Apologética e Revisionismo

Tomei hoje conhecimento da existência de um inacreditável blogue revisionista intitulado “Meu Professor de História Mentiu Para Mim”, que se propõe a fazer gracinha acusando o nosso sistema educacional de ser esquerdista.

O artigo em si não precisaria ser respondido, caso ele se limitasse a fazer tal “acusação”, visto que eu acredito e afirmo que existe mesmo tal tendência (apenas uma tendência, infelizmente) e que seria bom se o sistema educacional fosse mesmo esquerdista. Infelizmente o texto precisa de uma réplica pois:

  1. O esquerdismo generalizado do sistema educacional é um mito propagado pela direita: não apenas existem professores de todos os matizes ideológicos como existe uma polí­tica de conformação do sistema educacional aos interesses conservadores.

  2. As críticas que o artigo faz ao esquerdismo são de uma inanidade que ofende, trazendo mais afirmações pala­vrosas do que argumentos construtivos.

  3. O blogue “Meu Professor de História Mentiu Para Mim” é claramente revisionista, e isso é um problema grande.

Digo que ele é revisionista porque, mesmo que “ainda” não tenha começado a falar bobagens contra o Holocausto judeu sob o nazismo, ele tem o cheiro e a cor de um blogue que fatalmente falará disso. Revisionistas são desonestos por necessidade, escrevi sobre isso em 31 de julho de 2011, mas é sempre bom reiterar o que foi esquecido, se é importante: Há sempre novos ignorantes que ainda não sabem que a terra que gira em torno do sol. Então falemos do revisionismo do blogue.

Comecemos repetindo que o revisionismo é, essencialmente, uma falácia de ênfase. “Falácia” é um raciocínio que não segue a lógica. Um exemplo conhecido é “o mar contém água e sal, certos biscoitos contêm água e sal, portanto o mar é um biscoitão”. “Falácia de ênfase” é aquela que deturpa o argumento ao emprestar mais peso a uma parte da frase, de forma que a frase, mesmo correta, expressa o contrário do que está enunciado. Um exemplo é um verso muito infame do Falcão: “Não é verdade que mulher feia só serve para peidar em festa”. Como a segunda parte é enfatizada, as pessoas não atentam para a negação e a frase populariza o conceito de que feia só serve mesmo para peidar em festa.

Digo que o revisionismo é uma falácia de ênfase porque os revisionistas procuram nos convencer de que os únicos que buscam revisar o conhecimento histórico, quando, de fato, ele é continuamente expandido e revisado, inclusive com a ocorrência de frequentes e sensacionais reviravoltas, das quais um forte exemplo é a revisão do papel brasileiro na Guerra do Paraguai, nos anos 1990.

O revisionista não tem nenhum interesse, porém, em outras revisões, só naquelas relacionadas à sua ideologia favorita. Então, se a História não mostra favoravelmente seus heróis prediletos e seus princípios, ele põe em questão a metodologia histórica em si, para criar uma falsa controvérsia, com o objetivo de vender sua ideologia, apesar do que diz o conhecimento estabelecido. Tanto faz se o revisionismo de que falamos está focado no papel do Nacional-Socialismo alemão no que se convencionou chamar de “Holocausto” ou em outra ideologia de outro momento histórico. A mecânica do revisionismo é a mesma.

Os revisionistas possuem, evidentemente, interesses polí­tico: certos setores da direita querem apagar da memória humana os conhecimentos “inconvenientes” que tornam impopular a ideologia que se pretende difundir. No caso específico do nazifascismo, por exemplo, desejam que o povo esqueça que um dos piores crimes de guerra da História só existiu por causa das ideologias de extrema direita. Caso isto não se mostre possível, querem ao menos borrar essa imagem feia, confundir as pessoas quanto aos seus objetivos, ou ao menos argumentar que os crimes nazifascistas não foram tão diferentes de outros grandes crimes ocorridos em épocas anteriores. O “revisionismo” (entre aspas entendido como o revisionismo específico do nazifascismo e do “Holocausto”) faz parte, junto com o criacionismo, o fundamentalismo religioso e a negação do aquecimento global, de um processo ideológico maior: o negacionismo.

“Negacionismo” é a insistência em contestar, por motivos ideológicos ou interesses econômicos, conhecimentos científicos estabelecidos. Diferente de uma simples divergência metodológica ou de opinião, o negacionismo não é propositivo, mas exclusivamente negativo. A estratégia negacionista não é avançar uma teoria diferente, mas divulgar as “falhas” (reais ou supostas) das teorias atuais, para obter o descrédito do método científico. Um bom exemplo é o criacionismo, que procura questionar inconsistências da teoria da evolução para afirmar que ela é inválida, ignorando, porém, os aspectos em que tal teoria é consistente e permite fazer predições. O criacionista afirmará coisas absurdas, como a inexistência de “fósseis transicionais”, mas ignorará o fenômeno da resistência bacteriana a antibióticos.

Ora, da mesma forma que o criacionista questiona a biologia porque esta demonstra que a Bíblia não é factualmente correta, da mesma forma que um “revisionista” não aceita que a realidade ou significância do Holocausto porque ele demonstra que o nazifascismo é monstruoso, da mesma forma que os negadores do aquecimento global difamam a ciência porque ela envolveria uma quebra de paradigma econômico e político; desta mesma forma o apologeta se opõe ao conhecimento histórico: pois este mostra a Igreja e o cristianismo como instituições temporais e falhas, que não estão de forma nenhuma à altura das reivindicações de ascendência moral com que se apresentam ao público.

Algo assim acontece no blogue “Meu Professor de História Mentiu para Mim”. A diferença é que o revisionismo que se vê ali não está, pelo menos por enquanto, focado em negar o Holocausto e justificar o nazifascismo. Em vez disso, o blogue foca na limpeza de uma outra sujeira histórica que incomoda a muita gente por razões ideológicas: o papel do cristianismo (e da Igreja Católica em particular) naquilo que se chama genericamente de “A Inquisição” (que não foi de fato um fenômeno único).

No próximo capítulo, porque a Igreja e a História ficaram em lados opostos.

A Falibilidade dos Homens de Deus

Já faz um bom tempo que a Igreja Católica tem feito o que pode manter na sombra a parte de sua história que não lhe dá orgulho. Papas violentos, ladrões ou devassos; bispos envolvidos em vários tipos de imoralidades e maracutaias; guerras por religião; intromissão em assuntos temporais; dogmas estúpidos; etc. Sucessivas gerações dos príncipes da fé têm compreendido que é melhor botar uma pedra sobre o que passou, dizer que foi fruto de um tempo diferente e que o mundo e a igreja mudaram. Só que já não é tão fácil manter este silêncio no século XXI.

A dificuldade do silêncio explica que vozes se levantem e tentem defender o legado do cristianismo em geral, e o da Igreja Católica em especial. Existem bons argumentos para esta defesa, alguns inclusive brandidos por historiadores irreligiosos. O mais convincente é o argumento do anacronismo: não podemos julgar o passado de uma instituição a partir de nossa ética presente. Tal argumento não é suficiente, no entanto, para os fins religiosos. Uma entidade que se apresenta como detentora de uma ética absoluta (os “mandamentos de Deus”) não se salva com a desculpa de que os seus maus momentos do passado foram fruto das circunstâncias da época. Uma igreja detentora dos mandamentos de Deus precisaria saber o certo e o errado, independente da época. E não adianta dizer que os mandamentos são perfeitos, porém os homens que comandavam a Igreja falharam na missão de implementá-los. Tal afirmativa envolveria admitir que a Igreja é tão boa quanto os seus líderes, ou, em outras palavras, a Igreja em si não é santa e não salva.

Uma igreja que detém o conhecimento da vontade de Deus, e que dele recebeu as chaves do céu e do inferno, não pode, nunca, falhar. Tem de estar certa em todos os seus entendimentos teológicos, e precisa querer e poder implementar aquilo que é certo aos olhos de Deus.

Eis a armadilha na qual a soberba dos príncipes da Igreja a jogaram nos séculos passados. Homens que eram, falíveis e ignorantes, renderam-se ao orgulho e à ambição de poder desmedido, estabelecendo verdades e dogmas que tinham por objetivo consolidar seu poder temporal em um horizonte de tempo imediato. Nunca imaginaram, nem poderiam imaginar, que as transformações do mundo tornariam impossível manter esse conjunto de preceitos ad hoc com os quais subjugaram a humanidade em uma época na qual o conhecimento se mantinha sob o seu controle.

O “Putinaço”

Entrou para o folclore da política brasileira o famoso "tijolaço" do Leonel Brizola, o incrível direito de resposta que obteve contra a Rede Globo de Televisão, que levou o circunspecto Cid Moreira a ler no Jornal Nacional um artigo no qual o político gaúcho se defendeu de acusações e insinuações feitas pelo jornalismo da emissora empregando uma enorme, mas elegante, agressividade. O ponto alto foi quando, respondendo à acusação de que era senil, Brizola tascou, com a impiedade que somente os legitimamente injustiçados podem brandir:

Ora, tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador, Roberto Marinho, que tem 86 anos. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que os use para si.

Roberto Marinho definiu o episódio como um calamidade. Brizola, numa metáfora anarquista, qualificou-o como um tijolaço atirado à janela da emissora. Jornalistas mais ladinos detectaram ali um "instantâneo da História", o momento no qual o poderio da emissora carioca começou a declinar.

Algo análogo ocorreu nesta semana, quando um artigo supostamente escrito pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, foi publicado na página de editoriais do New York Times. Foi um tijolaço no meio da testa do orgulho americano. Putin disse verdades duras, dolorosas, verdades que muitas vezes foram sussurradas por pessoas que não tem mísseis balísticos intercontinentais para endossá-las. Algum dia esse artigo será, também, lembrado como um episódio profético, o primeiro grande dedo em riste que alguém metaforicamente apontou para a cara do império ianque. E certamente o texto será, doravante, estudado em todas as boas escolas de direito internacional, diplomacia, história e assuntos correlatos. Putin escreveu a história de forma contundente, produzindo o que me permito chamar de "Putinaço" (por analogia com o caso de Brizola).

Obama fez história por ser quem é, pela cor de sua pele. Putin não fez história pelo que é, mas pelas palavras que subscreveu. E palavras, palavras têm a misteriosa tendência à eternidade. Escudado por seus mísseis e ogivas nucleares, Putin teve a coragem de esfregar na cara do império as verdades murmuradas por todos os povos oprimidos do mundo. Somente isto, apesar de quaisquer defeitos próprios do líder russo e da Rússia propriamente dita, é suficiente para dar legitimidade aos argumentos. Quando uma voz se ergue em nome do bom senso, é inútil supor que sofismas a desmentirão. E o artigo, apesar de um tom amistoso, é uma série de "voadoras" no queixo da diplomacia americana e da auto-imagem dos Estados Unidos.

O artigo começa dizendo que Putin resolveu se dirigir aos cidadãos americanos (em primeiro lugar) e aos seus políticos (em segundo) em um momento de falta de comunicação entre as sociedades. Sutilmente está dito aí que os políticos americanos não têm ouvido a diplomacia russa e nem informado ao povo sobre as negociações.

Em seguida, Putin lembra que russos e americanos já viveram momentos de discordância, como na guerra fria, mas que já lutaram juntos contra um inimigo comum, o nazismo — e que foi para evitar a repetição da devastação da Segunda Guerra que as Nações Unidas foram criadas. Ainda mais sutilmente o presidente russo joga a carta da Guerra Mundial para começar a instilar medo no coração do leitor.

No quarto parágrafo, após mencionar que as Nações Unidas tomam decisões baseadas em consenso, o presidente russo relembra o fracasso da Liga das Nações, que aconteceu porque os estados-membros não respeitavam suas decisões. Sabe-se que tal fracasso abriu caminho para a Segunda Guerra Mundial, então Putin está novamente sugerindo que as ações americanas de forma unilateral abrem um risco semelhante.

Ao enumerar os possíveis efeitos negativos de um ataque americano à Síria, cita o "problema nuclear iraniano" como se fosse um fato consumado (há indícios de que o Irã, de fato, já possui a bomba nuclear, ou pelo menos a tecnologia para produzi-la quando quiser). Esta citação é importante, considerando o que ele vai dizer mais à frente no texto.

O texto procura, também, enfatizar que a guerra civil síria não é um conflito claro entre um ditador e forças democráticas, mas uma guerra civil multilateral em um país multicultural, multiétnico e multirreligioso, sendo que várias das organizações combatentes contra Bashar al-Assad são designadas como terroristas pelo próprio governo americano.

Putin se defende da acusação de estar "defendendo Assad" (um sanguinário ditador) e afirma que a posição russa é de defesa da ordem jurídica internacional para evitar que o mundo escorregue para o caos (novamente a carta da Guerra mundial é sugerida de forma sutil).

Em seguida o texto passa a abordar as intervenções unilaterais dos Estados Unidos em outros países. Putin considera alarmante que elas sejam tão comuns e afirma que o mundo vê os americanos pressionando outros países com um argumento maniqueísta de que "quem não está conosco, está contra nós". Tudo em vão, pois estas intervenções não estabilizaram os países invadidos e nem tornaram o mundo, ou os próprios Estados Unidos, mais seguros.

Estas intervenções, em um contexto de enfraquecimento das leis internacionais e do papel das Nações Unidas, levam os países, de uma forma que Putin considera "lógica", a buscar armas de destruição em massa justamente porque, sem o escudo das instituições multilaterais, somente bombas podem proteger. Assim, os Estados Unidos agem de uma forma que desacredita o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (e, considerando os argumentos de Putin, todo país que se julgue ameaçado pelos EUA deveria buscar tê-las). Este é um tópico antigo, um assunto que já era levantado pelo falecido Enéas Carneiro, folclórico político brasileiro que pregava que a solução para a maioria dos problemas nacionais estaria na bomba atômica. Dá certo remorso ter zombado dele agora. Mas lembremos que no começo do artigo Putin falou sobre o "problema nuclear iraniano". Aqui temos claramente uma defesa da busca iraniana pela bomba: o simples fato de o Irã ter um regime do qual os Estados Unidos discordam é justificativa racional para este regime procurar se armar.

Os maiores "roundhouse kicks" aplicados por Putin nos americanos ficam no fim.

Primeiro é na afirmativa de que é necessário parar de usar a linguagem da força e voltar ao caminho do diálogo diplomático civilizado e dos acordos internacionais. O que se diz aqui, de forma sutil, é que a política internacional americana não é civilizada (pois os EUA precisariam "voltar ao caminho" civilizado). Acredito que seja a primeira vez na História contemporânea que um líder relevante qualifica outro líder relevante de uma forma tão desrespeitosa, e imagino que muitos rostos devem ter ficado vermelhos ao ler isto.

O segundo, e mais agressivo ainda, é no momento em que comenta o recente discurso feito por Obama perante o Congresso. Putin discorda e critica a ideia de que os Estados Unidos são diferentes, excepcionais. Para o presidente russo, falando com a sabedoria de um antigo profeta, é extremamente perigoso levar as pessoas a pensarem que são diferentes e excepcionais. É difícil rebater este ponto, pois foi justamente esse tipo de pensamento que levou a Alemanha ao horror nazista. E existem inúmeros episódios de povos "especiais" que tacaram o terror pelo mundo ao longo da História. Se considerarmos a referência inicial ao momento em que russos e americanos estiveram juntos contra o nazismo, vemos claramente que Putin procurou qualificar de nazistóide o pensamento excepcionalista americano!

Como era de se esperar, a agressividade destas polidas palavras não passou despercebida. Políticos de ambos os partidos procuraram reações, mas só conseguiram comentários patéticos.

Para Jay Carney, porta-voz da Casa Branca, "Ao contrário da Rússia, nos EUA defendemos os valores democráticos e os direitos humanos no nosso próprio país e no mundo".

Carney provavelmente usa óleo de peroba como loção pós-barba, pois hoje em dia não é segredo para ninguém que os Estados Unidos têm minado seus valores democráticos e desrespeitado os direitos humanos tanto dentro como fora de suas fronteiras. As intervenções americanas de 2001 para cá produziram registros de horror tão incríveis que revoltaram meio mundo. Só as cenas das mulheres xiitas forçadas sob mira de fuzil a fazer sexo oral em soldados americanos são suficientes para desmentir esse porta-voz. Mas Guantánamo, onde estão presas pessoas que não podem ser acusadas de nada, ali sim temos a prova concreta de que os valores democráticos e os direitos humanos hoje somente restam no discurso hipócrita de gente como Jay Carney, que ganha para mentir.

As respostas de outros políticos não melhoram o tom geral: todas atacam a figura de Putin, suas ligações com a KGB e com a máfia russa, ou atacam o histórico político da Rússia. Todas estas respostas ignoram um fato básico em lógica de argumentação: se um dedo sujo aponta para a Lua, a Lua não é afetada pela sujeira do dedo. Putin pode não ser o maior dos democratas, mas seu discurso é mais útil à democracia do que a postura beligerante, intransigente e chauvinista do governo americano. A Rússia pode não ser um exemplo de democracia e direitos humanos, mas os russos, ao longo de todo o século XX, só cometeram três invasões de outros países: Hungria (1956), Tcheco-Eslováquia (1968) e Afeganistão (1979).

Do episódio o que se extrai é que a diplomacia russa é muito mais construtiva do que a americana, que se comporta como "dona da rua". Putin escreve para a posteridade, e se acontecer algum conflito a história o absolverá por suas palavras premonitórias. Toda a responsabilidade e o desgaste de uma guerra foram por ele depositados sobre os ombros de Obama e seus assessores (que, às vezes, me parecem ser mais seus mentores que seus consultores).

A incapacidade da classe política americana em fazer um desmentido abrangente é um sinal do valor verdade deste texto simples e direto.

Texto que, como dito, foi escrito diretamente nas páginas da História

Sob o Signo da Águia

Marx inicia O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte tecendo uma série interessante de considerações sobre os processos históricos em perspectiva. Nos primeiros parágrafos encontramos uma das mais famosas invectivas marxistas, segundo a qual "todos os grandes feitos e personagens da história universal aparecem, como se pode dizer, duas vezes[…]: uma vez como tragédia e a outra como farsa.” A exemplo de quase toda a obra do filósofo alemão, esta frase tem sido muito mal interpretada (e não conseguirei corrigir isso, não nesse momento), mas ela expressa algo muito verdadeiro, que só fica claro quando contemplamos o parágrafo seguinte:

Os homens fazem sua própria história, porém não a fazem com o seu livre arbítrio, sob as circunstâncias que eles mesmos escolhem, mas sob as circunstâncias com que se encontram diretamente, que existem e que lhes foram legadas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E quando estes aparentam dedicar-se precisamente a transformar-se e a transformar as coisas, a criar algo nunca visto, nestas épocas de crise revolucionária é precisamente quando conjuram temerosos em seu exílio os espiritos do passado, tomam emprestados seus nomes, suas insígnias de guerra, seus uniformes, para, com este disfarce de velhice venerável e esta linguagem postiça, representar a nova cena da história universal.

Fica claro que “tragédia” e “farsa” são tomadas pelo seu sentido literário, e não pela conotação pedestre que as pessoas normalmente usam. Tragédia é uma história grandiosa e sagrada, de deuses e heróis. Farsa é uma história pequena, limitada e sem sentido. Não há caráter humorístico na segunda, e nem um final necessariamente “trágico” na primeira. O que Marx está querendo dizer é que as repetições se caracterizam pela inautenticidade, pela reivindicação de laços que são, de fato inexistentes.

Os exemplos dados por Marx falam por si em apoio a esta intepretação: Lutero como Paulo, a Revolução Francesa imitando a República Romana e depois o Império. Este artigo pretende apontar mais uma circunstância em que o passado é intencionalmente evocado para legitimar algo novo. Mas não se trata de uma evocação realmente intencional no seu todo, porque os últimos séculos têm mostrado uma estranha tendência dos fatos históricos em espelhar aquilo que houve na noite dos tempos.

Refiro-me à coincidência entre a história da antiga Roma e a história bem conhecida dos Estados Unidos da América. Citei a frase de Marx porque sei que muitos leitores a lembrarão para dizer que várias das semelhanças que vou apontar derivam da imitação intencional dos símbolos do passado. Concordo que tal imitação acontece, apenas não me darei ao trabalho de explicitar quais coincidências eu atribuo a tal imitação e quais não podem receber esta designação. Existem coisas que são mera coincidência, outras que são fruto da imitação e outras que não são nem uma coisa e nem outra, parecendo evocar uma espécie de inércia histórica que move em uma mesma direção genérica as consequências de escolhas parecidas.

Dizendo em palavras mais comuns: não será possível que um país que adote ideologias semelhantes às de um modelo passado venha a se defrontar com desafios parecidos? Será que a História possui uma inércia que permite reproduzir processos antigos a partir de escolhas e circunstâncias parecidas?

Este artigo não pretende argumentar que sim, apenas atiçar a curiosidade do leitor para a possibilidade. Uma resposta definitiva envolveria conhecimento mais profundo das histórias de ambos os países, conhecimento de um nível que não tenho nem esperança de obter. Que o leitor julgue.

Fase Formativa

Ambas as culturas foram eventualmente consideradas "novas" e "sem raízes" porque se formaram a partir de colônias fundadas por culturas mais antigas. Roma pela Etrúria e os Estados Unidos pelo Reino Unido. Ambas as culturas fundadoras eram confederações de estados: Etrúria, uma dúzia de cidades estado de cultura e instituições semelhantes, 1 e o Reino Unido, por pelo menos doze entidades políticas diferentes (embora hoje sejam somente quatro). 2

O fato de ambas as culturas serem monarquias não é exatamente uma surpresa, visto que esta era a forma de governo mais comum entre os países de antigamente, mas é significativo que Etrúria e Inglaterra sejam representadas heraldicamente por predadores carnívoros (lobo e leão, respectivamente) enquanto Roma e os Estados Unidos são representados por aves de rapina (águias, embora de espécies diferentes).

A fundação dos Estados Unidos diverge significativamente da fundação de Roma pelo fato de terem sido fundadas treze colônias, em vez de somente uma, e por não ter sido mitificada na figura de um rei divino (Rômulo). Porém, ambas as culturas foram fundadas por fugitivos. No caso de Roma, os gêmeos Rômulo e Remo foram perseguidos e tiveram negados seus direitos reais, razão pela qual, mesmo após derrotarem seu perseguidor, preferiram deixar sua cidade original, Alba Longa, e fundar uma nova pátria. Alba Longa era uma cidade mestiça, de instituições etruscas e cultura latina, tal como o Reino Unido era uma cultura mestiça, de instituições normandas e cultura anglo-saxã e céltica.

Após a criação da nova cidade, Rômulo tomou uma medida revolucionária, ao convidar a Roma todos os fugitivos e perseguidos, justa ou injustamente. Com este exército de foragidos ele iniciou o seu poder. Da mesma forma os Estados Unidos, não apenas durante sua formação, mas durante séculos, receberam refugiados de todas as partes do mundo. Esta política teve, também, consequências parecidas: no caso romano, atraiu a ira de todas as cidades vizinhas, fazendo com que a nova cidade já nascesse no meio de uma guerra, que obrigou seus cidadãos a recorrer à violência até mesmo para conseguirem mulheres,3 e no caso americano, fez com que o país estivesse envolvido desde o começo em uma grande quantidade de conflitos internacionais.

A independência romana ocorreu ainda sob o signo da monarquia, algo que não aconteceu com os Estados Unidos, mas os historiadores são unânimes em afirmar que a monarquia romana não era efetivamente independente, mas um estado cliente da cidade de Tarquínia (não por outra razão dois dos reis romanos incluíam o nome desta como sobrenome). Hoje em dia se crê que a fundação de Roma foi um ato de colonização levado a efeito pelos etruscos, às custas de cidades latinas como Alba Longa. Se aceitarmos isso como verdadeiro, então a verdadeira independência romana se dá com a derrubada da monarquia, o que nos leva a uma outra série de semelhanças.

Racismo, Genocídios e Consolidação Territorial

Até bem recentemente, os países não se formavam mediante a proteção de órgãos supranacionais, como a ONU, por isso a sua estabilidade só estava garantida se conseguissem consolidar-se e obter um espaço na geopolítica regional. Isso ocorria através da neutralização dos rivais vizinhos e da incorporação de território suficiente para atender à sua economia. No caso de Roma, a fase de consolidação se inicia com a derrubada da monarquia e se conclui com as Guerras Púnicas, nas quais a República assegurou o domínio do Mediterrâneo, eliminou o único estado que lhe fazia frente e aperfeiçoou as suas táticas guerreiras. Durante esse intervalo de tempo, Roma derrotou definitivamente a Etrúria e a incorporou ao seu próprio território. Simultaneamente, o império romano dedicou-se a anexar territórios dos gauleses, até completar a conquista das terras célticas da Europa em 50 a.C.

Evidentemente existem diversas diferenças para o caso dos Estados Unidos, e tais diferenças são esperadas. O inesperado é uma grande quantidade de semelhanças. Primeiramente, os Estados Unidos, uma vez independentes, estavam reduzidos a um pequeno território espremido contra o mar — tal como Roma. Os primeiros anos do novo país foram caracterizados por guerras contra os índios e contra colonizações vizinhas, culminando com a anexação da Luisiana e da Flórida. Por fim, os Estados Unidos derrotaram pela segunda vez sua nação fundadora (na Guerra de 1812), tal como os romanos derrotaram (e anexaram) a Etrúria. Esta derrota rendeu conquistas territoriais, mas diferente da história romana, não resultou na anexação da metrópole.

O melhor paralelo para as Guerras Célticas, no caso americano, é a Guerra do México (1845-1848), ao longo da qual os Estados Unidos tomaram do gigantesco vizinho um território quase equivalente a todo o que tinham antes, correspondendo aos atuais estados do Texas, Novo México, Arizona, Nevada, Califórnia, Utah e Colorado, além de partes do Oklahoma, Kansas e Wyoming. Mas a analogia com os cartagineses funciona para os alemães. Uns e outros foram considerados bárbaros e acusados dos maiores crimes imagináveis. Os romanos não se cansavam de citar os sacrifícios humanos da religião cartaginesa, especialmente a queima de crianças vivas em honra a Moloque, imortalizada no romance histórico Salambô, de Gustave Flaubert. Não se sabe se esta acusação era verdadeira, embora seja muito plausível considerando o que se sabe sobre a religião dos fenícios, fundadores de Cartago. O que se sabe é que nem romanos nem americanos estão isentos dos crimes terríveis que imputaram aos seus inimigos. O sacrifício humano não era desconhecido em Roma mesmo em tempos imperiais (e há quem diga que os espetáculos de gladiadores funcionaram como uma sublimação de tal prática quando ela se perdeu na religião) e a discriminação contra minorias ao ponto do genocídio foi praticada pelos EUA muito antes da Alemanha nazista, sendo que os próprios nazistas herdaram parte de suas ideias de contextos como as guerras indígenas americanas e de obras de eugenistas americanos. Na época da Guerra Fria, pelo menos até os anos 1960, sempre que os americanos acusavam a URSS de não ser um país com eleições livres, os soviéticos replicavam and you lynch negroes (... e vocês lincham negros).

Transição para o Império

No caso romano a transição para o império foi uma movimentação conservadora causada pelo aumento das reivindicações de reformas, que quase chegaram a derrubar o governo. Após a derrota de Espártaco, ficou claro que o antigo modelo oligárquico estava em crise e era preciso mudar alguma coisa. A escolha dos romanos pelo reacionarismo teve muito a ver com o tipo de religiosidade que viviam, e também com o medo de uma realidade desconhecida.

Os Estados Unidos ainda não completaram a sua transição imperial, mesmo porque isto talvez não seja possível no mundo de hoje, com as mudanças culturais que aconteceram desde o século I a.C., entretanto, é possível ver que aconteceram várias guinadas à direita, com a intenção de neutralizar efeitos das reivindicações populares.

Uma das primeiras guinadas foi o macarthismo, nos anos 50, convenientemente surgindo logo após os Estados Unidos lutarem do lado certo em uma guerra de proporções mitológicas contra um inimigo de semelhante categoria. Muitas pessoas teriam se animado com o combate decidido ao racismo científico dos nazistas e com a solidariedade entre americanos e soviéticos. Foi preciso dar então um choque de realidade em todo mundo, fabricando e intensificando uma rivalidade desnecessária, em um mundo no qual os Estados Unidos praticamente imperavam sozinhos, produzindo 54% da soma total dos PIB de todos os países e tendo a mais poderosa força armada do planeta. É interessante notar que o macarthismo não foi uma política presidencial autoritária, mas um “estado de espírito” insuflado pela direita política e exercido através do congresso. Tal como a reação conservadora em Roma foi bancada pelo Senado. Os romanos não teriam aceito um déspota oriental, por isso era preciso manter as aparências republicanas. Da mesma forma, os americanos não aceitariam um ditador, mas tolerariam um sistema político intrinsecamente fechado a projetos alternativos de poder.

A segunda grande guinada à direita ocorreu nos anos 1980, sob o signo de Reagan, o homem que trouxe ao poder os ideais descaradamente reacionários da direita argentária. E esta segunda guinada aconteceu posteriormente ao grande movimento dos direitos civis e da contracultura dos anos 60, tendo até gerado o termo "youppie", em contraposição a "hippie", evidenciando que os valores cultivados naquela década eram diferentes, para dizer o mínimo, do idealismo sessentista.

Podemos associar o episódio do macarthismo com a crise do século I a.C. e seus triunviratos, que terminou com a instalação de um poder imperial mal disfarçado. Nesse caso o grande Júlio César da política americana parece ter sido John Kennedy, sobre cujo assassinato pesa a eterna suspeita de ter sido a mando da própria CIA e das forças armadas, devido à sua resistência aos projetos de poder da direita e sua permeabilidade aos direitos civis dos negros. A CIA, criada para oferecer informação para subsidiar as decisões presidenciais, foi, então, o "Brutus" desse episódio.

Os movimentos da década de 1980 podem ser comparados à reação conservadora dos governos de Vespasiano, Tito e Domiciano, muito embora ideologicamente muito distintos. O que os une não é a identidade ideológica, mas a dinâmica de movimento à direita após um momento de crise (no caso americano a crise é representada pelos desastrosos governos de Kennedy a Carter, que assistiram à diminuição da hegemonia econômica, o crescimento político e militar do bloco comunista e a crise monetária).

Se a analogia se mantiver coerente pelas próximas décadas, podemos dizer que o momento atual da história americana é análogo ao século I d.C., o momento no qual o império já não era tão agressivo militarmente, preferindo conter-se em suas fronteiras após as primeiras derrotas, sofria forte influência cultural estrangeira e via suas tradicionais instituições republicanas serem erodidas por costumes orientalizantes, o agravamento da desigualdade social e ao declínio tecnológico. Não se anime com esta previsão, foi nesta fase que o Império Romano cometeu alguns de seus maiores desatinos, como o genocídio dos dácios e dos bretões e as primeiras perseguições a minorias religiosas!

Religião e Império

Ao contrário do Império Romano, que foi originalmente uma teocracia de certo tipo, os Estados Unidos surgiram com uma promessa de separação entre o governo e a religião. Nunca um presidente americano se comportou, nem mesmo informalmente, como líder religioso, enquanto o estado romano incluía entre seus postos eletivos o de pontifex maximus.

Esta diferença original não significa, porém, que a força da analogia entre as duas culturas se perca. Roma migrou de uma teocracia para um Estado multirreligioso e multiétnico, com tendência a laicização, por um tempo, enquanto os Estados Unidos, originalmente laicos apesar da relativa uniformidade religiosa, migraram para estruturas mais teocráticas, em reação ao surgimento de minorias culturais.

No auge do processo, sob Marco Aurélio, temos um Império praticamente leigo em termos de religião, embora o imperador ainda detivesse o título de pontífice (ainda que desacreditado pelos desatinos que imperadores passados haviam cometido). No auge do processo americano, que vemos atualmente, temos um governo que cede continuamente a uma agenda religiosa cristã.

Entre as minorias religiosas que tensionaram o tecido social romano estavam, certamente, o mitraísmo, o cristianismo, o arianismo, o gnosticismo e o judaísmo. O cristianismo acabou triunfando e absorvendo ensinamentos e teologias de todos os demais, conseguindo quase apagá-los da História. No caso americano, o papel de tensionador é exercido principalmente pelo islamismo, que se apresenta diante do poder imperial americano quase da mesma forma que o cristianismo primitivo em relação às estruturas romanas de poder. Entretando, esta é uma comparação perigosa, porque o cristianismo não era, então, um movimento religioso tão numeroso e tão influente politicamente quanto o islamismo consegue ser no mundo de hoje. Na época em que Roma perseguia cristãos, o único país cristão do mundo era a Armênia!

Símbolos e Instituições

Foi mencionado acima que tanto Roma quanto os Estados Unidos adotaram a águia como insígnia (e curiosamente as nações colonizadoras que deram origem às duas culturas tiveram por símbolo animais carnívoros, lobo e leão). Essa está longe de ser a única semelhança. Deixei, entretanto, essas comparações para o final porque acredito que a sua intencionalidade enfraquece seu sensacionalismo. Talvez tais símbolos tenham sido sugeridos meramente porque, na época da independência americana, era moda o neoclassicismo, que acabou se refletindo na arquitetura política americana, com seus capitólios e palácios colunados. Mas existem semelhanças que não se explicam só com a moda.

Os Estados Unidos criaram um “Senado” inspirado no senado romano (existe um limite mínimo de idade para ser eleito à câmara alta do Capitólio). Enquanto isso, na Revolução Francesa o parlamento era unicameral. O Senado original também era unicameral, posto que não havia câmara eleita entre os romanos.

A instituição presidencial, apesar de um nome não tradicional, deriva da figura do cônsul romano (o título foi efetivamente usado na Revolução Francesa).

A Ideologia Oficial

Romanos e americanos também têm em comum uma ideologia nacional que os apresenta como faróis da civilização. Os romanos se consideravam sucessores dos gregos e chamavam de “bárbaros” a todos os outros povos (esquecidos de que, aos olhos gregos, tanto os etruscos como eles próprios eram “bárbaros”). Ambos os impérios sempre consideraram a difusão de seus valores como um ato civilizatório, ainda que na maioria das vezes tal difusão se tenha feito por métodos violentos e os povos receptores da civilização romana tenham sido, de fato, subjugados e dizimados (o benefício da civilização era dirigido à terra, não ao povo).

Esta ideologia justificou a anexação da Gália, de que resultou o desaparecimento da cultura céltica na Europa continental (os atuais bretões são descendentes de antigos britânicos que se estabeleceram no continente durante a Idade Média), substituída pela romana de uma tal forma que a língua ali se fixou em menos de duzentos anos. Mais tarde, os romanos executaram conquistas sangrentas contra os dácios, os judeus e os britânicos, sempre em nome da expansão da civilização romana.

É difícil não enxergar o mesmo cinismo quando vemos a difusão da civilização americana e seus efeitos sobre países como o México, que perdeu mais da metade de seu território original, Porto Rico, onde a língua espanhola já começa a ceder terreno, Canadá, cuja parte anglófona cada vez mais se assemelha ao grande vizinho do sul, e até mesmo em lugares distantes, como o Brasil e alguns países da África.

A Moeda, as Finanças e as Alianças

Tanto Roma quanto os Estados Unidos enfrentaram em certa época uma crise econômica de caráter muito parecido. Romanos e americanos adotaram originalmente moedas padronizadas segundo metal precioso, o solidus romano e o dólar americano. Ambas as moedas se apreciaram em consequência do expansionismo, no caso romano com as conquistas de Cartago, Egito e Oriente, no caso americano, principalmente, com o ouro da Califórnia e do Alaska.

A apreciação da moeda durante a fase expansionista permitiu que ambos os países acumulassem um grande poderio bélico e construíssem uma infraestrutura que lhes permitiu fazer circular a economia de uma forma muito eficiente. No entanto, as guerras se tornaram progressivamente menos lucrativas porque se tornaram fúteis. As primeiras guerras romanas acrescentaram grandes territórios e aumentaram significativamente o poder da cidade. Mas entre os séculos I a.C. e I d.C. os romanos se envolveram em conflitos desgastantes e infrutíferos em termos de butim, contra os caledônios e britânicos, contra os armênios e persas, contra os judeus, contra os germânicos e, principalmente, contra si mesmos; pois em tempos de paz o belicoso luta contra si.

O exército poderoso precisava ser mantido, e era caro mantê-lo. Quando as guerras começaram a ser principalmente defensivas ou retaliativas, o exército se tornou um peso excessivo para Roma. Uma solução criativa para isso foi a extensão da cidadania romana a algumas províncias (e logo a todas). Nada melhor para o problema do que dividir a despesa com quem se beneficiava da segurança proporcionada pelas legiões. Este tipo de estrutura, o "tratado" (foedus) tem uma analogia curiosa com o estabelecimento da OTAN, como veremos à frente.

O poder, porém, ainda continuou, pelo menos inicialmente, nas mãos dos senadores originários da península itálica.

Algo muito semelhante ocorre no caso americano. Após a consolidação territorial (que se conclui com a Guerra Hispano-Americana, última em que os Estados Unidos anexaram território), o exército deixou de trazer terras e pilhar tesouros para ser um peso para a nação. Inicialmente os governos americanos usaram este exército para defender os interesses econômicos americanos em sua esfera de influência, a América Latina, mas sempre foi evidente que o poder americano era excessivo para esse fim. Isso levou o país a crises periódicas, causadas pela diminuição do ímpeto de anexações, pois o capitalismo imperialista é como uma bicicleta, e só se mantém equilibrado quando se move para frente.

Tal como Nero inventou a inflação ao aviltar as moedas de ouro, recunhando-as com uma liga menos rica, sucessivos governos americanos aviltaram o dólar, reduzindo sua paridade em metal precioso. O primeiro de tais atos foi em 1861, quando o dólar (até então bimetálico) abandonou o padrão prata e ficou restrito ao ouro. O último ocorreu em 1971, quando o dólar definitivamente deixou de ser uma moeda ligada ao metal precioso.

Em ambos os casos a consequência foi o aumento da inflação, muito embora esta tenha sido causada mais pelas instabilidades que levaram ao fim do padrão ouro do que por este fim. A inflação romana foi dramática, levando a fome e desespero porque, já naquela época, os pagadores de salários não queriam reajustar o pagamento de seus empregados. Talvez isto explique a fase violenta que o país viveu após a morte de Nero, só se estabilizando quase vinte anos depois, sob Vespasiano.

A mais chocante semelhança a que aludo neste ponto, porém, é a estratégia adotada por romanos e americanos para reduzir o impacto do exército sobre o orçamento nacional: se os romanos deram cidadania às províncias, os Estados Unidos criaram uma aliança internacional, a OTAN, através da qual outros países tiveram de contribuir para o custeio da máquina de guerra americana, direta ou indiretamente. Vemos então que ambas as culturas procuraram expandir seu alcance fiscal a fim de custear melhor um exército superlativo, e o fizeram através da promessa de segurança, que tinha uma contrapartida em perda de autonomia.

Guerras por Recursos

Em tese toda guerra é por recursos, ainda que isto esteja inicialmente inaparente. Mas quando me refiro aqui a "recursos" eu me refiro a guerras que não têm a intenção de anexar território, mas apenas obter acesso a produtos ou riquezas necessários ao custeio do estado deficitário devido à máquina de guerra. A fase da guerra por recursos é aquela na qual os conflitos deixam de ser focados no aumento do território e passam a buscar a estabilização da economia.

No caso romano, desde o final do século I, as principais guerras travadas foram de cunho econômico ou defensivo. Notório é o caso da conquista da Dácia, última grande conquista romana em termos de território, que, na verdade, teve por objetivo agregar ao erário imperial o imenso tesouro dos dácios, em cujo território se encontravam as maiores minas de ouro da Europa.

Se Roma precisava de ouro (pois não havia uma cultura econômica desenvolvida, que preconizasse algum tipo de produção autônoma e contínua de riqueza), os Estados Unidos dependem, já há um bom tempo, do negro ouro chamado petróleo. É em busca deste que as principais guerras americanas foram travadas, desde há cerca de vinte anos. O principal episódio deste tipo de conflito seguramente foi o Iraque, ainda que haja controvérsia sobre a extensão do controle americano sobre o petróleo de lá.

O Arquiinimigo

Romanos e americanos tiveram de conviver secularmente com nações formidáveis que nunca puderam vencer. No caso romano, a grande Guerra Fria (nem sempre fria) do mundo antigo foi contra os persas (inicialmente o império da Pártia e depois o império sassânida). Esses longos conflitos se caracterivam pelo desgaste contínuo das estruturas militares de ambos os países e por nenhuma solução definida. A fronteira praticamente não avançou em mais 600 anos.

Alguns países se estabeleceram como estados-tampão entre os impérios, como por exemplo a Armênia e a Arábia, que alternavam entre as duas influências.

Pax Romana e Mare Nostrum

Após a consolidação territorial, e institucional, Roma passou a considerar o Mediterrâneo um território exclusivo seu, o que impediu, por exemplo, que a Armênia conseguisse se desenvolver, independente de qualquer desgaste bélico.

Os Estados Unidos consideram o Atlântico, especialmente o Atlântico Norte, um mar tão seu quanto os romanos consideravam o Mediterrâneo. Tanto assim que a aliança militar americana é a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Mas a reivindicação de soberania americana é o mundo todo, claro. Restringe-se na prática ao Atlântico Norte por ser o único oceano limítrofe que não tem contato com o mar territorial de seu grande rival, a Rússia.

Além de um "mar seu", os americanos também estabeleceram uma "esfera de influência" na América Latina, que não tem paralelo no caso da antiga Roma.

Entre meados do século I e o final do século II os romanos experimentaram aquilo que chamaram de Pax Romana, a ausência total de ameaça externa ao império. Este período não foi pacífico internamente, claro, mas durante todo ele nenhum povo bárbaro conseguiu sequer desafiar o império. A Pax Americana surge em 1848, com a derrota definitiva do México, que deixou de ter qualquer chance de surgir como potência mundial. De 1848 a 2001 (ou até hoje, se você pensar bem) nenhum país conseguiu desafiar a hegemonia americana porque nenhum país conseguiu levar o conflito para dentro de seu território. No caso romano isso só vai acontecer no século IV, causando grande espanto.

Conclusões

Este artigo é um mero rascunho, nada exaustivo, mas que eu espero ser provocante o suficiente para que pessoas mais brilhantes do que eu o expandam. Espero que o meu leitor entusiasmado pesquise e encontre ainda mais semelhanças e diferenças. Com base nisso podemos começar a teorizar aquilo a que aludi lá em cima, no comecinho deste artigo:

Dizendo em palavras mais comuns: não será possível que um país que adote ideologias semelhantes às de um modelo passado venha a se defrontar com desafios parecidos? Será que a História possui uma inércia que permite reproduzir processos antigos a partir de escolhas e circunstâncias parecidas?

Com a palavra o leitor.

1O termo “Etrúria” se refere a uma região geográfica, mais ou menos correspondente à Toscana, na Itália, e não a um estado. As cidades originalmente associadas à cultura “etrusca” são (nomes latinos, com os possíveis nomes etruscos em parênteses): Arretium/Arezzo (Arritim), Caere/Cerveteri (Caisra), Clusium/Chiusi (Clevsin), Cortona, Volterra (Felathri), Populonia (Fufluna), Perusia, Tarracina (Tarchna), Tarquinia (Tarchnal), Veio (Veii), Vetulonia (Vetluna), Fiesole (Vipsul), Volci (Velch), Volsinia (Velzna).

2 Quando o Reino Unido se formou, pela união pessoal dos reinos da Escócia e da Inglaterra, um bom número de outras entidades políticas havia sido absorvida anteriormente, por um ou por outro dos reinos unidos. A Inglaterra incorporara, além dos seis reinos anglo-saxões originais, a Cornualha, a Nortúmbria, Gales do Norte, Gales Central, Gales do Sul, Man, Munster, Connaught, Ulster, Leinster e Meade (os cinco últimos os reinos existentes na Irlanda pré-conquista). A Escócia incorporara a Caledônia, as Órcadas e as Shetlands.

3 O episódio do rapto das sabinas.

Bem Aventurados os que Têm Fome e Sede de Justiça, Só que Não.

Apenas hoje tomei conhecimento de uma frase do Luiz Filipe Pondé, colunista da Folha de São Paulo, que procura igualar o sentimento antiamericano com uma inveja infantil do sucesso alheio. Minha primeira reação foi de incredulidade, porque um filósofo cometer uma falácia baixa como essa não é algo que se vê todo dia. Mas, como o Brasil é um lugar onde qualquer um com certa cultura perceptível pode ser chamado “filósofo” e qualquer um que ponha linhas curtas em sequência com rimas ocasionais ou figuras de linguagem pode ser chamado de “poeta”, eu acabei aceitando a validade da frase, o que me preparou para constatar que ela realmente foi escrita e publicada pelo jornal. Feito que desonra ao autor e ao veículo que o publicou, mas assim são as coisas da vida.

Os americanos fizeram o país mais rico do mundo num curto espaço de tempo sem ficar gemendo ou culpando os outros ou pedindo "Bolsa Família". Em vez de babar de inveja dos Estados Unidos, deveríamos aprender com eles.


O discurso da inveja é uma das muitas falácias de envenenamento da fonte empregadas pela direita para desqualificar as teses e ideais da esquerda. Outra destas estratégias é igualar a fascismo, socialismo ou outro ismo qualquer ação coletiva de resistência a mudanças indesejadas ou de demanda por mudanças. Ainda vou dedicar algum tempo para elencar esses discursos em um todo coerente.

No caso específico do discurso da inveja, a tese direitista é que a demanda por “justiça social” é uma forma disfarçada de revanche contra o sucesso das classes superiores, motivada pela inveja. O que Pondé fez aqui foi transferir essa inveja para uma escala maior, colocando um país inteiro, os Estados Unidos, como alvo de inveja.

Ninguém gosta de invasores.

O discurso da inveja já embute uma dose brutal de pensamento apriorístico e petição de princípio, especialmente por considerar que uma pessoa que esteja em posição social e econômica privilegiada lá está por mérito próprio, ignorando as riquezas e poderes herdados e aqueles obtidos por meios ilícitos (e posteriormente herdados). Ser filho de rico não é mérito, roubar tampouco o é. Mas quando esse discurso é adaptado para uma escala de países a lógica vai às favas porque é necessário fazer grandes simplificações e desconsiderar extensos dados históricos. Sem esse preço não se consegue emitir uma regurgitação tão estúpida quanto o fecho do artigo, reproduzido acima.

Como é inconcebível pensar que Pondé seja um ignorante de História, sua biografia e suas leituras impossibilitam isso, a única explicação possível para esta peça que produziu é a manipulação deliberada, por motivos ideológicos.

Somente no citado parágrafo existem seis ou sete erros bastante evidentes a qualquer pessoa que honestamente analise o assunto sobre o qual Pondé emite tal juízo:

  1. A afirmação de que os americanos fizeram o país mais rico do mundo “em um curto espaço de tempo”.
  2. A afirmação de “os americanos” fizeram.
  3. O anacronismo de misturar o assunto “Bolsa Família”, que evidencia que a frase tem um alvo muito específico.
  4. A ideia de que o sentimento anti americano é motivado pela inveja do sucesso dos Estados Unidos.
  5. A presunção de que seria possível a qualquer país seguir o exemplo dos Estados Unidos.

Primeiramente, o “curto espaço de tempo”. Entre a fundação das colônias norte americanas (início do século XVII) e o momento em que os Estados Unidos se tornaram o país “mais rico do mundo” (1946), tivemos mais de 300 anos. Somente na cabeça de Luiz Filipe Pondé isso pode ser considerado um  “curto espaço de tempo”. É verdade que os Estados Unidos já eram bem ricos e poderosos desde pelo menos o final do século XIX, mas só assumiram ares de potência mundial durante a Segunda Grande Guerra. Antes disso, eram uma potência regional e, mesmo aceitando que estivessem em pé de igualdade com as demais potências mundiais, ainda não eram o país mais rico do mundo.

Esta riqueza que levou o país ao topo do mundo não foi toda ela construída “por americanos”, não se considerarmos “americanos” os descendentes dos colonos originais, ou mesmo aceitando como tal os imigrantes europeus do pós-independência. Boa parte da riqueza foi roubada do México, que cedeu aos Estados Unidos um território maior do que seu território remanescente. E não foram terras de merda, mas regiões ricas em minerais (inclusive o famoso ouro da Califórnia), pastagens e até terras aráveis. Outra parte desta riqueza foi extorquida da Espanha na Guerra Hispano Americana de 1896 (motivada por um ataque de falsa bandeira contra um navio americano em um porto cubano).  Esta guerra abortou a independência filipina (só conquistada em 1946) e portorriquenha (até hoje adiada) e concedeu a Cuba uma independência de fachada, com direito a cláusula constitucional autorizando intervenção ianque (Emenda Platt). Graças aos territórios roubados ao México foi que os EUA chegaram a ter acesso ao Oceano Pacífico. Graças às colônias arrancadas da Espanha, tiveram bases militares no Extremo Oriente (Guam e Filipinas) e controlaram firmemente o Caribe (sem o risco de um território colonial inimigo a poucas dezenas de milhas de Miami).

É importante frisar que se o sentimento antiamericano fosse resultante do sucesso dos Estados Unidos, deveria haver igualmente sentimentos antibritânicos, antigermânicos, antisuecos, antijaponeses, antifranceses e até antiluxemburgueses. Embora nenhum desses países iguale o poderio americano, alguns deles superam a riqueza por habitante dos Estados Unidos. A virtual inexistência de sentimentos correspondentes (ainda que proporcionalmente menos fortes) em relação a outros povos sugere que o antiamericanismo não está relacionado com o sucesso alcançado pelos Estados Unidos, visto que sucessos alheios não despertam sentimentos proporcionais.

Ocorre que os Estados Unidos não se empenharam em fazer amigos ao longo de sua história, muito pelo contrário. São tão numerosos os países que tiveram seus negócios internos perturbados por interferências americanas que não é surpresa que em muitos lugares os ianques sejam mal vindos. Restringindo-nos a intervenções exclusivamente militares, mas incluindo tentativas de rebelião de povos dominados pelos Estados Unidos, temos nada menos que 130 intervenções entre 1890 e 2011. Em nada menos que 130 oportunidades os Estados Unidos mandaram tropas invadir algum país para fazer coisas como impedir a posse de governos eleitos, defender tiranos de revoltas populares, derrubar governos reformistas, impedir reformas progressistas, assegurar os interesses de empresas americanas ou tomar território. Não acho que seja surpreendente que tanta gente odeie os Estados Unidos. É natural um certo receio contra o valentão do bairro, que frequentemente invade a sua casa para interferir na sua vida, quase sempre levando consigo algo de que goste.

Para muita gente, o sentimento antiamericano é equivalente ao sentimento que temos quando vemos alguém dirigindo o carro que nos foi roubado. Você pode preferir chamar isso de inveja, mas eu acho que pensar assim é atribuir culpa à vítima. Por outro lado, espero que Pondé não esteja nos aconselhando a aprender com os Estados Unidos esse tipo de atitude. Mesmo porque nesse jogo de gangues nós seríamos trombadinhas desarmados contra uma tropa de choque usando munição letal.

Porém, mesmo que deixássemos de lado todos os casos em que os Estados Unidos utilizaram sua força militar para pisotear as aspirações nacionais de outros povos (em alguns países houve mais de uma dezena de intervenções), ainda assim seria muito difícil empregar qualquer coisa que aprendêssemos com o caso americano. Primeiro porque ciências sociais não são ciências exatas (sinto-me envergonhado de dizer isso ao Pondé, mas parece que ele não sabe disso, apesar do diploma) e não é certo que a repetição de medidas tenha resultados idênticos. Não apenas porque é impossível repetir de forma idêntica coisas grandes como “medidas políticas”, mas também porque as circunstâncias são incontroláveis. E nem vamos falar dos pontos de partida extremamente divergentes (aquela história dos modelos de colonização de povoamento e colonização de exploração que no meu tempo a gente estudava na quinta série primária e depois repetia no primeiro ano do segundo grau).

Pondo tudo isso no rolo, vemos que o “filósofo” (me recuso doravante a tirar aspas para me referir a ele) desconsidera (porque obviamente não ignora, apenas oculta) informações que são praticamente feijão com arroz de quem estuda ciências sociais, com o fim de culpabilizar os povos prejudicados pelo colonialismo norte americano, ao tempo que elege como modelo de desenvolvimento o país mais predatório que já existiu na face da terra, responsável pelo genocídio dos indígenas em seu próprio território e por massacres incontáveis em países estrangeiros, especialmente na América Latina, onde criou todo tipo de obstáculos ao desenvolvimento nacional autônomo. Todo o ressentimento dos injustiçados é reduzido a inveja. Na visão do “filósofo”, a vítima tem inveja do ladrão.

Não cabe aqui discutir os méritos próprios dos Estados Unidos, que são muitos, assim como os de outros países. Muito menos recair na xenofobia: são raros os esquerdistas que detestam o povo americano propriamente dito, a gente só não quer que eles venham armados dizer quem pode ou não pode nos governar ou nos impedindo de retaliar barbaridades cometidas por seus cidadãos ou empresas. Enquanto eles venham desarmados, apenas como turistas, duvido que alguém vá dizer que tem ódio deles.

Então não rola essa “inveja” do sucesso americano. Os canadenses são também muito ricos (e são até norte americanos), mas ninguém picha “Cannucks go home” nos muros do mundo.

Sobre a Eliminação Física de Líderes Inimigos pelos Serviços Secretos

Os fatos relacionados à doença e morte do presidente venezuelano Hugo Chávez estão causando certa polêmica desde que o presidente em exercício, Nicolás Maduro, acusou abertamente o governo dos Estados Unidos, através da CIA, de ter causado o câncer que veio a matar o falecido líder. É uma afirmação grave, que dificilmente seria feita de forma leviana por um chefe de estado — certamente os venezuelanos têm suas razões para desconfiar de que os eventos fatídicos que levaram ao óbito do mandatário foram extraordinários — mas o bom senso recomenda que não turvemos nossa visão da realidade com os óculos unidimensionais da ideologia. Antes de ridicularizar humoristicamente os que acreditam nesta teoria, ou demonizar como cúmplices do Mal aqueles que celebram a morte de Chávez sem acreditar em qualquer fato não natural, é preciso fazer alguma pesquisa de fundo para avaliar a plausibilidade do que disse o atual chefe de estado venezuelano.

Existem quatro perguntas a se responder:

  1. Existem precedentes históricos de eliminação física de líderes inimigos, adversários políticos ou pessoas incômodas através de meios sub reptícios (envenenamento, traições etc.)?
  2. A política dos Estados Unidos quanto a isso envolve algum tipo de endosso ou tolerância com a prática da eliminação física de líderes adversários?
  3. Houve casos documentados de líderes políticos ou personae non gratae que sofreram de câncer, ou de situações que poderiam/poderão resultar em câncer?
  4. Existem cânceres conhecidos pela ciência que poderiam, em tese, ser induzidos de forma eficiente (isto é, a custo relativamente baixo e desfecho a curto ou médio prazo)?

    Se pudermos responder “sim” às quatro perguntas acima, é forçoso concluir que a teoria aventada pelo presidente venezuelano não é um delírio — mesmo que efetivamente se descubra que Chávez não foi envenenado. Ideias são delirantes quando não possuem base lógica ou conexão com realidade. Ideias que possuem base lógica e se harmonizam com a realidade, mas são falsas, não são delírios, são apenas equívocos. As pessoas se equivocam todo o tempo. Você está em uma cidade estranha e entra em esquinas erradas até se perder. Tem várias marcas de refrigerante para escolher, mas frequentemente pede um que não o satisfaz tanto quanto um outro de que só se lembrou depois que o pedido veio. Errar é humano. Erros não são delírios.

    Meu objetivo neste artigo não é provar que Chávez foi morto pela CIA, mas analisar se esta teoria é um delírio ou uma hipótese válida, ainda que provavelmente falsa.

    Precedentes históricos

    A traição é uma ferramenta da política desde antes do homem ser homem. Desde que desenvolvemos a inteligência, a luta pela primazia no bando deixou de ser uma competição de força e passou a incluir a habilidade. Um macaco mais fraco, mas ágil no manejo de um porrete, poderia matar outro mais bruto. Se a força tivesse continuado o parâmetro para definir as lideranças, a civilização não existiria. O engano e a traição estão entre os elementos que construíram o mundo em que vivemos. E você ainda se pergunta por que há tanta gente má lá fora.

    O envenenamento, embora frequentemente depreciado como uma prática “de mulheres”, foi amplamente empregado desde a Antiguidade, especialmente na difícil tarefa de livrar-se de reis sem cometer abertamente o regicídio — que era sempre punido com penas bestiais, como o escafismo (na Pérsia), drawing and quartering (Inglaterra) ou o evisceramento (Japão). A prática do envenenamento era tão comum na Pérsia que havia até uma lenda que dizia que certos homens poderiam, se o recebessem desde cedo em doses progressivas, desenvolver tolerância a qualquer veneno.

    Os envenenamentos de inimigos políticos mais notáveis para a nossa análise são os seguintes:

    1. Tódor Romza, bispo ortodoxo de Mukachev, Ucrânia, envenenado com curare (veneno paralisante).Mandante: URSS. Data: 1947.
    2. Stepan Bandera, líder nacionalista ucraniano, envenenado com cianureto. Mandante: URSS. Data: 1959.
    3. Aleksandr Dubcek, líder tcheco-eslovaco, envenenado com estrôncio (sobreviveu). Mandante: URSS. Data: 1968.
    4. João Goulart, ex presidente brasileiro, na época exilado na Argentina. Envenenado pela substituição de um de seus comprimidos para hipertensão, substituído por um de anfetamina, segundo confessado por um agente do serviço secreto da polícia uruguaia. Mandante: Brasil. Ano: 1976.
    5. Georgi Markov, jornalista e escritor búlgaro, envenenado com um pequeno projétil contendo rícino disparado por uma arma oculta em um guarda-chuva. Mandante: Bulgária. Data: 1978.
    6. Khaled Meshal, líder nacionalista palestino (Hamas), envenenado com uma substância desconhecida, instilada através de seu ouvido por uma dispositivo de spray. Sobreviveu graças à prisão dos agentes responsáveis pela tentativa pela polícia da Jordânia, que ameaçou matá-los caso o antídoto não fosse fornecido. Mandante: Israel. Ano: 1997.
    7. Roman Tsepov, empresário russo e possivelmente líder mafioso, supostamente amigo e posteriormente desafeto de V. Putin. Envenenado por alta dose de algum material radioativo (autópsia não realizada). Mandante: provavelmente a Rússia. Data: 2001.
    8. Ibn al-Kathab, nacionalista islâmico da Chechênia, envenenado por uma carta embebida em sarin ou outro agente tóxico contra os nervos. Mandante: Rússia. Data: 2002.
    9. Aleksandr Litvinenko, agente secreto russo que havia desertado para a Grã Bretanha após denunciar um plano para matar Bóris Berezovsky, milionário (e possivelmente mafioso) russo, em um caso semelhante ao de Tsepov. Envenenado por polônio (oficialmente o inquérito sobre sua morte foi abandonado, por razões diplomáticas). Mandante: Rússia. Data: 2003.
    10. Anna Politkovskaya, jornalista e defensora dos direitos das minorias na Rússia, opositora do conflito na Chechênia. Sobreviveu a uma tentativa de envenenamento por alguma substância posta em seu chá, que não foi efetiva porque ela o cuspiu em vez de engolir. Mandante: Rússia. Data: 2004.
    11. Viktor Yushenko, político ucraniano. Sobreviveu a uma tentativa de envenenamento por dioxina (agente laranja). Ironicamente liderava um movimento democrático apelidado de “Revolução Laranja”. Mandante: desconhecido (mas seus adversários políticos eram ligados fortemente à Rússia). Data: 2004.
    12. Yasser Arafat, líder nacional palestino. Morreu após um longo período de tratamento na França, de causas não divulgadas. Pesquisas posteriores encontraram grande quantidade de polônio em seus objetos pessoais. Investigações feitas por pesquisadores suíços sugerem que morreu em decorrência de câncer causado por envenenamento por substância radioativa. Mandante: Israel. Ano: 2004.
    13. Viktor Kalashnikov, escritor russo, irmão de Mikhail, inventor do famoso fuzil AK-47. Sobreviveu (com sequelas) a um envenenamento por mercúrio. Mandante: Rússia (segundo a vítima). Data: 2010.

    Portanto, existem pelo menos treze precedentes históricos recentes e significativos de pessoas que foram mortas a mando de governos, empregando envenenamento (tecnicamente, a contaminação por radioatividade é uma forma de envenenamento). É certo que a maioria destes casos é atribuída aos serviços secretos comunistas ou aos serviços secretos russos (herdeiros da KGB), mas não custa lembrar que nós não ouvimos o lado de lá da História: o fim do bloco socialista, nos anos 1990, significou o triunfo da versão ocidental, expurgada de seus próprios casos.

    Analisando esta sequência de casos vemos um padrão preocupante: as ações anteriormente executadas através de venenos tradicionais se tornaram cada vez mais frequentemente feitas com substâncias radioativas. Embora estas substâncias sejam fáceis de detectar (a ponto de a tumba de Aleksandr Litvinenko ser selada com chumbo para evitar contaminação), elas são difíceis de limpar do organismo: mesmo que a vítima sobreviva ao envenenamento inicial, ela sofrerá depois as consequências da radiação, desenvolvendo tumores. É possível que a ideia de empregar radiação como veneno tenha surgido ou se fortalecido após o incidente com Césio-137 em Goiânia, durante o qual várias pessoas ingeriram o contaminante radioativo, com os efeitos lamentáveis que se conhece.

    Alguns dos casos mencionados nesta lista são peças que lembram filmes de espionagem: agentes instilando venenos em spray no ouvido de inimigos, xícaras de chá envenenadas, guarda-chuvas que atiram projéteis de rícino, dardos de curare disparados por zarabatanas em praças públicas. Estão listados aqui para sacudir um pouco o ceticismo do leitor, que acha que algo que “parece de coisa de filme” não pode ter acontecido na realidade. É fato que os serviços secretos do mundo todo empregam métodos engenhosos para envenenar e matar aqueles que seus governos elegem como alvos. Métodos que parecem saídos de um filme do Agente 86, mas que funcionam.

    Política americana 

    Uma vez estabelecido que a prática do envenenamento de inimigos políticos, inclusive pelo uso de radiação, é comum e corriqueira, temos que definir qual a política dos EUA quanto a isso. Há duas questões a se levantar. A primeira é quão corriqueiros esses casos são, dirá o leitor. A segunda questão é que esse não parece ser o jeito americano de agir.

    Treze casos não são exatamente uma abundância incrível. Mas há que se lembrar que são treze casos notórios, envolvendo pessoas públicas ou que, de outra forma, atraíram a atenção da mídia. Não é todo dia que alguém é morto por um dardo envenenado numa rua de Munique ou por uma bala envenenada disparada por um guarda chuva em um metrô em Londres. Devem existir inúmeros outros casos que não conhecemos porque envolvem pessoas obscuras demais ou que ocorreram em lugares distantes ou sem testemunhas.

    É verdade que a CIA parece gostar mais de explodir pessoas do que brindá-las com um chá da meia-noite. Mas parecer não é ser. O curioso (e bizarro) caso dos agentes do Mossad que espirraram veneno dentro do ouvido de um líder do Hamas nos dão uma sugestão de que os serviços secretos ocidentais também sabem ser sutis quando querem, ou precisam.

    Na verdade, a simples existência de precedentes de assassinato de líderes inimigos (“decapitação”, no jargão do Mossad) serve de apoio à nossa tese, porque os métodos dependerão sempre das circunstâncias. Anwar al-Aulaqi e Osama bin Laden foram mortos em ações militares violentas porque estavam em território hostil e porque, dada a natureza de suas atividades, ninguém lamentaria essa opção (ainda que vários juristas e políticos tenham advertido sobre a gravidade da violação das leis internacionais que aconteceu durante a missão de execução de Osama). Um inimigo sobre o qual se pudesse ter um acesso controlado em território não conflagrado (como um quarto de hotel) poderia ser morto de maneira menos estrepitosa. O que precisamos é saber se essa maneira é possível. Porque se é possível, ela já deve ter sido usada.

    Casos polêmicos

    Analisemos agora a coisa por outro lado. Sabemos que houve vários casos documentados de pessoas que foram envenenadas a mando de serviços secretos (principalmente da URSS/Rússia, mas também de Israel e até do Brasil). Existem, porém, registros de mortes suspeitas que poderiam ter sido causadas por envenenamentos, excluindo os casos de morte violenta (como a de Juscelino Kubitschek)?

    Difícil dizer, visto que existem muitos venenos que são capazes de produzir efeitos semelhantes ao de morte natural (e muitos venenos são empregados justamente por terem tal propriedade). Então, se não há uma suspeita de possível envenenamento, que dificilmente há se a vítima for idosa, não haverá uma necrópsia detalhada, capaz de identificar a causa mortis. Restam os murmúrios, como os que duvidam da naturalidade da morte de Carlos Lacerda, que desmaiou na rua em 1977 e nunca mais acordou e de Tancredo Neves e sua misteriosa doença. O que podemos dizer  é que, com toda segurança, nenhuma morte por envenenamento é fácil de detectar à distância, e as mortes de pessoas públicas costumam ser envoltas em mistério.

    Cânceres úteis

    Referindo-nos especificamente ao caso, que substâncias  seriam capazes de produzir um câncer relativamente letal de forma “segura” (suponhamos que Chávez nunca foi detectado com doses altas de radiação)?

    • Azoximetano. “Particularmente efetivo para produzir cânceres de cólon”.
    • Tório. Se inalado ou ingerido causa cânceres de órgãos internos, como pâncreas e fígado.
    • Metilcolantreno. Produz câncer de próstata rapidamente se ingerido.
    • 3-Nitrobenzantrônio. Um dos componentes resultantes da queima do óleo diesel. Potente carcinogênico ligado às vias respiratórias.
    • 4NQO (4-Nitroquinolina 1-oxidina). Produz tumores nas regiões atingidas após ser inserido na circulação sanguínea.
    • N-Nitroso-N-metiluréia (NMU). Carcinogênico “bastante confiável” ligado a tumores malignos do estômago, sarcomas e gliomas cerebrais, adenocarcinomas pancreáticos, leucemias e linfomas.

    Uma das argumentações contra a possibilidade de Chávez ter sido envenenado reside na “dificuldade” de se induzir alguém a ter câncer. No entanto, uma rápida pesquisa na Wikipédia já me revelou quatro substâncias conhecidas cujos efeitos carcinogênicos são descritos com adjetivos como “efetivo”, “rápido”, “potente” e “confiável”. Algumas substâncias causam cânceres específicos, outras, de forma traiçoeira, estão ligadas a diferentes tipos, podendo ter efeitos difíceis de prever. Todas estas substâncias são efetivas para induzir câncer em quantidades relativamente pequenas, que poderiam passar despercebidas (substâncias cancerígenas em dosagens muito altas são bastante numerosas, mas pouco efetivas porque ninguém chegaria a consumir quantidades muito grandes).

    Isto, claro, se refere a substâncias tão conhecidas que têm verbetes na Wikipédia. Suponho que existam muitas outras substâncias que não estão lá porque não são muito conhecidas, que não estão lá porque são secretas ou que estão lá mas eu não percebi (minha pesquisa foi bem porca).

    Aonde isso nos leva

    Sabemos que a prática de envenenar inimigos é antiquíssima, que várias potências contemporâneas a têm usado (notavelmente a URSS/Rússia), que existe certo segredo sobre as causas das mortes dos líderes mundiais (e dos papas, por que não?) e que existem substâncias capazes de envenenar de várias formas, inclusive causando câncer.

    Tendo todos estes dados sobre a mesa, mas ainda sem emitir um juízo de valor sobre o caso Hugo Chávez, podemos afirmar sem medo de ridículo que a possibilidade de envenená-lo para causar-lhe o câncer que o matou não é uma insanidade. Insano é acreditar que os Estados Unidos “não fariam isso”, é um pensamento análogo à fé cega. Não só os EUA “fariam isso” contra um desafeto como já o fizeram várias vezes.

    É difícil, senão impossível, saber se a tentativa aconteceu, ou se a morte efetivamente foi causada por ela ou por outro incidente ou fenômeno natural. O mundo é regido por uma certa dose de caos. O fato de alguém tentar matar outrem não quer dizer que a morte, caso ocorra, é resultado do primeiro ato. Como num filme de humor negro, no qual o espião atira no inimigo, mas a bala se perde e o inimigo, seguindo calmamente seu caminho, escorrega numa casca de banana e morre de traumatismo craniano ao bater no chão.

    Este artigo não foi escrito para provar que Chávez foi envenenado pela CIA, mas para mostrar como a ridicularização desta hipótese revela uma certa “fé” de certos setores e pessoas nos valores morais de uma potência estrangeira, os Estados Unidos. Aparentemente, os EUA são o único país do mundo liderado por pessoas absolutamente isentas e sensatas, que jamais tentariam matar pessoas por discordarem de sua ideologia.

    De minha parte, acredito que o melhor argumento contra a hipótese ainda é o de que o estilo americano é mais parecido com enfiar uma bala no sujeito. Malcolm X, John Kennedy, Martin Luther King, Anwar al-Aulaqi, Osama bin Laden. Ou, talvez, sabotar seu avião. Omar Torrijos-Herrera. Mas Chávez esteve várias vezes às turras com Israel, por causa de sua amizade com o Irã. E Israel teve aqueles caras com o spray de veneno no ouvido do líder do Hamas…

    Quinta Coluna em Festa: Morreu o Líder Simbólico da Autonomia Latinoamericana

    Desde imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial, mas muito mais intensamente depois que o Brasil entrou no conflito contra o Eixo, era costume nossa imprensa chamar de «quinta coluna» o conjunto dos simpatizantes do inimigo que existiam no seio de nossa própria sociedade. Inicialmente o texto tinha um cunho ideológico, e se referia, por exemplo, aos integralistas (cuja ideologia tinha muitos pontos de contato com o fascismo), mas logo adquiriu um teor racista, servindo para atacar os imigrantes alemães, austríacos, italianos e japoneses, bem como seus descendentes. A quinta coluna era temida pela sua capacidade de «atacar de dentro» no caso de início de hostilidades, mas também pelo potencial de incapacitarem o país, seja sabotando suas forças armadas, seja paralisando seu processo político rumo a uma «neutralidade» útil ao inimigo.

    A origem do termo não é nobre. Foi cunhado pelo general falangista Emilio Mola, que lutava contra o governo republicano durante a triste Guerra Civil Espanhola. Mola afirmou à imprensa que a marcha de suas quatro colunas de soldados sobre Madrid seria facilitada pela atuação de uma quinta coluna, formada por simpatizantes civis localizados na cidade. De fato Madrid caiu rapidamente, obrigando o governo republicano a refugiar-se em Barcelona na fase final da guerra.


    No Brasil o termo passou a ser menos usado após a redemocratização porque durante um longo período de tempo uma outra encarnação da quinta coluna existiu e atuou entre nós de forma contínua, estendendo-se até os dias de hoje: o conjunto dos assalariados e dos simpatizantes da principal potência mundial do século XX. Interessada em limitar a autonomia dos países que reivindicava como sua zona de influência, esta potência patrocinou não dezenas, mas centenas de golpes de estado e regimes de exceção. Entre os países do hemisfério ocidental, somente o Canadá as colônias europeias remanescentes escaparam da sanha golpista dos Estados Unidos.

    Alguns regimes patrocinados por Washington foram especialmente odiosos, como a ditadura guatemalteca implantada em 1954 para impedir uma reforma agrária que afetaria o suprimento de banana ao mercado americano e que teve como resultado uma guerra civil com centenas de milhares de mortos e um regime que permitiu a inoculação proposital com sífilis e outras doenças de milhares de crianças, que viveram vidas miseráveis em consequência. Algum dia a História mencionará este episódio com o mesmo horror com que menciona os massacres promovidos pelos conquistadores espanhóis ou, séculos antes, pelos romanos contra os dácios.

    Outros regimes amigos dos americanos ficaram famosos por suas demonstrações ostensivas de ódio aos símbolos da cultura e da democracia, como a ditadura chilena, que executou o cantor Víctor Jara como um espetáculo num estádio de futebol, diante de dezenas de milhares de opositores presos que esperavam sua vez, e cujo chefe posou de óculos escuros, uniforme militar e botas de cano alto, com os pés sobre a mesa do escritório da presidência.

    Estas interferências sobre a América Latina sempre foram favorecidas pela presença de uma quinta coluna integrada por simpatizantes ingênuos, enganados pelos valores da Revolução Americana, ou elites que se locupletam às custas do povo, em conluio com o grande capital. Isto não é ideologia, é História. E nem é História marxista: a maior parte dela foi escrita por autores americanos. Se você duvida, só lamento sua ignorância. Vá estudar.

    Esta história de subjugação de todas os projetos nacionais latino americanos começa ainda no século XIX, quando foi importante a contribuição da diplomacia americana para a dissolução da República Federativa da América Central, inspirada na Argentina (daí as cores azul e branca das bandeiras da maioria dos países resultantes de sua dissolução) e com capital inicialmente na Guatemala, posteriormente em São Salvador. Correu ao longo de mais de 150 anos, perpetuando a dependência econômica e tecnológica destas nações, que já enfrentavam sérios problemas de identidade nacional e pobreza.

     A corrupção natural destes países herdeiros de um tipo perverso de colonização aliou-se aos interesses do poder hegemônico no hemisfério, impedindo que as limitações originais fossem rompidas, mantendo um status quo de exclusão da maioria do povo, sem esperança de melhora. Líderes nacionais legítimos, inspirados no interesse de trazer progresso e liberdade para seus compatriotas, sempre morreram nas mãos de forças militares aliadas aos Estados Unidos, quando não pagas, armadas, treinadas e inspiradas em centros de formação como a Escola das Américas, na Zona do Canal do Panamá.

    Alguns destes líderes são particularmente emblemáticos, como os principais líderes da Revolução Mexicana (Francisco Madero, Pancho Villa, Venustiano Carranza e Emiliano Zapata) e Augusto Sandino, porque sua luta sempre foi nacionalista, jamais comunista ou avessa à ordem internacional. Era natural que um homem como Sandino se revoltasse contra a ocupação estrangeira do território de sua pátria da mesma forma como a Resistência francesa contra a invasão nazista ou os irlandeses na Revolta da Páscoa. Mas ele foi morto por uma “Guarda Nacional” a soldo de uma elite vendida aos interesses estrangeiros, e o mandante do crime logo se tornou o “presidente” de mais um regime amigo, a cruel ditadura da família Somoza. E essa foi a tônica da reação ao nacionalismo latino americano: tachado de banditismo por um critério praticamente racista, negador do direito do povo à autodeterminação no quintal da superpotência.

    A dificuldade da via popular revolucionária, exceto por fatos isolados, como a Revolução Cubana, abriu espaço para os regimes reformistas, que tentaram implantar de cima para baixo a libertação econômica e social. Um dos primeiros exemplos, em uma época na qual os EUA ainda não projetavam tanto a sua sombra sobre o continente, foi Hipólito Yrigoyen, fundador de um partido que existe até hoje e de uma estabilidade que levou a Argentina a um status de país quase desenvolvido. Posteriormente esta figura, originalmente associada ao caudilhismo platino, se transformou no presidente “populista” encarnado por figuras como Getúlio Vargas, Juan Domingo Perón, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Juan Velasco Alvarado, Omar Torrijos-Herrera e outros.

    O populismo era uma tentativa de produzir efeitos positivos para a nação de uma maneira controlada, sem recair em uma revolução aberta, que atrairia a imediata ira americana. Populistas implantavam reformas cautelosas, com o cuidado de não ameaçar frontalmente o status quo. Estas reformas, por sua timidez, não eram suficientes para atiçar uma vingança ianque de seus interesses negados, mas por alcançarem tímidas mudanças no equilíbrio de poder no nível local, criavam forte rejeição nos setores elitistas, a tal quinta coluna sempre a serviço do imperialismo norte americano, que muitas vezes pediram (e muitas vezes obtiveram) o apoio dos EUA para iniciativas locais de mudança de regime. Um dos bons exemplos disso pode ser encontrado na sucessão de eventos que desembocaram no golpe militar brasileiro de 1964.

    A Era das Ditaduras Militares — o período da história latino americana entre 1954 e 1990, caracterizado pela simultaneidade de diversos governos liderados por forças armadas conservadoras muito influenciadas por doutrina americana — terminou com a transferência do poder para anêmicos regimes civis, que tiveram de enfrentar a pesada herança deixada pelas ditaduras: o legado da violência institucional e a deterioração econômica como resultado da subjugação do interesse nacional ao que mais tarde se chamou de “Consenso de Washington”, criado na esteira do thatcherismo e das políticas neoconservadoras republicanas implementadas por Ronald Reagan nos EUA. Por causa da “crise da dívida” (causada pelo endividamento irresponsável das ditaduras), esses regimes civis, invariavelmente, tentaram levar às últimas consequências o receituário liberal de abertura de sua economia aos interesses americanos (ou até ao favorecimento do estrangeiro em detrimento do nacional), produzindo desastrosas consequências desestabilizantes. Isto levou a conflitos sangrentos, como o Caracaço de 1989 (revolta dos venezuelanos contra o presidente Carlos Andrés Pérez) ou os distúrbios da Argentina ao longo dos anos 1990, até o governo Kirchner.

    O fracasso do neoliberalismo é fruto de seu sucesso: ao conseguir implementar, no todo ou na maior parte, aquilo que era preconizado pelo Departamento de Estado americano e pelos órgãos “multilaterais” (como o FMI, o Banco Mundial e a OEA) onde imperava a vontade dos EUA, esses regimes levaram seus países a becos sem saída, de onde não era mais possível avançar e as elites locais não admitiam nenhum recuo. Esta situação produziu, em alguns lugares, os distúrbios sociais de que a década de 1990 foi pródiga. Isto produziu uma polarização política nunca antes vista, mesmo em países onde nunca estourou uma violência política aberta (caso do Brasil), fenômeno que se desenvolveu em ritmo diferente em cada país.

    A instabilidade foi marcante em países como o Equador (que teve mais de uma dezena de presidentes a partir de 1990) e a Argentina (que chegou a decretar uma moratória unilateral da dívida externa), mas não deixou de afetar os países tradicionalmente moderados, como o Brasil (que sofreu com o aumento da pobreza, a ocorrência de apagões e a perda de infraestrutura por desinvestimento após privatizações mal dirigidas durante o governo FHC).

    Nesse contexto, a emergência de lideranças populares democráticas (que, diferentemente dos caudilhos e da maioria dos presidentes populistas do passado, derivaram seu poder de eleições livres) representa o maior fato novo na história latino americana desde o início da hegemonia americana sobre o continente, consolidada no final do século XIX. Hugo Chávez foi o pioneiro, ao se erguer sobre a insatisfação difusa do povo contra medidas econômicas duras e ineficazes, tomadas por pressão americana. Seu “populismo” consistiu, basicamente, em ouvir o povo e tentar dar-lhe voz, coisa que os seguros presidentes não populistas tentavam evitar fazer. Na visão direitista, sempre hegemônica na América, do extremo norte ao extremo sul, o povo não sabe o que quer, não deve ser ouvido e o seu benefício, caso sobrevenha, deverá ser apenas o inevitável efeito colateral do crescimento geral do “bolo” da economia (cujas fatias mais largas são concentradas em poucas mãos). Qualquer tentativa de governar para o povo merece um rótulo depreciativo, que, dependendo do reacionarismo da fonte, variará de “populismo a “comunismo, passando por “demagogia” e “socialismo”, incluindo sobrenomes como “irresponsável”, “arcaico”, “irrelevante”, “autoritário”, “ditatorial”, “atrasado” etc.

    É difícil imaginar o surgimento de governos populares democráticos, como os de Lula, no Brasil, de Kirchner, na Argentina, de Vázquez, no Uruguai, de Lugo, no Paraguai, de Morales, na Bolívia, de Toledo, no Peru, de Correa, no Equador e até mesmo de Ortega, na Nicarágua e de Zelaya em Honduras, sem ter em mente o sucesso eleitoral de Hugo Chávez (desde que obteve metaforicamente a cabeça de Pérez, através de seu impeachment). Chavez foi a vanguarda, foi quem tateou os caminhos, quem tentou primeiro. Foi o primeiro a dizer “não” aos Estados Unidos e sobreviver ao golpe inevitável, que sempre sobrevém aos tão ousados (sobreveio a Correa, a Morales, a Lugo e a Zelaya, sendo que os últimos dois não conseguiram resistir). Montado na mídia, que manipulou como poucos, demonstrando rara capacidade para entendê-la, construiu uma figura semimitológica e obteve, através de suas reformas cada vez mais inclinadas ao socialismo, um alto grau de aprovação popular. Tudo isso, principalmente o fato de ter servido de modelo e inspiração para vários outros líderes latino americanos, justificaram a ira de sucessivos governos ianques contra si e seu governo.

    Foi acusado de todos os adjetivos normalmente empregados pela direita, desde os mais antigos: caudilho, populista, ditador, comunista. Em seus momentos de maior ira, seus inimigos chegaram a atirar-lhe insultos raciais (em alusão ao fato de ser mestiço com sangue indígena e negro) e nunca cessaram de torcer por sua morte (que, no entanto, não tiveram a ousadia de providenciar durante os dois dias em que o tiveram sob seu poder, durante o golpe de 2002). O diagnóstico de câncer foi festejado por todas as elites do continente. Sua sincronicidade com a ocorrência de outros casos, como os de Lula, Kirchner, Lugo e Morales (e também da então ministra Dilma Rousseff) motivaram uma acusação de que talvez o serviço secreto americano estivesse por trás disso, de alguma forma. Acusação improvável, mas não exatamente absurda, tendo em vista casos recentes e comprovados de envenenamento por causas políticas envolvendo o ex presidente ucraniano Viktor Yushenko e o dissidente político russo Aleksandr Litvnenko.

    Na sua luta desigual contra o golias do norte, Chávez cometeu equívocos os mais diversos, mas teve dois grandes sucessos: produziu mudanças duradouras no sistema político venezuelano, que não poderão ser revertidas integralmente por nenhum futuro governo, e inspirou casos análogos em diversos países vizinhos. Países que darão sustentáculo ideológico e econômico ao seu sucessor, impedindo que o boicote estadunidense impossibilite a continuidade. Chávez sai da vida para entrar para a História, tal como outros antes dele: a glória do nome dos que se levantam em nome do povo costuma durar mais do que a infâmia dos quinta colunas, que lambem os coturnos da potência estrangeira que os despreza (os presidentes haitianos não podiam frequentar os clubes mantidos em Porto Príncipe pelos embaixadores e militares americanos, pois não eram brancos). Existirá futuramente um “chavismo”, tal como existem o “varguismo”, o “peronismo” e outros ismos oriundos de figuras populistas do passado.

    Os que celebram hoje sua morte se esquecem de que as ideias não morrem junto com os homens que as preconizam. Sopram ventos de mudança ao sul do Río Grande, a antiga potência já não consegue controlar tão bem o seu quintal. Os povos latino americanos estão começando a acordar de seu medo ancestral, não temem mais que sua reivindicação de justiça seja respondida por um recrudescimento da injustiça. Reformas foram feitas pela via democrática, legitimando-as perante a comunidade internacional e removendo a desculpa para a intervenção.  Antigas desavenças foram superadas e países antes adversários passaram a cooperar, mesmo que, em alguns casos, houvesse a necessidade de transigir, como o Brasil transigiu perante a Bolívia e a Argentina e como o Equador transigiu perante o Peru. Existe uma oportunidade real de mudança, que pode trazer, em um futuro não muito distante, um maior grau de autonomia, civismo e prosperidade para os que não são brancos o suficiente para nadarem na piscina do colonialismo light que impera desde o fim da II Guerra.

    Quando isso acontecer, a memória de Chávez terá a estatura de um Bolívar. Não custa lembrar que o homem que inventou a liberdade da América crioula também foi traído por quinta colunas. Morreu no exílio uma morte celebrada pelos que detestavam a liberdade. Mas seu nome paira como uma sombra acima da América do Sul, como um ideal que não morre. Agora que Chávez morreu, ele se tornou imortal: ninguém jamais matará o mito.

    O Trote como uma Expressão do Conservadorismo Social Brasileiro

    Sempre fui contra o trote, e isso independe de ser trote machista, homofóbico ou o que seja. Minha análise é visceral: o trote é um instrumento de controle da ascensão social das classes oprimidas, originalmente concebido para uso direto das classes opressoras e posteriormente manipulado em seu nome pelos anteriormente aceitos, criando uma “cultura” continuísta deletéria a todos os valores que supostamente são praticados na vida acadêmica. E o trote brasileiro, como costuma acontecer por aqui com quase tudo, tem adquirido gradualmente um aspecto cada vez mais bestial.

    Os trotes descendem das cerimônias iniciáticas das antigas religiões. Os gregos, por exemplo, tinham rituais que envolviam embebedar os neófitos e fazê-los participar de orgias (culto de Dioniso) e submeter os homens a provações físicas extremas (Olimpíadas) etc. A submissão dos jovens aos seus “mestres” (efebofilia) era proverbial. Embora não haja registros diretos disto, existem certos indícios de que certos cultos de mistérios incluíam o acasalamento de mulheres com animais (mito de Pasifaé, mito dos sátiros). Outros povos anteriores sempre tiveram seus rituais de iniciação, nem todos tão sistematizados quanto os gregos.

    Não farei aqui um histórico detalhado dos ritos de iniciação antigos porque isto vai muito além dos objetivos modestíssimos desse artigo, que é uma breve reelaboração de um comentário deixado no blogue “Escreva, Lola, Escreva” em resposta a um artigo sobre os acontecimentos recentes durante o trote de início de ano na Universidade de São Carlos, no estado de São Paulo. Basta-me pincelar amplamente que existe uma relação de continuidade do trote universitário, criado na Idade Média, com os ritos de passagem dos povos antigos (alguns bastante dolorosos, como a circuncisão, uma espécie de “trote” imposto por certas religiões e costumes tribais).

    A Igreja Católica aboliu os antigos cultos e suas práticas apenas gradual e nominalmente. No fundo, foram adaptados em festivais e ritos cristãos, mas continuaram existindo humilhações (como a raspagem do cabelo das noviças e os jejuns) e demonstrações públicas de estoicismo, como o andar sobre as brasas da fogueira de São João. Para os monges e freiras era pior, pois, de certa forma, era como se a vida religiosa fosse um trote para entrar na universidade de Deus.

    Os alunos das primeiras universidades criaram suas iniciações para testar se os novos alunos eram “dignos” dos diplomas que ostentariam. Tal dignidade incluía certos valores morais, como a disposição de “fechar” com os valores do grupo (corporativismo). Isso era importante em uma época durante a qual os segredos de certas profissões eram heréticos e sua revelação poderia ensejar grandes perseguições contra seus praticantes (como de fato houve contra os fisiologistas pioneiros, por exemplo). Um dos meios de se evitar que o neófito eventualmente desse com a língua nos dentes era levá-lo a cometer um crime, acobertado pela irmandade. Caso futuramente ele não se mostrasse digno, sua participação seria revelada, destruindo sua reputação e provavelmente custando-lhe a vida. Estuprar camponesas ou cometer sacrilégios eram boas opções. Os maçons incluíam em seus ritos práticas e ícones notoriamente controversos, facilmente interpretáveis como satânicos, justamente para que, no caso de haver uma quebra de sigilo, todos os envolvidos serem inculpados (a Inquisição salvava a alma do arrependido, mas não o seu corpo).

    Sobrevivem nos trotes universitários elementos desse trote original que buscava trazer a solidariedade pelo crime. Um bom exemplo é o Dia da Pendura praticado pelos futuros advogados. Em algumas faculdades, os calouros são instados a participar de um lauto jantar em determinado restaurante, sem pagar a conta. As más línguas dizem que é para que o futuro causídico aprenda desde cedo a apoderar-se do alheio… Os advogados que se ofendem com isso certamente não consideram que a maioria das pessoas chamaria isso de roubo. Maioria constituída pela totalidade da população menos os advogados.

    O trote não sobrevive apenas no Brasil, mas em outros lugares ele mudou de figura ao longo do tempo, indo numa direção diferente. Nos Estados Unidos, por exemplo, o aluno entra em uma fraternidade para participar da vida social da universidade. Não ser membro de uma significa ser excluído. Nem todas as fraternidades têm prestígio igual. Algumas são patrocinadas por nomes famosos, ex membros seus. Algumas chegam a ter fama internacional, como a Skull and Bones, da Universidade de Yale, à qual pertenceu George W. Bush, presidente americano. Ao pertencer a uma fraternidade, secreta ou não, o aluno usufrui de sua “proteção” e de sua influência, não só durante o curso, mas em sua carreira posterior. Conseguir entrar para uma boa fraternidade abre portas, mesmo se o seu talento for pouco notável, o que explica que um homem como George W. Bush tenha chegado à presidência americana. Falhar em entrar para uma delas pode ser uma sentença de morte acadêmica: a constante pressão dos demais alunos pode dificultar as mais simples das tarefas quotidianas, prejudicando as horas de estudo, interferindo em experimentos ou até danificando manuscritos. Episódios que podem resultar em reações indisciplinadas, que prejudicam ainda mais o futuro profissional da vítima, manchada por um comportamento inadequado. Em um mundo no qual o sucesso a qualquer preço é exigido dos alunos, que estudam em universidades cada vez mais caras, isto explica que alguns percam a cabeça e usem de violência. Adicione à equação aquela típica facilidade americana para comprar armas e você tem explicação interessante para os tiroteios em escolas e universidades.

    Lá como cá, porém, o trote é um instrumento de poder, que reflete estruturas de poder existentes dentro e fora do ambiente acadêmico. Em vez de selecionar neófitos confiáveis para proteger um segredo profissional, o trote hoje seleciona adeptos dispostos a aceitar o enquadramento social que lhes seja imposto, ensaiando assim o papel subalterno que se espera que estes futuros profissionais tenham ao saírem da graduação, pois no Brasil ainda impera mais o poder da grana sobre o poder do conhecimento, e não é incomum que o diplomado vá trabalhar sob as ordens de alguém que não possui graduação. Antigamente o coronel semi analfabeto tinha ao seu serviço o doutor advogado, o contador, o padre, o médico etc. Não era conveniente que esses profissionais tivessem uma atitude arrogante, deviam ser desde cedo treinados a ter a cabeça baixa. E abaixar cabeças é uma das funções do trote que, como a raspagem da cabeça dos recrutas, não tem finalidade prática a não ser a subjugação do ego.

    Não é uma cena de filme pornográfico sadomasoquista

    Porque os trotes quase sempre envolvem a “submissão” do calouro ao veterano, ensaio da submissão do profissional ao mercado. Para filhos dos milionários, o trote pode ser mais benigno, muitas vezes substituído por “dar festas” — uma espécie nada sutil de exibição do poderio econômico, que já qualifica o “festeiro” como alguém que é do grupo e que, por isso, não precisará ter a cabeça baixa na vida. Em outras épocas e países, os trotes foram usados também em questões nacionalistas. Estudantes galeses, por exemplo, seriam humilhados pilhados conversando em galês dentro das universidades britânicas. E isso foi parte importante na supressão da cultura galesa.

    No Brasil, que costuma exarcebar o que outras culturas têm de ruim, o trote virou uma instituição, que choca a sociedade como um todo, em vez de ser só um segredo podre dentro dos portões das universidades. Aliás, nem poderia ser de outra forma, pois a maioria de nossas instituições de ensino mais antigas não goza da privacidade das americanas e nem de sua autonomia política. Então o trote deixa de ser algo que acontece dentro das “casas de fraternidade”, de forma não só tolerada, mas protegida pelo sistema. Deixa de ser uma “festinha” para a qual é fácil fechar os olhos, desde que se tenha o cuidado de não matar, mutilar nem engravidar ninguém, do tipo “se todos amanhecerem inteiros, então não aconteceu nada”. Ao sair para as ruas, o trote esfrega na cara do século XXI como nós ainda somos primitivos, e isso incomoda. Incomoda, mas continua.

    O episódio mais recente na história dos trotes bestiais brasileiros aconteceu em São Carlos: incomodados com o protesto de um grupo de feministas contra a degradante submissão a que as calouras eram submetidas, um grupo de veteranos exibiu-lhes os seus genitais, atitude que, comportamentalmente falando, está um passo apenas acima de atirar excrementos. O que se expressa como machismo nesse caso reflete uma estrutura mais profunda de perpetuação de um sistema de “controle” da ascensão social, que envolve não só a opressão horizontal (misoginia e homofobia), mas também a opressão vertical (dita luta de classes).

    Exibir os genitais é uma tentativa bizarra e infantil de mostrar “eu tenho e você não tem”, usando o pênis como um símbolo de poder. Alguém associará esse ato com as concepções arquetípicas de Jung, que nos lembram que tais símbolos são fálicos: lanças, espadas, vara, cetros, báculos, batutas, cassetetes. Não é à toa que existem palavras como “varão”. Esses atos, porém, não ocorrem de forma totalmente espontânea: são alimentados pela mídia manipuladora.

    Dia desses, em um bate papo informal, dei-me conta de algo estranho, que certamente não é casual: vocês já repararam que desde o início das restrições à publicidade de bebidas alcoólicas a baixa música popular passou a investir no álcool como tema? A música sertaneja, por exemplo, nunca cessou, de 2006 para cá, de ter um sucesso mencionando cachaça. Houve casos mais escrotos que chegaram a mencionar marcas comerciais, como a música que Seu Jorge fez para a cachaça Sagatiba e um recente sucesso de funk-sertanejo mencionando a vodca Absolut. E isto simultaneamente à Lei Seca no trânsito e a grandes campanhas governamentais de combate ao alcoolismo. Será que isso é por acaso? Alguns dirão que letras sobre alcoolismo sempre existiram e sempre existirão, mas será que elas existiam em tal quantidade e apresentando-o de forma sempre tão positiva?

    Dito isto a respeito do álcool, que pensar dos temas sexuais na música popular? Qual é o principal tema dos funks, sertanejos e outros? Nada é mais semelhante do que a figura troglodita de um machinho idiota balançando o pinto em cima de um trio elétrico do que as letras desse tipo rasteiro de música. E quem aqui acredita que a música popular é assim porque simplesmente os artistas e o povo “querem assim”? As pessoas aprenderam a querer isso porque é isso que lhes é dado desde a mais tenra idade através do rádio e da televisão e, recentemente, outros meios de comunicação mais novos.

    Será que faz sentido pensarmos em lutar contra o machismo e a homofobia sem pensarmos em uma luta mais ampla contra as manipulações midiáticas que ecoam e amplificam esses sentidos primitivos? Acho que o inimigo é maior do que um grupo de alunos de uma universidade, mas é bom usá-los como exemplo, porque da mesma forma como se pode implantar a ideia da banalização do sexo através de uma música comercial manipulada, pode-se implantar a ideia do respeito ao próximo através de ações pontuais, mas consistentes. Está mais do que na hora de socializarmos esses episódios, deixar de vê-los como “problema da calourada”. Só porque já passamos por isso, não temos a obrigação de passar adiante a imbecilidade de que fomos vítimas ou partícipes.

    O trote universitário, mesmo o tal “trote solidário”, precisa acabar. E digo que até o solidário precisa porque este nada mais é do que uma dourada pílula com o mesmo significado de rito de passagem imposto. E serve como cortina de fumaça para a perpetuação de relações impositivas que vão muito além das salas de aula.

    O Mundo Mudou, e Eu Não me Encontro Mais Nele

    Quando eu era adolescente, a gente tinha uma intuição secreta de que todos mentiam para nós, o tempo todo. Sabíamos mais ou menos que estávamos saindo de uma ditadura, havia uma certa perplexidade com a televisão, que exibia nu frontal em propaganda do jeans Villejack e um busto feminino nu em uma propaganda de iogurte. Havia algumas vozes dissonantes na mídia: bandas de rock e pop que criticavam o «sistema» com versos que denunciavam a manipulação da opinião pública pelo governo: Plebe Rude, Capital Inicial, Lobão, Legião Urbana. Os mais comportados, claro, faziam mais sucesso: Kid Abelha, Biquíni Cavadão, Ultraje a Rigor, Marina Lima. Havia uma sensação generalizada de que era preciso questionar o que aparecia. Os «descolados» eram os que traziam esse ceticismo. Chamavam-nos a um canto e diziam: a televisão mente para você, o governo mente para você. As teorias de conspiração rolavam soltas, desde as de fundo místico, como o menino diabo paulista, até as mais politizadas, que diziam que as vacinas eram usadas pelo governo para marcar as pessoas. À medida em que fomos crescendo, essa desconfiança em relação à informação disponível nos levou a buscar conhecimento. Algumas dessas crenças e desconfianças desapareceram diante da luz dos fatos, outras apenas mudaram de forma.

    Uma coisa, porém, a nossa geração tinha de sobra: vontade de mudar o mundo. Essa vontade ficou um pouco frustrada quando o palhaço do Fernando Collor, — que se elegeu com uma imagem de juventude e contestação, prometendo mundos e fundos mesmo depois de eleito — teve aquele triste fim. Alguns se despolitizaram, outros foram em busca de outros rumos. Mas é certo que a maioria continuou desconfiando da verdade fácil.

    Mas aquela mídia que nós sabíamos que estava mentindo conseguiu continuar mentindo sem questionamento por tanto tempo que provocou um refluxo nesse estado de espírito. Os filhos da revolução que se tornariam burgueses sem religião e cuspiriam de volta o lixo em cima das elites acabaram se tornando adultos conformados, fãs de novelas e times de futebol, consumidores vorazes e apetitosos do lixo que o adolescente sentia ser forçado pela sua garganta abaixo, do lixo que queríamos vomitar. Se é verdade que a audiência televisiva diminuiu e que os jornais vendem menos, é verdade que estão hoje muito mais ousados do que nos anos oitenta. As pessoas parece que perderam o pudor não só em relação ao sexo, mas em relação ao ridículo. Imitam qualquer «dancinha» que algum grupo musical «novo» apresente em um programa de auditório, assimilam qualquer gíria de novela, macaqueiam qualquer estilo. Isso, claro, já existia nos anos oitenta, mas não era tão vigoroso: as pessoas faziam isso inocentemente. Hoje há quem o faça de propósito.

    O mundo virou ao contrário. Se antes era chique duvidar, hoje é chique aderir. Adere-se à direita ou à esquerda como quem veste um estilo ou se filia a uma tribo urbana. Para a maioria, o importante é entrar em algum clima, refletir está fora de moda.

    Então entrou em cena a internet. Aí a coisa ficou séria. Se ela teve o poder de facilitar a difusão de conteúdos alternativos, foi ela também a responsável pela difusão irrefletida de conteúdo. As lendas urbanas de minha adolescência, que se propagavam com a lentidão do disse me disse ao pé do ouvido, hoje se espalham como fogo no pasto no inverno. E as pessoas cada vez menos se importam em criticar o que repassam. Mesmo pessoas aparentemente bem informadas. Se um pedaço de conteúdo está de acordo com o que a pessoa já pensa, ela imediatamente o compartilha, sem pensar se aquilo ali procede. Com o tempo, mentiras vão se acumulando, turvando o horizonte da verdade. E o questionamento do conhecimento hegemônico é usado como ferramenta para reforçar este conhecimento hegemônico, só que on a computer,* o que, na opinião de muita gente, significa que ele é diferente. A velha manipulação midiática continua existindo, só que agora ela não é movida pela imposição dos jornais e do rádio, mas impulsionada pela própria irreflexão do povo.

    Há coisas que as pessoas têm vergonha de admitir em público, como os seus preconceitos sexuais, raciais ou de classe. Estas coisas, porém, não causam a mesma vergonha on a computer. Alguém que jamais chama um negro de ladrão quando o vê na rua tem coragem de difundir supostos estudos comprovando que negros cometem mais crimes. Como as pessoas não verificam e não questionam, especialmente se a fonte for «alternativa», fica fácil criar factoides e transformá-los em «memes» na internet. O anonimato, e a difusão descontrolada, dificultam o desmentido. Se alguém o chamar de ladrão na internet não haverá como defender-se disso. Só que «a internet» não é um justiceiro mascarado idealista para apontar os erros do mundo.

    Estas reflexões me vieram à cabeça quando uma pessoa que conheço, que regula idade comigo e que estudou História como eu, saiu compartilhando por uma rede social esta imagem:

    Existem vários problemas com esta imagem, problemas que desaconselham que uma pessoa bem informada a compartilhe, especialmente se tal pessoa, além do benefício do conhecimento histórico, teve o azar de ser contemporânea do fato citado. Por uma questão de ideologia política (a pessoa em questão parece ter um claro alinhamento oposicionista em relação ao governo de centro-esquerda, a julgar pelo que anda compartilhando), este imagem foi passada adiante mesmo que para isso fosse preciso desconsiderar fatos históricos conhecidos e esquecer dores vividas na pele enquanto assalariado. E este esforço de esquecimento requerido para se compartilhar esta imagem me assustou com o nível de negacionismo que se tornou possível atualmente nesse país.

    Ao tempo em que negam as conquistas reais de um governo que; com todas as suas falhas e incompetências, levou o país mais à frente do que o antecessor; procuram embasar isto com dados falsos ou interpretações superficiais.

    O dado falso é o índice de 19,2%. Em maio de 2000 o salário mínimo aumentou de R$ 136,00 para R$ 151,00. Isso significa um aumento de 11,02% (façam a conta, amigos, os dados históricos do salário mínimo são fáceis de achar na internet). Portanto, é mentira que o aumento aprovado foi de generosos 19,2%. Se você acha que 8,18% são uma diferença irrelevante, apenas considere que o aumento de 19,2% teria elevado o salário mínimo a R$ 162,11.

    No entanto, apesar de ser o mais gritante, por ser uma simples e verificável mentira, esse não é o problema mais grave. Afinal, uma pessoa tem o direito de se enrolar com números. Quem hoje se lembra de quanto era o salário mínimo há dez, doze, vinte anos? Não censuro minha amizade por causa disso. O que realmente eu não entendo é como pode ser possível esquecer as agruras por que passavam os assalariados naquela época, com um nível de vida lastimável, pois o salário mínimo legal não era suficiente para comprar nem uma cesta básica. Vivemos quase uma década e meia (de 1991 a 2003) reclamando que o salário mínimo era insuficiente e agora, de repente, pessoas que viveram esta época e fizeram esta reclamação, se esquecem disso e distribuem imagens celebrando os «grandes aumentos» que o salário mínimo teve naquela época.

    Se isto não é uma campanha de desinformação articulada através das redes sociais, por pessoas muito bem informadas, contando com a irreflexão de quem o compartilha, então não existe campanha de desinformação. Se isto não é o bicho, o bicho não existe. Se tem duas patas, penas, bico, crista, asas, bota ovo e faz cocoricó e não é uma galinha, então galinha é um ser legendário.

    Para os que nasceram depois, e não tiveram que sofrer uma década na esperança do mítico dia em que o salário mínimo chegaria a «cem dólares» (isso foi promessa de campanha de todos os candidatos a presidente até 2001), uma rápida consulta à mídia vendida ao «lulopetismo» nos mostra os dados: Um artigo de 16/02/2011 — um mês após o salário mínimo ter sido aumentado para R$ 540,00 (um aumento de 5,88%) — revela os valores históricos do salário mínimo desde a sua criação, atualizados para o real de 16/02/2011.

    Quando criado, em 1940, o salário mínimo equivalia a 1.202 reais de 16/02/2011. Ele perdeu valor rapidamente até 1951, quando chegou a equivaler R$ 491. Então houve o polêmico aumento decretado por Getúlio Vargas e João Goulart, que valeu ao primeiro uma articulação de golpe de estado e ao segundo, a eterna pecha de «comunista»: o salário foi restaurado em seu poder aproximado de compra, para R$ 1.252. Este valor se manteve alto, com oscilações, até 1963, atingindo seu maior valor em 1959, sob Juscelino, R$ 1.732. Com a «Revolução» (ahã) de 1964 iniciou-se uma longa fase de baixo valor real, pois foi feito um grande expurgo de correção monetária. Os militares entregaram o salário mínimo equivalendo a cerca de R$ 603.

    A aceleração da inflação após a redemocratização fez erodir ainda mais o valor do mínimo. Quando Fernando Henrique implantou o Plano Real, ele equivalia a R$ 346, cerca de pouco menos de um quarto do valor original. Sob Fernando Henrique presidente, o mínimo se manteve nos seus índices históricos mais baixos, chegando a equivaler a meros R$ 266 em 1996. O famoso aumento de maio de 2000, descontada a inflação, melhorou em R$ 7 reais o poder de compra do salário mínimo em relação ao valor de dois anos antes. Um aumento merecedor do gesto de desdém protagonizado por José Dirceu, Aloízio Mercadante, Ricardo Berzoini e de todos os brasileiros, petistas ou não. Houve até aliados do presidente que criticaram o aumento tão baixo.

    A série histórica mostra que após a virada política de 2001 o valor do mínimo só fez aumentar, com correções sempre acima da inflação. A ponto de este aumento ter efeitos sobre o mercado de trabalho, com a quase extinção das domésticas (que ganhando mais podem investir em sua formação e buscar outras profissões menos degradantes), entre outros efeitos amplamente estudados e conhecidos. O governo petista pode ter seus pecados, mas ele certamente fez por merecer os altos índices de aprovação de que goza porque melhorou o poder de compra do assalariado, restando a quem se opõe a ele inventar mentiras e manipulações, contando com a irreflexão dos internautas para difundi-las como ser verdade fossem.

    Alguns dizem que o governo, com medidas redistributivas como essa, está «comprando sua aprovação». Eu não entendo o que se passa na cabeça de quem pensa assim, pois me pareceu sempre óbvio que a aprovação de um governo é resultado de ele atender às demandas legítimas do povo e melhorar a vida de todos. Melhorar a vida do povo sempre rendeu votos. Isso não é demagogia. Dinheiro no bolso não mente. Salário maior não mente. E então não é demagogia essa «compra de aprovação». Estranho é alguém supor que um governo deva ser aprovado sem nada fazer para melhorar o padrão de vida dos eleitores.

    O que mais me deixa triste nisso tudo é que as pessoas deixam de criticar as verdadeiras falhas que esse governo tem, e ficam inventando mentiras para desacreditar os seus acertos. Talvez seja porque uma crítica construtiva ao governo possa resultar — ó que horror — em um aperfeiçoamento dessas políticas de empoderamento do povo e melhora do seu nível de vida. Melhor fazer piadinha no Facebook. Afinal, essa droga de povo já levantou demais a crista.

    * Sátira ao sistema americano de patentes, que parece estar disposto a considerar como novas invenções a implementação informática de coisas triviais.

    Em Defesa do Indefensável, Novamente.

    O site www.ceticismo.net (que usurpa o nome para difundir ignorância, preconceitos e desinformação) novamente passou dos limites do tolerável (se é que se pode tolerar estes elementos diuturnamente). A primeira vez tinha sido quando, sob o pretexto de atacar uma decisão equivocada da justiça, André cometeu injúria racial contra o povo cigano, episódio documentado aqui no Arapucas.


    Desta vez o «André» partiu em defesa do colunista Walter Navarro, demitido do jornal mineiro O Tempo por ter escrito um verdadeiro libelo contra os índios guarani-kaiowá (e contra os indígenas em geral) e ter, de forma muito previsível, ofendido a sensibilidade dos leitores do jornal (pois, aparentemente, entre os mineiros ainda não se encontra nem tão difundido e nem tão arraigado o tipo de racismo hidrofóbico praticado por certos colunistas de outros estados da federação). Defender alguém pelo que escreve implica em defender também o que foi escrito, a menos que nos dediquemos a deixar bem claro a separação entre a defesa do homem e a defesa da obra, coisa que André não fez.

    Quando digo que o André é um idiota eu me refiro ao sentido grego do termo: ele está focado exclusivamente em si, sentado no próprio rabo, e não tem uma compreensão do outro (ou da «alteridade», como diria um filósofo). Esta idiotia o leva à falta de empatia, que o impede de compreender as motivações de pessoas que estejam fora de seu contexto cultural imediato. Em suma, André é um provinciano (mesmo que seja urbano): ele mede o tamanho do mundo com a régua de sua ignorância.

    Ignorância, aliás, que ele exibe, sem nenhuma vergonha, em mais de um parágrafo do texto. Aliás, parece que André a considera uma virtude, um tipo de «poder mental» que o capacita a desqualificar o que não entende. Quer um exemplo?

    Bem, você nunca ouviu falar nessa tribo antes das notícias (inclusive esta aqui) e é bem provável que até depois do feriado já tenha esquecido.


    Se André e seus leitores nunca ouviram falar dos guarani-kaiowá (em minúsculas, pois em português os nomes de etnias e povos são escritos assim), isto deveria lhes sugerir a necessidade de buscar esta informação antes de emitir opinião. Infelizmente não é assim que funciona o Ceticismo.net. Essa coisa de buscar informações antes de emitir opiniões é coisa de «esquerdista» e de «intelectualóide». Se eu  não conheço é porque é irrelevante, porque não presta.

    O pior de tudo é que há muitas pessoas que repercutem esse discurso raso pela internet, não apenas concordando com ele, mas dizendo-se «cem por cento de acordo» (estar «cem por cento de acordo» com um texto é uma prova de falta de autonomia intelectual, porque dificilmente um texto coincide «cem por cento» com nossas opiniões, ideias e conhecimentos). Se você que me lê também achou que o André «mandou bem», isto é um sinal de que você também é ignorante, pois não conseguiu, com as informações que tinha, perceber as falácias e as bobagens outras ditas pelo André.

    Digo «pior de tudo» porque já cheguei à conclusão de que o André está adotando a «postura da vaca» em relação a tudo isso (cagando e andando) porque tudo que quer é criar polêmica com base nas notícias mais comentadas do momento, a fim de atrair tráfego para ganhar dinheiro com os cliques em anúncios (algo não muito diferente do que eu faço aqui, só que eu procuro ser mais responsável e não espalhar nem preconceito, nem desinformação e nem coisas que eu reconheça como falsas). Ou seja: o André está oferecendo capim para quem gosta de capim, e está ganhando AdSense com isso. É imoral? Pode até ser, mas o pior não é que ele escreva, é que haja tanta gente receptiva isso, a ponto de ele ganhar dinheiro oferecendo esse feno.

    Passemos agora a analisar o conteúdo propriamente dito do artigo do Ceticismo.net (aliás este termo vai para o glossário).

    Bem, você nunca ouviu falar nessa tribo antes das notícias (inclusive esta aqui) e é bem provável que até depois do feriado já tenha esquecido.

    O caso dos guaranis-kaiowá é conhecido pelo menos desde 1989 (quando a Rede Manchete fez um «Documento Especial: Televisão Verdade» sobre eles, aproveitando a onda da novela Pantanal. O caso atual não começou ontem, mas é o clímax de uma situação que começou há pelo menos um ano.

    Mesmo que ninguém nunca tivesse ouvido falar do caso, porém, isto é irrelevante. Um povo não precisa estar na mídia para ter direitos. O direito não é afetado (ou não deveria ser, em um mundo ideal) nem pela popularidade e nem pelo poder de influência econômica das partes. Os guaranis estão reivindicando algo cuja justiça deve ser apreciada pela justiça, com base em informações e documentos, e não julgado por colunistas ignorantes do assunto. A lógica do André, porém, nos diz que se você não é famoso, então foda-se.

    Gente se matando por causa da perda de terras é algo que eu acho estúpido.

    Se eu quisesse ser realmente deselegante eu diria que o que «acham» de um tema as pessoas que se mostram ignorantes dele não merece nenhuma consideração. Aliás, pensando bem, eu quero ser deselegante sim, porque o Ceticismo.net merece: se você desconhece um assunto, o que você diz sobre ele não tem valor algum.

    Digo mais: se você não conhece um tema, tudo que você «acha» sobre ele está errado, e todos que concordam com você são, no mínimo, tão ignorantes quanto você. Como pode alguém que usa o nome de Ceticismo.net não compreender que opiniões e conclusões precisam de embasamento em informações? É por isso que eu comecei esse artigo dizendo que o Ceticismo.net usurpa o nome.

    Estúpido é julgar os atos de membros de uma cultura diferente da sua, sem sequer conhecer o que está acontecendo (visto que ele próprio admite nunca ter ovuido falar do caso). Estúpido é largar uma achologia desinformada. A lógica? Eu nunca ouvi falar disso, mas acho estúpido.

    Entrou em cena um monte de gente sem muito o que fazer e resolveram protestar a favor de um bando de índios, cuja tribo não é muito diferente da tribo do Raoni ou mesmo do Touro Sentado.

    Uma das primeiras arjumentações desqualificativas empregadas pelo André contra as pessoas de quem discorda é dizer que são pessoas «sem o que fazer». Pessoas sem o que fazer protestam em favor de índios. Pessoas sem o que fazer fazem greves. Pessoas sem o que fazer protestam contra guerras. Pessoas sem o que fazer exigem respeito aos seus direitos. Pessoas sem o que fazer, em suma, tentam mudar o mundo. Viva as pessoas que não têm o que fazer! Que menos gente no mundo esteja ocupada demais consigo que não tenha tempo de ocupar-se do outro!  Que bom que sobra a muita gente tempo suficiente para erguerem a cabeça das cangas e cochos que a vida lhes impõe, para olhar longe, pensar com mais discernimento e procurar melhorar o mundo.

    De tudo, porém, o que menos entendo é de que forma a comparação do «bando de índios» com a tribo do Raoni ou a do Touro Sentado seria uma desqualificação. Raoni é um líder indígena respeitado até internacionalmente, mas talvez o André se incomode com o seu botoque (bem, eu jamais me poria um, mas a boca é do índio, e ele que faça dela o que quiser). Touro Sentado é um personagem histórico fascinante, heróico até. Só parece vilão sob a ótica do faroeste, que, aliás, também achava que índio bom era índio morto. Touro Sentado merece respeito, muito respeito. Aliás, vou acrescentar uma foto dele na barra lateral deste blogue.

    Walter Navarro trabalhava no jornal «O Tempo», um jornal tão importante quanto… sei lá, nunca ouvi falar dele antes.

    Novamente André medindo o mundo com a régua de sua ignorância. Se ele não conhece, então não é importante. O mundo gira em torno de seu umbigo. Muito prazer, senhor ignorante. «O Tempo» é o segundo maior jornal de Minas Gerais, depois do Estado de Minas e um poucochinho à frente do Hoje em Dia.

    Em seguida André transcreve na íntegra o libelo de Walter Navarro contra os indígenas em geral, e contra os guarani-kaiowá em especial. Isto é bom, pois significa que o Ceticismo.net não pode alegar que defendeu a liberdade de expressão do autor, sem se ater ao conteúdo em si do que ele escreveu. Ao defender enfaticamente a liberdade de expressão do autor, sem dedicar uma linha de crítica sequer ao texto dele, o André está obviamente endossando, ou, no mínimo, não vendo motivo para crítica, naquilo que foi escrito. E me surpreenderia muito se o André tivesse alguma discordância, haja vista o que ele já escreveu, em outra oportunidade, contra os ciganos.

    André novamente comete o mesmo erro do artigo contra os ciganos, ao julgar a dignidade (ou o direito à dignidade) de um povo com base em seu desenvolvimento tecnológico e/ou suas realizações culturais na História. A lógica disso é que se determinado povo não tem realizações significativas, então ele pode ser exterminado porque defendê-los é ser social-intelectualóide.

    A defesa do artigo de Walter Navarro confunde liberdade de expressão (o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos) com liberdade de imprensa (capacidade de um indivíduo de publicar e acessar informação através de meios de comunicação em massa, sem interferência do estado). Todos sabemos que o primeiro deve ser ilimitado porque isto é um princípio basilar da democracia. Mas o segundo, não necessariamente.

    A liberdade de expressão é um direito individual, que envolve um ato privado (ou de alcance limitado e controlável): você diz o que quer, para quem quer, onde quer. A liberdade de imprensa é um direito coletivo, que envolve um ato público. Direito coletivo porque quem tem o direito à liberdade de imprensa não é só o jornalista que escreve, mas o público que o lê. A publicação é um ato público (dããã) e de alcance ilimitado (no espaço e no tempo) e incontrolável (todos leem em todos os lugares, e tudo tem o potencial de ficar para a posteridade). Isso quer dizer que a palavra publicada, devido ao impacto que tem sobre outras pessoas e sua capacidade de influenciar a opinião pública, deve ser usada com responsabilidade.

    Responsabilidade quer dizer que um meio de comunicação de massas não pode ser usado para difundir o ódio, ou corre-se o risco de produzir algo como o genocídio ruandês. Eu sei que o André ignora isso, aliás, eu não posso partir do pressuposto de que ele conheça qualquer coisa que esteja fora de seu pequeno mundinho, mas é fácil encontrar na internet informações sobre como o discurso do ódio contra os tutsi, iniciado por políticos demagogos, saiu do controle, contaminou a cultura popular, dominou os meios de comunicação de massa e gerou um clima irrestrito de ódio contra a minoria, a ponto de as estações de rádio e TV, no auge do evento, terem utilizado seu jornalismo para orientar o genocídio, informando sobre locais onde os refugiados se escondiam, caminhos que usavam para fugir etc., e ensinar técnicas para praticá-lo. Não sei se vocês notaram, mas eu nem precisei falar do III Reich para exemplificar como a liberdade de imprensa precisa ser exercida com responsabilidade! Godwin, Godloses!

    De que forma podemos compactuar com um colunista que escreve que «índio bom é índio morto». Como defender alguém que diz isso? Se a liberdade de imprensa permite que isto seja dito, então melhor limitar a liberdade de imprensa, pois um direito (à liberdade de imprensa) não pode ser exercido à custa de todos os outros direitos (entre os quais o direito dos indígenas à vida, à liberdade e à dignidade enquanto seres humanos — direitos esses que precedem a liberdade de imprensa em importância). Absolutizar a liberdade de imprensa desta forma é uma coisa inexplicável, a não ser que você compactue com o que está sendo expresso e esteja protestando não contra a restrição em si, mas contra a repressão das ideias expressas.

    Além disso, os jornais já praticam uma forma de censura, que é a de limitar seus textos aos que se alinham com o pensamento («linha editorial») dos donos. A linha editorial, obviamente, procura analisar o comportamento dos leitores, pois o jornal vende mais quando os agrada. Isso quer dizer que a suposta liberdade de imprensa (do jornalista) já se encontra restrita pelas determinações do patrão. Contra isso o Adnré não comenta nada. O Walter foi demitido pelos donos do jornal porque estes perceberam que o seu discurso reacionário e racista seria rejeitado pelo público leitor mineiro. Isso equivale a uma gravadora demitir um artista que não vende. Se o André achou a demissão um absurdo, que proteste com os donos do jornal «irrelevante». Só faltou culpar o «governo do PT» pela demissão.

    Basicamente André ficou revoltado porque um colunista que escreveu um texto que ofendeu a muita gente foi demitido de seu jornal. O errado em sua defesa do Walter Navarro é ele justamente não compreender porque as pessoas se ofendem. A tal falta de empatia, gerada pela falta de noção de alteridade que mencionei lá no começo. Ele não compreende porque não se solidariza com a causa indígena. Ele não se solidariza porque não compreende como seres humanos aqueles que são diferentes de si, quer na aparência física quer na cultura. Ele não compreende porque é ignorante, fechado em seu mundinho urbanoide de kitchenettes, elevadores e automóveis. Ele é ignorante porque não busca conhecer culturas diferentes da sua.

    No fundo o que ecoa de seu texto é um ódio às minorias que não tem jornal para se defenderem. Ele não compreende as razões da revolta dos mineiros contra o artigo de Walter Navarro porque não enxerga os indígenas como seres humanos, ao menos não como humanos semelhantes seus. Por isso ele não vê problemas em uma declaração como essa:

    Como diriam o Marechal Rondon e os irmãos Villas Boas, “Índio bom é índio morto”! “Matar, se preciso for, morrer, nunca!”.

    Obviamente Walter Navarro sabe quem disse a frase «índio bom é índio morto». Então quando ele a atribui ao Marechal Rondon ele está espalhando desinformação. E, obviamente, os comedores de capim em breve estarão difundindo no Facebook a frase com esta autoria alterada. Para você que não sabe, e não quer ser confundido com um herbívoro ungulado, o autor foi o general Phillip Sheridan, um dos maiores genocidas das guerras indígenas dos Estados Unidos. Responsável por vingar a morte de outro genocida, George Armstrong Custer. A atribuição equivocada da frase também aos irmãos Villas-Boas, que ainda estão vivos, pode ser objeto, inclusive, de ação penal por difamação. Mas Navarro conta com a imunidade da imprensa, que, no Brasil, tem a liberdade de demolir reputações impunemente.

    O artigo original também é desinformado a respeito das origens dos topônimos tupis pelo Brasil afora:

    Tudo em São Paulo tem nome de índio. Consciência pesada dos bandeirantes: Anhanguera, Ibirapuera, Canindé, Aricanduva, Morumbi, Jabaquara, Tucuruvi, Tatuapé e agora Haddad, da tribo dos Ali Babás… Ô raça!


    Aparentemente nem Walter Navarro e nem o Ceticismo.net sabem (aliás, o tamanho do que o André não sabe é praticamente cósmico) que esses nomes não se devem à «consciência pesada» dos bandeirantes (que, diga-se de passagem, tinham menos remorsos de matar índios e escravizar do que o general Sheridan), mas ao fato (conhecido até de quem só lê os livros didáticos de história do Brasil) de que os habitantes de São Paulo, até pelo menos o terceiro quarto do século XVIII, falavam nheengatu (um dialeto tupi) em vez de português. Inclusive os bandeirantes. Isso explica a existência (ou até prevalência) de topônimos tupis pelo país afora, inclusive em regiões que não eram originalmente habitadas por tribos tupis, como Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Tocantins e o interior do Nordeste.

    Walter Navarro ainda aproveita o artigo para dar uma passadinha em São Paulo e escrever isso para falar mal do PT:

    É assim: Lula liga pro Zé Dirceu, que liga pro Gilberto Carvalho; daí pro Genoíno, que liga pro Marcos Valério, que liga pros presídios e manda matar o Celso Daniel; quer dizer, matar policiais e concorrentes, em troca de banho de sol, visita íntima e regalias mensais.

    Isto é algo muito grave, porque é uma acusação séria e irresponsável. O Walter Navarro está acusando pessoas públicas, inclusive um ex presidente da república, de conspirarem com o crime organizado para matarem pessoas (200 só nestes últimos trinta dias na capital paulista) por razões políticas (obviamente). Não é o tipo de coisa que um jornalista, em um jornal sério, em um país sério, escreveria sem ter em mãos provas contundentes. Um jornalista americano que escrevesse isso sem ter provas seria não somente demitido como, provavelmente, terminaria atrás das grades ele mesmo. No entanto, a flacidez de nossas leis permitem que um colunista levianamente avente essa hipótese e saia impune (pelo menos o jornal o demitiu). Infelizmente parece que há entre nós uma tolerância com a mentira, a leviandade e as acusações infundadas, desde que em nome de uma boa causa. Isso transforma os debates de nossa imprensa em um duelo de ficções ideologicamente opostas, com predominância da ideologia direitista dos grandes empresários do setor. Como diria Raul Seixas (esta citação não é apócrifa): «Eu não preciso ler jornais / mentir sozinho eu sou capaz».

    Ao acusar pessoas públicas de conspirarem para cometer crimes, Walter cometeu crime. É bom Walter ter provas de que é Lula que está mandando o PCC matar em são Paulo, porque se não pode ser processado por calúnia (ou algo assim, não sou advogado).

    Outro parágrafo lindo do texto do Walter, que o André defende porque ecoa o mesmo tipo de racio símio empregado pelo Ceticismo.net no célebre artigo dos ciganos, é esse aqui:

    Os guaranis kaiowá não passam de recolhedores de mel no meio do mato. É o povo mais primitivo do mundo, nem chegou à Idade da Pedra. Petistas “avant la lettre”! Comem cupim. Intimidam até malária! Pigmeus, parecem formigas gigantes e caracterizam-se pela insuportável pneumatose intestinal, o que faz deles companhia deveras desagradável.


    Já que os guaranis são poucos e pobres, então podemos falar mal deles. Podemos dizer até que «parecem formigas» (desumanização) e que todos peidam fedendo (imagino que os peidos do Walter têm cheiro de Chanel nº 5). Se, como disse o Nihil Lemos, não existe racismo nenhum aí, então não existia racismo nenhum no Mein Kampf. Bem, tive de recorrer ao III Reich. Godwon!

    As ideias de André e seu Ceticismo.net são muito mais reacionárias e chauvinistas do que parecem. De fato, se você olhar bem, notará que ele possui uma certa aversão ao direito e uma idolatria pela força bruta. Isso deve, aliás, ter um sentido mais profundo — que não vou explorar porque detesto o tal Godwin. Por enquanto apenas olhe a figura à esquerda e pense.

    Mas a ideia da força bruta como legitimação de um argumento, ou como medida de valor, parece estar se popularizando na internet recentemente. O que não deixa de ser esperado, visto que might is right é uma ideologia fascista típica, e o fascismo anda em alta no mundo virtual recentemente.

    Para André e seu Ceticismo.net, a força/poder empresta legitimidade e valor ao seu possuidor. Isso, claro, é um argumento irracional tão escroto que a usurpação do termo «ceticismo» pelo André se torna ainda mais evidente. Vejam só esta pérola:

    Da mesma maneira, se eu disser que hebreus nunca foram expressivos em termos de civilização, a ponto de terem sido chutados para tudo que é canto na Palestina o século 6 A.E.C, não é racismo. Eles até desenvolveram boas tecnologias, mas não eram páreo para o Egito, Assíria e Babilônia.

    Observe que o André está julgando as civilizações do Antigo Oriente Próximo com base em seu poderio militar e nas tecnologias que desenvolveram. O fato de os povos da Palestina terem inventado o alfabeto, graças ao qual esta anta está agora difundido merda pela internet, é irrelevante. Bom mesmo é pegar no tacape e amassar a moleira do inimigo. É como se o André, a exemplo dos marombeiros autores desta imagem, estivessem dividindo os povos entre «povos nerds» (que [só] inventam coisas intelectuais, como alfabetos, religiões, filosofia, sistemas éticos, ciências) e «povos sarados» (que [também] inventam coisas como armas, exércitos, guerras e afins). Como disse um marombeiro no Facebook, em reação a críticas feitas à imagem inclusa (correção gramatical e ortográfica aplicada):

    Lógico que as pessoas que treinam possuem infinita vantagem sobre um nerd cabaço, e exatamente por isso cidadãos desse naipe deveriam respeitar quem treina, para preservar sua integridade física e moral. Ou então quem treina tem que se submeter à idiotas como esses? Não, pelo simples fato de poder mandá-los para a UTI.


    Logicamente os hebreus (que, diga-se de passagem nunca foram tão numerosos) jamais seriam páreo para os egípcios ou os mesopotâmicos. A simples disponibilidade de água em abundância permitia que tais povos fossem mais populosos — e isso indicava uma prevalência militar na antiguidade, tanto quanto possuir mais músculos indica uma prevalência física no mundo de hoje, se você tirar armas de fogo da jogada. Mas o André julga os hebreus «menos expressivos em termos de civilização» do que os assírios, por exemplo, com base exclusivamente no fato de que os assírios exterminaram mais da metade dos poucos hebreus que havia em 722 a.C.

    Essa idolatria fascista da força é o que justifica desumanizar e desqualificar os indígenas, que são poucos, não tem jornais e não tem armas de destruição em massa. É o que justifica propor seu extermínio, devido à sua irrelevância. Essa é a lógica egoísta e fascista que está se popularizando na internet, e que este blogue, humildemente, se propõe a combater.