O Especialista em Helicópteros

Bateu o desespero na imprensa. Comprometida em bater no governo a todo custo, louca para ungir um político de oposição que derrube a situação, ela não hesita mais em nenhum tipo de manobra. Então, quando uma bomba atômica cai no colo de um de seus eleitos, fica evidente que o compromisso com a verdade, com a imparcialidade e com a notícia deixou de existir muito antes da virgindade da mãe do dono da revista. Afinal, não é mais possível esconder que o filho de um importante aliado do principal político de oposição hoje foi surpreendido pela apreensão de um helicóptero de sua propriedade traficando cocaína (daremos nomes aos bois aqui, "tráfico" é cognato de "tráfego", e, portanto, "levar drogas" é "traficar drogas"). E se não dá mais para esconder, o remédio é ironizar, é tentar achar furinhos por onde se possa inserir a dúvida, para que nada seja levado sério, tudo se esqueça, e esse pequeno detalhe seja varrido como pó para debaixo do tapete. E que imenso tapete vai ser preciso.

Esta semana o folclórico Reinaldo Azevedo resolveu pesquisar sobre helicópteros para tentar achar algo a dizer em defesa dos donos do "helipóptero". Sua pesquisa foi feita no lugar óbvio, o site do fabricante do modelo de helicóptero envolvido no caso. Sei disso porque achei o fabricante no Google e os dados conferem.

Com base no que achou lá, Tio Rei inventou uma estranha matemática para provar que o dito "helipóptero" jamais poderia ter transportado 445 kg de pasta base de coca. Afinal, matemática não se discute, não é?

Bem, matemática não existe. Números são apenas rótulos que damos a quantidades de coisas. Números nada significam em si mesmos, tanto quanto palavras não significam mais do que as próprias coisas a quem dão nomes. Se as palavras adquirem algum sentido extra material, e os números também, isto é uma espécie de misticismo que não se ampara nos fatos reais. E não estamos aqui discutindo filosofia, mas se um helicóptero voa ou não com 445kg de pasta base de coca.

Os números do Reinaldo devem ter sido retirados do site do fabricante. Se não foram, então os meus são melhores que os dele. A Robinson Helicopters dá os seguinte números ao seu modelo R-66:

  1. Peso Bruto Máximo: 1225 kg (dado fornecido corretamente pelo Reinaldo)
  2. Peso vazio aproximado (incluindo óleo e equipamentos padrão, informação que ele sonegou): 581 kg
  3. Tripulação: 1
  4. Capacidade: 5 (trata-se de um helicóptero de passageiros, ora pois)
  5. Combustível máximo: 224 kg (ok)
  6. Passageiros e bagagem com o combustível máximo: 420 kg (ok)

Quantidade de pessoas presas no voo: 2 (informação importante, anote isso). ISSO QUER DIZER QUE HAVIA TRÊS LUGARES VAZIOS. O próprio Reinaldo admite que o helicóptero estava "adaptado para cargas" (o que significa que ele não tinha os três assentos traseiros).

A carga máxima com bagagem considera 5 a bordo, não 2. Considerando 70 kg para cada pessoa (pilotos de aeronaves costumam ser levinhos) temos que o helicóptero teria uma capacidade restante de

1225 - 140 - 224 = 861 kg.

Nesses 861 kg temos que descontar 445 kg de cocaína e sobram 416 kg para a aeronave. Mas a aeronave pesa 581 kg. Estão faltando, portanto:

581 - 416 = 165 kg.

Se você vai transportar uma carga valiosíssima (como pasta base de coca) e tem três lugares sobrando, o que é mais racional fazer?

  1. Remover três assentos sem uso para levar mais carga
  2. Levar menos carga

Três assentos pesariam 165 kg? Facilmente. Esses assentos pesariam, cada um, no mínimo, 35 a 50 kg. Pois incluem bases de metal, forro, cinto de segurança, etc. No mínimo estamos falando de eliminar 100 a 120 kg. No mínimo. Podemos eliminar ainda mais se diminuirmos combustível. Se a autonomia do helicóptero é de 660 km e a maior distância percorrida foi, segundo o próprio Reinaldo, de 513 km, temos aí 150 km a menos. O próprio Tio Rei diz que 59 kg são suficientes para 173 km. Portanto, para 150 km precisamos de apenas 50 kg. Dos 165 kg que faltam, podemos reduzir 50 em combustível. E três assentos facilmente economizam 100 kg.

Agora a conta fechou para você?

Não, eu não sou mais inteligente que o Reinaldo Azevedo nem sou especialista em helipóptero.

A Argumentação Fascista

Chamo de “argumentação fascista” aquele estilo de debater que emprega o máximo artifício, para obter o maior efeito possível sobre o leitor. O argumentador fascista não quer que o leitor entenda o ponto, mas que capitule diante das estratégias argumentativas empregadas. Se no mundo real o fascista emprega a violência direta como meio para chegar aos seus objetivos, no mundo virtual transferirá um mesmo estilo ao seu texto, recorrendo a todo tipo de agressão e minimizando a sofisticação intelectual do texto.

A argumentação fascista é, então, uma forma de violência gráfico-verbal que tem por meta subjugar o leitor, em vez de convencê-lo. Existem várias formas de se argumentar de uma maneira fascista:

Parede de texto

A prolixidade pode empregada para pôr o leitor em uma situação de inferioridade intelectual aparente. Se não consegue compreender o texto, pela sua extensão e sua aridez, não conseguirá rebatê-lo eficientemente. A falha logo será usada pelo argumentador como uma “prova” de que o seu oponente não possui estatura intelectual suficiente para o debate, desacreditando-o sem que suas ideias sejam ouvidas no contexto.

Violência verbal

Sempre que o texto emprega de uma forma constante e repetitiva uma agressividade que parece gratuita, podemos ter certeza de que isto não é acaso. Os palavrões, desqualificações e ironias; tudo não passa de bullying verbal para intimidar debatedores. Alguns sentem receio porque são atingidos em sua autoestima ou se identificam com os rótulos usados para desqualificá-los. Por exemplo: o emprego de ataques pessoas indiscriminados contra pessoas que possivelmente tenham certas opiniões é uma forma de desestimular que interfiram (“todo mundo que pensa diferente é viado”). O uso de rótulos é uma maneira eficaz de esvaziar posições contrárias (“você só diz isso porque é comunista”).

Maniqueísmo

A prioridade da argumentação fascista, seja qual for o contexto, é a construção de consensos, em vez da busca pela verdade. O argumentador fascista busca, então, unir em torno de si os que já são simpáticos à sua causa. No passo seguinte ele coage os que pensam de forma semelhante, mas não idêntica, a abandonarem suas pequenas “heresias” e aderirem ao pensamento único. Por fim, tendo estabelecido um terreno seguro, o argumentador fascista é tentado a usar a força para silenciar posições diferentes e monopolizar o discurso. O processo todo se constrói com uma argumentação dualista de que “quem não está conosco é porque está contra nós”. Forçando o contraste, o fascista ressalta as identidades e suprime as nuanças.

Respostas prontas

Como diz o verso dos Engenheiros do Hawaii, na canção “Toda Forma de Poder”: o fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante fascinada. A cultura é a melhor arma contra o fascismo porque ela nos convence a não aceitar a fascinação do fácil. O fascismo pode ser, também, definido como um “facilismo”. O ódio do fascista à cultura é forte justamente porque a simplificação que o maniqueísmo oferece é desmascarada pelo conhecimento. Não é possível aceitar respostas fáceis quando você conhece a realidade em mais detalhes. Quem vê um arco íris não pode aceitar que o mundo seja preto-e-branco, mesmo que todas as construções visíveis tenham sido descoloridas. Então, quando um texto argumenta com excesso de repostas prontas e fáceis, podemos suspeitar que todas sejam falsas, ou em sua maioria.

Falsa autoridade

Citações são como calças, aqueles que fingem usar não podem enganar ninguém, a menos que se escondam. Quando você usa citações de maneira incorreta, basta que alguém bem informado leia, perceba a bestagem e poste um comentário. Então, se você só está engalanando o seu texto com citações para enganar ignorantes, precisará manter estrito controle sobre quem o lê e quem o comenta. Se o controle do primeiro tipo for menor (textos escritos já com a finalidade de compartilhar), então o controle do segundo tipo precisará ser exponencialmente maior. Textos contendo argumentação fascista geralmente são encontrados em blogues cujos comentários são controlados, fóruns onde a “fauna” é hostil, ou páginas que só aceitam reações via correio eletrônico.1

Um bom exemplo disso são os sites dos próceres da direita — Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho e os blogueiros da Veja. Na verdade, todo fórum da internet é um habitat potencial para a argumentação do tipo fascista, visto que agregam manadas de leitores cujo pensamento tende a coincidir com o divulgado localmente. O mesmo pode ser dito dos blogues, inclusive este. Então, é extremamente importante o leitor ter discernimento para não aceitar como autoritativo o que é apenas autoritário. Digo tudo isso para enfatizar que a presença de citações em um texto nada diz sobre seu embasamento. Quando você não checa as citações dadas, você aceita religiosamente o que está escrito. Mas quando você tenta checar, e percebe que todos os caminhos levam a lugar-nenhum, então pode se tranquilizar na certeza de que o texto emprega citações e referências apenas como uma forma de intimidar.

A Fascistização do conteúdo na internet

Tenho observado que essas técnicas de argumentação e arregimentação se tornaram comuns na internet. Empregam-na blogueiros de todos os matizes ideológicos (principalmente na direita, mas a esquerda não fica imune). Isso nos sugere que cada vez menos o conteúdo real da internet terá a capacidade de influenciar. Em vez disso, os blogues e sites se fetichizarão, valendo mais pela marca que vendem e pelas manchetes que divulgam do que pelos argumentos que realmente apresentam.

1 Um bom exemplo de como os fascistas fecham a porta para o questionamento pode ser visto ao vivo no blogue da “Universidade de Santa Catarina Conservadora”, onde um texto inacreditavelmente estúpido foi postado, mas ninguém pode comentar.

Corra, Kim, que a Polícia do Mundo Vem Aí.

Potências imperiais gostam de brincar de polícia com o mundo. Claro, no papel da polícia e chamando de ladrão quem esteja no seu caminho. Pode ser um regime realmente maligno, como a Alemanha nazista, ou um governo bem intencionado e absolutamente inofensivo, como a Nicarágua sandinista. Pode ser um regime realmente adversário, como a URSS, ou um simplesmente um amigo que tinha o defeito de se preocupar com o próprio povo, como a Guatemala de Árbenz.

No fundo a política internacional é um jogo sujo, baseado na mais abjeta e escrota hipocrisia. Para as potências hegemônicas, principalmente, princípios não existem, apenas conveniências. Pelo pretexto de combater uma “ditadura” comunista, os EUA apoiaram durante mais de uma década a ditadura comunista e genocida do Khmer Vermelho contra o governo de reconstrução nacional criado pela intervenção vietnamita. Diz que se importa com a democracia na América, mas patrocinou, a partir do final do século XIX, as ditaduras mais cruéis e caricatas da história de cada um dos países ao sul do Río Grande. Rejeita a legitimidade das eleições venezuelanas, atestada por observadores internacionais, mas teve um presidente eleito em um pleito marcado pela fraude e pela obscuridade e há menos de um ano abençoou um pleito mexicano com sinais evidentes de trapaça. E enquanto tenta erradicar o extremismo religioso talibã no Afeganistão, mantém a Arábia Saudita como “nação mais favorecida” de seu comércio, justamente o país de onde emana a maior parte do fundamentalismo islâmico de hoje.

Infelizmente, as pessoas se esquecem muito fácil desse passado de crimes dos Estados Unidos contra a soberania de outros países, esquecem das mentiras que inventaram para justificar intervenções nas quais o único interesse a se preservar era o de Wall Street. Agora a máquina de propaganda ianque está a todo vapor tentando criar um pretexto para aniquilar a deprimente Coreia do Norte, último reduto comunista tr00 deste planeta. E uma quantidade enorme de macacas de auditório senta e levanta ao ritmo ditado pela imprensa, aplaudindo e apupando conforme quem aparece tenha olhos amendoados ou não.


Para começo de conversa, vamos deixar estabelecido que este post não tem por objetivo nenhum tipo de solidariedade com a tosca Coreia do Norte, lugar aonde não quero ir morar (principalmente “morar”) nem no pior de meus pesadelos.1 E certamente se eu tivesse que escolher entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos para serem meus senhores, eu certamente preferiria os segundos. O objetivo deste post é demonstrar o funcionamento dos mecanismos que estão em ação neste episódio, e lembrar, através de paródia, um momento da história:

Primeiro foram atrás do Iraque,
e eu não disse nada porque não sou iraquiano.
Depois foram atrás do Afeganistão,
e eu não disse nada porque não sou afegão.
Então foram atrás de Honduras,
e eu não disse nada porque não sou hondurenho.
Então foram atrás da Tunísia,
e eu não disse nada porque não sou tunisino.
Então foram atrás da Líbia,
e eu não disse nada porque não sou líbio.
Estão indo atrás da Coreia do Norte,
e eu nada digo porque não sou norte-coreano.
Um dia virão atrás de nós,
e não haverá ninguém para dizer coisa alguma.

Existe um princípio na dinâmica da política internacional que diz que o inimigo é sempre bárbaro. Desumanizar o adversário faz parte do jogo. Isso se faz com palavras e com imagens, mas com palavras é melhor, porque elas atuam de forma mais subreptícia. Lembra do tempo em que se dizia que comunista comia criancinha?2

Houve uma época em que os britânicos chamavam os alemães de “hunos”, diziam que os cientistas do Kaiser tinham inventado uma arma terrível que envenenava os soldados à distância e que, se as potências centrais ganhassem a Grande Guerra, toda a Europa seria anexada ao Império Alemão.

Os hunos originais foram um povo de raça turca (ou mongólica, ou mestiça, ou negra, ou sabe-se lá o que) que atacaram a Europa Oriental no fim da Antiguidade. Os romanos os descreviam como comedores de carne crua, praticantes da automutilação, imundos, canibais etc. Quatrocentos anos antes as legiões romanas conquistaram a Gália e denunciaram a prática de sacrifícios humanos pelos druidas. Sacrifícios tão cruéis e desumanos que os pobres gauleses foram submetidos a um verdadeiro genocídio, alimentando por séculos os “circos” romanos, onde se sacrificava gente não a deuses, mas ao divertimento. Era obsceno que os gauleses sacrificassem virgens nos seus feriados. Era civilizado que os romanos sacrificassem todo tipo de gente a cada domingo.

Assim se repete a história desde sempre,  e sempre há um bárbaro novo cuja conquista se tem que justificar. Tal como Trajano pintou os dácios como monstros para poder roubar seu ouro, o império americano pinta os árabes como monstros para poder roubar seu petróleo. Certamente havia monstros entre os dácios e certamente os há entre os árabes. Mas maior foi a monstruosidade do genocídio romano, como maior é a monstruosidade dos genocídios em curso atualmente, no Iraque, na Líbia, na Síria, no Afeganistão e no Paquistão.

Quando o inimigo é fraco, às vezes nem precisa inventar muita coisa, pois a ação já terá sido concluída antes que a opinião pública tenha tempo de assimilá-la. Assim foi na Guatemala, na República Dominicana, em Granada… Mas o inimigo pode prolongar a ação, então é preciso preparar terreno. E aí é preciso inventar que ele tem “armas de destruição em massa”, “que ele é uma ameaça à paz internacional” ou que faz parte de um “eixo do mal”.

A Coreia do Norte é a bola da vez — o que significa que as baterias midiáticas ianques, tanto as próprias quanto as terceirizadas, atirarão à vontade contra o regime que se quer derrubar. Foi para vingar o 11 de Setembro e acabar com as “armas de destruição em massa” que se atacou um Iraque já exangue por mais de uma década de fortes sanções econômicas. Foi para acabar com o “terrorismo de estado” sudanês que se bombardeou o principal complexo industrial do país e se impôs um bloqueio econômico que levou o país ao caos econômico e à guerra civil. Foi para “Caçar Osama bin Laden” que se invadiu o Afeganistão e se matou mais gente que o talibã havia matado antes. Mas no fim das contas Saddam não tinha nenhuma das tais armas, a fábrica bombardeada era uma indústria farmacêutica que produzia principalmente remédios contra doenças tropicais, e Osama bin Laden estava escondido no Paquistão, país “amigo” dos Estados Unidos.

A única coisa que todos esses regimes tinham em comum era que, por serem detestáveis violadores de direitos humanos, ninguém se levantou para denunciar a violação de sua soberania. Tal como no “poema” de Martin Niemöller. Mas um dia talvez venham atrás de nós, e o resto do mundo nos verá como detestáveis também, violadores de direitos, cortadores de árvores, estupradores de turistas, possuidores de armas de destruição em massa, ou seja o que for. E ninguém falará contra nós.

[continua] — na parte 2: Por que atacar a Coreia do Norte?


1 A palavra “morar” significava originalmente trabalhar e residir em um mesmo lugar. Aplicava-se a colonos e escravos.
2 Não se sabe se alguma vez alguém comeu criancinha por ser comunista, mas é sabido que houve algumas fomes terríveis em países comunistas como União Soviética (nos anos 1930), na China (nos anos 1950), no Camboja (anos 1970) e na Etiópia (anos 1980). Não que tenham deixado de haver fome em lugares sob influência capitalista, mas fatos são fatos.

O Mundo Mudou, e Eu Não me Encontro Mais Nele

Quando eu era adolescente, a gente tinha uma intuição secreta de que todos mentiam para nós, o tempo todo. Sabíamos mais ou menos que estávamos saindo de uma ditadura, havia uma certa perplexidade com a televisão, que exibia nu frontal em propaganda do jeans Villejack e um busto feminino nu em uma propaganda de iogurte. Havia algumas vozes dissonantes na mídia: bandas de rock e pop que criticavam o «sistema» com versos que denunciavam a manipulação da opinião pública pelo governo: Plebe Rude, Capital Inicial, Lobão, Legião Urbana. Os mais comportados, claro, faziam mais sucesso: Kid Abelha, Biquíni Cavadão, Ultraje a Rigor, Marina Lima. Havia uma sensação generalizada de que era preciso questionar o que aparecia. Os «descolados» eram os que traziam esse ceticismo. Chamavam-nos a um canto e diziam: a televisão mente para você, o governo mente para você. As teorias de conspiração rolavam soltas, desde as de fundo místico, como o menino diabo paulista, até as mais politizadas, que diziam que as vacinas eram usadas pelo governo para marcar as pessoas. À medida em que fomos crescendo, essa desconfiança em relação à informação disponível nos levou a buscar conhecimento. Algumas dessas crenças e desconfianças desapareceram diante da luz dos fatos, outras apenas mudaram de forma.

Uma coisa, porém, a nossa geração tinha de sobra: vontade de mudar o mundo. Essa vontade ficou um pouco frustrada quando o palhaço do Fernando Collor, — que se elegeu com uma imagem de juventude e contestação, prometendo mundos e fundos mesmo depois de eleito — teve aquele triste fim. Alguns se despolitizaram, outros foram em busca de outros rumos. Mas é certo que a maioria continuou desconfiando da verdade fácil.

Mas aquela mídia que nós sabíamos que estava mentindo conseguiu continuar mentindo sem questionamento por tanto tempo que provocou um refluxo nesse estado de espírito. Os filhos da revolução que se tornariam burgueses sem religião e cuspiriam de volta o lixo em cima das elites acabaram se tornando adultos conformados, fãs de novelas e times de futebol, consumidores vorazes e apetitosos do lixo que o adolescente sentia ser forçado pela sua garganta abaixo, do lixo que queríamos vomitar. Se é verdade que a audiência televisiva diminuiu e que os jornais vendem menos, é verdade que estão hoje muito mais ousados do que nos anos oitenta. As pessoas parece que perderam o pudor não só em relação ao sexo, mas em relação ao ridículo. Imitam qualquer «dancinha» que algum grupo musical «novo» apresente em um programa de auditório, assimilam qualquer gíria de novela, macaqueiam qualquer estilo. Isso, claro, já existia nos anos oitenta, mas não era tão vigoroso: as pessoas faziam isso inocentemente. Hoje há quem o faça de propósito.

O mundo virou ao contrário. Se antes era chique duvidar, hoje é chique aderir. Adere-se à direita ou à esquerda como quem veste um estilo ou se filia a uma tribo urbana. Para a maioria, o importante é entrar em algum clima, refletir está fora de moda.

Então entrou em cena a internet. Aí a coisa ficou séria. Se ela teve o poder de facilitar a difusão de conteúdos alternativos, foi ela também a responsável pela difusão irrefletida de conteúdo. As lendas urbanas de minha adolescência, que se propagavam com a lentidão do disse me disse ao pé do ouvido, hoje se espalham como fogo no pasto no inverno. E as pessoas cada vez menos se importam em criticar o que repassam. Mesmo pessoas aparentemente bem informadas. Se um pedaço de conteúdo está de acordo com o que a pessoa já pensa, ela imediatamente o compartilha, sem pensar se aquilo ali procede. Com o tempo, mentiras vão se acumulando, turvando o horizonte da verdade. E o questionamento do conhecimento hegemônico é usado como ferramenta para reforçar este conhecimento hegemônico, só que on a computer,* o que, na opinião de muita gente, significa que ele é diferente. A velha manipulação midiática continua existindo, só que agora ela não é movida pela imposição dos jornais e do rádio, mas impulsionada pela própria irreflexão do povo.

Há coisas que as pessoas têm vergonha de admitir em público, como os seus preconceitos sexuais, raciais ou de classe. Estas coisas, porém, não causam a mesma vergonha on a computer. Alguém que jamais chama um negro de ladrão quando o vê na rua tem coragem de difundir supostos estudos comprovando que negros cometem mais crimes. Como as pessoas não verificam e não questionam, especialmente se a fonte for «alternativa», fica fácil criar factoides e transformá-los em «memes» na internet. O anonimato, e a difusão descontrolada, dificultam o desmentido. Se alguém o chamar de ladrão na internet não haverá como defender-se disso. Só que «a internet» não é um justiceiro mascarado idealista para apontar os erros do mundo.

Estas reflexões me vieram à cabeça quando uma pessoa que conheço, que regula idade comigo e que estudou História como eu, saiu compartilhando por uma rede social esta imagem:

Existem vários problemas com esta imagem, problemas que desaconselham que uma pessoa bem informada a compartilhe, especialmente se tal pessoa, além do benefício do conhecimento histórico, teve o azar de ser contemporânea do fato citado. Por uma questão de ideologia política (a pessoa em questão parece ter um claro alinhamento oposicionista em relação ao governo de centro-esquerda, a julgar pelo que anda compartilhando), este imagem foi passada adiante mesmo que para isso fosse preciso desconsiderar fatos históricos conhecidos e esquecer dores vividas na pele enquanto assalariado. E este esforço de esquecimento requerido para se compartilhar esta imagem me assustou com o nível de negacionismo que se tornou possível atualmente nesse país.

Ao tempo em que negam as conquistas reais de um governo que; com todas as suas falhas e incompetências, levou o país mais à frente do que o antecessor; procuram embasar isto com dados falsos ou interpretações superficiais.

O dado falso é o índice de 19,2%. Em maio de 2000 o salário mínimo aumentou de R$ 136,00 para R$ 151,00. Isso significa um aumento de 11,02% (façam a conta, amigos, os dados históricos do salário mínimo são fáceis de achar na internet). Portanto, é mentira que o aumento aprovado foi de generosos 19,2%. Se você acha que 8,18% são uma diferença irrelevante, apenas considere que o aumento de 19,2% teria elevado o salário mínimo a R$ 162,11.

No entanto, apesar de ser o mais gritante, por ser uma simples e verificável mentira, esse não é o problema mais grave. Afinal, uma pessoa tem o direito de se enrolar com números. Quem hoje se lembra de quanto era o salário mínimo há dez, doze, vinte anos? Não censuro minha amizade por causa disso. O que realmente eu não entendo é como pode ser possível esquecer as agruras por que passavam os assalariados naquela época, com um nível de vida lastimável, pois o salário mínimo legal não era suficiente para comprar nem uma cesta básica. Vivemos quase uma década e meia (de 1991 a 2003) reclamando que o salário mínimo era insuficiente e agora, de repente, pessoas que viveram esta época e fizeram esta reclamação, se esquecem disso e distribuem imagens celebrando os «grandes aumentos» que o salário mínimo teve naquela época.

Se isto não é uma campanha de desinformação articulada através das redes sociais, por pessoas muito bem informadas, contando com a irreflexão de quem o compartilha, então não existe campanha de desinformação. Se isto não é o bicho, o bicho não existe. Se tem duas patas, penas, bico, crista, asas, bota ovo e faz cocoricó e não é uma galinha, então galinha é um ser legendário.

Para os que nasceram depois, e não tiveram que sofrer uma década na esperança do mítico dia em que o salário mínimo chegaria a «cem dólares» (isso foi promessa de campanha de todos os candidatos a presidente até 2001), uma rápida consulta à mídia vendida ao «lulopetismo» nos mostra os dados: Um artigo de 16/02/2011 — um mês após o salário mínimo ter sido aumentado para R$ 540,00 (um aumento de 5,88%) — revela os valores históricos do salário mínimo desde a sua criação, atualizados para o real de 16/02/2011.

Quando criado, em 1940, o salário mínimo equivalia a 1.202 reais de 16/02/2011. Ele perdeu valor rapidamente até 1951, quando chegou a equivaler R$ 491. Então houve o polêmico aumento decretado por Getúlio Vargas e João Goulart, que valeu ao primeiro uma articulação de golpe de estado e ao segundo, a eterna pecha de «comunista»: o salário foi restaurado em seu poder aproximado de compra, para R$ 1.252. Este valor se manteve alto, com oscilações, até 1963, atingindo seu maior valor em 1959, sob Juscelino, R$ 1.732. Com a «Revolução» (ahã) de 1964 iniciou-se uma longa fase de baixo valor real, pois foi feito um grande expurgo de correção monetária. Os militares entregaram o salário mínimo equivalendo a cerca de R$ 603.

A aceleração da inflação após a redemocratização fez erodir ainda mais o valor do mínimo. Quando Fernando Henrique implantou o Plano Real, ele equivalia a R$ 346, cerca de pouco menos de um quarto do valor original. Sob Fernando Henrique presidente, o mínimo se manteve nos seus índices históricos mais baixos, chegando a equivaler a meros R$ 266 em 1996. O famoso aumento de maio de 2000, descontada a inflação, melhorou em R$ 7 reais o poder de compra do salário mínimo em relação ao valor de dois anos antes. Um aumento merecedor do gesto de desdém protagonizado por José Dirceu, Aloízio Mercadante, Ricardo Berzoini e de todos os brasileiros, petistas ou não. Houve até aliados do presidente que criticaram o aumento tão baixo.

A série histórica mostra que após a virada política de 2001 o valor do mínimo só fez aumentar, com correções sempre acima da inflação. A ponto de este aumento ter efeitos sobre o mercado de trabalho, com a quase extinção das domésticas (que ganhando mais podem investir em sua formação e buscar outras profissões menos degradantes), entre outros efeitos amplamente estudados e conhecidos. O governo petista pode ter seus pecados, mas ele certamente fez por merecer os altos índices de aprovação de que goza porque melhorou o poder de compra do assalariado, restando a quem se opõe a ele inventar mentiras e manipulações, contando com a irreflexão dos internautas para difundi-las como ser verdade fossem.

Alguns dizem que o governo, com medidas redistributivas como essa, está «comprando sua aprovação». Eu não entendo o que se passa na cabeça de quem pensa assim, pois me pareceu sempre óbvio que a aprovação de um governo é resultado de ele atender às demandas legítimas do povo e melhorar a vida de todos. Melhorar a vida do povo sempre rendeu votos. Isso não é demagogia. Dinheiro no bolso não mente. Salário maior não mente. E então não é demagogia essa «compra de aprovação». Estranho é alguém supor que um governo deva ser aprovado sem nada fazer para melhorar o padrão de vida dos eleitores.

O que mais me deixa triste nisso tudo é que as pessoas deixam de criticar as verdadeiras falhas que esse governo tem, e ficam inventando mentiras para desacreditar os seus acertos. Talvez seja porque uma crítica construtiva ao governo possa resultar — ó que horror — em um aperfeiçoamento dessas políticas de empoderamento do povo e melhora do seu nível de vida. Melhor fazer piadinha no Facebook. Afinal, essa droga de povo já levantou demais a crista.

* Sátira ao sistema americano de patentes, que parece estar disposto a considerar como novas invenções a implementação informática de coisas triviais.

Em Defesa do Indefensável, Novamente.

O site www.ceticismo.net (que usurpa o nome para difundir ignorância, preconceitos e desinformação) novamente passou dos limites do tolerável (se é que se pode tolerar estes elementos diuturnamente). A primeira vez tinha sido quando, sob o pretexto de atacar uma decisão equivocada da justiça, André cometeu injúria racial contra o povo cigano, episódio documentado aqui no Arapucas.


Desta vez o «André» partiu em defesa do colunista Walter Navarro, demitido do jornal mineiro O Tempo por ter escrito um verdadeiro libelo contra os índios guarani-kaiowá (e contra os indígenas em geral) e ter, de forma muito previsível, ofendido a sensibilidade dos leitores do jornal (pois, aparentemente, entre os mineiros ainda não se encontra nem tão difundido e nem tão arraigado o tipo de racismo hidrofóbico praticado por certos colunistas de outros estados da federação). Defender alguém pelo que escreve implica em defender também o que foi escrito, a menos que nos dediquemos a deixar bem claro a separação entre a defesa do homem e a defesa da obra, coisa que André não fez.

Quando digo que o André é um idiota eu me refiro ao sentido grego do termo: ele está focado exclusivamente em si, sentado no próprio rabo, e não tem uma compreensão do outro (ou da «alteridade», como diria um filósofo). Esta idiotia o leva à falta de empatia, que o impede de compreender as motivações de pessoas que estejam fora de seu contexto cultural imediato. Em suma, André é um provinciano (mesmo que seja urbano): ele mede o tamanho do mundo com a régua de sua ignorância.

Ignorância, aliás, que ele exibe, sem nenhuma vergonha, em mais de um parágrafo do texto. Aliás, parece que André a considera uma virtude, um tipo de «poder mental» que o capacita a desqualificar o que não entende. Quer um exemplo?

Bem, você nunca ouviu falar nessa tribo antes das notícias (inclusive esta aqui) e é bem provável que até depois do feriado já tenha esquecido.


Se André e seus leitores nunca ouviram falar dos guarani-kaiowá (em minúsculas, pois em português os nomes de etnias e povos são escritos assim), isto deveria lhes sugerir a necessidade de buscar esta informação antes de emitir opinião. Infelizmente não é assim que funciona o Ceticismo.net. Essa coisa de buscar informações antes de emitir opiniões é coisa de «esquerdista» e de «intelectualóide». Se eu  não conheço é porque é irrelevante, porque não presta.

O pior de tudo é que há muitas pessoas que repercutem esse discurso raso pela internet, não apenas concordando com ele, mas dizendo-se «cem por cento de acordo» (estar «cem por cento de acordo» com um texto é uma prova de falta de autonomia intelectual, porque dificilmente um texto coincide «cem por cento» com nossas opiniões, ideias e conhecimentos). Se você que me lê também achou que o André «mandou bem», isto é um sinal de que você também é ignorante, pois não conseguiu, com as informações que tinha, perceber as falácias e as bobagens outras ditas pelo André.

Digo «pior de tudo» porque já cheguei à conclusão de que o André está adotando a «postura da vaca» em relação a tudo isso (cagando e andando) porque tudo que quer é criar polêmica com base nas notícias mais comentadas do momento, a fim de atrair tráfego para ganhar dinheiro com os cliques em anúncios (algo não muito diferente do que eu faço aqui, só que eu procuro ser mais responsável e não espalhar nem preconceito, nem desinformação e nem coisas que eu reconheça como falsas). Ou seja: o André está oferecendo capim para quem gosta de capim, e está ganhando AdSense com isso. É imoral? Pode até ser, mas o pior não é que ele escreva, é que haja tanta gente receptiva isso, a ponto de ele ganhar dinheiro oferecendo esse feno.

Passemos agora a analisar o conteúdo propriamente dito do artigo do Ceticismo.net (aliás este termo vai para o glossário).

Bem, você nunca ouviu falar nessa tribo antes das notícias (inclusive esta aqui) e é bem provável que até depois do feriado já tenha esquecido.

O caso dos guaranis-kaiowá é conhecido pelo menos desde 1989 (quando a Rede Manchete fez um «Documento Especial: Televisão Verdade» sobre eles, aproveitando a onda da novela Pantanal. O caso atual não começou ontem, mas é o clímax de uma situação que começou há pelo menos um ano.

Mesmo que ninguém nunca tivesse ouvido falar do caso, porém, isto é irrelevante. Um povo não precisa estar na mídia para ter direitos. O direito não é afetado (ou não deveria ser, em um mundo ideal) nem pela popularidade e nem pelo poder de influência econômica das partes. Os guaranis estão reivindicando algo cuja justiça deve ser apreciada pela justiça, com base em informações e documentos, e não julgado por colunistas ignorantes do assunto. A lógica do André, porém, nos diz que se você não é famoso, então foda-se.

Gente se matando por causa da perda de terras é algo que eu acho estúpido.

Se eu quisesse ser realmente deselegante eu diria que o que «acham» de um tema as pessoas que se mostram ignorantes dele não merece nenhuma consideração. Aliás, pensando bem, eu quero ser deselegante sim, porque o Ceticismo.net merece: se você desconhece um assunto, o que você diz sobre ele não tem valor algum.

Digo mais: se você não conhece um tema, tudo que você «acha» sobre ele está errado, e todos que concordam com você são, no mínimo, tão ignorantes quanto você. Como pode alguém que usa o nome de Ceticismo.net não compreender que opiniões e conclusões precisam de embasamento em informações? É por isso que eu comecei esse artigo dizendo que o Ceticismo.net usurpa o nome.

Estúpido é julgar os atos de membros de uma cultura diferente da sua, sem sequer conhecer o que está acontecendo (visto que ele próprio admite nunca ter ovuido falar do caso). Estúpido é largar uma achologia desinformada. A lógica? Eu nunca ouvi falar disso, mas acho estúpido.

Entrou em cena um monte de gente sem muito o que fazer e resolveram protestar a favor de um bando de índios, cuja tribo não é muito diferente da tribo do Raoni ou mesmo do Touro Sentado.

Uma das primeiras arjumentações desqualificativas empregadas pelo André contra as pessoas de quem discorda é dizer que são pessoas «sem o que fazer». Pessoas sem o que fazer protestam em favor de índios. Pessoas sem o que fazer fazem greves. Pessoas sem o que fazer protestam contra guerras. Pessoas sem o que fazer exigem respeito aos seus direitos. Pessoas sem o que fazer, em suma, tentam mudar o mundo. Viva as pessoas que não têm o que fazer! Que menos gente no mundo esteja ocupada demais consigo que não tenha tempo de ocupar-se do outro!  Que bom que sobra a muita gente tempo suficiente para erguerem a cabeça das cangas e cochos que a vida lhes impõe, para olhar longe, pensar com mais discernimento e procurar melhorar o mundo.

De tudo, porém, o que menos entendo é de que forma a comparação do «bando de índios» com a tribo do Raoni ou a do Touro Sentado seria uma desqualificação. Raoni é um líder indígena respeitado até internacionalmente, mas talvez o André se incomode com o seu botoque (bem, eu jamais me poria um, mas a boca é do índio, e ele que faça dela o que quiser). Touro Sentado é um personagem histórico fascinante, heróico até. Só parece vilão sob a ótica do faroeste, que, aliás, também achava que índio bom era índio morto. Touro Sentado merece respeito, muito respeito. Aliás, vou acrescentar uma foto dele na barra lateral deste blogue.

Walter Navarro trabalhava no jornal «O Tempo», um jornal tão importante quanto… sei lá, nunca ouvi falar dele antes.

Novamente André medindo o mundo com a régua de sua ignorância. Se ele não conhece, então não é importante. O mundo gira em torno de seu umbigo. Muito prazer, senhor ignorante. «O Tempo» é o segundo maior jornal de Minas Gerais, depois do Estado de Minas e um poucochinho à frente do Hoje em Dia.

Em seguida André transcreve na íntegra o libelo de Walter Navarro contra os indígenas em geral, e contra os guarani-kaiowá em especial. Isto é bom, pois significa que o Ceticismo.net não pode alegar que defendeu a liberdade de expressão do autor, sem se ater ao conteúdo em si do que ele escreveu. Ao defender enfaticamente a liberdade de expressão do autor, sem dedicar uma linha de crítica sequer ao texto dele, o André está obviamente endossando, ou, no mínimo, não vendo motivo para crítica, naquilo que foi escrito. E me surpreenderia muito se o André tivesse alguma discordância, haja vista o que ele já escreveu, em outra oportunidade, contra os ciganos.

André novamente comete o mesmo erro do artigo contra os ciganos, ao julgar a dignidade (ou o direito à dignidade) de um povo com base em seu desenvolvimento tecnológico e/ou suas realizações culturais na História. A lógica disso é que se determinado povo não tem realizações significativas, então ele pode ser exterminado porque defendê-los é ser social-intelectualóide.

A defesa do artigo de Walter Navarro confunde liberdade de expressão (o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos) com liberdade de imprensa (capacidade de um indivíduo de publicar e acessar informação através de meios de comunicação em massa, sem interferência do estado). Todos sabemos que o primeiro deve ser ilimitado porque isto é um princípio basilar da democracia. Mas o segundo, não necessariamente.

A liberdade de expressão é um direito individual, que envolve um ato privado (ou de alcance limitado e controlável): você diz o que quer, para quem quer, onde quer. A liberdade de imprensa é um direito coletivo, que envolve um ato público. Direito coletivo porque quem tem o direito à liberdade de imprensa não é só o jornalista que escreve, mas o público que o lê. A publicação é um ato público (dããã) e de alcance ilimitado (no espaço e no tempo) e incontrolável (todos leem em todos os lugares, e tudo tem o potencial de ficar para a posteridade). Isso quer dizer que a palavra publicada, devido ao impacto que tem sobre outras pessoas e sua capacidade de influenciar a opinião pública, deve ser usada com responsabilidade.

Responsabilidade quer dizer que um meio de comunicação de massas não pode ser usado para difundir o ódio, ou corre-se o risco de produzir algo como o genocídio ruandês. Eu sei que o André ignora isso, aliás, eu não posso partir do pressuposto de que ele conheça qualquer coisa que esteja fora de seu pequeno mundinho, mas é fácil encontrar na internet informações sobre como o discurso do ódio contra os tutsi, iniciado por políticos demagogos, saiu do controle, contaminou a cultura popular, dominou os meios de comunicação de massa e gerou um clima irrestrito de ódio contra a minoria, a ponto de as estações de rádio e TV, no auge do evento, terem utilizado seu jornalismo para orientar o genocídio, informando sobre locais onde os refugiados se escondiam, caminhos que usavam para fugir etc., e ensinar técnicas para praticá-lo. Não sei se vocês notaram, mas eu nem precisei falar do III Reich para exemplificar como a liberdade de imprensa precisa ser exercida com responsabilidade! Godwin, Godloses!

De que forma podemos compactuar com um colunista que escreve que «índio bom é índio morto». Como defender alguém que diz isso? Se a liberdade de imprensa permite que isto seja dito, então melhor limitar a liberdade de imprensa, pois um direito (à liberdade de imprensa) não pode ser exercido à custa de todos os outros direitos (entre os quais o direito dos indígenas à vida, à liberdade e à dignidade enquanto seres humanos — direitos esses que precedem a liberdade de imprensa em importância). Absolutizar a liberdade de imprensa desta forma é uma coisa inexplicável, a não ser que você compactue com o que está sendo expresso e esteja protestando não contra a restrição em si, mas contra a repressão das ideias expressas.

Além disso, os jornais já praticam uma forma de censura, que é a de limitar seus textos aos que se alinham com o pensamento («linha editorial») dos donos. A linha editorial, obviamente, procura analisar o comportamento dos leitores, pois o jornal vende mais quando os agrada. Isso quer dizer que a suposta liberdade de imprensa (do jornalista) já se encontra restrita pelas determinações do patrão. Contra isso o Adnré não comenta nada. O Walter foi demitido pelos donos do jornal porque estes perceberam que o seu discurso reacionário e racista seria rejeitado pelo público leitor mineiro. Isso equivale a uma gravadora demitir um artista que não vende. Se o André achou a demissão um absurdo, que proteste com os donos do jornal «irrelevante». Só faltou culpar o «governo do PT» pela demissão.

Basicamente André ficou revoltado porque um colunista que escreveu um texto que ofendeu a muita gente foi demitido de seu jornal. O errado em sua defesa do Walter Navarro é ele justamente não compreender porque as pessoas se ofendem. A tal falta de empatia, gerada pela falta de noção de alteridade que mencionei lá no começo. Ele não compreende porque não se solidariza com a causa indígena. Ele não se solidariza porque não compreende como seres humanos aqueles que são diferentes de si, quer na aparência física quer na cultura. Ele não compreende porque é ignorante, fechado em seu mundinho urbanoide de kitchenettes, elevadores e automóveis. Ele é ignorante porque não busca conhecer culturas diferentes da sua.

No fundo o que ecoa de seu texto é um ódio às minorias que não tem jornal para se defenderem. Ele não compreende as razões da revolta dos mineiros contra o artigo de Walter Navarro porque não enxerga os indígenas como seres humanos, ao menos não como humanos semelhantes seus. Por isso ele não vê problemas em uma declaração como essa:

Como diriam o Marechal Rondon e os irmãos Villas Boas, “Índio bom é índio morto”! “Matar, se preciso for, morrer, nunca!”.

Obviamente Walter Navarro sabe quem disse a frase «índio bom é índio morto». Então quando ele a atribui ao Marechal Rondon ele está espalhando desinformação. E, obviamente, os comedores de capim em breve estarão difundindo no Facebook a frase com esta autoria alterada. Para você que não sabe, e não quer ser confundido com um herbívoro ungulado, o autor foi o general Phillip Sheridan, um dos maiores genocidas das guerras indígenas dos Estados Unidos. Responsável por vingar a morte de outro genocida, George Armstrong Custer. A atribuição equivocada da frase também aos irmãos Villas-Boas, que ainda estão vivos, pode ser objeto, inclusive, de ação penal por difamação. Mas Navarro conta com a imunidade da imprensa, que, no Brasil, tem a liberdade de demolir reputações impunemente.

O artigo original também é desinformado a respeito das origens dos topônimos tupis pelo Brasil afora:

Tudo em São Paulo tem nome de índio. Consciência pesada dos bandeirantes: Anhanguera, Ibirapuera, Canindé, Aricanduva, Morumbi, Jabaquara, Tucuruvi, Tatuapé e agora Haddad, da tribo dos Ali Babás… Ô raça!


Aparentemente nem Walter Navarro e nem o Ceticismo.net sabem (aliás, o tamanho do que o André não sabe é praticamente cósmico) que esses nomes não se devem à «consciência pesada» dos bandeirantes (que, diga-se de passagem, tinham menos remorsos de matar índios e escravizar do que o general Sheridan), mas ao fato (conhecido até de quem só lê os livros didáticos de história do Brasil) de que os habitantes de São Paulo, até pelo menos o terceiro quarto do século XVIII, falavam nheengatu (um dialeto tupi) em vez de português. Inclusive os bandeirantes. Isso explica a existência (ou até prevalência) de topônimos tupis pelo país afora, inclusive em regiões que não eram originalmente habitadas por tribos tupis, como Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Tocantins e o interior do Nordeste.

Walter Navarro ainda aproveita o artigo para dar uma passadinha em São Paulo e escrever isso para falar mal do PT:

É assim: Lula liga pro Zé Dirceu, que liga pro Gilberto Carvalho; daí pro Genoíno, que liga pro Marcos Valério, que liga pros presídios e manda matar o Celso Daniel; quer dizer, matar policiais e concorrentes, em troca de banho de sol, visita íntima e regalias mensais.

Isto é algo muito grave, porque é uma acusação séria e irresponsável. O Walter Navarro está acusando pessoas públicas, inclusive um ex presidente da república, de conspirarem com o crime organizado para matarem pessoas (200 só nestes últimos trinta dias na capital paulista) por razões políticas (obviamente). Não é o tipo de coisa que um jornalista, em um jornal sério, em um país sério, escreveria sem ter em mãos provas contundentes. Um jornalista americano que escrevesse isso sem ter provas seria não somente demitido como, provavelmente, terminaria atrás das grades ele mesmo. No entanto, a flacidez de nossas leis permitem que um colunista levianamente avente essa hipótese e saia impune (pelo menos o jornal o demitiu). Infelizmente parece que há entre nós uma tolerância com a mentira, a leviandade e as acusações infundadas, desde que em nome de uma boa causa. Isso transforma os debates de nossa imprensa em um duelo de ficções ideologicamente opostas, com predominância da ideologia direitista dos grandes empresários do setor. Como diria Raul Seixas (esta citação não é apócrifa): «Eu não preciso ler jornais / mentir sozinho eu sou capaz».

Ao acusar pessoas públicas de conspirarem para cometer crimes, Walter cometeu crime. É bom Walter ter provas de que é Lula que está mandando o PCC matar em são Paulo, porque se não pode ser processado por calúnia (ou algo assim, não sou advogado).

Outro parágrafo lindo do texto do Walter, que o André defende porque ecoa o mesmo tipo de racio símio empregado pelo Ceticismo.net no célebre artigo dos ciganos, é esse aqui:

Os guaranis kaiowá não passam de recolhedores de mel no meio do mato. É o povo mais primitivo do mundo, nem chegou à Idade da Pedra. Petistas “avant la lettre”! Comem cupim. Intimidam até malária! Pigmeus, parecem formigas gigantes e caracterizam-se pela insuportável pneumatose intestinal, o que faz deles companhia deveras desagradável.


Já que os guaranis são poucos e pobres, então podemos falar mal deles. Podemos dizer até que «parecem formigas» (desumanização) e que todos peidam fedendo (imagino que os peidos do Walter têm cheiro de Chanel nº 5). Se, como disse o Nihil Lemos, não existe racismo nenhum aí, então não existia racismo nenhum no Mein Kampf. Bem, tive de recorrer ao III Reich. Godwon!

As ideias de André e seu Ceticismo.net são muito mais reacionárias e chauvinistas do que parecem. De fato, se você olhar bem, notará que ele possui uma certa aversão ao direito e uma idolatria pela força bruta. Isso deve, aliás, ter um sentido mais profundo — que não vou explorar porque detesto o tal Godwin. Por enquanto apenas olhe a figura à esquerda e pense.

Mas a ideia da força bruta como legitimação de um argumento, ou como medida de valor, parece estar se popularizando na internet recentemente. O que não deixa de ser esperado, visto que might is right é uma ideologia fascista típica, e o fascismo anda em alta no mundo virtual recentemente.

Para André e seu Ceticismo.net, a força/poder empresta legitimidade e valor ao seu possuidor. Isso, claro, é um argumento irracional tão escroto que a usurpação do termo «ceticismo» pelo André se torna ainda mais evidente. Vejam só esta pérola:

Da mesma maneira, se eu disser que hebreus nunca foram expressivos em termos de civilização, a ponto de terem sido chutados para tudo que é canto na Palestina o século 6 A.E.C, não é racismo. Eles até desenvolveram boas tecnologias, mas não eram páreo para o Egito, Assíria e Babilônia.

Observe que o André está julgando as civilizações do Antigo Oriente Próximo com base em seu poderio militar e nas tecnologias que desenvolveram. O fato de os povos da Palestina terem inventado o alfabeto, graças ao qual esta anta está agora difundido merda pela internet, é irrelevante. Bom mesmo é pegar no tacape e amassar a moleira do inimigo. É como se o André, a exemplo dos marombeiros autores desta imagem, estivessem dividindo os povos entre «povos nerds» (que [só] inventam coisas intelectuais, como alfabetos, religiões, filosofia, sistemas éticos, ciências) e «povos sarados» (que [também] inventam coisas como armas, exércitos, guerras e afins). Como disse um marombeiro no Facebook, em reação a críticas feitas à imagem inclusa (correção gramatical e ortográfica aplicada):

Lógico que as pessoas que treinam possuem infinita vantagem sobre um nerd cabaço, e exatamente por isso cidadãos desse naipe deveriam respeitar quem treina, para preservar sua integridade física e moral. Ou então quem treina tem que se submeter à idiotas como esses? Não, pelo simples fato de poder mandá-los para a UTI.


Logicamente os hebreus (que, diga-se de passagem nunca foram tão numerosos) jamais seriam páreo para os egípcios ou os mesopotâmicos. A simples disponibilidade de água em abundância permitia que tais povos fossem mais populosos — e isso indicava uma prevalência militar na antiguidade, tanto quanto possuir mais músculos indica uma prevalência física no mundo de hoje, se você tirar armas de fogo da jogada. Mas o André julga os hebreus «menos expressivos em termos de civilização» do que os assírios, por exemplo, com base exclusivamente no fato de que os assírios exterminaram mais da metade dos poucos hebreus que havia em 722 a.C.

Essa idolatria fascista da força é o que justifica desumanizar e desqualificar os indígenas, que são poucos, não tem jornais e não tem armas de destruição em massa. É o que justifica propor seu extermínio, devido à sua irrelevância. Essa é a lógica egoísta e fascista que está se popularizando na internet, e que este blogue, humildemente, se propõe a combater.

Se a Propaganda Substitui a Notícia

Tomei conhecimento através do Facebook de uma matéria publicada neste domingo na Folha de São Paulo que me deixou profundamente revoltado. Trata-se da história em quadrinhos sobre o mensalão. Antes que meus leitores reaças me acusem (se ainda estão lendo) de estar apenas reagindo ao ataque às minhas crenças, esclareço que a revolta não é causada pela tese apre­sentada no texto, pelas acusações a certos políticos ou mesmo pela ideologia subjacente à iniciativa. Posso perfeita­mente enten­der e aceitar que existam pessoas que pensam diferente de mim, posso aceitar (mas não entender) que exista quem espose uma ide­ologia reacionária de direita. E posso perfeitamente tolerar que uma coisa e outra sejam difundidas pela impresa. O motivo de minha profunda revolta é muito outro.

Referida história em quadrinhos é um desrespeito ao leitor da Folha da São Paulo, mesmo àquele que é reacionário, odeia Lula e sonha em organizar uma Marcha da Família com Deus Pela Liberdade e iniciar outra Redentora. Trata-se de um tratamento condescendente e infantilizado do leitor, que é tratado como um débil mental pelo simples fato de um tema tão complexo ser tra­tado por uma história em quadrinhos, com as características desta, no contexto em que o foi. Lamento se você gostou e aplau­diu, você faz parte do público que a Folha procurou atingir, e em você ela acerto. Sinta-se «especial».

O caso é que a Folha de São Paulo se prestou a fazer o chamado «jornalismo marrom», a busca da audiência (ou da vendagem, no caso de um jornal) através da divulgação exagerada de notícias sem compromisso com a autenticidade. Embora meus leitores reaças não admitam isso, os mais esclarecidos perfeitamente entenderão a associação do mesmo episódio com a chamada «imprensa golpista», que é o uso da mídia como um instrumento de pressão (e enventualmente de conspiração) contra o governo. Temos jornalismo marrom quando se emprega o recurso sensacionalista da história em quadrinhos para apresentar a notícia (foi justamente o emprego de histórias em quadrinhos coloridas que motivou o primeiro rotulamento de um jornal como sensacionalista, nos Estados Unidos, ainda no século XIX), quando um tema é apresentado de forma desproporcional, quando uma versão (no caso a de Roberto Jefferson) é assumida como verdade, sem ouvir o contraditório. Temos imprensa golpista quando a desproporcionalidade da representação atinge apenas um lado do espectro político, quando busca influenciar o comportamento das instituições.

O caso é grave, mas passará batido porque ninguém que tenha coragem de processar a Folha de São Paulo eficientemente tem dinheiro para isso, e a ausência de uma Lei de Imprensa torna impossível responsabilizar a mídia pelas irresponsabilidades que comete.

Uma rasa análise dos quadrinhos apresentados (para minha grande decepção assinados pelo cartunista Angeli, embora com um traço tosco que sugere alguma coisa) mostra o recurso a vários tipos de técnicas subliminares de deturpação da mensagem. Mas antes de falar do emprego de símbolos e arquétipos em lugar de argumentos, antes de falar de propaganda em vez de notícia, falemos do quadrinho inicial.

Logo no início a historinha apresenta o Brasil inteiro como uma vala de esgoto onde chafurdam personagens que se dividem entre a esperança («às vezes do lodo nasce uma flor de lótus») ao cinismo («mas em outras dali só sai mais lama mesmo»). Trata-se de uma generalização ofensiva, que deveria ofender a cada cidadão brasileiro de bem, a cada um que não seja um porco enfiando o focinho na lama em que ele mesmo defeca. Como não sou um destes porcos eu me senti ofendido. Mas o Facebook está cheio de gente que se sentiu homenageada. Não discutirei este mérito. Preferia que as pessoas votassem com suas carteiras. Eu votei com a minha há bastante tempo: não compro a Folha de São Paulo nem como embrulho de peixe na feira: peço para embrulharem no Meia Hora.


A primeira parte da história em quadrinhos se baseia exclusivamente na versão de Roberto Jefferson, que, diga-se de passagem, foi cassado porque, não conseguindo provar nada contra mais ninguém, acabou réu confesso de abuso do cargo de deputado (a posterior cassação de José Dirceu e a prosseguimento das investigações são um outro momento e obedecem a dinâmica diferente). Normalmente se deve ter certo ceticismo quanto à versão de um réu confesso, especialmente uma versão na qual tenta inocentar-se ou diminuir sua culpa. Não existem muitos culpados nas celas das prisões. Talvez haja mais «inocentes» atrás das grades do que fora delas. Portanto, ao basear-se exclusivamente na versão de Jefferson a Folha definitivamente não pratica bom jornalismo. Mesmo porque (e isto é espantoso, pois poderia servir até mesmo aos objetivos inconfessos do jornal) o depoimento do deputado fluminense foi apenas o estopim de uma longa investigação que certamente aperfeiçoou o conhecimento do caso. Limitar-se ao depoimento inicial é uma escolha incompreensível.

O segundo problema é uma contradição lógica inexplicada: se a Folha vê o Brasil, ou pelo menos o Congresso, como aquela pocilga imunda, como se fia na versão apresenta por um dos «porcos» e referendada por outros? Por que a versão de pessoas tão desprezíveis a ponto de serem postas na lama merece todo o crédito?

O terceiro problema é a contradição entre o texto e as imagens, e aqui ser revela deliberada desonestidade por parte de quem concebeu esta HQ (se me processarem, pago a pena mas não retiro a acusação). Desonestidade porque o texto é contido, comedido, faz questão de sempre dizer que «Jefferson disse», jogando toda a responsabilidade no colo do ex deputado. Se alguém meter um processo na Folha ela sempre poderá dizer que apenas reproduziu a versão dele. Mas as imagens não tem esse comedimento e nem essa continência. As imagens são claramente partidárias, persuasivas. Quem passar pela história dando pouca atenção ao texto ficará com uma impressão totalmente diversa da que teria alguém que lesse o texto isoladamente. As imagens têm força, elas atingem um nível subsconsciente de pensamento. A Folha fez esta HQ para influenciar semiletrados. Eles adoraram, tal como as crianças gostam dos livros ilustrados e com letras grandes. É preciso ganhar os corações dos semiletrados.

E o que estas imagens falam não é bonito. Empregam todo tipo de artimanha de propaganda para argumentar não verbalmente e levar o leitor a ter um sentimento difuso de rejeição ao «mensalão», mesmo antes de se chegar ao ponto em que a própria versão de Jefferson é posta para escanteio e parte-se para afirmações sequer referenciadas (mas histórias em quadrinhos, não custa lembrar, não têm referências bibliográficas). Cores escuras de plano de fundo servem para sugerir que as negociações foram feitas «na calada da noite», «nos porões», etc. O tipo de imagem conspiracionista que nos remete até mesmo aos Protocolos.

A manipulação inclui até mesmo mostrar o publicitário Duda Mendonça com um galo na mão, em um quadrinho sem legenda, antes de apresentá-lo como parte da história. Trata-se de uma referência ao obscuro episódio da rinha de galos em que Duda se envolveu (obscuro porque é um absurdo que algo proibido seja tão tolerado nesse país). Antes de mostrar Duda fazendo qualquer outra coisa, é preciso vinculá-lo a um caso vexaminoso e que tem certo apelo entre boa parte da população, que tem sentimentos ecológicos fofuchos embora navegue pelas ruas em carros beberrões de gasolina, entre outras coisas.

Particularmente difícil de engolir é a caricatura de Lula, que evoca os piores momentos desta arte, quando foi usada a serviço da propaganda política de regimes execrados pela História (inclusive regimes de esquerda, para que meus leitores reaças que chegaram até aqui não me acusem de ser parcial). Dotada de bem pouca semelhança com o rosto real do presidente (e assim quebrando uma marca da caricatura política), a figura apresentada tem todas as características de um vilão de história em quadrinhos em regimes totalitários. Completa com a animalização (figura hirsuta, feições de roedor) e os olhos vidrados de inimigo obcecado do povo.

Semelhante até no terno preto e no nariz proeminente, Lula é o Judeu Errante que lidera o cabal demoníaco que se insurge, do fundo do mar de lama, contra o país em crise.

Acredito que ao longo dos próximos dias terei refletido melhor sobre  o caso e talvez escreva mais. Por enquanto estas são as minhas regurgitações... Sintam-se à vontade para apedrejar.