O Humorista que Virou Idiota

Danilo Gentili, desde que deixou de interpretar o quadro “repórter inexperiente” para o humorístico “CQC”, na Rede Bandeirantes, não tem aproveitado as inúmeras oportunidades que a vida lhe tem dado para ficar calado. Não foram poucas as vezes em que se viu criticado por contar piadas racistas, homofóbicas ou cruéis. Destas acusações se defendeu sempre com o argumento de que os seus críticos seriam pessoas limitadas e que ele fazia um humor sem limites, refratário às convenções sociais. Sob o rótulo de combate à “correção política”, um tipo de discurso excessivamente preocupado com as sensibilidades alheias, Gentili propagou um discurso agressivo a todas as sensibilidades alheias, do tipo que só é aceito por pessoas isentas de empatia.

Sua última patacoada foi a ridicularização de uma auxiliar de enfermagem residente no interior de Pernambuco, que se tornou a recordista mundial em doação de leite materno. Na curiosa mentalidade de Danilo Gentili, o fato de alguém praticar uma boa ação tão rara é motivo para ridículo, e assim ele passou a tentar fazer piada com o caso, comparando-a com um notório ator de filmes pornográficos, enquanto o seu auxiliar de palco, Marcelo Mansfield, sexualizava o caso lembrando a utilização dos seios em uma prática sexual chamada “espanhola”.

Ambas as piadas foram fracas, mas seriam apenas piadas fracas se, além de meramente ridicularizar algo que não é ridículo, Gentili não tivesse exibido a imagem da mulher em questão. Neste momento, o que poderia ser apenas uma piada ruim se tornou uma lamentável agressão verbal a uma pessoa. Personalizar a piada, exceto quando a vítima já é uma pessoa pública, não é somente agressivo, mas é também opressivo. Pois uma pessoa comum, que não tem acesso aos meios de comunicação, não tem como retrucar, não tem como explicar, não tem como resistir ao veneno de alguém que tem o microfone na mão.

O resultado da piada foi a execração pública da moça, que chegou a ser chamada publicamente de “vaca” (palavra que tem conotações extremamente desagradáveis). Humilhada por alguns habitantes de sua cidade, envergonhada também pelas humilhações a que foi submetido seu marido, aquele que doava mais de um litro e meio de leite por dia deixou de fazê-lo, deixou de produzi-lo, chegou a ver secar uma de suas mamas. Para Danilo Gentili, foram menos de dois minutos de graça meio sem graça. Para seus telespectadores, foi apenas uma risada ou duas, destas risadas amarelas que esse humor cruel arranca de pessoas que não sabem rir. Mas para a vítima, foram dias de agonia, conflito conjugal, dúvidas existenciais, inconformismo com o sofrimento com que o mundo lhe pagou um bonito gesto de doação.

Por muito menos que isso (“comia ela e o bebê”) o apresentador Rafinha Bastos foi sumariamente demitido da mesma Rede Bandeirantes, pois a vítima de sua infame piada fora Wanessa Camargo, que é famosa e casada com um empresário influente. Mas a insensata agressão verbal praticada por Danilo Gentili contra uma simples dona de casa nordestina não mereceu do canal de televisão nenhum repúdio, nenhuma medida. Rafinha não se desculpou, mas pelo menos perdeu o emprego (e até hoje não conseguiu nenhum outro equivalente, seus projetos sistematicamente naufragam). Danilo Gentili não apenas não perdeu o emprego, como não se desculpou e ainda tripudiou da reclamação da moça. Foi preciso que esta recorresse à justiça para tentar obter algum tipo de reparação e, pelo menos, a cessação do dano, com a retirada do vídeo do site da Bandeirantes.

Danilo Gentili pode achar que faz humor politicamente incorreto e contestador, pode achar que está ajudando a combater a caretice do mundo e que toda reação às suas piadas é “censura” ou ameaça à sua liberdade de expressão. Mas de fato ele é um bobo da corte que conta piadas para os donos do poder. Ele não é livre para fazer o humor que quer, ele é censurado previamente pelos anunciantes, pelos donos do poder, pelo público reacionário ao qual se dirige. Diferente de Rafinha Bastos, que contou uma piada escrota, mas pelo menos contou uma piada sem pensar em quem ofendia, realmente exercendo, mesmo que para o mal, a liberdade de expressão, Danilo Gentili contou sua piada contra uma desconhecida, que não tem mídia e nem poder econômico para exigir sua cabeça.

A mensagem que a Rede Bandeirantes e Danilo Gentili passam, nesse caso, é a de que não tem problema caçoar e ofender pessoas que não têm meios para se defender. Mas não se pode atacar gente que tem bala na agulha.

Por essa razão é que muitos já qualificam Gentili e outros novos humoristas com um adjetivo forte: COVARDES. É muito fácil bater em cachorro morto, é muito fácil cuspir nos cadáveres depois da guerra, é muito fácil ofender gente que não tem poder econômico ou midiático. A agressão cometida por Gentili e pela Rede Bandeirantes contra esta mulher foi como os episódios em que três ou quatro valentões de intervalo cercam o “nerd” da turma para se vingarem das notas baixas. Todo o poder de mídia de uma rede nacional de televisão foi usado para ridicularizar uma mulher. E a isso chamam de humor contestador. Contesta apenas a sanidade mental e a ética de quem o faz e, principalmente, do país que ainda o aplaude e o permite.

Os COVARDES são numerosos. Eles tem argumentos, eles têm certezas. Eles acham que não há nada errado em ridicularizar uma pessoa que faz o bem POR FAZER o bem.

A Rede Bandeirantes conseguiu errar nos dois casos. Errou com Rafinha, pois a ofensa era branda e, se não fosse o espírito de vendetta de um empresário poderoso, ele poderia ter se saído dessa com um simples mea culpa. O caso de Gentili é muito mais grave, pois envolveu até mesmo consequências para terceiros: quem resolverá o problema das crianças que ficaram subitamente sem alimento? Como fazer se a mulher perder uma mama em consequência da retenção do leite? Mas a Bandeirantes nada fez contra o caso, e ainda presta assistência jurídica ao humorista.

Passou recibo de que se ajoelha diante de poderosos enquanto zomba de gente do povo, sem medo das consequências, pois tem bons advogados para arrastar o processo até as calendas gregas. Passou recibo de que é uma empresa sem ética.

Em outros tempos, se alguém chamasse a mulher de um cabra nordestino de “vaca” o resultado seria, no mínimo uma morte na peixeira. Mesmo que o marido fosse uma boa pessoa, a pressão social exigiria o sangue do ofensor. Até os inimigos do ofendido lhe ajudariam a “capar” o insolente porque certas coisas eram inaceitáveis.

Mas, isolado pela distância, protegido por seguranças, portando um microfone na mão, o humorista pode zombar de quem quiser, desde que seja de alguém que está fora dos muros que o protegem. Ele sabe que não vai enfrentar peixeira e nem mesmo uma cusparada. Por isso agride, com a “coragem” que só os muito covardes têm: a coragem de ofender os indefesos.

Cartão de Natal Comunista – Revisto e Melhorado

Depois do sucesso do «Cartão de Natal Comunista» no ano passado, resolvi dar uma «guaribada» no desenho (que tinha ficado bem chinfrim por causa da fonte Computer Modern Roman e da falta de suavização). A imagem é a mesma, os dizeres foram abreviados e a fonte trocada para Univers Condensed.

Se quiser reaproveitar a imagem em seu blogue, use este link.

P.S. - O cartão de natal comunista é uma homenagem aos colegas do curso de História da FAFIC, especialmente à turma de «melancias».

P.P.S. - O cartão é meu jeito de dizer até logo. Este blog estará de férias até o ano novo. Mas não fiquem tristes, tem muita coisa boa para ler no arquivo.

P.P.P.S. - Eu não sou comunista. Isto é apenas uma piada.

Carta Aberta aos Autores de Cartas Abertas

Por favor, parem.

Cartas abertas não são mais uma maneira de influenciar a opinião pública. Porque quem deveria lê-las não as lê.

Obviamente cartas abertas não são escritas para serem lidas por seus destinatários, isto sempre foi óbvio. Mas por filhos, amigos, amantes, parentes. Por pessoas que teriam algum poder de influenciar a decisão dos destinatários.

Hoje isto não funciona mais. Mesmo os que saem da escola com belos diplomas na mão perderam o hábito de ler e provavelmente teriam grande dificuldade em ler uma «carta aberta» — especialmente porque esse gênero literário se caracteriza por ser mais longo que uma carta comum.

A própria «carta comum», aliás, é um artigo em extinção. Se nem mais cartas fechadas as pessoas andam escrevendo e lendo, como esperar que leiam «cartas abertas» que sequer lhes foram endereçadas?

Acredito que se queremos que a coisa funcione como antigamente as cartas abertas funcionavam — na base da pressão moral da família e dos amigos para que o escroque fizesse algo, ou deixasse de fazer — seria necessário que a carta passasse a ser fechada. Fechada com treze trancas e com uma senha criptografada de 128 bytes. Em vez da carta aberta o que funciona hoje é o dossiê.

Sim, é isso. Uma carta aberta denunciando a imoralidade é motivo de riso. Acredito que se fizermos uma carta aberta reclamando que um político está roubando merenda escolar em certo município os próprios pais das crianças prejudicadas vão achar graça da carta. As pessoas perderam a capacidade de indignar-se.

Porém, mesmo os dossiês estão com os seus dias contados. Eles só valiam (dinheiro, na base da extorsão) quando os políticos ainda tinham vergonha de ser chamados de ladrão. Hoje em dia, vergonha é perder a eleição.

Desta forma, os dossiês também estão ficando fracos, estaremos chegando à era do trezoitão? Possivelmente, visto que os nossos legisladores, em causa própria, têm produzido nas últimas décadas um código penal que procura punir o mínimo possível, especialmente se ficar comprovada a culpa (em caso de inocência ou de dúvida o acusado, se pobre, pode ter que passar anos trancafiado até conseguir ser absolvido).

Durante muito tempo o opróbrio (esse palavrão em vias de desterro para as terras do Arcaísmo) era a única coisa que atingia os políticos, em geral na forma de ovos podres e vaias. Hoje em dia as pessoas nem querem mais vaiar e há muita câmera para filmar a origem do ovo e punir o responsável.

Agora ninguém mais tem essa vergonha. Na verdade há um movimento criando força entre nossos legisladores: já que o código penal não serve mesmo para nada, melhor seria aboli-lo em sua maior parte. A ideia é a abolir do Código de Processo Penal a parte «Penal» e deixar a parte do «Processo». Assim, sempre que houver a necessidade de constranger ou punir alguém, basta o interessado (apoiado por uma alcateia de advogados) iniciar um processo contra o ofensor e sustentá-lo através de todas as instâncias do Judiciário. O interessado mais pobre perderá algum recurso ou prazo e muito dinheiro.

Como podemos ver, a prática de escrever cartas abertas se tornou anacrônica. Não só porque cartas (e crônicas) são anacrônicas em si mesmas, mas também porque não há mais como esperar que elas funcionem.

Em vez de escrever uma carta aberta, devemos fundar uma associação e mover um processo. Mas vai ser preciso muito dinheiro e um padrinho forte, porque processo sem padrinho ou sem dinheiro não vai longe: para quando esbarra no padrinho do processado.

Ateus e Agnósticos na Internet — Um Brevíssimo Estudo

Ateu anarquista
Afirma que «deus» não existe. Mas cultua Satanás, usa símbolos sagrados pagãos no pescoço e sonha de noite com medo do inferno. São especialistas em apontar as crueldades de «deus», mas de alguma forma celebram as do diabo como atos de rebeldia.
Ateu clássico
Afirma que «deus» não existe porque as teorias que postulam sua existência não têm base factual. Considera que para que possamos considerar algo como existente é preciso primeiro evidência de sua existência e, como não se pode ter evidência da existência de «deus», devemos considerá-lo como não existente. O problema com esse tipo de ateu é que ele é minoritário e quase ninguém entende o que ele escreve.
Agnóstico-ateu
Não considera «deus» como um questionamento pertinente, pelo menos não enquanto não se souber o que seria «deus» (basicamente ele diz isso porque nunca consultou no dicionário o sentido da palavra). A maioria dos ateus são de fato agnóstico-ateus. Tentam escapar da falácia da afirmação negativa afirmando desconhecer alguma afirmação que se sustente logicamente. Aponta as contradições do teísmo como evidências de que «deus» não é conhecido e, portanto, não se deve crer que ele exista. O agnóstico ateu finge que ninguém sabe o que é «deus» a fim de poder parecer mais lógico, mais sábio, mais fofucho e mais vitaminado.
Agnóstico-filósofo
Considera «deus» uma questão de grande importância, sobre a qual, infelizmente, nada se pode saber, mas sobre a qual ele adora falar, em geral para mostrar aos ateus o quanto ele é mais rigorosamente lógico e mais inteligente do que eles. Tende a considerar «deus» como inexistente ou indiferente e só diverge do ateísmo devido à questão da negação do não provado (falácia da afirmação negativa). Mesmo assim ele faz questão de marcar a divisão entre agnosticismo e ateísmo como se houvesse uma muralha ali.
Agnóstico-teísta
Tem uma idéia formada de «deus» como algo curiosamente semelhante ao que a religião cristã prega e tem amplo conhecimento de terminologia específica de alguma denominação religiosa em particular. Mesmo assim em termos de atitude não se diferencia dos outros porque não enxerga nesse «deus»um caráter «salvífico». De certa forma, é o legítimo agnóstico «em cima do muro»: rejeita o teísmo puro porque não é burro o bastante para fechar os olhos para a lógica do que estudou, mas não parte para o ateísmo descarado porque ainda existe, no fundo de sua alma, um «medinho» de que o Velho Barbudo do Céu possa existir.
Agnóstico-crente
Além de considerar «deus» como algo idêntico ao que as religiões pregam, este tipo de agnóstico ainda se comporta com «respeito» em relação a esta crença, apenas reservando-se a não examiná-la com a lógica ou a ciência, por considerá-la «além das possibilidades» da razão. Quando confrontado em um debate, invariavelmente recairá do lado dos teístas. Qualquer religioso não fundamentalista e razoavelmente esclarecido se enquadra nesta categoria quando não está pregando.
Agnóstico orkutiano
Só é agnóstico depois de logar no Orkut, só conhece do agnosticismo uma pseudo-terminologia rasa. Mas usa o termo «agnóstico» como se fosse uma medalha que o torna melhor que os ateus. Sentir-se superior aos ateus é muito importante para o agnóstico orkutiano, também conhecido como troll das comunidades céticas.

Cartão de Natal Comunista

Inspirado em um cartão que recebi, quando ainda adolescente, de um amigo por correspondência romeno. Como se sabe, comunistas de verdade não são como a Heloísa Helena, carolas e cheios de fé, mas monstros ateus comedores de criancinha. Portanto, nada de referência a Natal e Ano Novo: natal de comunista é uma festa secular.

Yes, Nós Temos Medicina Tradicional Também

Todos os céticos estão acostumados a arrancar cabelos quando ouvem pseudo-ciências sendo, sem mais nem menos, apresentadas como a “verdadeira resposta” para problemas que a ciência não responde ou, pior, práticas de curandeirismo sendo vendidas, e caro, como a cura para males para os quais a medicina convencional não tem remédio. Nada mais injusto.

Particularmente me fascina a medicina tradicional chinesa e suas práticas, como do-in, acupuntura, herbalismo e remédios bruxos fascinantes como chifre de rinoceronte negro, pênis de baleia, ou simplesmente qualquer pedaço do corpo de qualquer animal que esteja em extinção ou seja asqueroso (de preferência uma combinação dos dois). Outra medicina tradicional que me fascina também é a indiana, ou “ayurvédica”, mas esta está menos obcecada com afrodisíacos (aparentemente, o chinês típico fica mais excitado com a ideia de estar contribuindo com a extinção de algum animal exótico do que olhando para uma chinesa).

Ambos os sistemas têm seus fascinantes e exóticos tratados milenares, que prescrevem remédios tidos como obsoletos pelos médicos salafrários que não querem curar, mas manter o tratamento.

Mas para aqueles que acham que são essas as suas duas únicas opções, preparem-se! Pois há também a esquecida, desvalorizada e não tão exótica, medicina tradicional europeia.

Também ela tem seus tratados milenares (Hipócrates, Celso, Galeno, Paracelso). Também ela tem seus remédios mal vistos pelos médicos “padrão” (chás, mezinhas, xaropes, simpatias, amuletos). Também ela tem suas práticas controversas (sanguessugas, sangrias, trepanação, sinapismo).

Sem falar na sua filha mais famosa e recente, a homeopatia, única ciência alternativa que conseguiu impor um termo pejorativo ao uso comum em relação a um ramo da ciência: alopatia.

Então o que está esperando, amigo holístico, ayurvédico, fascinado por meridianos, kundalini, moxabustão e quiropráxia? Por que não experimenta também o poder da tradicional medicina europeia?

À disposição, em versão básica, com a curandeira mais próxima de você, graças à nossa colonização portuguesa. Vamos valorizar.