Apologética e Revisionismo

Tomei hoje conhecimento da existência de um inacreditável blogue revisionista intitulado “Meu Professor de História Mentiu Para Mim”, que se propõe a fazer gracinha acusando o nosso sistema educacional de ser esquerdista.

O artigo em si não precisaria ser respondido, caso ele se limitasse a fazer tal “acusação”, visto que eu acredito e afirmo que existe mesmo tal tendência (apenas uma tendência, infelizmente) e que seria bom se o sistema educacional fosse mesmo esquerdista. Infelizmente o texto precisa de uma réplica pois:

  1. O esquerdismo generalizado do sistema educacional é um mito propagado pela direita: não apenas existem professores de todos os matizes ideológicos como existe uma polí­tica de conformação do sistema educacional aos interesses conservadores.

  2. As críticas que o artigo faz ao esquerdismo são de uma inanidade que ofende, trazendo mais afirmações pala­vrosas do que argumentos construtivos.

  3. O blogue “Meu Professor de História Mentiu Para Mim” é claramente revisionista, e isso é um problema grande.

Digo que ele é revisionista porque, mesmo que “ainda” não tenha começado a falar bobagens contra o Holocausto judeu sob o nazismo, ele tem o cheiro e a cor de um blogue que fatalmente falará disso. Revisionistas são desonestos por necessidade, escrevi sobre isso em 31 de julho de 2011, mas é sempre bom reiterar o que foi esquecido, se é importante: Há sempre novos ignorantes que ainda não sabem que a terra que gira em torno do sol. Então falemos do revisionismo do blogue.

Comecemos repetindo que o revisionismo é, essencialmente, uma falácia de ênfase. “Falácia” é um raciocínio que não segue a lógica. Um exemplo conhecido é “o mar contém água e sal, certos biscoitos contêm água e sal, portanto o mar é um biscoitão”. “Falácia de ênfase” é aquela que deturpa o argumento ao emprestar mais peso a uma parte da frase, de forma que a frase, mesmo correta, expressa o contrário do que está enunciado. Um exemplo é um verso muito infame do Falcão: “Não é verdade que mulher feia só serve para peidar em festa”. Como a segunda parte é enfatizada, as pessoas não atentam para a negação e a frase populariza o conceito de que feia só serve mesmo para peidar em festa.

Digo que o revisionismo é uma falácia de ênfase porque os revisionistas procuram nos convencer de que os únicos que buscam revisar o conhecimento histórico, quando, de fato, ele é continuamente expandido e revisado, inclusive com a ocorrência de frequentes e sensacionais reviravoltas, das quais um forte exemplo é a revisão do papel brasileiro na Guerra do Paraguai, nos anos 1990.

O revisionista não tem nenhum interesse, porém, em outras revisões, só naquelas relacionadas à sua ideologia favorita. Então, se a História não mostra favoravelmente seus heróis prediletos e seus princípios, ele põe em questão a metodologia histórica em si, para criar uma falsa controvérsia, com o objetivo de vender sua ideologia, apesar do que diz o conhecimento estabelecido. Tanto faz se o revisionismo de que falamos está focado no papel do Nacional-Socialismo alemão no que se convencionou chamar de “Holocausto” ou em outra ideologia de outro momento histórico. A mecânica do revisionismo é a mesma.

Os revisionistas possuem, evidentemente, interesses polí­tico: certos setores da direita querem apagar da memória humana os conhecimentos “inconvenientes” que tornam impopular a ideologia que se pretende difundir. No caso específico do nazifascismo, por exemplo, desejam que o povo esqueça que um dos piores crimes de guerra da História só existiu por causa das ideologias de extrema direita. Caso isto não se mostre possível, querem ao menos borrar essa imagem feia, confundir as pessoas quanto aos seus objetivos, ou ao menos argumentar que os crimes nazifascistas não foram tão diferentes de outros grandes crimes ocorridos em épocas anteriores. O “revisionismo” (entre aspas entendido como o revisionismo específico do nazifascismo e do “Holocausto”) faz parte, junto com o criacionismo, o fundamentalismo religioso e a negação do aquecimento global, de um processo ideológico maior: o negacionismo.

“Negacionismo” é a insistência em contestar, por motivos ideológicos ou interesses econômicos, conhecimentos científicos estabelecidos. Diferente de uma simples divergência metodológica ou de opinião, o negacionismo não é propositivo, mas exclusivamente negativo. A estratégia negacionista não é avançar uma teoria diferente, mas divulgar as “falhas” (reais ou supostas) das teorias atuais, para obter o descrédito do método científico. Um bom exemplo é o criacionismo, que procura questionar inconsistências da teoria da evolução para afirmar que ela é inválida, ignorando, porém, os aspectos em que tal teoria é consistente e permite fazer predições. O criacionista afirmará coisas absurdas, como a inexistência de “fósseis transicionais”, mas ignorará o fenômeno da resistência bacteriana a antibióticos.

Ora, da mesma forma que o criacionista questiona a biologia porque esta demonstra que a Bíblia não é factualmente correta, da mesma forma que um “revisionista” não aceita que a realidade ou significância do Holocausto porque ele demonstra que o nazifascismo é monstruoso, da mesma forma que os negadores do aquecimento global difamam a ciência porque ela envolveria uma quebra de paradigma econômico e político; desta mesma forma o apologeta se opõe ao conhecimento histórico: pois este mostra a Igreja e o cristianismo como instituições temporais e falhas, que não estão de forma nenhuma à altura das reivindicações de ascendência moral com que se apresentam ao público.

Algo assim acontece no blogue “Meu Professor de História Mentiu para Mim”. A diferença é que o revisionismo que se vê ali não está, pelo menos por enquanto, focado em negar o Holocausto e justificar o nazifascismo. Em vez disso, o blogue foca na limpeza de uma outra sujeira histórica que incomoda a muita gente por razões ideológicas: o papel do cristianismo (e da Igreja Católica em particular) naquilo que se chama genericamente de “A Inquisição” (que não foi de fato um fenômeno único).

No próximo capítulo, porque a Igreja e a História ficaram em lados opostos.

A Falibilidade dos Homens de Deus

Já faz um bom tempo que a Igreja Católica tem feito o que pode manter na sombra a parte de sua história que não lhe dá orgulho. Papas violentos, ladrões ou devassos; bispos envolvidos em vários tipos de imoralidades e maracutaias; guerras por religião; intromissão em assuntos temporais; dogmas estúpidos; etc. Sucessivas gerações dos príncipes da fé têm compreendido que é melhor botar uma pedra sobre o que passou, dizer que foi fruto de um tempo diferente e que o mundo e a igreja mudaram. Só que já não é tão fácil manter este silêncio no século XXI.

A dificuldade do silêncio explica que vozes se levantem e tentem defender o legado do cristianismo em geral, e o da Igreja Católica em especial. Existem bons argumentos para esta defesa, alguns inclusive brandidos por historiadores irreligiosos. O mais convincente é o argumento do anacronismo: não podemos julgar o passado de uma instituição a partir de nossa ética presente. Tal argumento não é suficiente, no entanto, para os fins religiosos. Uma entidade que se apresenta como detentora de uma ética absoluta (os “mandamentos de Deus”) não se salva com a desculpa de que os seus maus momentos do passado foram fruto das circunstâncias da época. Uma igreja detentora dos mandamentos de Deus precisaria saber o certo e o errado, independente da época. E não adianta dizer que os mandamentos são perfeitos, porém os homens que comandavam a Igreja falharam na missão de implementá-los. Tal afirmativa envolveria admitir que a Igreja é tão boa quanto os seus líderes, ou, em outras palavras, a Igreja em si não é santa e não salva.

Uma igreja que detém o conhecimento da vontade de Deus, e que dele recebeu as chaves do céu e do inferno, não pode, nunca, falhar. Tem de estar certa em todos os seus entendimentos teológicos, e precisa querer e poder implementar aquilo que é certo aos olhos de Deus.

Eis a armadilha na qual a soberba dos príncipes da Igreja a jogaram nos séculos passados. Homens que eram, falíveis e ignorantes, renderam-se ao orgulho e à ambição de poder desmedido, estabelecendo verdades e dogmas que tinham por objetivo consolidar seu poder temporal em um horizonte de tempo imediato. Nunca imaginaram, nem poderiam imaginar, que as transformações do mundo tornariam impossível manter esse conjunto de preceitos ad hoc com os quais subjugaram a humanidade em uma época na qual o conhecimento se mantinha sob o seu controle.