura sabotagem elas estarão melhor servidas.

Durante algum tempo mantive meu perfil ativo, comentando normalmente, testemunhando a árdua escalada do pensamento da maioria rumo ao trogloditismo. Pessoas que eu julgava esclarecidas aderindo a discursos de ódio, defendendo posições ultra-direitistas (ou ultra-esquerdistas, o que dá no mesmo). Pessoas que eu julgava bem informadas repetindo artigos superficiais, com acusações estúpidas. Pessoas que eu julgava sábias, cometendo erros crassos de julgamento.

São muitas as manifestações de boçalidade nas redes sociais. Desde o ódio imbecil contra o Brasil, expresso numa espécie de complexo de vira latas que idolatra tudo que é estrangeiro e execra tudo o que é nacional, como se nós fôssemos a escória da humanidade, até uma crença ingênua nas virtudes das potências imperiais, vistas como vestais da humanidade.

Em uma época na qual somos mais livres do que jamais fomos, a juventude que nunca teve que ouvir um “não” de seus pais se dedica a propagandear as virtudes da ditadura. Enquanto o país atravessa um longo processo de melhora, expresso até no desaparecimento dos carros velhos da paisagem de nossas cidades, tanta gente achando que vivemos os estertores do Armagedom. E quando temos a possibilidade de mudar o nosso destino através do democrático instrumento do voto, tanta gente vendo justamente nele a fonte da “corrupção”, que aparentemente, entre todas as nações do planeta, só existe aqui, e entre todas as épocas da história, parece ter surgido de dez anos para cá.

Aos poucos fui perdendo a paciência com isso, fui deixando de lado esses debates: ninguém vai ao pasto silenciar o zurro das mulas, apenas nos incomodamos quando vêm dar coices e cagar em nossas portas. Cada vez que eliminei algum desses laços, ficou mais leve a minha decisão, que não será antecipada e nem adiada.

O mais recente destes cortes foi o  mais surpreendente, ao ver uma pessoa a quem respeitava defender o direito da maioria de praticar bullying contra a minoria através do “humor politicamente incorreto” (através do questionamento do direito que os ofendidos têm de se sentirem ofendidos) eu simplesmente deixei de acreditar na possibilidade de um debate racional nas redes sociais. Ao que parece, a simples convivência ali contribui para nos empurrar para posições reacionárias. +Ligia+Mário e +Francisco que me desculpem, mas há coisas que eu resolvi não perdoar. Eu tenho a opção de não ouvir aquilo que considero absurdo demais. Deixem-me cá com as minhas ilusões de um mundo mais justo, no qual a força do número não seja usada para humilhar os poucos, no qual não se exija de quem propõe mudanças uma pureza superior à de quem sempre esteve no poder, no qual crenças fundamentalistas em conceitos abstratos não fiquem acima do desejo de construir um mundo melhor para todos.

Cá de fora terei mais tempo para viver a minha vida e, sinceramente, adquiri mais simpatia pelas Testemunhas de Jeová. Elas podem estar erradas, eu posso discordar delas, mas elas não ficam poluindo o mundo pela distribuição aos quatro ventos de tratados nos quais afirmam coisas que ofendem aos crentes de outras igrejas. Eles vêm de vez em quando, fazem seu comercial e vão embora sorrindo. Diferente dos reaças da internet, que pululam sem parar, atacando tudo, xingando quem pensa diferente, desacreditando de todo projeto de mudança, etc. Prefiro um mundo com mais pregadores em meu portão do que a internet embebida de reacionarismo. Porque o meu portão ainda está sob o meu controle, e se eu quiser fingir que estou dormindo no domingo de manhã ninguém me obrigará a ouvir o que dizem.

A Moda É Ser Idiota

“Idiota” era como os gregos chamavam aqueles cidadãos que cuidavam exclusivamente de seus negócios pessoais e não participavam da vida política. Somente muito mais tarde a palavra ganhou um sentido mais negativo. Fazia parte do conjunto de crenças comum a todos os gregos que cada cidadão deveria ser responsável pelo governo de sua cidade. De tal forma se valorizava isso que a participação em certos órgãos governamentais, como o tribunal do Areópago, em Atenas, ou a assembléia dos éforos, em Esparta, era, em certa época, sorteada entre todos os homens aptos. Esse era o conceito de “liberdade” defendido pelos antigos filósofos: livre era o homem que era dono de si, não possuía senhores. A liberdade era contraposta à escravidão.

Quando o pensamento grego foi revalorizado, a partir da Renascença, o conceito de liberdade dos gregos pareceu anacrônico e inadequado. Era impossível governar países extensos com base em uma democracia direta, da qual todos os cidadãos participassem por sorteio, mesmo que fossem considerados cidadãos apenas os nobres. Não obstante, certos estados menores, como a Holanda e as cidades livres hanseáticas, tiveram uma forma de governo razoavelmente parecida, na qual todos os “homens bons” tinham sua voz ouvida.

Existe uma nobreza nesta definição de liberdade, nobreza que fascinou aos filósofos iluministas e também a Nietzsche. A liberdade dos antigos não era uma liberdade egoísta, não era uma busca hedonista. O homem não era livre para agradar a si mesmo, mas para fazer o bem à comunidade. E havia uma identificação do cidadão com a cidade. A raiz dessa identificação está na percepção da política como uma extensão de si. O estado (pólis) não era visto como um ente estranho, mas como uma espécie de família estendida, à qual se pertence, mesmo nos momentos em que algum dos membros faz algo de que discordamos. Desta forma, sempre que um indivíduo procurava impor sua opinião através das armas, do dinheiro ou da oratória, a cidade lhe reservava a pena do ostracismo (exílio), com o objetivo de reduzir-lhe ainda mais a capacidade de convencer aos outros. Nunca, porém, ninguém foi forçado a deixar a cidade: era o cidadão que percebia, no voto do ostracismo, a rejeição da cidade contra si e contra tudo o que ele representava. Exilar-se era a única opção. Mas reconciliar-se era o único objetivo. Somente os escravos não almejavam retornar à sua cidade original.

No embate das forças ideológicas posteriormente à revolução francesa, o tipo de liberdade cidadã que os gregos compreendiam foi abraçado pelos socialistas. Não por acaso escolheram essa denominação para si. Divergindo dos gregos apenas na noção nova, francesa, de que todo filho da nação é um cidadão seu. A essência do pensamento altruísta, que logo se confundiu com a esquerda, e parcialmente com o socialismo, é a de que cada indivíduo pertence a um conjunto, a sociedade, e não lhe é lícito fazer nada que cause dano à sociedade. Diferentemente dos socialistas, os diversos tipos de ideologias individualistas sempre preconizaram o direito individual de fazer mesmo aquilo que prejudicasse à sociedade. As posições centristas admitem que o indivíduo possa moderadamente causar dano à sociedade, conquanto sempre  menor do que dispêndio que a sociedade precisaria fazer para impedi-lo. Se, como disse Oscar Wilde, a sociedade embrutece mais com a reiteração de castigos do que com a recorrência dos delitos, é mais sábio tolerar certa ordem de transgressões, a fim de diminuir o embrutecimento coletivo.

Nos últimos anos e meses começou a ganhar popularidade aqui no Brasil uma corrente de pensamento de extrema direita e de extremo individualismo chamada libertarianismo (alvo preferencial deste blogue, daí o título), que defende exatamente o oposto do pensamento atruísta. Supostamente baseada em Nietzsche (na verdade derivada de um pastiche mal construído de alguns aspectos de sua filosofia, por intermédio dos romances de Ayn Rand), essa ideologia propõe que ninguém deve jamais se preocupar com o próximo, nem de forma alguma unir-se a quem quer que seja em nome de objetivos comuns, pois a “virtude” estaria em enfrentar as consequências e vicissitudes da vida de forma “livre”. Um exemplo de texto difundido pelos libertários na internet é o citado a seguir:

  1. Quando uma pessoa de direita não gosta de armas, não as compra. Quando uma pessoa de esquerda não gosta das armas, proíbe que você as possua.
  2. Quando uma pessoa de direita é vegetariana, não come carne. Quando uma pessoa de esquerda é vegetariana, faz campanha contra os produtos à base de proteínas animais.
  3. Quando uma pessoa de direita conhece uma pessoa de orientação sexual diferente, vive tranquilamente a sua vida. Quando uma pessoa de esquerda é homossexual, faz um movimento com alarde para que todos também se tornem homossexuais e os respeitem.
  4. Quando uma pessoa de direita é prejudicada no trabalho, reflete sobre a forma de sair dessa situação e age em conformidade. Quando uma pessoa de esquerda é prejudicada no trabalho, levanta uma queixa contra a discriminação de que foi alvo e vai à justiça do trabalho pedir indenização por dano moral (e o pior: ganha!).
  5. Quando uma pessoa de direita não gosta de um debate transmitido pela televisão, desliga a televisão ou muda de canal. Quando uma pessoa de esquerda não gosta de um debate transmitido pela televisão, quer entrar na justiça contra os sacanas que dizem essas sandices. E até uma pequena queixa por difamação será bem-vinda.
  6. Quando uma pessoa de direita é ateísta, não vai à igreja, nem à sinagoga e nem à mesquita. Quando uma pessoa de esquerda é ateísta, quer que nenhuma alusão a deus ou a uma religião seja feita na esfera pública, exceto para o islã (com medo de retaliações provavelmente).
  7. Quando uma pessoa de direita, mesmo sem dinheiro disponível, tem necessidade de cuidados médicos, vai ver o seu médico e, a seguir, compra os medicamentos receitados. Quando uma pessoa de esquerda tem necessidade de cuidados médicos, recorre à solidariedade nacional ou ao sírio libanês para tratar.
  8. Quando a economia vai mal, a pessoa de direita diz que é necessário arregaçar as mangas e trabalhar mais. Quando a economia vai mal, a pessoa de esquerda diz que os sacanas dos empresários, proprietários etc… são os responsáveis e punem o país.
  9. Teste final: quando uma pessoa de direita lê esse texto, posta argumentos lógicos. Quando uma pessoa de esquerda lê esse teste, fica puta da vida e quer xingar, além de querer processar e prender quem escreveu…

Como toda comparação estereotipada, esta também é falsa. Mas ele ser falso não me espanta nem me comove. Estranho é que muitas pessoas inteligentes — como +Vides Júnior+Saulo Cesar+Mário César de Araújo e +Francisco Quiumento
— e outras nem tanto, como o +Dâniel Fraga, o difundam sem pensar, aderindo automática e acriticamente a essas afirmações redutoras como se fossem um mantra.

Esse texto nada mais é do que uma mentira. Nem pessoas de direita e nem pessoas de esquerda são assim. Existe um tipo de pessoa de direita que diz/acha que é assim e que tenta impor essa definição de direita como uma universalização do credo e da práxis “direitista”. Esse é o primeiro erro porque, em tese, ninguém que seja direitista se diz ser, porque faz parte da essência do pensamento não esquerdista a negação da existência de luta de classes e da legitimidade da esquerda enquanto teoria política. O pensamento de esquerda é só um desvio, a luta de classes é uma ficção. Mas o texto, obviamente, reivindica uma suposta neutralidade, ao usar os termos “esquerda” e “direita” em terceira pessoa (“uma pessoa”) o autor procura sugerir que está fazendo um exame distanciado das duas formas de pensamento. Essa é uma técnica argumentativa bastante eficaz, porque as pessoas rejeitam pensamentos que honestamente se assumem como parciais: todos querem opiniões isentas, mas que coincidam com determinada forma de pensar.

São muitas as pegadinhas distribuídas pelo texto, e a simples identificação de cada uma delas deveria envergonhar quem o difunde (mas tenho a desiludida certeza de que ninguém se retratará, afinal, compartilhar um texto não é endossá-lo, ou é?).

O primeiro parágrafo faz uma comparação assimétrica entre uma ação individual (“não comprar”) e uma ação que nenhum indivíduo isoladamente teria poder para praticar (“proibir”). O terceiro, pior ainda, compara pontos de vista diferentes sobre uma mesma situação. A pessoa de direita “conhece alguém de orientação homossexual , a pessoa de esquerda “é homossexual”. Além do maldoso subtexto de que o esquerdista é veado, ainda temos uma comparação que não faz sentido, pois é perfeitamente aceitável que tenhamos reações diferentes quando estamos envolvidos. Ou seja, possivelmente uma pessoa que viveria tranquilamente a vida após conhecer um homossexual se sentiria compelida a fazer campanha pelos direitos homossexuais caso se descobrisse homoafetiva, simplesmente porque a percepção da cena muda quando você deixa de ser plateia e passa a ser ator.

Em comum, os sete primeiros parágrafos têm uma característica: a essência da “pessoa de direita” é a passividade diante dos fatos que encontra, caracterizando-se por “não fazer”, “continuar fazendo” ou “apenas refletir”. Não há uma só recomendação de um curso de ação diante dos desafios. O direitista “não compra” armas, não come carne, vive tranquilamente, reflete sobre a injustiça que sofreu,  muda de canal, não vai ao templo/sinagoga/igreja/mesquita. Por outro lado, o esquerdista sempre toma atitudes, apresentadas como equivocadas: ele “proíbe” (sic) a compra de armas (ou procura proibir), faz campanha contra a carne, faz um movimento, presta uma queixa, entra na justiça etc. Independente do fato de que em certas situações é melhor agir e em outras, não, resulta óbvio da análise do texto que o direitista ideal é alguém que age o mínimo possível. Quando alguma ação é recomendada, trata-se de uma ação individual e inócua, como mudar o canal da televisão (o que equivale a enterrar a cabeça na areia e fingir que o problema não existe). Esta é a essência do conservadorismo: qualquer tentativa de melhorar o mundo vai é piorar, então é melhor aceitar tudo do jeito que está. O conservador mais radical difere do reacionário em um simples fato: ele admite o progresso, desde que não seja obra de reivindicações revolucionárias e seja lento.

O silêncio sobre a ação é mais eloquente no quarto parágrafo, quando  a pessoa de direita “reflete” sobre o seu infortúnio. Por um paradoxo inexplicável, mas compartilhável, esse indivíduo de direita não estará agindo “em conformidade” caso escolha usar a justiça para se defender. Como não acredito que o autor do texto esteja defendendo o uso direto da força (vingança), suponho que a inação seja a única forma de ação conforme, sob a ótica direitista.

Não é à toa que um filósofo bem menos burro do que eu classificou a história positivista (conservadora e direitista) como “uma sucessão de fatos sem conexão, ligados a símbolos inexplicáveis e pessoas sem personalidade, em que nada possui causas, nada gera consequências, todas as reviravoltas são completamente inesperadas e todos os acontecimentos, irrepetíveis e desprovidos de qualquer valor moral para o presente.” É uma crítica antiga, do tempo em que ainda se usava falar em “moral” em filosofia, mas segue válida. Na ótica desse direitista ideal, apresentado nesse texto, a única coisa a fazer diante dos obstáculos da realidade é omitir-se, ou então tomar uma atitude isolada. Fica a impressão de que até mesmo formação de quadrilha é uma atividade esquerdista.

Uma vez que o indivíduo não está autorizado a tomar qualquer atitude concreta diante dos fatos, resta-lhe aceitar os fatos, de forma inexplicável. Como se vê no sétimo parágrafo, onde o autor afirma direitista consulta um médico e compra os remédios até quando não possui o dinheiro disponível. Não consigo imaginar como tal seria possível, nem de que forma os médicos e as farmácias andam aceitando pagamento se você for direitista. A atitude do esquerdista pelo menos é coerente: se não tem dinheiro disponível, recorre à solidariedade nacional. Acredito que a chave do enigma esteja no fato de que o autor, provavelmente, não sabe o que é “não ter dinheiro disponível” para pagar uma consulta e comprar remédios.

O oitavo parágrafo é o mais curioso de todos, pois tenta colocar como antônimas duas atitudes que não são sequer incompatíveis. Propor-se a “arregaçar as mangas e trabalhar mais” é algo que qualquer pessoa que dependa de seu trabalho terá de fazer diante de uma crise (mas de nada adiantará esta determinação se não houver trabalho). Mas esta disposição não significa que a pessoa não deva ter sua própria opinião sobre as causas do problema. O mecânico, pode perfeitamente consertar o carro enquanto lhe pergunta se o defeito não foi causado por algum mau hábito seu ao volante, como acelerar o carro embreado. Obviamente o autor do texto acredita que especular sobre as causas dos problemas que afligem a todos (ou pelo menos a muitos) é algo que não se deve fazer.

Por fim, a “chave de ouro” do texto, uma espécie de salvaguarda do seu autor contra as críticas advindas de sua “obra”. Por causa dela eu acredito que seja inútil postar argumentos lógicos contra o texto, porque, na visão em preto e branco da mula que cagou esse pedaço de excremento (só estou xingando para ser fiel ao estereótipo), um argumento de esquerda não pode ser lógico. Mesmo eu tendo feito uma análise moderada e pretensamente lógica do seu conteúdo, minha discordância soará como um zurro, por um fenômeno de pareidolia auditiva, que faz com que ouçamos coisas parecidas com o que nos é familiar.  Mas posto-os mesmo assim, sabendo que pelo menos entre os padawans da esquerda eu serei lido (e também por algum direitista honesto entre os vinte ou trinta que deve haver).

Não consigo entender como pessoas  bem informadas apregoem um texto tão primário e fácil de demolir. Acima de tudo porque o individualismo idiota que ele prega (no sentido grego do termo) é prejudicial à sociedade como um todo. Em nome de uma pseudoliberdade essas pessoas pregam um sistema no qual cada um estaria sozinho e indefeso diante da opressão. Alguém já disse que grandes problemas demandam grandes soluções, e grandes homens. A via proposta pelo texto é que as soluções venham através de atitudes pequenas, de pequenos e isolados homens. É muito triste que pessoas inteligentes difundam isso, de forma tão acrítica, mesmo porque a ignorância dos exemplos da história não é uma desculpa. A ignorância nunca é uma desculpa. Especialmente porque alguns dos que difundem isso de tempo em tempo parecem ter os conhecimentos mínimos necessários para discernir a patranha. Mas parece que, depois que se estuda muito, e se duvida de tanto, começam as pessoas a buscar credos em que descansar seus neurônios. E nesse caso, se a ideologia está certa, o pacote inteiro vai de brinde, e está certo também.

Radicalismo Anarcomiguxo: o Sonho da Soberania Individual

Você talvez nunca tenha ouvido a expressão “homem livre na terra”, nem sua formulação original em inglês (free man of the earth), mas se acompanha este blogue e outros que estudam o fenômeno anarcomiguxo já deve ter uma compreensão instintiva do assunto que abordo hoje: a aspiração, não, o sonho de abandonar a sociedade corrupta e viver em liberdade, fora de seus limites. Sente-se e relaxe, você está de novo embarcando rumo aos abismos da argumentação libertária. Vem comigo!

Para o libertário, não há coação mais intolerável do que a exigência de responsabilidade social. Não, eles não usam esses termos porque não admitem isso, eles os disfarçam de outras formas. Eles falam na “obrigação de ser solidário” ou na “imposição da culpa pela desigualdade”, entre outros termos mais pedantes. Em essência, eles acham inaceitável que a sociedade espere que um indivíduo faça algo por alguém que não é seu próximo. Mais adiante falaremos sobre essa questão de definir quem é o próximo.

Fazer algo por alguém que não é o meu próximo significa usar recursos obtidos de mim (impostos, por exemplo) e levá-los a outro lugar, sem o meu controle. Isso cria oportunidades de corrupção (na concepção libertária a única função do estado é roubar do povo o dinheiro dos impostos, todo o resto ele só faz, e o faz mal, para manter a fachada) e de desperdício (da mesma forma, o estado é ineficiente, inepto, incompetente e feio). A coação está em exigir os meus impostos com a desculpa de que eles serão usados em benefícios de pessoas que eu nem conheço. Como o libertário se insurge contra o imposto como símbolo do Mal, ele precisa deslegitimar a “desculpa” com a qual o Estado justifica a sua cobrança: o benefício à “sociedade” (ou seja, o conjunto das pessoas que eu não conheço, mas que usufruem de serviços e benefícios pelos quais eu pago).

Anarcomiguxos implorando que capitalismo os liberte da opressão de suas responsabilidades de cidadãos.


O passo lógico é, então, erigir o individualismo como uma espécie de ética alternativa à moral cristã (e marxista), segundo a qual “todos os que vivem são o meu próximo”, e ao contratualismo, para o qual o Estado é uma criação necessária dos indivíduos em seu próprio interesse — santificando o indivíduo e seus interesses, negando o conceito de “cidadão” (etimologicamente, alguém que “pertence” à cidade-estado). Em suma, porque o libertário não quer pagar impostos ele deseja que seja abolido tudo aquilo que “consome recursos do Estado” e que não seja minimamente necessário. Dependendo de como você define o “minimamente necessário”, não há controvérsia. Ocorre que, enquanto a maioria dos cidadãos acha necessário existir um sistema educacional, um exército, um sistema público de saúde, um programa público de previdência social, entre outras coisas. Para os libertários nada disso é necessário, só a manutenção da ordem pública através da polícia. Todo o resto deveria ser pago pelos próprios indivíduos, recorrendo aos serviços que fossem estabelecidos por empresários interessados em explorar o mercado.

É claro que este conceito, acima expresso em linhas cruas e toscas, comporta mais do que o mero egoísmo, mas assenta-se nele gorda e preguiçosamente. A rejeição da responsabilidade social é uma rejeição da culpa. Não quero que me recriminem por eu não me importar com o mendigo que morre de fome à minha porta. Quero que a polícia o varra como se ele fosse um monte de folhas que enfeia a minha calçada. Em sua essência, o libertarianismo, ao se dizer contra a “coação” praticada pelo Estado em nome do benefício alheio, está de fato se pondo contra a cobrança de uma atitude cidadã perante os problemas de outros cidadãos. É por isso que eu não uso o termo “cidadão” para se referir aos anarcomiguxos: eles não o são. Ao rejeitarem a responsabilidade que devem ter para com a sociedade, eles almejam isolar-se enquanto indivíduos, reduzem-se a consumidores de serviços. Imaginar que as pessoas pensem espontaneamente assim é surral, faz-me lembrar um verso do Pink Floyd, em Wish You Were Here: Você trocou sua marcha com o pelotão rumo à guerra, por um papel principal numa gaiola? Essas pessoas, por não quererem a responsabilidade de trabalhar pelo bem comum, querem reduzir-se consumidores de serviços providos pelo grande capital?

Como sabem que não conseguirão realizar seu intento no seio da sociedade (pelo menos não nas atuais circunstâncias, mas se o nível geral de consumo de leite de pera e ovomaltine continuar subindo é possível que consigam); os anarcomiguxos desenvolveram uma ideia mirabolante, provavelmente inspirada em overdoses de cremogema com refrigerante energético: seasteading. Criado por analogia com “homestead”, obscuro termo que, na tradição americana, significa algo como o território do núcleo familiar; esse conceito pressupõe a colonização do mar pelos anarcomiguxos, criando em plataformas marítimas ou ilhas artificiais o seu paraíso sem leis.

Deixando à parte o absurdo da ideia, vemos sua impraticidade: todas as tentativas de seasteading fracassaram, ou porque foram neutralizadas, ou porque nunca foram mais do que piadas de mau gosto. Suponhamos, porém, que nenhuma nação próxima tente anexar a ilha ou plataforma, nem interfira em seu funcionamento em “águas internacionais” (mais sobre isso ao final), como poderia tal entidade subsistir?

A menos que os colonos de tal território lá chegassem levando uma grande população e toda a estrutura necessária para implantar uma economia autossuficiente, da agricultura à indústria electrotécnica, seria essencial manter comércio com os estados vizinhos e distantes. Tal comércio nos levaria a um dilema ético: essas colônias de individualistas não estariam, então, parasitando as sociedades que rejeitaram, ao usufruir de bens e serviços que elas produzem, sem participar de sua construção com o seu trabalho e com os seus impostos?

Não me refiro aqui a parasitismo no sentido ético, mas no sentido econômico. Se o anarcomiguxo estabelece seu país de brinquedo para ser totalmente livre da opressão do Estado, e se esse país de brinquedo só consegue se manter recorrendo a produtos e serviços oferecidos pelos estados opressores, então que tipo de liberdade é esse? Parece-me evidente que não é liberdade essa relação de dependência unilateral (evidentemente os estados continuarão a existir, mesmo sem os desertores, mas a sua colônia só pode existir mediante trocas com os estados que os oprimiam). Se só uma parte precisa da outra, a utilização de bens e serviços pela colônia anarcomiguxa configura parasitismo (ainda que pouco relevante). Tal parasitismo se torna maior se pessoas e entidades existentes no seio do Estado apoiarem economicamente o empreendimento, mesmo sem emigrarem para lá: tais pessoas desviam para fora de sua sociedade recursos nela gerados, e o fazem com o objetivo de eventualmente destruírem a sociedade. É fácil ver que uma tal situação rapidamente resultaria numa ação repressiva do Estado contra a colônia anarcomiguxa (pela falta de outras razões, econômicas e políticas, pelo menos para ficar livre do incômodo de uma colônia de loucos à deriva no mar).

Enquanto discutia isso com um anarcomiguxo, “lamentei” ironicamente que a civilização tenha abrangido toda a terra e que não exista mais, como na Antiguidade, o grande vazio além muros ou além fronteiras, para onde os renegados poderiam fugir e viver em total liberdade. Disse-o com fins satíricos, mas o meu interlocutor afirmou-o deveras: seria melhor, na opinião dele, se a sociedade fosse restrita a territórios localizados, de forma que fosse possível fugir para os vazios e ali viver em liberdade.

Imagino quantas horas esse meu interlocutor viveria perambulando sozinho pelos desertos, entre os animais e entre os bandos de salteadores. Essa gente lê manuais de RPG demais, acha que o mundo é fácil.


Notas de fim

  • Quem é o próximo? — O anarcomiguxismo recorre a Ayn Rand, que por sua vez recorria à Nietzsche, para atacar como um moralismo cristão vazio essa preocupação social. Mas esta noção de empatia com os demais indivíduos é exclusivamente cristã e é mesmo um falso moralismo?

Não é segredo para ninguém que estude religiões comparadas que a mesma formulação usada por Jesus Cristo nos evangelhos foi empregada por Buda e por Zaratustra. Conceitos similares permeiam o confucionismo. Isso porque a “regra de ouro” não é um produto específico de uma cultura ou religião, mas parte do sistema ético de todas as civilizações, ainda que relativizada ou adaptada conforme as circunstâncias.

  • Águas internacionais — O típico anarcomiguxo acredita que há uma convenção escrita em pedra segundo a qual aquilo que esteja fora do mar territorial dos países está igualmente fora de seu alcance legal e que, adicionalmente, nenhum estado se importa com o que seja feito lá. Isto está longe de ser verdade. Por várias razões.

A primeira e mais importante razão é que, em muitos casos, as águas só são internacionais porque não há nada lá. Águas territoriais são estabelecidas com base em direitos territoriais sobre terra mesmo. E um lugar onde não há terra é um lugar onde não se pode estabelecer nenhuma base fixa duradoura. É um lugar de onde, na visão dos países, não poderá vir nenhuma ameaça consistente. As coisas mudam radicalmente de figura quando alguma terra (ou coisa parecida) surge ali. Grã Bretanha e Islândia já estiveram em estado de quase guerra porque uma ilhota vulcânica chamada Surtsey teria estendido o mar territorial islandês para uma região onde os britânicos costumavam pescar. Felizmente (ou não) a ilhota se dissolveu no mar e os dois países entraram num acordo. Da mesma forma, Tonga não ficou feliz com a perspectiva de um novo assentamento em uma região desabitada tão próxima do vizinho arquipélago de Fiji, que poderia motivar o expansionismo fijiano por ali. Depois de prender e expulsar os colonos da República de Minerva, o governo tonganês dinamitou o lugar. Esses exemplos mostram que uma mudança material na existência de territórios em certo trecho de mar induz a acomodações nas relações entre os países, mesmo que tais territórios estejam fora do seu mar territorial.

    A Conspiração Anarcomiguxa

    Qual a relação que você consegue enxergar entre o filme Zeitgeist e a modinha liber­tária que perpassa a internet? Nenhuma? Alguma vaga conexão que você não consegue explicar direito? Chega mais, senta e relaxa. Prepare-se para ler muito, e para descobrir a grande manipu­lação a que estamos sendo submetidos. Prepare-se para ter abertos os seus olhos: eu não espero convencer você, espero apenas apontar para onde o vento sopra, para que você olhe e veja por si aquilo que descobri agora há pouco, enquanto comia uma pizza de sala­minho com catupiry.

    Mesmo mantendo um razo­ável ceticismo, não se deve excluir de antemão a possibi­lidade de que seja verdade aquilo que parece improvável. Pelo menos não enquanto não surgir uma explicação fun­cional que recorra apenas ao que é possível. A navalha de Occam, quando apli­cada de forma indiscriminada, funciona mais como um obstá­culo do que como um guia. Foi utilizando um princípio seme­lhante que Aristóteles desconsiderou a teoria atômica de Demócrito e propôs sua versão simples e cética dos quatro elementos. Com isso e mais a sua auto­ridade, atrasou o desenvolvimento da química por milênios.
    Esta defesa prévia que proponho acima se deve à natureza do que vou escrever abaixo, que parecerá uma reles Teoria de Conspiração. Muitas pessoas se esquecem, ao fazer esse tipo de acusação, que, de fato, conspi­rações existem. As teorias de conspiração só se tornam ridículas quando envolvem participantes sobrenaturais (como os aliení­genas cinzentos) ou quando exigem o conluio de tantas partes diferentes, e durante tanto tempo, criando tantas difi­cul­dades, que a simples concepção de uma tal teoria dá mais trabalho do que supor, simplesmente, que a conspiração não existe. Não é o caso do que vou explicar. Posso estar enganado, mas mesmo que a conspiração não exista de forma deliberada e de antemão — e eu não afirmo que exista — o encadeamento do fato nos autoriza supor que, pelo menos, os fatos posteriores foram postos em ação a partir do conhe­cimento das condições prévias, de forma muito cuidadosa. Então, é irrele­vante a acusação de que tudo não passa de mera teoria de cons­piração: o simples encade­amento dos fatos já é um fenômeno interes­sante em si mesmo.

    Comecemos por algumas definições importantes (algumas delas vão para o glossário). O «movimento anarco­miguxo» é a mais recente modinha entre os descolados da internet, tal qual o «movimento ateu» já foi um dia (e lamen­tavel­mente reconheço que o foi apenas como uma prepa­ração para um passo posterior, como passo a demonstrar). Trata-se da difusão de um deter­minado dis­curso político e econômico através de blogues, vlogues e perfis em redes sociais. Um discurso ultra­­conservador em termos políticos (mas suposta­mente «liberal» em relação aos costumes) e ultra­liberal em termos econômicos, a partir dos trabalhos da chamada «escola austríaca» de economia (que, apesar do nome, hoje se baseia nos Estados Unidos) e suas teses minar­quistas (estado mínimo) e ultra­capitalistas (libera­lismo econômico máximo). Este discurso não é novo, claro, mas um velho conhecido de quem estuda História ou se prende aos aspectos históricos da ciência econômica: trata-se do discurso do liberalismo, herdeiro dos fisio­cratas franceses (Turgot e Quesnay) por meio dos liberais ingleses (Adam Smith, David Ricardo e Stanley Jevons) e com um pedágio entre os aristocratas reacionários do império austro-húngaro (Menger, Böhm-Bawerk e Mises) que se refugiaram nos Estados Unidos diante da ameaça do nazismo e lá encontraram o terreno ideal para difundir suas ideias, iniciando seguidores como Murray Rothbard. Este discurso é temperado pela ideologia de Ayn Rand, uma escritora americana de origem russa autointitulada filósofa, expresso em calhamaços de difícil leitura, como A Rebelião de Atlas (Atlas Shrugged) e A Fonte (The Fountainhead).

    Existem boas razões para se pensar que estamos vivendo um imenso processo de astroturfing (ou «lavagem cerebral através de propa­ganda de massas», se você prefere) que tem por objetivo dire­cionar a opinião pública em um sentido mais conser­vador, prepa­rando ter­reno, talvez, para interfe­rências políticas que satisfaçam essa «opinião pública espontânea». Um processo que pode ter sido preme­ditado, ou estar sendo «surfado» por pessoas que sentiram para onde soprava o vento. Um processo que começou com o filme Zeitgeist. Ou talvez antes, mas eu só o detecto a partir dali. As ideias ainda estão confusas, mais ou menos como você se sente quando tem a sensação de que tropeçou em algo grande. É o que sinto. Tenho até medo das conclusões a que estou chegando: nem todas eu incluirei neste texto. Que, no entanto, é o corolário deste blogue: é o desmas­cara­mento da «arapuca libertária» que eu, indis­tinta­mente, farejava no ar quando comecei a blogar aqui, faz uns dois anos.

    Comecemos por Zeitgeist. A menos que você seja um imbecil quase completo ou não conheça quase nada nem de História, nem de economia e nem de engenharia ou física, você percebeu que esse filme, do qual hoje quase nem se fala mais, possuía mais furos do que um queijo suíço. Na época eu me senti ultrajado de ver a gros­seria com que o realizador, «Peter Joseph», manipulava a mitologia egípcia (minha mais ou menos conhecida) a fim de «provar» que Jesus e Hórus possuíam dezenas de elementos comuns na biografia. O filme foi bem sucedido em plantar essa ideia de jerico na cabeça do povo (pelo menos na parte do povo que pensa e age como jerico), tanto assim que Jesus = Hórus se tornou um meme na internet: volta e meia vê-se um ateu «jogando na cara» de algum religioso essa «informação revolucionária». Dá vontade de olhar-lhe fixamente dizer: «ó, que descobrida cê fazeu!» O sucesso de Zeitgeist em incorporar essa informação falsa no imaginário popular, ou pelo menos no imaginário da subcultura virtual a que chamo de «movimento ateu», é uma prova do quanto é perigoso o processo de astroturfing a que me refiro, e que passarei a qualificar, dora­vante, de «A Conspiração Anarcomiguxa».

    Zeitgeist possuía três partes, e nem mesmo os fãs do filme conse­guiam entender completamente a relação entre elas: a primeira argumentando que Jesus é um mito astrológico de origem egípcia, a segunda dizendo que o atentado de 11/09/2001 foi feito por agentes do próprio governo americano e a terceira dizendo que o sistema bancário internacional se sustenta em uma fraude, a moeda fidu­ciária (fiat money, como eles gostam de dizer). A aparente desco­nexão entre os assuntos levou a muitas teorias mirabolantes sobre as razões dos temas terem sido inseridos em um mesmo filme. A minha teoria mirabolante particular era de que o filme procurava inculcar em quem o visse uma menta­lidade anti-semita. Afinal, o filme começava «provando» que Jesus não era um judeu, dizia que o maior atentado da história americana fora come­tido pelo próprio governo ianque e terminava dizendo que o governo estava sob o controle dos judeus (que não têm, claro, nenhum parentesco com Jesus). Faz sentido sim, e até pode ter sido uma das intenções originais dos realizadores de Zeitgeist, mas isto não explica tudo.

    Existem duas maneiras de encarar a História. Uma que a vê como o enca­de­amento de fatos sucessivos, sempre influ­en­ciados pelo passado, e raramente resultantes de deli­be­ra­ções. E uma que a vê como um processo cheio de idas e vindas, influenciado não exatamente pelo passado, mas por fluxos e conjunturas que, em certas fases, parecem antecipar momentos futuros. Se analisarmos as modinhas da internet que têm relação com os três temas abor­dados no filme, veremos que as explica­ções que obtemos pela apli­cação de cada uma das duas maneiras resultam diferentes. Se pensarmos na história como um processo unívoco, então a modinha libertária pegou carona no refluxo do movimento Zeitgeist, do qual ninguém quase ouve falar mais, e requentou alguns dos mesmos temas, radicalizando naqueles que interessam aos que seguram a mangueira que faz a lavagem cere­bral das massas. Mas se pensarmos na História como algo um pouco mais dinâmico, nos perguntamos se esse próprio refluxo não era esperado, ou até previsto, e se não teria havido, desde o início, um direcionamento que permitisse o surgimento, após o refluxo do MZ, de uma nova modinha exatamente com as características da que surgiu de fato. Mineiro que sou, declaro-me adepto de ambas as teses, mas não vejo motivos para negligenciar a segunda: de fato ela me parece sugestivamente forte, como vou argu­mentar.

    O primeiro sinal em minha consciência de que havia uma coisa qualquer de podre na metafórica Dinamarca foi quando tomei conhe­cimento do rompimento entre o Movimento Zeitgeist e o Projeto Vênus. Isso ocorreu em abril de 2011, mas o MZ é tão rele­vante que eu demorei um ano e meio para ficar sabendo, e ninguém notou nenhuma diferença no universo por causa disso. Not a single fuck was given. Eu sempre achei que ambos (MZ e PV) eram mastur­bações intelectuais de ativistas inter­néticos movidos a leite de pera, ovomaltine e generosas baforadas de mari­juana. Estava enganado (eu me engano muito, mas raramente alguém se importa de me mostrar isso). Embora previsto e previsível, o refluxo do MZ era parte de um processo. Depois de se apropriar das ideias de Jacque Fresco e Roxanne Meadows, as pessoas por trás do MZ passaram a ter um conjunto bastante grande de ideias e propostas, a ponto de poderem se caracterizar como um tipo de partido político ou religião — só não tinham projeção social para isso, porque o MZ era tudo menos receptivo. Então era neces­sário tirar de cena o MZ e passar à fase seguinte do projeto. E vocês repararam que a modinha anarcomiguxa começou a criar força à medida em que o MZ perdia força? Vocês acham isso coincidência?

    Poderíamos resumir dizendo que o filme Zeitgeist prepara caminho para uma ideo­logia direitista extremamente reacionária poli­ti­ca­mente, ultraliberal no sentido econômico. Faz isso desacre­di­tando o cris­tianismo, que oferece uma mensagem social que pode ser usada para defender um socia­lismo que não seja ateísta. Desa­credi­tado o cristianismo, é possível insurgir contra todas as formas de cole­ti­vismo e preocupação social sem o risco de vê-las legitimadas pela religião. Depois Zeitgeist apresenta o estado como inimigo do povo, o que legitima o ataque ao estado como uma guerra liber­tadora — ainda que boa parte das garantias de direitos só existam através do Estado. Por fim, lança dúvidas sobre o sistema econô­mico existente, preparando caminho para as teses da escola austríaca e seu ultraliberalismo.


    Por isso eu digo que o movimento anarco­mi­guxo não existiria sem que Zeitgeist tivesse existido. A modinha anarco­mi­guxa inclui quatro elementos centrais:
    1. pensamento individualista
    2. radicalismo da ação política
    3. o ultraliberalismo econômico
    4. dicotomia maniqueísta

    O individualismo exacerbado, a ponto de alguns usarem mesmo o termo egoísmo e se negarem qualquer responsabilidade sobre as conse­quências de seus atos sobre outrem (ou melhor, conforme correção enviada por um leitor abaixo: qualquer obri­gação de agirem em benefício de outrem), deriva das obras de Ayn Rand, romancista americana de origem russa, auto­intitulada filósofa (embora suas obras sejam livros de ficção).  Este tipo de postura, obvia­mente, induz ao radica­lismo, pois uma filosofia destas fatal­mente resulta em um pequeno número de satis­feitos e grandes massas de explo­rados. Nas obras de Rand isso redunda em dita­duras que subjugam as massas, destroem suas formas de organização solidária (sindicatos, por exemplo) e impõem um tipo de governo «dos melhores». Defensores mais modernos e menos deslavados, que não teriam coragem de, como Rand, admirar um estu­prador e esquarte­jador de meninas, preferem propor a coisa em termos mais pala­táveis, suge­rindo uma tecno­cracia ao exigir que os gover­nantes sejam «preparados». Alguns chegaram a exigir pré-requisitos para o exercício da adminis­tração pública tão elevados que pratica­mente nenhum líder mundial se qualificaria.

    Percebe-se, clara­mente, que as teses anarco­mi­guxas (ou minar­co­mi­guxas, para agradar a alguns mais específicos) formam um todo coerente, embora trazidas da obra de dois autores de origens tão diversas: Mises um lambe-botas dos aristocratas do Império Austro-Húngaro que foi ado­tado como guru nos EUA na época do macar­thismo e Rand uma judia russa dotada de um forte senti­mento anti­popular, antis­sindical, antis­social e anti­ético (no sentido de que negava uma ética comum à cole­ti­vidade, propondo um egoísmo racional que, logicamente, só seria ético para quem a adotasse). Esses autores possuem suas idios­sincrasias: o ateísmo egoísta de Rand e o mani­queísmo into­lerante de Mieses poderiam causar certos atritos com persona­li­dades mais sofis­ticadas ou mais religiosas. Isso explica o filme Zeitgeist.

    Se pensarmos que havia, desde o início, a intenção de estimular o surgi­mento de uma «opinião pública» girada à direita e que os deten­tores de tal inten­ção perce­beram que isso poderia ser feito apenas através da subver­são da ética, insti­lando um egoísmo cuja justi­ficação mais acessível estava na obra de Rand; percebe-se a neces­sidade de aplainar as arestas da perso­na­li­dade desta para torná-la mais aceitável ao grande público. Em outra época uma pessoa como Rand seria tachada de epítetos desa­gra­da­bi­lís­simos. Particular­mente proble­mático seria o seu ateísmo.  Além do mais, uma crítica defini­tiva ao socia­lismo não pode ser feita sem se ter primeiro desa­cre­ditado o cristia­nismo, devido às muitas seme­lhanças existentes entre as propostas sociais cristãs contidas na Bíblia em si e aquelas teorias avan­çadas pelos marxistas.

    Então, quem criou o filme Zeitgeist fez uma parte para «provar» que o mito de Jesus é «falso», o que serviu para esti­mular o surgi­mento e popu­la­ri­zação de um tipo de «ateísmo miguxo» baseado na revol­tinha e em doses cavalares de igno­rância, leite de pera e ovo­mal­tine. Daí, quando é apre­sentado às ideias de Rand, não acha problema algum o ateísmo dela, acha até vantagem. O neo-ateísmo, voltado para a direita, não deriva do ateísmo histórico, tradicionalmente de esquerda, mas dos delírios egoístas de Rand, que leu Nietzsche, entendeu mal e o perverteu de forma a justificar sua revolta pessoal contra o Estado soviético.

    As outras partes do filme atacam o sistema econômico. Elas são, de fato, o objetivo central do filme. A primeira parte é só uma isca para ateus revol­tados. O anar­co­mi­gu­xismo propaga a ideia de que um «estado mínimo» seria mais pacífico, princi­pal­mente porque não poderia coagir os seus cidadãos (que, diga-se de passagem, estariam armados até os dentes, com todo tipo de armas de fogo que pudes­sem comprar). Isto explica porque o primeiro filme fez tanta força para provar que um órgão do governo, a CIA, planejou e exe­cutou o atentado de 11/09/2001. Ao organizar um atentado contra o povo, o Estado se revela «o que é»: inimigo do povo. Então o povo deve enfra­quecer o Estado para libertar-se (por isso os anar­co­mi­guxos se dizem «libertários»).


    A suposta paz de que se desfrutaria com a eliminação, ou pelo menos a inanição do Estado, é tão irrealista que os próprios anar­co­mi­guxos admitem que a função de polícia teria que ser mantida, a fim de poder garantir a «ordem social». Uma ordem social opres­sora mantida por uma polícia a serviço de uma elite egoísta não me parece algo muito liberto, mas os liber­tá­rios não estão interessados em libertar a todos, apenas a si mesmos. Então faz sentido.

    Finalmente, temos algo bem mais explícito, que é a relação entre a crítica dos «austríacos» à moeda fiduciária e aos bancos centrais, encon­trada quase ipsis litteris na terceira parte de Zeitgeist, na qual temos a «revelação» de que o dinheiro que conhece­mos não possui valor intrín­seco (ó, que descubrida!) e que a função dos bancos centrais é inter­mediar o endi­vi­da­mento do Estado. De certa forma, sim, mas esta inter­me­diação deveria ser no sentido de controlá-lo. Engraçado que os anar­co­mi­guxos são contra os controles estatais, mas protes­tam contra o endi­vi­da­mento descon­tro­lado do Estado, que é causado justa­mente pela elimi­nação de regu­lações. É uma valsa do austríaco doido isso aí.

    Vemos, então, que as três partes prefiguram. Colocando tudo em um caldeirão e deixando fermentar, perce­bemos que alguém, em algum lugar, concebeu Zeitgeist como a semente de um movi­mento direitista ultra­liberal suposta­mente espon­tâneo, mas de fato diri­gido difusa­mente através de vídeos virais e sites de refe­rência (como o Instituto Mises). Isto é o astro­turfing de que falei. Para isso atacou a religião cristã, preparando terreno para a aceitação das ideias de Ayn Rand (que são essen­cial­mente anticristãs e, por isso mesmo, também anti­co­munistas). Ao mesmo tempo criou a teoria de que o atentado de 11/09/2001 teria sido promovido pelo governo ame­ri­cano, a fim de fazer com que muitas pessoas passassem a des­confiar do governo enquanto insti­tuição. E por fim, difundiu a men­sagem de que o dinheiro não tem valor intrínseco e que os gover­nos se endi­vidam inde­fi­ni­da­mente, preparando-se para enfrentar a crise ine­vitável, durante a qual os valores liberais seriam postos em xeque.

    Em relação às teses do filme, deve-se dizer que se elas fossem intei­ra­mente absurdas elas não teriam credi­bi­li­dade. Elas são falsas não porque são absurdas, mas porque mis­turam absurdos e verdades, de forma que um conta­mina o outro. O absurdo reduz a credi­bi­li­dade do que é verdadeiro, e a verdade empresta valor ao que é absurdo. Em relação a Jesus, por exemplo, é verdade que ele é um mito. É mentira que esse mito não tem conexão com uma figura histórica real. É verdade que este mito tem origem helenística, influ­en­ciada pelo judaísmo, e não judaica. Mas é mentira que seja pura­mente um culto astro­lógico. É verdade que Jesus foi miti­fi­cado usando elementos comuns e arque­típicos. Mas é mentira que havia um protótipo de «Deus sofredor» no qual Jesus, Dionísio, Hórus e Adônis estariam compre­endidos. É verdade que vários ele­mentos da biografia de Jesus se base­aram nas biografias de outros perso­na­gens de outras mitologias. Mas é mentira que algum perso­na­gem tenha todos os elementos da biografia de Jesus (e se tem, não é Hórus o melhor modelo, mas Hércules). Não me atrevo a comentar demais sobre as outras duas partes, porque a minha área é a História. Mas suponho que também nelas impera esta mistura indis­cri­mi­nada de verdade e mani­pu­lação deslavada. Existem boas fontes na internet para se pesquisar isso, mas eu não preciso pesquisar, porque pelo dedo se conhece o gigante.

    Depois de ter difundido esse conjunto aparentemente desconexo de ideias, os idea­li­za­dores do Zeitgeist descobriram o Projeto Vênus, com suas ideias de tecno­cracia futurista e governo mínimo, baseado em «cidades susten­táveis». Ao mesmo tempo começou a bombar na internet o conceito das «cidades-estado» (charter cities), proposto pelo cien­tista polí­tico ame­ri­cano Paul Romer. Tanto as cidades sus­ten­táveis de Jacque Fresco quanto as cidades estado de Romer seriam uni­dades autô­no­mas, fechadas em si. Comu­ni­dades isoladas e autos­sufi­ci­entes como Galt's Gulch (o refúgio dos super homens de Ayn Rand, em A Revolta de Atlas). A separação entre o Projeto Vênus e o Movimento Zeitgeist indica que, de fato, essa união não foi nunca essencial: o Projeto Vênus era esquer­dista demais em suas preo­cu­pações sociais. A separação era esperada. No entanto, o Projeto Vênus e a difusão do conceito de cidades-estado tiveram sua função: criar a impressão de que existe na aca­demia um pensa­mento liberal minar­quista relevante e que não é carac­te­ris­ti­ca­mente vinculado com a direita.

    O conceito básico envolvido é a minarquia, a diminuição do poder do Estado até ele se tornar mera­mente um instru­mento de orga­ni­zação ao nível local e básico, algo suposta­mente melhor do que o grande estado que conhe­cemos. Quando tudo isto alcançou uma massa crítica, ao se tornar viral na internet, os movimentos ori­gi­nais foram aban­do­nados porque já se havia criado um estado mental recep­tivo à propo­sição das ideias inicial­mente aven­tadas pelo Zeit­geist e pelo Projeto Vênus. Foi então que se começou a ouvir falar de Mises e da Escola Austríaca e o governo de Honduras, fruto daquele golpe canhestro patro­cinado pelos EUA, resolveu criar duas cidades estado no padrão de Romer para testar sua hipótese. São várias fren­tes de batalha simul­tâneas, todas bombar­de­ando a ideia ultraliberal no fim.

    Conforme se nota no gráfico forne­cido pelo Alexa.com, ao longo de quase todo o ano de 2011 há um aumento (não muito regular) dos aces­sos ao site www.mises.org, a nave mãe do movi­mento anar­co­miguxo. Em 2012 já se nota um decrés­cimo sig­ni­fi­ca­tivo, pois parece que, enfim, as pessoas não gos­ta­ram muito da verda­deira face do que estava por trás da modinha. Pelo menos não a nível global. Mas há algo dife­rente  a se notar quando ana­li­samos o mesmo gráfico em relação ao capítulo bra­si­leiro do Instituto Mises.

    Aqui a coisa é diferente, enquanto lá fora os acessos ao Insti­tuto Mises estão caindo, entre nós parece haver um inte­resse cres­cente nas ideias ultra­li­berais da Escola Austríaca. Enquanto nos anos anteriores os acessos pouco pas­sa­vam do traço, em 2012 , espe­cial­mente nos últimos meses, ocorre um cres­ci­mento bastante claro, a ponto de o tráfego brasi­leiro, sozinho, quase igua­lar o da matriz ameri­cana. Evi­den­te­mente o movimento anar­co­mi­guxo inter­na­cional deu chabu, mas anda bom­bando no Brasil.

    E isso nos leva a… essa tentativa ridícula de se criar de novo como partido a Aliança Reno­vadora Nacional (Arena), o espan­talho ide­o­ló­gico que dava cober­tura pseudo­par­ti­dária à dita­dura mili­tar bra­sileira. Não teríamos chegado ao ponto de se propor aber­ta­mente a recria­ção da Arena se não tivesse acon­tecido antes um longo pro­cesso de pre­pa­ração. A ideia de uma direita total­mente des­co­nec­tada de pre­ocu­pa­ções sociais, aven­tando uma meri­to­cracia que não exis­tiu nunca. Isso só está acon­te­cendo porque há pelo menos uns cinco ou seis anos a menta­li­dade do povo vem sendo pre­pa­rada por con­te­ú­dos difun­di­dos digi­tal­mente para legi­ti­mar as teses da direita mais extrema.

    Perceberam aonde quero chegar: alguém em algum lugar teve a boa ideia de tentar criar uma geração de jovens reaças a fim de dar subs­tância a um movi­mento rea­cio­nário. Isto era muito neces­sário, tendo em vista as suces­sivas crises do capi­ta­lismo a par­tir dos anos oitenta, aliadas ao cres­ci­mento de certas eco­no­mias emer­gentes, o sucesso de pro­je­tos que confli­tam com o pen­sa­mento esta­be­lecido (como Argen­tina, Islân­dia e Vene­zu­ela) e também a orga­ni­zação para­lela dos países peri­fé­ricos (como os BRICS). Estes desen­vol­vi­mentos ame­açam o con­senso capi­ta­lista e liberal, que triunfou com a queda do comu­nismo em 1989, especial­mente agora que a Europa está em crise também.

    O fascismo se alimenta de crises. Não é surpre­endente que justa­mente Grécia e Espanha estejam vendo crescer seus movi­mentos de ultra-direita (Aurora Dourada e Falange Católica, respec­ti­vamente). Mas o fas­cismo também pode ser utili­zado para insu­flar insta­bi­li­dade em países que se quer deses­ta­bilizar — e me parece muito claro que há um inte­resse em deses­ta­bi­lizar as insti­tui­ções brasi­leiras, já que em vez de alinhar-se aos inte­res­ses pre­do­mi­nantes o Brasil pre­fe­riu aproximar-se de Venezuela, Argentina, Rússia e outras ovelhas negras.

    As ideias ultraliberais e fascistóides parecem não ter sido muito bem sucedidas lá fora, onde as pessoas são, em geral, mais bem infor­madas do que aqui — e menos inte­res­sadas em maca­quear os ian­ques. Somente estão funcionando em países acu­ados por crises eco­nô­micas extre­mas, como os citados. Mas entre nós, os boto­cudos, todo espe­lhinho que venha de fora parece o máximo, mesmo essas ide­o­logias conce­bidas para nos fazerem mal. Isso explica por­que, fora a Guatemala, citada pelos próprios mise­anos como exemplo de país onde a Escola Austríaca é ensi­nada como dou­trina main­stream, o Brasil seja um dos países onde o inte­resse pela babo­seira pseudo­cien­tí­fica da Escola Austríaca esteja ganhando popu­laridade.

    E simultaneamente querem refundar a Arena, cri­mi­na­li­zar a polí­tica (jul­ga­mento do Men­sa­lão) e usar o terror como jus­ti­fi­ca­tiva para o endu­re­ci­mento (vio­lência em São Paulo). O ovo da serpente está chocando. E há polí­ticos opor­tu­nistas esquentando-o, pen­sando em votos. Ou pisamos logo nele, ou em breve esta­remos fugindo de uma cobra bem venenosa.

    A Crítica Anarcocapitalista ao Estado

    A posição anarcocapitalista é de uma inépcia total. Porque parte do princípio de que o mundo é simples (ele sempre é, se você deixa de lado os fatores que o complicam) e que, portanto, seria possível existir um Estado simples para administrá-lo. Veja bem que eu não estou desconsiderando totalmente, como inepta, a posição minarquista: apenas acho que um Estado simples deve, também, ser pequeno. Mas se for pequeno, só poderá ser pequeno se todos os demais também o forem. E mesmo que todos sejam, eventualmente alguns se aliarão, para usufruir da vantagem real de serem maiores unidos. Então a existência de Estados grandes é uma realidade dada, com a qual temos que nos conformar — tanto quanto o capitalismo o é. Quaisquer alternativas propostas são utópicas.


    Veja bem, você diz que o Estado somente deve garantir a segurança de uma pessoa contra as outras na questão da força bruta. Isto, claro, parte do princípio de que o Estado foi criado para proteger os cidadãos — o que é uma compreensão errada da História herdada de Thomas Hobbes (estou educado hoje, pode me chamar de miguxo). O Estado não surgiu para proteger os indivíduos uns dos outros. Ele é uma extensão da tribo (ou clã), que é uma extensão da família. A família (no sentido estendido e originalmente poligâmico) surge para proteger as crias (e em certa medida os seus membros adultos) contra os predadores e contra outras famílias. Você vê isso funcionando ainda entre os macacos antropóides. O clã (grupo de famílias) e a tribo (grupo de clãs) surgem para proteger as famílias contra outras famílias (você não vê mais isso entre humanos, só lê em livros de História, e os macacos ainda não chegaram a esse ponto). Não existe aí uma preocupação com o indivíduo, mas com a sobrevivência coletiva. A individualidade é uma invenção relativamente recente na História.

    Quando você tem clãs e tribos, as famílias passam a alimentar-se e defender-se com mais eficácia: surge o pastoreio (você não pastoreia gado sozinho), a agricultura (ainda transumante, mas já importante e precisando de trabalho especializado). É em algum ponto por aqui que temos o surgimento da língua e da religião, que explicam e justificam a existência dos clãs e suas regras (clã X não casa com clã Y, um clã não briga com outr etc.).

    O Estado surge onde desafios grandes se impõem: observe que o Estado surge inicialmente nos lugares onde a sociedade só pode existir pela união contra as forças da natureza. Cheias do Nilo, do Tigre/Eufrates, do Indo, do Bramaputra, do Yang-Tse. Onde não existe essa necessidade de grande coordenação a sociedade surge tardiamente. Sim, esse determinismo geográfico é puro marxismo, mas você tem toda liberdade para me arranjar outra explicação para esta incrível coincidência entre agricultura dependente de irrigação e surgimento de civilizações. Cento de cinquenta anos de determinismo geográfico marxista estão aguardando serem derrubados por você. Não quero, porém, ser dogmático. O determinismo geográfico marxista não é uma explicação universal para tudo (embora ele explique, por exemplo, por que não se pratica muita agricultura na Groenlândia e porque a navegação não foi inventada pelos mongóis).

    O contratualismo (um termo horrível e equivocado para descrever um fenômeno real) reflete esta necessidade: as pessoas não estão juntas porque alguém as obriga, mas porque, desde a pré-História, quem estava junto ficava vivo e os outros não. Ser banido era uma sentença de morte piorada: o cara morreria sozinho e ainda deixaria de ser contado entre os «espíritos» da tribo.


    Existe um erro fundamental do anarcocapitalismo. Um erro realmente boçal. O erro foi cometido por Ayn Rand, que leu Nietzsche e não entendeu. O individualismo de Ayn Rand é uma bastardização do conceito nietzscheano do «homem superior». Mas esta descendência depende de um erro de tradução. Que beleza você criar uma filosofia porque um tradutor errou. Nietzsche não era um egoísta no sentido hoje aplicado pelos anarcomiguxos, ele não se insurge contra a sociedade em si, mas contra um tipo específico de sociedade, contra uma cultura abordagens paliativas dos problemas.

    Um bom exemplo disso está no «Assim Falou Zaratustra». Ao comentar sobre as esmolas dadas ao mendigo, o filósofo afirma que nada é tão «sujo» (no sentido ético) do que dar ou receber esmolas e que o ato de «caridade» constrói, de fato, uma relação de inveja e de ressentimento (do lado de quem recebe) e de falsa santidade e auto elogio (da parte de quem dá), pervertendo as virtudes de ambos. Para evitar isso, Zaratustra propõe que sejam definitivamente abolidos os mendigos. Muitos leitores superficiais identificam na proposição uma convocação ao genocídio dos pobres (e muita gente na internet já deve estar urrando, sem ter lido o livro), mas o contexto é claro: É preciso acabar com a instituição da mendicância, não com os mendigos fisicamente. É preciso evitar que as pessoas sejam reduzidas à mendicância, não matá-las quando estiverem nas ruas. É preciso construir uma sociedade na qual não haja mendigos, ou haja tão poucos que seja possível atacar o problema topicamente.

    Nietzsche não propôs nada parecido com esse endeusamento do ego que a Rand propôs (e que foi exacerbadoi ainda mais por seus seguidores anarcomiguxos). Ele propôs um hovo homem, sim, um «Übermensch», mas este ser hipotético não seria um indivíduo isolado e melhor que os outros, seria um homem que alcançou a compreensão e o pertencimento a uma humanidade melhor. Melhor não porque restrita a privilegiados, mas porque resultante da abolição dos valores corrompidos da sociedade ocidental, doente de uma «mentalidade de rebanho». Rand provavelmente não sabia ler alemão (ou não se deu ao trabalho de ler) e não percebeu que Mensch não é um sinônimo de Mann e que, por isso, o sentido do termo empregado por Nietzsche não corresponde ao do ideal egoísta propalado por uma pseudo filósofa americana. Mann é homem/indivíduo enquanto Mensch é homem/pessoa, mas esta «pessoa» possui uma acepção sutilmente diferente da palavra portuguesa, mais no sentido de possuidor de qualidades humanas do que no sentido de pessoa enquanto indivíduo . O Übermensch não é um indivíduo superior, mas o membro de uma «humanidade superior».

    Desse erro total e incontornável cometido por Rand ao ler Nietzsche surge sua glorificação do egoísmo, que é uma filosofia de grande sucesso porque ela, afinal, ajusta os desajustados de forma que eles se sentem superiores sem que tenham de fazer qualquer concessão. É sempre uma ideologia de sucesso aquela que prega não haver necessidade de mudança e tudo que os calhordas querem é um motivo para se mostrarem como «bons» (no sentido social do termo). Rand ordenha essa «Vontade de Potência» de gerações de jovens inseguros (entre eles até o Neil Peart, baterista do Rush, hoje já curado) e cria um verdadeiro culto em torno de si (leia mais procurando referências na Internet, sobre as esquisitices envolvidas, incluindo os favores sexuais que exigia dos mais chegados).

    Ocorre que o egoísmo, ou seja, o individualismo levado às últimas consequências, é algo que só se tornou possível em nossa sociedade atual, na qual a família se reduziu ao núcleo doméstico (mesmo ele incompleto muitas vezes) e onde sucessivas gerações foram criadas na base da punição/recompensa em termos materiais, sem nenhuma educação moral ou conhecimentos profundos de filosofia. Esta ignorância é um grande espaço em branco, pronto para ser preenchido com qualquer ideologia simples e confortável. O resultado é o Dâniel Fraga (mas eu tenho uma teoria que ele está só trollando e em breve vai começar a pedir favores monetários e sexuais de seus seguidores) e toda uma geração de pessoas que se sentem bem como estão e padecem de um pavor de terem que, de repente, terem que lutar para mudar o mundo.

    Manifestações Inúteis de «Sofativismo» do «Movimento Ateu»

    Rejeitar «Deus Seja Louvado» das Notas de Real

    Todo ateu que se preze acredita piamente que vivemos sob um «estado laico» e que, por esta razão, qualquer manifestação da religiosidade hegemônica deve existir tão somente na esfera pessoal. Isso explica porque essa gente não tolera que nossas notas de real tenham a inscrição «Deus Seja Louvado», nelas instalada por um nosso ex presidente que não se notabilizou nunca por seu cristianismo. Como essa gente não tem latim (ou bufunfa) suficiente para impetrar um mandado de segurança contra o Banco Central e a Casa da Moeda, resolve cometer um ato pessoal de terrorismo para «mostrar o dedo» ao «sistema», na melhor tradição da rebeldia punk: suja, ineficaz, ininteligível, equivocada e contraproducente. Estou falando de hábito, muito festejado nas rodinhas ateístas nas redes sociais, de rabiscar nas notas a inscrição maldita.

    É um ato sujo porque emporcalha o nosso dinheiro, que já é um dos mais vilipendiados do mundo. É ineficaz porque alguns poucos idiotas fazendo isso com as vinte ou trinta notas que passam pelo seu bolso por semana não conseguem fazer ninguém notar que existe um «movimento» de rejeição ao Deus-Seja-Louvado. É ininteligível porque, mesmo se alguém perceber os rabiscos, dificilmente entenderá a mensagem de que «o estado é laico e esta inscrição viola os direitos constitucionais de isonomia entre os credos, ao não contemplar crenças não cristãs ou não monoteístas». Em vez disso, a pessoa pensará que um satanista porco estragou aquela nota. Isso, claro, é ótimo para os objetivos do «movimento ateu» — e explica porque o ato é equivocado e contraproducente.

    PODIA PIORAR? Sim, sempre pode. Se rasurar a inscrição já é uma atitude tosca, existe uma maneira de levar isso ao modo berserk: encomende um carimbo contendo uma tarja preta (para cobrir a inscrição) e uns dizeres explicando o porquê em poucas palavras («o estado é laico»).

    PORQUE É AINDA PIOR? Porque dificilmente as pessoas compreenderão o protesto. Continua sendo sujo, continua-se estragando o dinheiro, continua sendo irrelevante, continua sendo ininteligível porque quase ninguém sabe o que é «laico» e a maioria acha que «estado» se refere a Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, Pernambuco… 
     

    QUAIS OS RESULTADOS? As notas estragadas pelos dementes serão recolhidas tão logo passem pelas mãos de um caixa cuidadoso, em qualquer agência bancária. Serão encaminhadas ao Banco do Brasil, e posteriormente ao Banco Central, como «numerário não utilizável». Serão incineradas e substituídas por notas novas. Ao rasurar a inscrição, o ateu «modinha» apenas aumentou a despesa do BaCen com a manutenção do meio circulante.

    O QUE DEVERIA SER FEITO? Junte um bando de gente interessada e impetre um mandado de segurança contra o Banco Central citando o artigo constitucional que veda ao Estado estabelecer cultos religiosos (Artigo 19, inciso I da Constituição Federal). Ao inscrever «Deus Seja Louvado» no meio circulante o Estado está determinando que a divindade monoteísta seja cultuada, o que viola uma cláusula constitucional explícita. Se a ação for derrotada, então o estado não é laico, coisa alguma. Que tal mudar-se para os States? Oh, esqueci… «In God We Trust».

    Debates em Blogues ou Redes Sociais Ateístas

    Blogar é muito útil para quem é ateu. Pois é somente através da internet que muitas pessoas, vivendo em cidadezinhas ou em comunidades urbanas de mentalidade estreita, conseguem entrar em contato com outros que pensam igual, ou mesmo desabafar para o vento. Quem não é tão bom para escrever se conforma em visitar os blogues e páginas sociais de quem escreve e deixa lá seus comentários elogiosos. Trata-se de algo tão natural que as pessoas não percebem o quanto é inútil.

    É inútil porque, para falar a verdade, cada vez menos gente lê blogues. Tenho os meus já faz quase quatro anos e até hoje só ganhei treze dólares de AdSense e tive 28200 visitantes. Então ficar vociferando contra criacionistas, «crentelhos», pastores dinheiristas, «homofóbicos» ou testemunhas de Jeová em blogues como este (ou como aquele em que você está pensando, mesmo que ele tenha mais visitantes…) é como gritar para dentro de uma caverna. Ninguém importante vai ouvir e o máximo que pode lhe acontecer é levar pela cara uma revoada de morcegos.

    MAS PODE FICAR PIOR. Claro que pode. Tem gente que faz disso uma verdadeira cruzada. Só que, em vez de garbosos cavaleiros andantes lidando pela verdade, essas pessoas estão brandindo suas espadas enferrujadas contra inimigos imaginários. Chega a ser deprimente pensar que tem gente que gasta preciosas horas de sua vida «debatendo» contra crentes e criacionistas, que se orgulhe de «humilhar» os pobres «cristõezinhos». Como se esmagando baratas avulsas pudéssemos higienizar uma casa infestada de pragas. Não são moinhos de vento, não, amigo, são mesmo gigantes. E dê um abraço no Sancho Pança.

    PORQUE AINDA É PIOR? Porque o criacionista não é um ser maligno em si, ele é fruto de um sistema que precisa de idiotas desinformados, convencidos de que suas certezas superficiais o tornam especial. Esse é o tipo de gente que se alista em exércitos e enfrenta o canhão do inimigo com uma baioneta na mão, que encara doze horas de chão de fábrica durante a semana e ainda vai torcer pelo seu time no domingo. Tire desses pessoas sua ilusão de que «alguém lá em cima gosta de mim e odeia meu patrão» e você terá uma revolução. Só que todo mundo já entendeu como funciona esse troço e sabe muito bem que é só não adubar o chão que a sementinha vermelha não brota. Se você realmente quer que existam menos criacionistas e menos crentes em geral, precisa provar ao «sistema» que é possível hipnotizar as massas usando outra cenoura. Enquanto as elites estiverem convencidas de que o povo sem religião vai cantar a Internacional pelas ruas, continuará estimulando esses ridículos pregadores que tentam nos convencer de que uma mulher realmente pariu caveirinhas de «prástico» porque se afastou dos caminhos do «sinhô».

    QUAIS OS RESULTADOS? Quanto mais virulentos, mais folclóricos se tornam esses paladinos do ateísmo. Além do ridículo pessoal eles conseguem fazer a reputação justamente daqueles a quem pretendem neutralizar. Existe uma razão pela qual biólogos «de verdade» não debatem contra criacionistas em lugar algum, e é a mesma razão pela qual você não joga xadrez com uma pomba. Dawkins explicou isso muito bem ao se negar a debater com William Lane Craig: «tal debate ficaria muito melhor em sua biografia do que na minha». Ao aceitar debater contra pessoas obviamente despreparadas você facilmente aparece como um vilão orgulhoso, no dia em que se deparar com uma pessoa preparada, mas mal intencionada, poderá não conseguir uma vitória tão fácil e então esse seu «engasgo» será contabilizado como «vitória» pelo seu oponente. Se William Lane Craig está até hoje cantando vitória porque Dawkins «não teve coragem» de debater contra ele, imagine o que não estaria fazendo se ele conseguisse fazer uma pergunta que o biólogo britânico não soubesse responder… 
     

    O QUE DEVERIA SER FEITO? Primeiro, vá estudar. Se já estudou, pense em começar a compartilhar conhecimento (e não patadas). Ajude a divulgar conhecimentos históricos, científicos e filosóficos para quem deles precisa. Torne-se um professor ou então voluntarie-se em alguma ONG ou cursinho. Seja respeitoso com essas pessoas: ignorância não é falha moral. Quando você conseguir aumentar sua cultura geral, perceberá que elas terão mais autonomia intelectual e, mesmo que nunca se tornem ateístas, pelo menos vão aprender a respeitar melhor modos diferentes de pensar e de seguir pastores folclóricos com chapelões ou gírias cafajestes envolvendo falsas dicotomias sexuais porque deixarão de acreditar que o Ser «Oni-Fodão» que criou o universo precisa de dinheiro e tem uma estranha preocupação com o uso que fazem de seus orifícios corporais.

    Ler o Cânone do Neo-Ateísmo Moderno Contemporâneo e Atualizado

    Não importa se Hitchens escrevia sob uma perspectiva rigidamente eurocêntrica, se Dawkins argumenta para um público familiarizado com a cultura britânica, se Sam Harris é um chauvinista americano, etc. Não importa. Somente pela leitura das obras mais recentes dos Grandes Ateus de hoje é que você se torna um ateu de verdade. Quem não leu nenhuma destas obras sequer tem o direito de opinar em voz alta, no máximo comentários curtos e respeitosos no blogue, nunca contestando o genius loci.

    MAS PODE FICAR PIOR. Validar o posicionamento político e filosófico de uma pessoa com base no que leu é imaginar que as pessoas só podem chegar ao posicionamento x através da leitura, nunca por meios autônomos. É negar a autonomia intelectual que os ateus supostamente, muito supostamente, defendem. É transferir a responsabilidade pelo pensamento aos grandes centros filosóficos que, curiosamente, escrevem em inglês, a língua que tanta gente aprende bem em cursinhos pelo Brasil afora. Isso se transforma em idiota berserk quando a vítima, tão bem educada por tantas leituras úteis, começa a defender a primazia dos States e seus valores, preconizando que façamos exatamente como a elite americana propagandeia que deveríamos fazer. Lavagem cerebral auto induzida pela leitura acrítica de obras de qualidade variável, de autores muitas vezes comprometidos com a defesa dos interesses das sociedades em que estão inseridos. Esta história de «cidadão do mundo» é uma forma de dourar a pílula do imperialismo para os colonizados engolirem.

    PORQUE É PIOR? Porque o «libertarianismo» que anda tão em voga nada mais é do que uma ideologia de extrema direita que descende do vigilantismo, do Macartismo, da Ku Klux Klan, dos sobrevivencialistas e do Tea Party. Esses caras negam a própria civilização ocidental, ao negar os valores sobre os quais se assentam as poucas coisas boas que temos (ou achamos que temos): a solidariedade social. Essa gente quer abolir a aposentadoria, acabar com as garantias trabalhistas, acabar com os impostos, o diabo. Consideram o Estado o seu maior diabo. Quem come desse feno com a boca boa não percebe que o Estado de fato nunca deixará de existir: essa pantomima toda é só um jogo de cena para justificar o desmonte das garantias sociais, já que estamos chegando ao fim dos tempos em que era possível sonhar com uma prosperidade universal. Entrar nessa onda de libertarianismo é como chegar numa Assembleia Geral da ONU representando seu país de cidadãos barbados e turbantados usando um cartaz escrito «Bomb Us Next».

    QUAIS OS RESULTADOS? Um bando de gente que se acha inteligentinha porque comprou e leu, ou leu sem comprar, alguns livros que a maioria não se interessa em ler.

    O QUE DEVERIA SER FEITO. Estudar a história do pensamento político humano. Um bom livro de «História da Filosofia» e alguns exemplares da coleção «A Obra Prima de Cada Autor» da Martim Claret já seria de boa ajuda.

    Uma Mentira, Se Mil Vezes Repetida

    Entre a esquerda e a direita, existem diferenças tão essenciais que nunca é demais repetir. A esquerda não se envergonha de ser a oposição a «tudo que está aí» e sabe muito bem que há necessidade de reformas profundas na sociedade, na cultura e na economia. Enquanto isso a direita procura justamente negar o diagnóstico (luta de classes) para negar os mecanismos (revolução, reforma) a fim de preservar o status quo a todo custo. Existe, porém, um tipo de direita que vai ainda mais longe: não contente em preservar o que aí está, procura fazer regredir aquilo que já mudou.

    Nós, que somos de esquerda, chamamos aos direitistas do primeiro tipo «conservadores» e do segundo, «reacionários».  Um reacionário é um saudosista dos «bons tempos» do capitalismo, aquela época heróica em que os homens eram homens, as garantias trabalhistas não existiam e lugar de mulher era na cozinha.

    Limites do Reacionarismo


    Obviamente a ideologia reacionária não encontra muito eco na sociedade como um todo. Só mesmo um trabalhador demente empunharia um cartaz defendendo a «flexibilização» dos direitos trabalhistas, por exemplo: «Abaixo as Férias», «O Salário Mínimo Afronta a Liberdade Econômica», «Pela Liberdade de Jornada da Trabalho», ou coisas assim. Um trabalhador que defenda isso abertamente é um boçal tão fenomenal que sequer existe: as pessoas que aparecem na internet defendendo essas coisas não sobrevivem de trabalho assalariado: são empreendedores, autônomos, profissionais liberais ou empresários. Uma vez que não usufruem das garantias trabalhistas, não veem problema algum em eliminá-las para a aqueles que delas gozam. Na verdade achariam é bom poderem contratar uma babá com salário de escrava.

    Os reacionários, porém, não apenas querem conservar as tradições, mas pretendem trazer de volta as que foram perdidas. Não falam abertamente em reescravizar os negros apenas porque o público em geral ainda não está pronto para isso, mas falam já em acabar com o sistema de saúde, privatizar a segurança e a educação, desregulamentar o sistema financeiro etc. Há algumas décadas o público não estava preparado para uma defesa aberta da privatização da segurança ou o fim da educação pública. Hoje em dia a internet pulula de defensores de ambas as coisas. Sinalizando que, se formos deixando, é inimaginável quantas conquistas os «libertários» tentarão reverter. Não custa lembrar que a Espanha franquista, obcecada em reverter tudo que cheirasse a comunismo, proibiu até o cooperativismo e só não acabou com as sociedades comerciais por cotas porque o naufrágio da economia deu um sopro de sanidade na cabeça dos responsáveis por aquela bagaça toda.


    Porém, como nem todo mundo está suficientemente bem informado sobre como funcionam os mecanismos ideológicos de propaganda, estes «ideais» da direita acabam encontrando eco na população em geral. Afinal, como supostamente disse o Tim Maia, o Brasil é um país em que além de puta gozar, cafetão sentir ciúmes e traficante ser viciado, o pobre é de direita. O pobre é de direita porque não acha que a direita seja o que a direita é. Ninguém começaria a fumar se em vez de cigarros fosse convidado a adquirir um câncer e nenhuma prostituta teria clientes se anunciasse doenças venéreas como seu atrativo. As pessoas compram o que veem, e levam de contrabando aquilo que a publicidade esconde. A direita vende ao povo um ideal «anticomunista» e o povo leva de contrabando uma ideologia que procura justamente oprimir o povo.

    A manipulação da direita procura justamente associar com a esquerda tudo que deu de errado e ruim na História. Isso inclui o nazismo: todo reaça que estaria no comício aplaudindo Hitler posta no Facebook que o nazismo foi «de esquerda» porque o partido se chamava «nacional socialista». Como se os nomes significassem alguma coisa além daquilo que pretendem aqueles que os escolhem. Não se vende maionese anunciando «colesterol em conserva».

    A verdade é que a direita não se mostra como o que realmente é: «conservadora» (ou até restauradora) de privilégios, mas mantenedora (ou recuperadora) de «tradições» e «valores». Mas tradições e valores não possuem valor intrínseco. Pensar assim equivale a afirmar que as coisas são certas ou boas simplesmente por serem antigas, o que é um raciocínio equivocado (falácia). A escravidão foi uma tradição muito antiga do Ocidente, assim como a opressão da mulher, a exploração do trabalho infantil e uma série de outras mazelas. Nem por isso ela foi mantida quando as pessoas se deram conta de seu absurdo, e nem por isso devemos ficar saudosos dos bons tempos do cativeiro. Prender-se aos absurdos do passado somente por serem tradições é uma atitude que só serve para atrasar as melhorias necessárias ao progresso da humanidade. Por isso mesmo o conservadorismo enfrenta limites teóricos e não pode assumir-se como valor absoluto, da mesma forma que o esquerdismo e a revolução.

    A Propaganda Reacionária nas Redes Sociais


    A direita utiliza preferencialmente os meios unilaterais de comunicação para difundir seu pensamento, ou melhor, as verdades emanadas das instâncias autorizadas a pensar. Direitistas só gostam de debates controlados, e mesmo assim preferem evitar. Gostam de comícios, de editoriais, de peças publicitárias. Você tem todo direito de ouvi-los, lê-los, assisti-los, assimilá-los, mas eles não permitem que retruque. Se você escreve para a seção de cartas do jornal, não será publicado. Se você telefona, a linha estará sempre ocupada. Se você comenta no blogue, será censurado. E se armar um fuzuê na comunidade/grupo/clã etc., será expulso.

    Esta semana tive contato com uma peça publicitária informal que está sendo utilizada para difundir o pensamento direitista. A peça é esta coisa xexelenta aí abaixo:


    Como tudo que emana da direita, pretende ser definitivo: «O Espectro Político Explicado». Não é uma opinião, é um «ponto» da lição. Você tem que decorar e repetir, não tem de questionar. A prova vai ser um questionário e você tem que saber responder tudinho de acordo. Se mudar uma vírgula perde décimos de nota.

    Esses Libertários Modernos


    Antes de passar a analisar cada um dos pontos, vale observar que esses «libertários» aí nada mais são dos que os velhos liberais clássicos, herdeiros diretos de Adam Smith e David Ricardo. Gente fina, que lutou contra a limitação das jornadas (por ferir a liberdade que o trabalhador tinha de vender sua força de trabalho), contra o salário mínimo (por ferir a liberdade de patrões e empregados para definirem «livremente» a remuneração da hora trabalhada), contra o auxilio maternidade (por obrigar o empreendedor a custear uma decisão pessoal da mulher, ao engravidar), contra a proibição do trabalho infantil (porque o trabalho «educa») etc.

    Esses nada mais são do que a única e verdadeira direita. Esses «direitistas» que estão postos no quadro são, de fato, centristas, aqueles que temperam a Lei da Selva (preconizada pelos «libertários») com alguma coisa da esquerda que se tornou impossível rejeitar e até mesmo os mais calhordas admitem que é bom.


    Os «libertários» não são ingênuos como parecem. Ingênuos são os que perpetuam esse discursos «descolado» na internet. Essas ideias vêm de instâncias superiores, onde se sabe muito bem que a livre competição entre pessoas e entidades que partem de condições diferentes é injusta. Mas esta livre competição significa, para eles, que a situação que já adquiriram continuará lhes oferecendo vantagem na competição contra os novos entrantes. Ser «libertário» da forma como descrito nesse quadro é defender o direito dos que já são ricos de não apenas continuarem sendo, mas continuarem dificultando outras pessoas que poderiam tonar-se.

    Quando o Estado se enfraquece, quem fica forte são justamente os que já detêm o poder: os trustes e os monopólios privados. Os «libertários» imperavam durante a primeira fase da Revolução Industrial e levaram a um tal nível de concentração da atividade econômica que que mesmo o país mais «livre» do mundo, os EUA, tiveram que intervir para controlar a moeda e quebrar alguns trustes. Foi a «livre iniciativa» da indústria do petróleo que impôs ao mundo os aditivos a base de chumbo, em vez do álcool anidro, apesar de serem mais caros e menos eficientes (ou melhor, por serem mais caros, independente da eficiência). E foi a «livre iniciativa» dos mercados financeiros que produziu todas as crises financeiras desde sempre. Mercados regulados sofrem menos crises.


    Um dos argumentos dos «libertários» é que o Estado, reduzido ao mínimo, não teria recursos para travar guerras. Portanto, um estado mínimo levaria à paz mundial. Nada mais falso: a história mostra que, para a guerra, o Estado sempre dá um jeito de obter recursos. A Holanda dos séculos XVII e XVIII, estado tão mínimo que nem tinha capital, travou guerras em pé de igualdade com todas as potências da época, contratando e pagando a preço justo o braço mercenário.

    Não vamos esquecer que já houve uma época em que o estado praticamente não tinha recursos financeiros e nem humanos para travar guerras, ninguém pagava impostos ao Estado, não havia leis limitando nada (só os costumes e os contratos). Essa época chamou-se «Idade Média».


    Na próxima semana analiso os argumentos do panfleto virtual acima.