Lula, o Gênio

Se você descobrisse que tem as maiores reservas inexploradas de petróleo do mundo e suas forças armadas estão praticamente na idade da pedra, o que faria se o maior consumidor mundial de energia, e com um histórico de invadir países ricos em matéria prima, resolvesse estabelecer uma frota de sua marinha bem diante de seu litoral?

Eu, em minha santa inocência, procuraria trazer como parceiro nestas reservas um dos maiores inimigos do tal país. E tentaria armar as minhas defesas com tecnologia comprada de outro.

A história ensina que os russos costumam ser ótimos amigos, do tipo que não abandona quem lhes deu a mão. Cubanos e sírios que o digam.

E os chineses, bem, enquanto eles não tiverem frota diante de nosso litoral e estiverem dipostos a pagar, eu acho uma ótima ideia trocar petróleo por amizade com eles.

Os BRICS foram uma sacada gigantesca do Lula, que aproveitou um artigo de um economista inglês para ter uma desculpa perfeita para começar uma aliança contra os EUA. Rússia e China não são somente dois países "emergentes" (o primeiro está mais para "submergente"), mas duas potências com poder de veto na ONU e com interesse em tudo que seja contra o interesse americano. Também têm tecnologia que nos interessa. A Índia meio que não é quente nem fria nessa história, mas sua presença ajuda a diminuir a margem de manobra ianque na Ásia, e cimenta a aliança asiática.

Recentemente, a entrada da África do Sul pretendeu sinalizar aos africanos que os chineses estão dispostos a fazer na África algo que os americanos e europeus nunca fizeram: compartilhar poder. Aos poucos os BRICS cercaram uma parte significativa do mundo, criando uma situação na qual a entrada dos EUA só poderá ser através de uma guerra total. O sucesso da estratégia ficou configurado com a crise síria, resta saber se os EUA vão ser tão medrosos quando a aposta for mais alta. Talvez até sejam, mas os russos e chineses, até lá, já terão conseguido se preparar para enfrentar o desafio.

O primeiro passo é o desmonte do dólar como divisa internacional. Rússia, China e Índia já estão comerciando entre si em rublos e rúpias (ainda não em yuans, mas isso começará em breve). China, Rússia e Índia asseguraram seu acesso permanente a todo tipo de matérias primas, ao se alinharem com o Brasil e a África do Sul. A China está formando reservas de ouro e platina (a África do Sul, maior produtor mundial dos dois metais, não entrou nos BRICS à toa). O Brasil se propôs a compartilhar o custo de desenvolvimento da nova geração de super-caças russos. Em troca, receberá a preço de banana os MiG e Sukhoi que forem aposentados da força aérea russa. O trato é parecido com o que Rússia e China fizeram nos anos 80, e resultou nos misseis "Bicho da Seda", nos foguetes "Longa Marcha", nas cápsulas espaciais "Shenzhou" e nos clones de aviões MiG e Sukhoi que a China produz. Duvido que os nossos militares fiquem tristes com a qualidade do material que terão em mãos.

Desde que foi revelado que o governo americano espionava todos os serviços de internet, quebrando a confiança até mesmo da autenticação TSL/SSL, ficou clara preocupação ianque com os rumos que a coisa tomava. Qual seria o sentido de comprar caças americanos, ou caças suecos com tecnologia americana embarcada? Esses caças seriam inúteis numa guerra contra o único país do mundo que deu mostrar de querer nos invadir: os EUA. Nesse sentido, faz todo sentido usar armamento russo. Eu até acho que devíamos ceder uma base naval e/ou aeronáutica aos russos. A Síria não se arrependeu de ter feito isso, e talvez os russos estejam interessados. Talvez apenas isso deva ser feito devagar, para não assustar o grande irmão do norte.

O “Putinaço”

Entrou para o folclore da política brasileira o famoso "tijolaço" do Leonel Brizola, o incrível direito de resposta que obteve contra a Rede Globo de Televisão, que levou o circunspecto Cid Moreira a ler no Jornal Nacional um artigo no qual o político gaúcho se defendeu de acusações e insinuações feitas pelo jornalismo da emissora empregando uma enorme, mas elegante, agressividade. O ponto alto foi quando, respondendo à acusação de que era senil, Brizola tascou, com a impiedade que somente os legitimamente injustiçados podem brandir:

Ora, tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador, Roberto Marinho, que tem 86 anos. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que os use para si.

Roberto Marinho definiu o episódio como um calamidade. Brizola, numa metáfora anarquista, qualificou-o como um tijolaço atirado à janela da emissora. Jornalistas mais ladinos detectaram ali um "instantâneo da História", o momento no qual o poderio da emissora carioca começou a declinar.

Algo análogo ocorreu nesta semana, quando um artigo supostamente escrito pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, foi publicado na página de editoriais do New York Times. Foi um tijolaço no meio da testa do orgulho americano. Putin disse verdades duras, dolorosas, verdades que muitas vezes foram sussurradas por pessoas que não tem mísseis balísticos intercontinentais para endossá-las. Algum dia esse artigo será, também, lembrado como um episódio profético, o primeiro grande dedo em riste que alguém metaforicamente apontou para a cara do império ianque. E certamente o texto será, doravante, estudado em todas as boas escolas de direito internacional, diplomacia, história e assuntos correlatos. Putin escreveu a história de forma contundente, produzindo o que me permito chamar de "Putinaço" (por analogia com o caso de Brizola).

Obama fez história por ser quem é, pela cor de sua pele. Putin não fez história pelo que é, mas pelas palavras que subscreveu. E palavras, palavras têm a misteriosa tendência à eternidade. Escudado por seus mísseis e ogivas nucleares, Putin teve a coragem de esfregar na cara do império as verdades murmuradas por todos os povos oprimidos do mundo. Somente isto, apesar de quaisquer defeitos próprios do líder russo e da Rússia propriamente dita, é suficiente para dar legitimidade aos argumentos. Quando uma voz se ergue em nome do bom senso, é inútil supor que sofismas a desmentirão. E o artigo, apesar de um tom amistoso, é uma série de "voadoras" no queixo da diplomacia americana e da auto-imagem dos Estados Unidos.

O artigo começa dizendo que Putin resolveu se dirigir aos cidadãos americanos (em primeiro lugar) e aos seus políticos (em segundo) em um momento de falta de comunicação entre as sociedades. Sutilmente está dito aí que os políticos americanos não têm ouvido a diplomacia russa e nem informado ao povo sobre as negociações.

Em seguida, Putin lembra que russos e americanos já viveram momentos de discordância, como na guerra fria, mas que já lutaram juntos contra um inimigo comum, o nazismo — e que foi para evitar a repetição da devastação da Segunda Guerra que as Nações Unidas foram criadas. Ainda mais sutilmente o presidente russo joga a carta da Guerra Mundial para começar a instilar medo no coração do leitor.

No quarto parágrafo, após mencionar que as Nações Unidas tomam decisões baseadas em consenso, o presidente russo relembra o fracasso da Liga das Nações, que aconteceu porque os estados-membros não respeitavam suas decisões. Sabe-se que tal fracasso abriu caminho para a Segunda Guerra Mundial, então Putin está novamente sugerindo que as ações americanas de forma unilateral abrem um risco semelhante.

Ao enumerar os possíveis efeitos negativos de um ataque americano à Síria, cita o "problema nuclear iraniano" como se fosse um fato consumado (há indícios de que o Irã, de fato, já possui a bomba nuclear, ou pelo menos a tecnologia para produzi-la quando quiser). Esta citação é importante, considerando o que ele vai dizer mais à frente no texto.

O texto procura, também, enfatizar que a guerra civil síria não é um conflito claro entre um ditador e forças democráticas, mas uma guerra civil multilateral em um país multicultural, multiétnico e multirreligioso, sendo que várias das organizações combatentes contra Bashar al-Assad são designadas como terroristas pelo próprio governo americano.

Putin se defende da acusação de estar "defendendo Assad" (um sanguinário ditador) e afirma que a posição russa é de defesa da ordem jurídica internacional para evitar que o mundo escorregue para o caos (novamente a carta da Guerra mundial é sugerida de forma sutil).

Em seguida o texto passa a abordar as intervenções unilaterais dos Estados Unidos em outros países. Putin considera alarmante que elas sejam tão comuns e afirma que o mundo vê os americanos pressionando outros países com um argumento maniqueísta de que "quem não está conosco, está contra nós". Tudo em vão, pois estas intervenções não estabilizaram os países invadidos e nem tornaram o mundo, ou os próprios Estados Unidos, mais seguros.

Estas intervenções, em um contexto de enfraquecimento das leis internacionais e do papel das Nações Unidas, levam os países, de uma forma que Putin considera "lógica", a buscar armas de destruição em massa justamente porque, sem o escudo das instituições multilaterais, somente bombas podem proteger. Assim, os Estados Unidos agem de uma forma que desacredita o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (e, considerando os argumentos de Putin, todo país que se julgue ameaçado pelos EUA deveria buscar tê-las). Este é um tópico antigo, um assunto que já era levantado pelo falecido Enéas Carneiro, folclórico político brasileiro que pregava que a solução para a maioria dos problemas nacionais estaria na bomba atômica. Dá certo remorso ter zombado dele agora. Mas lembremos que no começo do artigo Putin falou sobre o "problema nuclear iraniano". Aqui temos claramente uma defesa da busca iraniana pela bomba: o simples fato de o Irã ter um regime do qual os Estados Unidos discordam é justificativa racional para este regime procurar se armar.

Os maiores "roundhouse kicks" aplicados por Putin nos americanos ficam no fim.

Primeiro é na afirmativa de que é necessário parar de usar a linguagem da força e voltar ao caminho do diálogo diplomático civilizado e dos acordos internacionais. O que se diz aqui, de forma sutil, é que a política internacional americana não é civilizada (pois os EUA precisariam "voltar ao caminho" civilizado). Acredito que seja a primeira vez na História contemporânea que um líder relevante qualifica outro líder relevante de uma forma tão desrespeitosa, e imagino que muitos rostos devem ter ficado vermelhos ao ler isto.

O segundo, e mais agressivo ainda, é no momento em que comenta o recente discurso feito por Obama perante o Congresso. Putin discorda e critica a ideia de que os Estados Unidos são diferentes, excepcionais. Para o presidente russo, falando com a sabedoria de um antigo profeta, é extremamente perigoso levar as pessoas a pensarem que são diferentes e excepcionais. É difícil rebater este ponto, pois foi justamente esse tipo de pensamento que levou a Alemanha ao horror nazista. E existem inúmeros episódios de povos "especiais" que tacaram o terror pelo mundo ao longo da História. Se considerarmos a referência inicial ao momento em que russos e americanos estiveram juntos contra o nazismo, vemos claramente que Putin procurou qualificar de nazistóide o pensamento excepcionalista americano!

Como era de se esperar, a agressividade destas polidas palavras não passou despercebida. Políticos de ambos os partidos procuraram reações, mas só conseguiram comentários patéticos.

Para Jay Carney, porta-voz da Casa Branca, "Ao contrário da Rússia, nos EUA defendemos os valores democráticos e os direitos humanos no nosso próprio país e no mundo".

Carney provavelmente usa óleo de peroba como loção pós-barba, pois hoje em dia não é segredo para ninguém que os Estados Unidos têm minado seus valores democráticos e desrespeitado os direitos humanos tanto dentro como fora de suas fronteiras. As intervenções americanas de 2001 para cá produziram registros de horror tão incríveis que revoltaram meio mundo. Só as cenas das mulheres xiitas forçadas sob mira de fuzil a fazer sexo oral em soldados americanos são suficientes para desmentir esse porta-voz. Mas Guantánamo, onde estão presas pessoas que não podem ser acusadas de nada, ali sim temos a prova concreta de que os valores democráticos e os direitos humanos hoje somente restam no discurso hipócrita de gente como Jay Carney, que ganha para mentir.

As respostas de outros políticos não melhoram o tom geral: todas atacam a figura de Putin, suas ligações com a KGB e com a máfia russa, ou atacam o histórico político da Rússia. Todas estas respostas ignoram um fato básico em lógica de argumentação: se um dedo sujo aponta para a Lua, a Lua não é afetada pela sujeira do dedo. Putin pode não ser o maior dos democratas, mas seu discurso é mais útil à democracia do que a postura beligerante, intransigente e chauvinista do governo americano. A Rússia pode não ser um exemplo de democracia e direitos humanos, mas os russos, ao longo de todo o século XX, só cometeram três invasões de outros países: Hungria (1956), Tcheco-Eslováquia (1968) e Afeganistão (1979).

Do episódio o que se extrai é que a diplomacia russa é muito mais construtiva do que a americana, que se comporta como "dona da rua". Putin escreve para a posteridade, e se acontecer algum conflito a história o absolverá por suas palavras premonitórias. Toda a responsabilidade e o desgaste de uma guerra foram por ele depositados sobre os ombros de Obama e seus assessores (que, às vezes, me parecem ser mais seus mentores que seus consultores).

A incapacidade da classe política americana em fazer um desmentido abrangente é um sinal do valor verdade deste texto simples e direto.

Texto que, como dito, foi escrito diretamente nas páginas da História

Revolutions Inc.

Bom dia para você, reacionário de direita travestido de jovem anarquista, que saiu às ruas nesse fim de semana querendo causar impacto. Devia ter ouvido o Humberto Gessinger e feito o pacto.1 Você está, conscientemente ou não, fazendo seu trabalho de formiguinha na preparação do caos. Eu sou astrólogo, vocês precisam acreditar em mim. Eu sou astrólogo e conheço a história do princípio ao fim.2

Digo isto apoiado em uma leitura porca dos mais recentes descobrimentos da psicologia (por mais recentes eu me refiro a mais de meio século, mas você, reacinha, talvez não tenha nem ouvido falar de Freud) e uma leitura um pouco mais cuidadosa de fatos que já são história. Fatos da história mundial recente que sugerem que o Império mudou sua tática e não está mais investindo nos militares para derrubar os governos que não lhe interessam: militares podem não ser confiáveis, podem estar interessados em fazer algo de bom pelo próprio país, podem sair do controle e custa caro recuperar os que fogem da gaiola, como Noriega, Saddam Hussein e Hugo Chávez.

Símbolo da Otpor!

Na verdade o processo é bem simples, já está amplamente documentado, e já foi empregado com sucesso em pelo menos oito oportunidades. Mesmo assim a nossa juventude "descolada", utilizando em larga escala um superpoder chamado "ignorância", fecha os olhos para os indícios de manipulação. Desde que os puxões nas cordas sejam feitos com suavidade, não se importam de ser marionetes.

Refiro-me aqui ao "pacote revolucionário libertador" financiado por entidades interessadas apenas no progresso dos povos e no aperfeiçoamento da civilização, como a USAID, o National Endowment for Democracy, o American Center for International Labor Solidarity, o European Endowment for Democracy, o Center for International Media Assistance e a CIA. Paralelamente a estas entidades, think tanks ligados às grandes multinacionais, como o Heritage Foundation, o American Enterprise Institute e o Open Society Institute.

Se você vive dentro de uma pedra, ou se é tão impermeável quanto uma pedra a notícias que se choquem com suas ideias preconcebidas, provavelmente não sabe que estas entidades, e outras antecessoras suas, têm atuado na desestabilização de regimes contrários aos interesses americanos desde os anos 70 e já tiveram sucesso em produzir pelo menos sete movimentos de massa liderados por organizações não governamentais financiadas pelas entidades citadas.

  • Derrubada de Slobodán Milosević (Sérvia, 2000), liderada pelo movimento "Otpor!" (Recuse!), tendo como símbolo a cor negra e um punho fechado. Milosević foi substituído por um líder mais afeito aos interesses americanos e abriu caminho para a independência de Kossovo, criando um protetorado euroamericano nos Bálcãs (área de interesse russa).
  • Revolução Rosa (Geórgia, 2003), liderada pelo movimento "Kmara" (Chega!), tendo como símbolo a cor negra e um punho fechado. Derrubou Eduard Shevardnadze, que se mantinha alinhado com a Rússia, e o substituiu por Mikhail Saakashvilli, que se alinhou com os EUA, tentou entrar para a OTAN e acabou eventualmente sendo posto em seu lugar pela invasão russa de 2008.
  • Revolução Laranja (Ucrânia, 2004), liderada pelo movimento "Pora!" (Chega!), tendo como símbolo as cores preta e laranja e o sol nascente. Conseguiu anular as eleições, fraudadas por Viktor Yanukovich, e colocar no poder o controverso presidente Viktor Yushenko, que quase morreu envenenado durante a campanha eleitoral, supostamente por obra do FSB (novo nome da KGB). Yushenko, sob forte oposição, não conseguiu avançar muito em sua política internacional, apenas criou leis de autonomia política e cultural favorecendo os ucranianos em relação aos russos. Acabou derrotado nas eleições seguintes pela lindíssima e gatíssima (mas aparentemente perigosíssima e corruptíssima) Yulia Timoshenko, que atualmente come cana braba por supostamente aceitar dinheiro de potências estrangeiras.
  • Revolução das Tulipas (Quirguízia, 2005), liderada pelo movimento "KelKel" (Renascença), tendo como símbolo as cores rosa e amarela e o sol nascente. Conseguiu derrubar Askar Akaev, um dinossauro que permanecia desde os tempos comunistas, e implantar um regime mais democrático.

Símbolo do Pora!

Estes movimentos tiveram características em comum:

  • liderados por uma ONG financiada por uma ou mais das entidades citadas mais acima;
  • caracterizados por um slogan que se confunde com o nome da organização;
  • o nome da organização inclui um ponto de exclamação, para maior ênfase;
  • adoção de um logotipo e de uma cor para simbolizar o movimento;
  • identificação com um líder político "novo";
  • esvaziamento do movimento após o sucesso inicial (mudança de regime).

Em alguns casos, símbolos idênticos foram utilizados (Sérvia e Geórgia), ou um slogan que é praticamente o mesmo (Sérvia e Ucrânia). Os regimes afetados sempre são adversários dos interesses americanos em regiões de interesse geopolítico americano (Bálcãs, Mar Negro e Ásia Central) e os regimes substitutos são liderados por políticos que são claramente alinhados com Washington ou, pelo menos, no caso da Quirguízia, tem o potencial de se alinharem mais facilmente.

Os líderes adotados pelas revoluções coloridas foram Yushenko (Ucrânia) e Saakashvilli (Geórgia).

Símbolo do Kmara!

Em todos os casos, o movimento original se esvazia após produzir seu efeito (certamente por não mais receber tanta assessoria e financiamento). O movimento ucraniano "Pora!" não consegue nem 2% dos votos nas eleições e tem ficado fora do parlamento. Na Geórgia o "Kmara" jamais conseguiu se formalizar como partido. O "Otpor!" da Sérvia ficou de fora do parlamento, embora tenha conseguido cerca de 5% dos votos certa vez.

As semelhanças ficam mais interessantes quando avaliamos que não foram somente estes casos. Houve outros movimentos fundados em outros países, com objetivos semelhantes:

  • Zubr -Bielorrússia
  • Oborona ("Defesa") - Rússia
  • Mjaft! ("Basta!") - Albânia

Símbolo da Oborona!

A cor negra está presente nos símbolos de quase todos esses movimentos, ainda que os movimentos tenham sido identificados por cores diferentes (branco, na Sérvia, laranja, na Ucrânia, rosa, na Geórgia, amarelo, na Quiguízia, azul, na Bielorrússia). Símbolos de origem anarquista (punho fechado, bandeira negra) idem. Os movimentos se solidarizam e chegam a prestar assistência mútua. Agentes sérvios organizaram o "Pora!" na Ucrânia e o "Kmara!" na Geórgia. Os georgianos, por sua vez, prestaram assistência aos quirquizes, enquanto os ucranianos auxiliaram os bielorrussos.

Após uma onda inicial de sucesso das revoluções coloridas, alguns países expulsaram as instituições citadas, o que evitou que o movimento crescesse na Bielorrússia, no Uzbequistão e na Albânia. Na Rússia o protesto chegou a ser grande, exigindo a renúncia de Vladimir Putin, mas foi reprimido e passou à clandestinidade. Onde as instituições de ajuda americana não atuam, os movimentos sociais de oposição não se desenvolvem.

A inspiração desses movimentos remete à Revolução dos Cravos (em Portugal, 1974) e à Revolução Amarela (nas Filipinas, 1986). Ambos movimentos não-violentos de resistência civil com o objetivo de derrubar ditaduras. Vale lembrar, porém, que a Geórgia e a Ucrânia não eram ditaduras.

Além dos contatos diretos entre os líderes desses movimentos, há uma clara articulação através da internet, mesmo no caso da Quirguízia, onde uma parcela ínfima da população conhecia a informática.3. A associação com a internet, naquela fase, deu ao movimento um ar de novidade, de poder espontâneo do povo.

Como os regimes fortes perceberam a jogada e começaram a se proteger, a estratégia mudou ligeiramente. Em vez de financiar a fundação de organizações formais, com sede e hierarquia públicas, os Estados Unidos passaram a patrocinar uma atuação desconcentrada, informal e sem hierarquia definida. Ou melhor, com um único centro de decisões, "virtual", localizado fora do país alvo. Muitas características permaneceram, ainda:

  • A Revolução do Cedro (Líbano, 2005) catalisou-se em torno do ex primeiro ministro Rafik Hariri, recentemente morto. O objetivo alcançado foi forçar a saída do exército sírio que tutelava o regime libanês.
  • A Revolução Verde (Irã, 2009), tentou questionar a eleição de Mahammound Ahmadinejad e forçar uma transição para o "moderado" Mir-Hussein Mussavi. Fracassou devido à forte repressão e à incapacidade de Moussavi para fornecer evidências firmes de fraude na eleição (além de ele não ter e mantido firme até as últimas consequências, preferindo contemporizar com o regime).

A tecnologia social desenvolvida através destas maquinações foi rapidamente assimilada em lugares onde a juventude é mais inteligente do que no Brasil, de forma que regimes autoritários alinhados aos EUA começaram a ser vítimas de estratégias semelhantes, desenvolvidas de forma autônoma:

  • Revolução do Jasmin (Tunísia, 2010) retirou do poder um grande aliado americano e abriu caminho para uma geração de políticos nacionalistas, muitos deles tendentes a aproximar-se do Irã e da Rússia.
  • Revolução do Lótus (Egito, 2010) retirou do poder aquele que talvez fosse o mais fiel aliado americano e abriu caminho para a legalização da Irmandade Muçulmana, considerada pelos EUA uma organização terrorista.

Estas duas revoluções se caracterizaram pela falta de um controle central definido, pelo emprego das redes sociais para articular os protestos e pela falta de líderes políticos óbvios, embora em momento algum seus participantes as tenham concebido como apolíticas. O apartidarismo desses movimentos se devia unicamente ao fato de não haverem partidos políticos legais e legítimos em atuação naqueles países. Estas revoluções estiveram fortemente ligadas (biunivocamente) com o Movimento Ocupem Wall Street (Estados Unidos) e com o Grito dos Indignados (Espanha).

O caso da Líbia é sui generis, pois a tentativa americana de produzir uma revolução colorida no país levou a uma guerra civil de grandes proporções, que quase destruiu o país. Por um momento, as estratégias americanas ficaram paralisadas em torno da questão líbia.

Mas no momento seguinte temos a reação. No Egito, organizações semelhantes às que haviam atuado nas revoluções coloridas vão às ruas contra o presidente Mohammed Morsi (que, por sua vez, demonstrava um alto grau de incompetência e sede precoce de controle) e legitimam um golpe de estado que restabelece no poder homens de confiança de Washington. Temos então o começo da revolta síria, desde o início planejada já tendo em vista a perspectiva de uma evolução idêntica à da Líbia. As estratégias foram, inclusive, as mesmas (criação de um governo de oposição, que adota a bandeira anterior do país).

O último elo desta corrente é o Anonymous, uma "grife" de protestos pela internet que surgiu como um grupo de pessoas interessadas em expor a Igreja da Cientologia.

O Anonymous pode ser descrito como um coletivo informal de usuários avançados de computadores (tanto crackers como phreakers e hackers) com a adesão de inúmeros script kiddies e n00bs interessados em fama.

De 2003 a 2011 o Anonymous, cujos membros adotaram como símbolo a máscara usada pelo personagem de Hugo Weaving no filme "V de Vingança", que, por sua vez, é uma referência a Guy Fawkes.4 A partir de 2011, porém, com a prisão de dezenas de seus mais brilhantes operadores, o grupo perde sua aura heróica e passa a segundo plano. Não sem antes contribuir ideológica e estruturalmente para o conceito da e-Revolução.

[CONTINUA]

1"Por isso, garota, façamos um pacto de não usar a highway para causar impacto." (Gessinger, H. "Infinita Highway". In: Longe Demais das Capitais. BMG/Ariola: 1987.

2Seixas, Raul. "Al Capone". In: Krig-Há, Bandolo!. EMI/1973.

3 http://www.academia.edu/2446594/e-Revolution_in_Kyrgyzstan

4 "Terrorista" inglês do século XVI (uma época na qual a palavra, obviamente, ainda não era conhecida), Fawkes pretendia explodir o Parlamento Britânico, matando o rei e todos os deputados, para facilitar a retomada do trono por uma dinastia católica.

Sob o Signo da Águia

Marx inicia O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte tecendo uma série interessante de considerações sobre os processos históricos em perspectiva. Nos primeiros parágrafos encontramos uma das mais famosas invectivas marxistas, segundo a qual "todos os grandes feitos e personagens da história universal aparecem, como se pode dizer, duas vezes[…]: uma vez como tragédia e a outra como farsa.” A exemplo de quase toda a obra do filósofo alemão, esta frase tem sido muito mal interpretada (e não conseguirei corrigir isso, não nesse momento), mas ela expressa algo muito verdadeiro, que só fica claro quando contemplamos o parágrafo seguinte:

Os homens fazem sua própria história, porém não a fazem com o seu livre arbítrio, sob as circunstâncias que eles mesmos escolhem, mas sob as circunstâncias com que se encontram diretamente, que existem e que lhes foram legadas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E quando estes aparentam dedicar-se precisamente a transformar-se e a transformar as coisas, a criar algo nunca visto, nestas épocas de crise revolucionária é precisamente quando conjuram temerosos em seu exílio os espiritos do passado, tomam emprestados seus nomes, suas insígnias de guerra, seus uniformes, para, com este disfarce de velhice venerável e esta linguagem postiça, representar a nova cena da história universal.

Fica claro que “tragédia” e “farsa” são tomadas pelo seu sentido literário, e não pela conotação pedestre que as pessoas normalmente usam. Tragédia é uma história grandiosa e sagrada, de deuses e heróis. Farsa é uma história pequena, limitada e sem sentido. Não há caráter humorístico na segunda, e nem um final necessariamente “trágico” na primeira. O que Marx está querendo dizer é que as repetições se caracterizam pela inautenticidade, pela reivindicação de laços que são, de fato inexistentes.

Os exemplos dados por Marx falam por si em apoio a esta intepretação: Lutero como Paulo, a Revolução Francesa imitando a República Romana e depois o Império. Este artigo pretende apontar mais uma circunstância em que o passado é intencionalmente evocado para legitimar algo novo. Mas não se trata de uma evocação realmente intencional no seu todo, porque os últimos séculos têm mostrado uma estranha tendência dos fatos históricos em espelhar aquilo que houve na noite dos tempos.

Refiro-me à coincidência entre a história da antiga Roma e a história bem conhecida dos Estados Unidos da América. Citei a frase de Marx porque sei que muitos leitores a lembrarão para dizer que várias das semelhanças que vou apontar derivam da imitação intencional dos símbolos do passado. Concordo que tal imitação acontece, apenas não me darei ao trabalho de explicitar quais coincidências eu atribuo a tal imitação e quais não podem receber esta designação. Existem coisas que são mera coincidência, outras que são fruto da imitação e outras que não são nem uma coisa e nem outra, parecendo evocar uma espécie de inércia histórica que move em uma mesma direção genérica as consequências de escolhas parecidas.

Dizendo em palavras mais comuns: não será possível que um país que adote ideologias semelhantes às de um modelo passado venha a se defrontar com desafios parecidos? Será que a História possui uma inércia que permite reproduzir processos antigos a partir de escolhas e circunstâncias parecidas?

Este artigo não pretende argumentar que sim, apenas atiçar a curiosidade do leitor para a possibilidade. Uma resposta definitiva envolveria conhecimento mais profundo das histórias de ambos os países, conhecimento de um nível que não tenho nem esperança de obter. Que o leitor julgue.

Fase Formativa

Ambas as culturas foram eventualmente consideradas "novas" e "sem raízes" porque se formaram a partir de colônias fundadas por culturas mais antigas. Roma pela Etrúria e os Estados Unidos pelo Reino Unido. Ambas as culturas fundadoras eram confederações de estados: Etrúria, uma dúzia de cidades estado de cultura e instituições semelhantes, 1 e o Reino Unido, por pelo menos doze entidades políticas diferentes (embora hoje sejam somente quatro). 2

O fato de ambas as culturas serem monarquias não é exatamente uma surpresa, visto que esta era a forma de governo mais comum entre os países de antigamente, mas é significativo que Etrúria e Inglaterra sejam representadas heraldicamente por predadores carnívoros (lobo e leão, respectivamente) enquanto Roma e os Estados Unidos são representados por aves de rapina (águias, embora de espécies diferentes).

A fundação dos Estados Unidos diverge significativamente da fundação de Roma pelo fato de terem sido fundadas treze colônias, em vez de somente uma, e por não ter sido mitificada na figura de um rei divino (Rômulo). Porém, ambas as culturas foram fundadas por fugitivos. No caso de Roma, os gêmeos Rômulo e Remo foram perseguidos e tiveram negados seus direitos reais, razão pela qual, mesmo após derrotarem seu perseguidor, preferiram deixar sua cidade original, Alba Longa, e fundar uma nova pátria. Alba Longa era uma cidade mestiça, de instituições etruscas e cultura latina, tal como o Reino Unido era uma cultura mestiça, de instituições normandas e cultura anglo-saxã e céltica.

Após a criação da nova cidade, Rômulo tomou uma medida revolucionária, ao convidar a Roma todos os fugitivos e perseguidos, justa ou injustamente. Com este exército de foragidos ele iniciou o seu poder. Da mesma forma os Estados Unidos, não apenas durante sua formação, mas durante séculos, receberam refugiados de todas as partes do mundo. Esta política teve, também, consequências parecidas: no caso romano, atraiu a ira de todas as cidades vizinhas, fazendo com que a nova cidade já nascesse no meio de uma guerra, que obrigou seus cidadãos a recorrer à violência até mesmo para conseguirem mulheres,3 e no caso americano, fez com que o país estivesse envolvido desde o começo em uma grande quantidade de conflitos internacionais.

A independência romana ocorreu ainda sob o signo da monarquia, algo que não aconteceu com os Estados Unidos, mas os historiadores são unânimes em afirmar que a monarquia romana não era efetivamente independente, mas um estado cliente da cidade de Tarquínia (não por outra razão dois dos reis romanos incluíam o nome desta como sobrenome). Hoje em dia se crê que a fundação de Roma foi um ato de colonização levado a efeito pelos etruscos, às custas de cidades latinas como Alba Longa. Se aceitarmos isso como verdadeiro, então a verdadeira independência romana se dá com a derrubada da monarquia, o que nos leva a uma outra série de semelhanças.

Racismo, Genocídios e Consolidação Territorial

Até bem recentemente, os países não se formavam mediante a proteção de órgãos supranacionais, como a ONU, por isso a sua estabilidade só estava garantida se conseguissem consolidar-se e obter um espaço na geopolítica regional. Isso ocorria através da neutralização dos rivais vizinhos e da incorporação de território suficiente para atender à sua economia. No caso de Roma, a fase de consolidação se inicia com a derrubada da monarquia e se conclui com as Guerras Púnicas, nas quais a República assegurou o domínio do Mediterrâneo, eliminou o único estado que lhe fazia frente e aperfeiçoou as suas táticas guerreiras. Durante esse intervalo de tempo, Roma derrotou definitivamente a Etrúria e a incorporou ao seu próprio território. Simultaneamente, o império romano dedicou-se a anexar territórios dos gauleses, até completar a conquista das terras célticas da Europa em 50 a.C.

Evidentemente existem diversas diferenças para o caso dos Estados Unidos, e tais diferenças são esperadas. O inesperado é uma grande quantidade de semelhanças. Primeiramente, os Estados Unidos, uma vez independentes, estavam reduzidos a um pequeno território espremido contra o mar — tal como Roma. Os primeiros anos do novo país foram caracterizados por guerras contra os índios e contra colonizações vizinhas, culminando com a anexação da Luisiana e da Flórida. Por fim, os Estados Unidos derrotaram pela segunda vez sua nação fundadora (na Guerra de 1812), tal como os romanos derrotaram (e anexaram) a Etrúria. Esta derrota rendeu conquistas territoriais, mas diferente da história romana, não resultou na anexação da metrópole.

O melhor paralelo para as Guerras Célticas, no caso americano, é a Guerra do México (1845-1848), ao longo da qual os Estados Unidos tomaram do gigantesco vizinho um território quase equivalente a todo o que tinham antes, correspondendo aos atuais estados do Texas, Novo México, Arizona, Nevada, Califórnia, Utah e Colorado, além de partes do Oklahoma, Kansas e Wyoming. Mas a analogia com os cartagineses funciona para os alemães. Uns e outros foram considerados bárbaros e acusados dos maiores crimes imagináveis. Os romanos não se cansavam de citar os sacrifícios humanos da religião cartaginesa, especialmente a queima de crianças vivas em honra a Moloque, imortalizada no romance histórico Salambô, de Gustave Flaubert. Não se sabe se esta acusação era verdadeira, embora seja muito plausível considerando o que se sabe sobre a religião dos fenícios, fundadores de Cartago. O que se sabe é que nem romanos nem americanos estão isentos dos crimes terríveis que imputaram aos seus inimigos. O sacrifício humano não era desconhecido em Roma mesmo em tempos imperiais (e há quem diga que os espetáculos de gladiadores funcionaram como uma sublimação de tal prática quando ela se perdeu na religião) e a discriminação contra minorias ao ponto do genocídio foi praticada pelos EUA muito antes da Alemanha nazista, sendo que os próprios nazistas herdaram parte de suas ideias de contextos como as guerras indígenas americanas e de obras de eugenistas americanos. Na época da Guerra Fria, pelo menos até os anos 1960, sempre que os americanos acusavam a URSS de não ser um país com eleições livres, os soviéticos replicavam and you lynch negroes (... e vocês lincham negros).

Transição para o Império

No caso romano a transição para o império foi uma movimentação conservadora causada pelo aumento das reivindicações de reformas, que quase chegaram a derrubar o governo. Após a derrota de Espártaco, ficou claro que o antigo modelo oligárquico estava em crise e era preciso mudar alguma coisa. A escolha dos romanos pelo reacionarismo teve muito a ver com o tipo de religiosidade que viviam, e também com o medo de uma realidade desconhecida.

Os Estados Unidos ainda não completaram a sua transição imperial, mesmo porque isto talvez não seja possível no mundo de hoje, com as mudanças culturais que aconteceram desde o século I a.C., entretanto, é possível ver que aconteceram várias guinadas à direita, com a intenção de neutralizar efeitos das reivindicações populares.

Uma das primeiras guinadas foi o macarthismo, nos anos 50, convenientemente surgindo logo após os Estados Unidos lutarem do lado certo em uma guerra de proporções mitológicas contra um inimigo de semelhante categoria. Muitas pessoas teriam se animado com o combate decidido ao racismo científico dos nazistas e com a solidariedade entre americanos e soviéticos. Foi preciso dar então um choque de realidade em todo mundo, fabricando e intensificando uma rivalidade desnecessária, em um mundo no qual os Estados Unidos praticamente imperavam sozinhos, produzindo 54% da soma total dos PIB de todos os países e tendo a mais poderosa força armada do planeta. É interessante notar que o macarthismo não foi uma política presidencial autoritária, mas um “estado de espírito” insuflado pela direita política e exercido através do congresso. Tal como a reação conservadora em Roma foi bancada pelo Senado. Os romanos não teriam aceito um déspota oriental, por isso era preciso manter as aparências republicanas. Da mesma forma, os americanos não aceitariam um ditador, mas tolerariam um sistema político intrinsecamente fechado a projetos alternativos de poder.

A segunda grande guinada à direita ocorreu nos anos 1980, sob o signo de Reagan, o homem que trouxe ao poder os ideais descaradamente reacionários da direita argentária. E esta segunda guinada aconteceu posteriormente ao grande movimento dos direitos civis e da contracultura dos anos 60, tendo até gerado o termo "youppie", em contraposição a "hippie", evidenciando que os valores cultivados naquela década eram diferentes, para dizer o mínimo, do idealismo sessentista.

Podemos associar o episódio do macarthismo com a crise do século I a.C. e seus triunviratos, que terminou com a instalação de um poder imperial mal disfarçado. Nesse caso o grande Júlio César da política americana parece ter sido John Kennedy, sobre cujo assassinato pesa a eterna suspeita de ter sido a mando da própria CIA e das forças armadas, devido à sua resistência aos projetos de poder da direita e sua permeabilidade aos direitos civis dos negros. A CIA, criada para oferecer informação para subsidiar as decisões presidenciais, foi, então, o "Brutus" desse episódio.

Os movimentos da década de 1980 podem ser comparados à reação conservadora dos governos de Vespasiano, Tito e Domiciano, muito embora ideologicamente muito distintos. O que os une não é a identidade ideológica, mas a dinâmica de movimento à direita após um momento de crise (no caso americano a crise é representada pelos desastrosos governos de Kennedy a Carter, que assistiram à diminuição da hegemonia econômica, o crescimento político e militar do bloco comunista e a crise monetária).

Se a analogia se mantiver coerente pelas próximas décadas, podemos dizer que o momento atual da história americana é análogo ao século I d.C., o momento no qual o império já não era tão agressivo militarmente, preferindo conter-se em suas fronteiras após as primeiras derrotas, sofria forte influência cultural estrangeira e via suas tradicionais instituições republicanas serem erodidas por costumes orientalizantes, o agravamento da desigualdade social e ao declínio tecnológico. Não se anime com esta previsão, foi nesta fase que o Império Romano cometeu alguns de seus maiores desatinos, como o genocídio dos dácios e dos bretões e as primeiras perseguições a minorias religiosas!

Religião e Império

Ao contrário do Império Romano, que foi originalmente uma teocracia de certo tipo, os Estados Unidos surgiram com uma promessa de separação entre o governo e a religião. Nunca um presidente americano se comportou, nem mesmo informalmente, como líder religioso, enquanto o estado romano incluía entre seus postos eletivos o de pontifex maximus.

Esta diferença original não significa, porém, que a força da analogia entre as duas culturas se perca. Roma migrou de uma teocracia para um Estado multirreligioso e multiétnico, com tendência a laicização, por um tempo, enquanto os Estados Unidos, originalmente laicos apesar da relativa uniformidade religiosa, migraram para estruturas mais teocráticas, em reação ao surgimento de minorias culturais.

No auge do processo, sob Marco Aurélio, temos um Império praticamente leigo em termos de religião, embora o imperador ainda detivesse o título de pontífice (ainda que desacreditado pelos desatinos que imperadores passados haviam cometido). No auge do processo americano, que vemos atualmente, temos um governo que cede continuamente a uma agenda religiosa cristã.

Entre as minorias religiosas que tensionaram o tecido social romano estavam, certamente, o mitraísmo, o cristianismo, o arianismo, o gnosticismo e o judaísmo. O cristianismo acabou triunfando e absorvendo ensinamentos e teologias de todos os demais, conseguindo quase apagá-los da História. No caso americano, o papel de tensionador é exercido principalmente pelo islamismo, que se apresenta diante do poder imperial americano quase da mesma forma que o cristianismo primitivo em relação às estruturas romanas de poder. Entretando, esta é uma comparação perigosa, porque o cristianismo não era, então, um movimento religioso tão numeroso e tão influente politicamente quanto o islamismo consegue ser no mundo de hoje. Na época em que Roma perseguia cristãos, o único país cristão do mundo era a Armênia!

Símbolos e Instituições

Foi mencionado acima que tanto Roma quanto os Estados Unidos adotaram a águia como insígnia (e curiosamente as nações colonizadoras que deram origem às duas culturas tiveram por símbolo animais carnívoros, lobo e leão). Essa está longe de ser a única semelhança. Deixei, entretanto, essas comparações para o final porque acredito que a sua intencionalidade enfraquece seu sensacionalismo. Talvez tais símbolos tenham sido sugeridos meramente porque, na época da independência americana, era moda o neoclassicismo, que acabou se refletindo na arquitetura política americana, com seus capitólios e palácios colunados. Mas existem semelhanças que não se explicam só com a moda.

Os Estados Unidos criaram um “Senado” inspirado no senado romano (existe um limite mínimo de idade para ser eleito à câmara alta do Capitólio). Enquanto isso, na Revolução Francesa o parlamento era unicameral. O Senado original também era unicameral, posto que não havia câmara eleita entre os romanos.

A instituição presidencial, apesar de um nome não tradicional, deriva da figura do cônsul romano (o título foi efetivamente usado na Revolução Francesa).

A Ideologia Oficial

Romanos e americanos também têm em comum uma ideologia nacional que os apresenta como faróis da civilização. Os romanos se consideravam sucessores dos gregos e chamavam de “bárbaros” a todos os outros povos (esquecidos de que, aos olhos gregos, tanto os etruscos como eles próprios eram “bárbaros”). Ambos os impérios sempre consideraram a difusão de seus valores como um ato civilizatório, ainda que na maioria das vezes tal difusão se tenha feito por métodos violentos e os povos receptores da civilização romana tenham sido, de fato, subjugados e dizimados (o benefício da civilização era dirigido à terra, não ao povo).

Esta ideologia justificou a anexação da Gália, de que resultou o desaparecimento da cultura céltica na Europa continental (os atuais bretões são descendentes de antigos britânicos que se estabeleceram no continente durante a Idade Média), substituída pela romana de uma tal forma que a língua ali se fixou em menos de duzentos anos. Mais tarde, os romanos executaram conquistas sangrentas contra os dácios, os judeus e os britânicos, sempre em nome da expansão da civilização romana.

É difícil não enxergar o mesmo cinismo quando vemos a difusão da civilização americana e seus efeitos sobre países como o México, que perdeu mais da metade de seu território original, Porto Rico, onde a língua espanhola já começa a ceder terreno, Canadá, cuja parte anglófona cada vez mais se assemelha ao grande vizinho do sul, e até mesmo em lugares distantes, como o Brasil e alguns países da África.

A Moeda, as Finanças e as Alianças

Tanto Roma quanto os Estados Unidos enfrentaram em certa época uma crise econômica de caráter muito parecido. Romanos e americanos adotaram originalmente moedas padronizadas segundo metal precioso, o solidus romano e o dólar americano. Ambas as moedas se apreciaram em consequência do expansionismo, no caso romano com as conquistas de Cartago, Egito e Oriente, no caso americano, principalmente, com o ouro da Califórnia e do Alaska.

A apreciação da moeda durante a fase expansionista permitiu que ambos os países acumulassem um grande poderio bélico e construíssem uma infraestrutura que lhes permitiu fazer circular a economia de uma forma muito eficiente. No entanto, as guerras se tornaram progressivamente menos lucrativas porque se tornaram fúteis. As primeiras guerras romanas acrescentaram grandes territórios e aumentaram significativamente o poder da cidade. Mas entre os séculos I a.C. e I d.C. os romanos se envolveram em conflitos desgastantes e infrutíferos em termos de butim, contra os caledônios e britânicos, contra os armênios e persas, contra os judeus, contra os germânicos e, principalmente, contra si mesmos; pois em tempos de paz o belicoso luta contra si.

O exército poderoso precisava ser mantido, e era caro mantê-lo. Quando as guerras começaram a ser principalmente defensivas ou retaliativas, o exército se tornou um peso excessivo para Roma. Uma solução criativa para isso foi a extensão da cidadania romana a algumas províncias (e logo a todas). Nada melhor para o problema do que dividir a despesa com quem se beneficiava da segurança proporcionada pelas legiões. Este tipo de estrutura, o "tratado" (foedus) tem uma analogia curiosa com o estabelecimento da OTAN, como veremos à frente.

O poder, porém, ainda continuou, pelo menos inicialmente, nas mãos dos senadores originários da península itálica.

Algo muito semelhante ocorre no caso americano. Após a consolidação territorial (que se conclui com a Guerra Hispano-Americana, última em que os Estados Unidos anexaram território), o exército deixou de trazer terras e pilhar tesouros para ser um peso para a nação. Inicialmente os governos americanos usaram este exército para defender os interesses econômicos americanos em sua esfera de influência, a América Latina, mas sempre foi evidente que o poder americano era excessivo para esse fim. Isso levou o país a crises periódicas, causadas pela diminuição do ímpeto de anexações, pois o capitalismo imperialista é como uma bicicleta, e só se mantém equilibrado quando se move para frente.

Tal como Nero inventou a inflação ao aviltar as moedas de ouro, recunhando-as com uma liga menos rica, sucessivos governos americanos aviltaram o dólar, reduzindo sua paridade em metal precioso. O primeiro de tais atos foi em 1861, quando o dólar (até então bimetálico) abandonou o padrão prata e ficou restrito ao ouro. O último ocorreu em 1971, quando o dólar definitivamente deixou de ser uma moeda ligada ao metal precioso.

Em ambos os casos a consequência foi o aumento da inflação, muito embora esta tenha sido causada mais pelas instabilidades que levaram ao fim do padrão ouro do que por este fim. A inflação romana foi dramática, levando a fome e desespero porque, já naquela época, os pagadores de salários não queriam reajustar o pagamento de seus empregados. Talvez isto explique a fase violenta que o país viveu após a morte de Nero, só se estabilizando quase vinte anos depois, sob Vespasiano.

A mais chocante semelhança a que aludo neste ponto, porém, é a estratégia adotada por romanos e americanos para reduzir o impacto do exército sobre o orçamento nacional: se os romanos deram cidadania às províncias, os Estados Unidos criaram uma aliança internacional, a OTAN, através da qual outros países tiveram de contribuir para o custeio da máquina de guerra americana, direta ou indiretamente. Vemos então que ambas as culturas procuraram expandir seu alcance fiscal a fim de custear melhor um exército superlativo, e o fizeram através da promessa de segurança, que tinha uma contrapartida em perda de autonomia.

Guerras por Recursos

Em tese toda guerra é por recursos, ainda que isto esteja inicialmente inaparente. Mas quando me refiro aqui a "recursos" eu me refiro a guerras que não têm a intenção de anexar território, mas apenas obter acesso a produtos ou riquezas necessários ao custeio do estado deficitário devido à máquina de guerra. A fase da guerra por recursos é aquela na qual os conflitos deixam de ser focados no aumento do território e passam a buscar a estabilização da economia.

No caso romano, desde o final do século I, as principais guerras travadas foram de cunho econômico ou defensivo. Notório é o caso da conquista da Dácia, última grande conquista romana em termos de território, que, na verdade, teve por objetivo agregar ao erário imperial o imenso tesouro dos dácios, em cujo território se encontravam as maiores minas de ouro da Europa.

Se Roma precisava de ouro (pois não havia uma cultura econômica desenvolvida, que preconizasse algum tipo de produção autônoma e contínua de riqueza), os Estados Unidos dependem, já há um bom tempo, do negro ouro chamado petróleo. É em busca deste que as principais guerras americanas foram travadas, desde há cerca de vinte anos. O principal episódio deste tipo de conflito seguramente foi o Iraque, ainda que haja controvérsia sobre a extensão do controle americano sobre o petróleo de lá.

O Arquiinimigo

Romanos e americanos tiveram de conviver secularmente com nações formidáveis que nunca puderam vencer. No caso romano, a grande Guerra Fria (nem sempre fria) do mundo antigo foi contra os persas (inicialmente o império da Pártia e depois o império sassânida). Esses longos conflitos se caracterivam pelo desgaste contínuo das estruturas militares de ambos os países e por nenhuma solução definida. A fronteira praticamente não avançou em mais 600 anos.

Alguns países se estabeleceram como estados-tampão entre os impérios, como por exemplo a Armênia e a Arábia, que alternavam entre as duas influências.

Pax Romana e Mare Nostrum

Após a consolidação territorial, e institucional, Roma passou a considerar o Mediterrâneo um território exclusivo seu, o que impediu, por exemplo, que a Armênia conseguisse se desenvolver, independente de qualquer desgaste bélico.

Os Estados Unidos consideram o Atlântico, especialmente o Atlântico Norte, um mar tão seu quanto os romanos consideravam o Mediterrâneo. Tanto assim que a aliança militar americana é a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Mas a reivindicação de soberania americana é o mundo todo, claro. Restringe-se na prática ao Atlântico Norte por ser o único oceano limítrofe que não tem contato com o mar territorial de seu grande rival, a Rússia.

Além de um "mar seu", os americanos também estabeleceram uma "esfera de influência" na América Latina, que não tem paralelo no caso da antiga Roma.

Entre meados do século I e o final do século II os romanos experimentaram aquilo que chamaram de Pax Romana, a ausência total de ameaça externa ao império. Este período não foi pacífico internamente, claro, mas durante todo ele nenhum povo bárbaro conseguiu sequer desafiar o império. A Pax Americana surge em 1848, com a derrota definitiva do México, que deixou de ter qualquer chance de surgir como potência mundial. De 1848 a 2001 (ou até hoje, se você pensar bem) nenhum país conseguiu desafiar a hegemonia americana porque nenhum país conseguiu levar o conflito para dentro de seu território. No caso romano isso só vai acontecer no século IV, causando grande espanto.

Conclusões

Este artigo é um mero rascunho, nada exaustivo, mas que eu espero ser provocante o suficiente para que pessoas mais brilhantes do que eu o expandam. Espero que o meu leitor entusiasmado pesquise e encontre ainda mais semelhanças e diferenças. Com base nisso podemos começar a teorizar aquilo a que aludi lá em cima, no comecinho deste artigo:

Dizendo em palavras mais comuns: não será possível que um país que adote ideologias semelhantes às de um modelo passado venha a se defrontar com desafios parecidos? Será que a História possui uma inércia que permite reproduzir processos antigos a partir de escolhas e circunstâncias parecidas?

Com a palavra o leitor.

1O termo “Etrúria” se refere a uma região geográfica, mais ou menos correspondente à Toscana, na Itália, e não a um estado. As cidades originalmente associadas à cultura “etrusca” são (nomes latinos, com os possíveis nomes etruscos em parênteses): Arretium/Arezzo (Arritim), Caere/Cerveteri (Caisra), Clusium/Chiusi (Clevsin), Cortona, Volterra (Felathri), Populonia (Fufluna), Perusia, Tarracina (Tarchna), Tarquinia (Tarchnal), Veio (Veii), Vetulonia (Vetluna), Fiesole (Vipsul), Volci (Velch), Volsinia (Velzna).

2 Quando o Reino Unido se formou, pela união pessoal dos reinos da Escócia e da Inglaterra, um bom número de outras entidades políticas havia sido absorvida anteriormente, por um ou por outro dos reinos unidos. A Inglaterra incorporara, além dos seis reinos anglo-saxões originais, a Cornualha, a Nortúmbria, Gales do Norte, Gales Central, Gales do Sul, Man, Munster, Connaught, Ulster, Leinster e Meade (os cinco últimos os reinos existentes na Irlanda pré-conquista). A Escócia incorporara a Caledônia, as Órcadas e as Shetlands.

3 O episódio do rapto das sabinas.

Sobre os Malefícios Mentais do “Anarcomiguxismo” (2)

Sendo o anarcomiguxismo um sistema de crenças essencialmente irracional, como demonstrado acima, a continuidade da crença depende da supressão do espírito crítico. Refiro-me a uma atitude receptiva em relação a conhecimentos obtidos de certa fonte (especialmente os artigos do Instituto Mises e os dados do Heritage Foundation, mas não somente) aliada à rejeição apriorística de informações obtidas de outras origens. Essa "endogamia" intelectual, na qual as ideias do indivíduo são alimentadas exclusivamente por textos que reforçam seus conceitos anteriores (pré-conceitos) produz uma baixa gradual do ceticismo, pois um texto é aceito como corroboração de outro, de forma recursiva, em um gradual afastamento em relação a qualquer capacidade de questionar.

Essa autorreferência do pensamento anarcomiguxo produz um descolamento da realidade tão profundo que somente aos olhos de quem está "de fora" é possível discernir o grau de absurdo. O "anarcomiguxismo" é, então, uma espécie de Cientologia econômica, cujos artigos que mencionam Xenu só são apresentados a quem já leu as obras mais básicas. Da mesma forma que a Cientologia não começa por pregar ao neófito que há bilhões de anos um vilão espacial transportou seus inimigos para a Terra a bordo de aviões DC-10 e os explodiu com bombas atômicas dentro de vulcões, os anarcomiguxos não começam explicando textos polêmicos, tais como:

  • A Ética da Liberdade (Murray Rothbard), em cujo capítulo XIV ele diz que os pais deveriam ter poder ilimitado sobre seus filhos --- inclusive podendo matá-los, vendê-los ou prostituí-los --- e que a educação infantil deveria ser facultativa.
  • Legalize Drunk Driving (Lew Rockwell), onde se argumenta que o Estado não tem o direito de, mesmo sob o pretexto de proteger a vida de outras pessoas, impedir que o proprietário de um veículo o dirija.
  • O Caminho da Servidão (Frederik Hayek), onde se argumenta que a adoção de medidas humanitárias e a concessão de direitos às massas produziriam o fim da liberdade (econômica, claro), criando ditaduras e destruindo o mundo…

A adesão a esse sistema de crenças enviesado e em franca contradição com o bom senso (Rockwell e Rothbard) ou com os fatos históricos observados (Hayek) tem sobre o "anarcomiguxo" o efeito de condicionar a sua própria interpretação da realidade, levando-o a agir de forma equivocada diante de situações que exijam uma leitura correta dos acontecimentos.

Um exemplo deste efeito "alucinógeno" do "anarcomiguxismo" sobre seus adeptos é o que está acontecendo com o Dâniel Fraga.

Dâniel é figurinha carimbada dos fóruns internéticos há muitos anos. Nunca foi muito certo da bola, tendendo a ter opiniões exacerbadas e uma reção meio infantil diante de contestações firmes. Certamente alguém com certo problema mal resolvido com autoridade, sei lá, talvez um complexo de Édipo.

Ele aderiu às ideias "anarcomiguxas" de uns dois ou três anos para cá. Pelo menos esse é o horizonte de tempo ao longo do qual eu me lembro de tê-lo visto discursando enfaticamente contra as maldades do Estado e as maravilhas das empresas e dos indivíduos. Seu canal no YouTube foi, durante este tempo todo, uma das maiores fontes de difusão do pensamento "anarcomiguxo". De fato, eu uso este termo, que não foi cunhado por mim, de forma a evocar aquilo que Fraga se tornou. Minha definição de "anarcomiguxo" é Daniel Fraga.

A fama lhe subiu à cabeça, embora não lhe tenha sido suficiente para subir de nível a mobília de seu quarto (que, ainda assim, parece mais organizado que o meu). Isso fez com que ele subisse de nível em suas críticas, adotando um tom cada vez mais destemido, belicoso até. Desenvolvou uma entortada de boca que sugere alguém que morde as palavras com raiva quando as diz, e expele seus argumentos com força e dor, como quem expele cálculos. Não sei se isso foi intencional, mas ele copiou de muitas formas os trejeitos de Olavo de Carvalho. A diferença é que Olavo se auto-exilou nos EUA, de onde pode dizer o que quiser sem riscos. Fraga ficou no Brasil, e aqui, como sabemos, não existe liberdade de expressão absoluta.

Eventualmente Fraga cometeu algo temerário: criticou um juiz. Juízes são bichos difíceis de criticar porque, apesar de todo o aperfeiçoamento de nossa democracia desde 1988, eles ainda são, praticamente, acima da lei. A pior coisa que pode acontecer a um cidadão é incorrer no desagrado de um juiz. Melhor blasfemar contra Deus do que contra um juiz, se é que vocês me entendem. Porque, mesmo que não façamos nada de errado, não é desejável o incômodo de um longo processo, com todo o seu custo monetário e o desgaste de imagem que isso traz. Dependendo das circunstâncias, um veredito de inocente pode ser totalmente irrelevante, pois o processo em si já foi uma punição cruel.

Mas Fraga fez pior: ele não se limitou a criticar o juiz, ele o fez de forma insultuosa, estendeu a crítica a outros juízes, e explicitou em sua crítica que o juiz seria "ignorante" (sic) do assunto sobre o qual decidiria.

Por mais que eu ache que a liberdade de expressão deva ser mais garantida neste país, eu não consigo achar certo o modo como Fraga se expressou. Um juiz é uma autoridade, e uma autoridade que não tem origem democrática, ainda. Isso quer dizer que existe certo protocolo envolvido. Você não pode simplesmente tratar um juiz como trata um vereador, que pode perder a próxima eleição e cuja autoridade é limitada por essa e outras circunstâncias. O juiz não está sujeito a eleições, ele não presta contas a ninguém, e ele tem suas prerrogativas de forma vitalícia.

Não que eu concorde com esse estado de coisas. Longe de mim. Mas essa é uma leitura realista da mundo real. Diante de uma leitura realistas, devemos tomar medidas realistas. O mundo real não é um fórum da internet, onde você se esconde atrás de um fake para xingar um desafeto. Em certo momento, Fraga se esqueceu de que não estava "na internet" quando fez uma crítica sobre um fato do mundo real. O juiz, ser material existente no mundo real, tomou conhecimento e agiu.

Imagino que Fraga, ao fazer sua crítica, não supôs que haveria consequências. Ele está acostumado a usar palavras muito fortes para se referir a seus desafetos e a políticos de quem discorda. A impunidade o fez ficar descuidado. Não entendeu que não podia simplesmente chamar um juiz de "ignorante" e que não tinha o direito (nesse caso eu afirmo que ele não tinha o direito) de falar rosnando para uma autoridade como ele falou.

Foi um erro grave, mas ainda não foi o mais grave de seus erros. Tamanho era o descolamento de Fraga em relação à realidade que, mesmo depois de notificado judicialmente, ele continuou a agir de forma tresloucada, sem levar a sério a situação em que se metera, tal como Josef K. Se amanhã ou depois tiver um triste fim, "como um cão", terá sido por sua própria falta de juízo. Se é que me entendem.

O juiz ofendido, aparentemente, acionou-o por calúnia e pediu segredo de justiça porque Fraga, tendo acesso ao YouTube, poderia fazer uma grande celeuma sobre o caso, prejudicando o processo. Entendo que o pedido de segredo de justiça foi desnecessário, mas eu entendo aonde o juiz quis chegar e não consigo discordar totalmente de sua interpretação. Opinião minha achar desnecessário. Mas absurdo o pedido não foi.

Porém "Fraga Man" --- o super herói anarcomiguxo, que combate o Malvado Estado usando sua camisa azul-água, seus óculos sem aro, seu roupeiro padrão cerejeira e seu teclado --- não se conformou em não poder noticiar o acontecido! Não, o povo precisa saber. E já que o juiz botou segredo de justiça, what would Misus do? Se ele tivesse simplesmente continuado a falar do caso, mesmo com ordem de manter segredo, já estaria fazendo uma cagada grande, mas o típico anarcomiguxo não se contenta com pouco: Fraga precisava fazer uma cagada gigantesca. Ele mesmo confessou em um vídeo que "na internet não existe segredo de justiça" e exibiu cópias impressas de documentos referentes ao processo.

Não tenho palavras para descrever o que pensei ao vê-lo dizer isso. Meu queixo caiu no chão e quicou. Se um documento está em segredo de justiça e ele o obteve através da internet, esse arquivo só pode ter sido obtido mediante uma invasão do sistema do TJ-SP, um acesso não autorizado. Espionagem, se é que vocês me entendem. Fraga confessou publicamente que obteve por meio ilegal (possivelmente criminoso) documentos que um juiz determinara serem segredo de justiça. Não apenas ele violou o segredo de justiça decretado, como fez questão de dizer que a violação ocorreu por um meio ilegal!

É difícil acreditar que uma ameba destas tenha inteligência normal. Na minha opinião, a partir do momento em que ele CONFESSOU ter violado o site do TJ-SP para obter os documentos, a punição de Fraga não apenas se tornou inevitável, mas é agora necessária. Em nome da democracia e da segurança das instituições, um sujeito que viola o site do Tribunal de Justiça para ter acesso a documentos sob segredo de justiça não pode ficar impune. Isso desmoraliza a própria justiça e achincalha a democracia.

Gostaria de deixar aqui bem claro que existem dois momentos separados nesse evento. O momento em que Fraga faz uso de sua liberdade de expressão para criticar um juiz e o momento em que ele se vangloria de apresentar documentos obtidos apesar do segredo de justiça.

No primeiro momento Daniel tem a minha solidariedade, embora eu ache que ele foi ingênuo, idiota e sem educação (coisa que ele normalmente é na internet). Acho que ele merecia uma reprimenda. Possivelmente o caso estava sendo tratado com exagero (talvez por vaidades envolvidas), mas ele precisava de um susto para "tomar tenência na vida". Para não ficar achando que pode falar o que quer, do jeito que quer, com qualquer pessoa. Para alguém que propõe a viabilidade dum "pacto de não agressão" entre os indivíduos numa sociedade sem Estado, Daniel é agressivo demais.

Mas eu não me solidarizo com Daniel Fraga pelo seu segundo ato. Se ele se sentia injustiçado, tinha todo o direito de se defender, constituir advogado, lançar uma campanha de solidariedade, apelar à Anistia Internacional, acender uma vela para Exu e outra para Jeová; fazer o que quisesse, DENTRO DA LEI. Recursos existem para isso mesmo. O processo é doloroso, a última coisa que eu quero é ficar inimigo de um juiz, mas chutar para o alto as leis e os costumes da democracia têm um custo maior.

Talvez Dâniel tenha querido brincar de desobediência civil. Leu demais Henry David Thoureau. Duvido que tenha pensado em se fazer de mártir da liberdade de expressão, ou do movimento libertário (t.c.c. "anarcomiguxo"). Talvez apenas não tenha se dado conta em tempo da necessidade de racionalidade para agir no mundo real, visto que no mundo virtual a sua persona se caracteriza pelo exercício contínuo da irracionalidade. Minha impressão é que Dâniel se tornou uma vítima da distorção cognitiva que o "anarcomiguxismo" provoca, incapacitando o indivíduo para compreender a realidade de forma útil.

E desta forma, Fraga se vê no meio desse redemoinho, totalmente despreparado para compreender esta cruel realidade, tão diferente do universo mágico em que viveu por tantos anos. Para tornar seu caso ainda mais trágico, ele não me parece ter os meios materiais para se defender eficazmente e a própria ideologia que defende parece ser incompatível com a solidariedade de outros como ele.

Diante destas circunstâncias, acho que a melhor saída é pedir que alguém da família requisite sua tutela por insanidade.

Sobre os Malefícios Mentais do “Anarcomiguxismo” (1)

Toda ideologia é uma prisão mental em termos: ela condiciona o indivíduo a pensar de determinada forma, e com tal intensidade que somente à custa de muito esforço ele consegue superar estas amarras invisíveis e pensar "fora da caixa".

Entretanto, a existência de ideologias é um fato dado, principalmente se considerarmos o termo em um sentido mais amplo, significando algo mais do que seu significado mais recorrente. Da inevitabilidade da ideologia surge uma necessidade imperiosa de selecionar as ideologias que nos convém abrigar. Há ideologias positivas e negativas, benéficas e prejudiciais, boas ou más. É um equívoco supor que exista inocência nas ideologias, equívoco tão grande, mas tão útil, que ele próprio se transmutou em uma ideologia, o apoliticismo, que serve para castrar grandes contigentes de potenciais pensadores, facilitando o trabalho da minoria que idealiza.

Não pretendo fazer aqui um apanhado de quais ideologias são boas ou más, primeiro porque confesso minha imensa ignorância em relação a uma ampla quantidade de assuntos e fatos que eu precisaria dominar para sequer começar a entender o tema em profundidade. Nunca li Adorno, Althusser, Harendt, Freud, etc. Minhas leituras são irregulares demais para que eu, simples sapateiro, me aventure além das sandálias.

Minha análise será muito mais humilde e restrita: pretendo demonstrar, de forma quase prosaica, que aquilo a que tenho chamado "anarcomiguxismo" é uma ideologia absurda e totalmente nociva não só ao conjunto da sociedade, mas, e nisso meu argumento talvez encontre apelo entre os adeptos, ao próprio indivíduo que a siga.

Em primeiro lugar, recuperar a definição usual de "anarcomiguxismo", uma ideologia de difícil classificação no espectro ideológico tradicional (esquerda/direita), trata-se de uma mistura em partes desiguais de uma série de conceitos de diversas origens, entre os quais:

  • Primazia do indivíduo sobre a sociedade, por intermédio de uma interpretação limitada de parte da filosofia de Nietzsche ("Humano, Demasiado Humano", "Gaia Ciência", "Assim Falava Zaratustra" e "Ecce Hommo", principalmente).
  • Valor moral do egoísmo, por intermédio de Ayn Rand, romancista americana de origem russa que tinha uma interpretação pervertida de outra parte da filosofia de Nietzsche.
  • Crença fundamentalista no capitalismo e rejeição enfática do socialismo, obtida por leituras de artigos publicados pelo Instituto Mises.
  • Ideal de autossuficiência não muito diferente do de comunidades religiosas ultramontanas, como os Amish, e a extrema direita sulista americana (Minutemen, Survivalists e o Militia Movement).
  • Aspiração anarquista ("AnCaps") ou secessionista ("Seasteading", "Charter Cities") em relação à sociedade existente.
  • Negação da solidariedade social, não apenas de forma ideológica ("moral") mas afirmando mesmo a impossibilidade desta.
  • Negação da intervenção estatal no contrato social, propondo ideias como "Pacto de Não Agressão" e "Autorregulamentação Privada".
  • Crenças dogmáticas sobre princípios econômicos ou relações sociais herdadas da teoria econômica pseudocientífica de Mises e Hayek, especialmente derivando através dos artigos inacreditáveis de Murray "Direito de Dirigir Bêbado e de Vender os Filhos" Rothbard.
  • Afirmativas behavioristas e mecanicistas sobre o comportamento humano.

Esse sistema ideológico abstruso e desconexo tem se popularizado muito nos últimos anos, especialmente entre a classe média brasileira, única do mundo que consome avidamente os artigos do Instituto Mises. Já disse anteriormente que há indícios de que a divulgação desta ideologia seja uma estratégia de "astroturfing" com o objetivo de "bagunçar o coreto" ideológico do Brasil neste momento em que o país começa a ensaiar passos mais ousados no cenário mundial (vide "A Conspiração Anarcomiguxa"). No Brasil, especificamente, o anarcomiguxismo se manifesta com características excepcionais:

  • Antipetismo histérico, como se o PT fosse o único partido corrupto (ou o mais corrupto) e como se ele fosse resposável pelos maiores atos de corrupção da história do Brasil. O antipetismo histérico se caracteriza por oposição automática a tudo que seja anunciado como polítia do governo, mesmo que atenda a reivindicações feitas anteriormente (vide a postura reacionária frente ao "Mais Médicos", criado em resposta às manifestações de junho).
  • Desprezo quase racista pela América Latina, especialmente Cuba, Venezuela, Paraguai e Bolívia.
  • Apoliticismo, enquanto os anarcomiguxos norte-americanos têm cerrado fileiras com o Partido Republicano, a ponto de causarem êxodo de republicanos tradicionais (o que pode criar condições para, finalmente, o surgimento de um terceiro partido nos EUA), os brasileiros insistem no discurso supra ou antipartidário.
  • Vínculos com o movimento "Anonymous", que tem atuado como um apêndice da CIA desde a prisão de seus principais líderes.

Quando tomamos os princípios e práticas do anarcomiguxismo sobre mesa e tentamos analisá-los de forma racional, é difícil imaginar que alguém consiga engolir um todo tão contraditório e sem sentido. De fato o é, pois raramente estas características acima elencadas pertencem a um indivíduo único. Aliás, parte do discurso dos anarcomiguxos é justalmente salientar as diferenças entre o "anarcomiguxismo padrão" e sua ideologia pessoal, como forma de negar a validade do rótulo. No entanto, mesmo rejeitando o termo pejorativo, existem indivíduos que, de forma espantosa, conseguem encarnar todos esses princípios e ainda não entrar em convulsão. Não citarei nomes. Analisemos inicialmente de que forma a difusão excessiva de ideias anarcomiguxas seria prejudicial à sociedade.

A difusão de uma ideologia individualista mina as estruturas democráticas de decisão, pois o individualista, por negar-se a cumprir o consenso da sociedade, ameça a legitimidade das instituições. Isto não é necessariamente ruim quando um número significativo de pessoas se opõe a instituições por discordâncias ideológicas ou humanitárias (caso dos que combatem ditaduras, lutam por mudanças na legislação etc.), mesmo que essa oposição seja por canais não institucionais. Mas quando o solapamento das instituições democráticas não se faz visando ao aperfeiçoamento da liberdade democrática, mas meramente em nome das idiossincrasias dos que não aceitam as decisões da maioria, temos uma situação na qual não há solução possível, a não ser a ruptura institucional, com consequencias violentas. Uma luta contra uma ditadura desagua numa democracia, uma exigência de mudança na legislação pode ser atendida com o atendimento do pleito; mas como solucionar um conflito social se os que protestam apenas não querem ser parte de um sistema democrático de decisão?

A crença fundamentalista no capitalismo, sob a vertente da escola austríaca, é um grave problema epistemológico, pois borra a fronteira entre ciência e pseudociência, especialmente na área de Humanas, onde tal fronteira é sempre acusada de já ser tênue. O enfraquecimento da área de Humanas é útil ao status quo, especialmente porque o conhecimento da história e da economia favorecem ao entendimento dos mecanismos de atraso e de dominação. Desacreditar a História é útil aos revisionistas, aos relativistas e à ultra-direita neoliberal. Não é por acaso que, apesar da crítica de Hayek e Mises aos fascismos, muitos neonazistas e neofascistas têm aderido a certas ideias "anarcomiguxas": o individualismo exacerbado favorece a tolerância a movimentos que seriam intoleráveis em uma sociedade democrática funcional e capaz de se defender de seus detratores.

O ideal de autossuficiência, da forma como difundido, emprega jargão e literatura herdados de movimentos ultradireitistas americanos, ligados a igrejas fundamentalistas, a Associação Nacional do Rifle e aos Baby Shakers. Trata-se do tipo de gente que produziu fenômenos religiosos como Jim Jones e David Koresh, a mesma gente que criava e implementava informalmente as chamadas "Leis Jim Crow" (costumes e práticas racistas no sul dos EUA). Isso abre espaço para a doutrinação de nossa juventude por textos de gente que inspirou terroristas como Timothy McVeigh. Imagino quantos até não estarão lendo o próprio Manifesto do Unabomber ou o livro de Anders Breivik, que dialoga com todo esse movimento.

As aspirações anarquistas ou autonomistas dos "anarcomiguxos" muitas vezes supoem a secessão de parte do território nacional (vide, novamente, o artigo sobre Charter Cities) ou a emigração para um tal território cedido por outro país. Na prática, isto quer dizer que os anarcomiguxos que esposam estas ideias são suscetíveis a apoiar a tomada de território nacional por potências estrangeiras se estiverem convencidos de que seus ideais serão implementados lá. Isto, obviamente, os coloca na direção de eventualmente se tornarem traidores da pátria (embora, espero, não "muito perto").

As proposições que fazem em relação ao convívio social, como substitutos da atuação "repressora" do Estado são quimeras irrealizáveis ou, pior, propostas absolutamente imorais (quando não ineficazes). A substituição da polícia e da justiça por serviços privados, como alguns propõem, é um retrocesso ao feudalismo ou, de forma mais caricata, ao coronelismo brasileiro (se bem que, no caso deste último, havia uma aparência de legalismo). A ideia de um pacto de não agressão para explicar como a sociedade se sustentaria sem a coação da lei é uma crença ingênua digna de um cristão embevecido. Por sua vez, a expectativa de que as empresas possam se autorregular, prescindindo da fiscalização pelo poder público e evitando mecanismos típicos do mercado imperfeito (como monopólios, oligopólios, trustes e cartéis), vai contra tudo que já se observou na história human.

O antipetismo histérico esteriliza o debate político, criando uma situação maniqueísta na qual o governo está sempre errado, ou até, em alguns casos, propostas se tornam erradas por serem encampadas pelo governo. O que conduz a um impasse, que impossibilita um debate racional. O recente caso da reação da classe médica às medidas do Ministério da Saúde é um claro exemplo de como a obsessão em bloquear a política do governo foi priorizada em detrimento de qualquer contribuição que as entidades de classe pudessem dar em relação ao tema.

O apoliticismo, combinado com o antipetismo, produz um esvaziamento do debate político, favorecendo discursos golpistas ou autoritários e criando falsas expectativas de um governo "forte" que "resolva" os dilemas, o tipo de caldo de cultura em que cresceu Mussolini.

Mas estes aspectos prejudiciais do "anarcomiguxismo" para a sociedade não serão compreendidos nem aceitos pelos simpatizantes de tais ideologias justamente porque eles raciocinam que eu, como esquerdista assumido, tenho por bandeira desqualificar ideias que vejo como "reacionários". Nisso eles têm certa razão. As críticas que faço são as críticas que um esquerdista pode fazer. Imagino que algumas delas, especialmente quanto ao potencial de traição pátria contido na ideologia "anarcomiguxa", também poderiam ser feitas por um direitista duro, mas em sua maioria elas estão, pelo menos, vazadas numa linguagem que trai conceitos exclusivos de esquerda. Existe algo, porém, que um esquerdista pode dize e que sensibilizará um "anarcomiguxo": uma demonstração de que este naipe de ideias é prejudicial ao indivíduo.

No próximo capítulo.

A Psiquiatria como Arma Política

Existe uma teoria, muito discutida em mesas de bar onde esquerdistas, barbudos ou não, deflagram suas ideias mais porra-loucas, segundo a qual os totalitarismos convergem de inúmeras formas, ainda que continuem diferentes em inúmeras outras. Esta teoria é análoga ao espantalho da direita, segundo a qual os fascismos (totalitarismo de direita) são de esquerda, mas contém uma ressalva que exclui o dogmatismo: as semelhanças não existem porque a essência dos regimes seja a mesma, mas porque a eficiência de certos instrumentos pode estar a serviço de qualquer sistema.

Instrumento é a palavra que cabe aqui. Instrumentos não são inteligentes, não possuem iniciativa, não são, portanto, ideologicamente fiéis. O mesmo instrumento pode ser usado por diferentes ideologias, sem que isso indique uma identidade absoluta entre elas. Uma vez mais, porém, ressalvemos que os instrumentos não são neutros, mas a ideologia que eles possuem é própria deles, e modifica os sistemas que os empregam, em vez de identificar-se com eles. E aqui chegamos a fechar o círculo.

Quando um regime começa a empregar instrumentos que foram utilizados profusamente por outro regime anteriormente, é natural que se comente que ocorre uma aproximação entre eles. Mesmo que, em essência, as diferenças permaneçam. Muitas vezes as diferenças (residuais) são apenas uma forma de manter o foco afastado daquilo que realmente mudou.

Todo mundo conhece a triste tradição de uso da ciência como instrumento político nos totalitarismos, de todas as cores. Instrumento político de promoção, como a corrida espacial soviética, responsável por inviabilizar os desenvolvimentos econômicos necessários a um país que ainda não havia completado a sua transição para uma economia plenamente industrial, ou de repressão, como o emprego de teorias eugenistas pela Alemanha nazista a fim de justificar o expurgo de milhões de indesejáveis. Menos pessoas conhecem a prática, notavelmente comum na União Soviética, de tratar como loucos certos opositores ao regime.

Esse desconhecimento se explica pelo obscurantismo proposital com que a história soviética é tratada nos meios acadêmicos influenciados pelos Estados Unidos. Nesses meios há uma profunda ênfase nos “gulag” (campos de trabalho forçado) que teriam sido responsáveis por milhões de mortes (o número alegado varia entre 6 e 60 milhões, conforme a necessidade que o “historiador” tenha para satanizar os “vermelhos”). Cadáveres são argumentos mais fortes que qualquer outra coisa, mesmo que eles não sejam tangíveis, e existam apenas em estatísticas tiradas de trás da orelha.

Ocorre que se fosse tão fácil (e tão comum) descartar os indesejáveis simplesmente pondo-os para trabalhar enxugando gelo na Sibéria sem lhes dar comida, até eles morrerem de fome e de frio, o regime certamente empregaria este método de forma indiscriminada — como fez o Khmer Vermelho no Camboja, causando a morte de mais de um terço da população do país em poucos anos. De fato não era assim: por mais que Stálin fosse bicho-papão, e eu não tenho nenhum motivo para pensar que ele não fosse, uma violência tão indiscriminada teria um efeito terrível sobre o moral do povo, pois seria impossível manter aparências de normalidade quando tanta gente está sendo morta pelo governo.

Os mais raivosos anticomunistas alegam que Stálin teria causado a morte de mais de 60 milhões de pessoas entre 1936 e 1950, quando a URSS inteira não tinha mais que 200 milhões de habitantes. Se uma hecatombe dessas tivesse acontecido, seria impossível esconder.

Verdade seja dita: muita gente morreu mesmo nos campos de trabalho forçado, e não é impossível que o número passe da casa do milhão, mas uma cifra acima de dez milhões de mortos só é possível de se obter se considerarmos que os mortos causados pela II Guerra Mundial são atribuíveis a Stálin — o que é uma batatada fenomenal, visto que Stálin estava tão interessado em entrar em guerra que chegou a assinar um pacto de não agressão com Hitler (na hora de pôr a culpa da II Guerra em Stálin os direitistas mais obtusos deixam propositalmente de mencionar o pacto Ribbentropp-Molotov).

Assim como a II Guerra é convenientemente usada para aumentar a contagem dos cadáveres de Stálin, fatores outros são postos de lado para não interferirem com a frágil verossimilhança dos dados apocalípticos do “comunismo”. Refiro-me à prática de se internar em hospícios certos opositores do regime, notoriamente os mais conhecidos.

Digo “os mais conhecidos” de uma forma meio leviana, porque o regime soviético não teve nenhum pejo em prender e desaparecer com gente muito famosa, como Isaak Babel e Sergei Eisenstein. Mas é certo que muita gente que viraria adubo segundo a versão mais radical desse anticomunismo raivoso acabou sofrendo tratamentos psiquiátricos em vez de ser simplesmente morta. E muitos nem sequer chegaram a sofrer os ditos tratamentos, sendo apenas difamados com sua loucura.

O recurso psiquiátrico — assim como o banimento — evidenciam que os “gulag” não eram a única ferramenta de repressão política no regime soviético. E isso torna difícil aceitar que tanta gente pudesse estar presa ao mesmo tempo, e com uma taxa de mortalidade tão alta.

De todos os instrumentos de repressão utilizados pela União Soviética para combater a liberdade de expressão e o direito de ir e vir de seus cidadãos, somente o banimento ainda não é empregado em larga escala pela maior “democracia” do mundo.

Sobre o banimento (que é diferente do exílio), ele era possível na URSS devido à existência de grandes extensões inexploradas. Certas pessoas recebiam como sentença um “diploma de lobo” (volchiy billet), que lhes garantia a vida caso se mantivessem a pelo menos 100 km de distância de qualquer centro urbano (e na URSS nem toda povoação era considerada “urbana”). Acredito que esta omissão se deve somente o fato de isto ser impraticável nos Estados Unidos (que têm uma área equivalente a menos de 40% da antiga URSS e hoje têm uma população 50% maior do que a URSS dos anos 1950 e 1960).

Todos os outros instrumentos de repressão estão em uso. Desde os “gulag” (ou seja a prática de prender seus cidadãos indiscriminadamente para obrigá-los a trabalhar por um salário vil) até ordens judiciais proibindo cidadãos de falarem sobre determinados assuntos, passando pela cereja do bolo: a atribuição de distúrbios mentais ao comportamento dissidente.

Os que argumentam que existe uma diferença essencial entre os presos americanos (“criminosos comuns”) e os soviéticos (“presos políticos”) ignoram o fato de que na URSS também existia criminalidade e que os EUA também prendem pessoas por motivos políticos (os Panteras Negras, por exemplo). Os que defendem as ordens judiciais de silêncio argumentam que elas são resultados de julgamentos em um país livre, esquecendo-se de que, ao contrário de lugares como o Vietnã e a China, a URSS, após sua consolidação, jamais deixou de possuir um sistema judicial funcional, embora frequentemente acontecessem mortes fora do sistema (semelhantes à de Tamerlan Tsarnaev, se é que você me entende). Não podemos deixar que a aparência externa ou a tradição nos enganem quando um sistema se modifica: o que ainda emprega os ritos da democracia pode já ter se tornado ditadura e o que segue superficialmente antigos preceitos pode tê-los pervertido na essência.

E no cerne disto tudo temos a ciência, mais especificamente a psiquiatria, sendo usada como ferramenta no jogo bruto da política.

O próprio conceito de “loucura” como comportamento aberrante e intolerável, que deve ser segregado, nunca foi superado no dito “Ocidente”, mesmo com a antipsiquiatria e outros movimentos esclarecedores. Duzentos anos depois de Phillipe Pinel, ainda vemos a loucura como algo que aparta da sociedade alguns indivíduos, uma espécie de peste da alma que, por ser invisível (visto que a alma o é), parece ser incurável (pois não há como asseverar a cura de uma doença que não apalpa, que não se examina no fluidos e que não se vê em radiografias).

Tachar de louco aquele que pensa diferente é uma estratégia repressiva eficaz. No auge da Era Vitoriana a insatisfação (inclusive sexual) das mulheres no casamento era vista como “histeria” e tratada com medicamentos ou procedimentos os mais diversos, alguns nada convencionais, como os primeiros vibradores, inicialmente usados como um instrumento medicinal. Hoje em dia uma mulher insatisfeita não é mais vista como uma candidata ao hospício, pois nossa sociedade evoluiu a ponto de um casal poder discutir a relação.

Da mesma forma que a mulher insatisfeita era vista como louca, o cidadão soviético que não se conformasse com o paraíso terreno criado pelo comunismo era visto. Somente um lunático renunciaria ao sistema perfeito para almejar o tipo de inferno criado pelo capitalismo desenfreado. Mas em alguns casos doenças convencionais da psiquiatria funcionavam apenas como rótulos (des)qualificantes para indivíduos cuja reputação precisava ser desconstruída. O indivíduo dissidente, desmotivado e sem o respeito de seus pares, não conseguia passar adiante a “loucura” de suas ideias.

Esse uso da psiquiatria para impor limites à dissidência vem crescendo assustadoramente no chamado “mundo livre” (ou seja, nos Estados Unidos, auto-intitulados “terra da liberdade”).

Começou com a identificação do “autismo brando”, ou seja, síndromes comportamentais moderadas ou leves que afetam o modo pelo qual um indivíduo se relaciona com os demais. Em geral os autistas são pessoas brilhantes porque abstraem-se de uma série de fatores ambientais e se permitem dedicar toda a sua atenção ao que é o seu foco de interesse. Mas quando a Associação Psiquiátrica Americana associa o comportamento que permite tal brilhantismo a um tipo de “distúrbio mental”, temos que pessoas que em outras épocas seriam celebradas por seus feitos (Leonardo da Vinci apresentava indícios vários de comportamento autista moderado) hoje são desqualificadas como “freaks” e usadas como tema de esquetes humorísticos. Assim, um homem brilhante como Richard M. Stallman, por supostamente ser Asperger, tem suas ideias frequentemente ridicularizadas.

Depois veio a “depressão” (esta palavra, um dia, já significou apenas uma tristeza prolongada, e antes disso era não tinha nenhum sentido psicológico). A tristeza, que em outras épocas inspirou homens e mulheres geniais a produzirem obras transformadoras passou a ser tratada com Prozac. Hoje em dia Van Gogh tomara Lítio e Prozac, faria da pintura seu hobby apenas, e ganharia a vida como comerciante ao lado do irmão. Passamos então à recente tentativa da APA para classificar o luto prolongado como uma doença mental, tratável, claro, com algum tipo de droga psicoativa receitada por um médico.

Mais recentemente os psiquiatras identificaram o Distúrbio Oposicional Desafiador (Oppositional defiant disorder), que explica porque certos jovens resistem à autoridade de pais e professores. Embora seja possível que certas crianças e jovens tenham, de fato, um comportamento excessivamente rebelde, é preocupante imaginar um tratamento químico da rebeldia que em outras épocas causou revoltas, fugas, obras de artes ou apenas inocentes bobagens juvenis. Monsieur Rimbaud: dá esta pílula ao jovem Arthur para ele parar com essa história de poesia e esse comportamento efeminado com o Monsieur Verlaine.

E então chegamos à cereja do bolo: a Síndrome do Idealismo Pós-Adolescente. Segundo os psicólogos forenses americanos, o recruta Bradley Manning, responsável pelo vazamento de diversos segredos militares sujos dos EUA, agiu motivado por uma “vontade de mudar o mundo”. Antigamente se dizia que o mundo muda por causa das pessoas irrazoáveis. Bradley Manning resolveu agir de forma não razoável porque se fosse racional ele não faria nada e não causaria nenhum efeito. Ele é o tipo de pessoa que faz a história, geralmente morrendo no processo, ou, em termos mais românticos: um herói. Mas hoje em dia a psiquiatra nos diz que idealismo é coisa de adolescente e esse sonho de melhorar o mundo não combina com saúde mental.

Sim. Um indivíduo dotado de uma ingenuidade adolescente e de um desejo irrazoável de mudar o mundo, e que se expõe a grandes riscos, às vezes causando grandes catástrofes. O que antigamente se chamava de “herói” hoje é chamado de “adulto imaturo”. Esse negócio de lutar contra o sistema, de querer melhorar o mundo, isso não é coisa de adulto. E é uma loucura também, mesmo que branda. Talvez já tenham até inventado algum remédio para isso, ou dizem que inventaram.

Assim, como quem não quer nada, uma psicóloga vinculada à Marinha dos EUA acaba de reduzir a uma mera classificação pseudopsiquiátrica tudo aquilo que há de mais nobre e de bonito na humanidade. Tudo porque uma pessoa dotada de tais valores não poderia ter agido de outra forma diante de evidências massacrantes de que o exército de seu país agira criminosamente. Como o herói está contra nós, é preciso desqualificá-lo como tal, e se o trabalho for muito duro, desqualificar o heroísmo em si já é uma ideia boa, pois mata todos os futuros coelhos na mesma paulada.

Ninguém acha isso anormal? Será que o mundo ficou tão louco que as pessoas resolveram considerar anormal justamente aquilo que constituiu um dia a força moral das sociedades humanas. Quantas pessoas que um dia admiramos seriam diagnosticadas com “síndrome de idealismo pós adolescente”? São Francisco de Assis, Castro Alves, Thomas Edison, Gandhi, Bolívar, Pancho Villa, Martin Luther King, Abraham Lincoln, José do Patrocínio. Penso que até Jesus Cristo.

Das ist das Heil das sie bringen

Aliás, principalmente ele. Começando como uma criança padecente de Distúrbio Oposicional Desafiador (a julgar pelas lendas apócrifas e, principalmente, pela sua discussão com os doutores da lei) e depois com uma síndrome de idealismo pós-adolescente, que o fez largar a casa dos país e sair pelo mundo pregando aos pobres um tal “reino de Deus”.

A Psiquiatria está, aos poucos, encontrando tratamento para tudo aquilo que existe no ser humano e que lhe permitiu criar o que de melhor nós temos no mundo. Esse é o preço que o totalitarismo nos cobra pela paz que oferece. Bradley Manning, o idealista pós-adolescente, é o primeiro de uma série cujos feitos, em vez de celebrados em verso e prosa, serão considerados um tipo de loucura.

Por uns vinte centavos

Às vezes é preciso acompanhar de perto para entender, mas há vezes em que estar de longe é melhor do que dentro das tripas do momento. Eu estou de longe, eu percebo tudo através da deturpação deliberada feita pela imprensa comprometida com o caos, por isso demoro a opinar. Não quero ser precipitado, mas tomo agora uma decisão sem volta: vou fechar este blogue.

É inegável que o uso político de ferramentas como o Blogger.com se tornou perigoso não só para as pessoas que as utilizam, mas também para as causas que defendem. Não podemos tentar exercer nossos direitos políticos usando produtos (sic) da indústria americana de serviços, especialmente agora que se descobriu que todos os grandes players deste mercado cooperam voluntariamente com a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos para fornecer em tempo real informações sobre o conteúdo que controlam, sem sequer a necessidade de uma ordem judicial.

Sim, eu fui um dos tolos que levou a sério, em certa época, o slogan do Google: Don't Be Evil. Mas, desde que eles, sem alarde, deixaram de resistir às exigências chinesas de cooperação com a sua censura, eu percebi que havia algo errado. Até mesmo o slogan deixou de ser posto em evidência: como se alguém da companhia tentasse discretamente alertar o mundo que o Don't havia sido removido. Durante algum tempo acreditei que o Facebook era, este sim, vergonhosamente vendido e cooperador, enquanto o Google pelo menos tentava resistir. Agora todos sabemos que não há diferença entre as empresas, pois nem mesmo há necessidade de um agente chegar e pedir: os dados são encaminhados em tempo real para as instalações da NSA e ali podem ser acessados arbitrariamente por todos que tenham acesso ao computador.

Eu me pergunto, então: por que continuar produzindo conteúdo para alimentar esta indústria de espionagem que viola os direitos de todos os países do mundo e seus cidadãos? Enquanto não encontre um lugar e um meio para blogar de forma independente eu vou manter minha boca calada, pelo menos nesse blogue de assuntos mais sensíveis. Mas a médio prazo migrarei até mesmo o meu querido outro blogue para algum serviço, gratuito ou pago, que tenha como principal feature não ser hospedado nos Estados Unidos e nem ser baseado em software de código fechado.

Para o momento eu estou estudando alternativas. Consegui instalar em meu computador pessoal versões do Movable Type e do WordPress, com as quais brinquei durante toda a semana. Acabei decidindo que realmente o WordPress é insuperável, especialmente com a adição do CKEditor, do PrintFriendly e alguns outros plug-ins. Acredito que seria capaz de instalar uma cópia dele em um servidor remoto. Já estou procurando onde fazer isso. De momento, esta cópia local serviu, e muito bem, para fazer um backup total do meu blogue de literatura. E de agora para frente eu vou escrever nela e publicar depois de concluído o teste na instalação local.

Somente me preocupam duas coisas: o fato de que muitos serviços de hospedagem nacionais utilizam-se de servidores em território estrangeiro e a certeza de que o Google continuará alimentando a NSA com minhas informações através de sua ferramenta de busca. Mais do que nunca vale o conselho de que aquilo que realmente importa não deve ser posto na rede.

Corra, Kim, que a Polícia do Mundo Vem Aí.

Potências imperiais gostam de brincar de polícia com o mundo. Claro, no papel da polícia e chamando de ladrão quem esteja no seu caminho. Pode ser um regime realmente maligno, como a Alemanha nazista, ou um governo bem intencionado e absolutamente inofensivo, como a Nicarágua sandinista. Pode ser um regime realmente adversário, como a URSS, ou um simplesmente um amigo que tinha o defeito de se preocupar com o próprio povo, como a Guatemala de Árbenz.

No fundo a política internacional é um jogo sujo, baseado na mais abjeta e escrota hipocrisia. Para as potências hegemônicas, principalmente, princípios não existem, apenas conveniências. Pelo pretexto de combater uma “ditadura” comunista, os EUA apoiaram durante mais de uma década a ditadura comunista e genocida do Khmer Vermelho contra o governo de reconstrução nacional criado pela intervenção vietnamita. Diz que se importa com a democracia na América, mas patrocinou, a partir do final do século XIX, as ditaduras mais cruéis e caricatas da história de cada um dos países ao sul do Río Grande. Rejeita a legitimidade das eleições venezuelanas, atestada por observadores internacionais, mas teve um presidente eleito em um pleito marcado pela fraude e pela obscuridade e há menos de um ano abençoou um pleito mexicano com sinais evidentes de trapaça. E enquanto tenta erradicar o extremismo religioso talibã no Afeganistão, mantém a Arábia Saudita como “nação mais favorecida” de seu comércio, justamente o país de onde emana a maior parte do fundamentalismo islâmico de hoje.

Infelizmente, as pessoas se esquecem muito fácil desse passado de crimes dos Estados Unidos contra a soberania de outros países, esquecem das mentiras que inventaram para justificar intervenções nas quais o único interesse a se preservar era o de Wall Street. Agora a máquina de propaganda ianque está a todo vapor tentando criar um pretexto para aniquilar a deprimente Coreia do Norte, último reduto comunista tr00 deste planeta. E uma quantidade enorme de macacas de auditório senta e levanta ao ritmo ditado pela imprensa, aplaudindo e apupando conforme quem aparece tenha olhos amendoados ou não.


Para começo de conversa, vamos deixar estabelecido que este post não tem por objetivo nenhum tipo de solidariedade com a tosca Coreia do Norte, lugar aonde não quero ir morar (principalmente “morar”) nem no pior de meus pesadelos.1 E certamente se eu tivesse que escolher entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos para serem meus senhores, eu certamente preferiria os segundos. O objetivo deste post é demonstrar o funcionamento dos mecanismos que estão em ação neste episódio, e lembrar, através de paródia, um momento da história:

Primeiro foram atrás do Iraque,
e eu não disse nada porque não sou iraquiano.
Depois foram atrás do Afeganistão,
e eu não disse nada porque não sou afegão.
Então foram atrás de Honduras,
e eu não disse nada porque não sou hondurenho.
Então foram atrás da Tunísia,
e eu não disse nada porque não sou tunisino.
Então foram atrás da Líbia,
e eu não disse nada porque não sou líbio.
Estão indo atrás da Coreia do Norte,
e eu nada digo porque não sou norte-coreano.
Um dia virão atrás de nós,
e não haverá ninguém para dizer coisa alguma.

Existe um princípio na dinâmica da política internacional que diz que o inimigo é sempre bárbaro. Desumanizar o adversário faz parte do jogo. Isso se faz com palavras e com imagens, mas com palavras é melhor, porque elas atuam de forma mais subreptícia. Lembra do tempo em que se dizia que comunista comia criancinha?2

Houve uma época em que os britânicos chamavam os alemães de “hunos”, diziam que os cientistas do Kaiser tinham inventado uma arma terrível que envenenava os soldados à distância e que, se as potências centrais ganhassem a Grande Guerra, toda a Europa seria anexada ao Império Alemão.

Os hunos originais foram um povo de raça turca (ou mongólica, ou mestiça, ou negra, ou sabe-se lá o que) que atacaram a Europa Oriental no fim da Antiguidade. Os romanos os descreviam como comedores de carne crua, praticantes da automutilação, imundos, canibais etc. Quatrocentos anos antes as legiões romanas conquistaram a Gália e denunciaram a prática de sacrifícios humanos pelos druidas. Sacrifícios tão cruéis e desumanos que os pobres gauleses foram submetidos a um verdadeiro genocídio, alimentando por séculos os “circos” romanos, onde se sacrificava gente não a deuses, mas ao divertimento. Era obsceno que os gauleses sacrificassem virgens nos seus feriados. Era civilizado que os romanos sacrificassem todo tipo de gente a cada domingo.

Assim se repete a história desde sempre,  e sempre há um bárbaro novo cuja conquista se tem que justificar. Tal como Trajano pintou os dácios como monstros para poder roubar seu ouro, o império americano pinta os árabes como monstros para poder roubar seu petróleo. Certamente havia monstros entre os dácios e certamente os há entre os árabes. Mas maior foi a monstruosidade do genocídio romano, como maior é a monstruosidade dos genocídios em curso atualmente, no Iraque, na Líbia, na Síria, no Afeganistão e no Paquistão.

Quando o inimigo é fraco, às vezes nem precisa inventar muita coisa, pois a ação já terá sido concluída antes que a opinião pública tenha tempo de assimilá-la. Assim foi na Guatemala, na República Dominicana, em Granada… Mas o inimigo pode prolongar a ação, então é preciso preparar terreno. E aí é preciso inventar que ele tem “armas de destruição em massa”, “que ele é uma ameaça à paz internacional” ou que faz parte de um “eixo do mal”.

A Coreia do Norte é a bola da vez — o que significa que as baterias midiáticas ianques, tanto as próprias quanto as terceirizadas, atirarão à vontade contra o regime que se quer derrubar. Foi para vingar o 11 de Setembro e acabar com as “armas de destruição em massa” que se atacou um Iraque já exangue por mais de uma década de fortes sanções econômicas. Foi para acabar com o “terrorismo de estado” sudanês que se bombardeou o principal complexo industrial do país e se impôs um bloqueio econômico que levou o país ao caos econômico e à guerra civil. Foi para “Caçar Osama bin Laden” que se invadiu o Afeganistão e se matou mais gente que o talibã havia matado antes. Mas no fim das contas Saddam não tinha nenhuma das tais armas, a fábrica bombardeada era uma indústria farmacêutica que produzia principalmente remédios contra doenças tropicais, e Osama bin Laden estava escondido no Paquistão, país “amigo” dos Estados Unidos.

A única coisa que todos esses regimes tinham em comum era que, por serem detestáveis violadores de direitos humanos, ninguém se levantou para denunciar a violação de sua soberania. Tal como no “poema” de Martin Niemöller. Mas um dia talvez venham atrás de nós, e o resto do mundo nos verá como detestáveis também, violadores de direitos, cortadores de árvores, estupradores de turistas, possuidores de armas de destruição em massa, ou seja o que for. E ninguém falará contra nós.

[continua] — na parte 2: Por que atacar a Coreia do Norte?


1 A palavra “morar” significava originalmente trabalhar e residir em um mesmo lugar. Aplicava-se a colonos e escravos.
2 Não se sabe se alguma vez alguém comeu criancinha por ser comunista, mas é sabido que houve algumas fomes terríveis em países comunistas como União Soviética (nos anos 1930), na China (nos anos 1950), no Camboja (anos 1970) e na Etiópia (anos 1980). Não que tenham deixado de haver fome em lugares sob influência capitalista, mas fatos são fatos.