O Humorista que Virou Idiota

Danilo Gentili, desde que deixou de interpretar o quadro “repórter inexperiente” para o humorístico “CQC”, na Rede Bandeirantes, não tem aproveitado as inúmeras oportunidades que a vida lhe tem dado para ficar calado. Não foram poucas as vezes em que se viu criticado por contar piadas racistas, homofóbicas ou cruéis. Destas acusações se defendeu sempre com o argumento de que os seus críticos seriam pessoas limitadas e que ele fazia um humor sem limites, refratário às convenções sociais. Sob o rótulo de combate à “correção política”, um tipo de discurso excessivamente preocupado com as sensibilidades alheias, Gentili propagou um discurso agressivo a todas as sensibilidades alheias, do tipo que só é aceito por pessoas isentas de empatia.

Sua última patacoada foi a ridicularização de uma auxiliar de enfermagem residente no interior de Pernambuco, que se tornou a recordista mundial em doação de leite materno. Na curiosa mentalidade de Danilo Gentili, o fato de alguém praticar uma boa ação tão rara é motivo para ridículo, e assim ele passou a tentar fazer piada com o caso, comparando-a com um notório ator de filmes pornográficos, enquanto o seu auxiliar de palco, Marcelo Mansfield, sexualizava o caso lembrando a utilização dos seios em uma prática sexual chamada “espanhola”.

Ambas as piadas foram fracas, mas seriam apenas piadas fracas se, além de meramente ridicularizar algo que não é ridículo, Gentili não tivesse exibido a imagem da mulher em questão. Neste momento, o que poderia ser apenas uma piada ruim se tornou uma lamentável agressão verbal a uma pessoa. Personalizar a piada, exceto quando a vítima já é uma pessoa pública, não é somente agressivo, mas é também opressivo. Pois uma pessoa comum, que não tem acesso aos meios de comunicação, não tem como retrucar, não tem como explicar, não tem como resistir ao veneno de alguém que tem o microfone na mão.

O resultado da piada foi a execração pública da moça, que chegou a ser chamada publicamente de “vaca” (palavra que tem conotações extremamente desagradáveis). Humilhada por alguns habitantes de sua cidade, envergonhada também pelas humilhações a que foi submetido seu marido, aquele que doava mais de um litro e meio de leite por dia deixou de fazê-lo, deixou de produzi-lo, chegou a ver secar uma de suas mamas. Para Danilo Gentili, foram menos de dois minutos de graça meio sem graça. Para seus telespectadores, foi apenas uma risada ou duas, destas risadas amarelas que esse humor cruel arranca de pessoas que não sabem rir. Mas para a vítima, foram dias de agonia, conflito conjugal, dúvidas existenciais, inconformismo com o sofrimento com que o mundo lhe pagou um bonito gesto de doação.

Por muito menos que isso (“comia ela e o bebê”) o apresentador Rafinha Bastos foi sumariamente demitido da mesma Rede Bandeirantes, pois a vítima de sua infame piada fora Wanessa Camargo, que é famosa e casada com um empresário influente. Mas a insensata agressão verbal praticada por Danilo Gentili contra uma simples dona de casa nordestina não mereceu do canal de televisão nenhum repúdio, nenhuma medida. Rafinha não se desculpou, mas pelo menos perdeu o emprego (e até hoje não conseguiu nenhum outro equivalente, seus projetos sistematicamente naufragam). Danilo Gentili não apenas não perdeu o emprego, como não se desculpou e ainda tripudiou da reclamação da moça. Foi preciso que esta recorresse à justiça para tentar obter algum tipo de reparação e, pelo menos, a cessação do dano, com a retirada do vídeo do site da Bandeirantes.

Danilo Gentili pode achar que faz humor politicamente incorreto e contestador, pode achar que está ajudando a combater a caretice do mundo e que toda reação às suas piadas é “censura” ou ameaça à sua liberdade de expressão. Mas de fato ele é um bobo da corte que conta piadas para os donos do poder. Ele não é livre para fazer o humor que quer, ele é censurado previamente pelos anunciantes, pelos donos do poder, pelo público reacionário ao qual se dirige. Diferente de Rafinha Bastos, que contou uma piada escrota, mas pelo menos contou uma piada sem pensar em quem ofendia, realmente exercendo, mesmo que para o mal, a liberdade de expressão, Danilo Gentili contou sua piada contra uma desconhecida, que não tem mídia e nem poder econômico para exigir sua cabeça.

A mensagem que a Rede Bandeirantes e Danilo Gentili passam, nesse caso, é a de que não tem problema caçoar e ofender pessoas que não têm meios para se defender. Mas não se pode atacar gente que tem bala na agulha.

Por essa razão é que muitos já qualificam Gentili e outros novos humoristas com um adjetivo forte: COVARDES. É muito fácil bater em cachorro morto, é muito fácil cuspir nos cadáveres depois da guerra, é muito fácil ofender gente que não tem poder econômico ou midiático. A agressão cometida por Gentili e pela Rede Bandeirantes contra esta mulher foi como os episódios em que três ou quatro valentões de intervalo cercam o “nerd” da turma para se vingarem das notas baixas. Todo o poder de mídia de uma rede nacional de televisão foi usado para ridicularizar uma mulher. E a isso chamam de humor contestador. Contesta apenas a sanidade mental e a ética de quem o faz e, principalmente, do país que ainda o aplaude e o permite.

Os COVARDES são numerosos. Eles tem argumentos, eles têm certezas. Eles acham que não há nada errado em ridicularizar uma pessoa que faz o bem POR FAZER o bem.

A Rede Bandeirantes conseguiu errar nos dois casos. Errou com Rafinha, pois a ofensa era branda e, se não fosse o espírito de vendetta de um empresário poderoso, ele poderia ter se saído dessa com um simples mea culpa. O caso de Gentili é muito mais grave, pois envolveu até mesmo consequências para terceiros: quem resolverá o problema das crianças que ficaram subitamente sem alimento? Como fazer se a mulher perder uma mama em consequência da retenção do leite? Mas a Bandeirantes nada fez contra o caso, e ainda presta assistência jurídica ao humorista.

Passou recibo de que se ajoelha diante de poderosos enquanto zomba de gente do povo, sem medo das consequências, pois tem bons advogados para arrastar o processo até as calendas gregas. Passou recibo de que é uma empresa sem ética.

Em outros tempos, se alguém chamasse a mulher de um cabra nordestino de “vaca” o resultado seria, no mínimo uma morte na peixeira. Mesmo que o marido fosse uma boa pessoa, a pressão social exigiria o sangue do ofensor. Até os inimigos do ofendido lhe ajudariam a “capar” o insolente porque certas coisas eram inaceitáveis.

Mas, isolado pela distância, protegido por seguranças, portando um microfone na mão, o humorista pode zombar de quem quiser, desde que seja de alguém que está fora dos muros que o protegem. Ele sabe que não vai enfrentar peixeira e nem mesmo uma cusparada. Por isso agride, com a “coragem” que só os muito covardes têm: a coragem de ofender os indefesos.

Corra, Kim, que a Polícia do Mundo Vem Aí.

Potências imperiais gostam de brincar de polícia com o mundo. Claro, no papel da polícia e chamando de ladrão quem esteja no seu caminho. Pode ser um regime realmente maligno, como a Alemanha nazista, ou um governo bem intencionado e absolutamente inofensivo, como a Nicarágua sandinista. Pode ser um regime realmente adversário, como a URSS, ou um simplesmente um amigo que tinha o defeito de se preocupar com o próprio povo, como a Guatemala de Árbenz.

No fundo a política internacional é um jogo sujo, baseado na mais abjeta e escrota hipocrisia. Para as potências hegemônicas, principalmente, princípios não existem, apenas conveniências. Pelo pretexto de combater uma “ditadura” comunista, os EUA apoiaram durante mais de uma década a ditadura comunista e genocida do Khmer Vermelho contra o governo de reconstrução nacional criado pela intervenção vietnamita. Diz que se importa com a democracia na América, mas patrocinou, a partir do final do século XIX, as ditaduras mais cruéis e caricatas da história de cada um dos países ao sul do Río Grande. Rejeita a legitimidade das eleições venezuelanas, atestada por observadores internacionais, mas teve um presidente eleito em um pleito marcado pela fraude e pela obscuridade e há menos de um ano abençoou um pleito mexicano com sinais evidentes de trapaça. E enquanto tenta erradicar o extremismo religioso talibã no Afeganistão, mantém a Arábia Saudita como “nação mais favorecida” de seu comércio, justamente o país de onde emana a maior parte do fundamentalismo islâmico de hoje.

Infelizmente, as pessoas se esquecem muito fácil desse passado de crimes dos Estados Unidos contra a soberania de outros países, esquecem das mentiras que inventaram para justificar intervenções nas quais o único interesse a se preservar era o de Wall Street. Agora a máquina de propaganda ianque está a todo vapor tentando criar um pretexto para aniquilar a deprimente Coreia do Norte, último reduto comunista tr00 deste planeta. E uma quantidade enorme de macacas de auditório senta e levanta ao ritmo ditado pela imprensa, aplaudindo e apupando conforme quem aparece tenha olhos amendoados ou não.


Para começo de conversa, vamos deixar estabelecido que este post não tem por objetivo nenhum tipo de solidariedade com a tosca Coreia do Norte, lugar aonde não quero ir morar (principalmente “morar”) nem no pior de meus pesadelos.1 E certamente se eu tivesse que escolher entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos para serem meus senhores, eu certamente preferiria os segundos. O objetivo deste post é demonstrar o funcionamento dos mecanismos que estão em ação neste episódio, e lembrar, através de paródia, um momento da história:

Primeiro foram atrás do Iraque,
e eu não disse nada porque não sou iraquiano.
Depois foram atrás do Afeganistão,
e eu não disse nada porque não sou afegão.
Então foram atrás de Honduras,
e eu não disse nada porque não sou hondurenho.
Então foram atrás da Tunísia,
e eu não disse nada porque não sou tunisino.
Então foram atrás da Líbia,
e eu não disse nada porque não sou líbio.
Estão indo atrás da Coreia do Norte,
e eu nada digo porque não sou norte-coreano.
Um dia virão atrás de nós,
e não haverá ninguém para dizer coisa alguma.

Existe um princípio na dinâmica da política internacional que diz que o inimigo é sempre bárbaro. Desumanizar o adversário faz parte do jogo. Isso se faz com palavras e com imagens, mas com palavras é melhor, porque elas atuam de forma mais subreptícia. Lembra do tempo em que se dizia que comunista comia criancinha?2

Houve uma época em que os britânicos chamavam os alemães de “hunos”, diziam que os cientistas do Kaiser tinham inventado uma arma terrível que envenenava os soldados à distância e que, se as potências centrais ganhassem a Grande Guerra, toda a Europa seria anexada ao Império Alemão.

Os hunos originais foram um povo de raça turca (ou mongólica, ou mestiça, ou negra, ou sabe-se lá o que) que atacaram a Europa Oriental no fim da Antiguidade. Os romanos os descreviam como comedores de carne crua, praticantes da automutilação, imundos, canibais etc. Quatrocentos anos antes as legiões romanas conquistaram a Gália e denunciaram a prática de sacrifícios humanos pelos druidas. Sacrifícios tão cruéis e desumanos que os pobres gauleses foram submetidos a um verdadeiro genocídio, alimentando por séculos os “circos” romanos, onde se sacrificava gente não a deuses, mas ao divertimento. Era obsceno que os gauleses sacrificassem virgens nos seus feriados. Era civilizado que os romanos sacrificassem todo tipo de gente a cada domingo.

Assim se repete a história desde sempre,  e sempre há um bárbaro novo cuja conquista se tem que justificar. Tal como Trajano pintou os dácios como monstros para poder roubar seu ouro, o império americano pinta os árabes como monstros para poder roubar seu petróleo. Certamente havia monstros entre os dácios e certamente os há entre os árabes. Mas maior foi a monstruosidade do genocídio romano, como maior é a monstruosidade dos genocídios em curso atualmente, no Iraque, na Líbia, na Síria, no Afeganistão e no Paquistão.

Quando o inimigo é fraco, às vezes nem precisa inventar muita coisa, pois a ação já terá sido concluída antes que a opinião pública tenha tempo de assimilá-la. Assim foi na Guatemala, na República Dominicana, em Granada… Mas o inimigo pode prolongar a ação, então é preciso preparar terreno. E aí é preciso inventar que ele tem “armas de destruição em massa”, “que ele é uma ameaça à paz internacional” ou que faz parte de um “eixo do mal”.

A Coreia do Norte é a bola da vez — o que significa que as baterias midiáticas ianques, tanto as próprias quanto as terceirizadas, atirarão à vontade contra o regime que se quer derrubar. Foi para vingar o 11 de Setembro e acabar com as “armas de destruição em massa” que se atacou um Iraque já exangue por mais de uma década de fortes sanções econômicas. Foi para acabar com o “terrorismo de estado” sudanês que se bombardeou o principal complexo industrial do país e se impôs um bloqueio econômico que levou o país ao caos econômico e à guerra civil. Foi para “Caçar Osama bin Laden” que se invadiu o Afeganistão e se matou mais gente que o talibã havia matado antes. Mas no fim das contas Saddam não tinha nenhuma das tais armas, a fábrica bombardeada era uma indústria farmacêutica que produzia principalmente remédios contra doenças tropicais, e Osama bin Laden estava escondido no Paquistão, país “amigo” dos Estados Unidos.

A única coisa que todos esses regimes tinham em comum era que, por serem detestáveis violadores de direitos humanos, ninguém se levantou para denunciar a violação de sua soberania. Tal como no “poema” de Martin Niemöller. Mas um dia talvez venham atrás de nós, e o resto do mundo nos verá como detestáveis também, violadores de direitos, cortadores de árvores, estupradores de turistas, possuidores de armas de destruição em massa, ou seja o que for. E ninguém falará contra nós.

[continua] — na parte 2: Por que atacar a Coreia do Norte?


1 A palavra “morar” significava originalmente trabalhar e residir em um mesmo lugar. Aplicava-se a colonos e escravos.
2 Não se sabe se alguma vez alguém comeu criancinha por ser comunista, mas é sabido que houve algumas fomes terríveis em países comunistas como União Soviética (nos anos 1930), na China (nos anos 1950), no Camboja (anos 1970) e na Etiópia (anos 1980). Não que tenham deixado de haver fome em lugares sob influência capitalista, mas fatos são fatos.

O Mundo Mudou, e Eu Não me Encontro Mais Nele

Quando eu era adolescente, a gente tinha uma intuição secreta de que todos mentiam para nós, o tempo todo. Sabíamos mais ou menos que estávamos saindo de uma ditadura, havia uma certa perplexidade com a televisão, que exibia nu frontal em propaganda do jeans Villejack e um busto feminino nu em uma propaganda de iogurte. Havia algumas vozes dissonantes na mídia: bandas de rock e pop que criticavam o «sistema» com versos que denunciavam a manipulação da opinião pública pelo governo: Plebe Rude, Capital Inicial, Lobão, Legião Urbana. Os mais comportados, claro, faziam mais sucesso: Kid Abelha, Biquíni Cavadão, Ultraje a Rigor, Marina Lima. Havia uma sensação generalizada de que era preciso questionar o que aparecia. Os «descolados» eram os que traziam esse ceticismo. Chamavam-nos a um canto e diziam: a televisão mente para você, o governo mente para você. As teorias de conspiração rolavam soltas, desde as de fundo místico, como o menino diabo paulista, até as mais politizadas, que diziam que as vacinas eram usadas pelo governo para marcar as pessoas. À medida em que fomos crescendo, essa desconfiança em relação à informação disponível nos levou a buscar conhecimento. Algumas dessas crenças e desconfianças desapareceram diante da luz dos fatos, outras apenas mudaram de forma.

Uma coisa, porém, a nossa geração tinha de sobra: vontade de mudar o mundo. Essa vontade ficou um pouco frustrada quando o palhaço do Fernando Collor, — que se elegeu com uma imagem de juventude e contestação, prometendo mundos e fundos mesmo depois de eleito — teve aquele triste fim. Alguns se despolitizaram, outros foram em busca de outros rumos. Mas é certo que a maioria continuou desconfiando da verdade fácil.

Mas aquela mídia que nós sabíamos que estava mentindo conseguiu continuar mentindo sem questionamento por tanto tempo que provocou um refluxo nesse estado de espírito. Os filhos da revolução que se tornariam burgueses sem religião e cuspiriam de volta o lixo em cima das elites acabaram se tornando adultos conformados, fãs de novelas e times de futebol, consumidores vorazes e apetitosos do lixo que o adolescente sentia ser forçado pela sua garganta abaixo, do lixo que queríamos vomitar. Se é verdade que a audiência televisiva diminuiu e que os jornais vendem menos, é verdade que estão hoje muito mais ousados do que nos anos oitenta. As pessoas parece que perderam o pudor não só em relação ao sexo, mas em relação ao ridículo. Imitam qualquer «dancinha» que algum grupo musical «novo» apresente em um programa de auditório, assimilam qualquer gíria de novela, macaqueiam qualquer estilo. Isso, claro, já existia nos anos oitenta, mas não era tão vigoroso: as pessoas faziam isso inocentemente. Hoje há quem o faça de propósito.

O mundo virou ao contrário. Se antes era chique duvidar, hoje é chique aderir. Adere-se à direita ou à esquerda como quem veste um estilo ou se filia a uma tribo urbana. Para a maioria, o importante é entrar em algum clima, refletir está fora de moda.

Então entrou em cena a internet. Aí a coisa ficou séria. Se ela teve o poder de facilitar a difusão de conteúdos alternativos, foi ela também a responsável pela difusão irrefletida de conteúdo. As lendas urbanas de minha adolescência, que se propagavam com a lentidão do disse me disse ao pé do ouvido, hoje se espalham como fogo no pasto no inverno. E as pessoas cada vez menos se importam em criticar o que repassam. Mesmo pessoas aparentemente bem informadas. Se um pedaço de conteúdo está de acordo com o que a pessoa já pensa, ela imediatamente o compartilha, sem pensar se aquilo ali procede. Com o tempo, mentiras vão se acumulando, turvando o horizonte da verdade. E o questionamento do conhecimento hegemônico é usado como ferramenta para reforçar este conhecimento hegemônico, só que on a computer,* o que, na opinião de muita gente, significa que ele é diferente. A velha manipulação midiática continua existindo, só que agora ela não é movida pela imposição dos jornais e do rádio, mas impulsionada pela própria irreflexão do povo.

Há coisas que as pessoas têm vergonha de admitir em público, como os seus preconceitos sexuais, raciais ou de classe. Estas coisas, porém, não causam a mesma vergonha on a computer. Alguém que jamais chama um negro de ladrão quando o vê na rua tem coragem de difundir supostos estudos comprovando que negros cometem mais crimes. Como as pessoas não verificam e não questionam, especialmente se a fonte for «alternativa», fica fácil criar factoides e transformá-los em «memes» na internet. O anonimato, e a difusão descontrolada, dificultam o desmentido. Se alguém o chamar de ladrão na internet não haverá como defender-se disso. Só que «a internet» não é um justiceiro mascarado idealista para apontar os erros do mundo.

Estas reflexões me vieram à cabeça quando uma pessoa que conheço, que regula idade comigo e que estudou História como eu, saiu compartilhando por uma rede social esta imagem:

Existem vários problemas com esta imagem, problemas que desaconselham que uma pessoa bem informada a compartilhe, especialmente se tal pessoa, além do benefício do conhecimento histórico, teve o azar de ser contemporânea do fato citado. Por uma questão de ideologia política (a pessoa em questão parece ter um claro alinhamento oposicionista em relação ao governo de centro-esquerda, a julgar pelo que anda compartilhando), este imagem foi passada adiante mesmo que para isso fosse preciso desconsiderar fatos históricos conhecidos e esquecer dores vividas na pele enquanto assalariado. E este esforço de esquecimento requerido para se compartilhar esta imagem me assustou com o nível de negacionismo que se tornou possível atualmente nesse país.

Ao tempo em que negam as conquistas reais de um governo que; com todas as suas falhas e incompetências, levou o país mais à frente do que o antecessor; procuram embasar isto com dados falsos ou interpretações superficiais.

O dado falso é o índice de 19,2%. Em maio de 2000 o salário mínimo aumentou de R$ 136,00 para R$ 151,00. Isso significa um aumento de 11,02% (façam a conta, amigos, os dados históricos do salário mínimo são fáceis de achar na internet). Portanto, é mentira que o aumento aprovado foi de generosos 19,2%. Se você acha que 8,18% são uma diferença irrelevante, apenas considere que o aumento de 19,2% teria elevado o salário mínimo a R$ 162,11.

No entanto, apesar de ser o mais gritante, por ser uma simples e verificável mentira, esse não é o problema mais grave. Afinal, uma pessoa tem o direito de se enrolar com números. Quem hoje se lembra de quanto era o salário mínimo há dez, doze, vinte anos? Não censuro minha amizade por causa disso. O que realmente eu não entendo é como pode ser possível esquecer as agruras por que passavam os assalariados naquela época, com um nível de vida lastimável, pois o salário mínimo legal não era suficiente para comprar nem uma cesta básica. Vivemos quase uma década e meia (de 1991 a 2003) reclamando que o salário mínimo era insuficiente e agora, de repente, pessoas que viveram esta época e fizeram esta reclamação, se esquecem disso e distribuem imagens celebrando os «grandes aumentos» que o salário mínimo teve naquela época.

Se isto não é uma campanha de desinformação articulada através das redes sociais, por pessoas muito bem informadas, contando com a irreflexão de quem o compartilha, então não existe campanha de desinformação. Se isto não é o bicho, o bicho não existe. Se tem duas patas, penas, bico, crista, asas, bota ovo e faz cocoricó e não é uma galinha, então galinha é um ser legendário.

Para os que nasceram depois, e não tiveram que sofrer uma década na esperança do mítico dia em que o salário mínimo chegaria a «cem dólares» (isso foi promessa de campanha de todos os candidatos a presidente até 2001), uma rápida consulta à mídia vendida ao «lulopetismo» nos mostra os dados: Um artigo de 16/02/2011 — um mês após o salário mínimo ter sido aumentado para R$ 540,00 (um aumento de 5,88%) — revela os valores históricos do salário mínimo desde a sua criação, atualizados para o real de 16/02/2011.

Quando criado, em 1940, o salário mínimo equivalia a 1.202 reais de 16/02/2011. Ele perdeu valor rapidamente até 1951, quando chegou a equivaler R$ 491. Então houve o polêmico aumento decretado por Getúlio Vargas e João Goulart, que valeu ao primeiro uma articulação de golpe de estado e ao segundo, a eterna pecha de «comunista»: o salário foi restaurado em seu poder aproximado de compra, para R$ 1.252. Este valor se manteve alto, com oscilações, até 1963, atingindo seu maior valor em 1959, sob Juscelino, R$ 1.732. Com a «Revolução» (ahã) de 1964 iniciou-se uma longa fase de baixo valor real, pois foi feito um grande expurgo de correção monetária. Os militares entregaram o salário mínimo equivalendo a cerca de R$ 603.

A aceleração da inflação após a redemocratização fez erodir ainda mais o valor do mínimo. Quando Fernando Henrique implantou o Plano Real, ele equivalia a R$ 346, cerca de pouco menos de um quarto do valor original. Sob Fernando Henrique presidente, o mínimo se manteve nos seus índices históricos mais baixos, chegando a equivaler a meros R$ 266 em 1996. O famoso aumento de maio de 2000, descontada a inflação, melhorou em R$ 7 reais o poder de compra do salário mínimo em relação ao valor de dois anos antes. Um aumento merecedor do gesto de desdém protagonizado por José Dirceu, Aloízio Mercadante, Ricardo Berzoini e de todos os brasileiros, petistas ou não. Houve até aliados do presidente que criticaram o aumento tão baixo.

A série histórica mostra que após a virada política de 2001 o valor do mínimo só fez aumentar, com correções sempre acima da inflação. A ponto de este aumento ter efeitos sobre o mercado de trabalho, com a quase extinção das domésticas (que ganhando mais podem investir em sua formação e buscar outras profissões menos degradantes), entre outros efeitos amplamente estudados e conhecidos. O governo petista pode ter seus pecados, mas ele certamente fez por merecer os altos índices de aprovação de que goza porque melhorou o poder de compra do assalariado, restando a quem se opõe a ele inventar mentiras e manipulações, contando com a irreflexão dos internautas para difundi-las como ser verdade fossem.

Alguns dizem que o governo, com medidas redistributivas como essa, está «comprando sua aprovação». Eu não entendo o que se passa na cabeça de quem pensa assim, pois me pareceu sempre óbvio que a aprovação de um governo é resultado de ele atender às demandas legítimas do povo e melhorar a vida de todos. Melhorar a vida do povo sempre rendeu votos. Isso não é demagogia. Dinheiro no bolso não mente. Salário maior não mente. E então não é demagogia essa «compra de aprovação». Estranho é alguém supor que um governo deva ser aprovado sem nada fazer para melhorar o padrão de vida dos eleitores.

O que mais me deixa triste nisso tudo é que as pessoas deixam de criticar as verdadeiras falhas que esse governo tem, e ficam inventando mentiras para desacreditar os seus acertos. Talvez seja porque uma crítica construtiva ao governo possa resultar — ó que horror — em um aperfeiçoamento dessas políticas de empoderamento do povo e melhora do seu nível de vida. Melhor fazer piadinha no Facebook. Afinal, essa droga de povo já levantou demais a crista.

* Sátira ao sistema americano de patentes, que parece estar disposto a considerar como novas invenções a implementação informática de coisas triviais.

Coerência Humanista

No dia 27 de julho último um blogueiro reacionário chamado Nihil Lemos (ligeiramente à direita de Rush Limbaugh) publicou um texto chamado Funk: uma Poderosa Arma Idiotizadora, no qual tece suas críticas de praxe ao Estado. Na cabeça desse cidadão o funk carioca é uma espécie de arma musical desenvolvida pelo PT para alienar o povo e afastar os candidatos «mais preparados» dos postos que merecem por direito de nascimento, ou algo assim, eu não entendo direito o que esse cara tem em mente.


Não me interessa dissecar os argumentos contidos na postagem original, pois ela desmente a si mesma quando o leitor, em vez de engolir o texto sem mastigar, resolve fazer as indagações necessárias na situação. Eu espero que meus leitores sejam capazes de detectar o que está errado em típicas peças de direita estrábica como essa, ou não serão, tampouco, capazes de seguir o meu raciocínio.

O que me interessa é dissecar de que forma o presidente da Liga Humanista Secular, o Sr. Eli Vieira, reagiu às críticas feitas por Nihil Lemos.

Ele poderia ter reagido demonstrando que o atual governo não tem nenhuma responsabilidade nem pelo surgimento e nem pelo desenvolvimento do funk carioca. Que se algum governo tem alguma responsabilidade sobre isso, tal deve ser buscada nos governos fluminenses após 1982, aí incluído o Brizola, apenas para evitar, com sua exclusão, um debate absurdo sobre o sexo dos anjos. Ele poderia, inclusive, ter aludido que o referido estilo musical já não conta hoje com tanta popularidade quanto já contou, que está sendo gradualmente destronado por outros estilos, como o brega e o sertanojo universitário (sic) — o que indica que a estratégia «do governo» está falhando. Enfim, havia uma infinidade de coisas que Eli Vieira poderia ter argumentado contra Nihil Lemos, a maioria delas teria atingido o alvo, pois o texto em questão tem mais furos que «táuba de tiro ao álvaro» (como disse o Adoniran, e por favor, vá pesquisar quem foi Adoniran, você que nasceu ontem). Porém Eli Vieira preferiu declarar o seguinte:

Atualização: Print da resposta original.


Existem vários problemas envolvidos neste comentário, alegadamente em privado (mas todo mundo sabe que se alguma coisa é realmente privada você jamais deverá publicar na internet, tanto quanto não deve contar seu segredo mortal para seu «melhor amigo»). Trata-se de uma prova do nível «batom na cueca» de que o Sr. Eli Vieira possui algum tipo de dissonância cognitiva (uma condição, não congênita, não hereditária e não definitiva, que impede que uma pessoa processe informações que se choquem com o seu ponto de vista).

Refiro-me às insistentes campanhas que a Liga Humanista Secular sempre faz contra o estupro. Como esta aqui:

Postagem do blogue da Liga Humanista Secular festejando o impacto de sua campanha de protesto contra uma propaganda viral das camisinhas Prudence, que supostamente incentivaria o estupro.

Como é possível que alguém que está à frente de uma organização que faz campanhas tão visíveis e bem sucedidas contra o estupro não veja nenhum problema em simpatizar-se com o funk carioca, um «gênero musical» que dispensa apresentações quanto ao seu conteúdo apologístico a estupros, pedofilia, tráfico e uso de drogas ilícitas, formação de quadrilha, tortura e assassinato de desafetos, roubo e etc?

Uma pergunta dessas não pode ficar sem resposta. Mas a única resposta que Eli Vieira deu foi sair pela tangente, alegando que o conteúdo reproduzido era «privado». Uma vez mais me pergunto que privacidade se deve esperar no Facebook. Mas o que me importa é que Eli não se retratou e pouco explicou sobre o conteúdo estranho de sua postagem:

 Não foi a primeira vez em que esse prócer do «humanismo» foi pego em contradições e esquivou-se de reconhecer o próprio erro. O famoso episódio da «enfermeira crente fanática» parece ter ensinado pouco ao Bule Voador e à LiHS.

GLOSSÁRIO:

educar no sistema antigo : educa pelo uso da violência, apologia da tortura
um tapinha não dói : «canção» do funk que fazia apologia à violência contra a mulher
soltar as cachorras : submeter a uma agressão coletiva
pentada : efeito do descarregamento de um pente de balas

Uma Mentira, Se Mil Vezes Repetida

Entre a esquerda e a direita, existem diferenças tão essenciais que nunca é demais repetir. A esquerda não se envergonha de ser a oposição a «tudo que está aí» e sabe muito bem que há necessidade de reformas profundas na sociedade, na cultura e na economia. Enquanto isso a direita procura justamente negar o diagnóstico (luta de classes) para negar os mecanismos (revolução, reforma) a fim de preservar o status quo a todo custo. Existe, porém, um tipo de direita que vai ainda mais longe: não contente em preservar o que aí está, procura fazer regredir aquilo que já mudou.

Nós, que somos de esquerda, chamamos aos direitistas do primeiro tipo «conservadores» e do segundo, «reacionários».  Um reacionário é um saudosista dos «bons tempos» do capitalismo, aquela época heróica em que os homens eram homens, as garantias trabalhistas não existiam e lugar de mulher era na cozinha.

Limites do Reacionarismo


Obviamente a ideologia reacionária não encontra muito eco na sociedade como um todo. Só mesmo um trabalhador demente empunharia um cartaz defendendo a «flexibilização» dos direitos trabalhistas, por exemplo: «Abaixo as Férias», «O Salário Mínimo Afronta a Liberdade Econômica», «Pela Liberdade de Jornada da Trabalho», ou coisas assim. Um trabalhador que defenda isso abertamente é um boçal tão fenomenal que sequer existe: as pessoas que aparecem na internet defendendo essas coisas não sobrevivem de trabalho assalariado: são empreendedores, autônomos, profissionais liberais ou empresários. Uma vez que não usufruem das garantias trabalhistas, não veem problema algum em eliminá-las para a aqueles que delas gozam. Na verdade achariam é bom poderem contratar uma babá com salário de escrava.

Os reacionários, porém, não apenas querem conservar as tradições, mas pretendem trazer de volta as que foram perdidas. Não falam abertamente em reescravizar os negros apenas porque o público em geral ainda não está pronto para isso, mas falam já em acabar com o sistema de saúde, privatizar a segurança e a educação, desregulamentar o sistema financeiro etc. Há algumas décadas o público não estava preparado para uma defesa aberta da privatização da segurança ou o fim da educação pública. Hoje em dia a internet pulula de defensores de ambas as coisas. Sinalizando que, se formos deixando, é inimaginável quantas conquistas os «libertários» tentarão reverter. Não custa lembrar que a Espanha franquista, obcecada em reverter tudo que cheirasse a comunismo, proibiu até o cooperativismo e só não acabou com as sociedades comerciais por cotas porque o naufrágio da economia deu um sopro de sanidade na cabeça dos responsáveis por aquela bagaça toda.


Porém, como nem todo mundo está suficientemente bem informado sobre como funcionam os mecanismos ideológicos de propaganda, estes «ideais» da direita acabam encontrando eco na população em geral. Afinal, como supostamente disse o Tim Maia, o Brasil é um país em que além de puta gozar, cafetão sentir ciúmes e traficante ser viciado, o pobre é de direita. O pobre é de direita porque não acha que a direita seja o que a direita é. Ninguém começaria a fumar se em vez de cigarros fosse convidado a adquirir um câncer e nenhuma prostituta teria clientes se anunciasse doenças venéreas como seu atrativo. As pessoas compram o que veem, e levam de contrabando aquilo que a publicidade esconde. A direita vende ao povo um ideal «anticomunista» e o povo leva de contrabando uma ideologia que procura justamente oprimir o povo.

A manipulação da direita procura justamente associar com a esquerda tudo que deu de errado e ruim na História. Isso inclui o nazismo: todo reaça que estaria no comício aplaudindo Hitler posta no Facebook que o nazismo foi «de esquerda» porque o partido se chamava «nacional socialista». Como se os nomes significassem alguma coisa além daquilo que pretendem aqueles que os escolhem. Não se vende maionese anunciando «colesterol em conserva».

A verdade é que a direita não se mostra como o que realmente é: «conservadora» (ou até restauradora) de privilégios, mas mantenedora (ou recuperadora) de «tradições» e «valores». Mas tradições e valores não possuem valor intrínseco. Pensar assim equivale a afirmar que as coisas são certas ou boas simplesmente por serem antigas, o que é um raciocínio equivocado (falácia). A escravidão foi uma tradição muito antiga do Ocidente, assim como a opressão da mulher, a exploração do trabalho infantil e uma série de outras mazelas. Nem por isso ela foi mantida quando as pessoas se deram conta de seu absurdo, e nem por isso devemos ficar saudosos dos bons tempos do cativeiro. Prender-se aos absurdos do passado somente por serem tradições é uma atitude que só serve para atrasar as melhorias necessárias ao progresso da humanidade. Por isso mesmo o conservadorismo enfrenta limites teóricos e não pode assumir-se como valor absoluto, da mesma forma que o esquerdismo e a revolução.

A Propaganda Reacionária nas Redes Sociais


A direita utiliza preferencialmente os meios unilaterais de comunicação para difundir seu pensamento, ou melhor, as verdades emanadas das instâncias autorizadas a pensar. Direitistas só gostam de debates controlados, e mesmo assim preferem evitar. Gostam de comícios, de editoriais, de peças publicitárias. Você tem todo direito de ouvi-los, lê-los, assisti-los, assimilá-los, mas eles não permitem que retruque. Se você escreve para a seção de cartas do jornal, não será publicado. Se você telefona, a linha estará sempre ocupada. Se você comenta no blogue, será censurado. E se armar um fuzuê na comunidade/grupo/clã etc., será expulso.

Esta semana tive contato com uma peça publicitária informal que está sendo utilizada para difundir o pensamento direitista. A peça é esta coisa xexelenta aí abaixo:


Como tudo que emana da direita, pretende ser definitivo: «O Espectro Político Explicado». Não é uma opinião, é um «ponto» da lição. Você tem que decorar e repetir, não tem de questionar. A prova vai ser um questionário e você tem que saber responder tudinho de acordo. Se mudar uma vírgula perde décimos de nota.

Esses Libertários Modernos


Antes de passar a analisar cada um dos pontos, vale observar que esses «libertários» aí nada mais são dos que os velhos liberais clássicos, herdeiros diretos de Adam Smith e David Ricardo. Gente fina, que lutou contra a limitação das jornadas (por ferir a liberdade que o trabalhador tinha de vender sua força de trabalho), contra o salário mínimo (por ferir a liberdade de patrões e empregados para definirem «livremente» a remuneração da hora trabalhada), contra o auxilio maternidade (por obrigar o empreendedor a custear uma decisão pessoal da mulher, ao engravidar), contra a proibição do trabalho infantil (porque o trabalho «educa») etc.

Esses nada mais são do que a única e verdadeira direita. Esses «direitistas» que estão postos no quadro são, de fato, centristas, aqueles que temperam a Lei da Selva (preconizada pelos «libertários») com alguma coisa da esquerda que se tornou impossível rejeitar e até mesmo os mais calhordas admitem que é bom.


Os «libertários» não são ingênuos como parecem. Ingênuos são os que perpetuam esse discursos «descolado» na internet. Essas ideias vêm de instâncias superiores, onde se sabe muito bem que a livre competição entre pessoas e entidades que partem de condições diferentes é injusta. Mas esta livre competição significa, para eles, que a situação que já adquiriram continuará lhes oferecendo vantagem na competição contra os novos entrantes. Ser «libertário» da forma como descrito nesse quadro é defender o direito dos que já são ricos de não apenas continuarem sendo, mas continuarem dificultando outras pessoas que poderiam tonar-se.

Quando o Estado se enfraquece, quem fica forte são justamente os que já detêm o poder: os trustes e os monopólios privados. Os «libertários» imperavam durante a primeira fase da Revolução Industrial e levaram a um tal nível de concentração da atividade econômica que que mesmo o país mais «livre» do mundo, os EUA, tiveram que intervir para controlar a moeda e quebrar alguns trustes. Foi a «livre iniciativa» da indústria do petróleo que impôs ao mundo os aditivos a base de chumbo, em vez do álcool anidro, apesar de serem mais caros e menos eficientes (ou melhor, por serem mais caros, independente da eficiência). E foi a «livre iniciativa» dos mercados financeiros que produziu todas as crises financeiras desde sempre. Mercados regulados sofrem menos crises.


Um dos argumentos dos «libertários» é que o Estado, reduzido ao mínimo, não teria recursos para travar guerras. Portanto, um estado mínimo levaria à paz mundial. Nada mais falso: a história mostra que, para a guerra, o Estado sempre dá um jeito de obter recursos. A Holanda dos séculos XVII e XVIII, estado tão mínimo que nem tinha capital, travou guerras em pé de igualdade com todas as potências da época, contratando e pagando a preço justo o braço mercenário.

Não vamos esquecer que já houve uma época em que o estado praticamente não tinha recursos financeiros e nem humanos para travar guerras, ninguém pagava impostos ao Estado, não havia leis limitando nada (só os costumes e os contratos). Essa época chamou-se «Idade Média».


Na próxima semana analiso os argumentos do panfleto virtual acima. 

A Psicologia e a Homossexualidade: Uma Visão Leiga e Desinformada

Detesto fazer análises pseudo antropológicas. Mas há momentos em que língua coça com a ideia de que é necessário comentar alguma coisa quando percebemos a manifestação evidente daquilo que análises antropológicas anteriores afirmaram que aconteceria. Sempre que uma teoria científica se confirma na prática devemos entender isso como prova de força da teoria, e da própria ciência.

Refiro-me ao caso da psicóloga Marisa Lobo, declaradamente evangélica, que está sob ameaça de perder suas credenciais por oferecer «tratamento» para homossexuais. O Conselho Federal de Psicologia não considera a homossexualidade uma doença mental, ou mesmo um distúrbio de comportamento, e por isso não permite que os psicólogos façam esse tipo de tratamento. Quem insiste, como Marisa, é publicamente censurado e, em último caso, pode vir a ser expulso, perdendo o direito de clinicar. Se isso vier a ocorrer, Marisa não poderá mais exercer nenhuma atividade análoga à de psicóloga, sob pena de ser então processada por «exercício ilegal da medicina». Quem não é psicólogo e tenta curar homossexuais será, por sua vez, acusado de «charlatanismo» (inventar curas imaginárias para doenças também imaginárias).

O caso todo é muito espinhoso porque, em se tratando da alma humana, é, de fato, muito tênue a linha que separa a sanidade da insanidade, o normal do anormal, o aceitável do que é tabu. Essas definições são, em grande parte, culturais e não existe nenhuma ferramenta óbvia que permita discernir uma coisa da outra. Os profetas da Bíblia, por exemplo, seriam tratados de esquizofrenia se vivessem nos dias de hoje. Na época vitoriana a ansiedade da mulher era diagnosticada como uma doença, a «histeria», e o tratamento era a estimulação clitoriana, diligentemente aplicada por médicos, com o auxílio dos primeiros vibradores.

Ao ler, recentemente, a entrevista do psicólogo americano Robert Spitzer, maior responsável pela exclusão da homossexualidade da lista de «distúrbios» diagnosticados pela APA (o CRP americano) e recentemente envolvido em uma polêmica sobre a possibilidade de inversão da orientação sexual mediante tratamentos ambulatoriais e aconselhamento, pude ver o quanto foi nebuloso o processo que, finalmente, nos preveniu de absurdos como o tratamento a que foi submetido o cientista inglês Alan Turing, e que causou sua morte. Longe de haver um consenso científico objetivo, a exclusão pareceu mais uma medida nascida do bom senso:

A iniciativa provocou uma série de debates amargos, colocando Spitzer contra dois importantes psiquiatras influentes que não cediam. No final, a associação psiquiátrica ficou ao lado de Spitzer em 1973, decidindo remover a homossexualidade de seu manual e substituí-la pela alternativa dele, “transtorno de orientação sexual”, para identificar as pessoas cuja orientação sexual, gay ou hétero, lhes causava angústia.

Como se pode ver, não houve nenhuma pesquisa real sobre o tema: apenas um embate teórico (e certamente carregado de ideologia) que resultou no convencimento de um lado e no descrédito de outro. Não houve pesquisa de campo, não houve uma abordagem metodológica rigorosa. Apenas um comitê resolveu que a homossexualidade em si deixaria de ser considerada um transtorno. O termo «transtorno de orientação sexual» ainda continuou lá, mas definido como uma situação indiferente à orientação sexual, e concernente apenas à identificação do indivíduo com ela. Fica parecendo que a APA simplesmente teve que engolir (e com grande amargura) que não havia bases científicas para considerar como doença a homossexualidade. A remoção do diagnóstico foi mais um recuo do que um avanço: seus integrantes perceberam que seria muito difícil definir a homossexualidade em termos que permitissem uma abordagem terapêutica. Isso fica evidente neste trecho da entrevista:

Ele comparou a homossexualidade com outras condições definidas como transtornos, tais como depressão e dependência de álcool, e viu imediatamente que as últimas causavam angústia acentuada e dano, enquanto a homossexualidade frequentemente não.

Ocorre um fato interessante a esse respeito, porém. Se aceitarmos como válido o raciocínio de Spitzer, concluiremos que um louco feliz está são. Esta é, aliás, uma forma poética, concisa e ligeiramente deturpada de expressar o conceito central do movimento antimanicomial: loucos não precisam de tratamento a não ser para evitar que sofram ou façam aos outros sofrerem. Não se busca uma «cura» para a loucura, tal como não se busca para a homossexualidade. Os limites do normal e do anormal são difusos: podemos enxergar os extremos, mas no meio a diferença é mínima.

O movimento antimanicomial certamente tem seus extremos, mas é inegável perante um mínimo de racionalidade, que não há vantagem nenhuma em dopar, lobotomizar, encarcerar ou submeter a eletrochoques uma pessoa apenas p0r ela ter um comportamento diferente da norma. A esse respeito, aliás, não custa lembrar que a mesma APA que não considera a homossexualidade um transtorno passou, recentemente, a considerar o luto como sendo. Portanto, se você estiver residindo nos EUA e decidir prantear por meses ou anos a memória de um ente querido que faleceu, especialmente se você decidir não mais se casar após a viuvez, corre o risco de ser internado pela família e submetido a tratamento com antidepressivos. A indústria farmacêutica precisa faturar. Em outras épocas era quase uma falha de caráter a superação súbita do luto. No interior de Minas Gerais, onde vivo, casar-se menos de dois anos após ter enviuvado gera comentários: «já tinha amante, a falecida morreu de desgosto e ele nem esperou o cadáver esfriar para trazer a piranha para casa». Nos EUA, pela ótica da APA, é bom começar a paquerar em menos de um mês, ou os filhos poderão querer interditá-lo por senilidade.

Aonde quero chegar com todas estas tergiversações? Comecei falando de uma psicóloga que quer curar gays, falei sobre o homem que acabou com estas curas perante os órgãos oficiais da ciência e acabei mencionando o quão arbitrária é a chancela de um organismo como a APA para orientar o que é certo e errado. Devemos considerar algo normal ou anormal porque apenas está ou não está nos manuais de diagnóstico de uma entidade que decide quem é louco ou não é com base em discussões de comitê?

Não me parece muito cético e nem muito correto tomar como bíblia o que decide uma entidade como a APA. Não custa lembrar que houve uma época em que esta mesma entidade considerava a homossexualidade como uma doença e recomendava-se tratamento hormonal (como o que vitimou Alan Turing). Seria correto, então, seguir piamente o que a APA propunha?

Mas, se os manuais de entidades como a APA e o CRP devem ser tomados sempre com ceticismo e um grãozinho de sal, devemos concluir que um psicólogo tem o direito de agir como Marisa Lobo? Deste trecho para a frente eu aposto «duzentim» que os evangélicos falaciosos não vão citar quando disserem que um «blogueiro ateu critica CRP no caso Marisa Lobo».

Há três lados no caso Marisa Lobo, em minha opinião. Por qualquer dos três a atuação do CRP nem deveria ser necessária para indicar o erro da psicóloga. Assim como a polícia não é necessária para sabermos o que é crime, mas o é para nos protegermos dele, o CRP só entra em cena para tirar «das ruas» um profissional que é uma ameaça aos seus pacientes.

O primeiro lado (e o menos importante) é a questão do método científico. Por mais falacioso que tenha sido o processo que levou a APA a deixar de considerar a homossexualidade como desvio (e ele foi), cabe ao profissional consciencioso, diante do entendimento de que uma posição de que discordo não é sustentável empiricamente, buscar justamente obter para si a sustentação que seus opositores não têm. Ciência não é uma competição de quem joga merda em quem: se você vê um erro deve denunciá-lo com demonstrações, não com palavras ocas.

O segundo lado repousa sobre os direitos humanos. Esta consagrado nas constituições de todos os países democráticos que ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer coisa alguma, salvo determinação da lei. A observação clínica de Spitzer e de outros psicólogos americanos era que a homossexualidade não vinha acompanhada de dano ou angústia e que esta, quando presente, era provocada por fatores externos ao indivíduo (pressão da família ou da sociedade, medo de ser preso, agredido ou rejeitado etc.). Ora, se ser homossexual em si não é causa de nenhum problema ao «paciente», então por que criminalizar ou mesmo medicalizar a condição homossexual. Se os problemas do gay são causados pelo modo como a sociedade o vê, é preciso, ainda que isso seja utópico, mudar a sociedade. O erro está na sociedade. Infelizmente, porém, é típico do ser humano considerar como «bom senso» o caminho de menor resistência. Por isso é mais «fácil» mudar (ou eliminar) o indivíduo do que todo o resto do mundo.

O terceiro lado é o mais importante e o mais espinhoso. A condenação da homossexualidade tem cunho religioso, as resistências contra a eliminação do diagnóstico pela APA tiveram forte influência religiosa e sempre são os religiosos que se insurgem contra ela. O distúrbio trazido pela homossexualidade não é na vida dos homossexuais, mas na vida dos que não os aceitam porque um livro escrito há milhares de anos os condena. Este livro é parte da sociedade em que vivemos, é utópico propor que seja eliminado ou esquecido e as instituições que o promovem gozam de grande prestígio, apesar de historicamente terem se associado com a violência, a corrupção, a opressão e o obscurantismo e, para fins práticos, atuado como freio em todo e qualquer processo de progresso da humanidade. Estas religiões não veem o «ser homossexual» mas apenas o «ato homossexual». Esta separação entre o indivíduo e seus atos não é de cunho empírico, não vem de nenhuma experimentação, ela vem da combinação da ilusão do livre arbítrio, um de nossos ideais mais antigos, e de conceitos ultrapassados, como o criacionismo, que embute uma idealização de um universo rigidamente hierarquizado e categorizado, de forma que as exceções são vistas sempre como influências diabólicas na harmonia desejada pelo Criador.

Marisa Lobo, adepta de uma de tais religiões, comete, portanto, o erro imperdoável e indesculpável, de mesclar suas crenças, anteriores ao estudo da psicologia, e sua práxis profissional. Ela não discorda do CRP porque concluiu em seu trabalho que seja possível tratar a homossexualidade, ela se enfrenta com o CRP porque quer continuar usando sua condição de psicóloga licenciada para continuar difundindo suas ideias preconcebidas sobre o fenômeno da homossexualidade.

É difícil quantificar o quanto isso é inaceitável. Equivale a um pediatra receitar benzeduras para «vento virado», «espinhela caída», «aguamento», «mau olhado» ou coisa parecida. Equivale a um agrônomo que ainda recomenda fazer queimada.

Claro que Marisa tem o direito de crer no que quiser. Mas o CRP também tem o direito de só aceitar em seus quadros os profissionais que sigam sua linha de atuação. A sutil diferença, que determina quem tem a razão, é que Marisa não precisa ser psicóloga para crer no que deseja. Mas o CRP não pode ter Marisa em seus quadros se quiser conservar seu caráter isento e científico. Porque o que a Marisa faz não é ciência, é proselitismo. Então que a Marisa seja gentilmente expulsa e siga crendo no que quer.

Não lamentemos que perderá sua profissão, o seu «ganha pão». Ela tem grande futuro como pastora ou escrevendo sobre a «injustiça» que sofreu. E mesmo que tudo isso falhe, o que lhe venha a acontecer é fruto de suas escolhas. Ela poderia perfeitamente ter suas crenças religiosas e mantê-las de lado durante o exercício da profissão, tal como fazem os deputados da bancada evangélica.

A Sacralização da Tortura

Atribuir ao sofrimento em si mesmo um valor moral é um dos pilares da religião cristã, assentada firmemente na manipulação dos sentimentos de culpa que afligem a todos nós. Culpa essa que é predominantemente fabricada pelas crenças e superstições instiladas pela própria moral cristã, desconectada das necessidades reais da humanidade, como bem observou Nietzsche:

No Cristianismo, nem a moral nem a religião estão em contato com um ponto sequer da realidade. Só causas imaginárias ... ; só efeitos imaginários ... Uma relação entre seres imaginários... uma ciência natural imaginária ...; uma psicologia imaginária ...; uma teologia imaginária... Este mundo das ficções puras distingue-se, com muita desvantagem para si, do mundo dos sonhos, em que este reflete a realidade, ao passo em que o outro não mais faz do que falseá-la, desprezá-la e negá-la. Depois de ter sido inventado o conceito «natureza» como oposição ao conceito «Deus», «natural» torna-se o equivalente a «desprezível», todo esse mundo de ficções tem o seu fundamento no ódio contra o natural (a realidade!).

A luta das religiões contra a saúde, a sabedoria e a vida se assenta exatamente na existência de tal sistema de valores averso ao «mundo» (termo, aliás, empregado abundantemente pelos pregadores cristãos para classificar tudo que se opõe, na realidade, à salvação da imaginária alma). «Médico, cura a ti mesmo»; desafiou Jesus em uma época na qual a medicina ainda era relativamente pouco evoluída. Hoje a medicina resolve inúmeros problemas para os quais, no século I, só restava implorar por um milagre; mas ainda assim a religião lança o desafio, não mais por escárnio da precariedade da ciência, mas para lançar a suspeita sobre seus sucessos, que reduzem o terreno para o milagre. «A sabedoria dos homens é loucura para Deus»; vociferou Paulo, o Apóstolo, para desencorajar que seu rebanho se aproximasse das escolas de filosofia do mundo helenístico. O cristianismo se espalhou entre os que ignoravam a filosofia, e quando teve poder suficiente seus líderes instigaram a turba a linchar os filósofos (como no caso de Hipácia) . Uma religião que valoriza mais a doença do que a saúde, a morte precoce como algo superior a uma vida longa. Daí santificar gente como Santa Rita de Cássia, que não tratava de suas úlceras cutâneas, ou Santa Teresinha do Menino Jesus, morta antes de tornar-se completamente adulta. A santidade dessas mulheres residia mais em serem doentes e morrerem cedo do que exatamente em suas virtudes morais.

Não entendo como cristãos conseguem ter «medo» do fanatismo islâmico e seus homens bomba. Os muçulmanos não são diferentes dos cristãos em sua obsessão pela morte, nem para melhor, nem pior. Ambos estão imersos em culpas irrecuperáveis, embora diferentes em natureza, e ambos encaram o sofrimento como algo que, merecido ou necessário, conquistará no além uma recompensa. Ocorre apenas que o Islã é mais transparente em seus valores e, apesar de em alguns aspectos ser menos, consegue ter algumas vertentes mais humanas que o cristianismo. O Islamismo, tal como o paganismo viking, valoriza a morte heróica, o desapego à vida. E ao valorizar o desapego à vida desta forma, o islamismo se mostra mais humanista do que o cristianismo, que só se interessa pela vida enquanto doença e degeneração, pela vida enquanto sofrimento, tortura e desperdício. O Cristianismo é, em sua essência, uma crença desumana, que só é tolerável porque a maioria de seus seguidores implicitamente já percebeu isso e tratou de ignorar certas partes da doutrina.

Esse tipo de religião obscurantista e doentia perdeu espaço na sociedade nos últimos séculos. A proliferação das curas tornou menos admirável a capacidade de suportar doenças. A proliferação dos direitos humanos tornou menos admirável a disposição para o martírio. A morte precoce passou a ser vista como o desperdício de uma vida, e não como uma evidência de santidade. A busca voluntária da morte, como em Marcelino, Pão e Vinho passou a ser, justamente, vista como uma espécie de doença mental. A grande maioria dos santos da história do Catolicismo, se hoje vivos, mereceria tratamento médico psiquiátrico, a maior parte seria curada. Daí a dificuldade de se fazer santos hoje em dia: não basta mais suportar uma doença grave por um tempo ligeiramente maior do que uma pessoa normal, conformar-se com uma execução injusta ou conseguir conviver com doenças não letais, mas dolorosas.

Existem ainda, porém, algumas trincheiras nas quais o sofrimento ainda existe. Algumas são reais, outras são artificiais. É real o sofrimento dos pacientes de doenças para as quais a medicina não encontra cura. É artificial o sofrimento dos pacientes de doenças para as quais a religião proíbe a cura já encontrada. Existe um grande número de doenças para as quais existe cura, mas há religiões que dificultam-na, por envolver procedimentos cirúrgicos com o emprego de transfusão de sangue ou amputações. E existem casos nos quais a ciência atingiu terrenos éticos controversos, situações nas quais as religiões, argumentando serem as guardiãs seculares da ética e da moral, pretendem ditar os parâmetros.

É disso que se trata quando surgem argumentos contra o aborto de fetos anencéfalos. Que o cristianismo historicamente tem uma tendência a tangenciar o ascetismo como uma virtude cardeal, isto não é nem posto em questão. Querer, porém, impor sobre a sociedade os seus valores baseados em sofrimento, culpa e morte é algo que não se pode aceitar. Se alguém quer virar mártir, que seja, mas não se pode exigir de outrem que se torne assim. Lembro-me de um episódio do romance Eurico, o Presbítero ambientado no final do domínio visigótico sobre a Península Ibérica. Diante da chegada dos mouros, uma abadessa desfigura às monjas, para que não fossem tomadas por esposas pelos príncipes muçulmanos. Na época em que foi escrito o romance, esta história deve ter sido interpretada como a narrativa de um ato de piedade cristã. Nos dias de hoje só mesmo um psicopata com delírios religiosos defenderia a atitude da abadessa, em flagrante violação ao direito de alguma(s) monja(s) de optar(em) por salvar(em) sua(s) vida(s) rendendo-se a muçulmano.

Quando se fala contra o aborto em tal circunstância, a voz que fala é a cavernosa e roufenha voz da Idade Média, que via a mulher, apenas em ser mulher, como fonte de todo pecado. A voz que deseja proibir o aborto de anencéfalos é a voz da abadessa que desfigura as monjas para não serem «conspurcadas» pela união a um príncipe estrangeiro. Mesmo o sexo conjugal é uma desonra, um mal menor diante da prostituição. A gravidez é a punição justa pela falha moral: compensa-se o «mal» do prazer com o «bem» da entrada no mundo de mais um ser vivo, especialmente se for homem (antigamente o resguardo pelo parto de um macho era mais curto que o do parto de uma fêmea). E se o bebê nasce morto, então a glória é ainda maior, pois faz-se anjo ao morrer sem conhecer o pecado: morrer é melhor, quanto mais cedo, pois cada dia nesse mundo pantanoso da moral é uma oportunidade de ser tentado e acabar no inferno.

Por isso a mulher deve sofrer para purificar-se e ser exemplo ao mundo: quem mandou nascer mulher, agora toma! Somente as mulheres que se anulam enquanto mulheres atingem a santidade: todas as santas se dividem em dois grupos: as que morreram virgens e as que permaneceram castas após entrarem no caminho da santidade. A santidade é uma condição incompatível até mesmo com dar para o marido. A santidade dos homens não é menos exigente: com uma profusão de monges (e até de castrados) entre os santos, mas o pecado atribuído ao homem é quase sempre a queda em tentação, enquanto a mulher é o próprio meio de tal tentação e causa de tal queda.

Querer obrigar o prosseguimento, até o ato final, de uma gestação fadada a terminar em morte é um ato de crueldade inimaginável. Quem o qualificou exemplarmente foi o Ministro Ayres Britto, com uma felicidade rara até em poetas, ao dizer que «dar à luz é dar à vida, não à morte». O parto de um natimorto é o anti-parto por excelência.

O mais estranho, porém, neste debate é que as igrejas se confundem continuamente quanto ao seu posicionamento quanto à natureza. Ao mesmo tempo em que se opõem à homossexualidade, por ser «antinatural», e ao aborto, por ser uma interferência na vontade de Deus, opõem-se igualmente à eutanásia por desligamento de aparelhos, que justamente vai ao encontro do «natural» e da «vontade de Deus» ao cessar uma interferência renitente no curso da morte inevitável. E estas mesmas igrejas que exigem o direito do anencéfalo ser levado a termo segundo a natureza, impedem que a morte dos pacientes terminais seja levada a termo segundo a mesma natureza. Para tornar ainda mais bizantino o debate, estes «defensores da vida» são os mesmos que dizem que este mundo é ilusão e que devemos viver tendo em vista a salvação de nossas almas após a morte. Os mesmos que cultuam santos precocemente mortos, por terem precocemente morrido, como Marcelino Pão e Vinho e Santa Teresinha, se dizem defensores da vida. Curiosamente, porém, só defendem a vida dolorosa. A vida que traz dor à mãe, a vida que traz dor à família que vê seu ente querido transformado numa caricatura grotesca entrevado em uma cama. Na verdade não é a vida que eles defendem, mas a tortura e a morte.

Se «a sabedoria dos homens é loucura para Deus» e vice-versa; como disse o apóstolo Paulo, é evidente que as descobertas da ciência, mesmo um simples eletroencefalograma ou uma ultrassonografia, podem ser desconsideradas quando isso interessa. Não se trata do salutar ceticismo que recomenda uma «segunda opinião» antes de uma decisão grave, mas de uma rejeição seletiva de dados que atrapalham as crenças. Concebida para contrapor-se à filosofia grega e ganhar corações de judeus (que odiavam-na), esta afirmação tem repercutido pelos séculos afora como um estímulo para que os fieis não apenas deixem de estudar, mas também desconfiem de quem estuda. Sem citar nomes, é sabido que existem seitas cristãs que ainda hoje recomendam a seus fieis que não passem do primeiro grau e se contentem com empregos humildes.

Quanto aos desígnios de Deus, eles são misteriosos e não cabe ao homem questionar. «Ele tem um plano» parece ser um consolo eficaz para certas pessoas. Por isso, «maldito o homem que confia no homem» é outra frase lapidar, que nega ainda a filosofia, ao negar as doutrinas desenvolvidas pelos homens que a fazem. Em lugar de ideias humanas, as «ideias de Deus» contidas na Bíblia. Não se pergunta, nem se deve perguntar, como o texto bíblico surgiu. A Bíblia é aceita como um fato dado, e acaba funcionando como uma âncora a contrapor-se a toda novidade, seja dos costumes, seja das ciências, pois são modos e ideias «de homens». Fé cega é a única explicação. Pessoas cegas pelas suas ilusões confortáveis de uma vida póstuma cor de rosa preferem cantar seus hinos e pagar seus dízimos do que pensar no que poderia ser melhor para si e seus filhos.

Prisioneiros da promessa de uma salvação póstuma, estas pessoas que têm fome e sede de justiça parecem até pedir por menos, pois quanto maior a sede, maior seu galardão. Eis uma doutrina útil para apascentar rebanhos, para abaixar cabeças e calar mágoas, para deixar as pessoas passivas e cordatas diante da violência de um mundo real que as explora e mata. Os poderosos não se importam com esse negócio de ir para o inferno, a não ser da boca para fora. O pobre faminto e desdentado é instado pela religião a ter pena do rico gordo e bem tratado, «sepulcro caiado», porque ele não está entre os que um dia herdarão a terra.

E é sempre na cabeça do pobre que bate o sofrimento. O pobre não tem clínicas de luxo para fazer os seus abortos. Não é de estranhar que filho de rico seja quase sempre mais bonito: nem tudo o dinheiro conserta, muita coisa se escolhe. Mas o pobre, este tem que aceitar o que o acaso lhe traga, e depender da caridade alheia para fazer frente a tudo. O sofrimento, a privação, a frustração, mais do que apenas coisas que um dia serão pagas com o galardão de uma vida gloriosa póstuma, é o próprio meio através do qual se ganha o acesso a tal glória. O corolário absurdo de tal compreensão é simplesmente que fazer alguém sofrer é fazer-lhe um favor, pois quanto mais se sofre, mais se está salvo, desde, é claro, que este sofrimento seja aceito com alegria no coração, em vez de xingamentos aos agressores. Mais do que apanhar, é preciso apanhar agradecendo. Por isso um filho anencéfalo é uma bênção, mesmo que estrague a saúde da mãe, a impeça de ter outros saudáveis, ou até a mate. Se morrer ela é que está no lucro, não é mesmo?

Tudo isso se manifesta nas reações inaceitáveis à manifestação quase unânime do Superior Tribunal Federal quanto ao aborto de anencéfalos (à exceção dos que vêm se consagrando como arautos da Treva). Não importa que o anencéfalo seja um monte de carne sem vida, que somente pode trazer sofrimento à mãe. «Deus tem um plano». Por alguma razão o ser Todo Poderoso quer estragar a vida das mães que geram dentro de si criaturas disformes que jamais conseguirão sequer os sinais mais básicos de humanidade. O plano de Deus pode ser o absurdo que for, aos nossos olhos: sua sabedoria é, também, loucura para nós. O que é um exame de ultrassonografia atestando que o feto já está morto e morto nascerá? Sempre se pode rezar por um milagre, mesmo que a possibilidade de um diagnóstico incorreto seja ridícula ou reversão do quadro realmente impossível. Mesmo para um Deus especialista em curar dores nas costas, mas que nunca fez crescer uma perna numa criança que a perdeu. Não importa que inúmeros médicos tenham chegado à mesma conclusão, eliminando a possibilidade de um diagnóstico errado (sempre possível se não for repetido o exame ou consultado outro especialista).

Não importa porque aquilo que os homens dizem, ou fazem, é irrelevante. Aquilo que homens anônimos escreveram no passado (e outros atribuíram a Deus) tem mais importância do que uma medicina que já consegue curar tantas doenças que as principais causas de mortes «naturais» em países desenvolvidos são decorrentes da senescência ou da exposição a condições inadequadas (radiações, contaminações etc. que produzem cânceres). Deus confunde os doutores, não é mesmo? Duvido que esses pseudo-defensores da vida tenham os médicos em tão baixo apreço que evitem consultá-los quando têm doenças.

Não importa o sofrimento extremo que a gravidez de um feto inviável cause nas mulheres. Eu não sou mulher para saber, então se alguma me disser que sofreu, devo, humildemente, dizer que, se o problema é dela, então o direito à solução também lhe pertence. Não regulo o corpo de nenhuma mulher, nem da minha. Não tenho esse direito. Cada ser humano é soberano sobre si, ninguém possui ninguém, a não ser metaforicamente. Se uma mulher sofre com a situação, eu não tenho a pretensão de dar-lhe lições sobre isso. Eu não tenho útero, eu não darei à luz, eu não tenho mamas, não serão em mim as estrias abdominais. Em tese eu seria favorável até mesmo a outros tipos de aborto, embora não recomende isso, claro, tanto quanto não recomendo demolir uma casa como solução para reformá-la. Mas recomendo remover o entulho daquela que ruiu para poder fazer uma nova. Um feto anencéfalo é uma construção que ruiu.

Não importa o sofrimento porque sofrer é bonito. Pelo menos na ótica dos cristãos. Enquanto a maioria das pessoas vê beleza em flores, em cores, em amores, em odores, em fulgores; os cristãos carolas enxergam boniteza na representação do cadáver torturado de Jesus. Chagas, chibatas, choro, são as formas de beleza que entendem. Fazer uma pessoa sofrer é um favor, um óbolo para comprar passagem para o paraíso.

Quando alguém está sofrendo, é comum que voejem ao seu redor os abutres religiosos, interessados em extrema unção, velas, rezas, bíblias, gritarias em nome de Jesus, de santos ou de exus. Contemplar um ser humano reduzido humilhantemente à doença, à degenerescência, à demência, nada é tão bonito para essas aves de rapina espiritual. Especialmente havendo uma herança em vista ou a família gostando de pagar por missas ou dar dízimos.

Cada vez que um religioso afirma que é contra o aborto de anencéfalos ele está querendo crucificar uma mulher. Fazê-la sofrer nove meses com o cadáver de seu filho na barriga. Ver seus seios crescerem para alimentar um ser que nunca mamará. Ver seu corpo modificar-se em nome de uma vida que não nascerá. É como obrigar um pedreiro a arrematar a casa que caiu, obrigar o motorista a comprar acessórios para o carro que bateu. Como disse o ministro poeta, «dar à luz é dar à vida, não à morte». Mas o Cristianismo não está interessado em luz, tanto assim que deu nome ao seu demônio de Lúcifer, o portador da luz.

Ainda bem que, como dito antes, a maioria dos cristãos não suporta os fundamentos de sua religião. Ignoram princípios que proibiriam tudo que é a própria base da cultura em que vivemos. Os outros sonham com o dia em que o evangelho triunfará. Eles só se esquecem de que isso já aconteceu. Chamou-se Idade Média. E foi uma época em que instalaram no Vaticano uma privada romana, recuperada das ruínas de uma casa demolida. Porque ninguém mais se lembrava o que era uma privada e acharam que fosse algum tipo de trono.

«Política, Futebol e Religião não se discute»

Este é um enunciado milenar, quase inquestionado na «sabedoria» popular (que, como sabemos, votou no Tiririca). De fato a mistura costuma desandar, especialmente se as opiniões chegam ao ponto de fervura. O problema não reside, porém, nestes temas específicos, que são apenas polêmicos (sendo os dois últimos mais ou menos análogos). O problema é que a maioria das pessoas simplesmente parece não ter serenidade suficiente para enfrentar uma opinião discordante, quanto mais para encarar um confronto de ideias como uma oportunidade para aprendizado.

Há um desses «provérbios chineses» que dizem que quando duas pessoas trocam ideias, cada uma vai embora levando uma ideia a mais do que tinha quando chegou. Duvido que os próprios chineses ajam assim, visto que a teimosia parece ser um dos muitos defeitos do homem compartilhados por todas as raças, castas e credos. No entanto, é justamente entre nós, brasileiros, que isto menos se vê: os debates não são vistos de forma dialética, mas como disputas de ego. Ninguém debate pensando em sair da sala sabendo mais, todos parecem estar mais interessados em fazer o oponente sair da sala desqualificado. Os debates da Internet brasileira não são debates, são duelos.

E porque o debate se transforma em duelo, torna-se impossível chegar a um consenso. Nunca basta que um lado aceite correções, elas são vistas como demonstração de fraqueza. Não basta que um lado demonstre ter suas razões, se não conseguir derrubar as razões do outro não houve «vitória». Isto seria até compreensível se estivéssemos falando de temas sobre os quais não pode restar dúvida: ninguém discute se água é molhada ou se em setembro chove. Os debates são, por natureza, sobre os temas mais complexos, estapafúrdios, bizantinos. Isso é muito natural: não se debate o que qualquer idiota consegue entender. Talvez por isso, na falha dos argumentos, chamar o outro de idiota é sempre um recurso lembrado: se o outro é idiota isso implica que ele não tem capacidade para compreender um conceito mais avançado, então se torna desnecessário elaborar melhor o argumento. Então, se eu consigo convencer aos outros de que estou debatendo com um idiota, eu posso me declara vencedor mesmo que tenha dito que «cadeiras são ovíparos» ou que «guitarras tem gosto de novelos». A primeira vítima de um duelo verbal é a verdade: geralmente ganha uma rinha dessas o lado que consegue esmurrá-la mais.

Não me surpreende que as pessoas façam isso em nome de crenças irracionais. Eu não discuto com os adeptos de certos conceitos. Apenas sorrio e saio de fininho. Certos conceitos não podem ser discutidos seriamente, e se a pessoa acredita de verdade a gargalhada soará ofensiva. Assistir aos debates entre essas pessoas é tão surrealista quanto ouvir papo de tietes do último grupinho pop: às vezes dá vontade de chorar, às vezes de rir. Geralmente de chorar.

Mas me surpreende muitíssimo que esse nível de argumentação corrosiva, divisiva e hipócrita seja praticado por pessoas que reivindicam saber melhor. Eu mesmo já caí nessa arapuca várias vezes, e foi preciso que um palhaço me alertasse. Bons palhaços são raros, mas quando os encontramos eles sabem o que fazer para ligar no tranco o cérebro amortecido. O palhaço que me acordou me fez enxergar como eu estava sendo cínico e como me rendia a tudo que eu abominara no passado. E ele fez isso sem ter me conhecido no passado.

Mas houve um momento em que eu percebi que debater em certo nível não é interessante porque, como diria Buda, não traz a iluminação. O que aprendo digladiando-me em fóruns da web com pessoas que não estão preparadas para entender o que eu estou dizendo e que passam a odiar-me por chutar suas bengalas?

Não que eu tenha desistido de debater. Quem acompanha esse blog sabe que eu debato bastante. Apenas mudei meus alvos, passei a pensar em causas mais restritas. No momento a minha principal causa é proteger o calo que eu tenho no pé. Sempre que o pisarem eu vou gritar, e tentarei pisar no calo de quem me piso. E de resto apareço como o palhaço, na esperança de que uma frase irrisória que eu diga acorde um cérebro entorpecido de auto-confiança.

Retrato de uma Retratação

Este post pretende analisar os pontos significativos da retratação apresentada pelo Bule Voador em relação à publicação de uma notícia absurda e mentirosa, inventada por um mitômano notório. Sugiro a leitura desta postagem anterior para compreender melhor o que está sendo dito.

Não concordamos que nossa falta de cautela tenha sido absoluta, mas reconhecemos que ela existiu.

Como assim, caras pálidas? Não concordam que a sua falta de cautela tenha sido absoluta? Sequer visitaram o blog do sujeito para ver qual a dele? Sequer procuraram mais informações? Se a falta de cautela não foi absoluta, me expliquem onde foi que vocês mostraram alguma cautela nesse episódio. Não ficaria mais bonito dizer que erraram e pronto? Por que relativizar o erro?

Recebemos semanalmente relatos de ateus sendo demitidos ou insultados dentro ou fora de casa por se exporem como tais, e erramos em imaginar que este fosse um caso extremo deste fenômeno existente.

O que nos faz pensar quantos de tais relatos semanais não podem ser, também, inventados por pessoas interessadas em aparecer. Será que não caberia ao bule, se pretende publicar tais relatos, passar a agir de forma jornalística e investigá-los? Infelizmente a grande mídia está decadente e o que está ficando no lugar dela é esse jornalismo podre que republica relatos sem checar nada. Por que não usar de ceticismo quanto a isso, caros amigos?

O fato é que nós nos deixamos levar pelo calor das emoções e abandonamos por um instante nosso crivo cético,

Como assim, “por um instante”? Vocês publicaram a retratação SEIS DIAS após a história ter aparecido no Bule Voador, somente depois de começarem a virar chacota na blogosfera. Por que vocês preferiram exercitar o seu “crivo cético” em relação às pessoas que estavam fazendo críticas às suas práticas em vez de admitir a coisa toda?

até por solidariedade ideológica como ateus que somos,

Pára, Eli, pára que isso é papo de partidão. Por solidariedade ideológica Sartre apoiou a invasão da Hungria pela União Soviética e John Reed fechou os olhos para as primeiras deportações étnicas. Não devemos ser ideologicamente solidários com NADA, mesmo porque, uma ideololgia é uma crença, é um tipo de religião também. Vocês estão pisoteando no túmulo de Bertrand Russell ao admitirem “solidariedade ideológica”.

sequer nos demos conta do quão incoerente, enfeitada e exagerada ela era de fato.

Não se deram conta porque não REFLETIRAM a respeito dela por mais do que alguns segundos antes de apertarem o botão de publicação. A história era autocontraditória e bastaria duas pessoas razoavelmente céticas terem feito uma análise de dez minutos e teriam indícios seguros de que não era verdade. Eu postei uma dura e total retratação NO MESMO DIA em que a história foi publicada e o link para o meu post esteve por minutos entre os comentários. Se vocês não estivessem ocupados sendo ideololgicamente solidários com os outros poderiam ter visto que nada ali se sustentava. E vocês ainda acham que houve alguma cautela nos procedimentos (“não concordamos que nossa falta de cautela tenha sido absoluta”).

Depois de publicado e em função das necessárias críticas, paramos para refletir sobre o assunto,

Se não tivessem surgido as “necessárias críticas”, quanto tempo vocês teriam demorado para refletir sobre o assunto? Quantos relatos semelhantes não devem estar dormindo nos arquivos do Bule, apenas porque ninguém enfiou o dedo na ferida?

Entretanto, com tamanha visibilidade do blog, não poderíamos simplesmente apagar o post imediatamente, que, nos primeiros 30 minutos já tinha quase 700 visualizações, mesmo postado às 5h da manhã.

Então, já que não podiam apagar, a coisa certa a fazer era dizer que estavam fazendo um “experimento sociológico”? Vem cá, vocês já ouviram falar de “ad hoc”? Senta lá, Cláudia.

A demora para nos posicionarmos publicamente sobre o ocorrido foi em função de decisões em grupo do Conselho de Mídia,

Ou seja, os responsáveis pela publicação tentaram evitar a retratação ao máximo, mesmo depois de terem percebido a patranha.

mas o máximo que recebemos foram links próprios irrelevantes e muito ad hoc.

Então vocês já ouviram falar de “ad hoc”.

Lamentamos que existam ateus assim, que contam qualquer coisa para difamar religiosos, e declaramos a história contada pelo Guilherme Kempoviki uma farsa até evidência em contrário.

Como assim, “declaram”? Vocês têm o poder de decidir o que é verdade e o que é farsa? Ah, esqueci que sua falta de cautela não foi absoluta!

Eli Vieira, e outros. Lamento dizer, mas vocês se tornaram aquilo que tanto combateram: Daniel Sottomaior e sua ATEA. “Quando contemplas o abismo, o abismo também te contempla” (Nietzsche).

Diversidade da Unidade

Comentário a respeito de certas observações feitas por participantes de um fórum na Internet

Um dos perigos da ideologização das bandeiras progressistas é a criação de consensos e compromissos que as atenuam de forma suave e gradual até se transformarem em sua própria negação. Um bom exemplo foi a Revolução Russa, em sua fase institucionalizada: primeiro puseram o Partido para falar pelo povo, depois os Comitê Central para falar pelo Partido, depois o Presidium para falar pelo Comitê Central.

Basicamente o que você está propondo é que em nome da "unidade" do "movimento" os "revolucionários" fechem os olhos para posturas antiéticas, contraproducentes, equivocadas e/ou simplesmente fadadas ao fracasso (por favor, o "e/ou" se refer a cada um dos itens). Alguns aqui discordaram de uma edição do vídeo que distorceria o que foi dito por Malafaia, você acha que devemos aceitar "edições de vído" em nome da coerência da "revolução". Eu, que já vi o estrago que uma "edição" bem feita pode fazer (eu tinha 17 anos incompletos em 1989), afirmo que não podemos aceitar isso com naturalidade.

Uma luta que recorre a armas falhas não pode ser bem sucedida. Porque, mesmo que vença, será uma vitória para estabelecer outro erro. O socialismo era uma ideia bonita, mas a revolução russa criou um imperialismo totalitário -- isso não foi bonito. Engraçado que por muito tempo os socialistas desculparam os desvios da revolução justamente para evitar a desunião, denunciando como vaidades fúteis e traições os casos de deserção.

O mais absurdo de se fechar os olhos a algo que achamos errado, apenas para manter a união, é que nós fechamos os olhos, mas o adversário, não. Mesmo que nós não critiquemos uma falha no "movimento", certamente o adversário a perceberá e a utilizará para seu benefício. O que o movimento ganha, então, fechando os olhos para suas contradições? Nada além de permitir que lideranças ineptas dominem o quintal. Lideranças que pregam para os conversos, mas não tem sucesso em enfrentar o mundo "lá fora".

A autocrítica não é uma fraqueza, é uma força. Um movimento que se vê "enfraquecido" pela existência de autocrítica é um movimento mentiroso, que veste uma impostura de unidade e força para consumo interno, mas que perde legitimidade perante a sociedade e perante a posteridade.

Se queremos produzir uma mudança nova, permanente e valiosa para a sociedade, precisamos que nossa luta se baseie na transparência, na ética e na racionalidade. Isso inclui aceitar a autocrítica como uma forma de detectar precocemente falhas estratégicas. Inclui rejeitar os vícios que combatemos, em vez de apenas inverter o balanço do poder, substituindo um extremo pelo outro. Inclui aceitar lideranças pela sua eficácia e pela sua coerência, e não pelo seu carisma.

Aquilo que vocês dois propuseram é uma reação imatura (quase infantil) diante do diagnóstico de um possível erro. Eu me distancio de movimentos que possuem tais lideranças e que se baseiem em tais estratégias. E acredito que todos que não queiram decepcionar-se devem afastar-se também.