O Dilema da Grécia

O que mais se tem dito, com um «moralismo monetário» de dar nojo, é que a Grécia está a cometer uma espécie e de crime, como se cada grego do mundo estivesse «roubando» de outros aquilo que seu país não tem mais conseguido pagar (e que aparentemente não mais pagará). A hipocrisia é uma homenagem envergonhada que o vício presta à virtude, como disse La Rochefoucauld, mas a falsa analogia é a homenagem que a estupidez faz à racionalidade.

Relações internacionais não são pautadas pelo moralismo. Países não são pessoas. As relações que concebemos entre indivíduos não podem ser estendidas automaticamente às alianças entre nações. Crimes, como «roubo», são definidos pelos estados segundo leis que devem ser obedecidas por seus cidadãos. Tão relativo é o conceito de crime que é frequente que o mesmo ato, tolerado em um lugar, seja severamente punido em outro — e vice-versa. Se as nacionalidades, tomadas em seu coletivo, podem cometer «crimes» (tal como sugeriu Euclides da Cunha), estes não são análogos aos crimes que as pessoas cometem, justamente porque o marco legal que os define é outro. Devemos, pois, deixar de lado todo moralismo pedestre ao analisarmos o caso da Grécia, pois não estamos a falar de alguém que tomou a bolsa de uma velhinha. Nem a Grécia é um punguista e nem os seus credores são uma inocente senhora. Malcolm X disse, com alguma propriedade, que, se não prestarmos atenção, os meios de comunicação podem nos fazer amar ao opressor e detestar ao oprimido. Ponha-se de lado tudo o mais que Malcolm X disse e fez, por esta frase ele já merece ser lembrado, pois é evidentemente assim que as coisas se dão — o caso da Grécia é apenas um exemplo.

A dívida de um país não é como a dívida assumida por um indivíduo. Existem diversas diferenças e pouquíssimas semelhanças. Para começar, a dívida do indivíduo é pessoal, geralmente fruto de um ato de sua vontade, enquanto a dívida nacional é impessoal, fruto de uma política adotada por um governante eleito que apenas supostamente expressa a vontade do povo. Digo que apenas «supostamente» porque é impossível que o povo saiba tudo o que faz o seu governo (se soubesse, como disse Bismarck, não haveria governo) e, ainda que saiba e consinta, é impossível que a tudo entenda e preveja. A maioria das pessoas já tem alguma dificuldade para gerir a própria vida e não reserva muito tempo para pensar «grande» nos destinos do país. Em vez disso, confiam estas decisões aos seus líderes, eleitos ou não, limitando-se a acompanhar, muito mal e porcamente, e a manifestar-se, periodicamente, nas eleições, a respeito do trabalho que se faz. A democracia representativa pode, muito facilmente, conduzir o povo à alienação — e os políticos, de todas as cores ideológicas, se comprazem nisso porque lhes é conveniente que o povo saiba pouco. Um povo que pouco sabe e pouco entende é um povo cujo voto pode ser conquistado com pouco esforço (embora se possa requerer um custo alto, ainda assim).

Se a dívida nacional é fruto da vontade de um governo — que pode expressar a vontade da maioria do povo, mas nunca representa o entendimento e o consentimento bem informado desta mesma maioria — e da liberalidade do emprestador, resulta que não pode existir quanto a ela o mesmo grau de responsabilidade pessoal que existe na dívida que você, leitor, contrai com o banco para comprar um novo televisor em prestações mensais.

Especialmente porque a dívida nem sempre resulta em benefício ao povo. Nos anos oitenta era voz corrente cá na América Latina que as dívidas do chamado «Terceiro Mundo» deveriam ser auditadas. Dizia-se isso porque as pessoas bem-informadas sabiam que boa parte dos recursos emprestados (e transformados em dívida nacional) nunca, de fato, chegavam cá, mas eram desviados no meio do caminho e retornavam aos mesmos países emprestadores (ou a outros) na forma de «contas secretas» em nome de chefes de estado corruptos ou seus apaniguados.

Até as pedras de Zurique sabem que a prosperidade helvética se construiu com as fortunas depositadas de boa gente como Mobutu Sese Seko, Papa Doc, Idi Amin Dadá, Joaquín Balaguer e uma multidão de outros tiranos corruptos da África e da América. Condenar os povos do Terceiro Mundo a pagar estas dívidas é uma injustiça suprema. É como condenar você, leitor, a pagar a conta do seu cartão de crédito que foi fraudado.

No mundo das finanças pessoais existem inúmeras formas de proteção do indivíduo. Se o seu cartão de crédito for fraudado você será ressarcido pelo banco emissor. Se não puder pagar seus empréstimos, poderá renegociá-los (frequentemente a taxas mais baixas e com prazos maiores). Se em último caso inadimplir e nunca pagar, terá caducados os seus registros negativos de crédito após cinco anos e poderá voltar a atuar. Todas estas salvaguardas (e outras que nem lembro) existem para que o indivíduo não seja condenado a arrastar miseravelmente até o fim de sua vida uma dívida impagável. Elas não existem para que você não pague, mas para que os bancos se lembrem de lhe dar crédito em condições razoáveis, ou você fica inadimplente e eles perdem, não só o dinheiro emprestado, mas também o cliente. Nenhuma destas salvaguardas existem para os países.

Se uma nação se endivida, mesmo que seja mediante a fraude de um governo corrupto, ditatorial, impopular ou pouco transparente, a dívida deve ser paga. As renegociações nunca são a taxas mais baixas e prazos maiores simultaneamente. Diferentemente das finanças pessoais, os credores dos países se arvoram ao direito de entrar em sua casa, fazê-lo desligar alguns eletrodomésticos, obrigá-lo a vender objetos de valor (pelo preço que eles decidem, não pelo que você venderia) e ainda o obrigam a trabalhar horas extras, mesmo que o seu patrão não as pague.

Basicamente é o que ocorre quando o FMI, o Banco Mundial e outras instituições «inspecionam» as finanças de um país, obrigam-no a desativar programas sociais, vender empresas estatais ou patrimônios públicos, aumentar os impostos, baixar investimentos etc. E tais medidas devem ser seguidas à risca, mesmo não dando resultado, assim como o agiota o obrigaria a trabalhar mais para pagar as prestações, mesmo que você não receba as horas extras.

Uma nação endividada perde a sua soberania. E não importa como se endividou. Em alguns casos sequer importa «quanto» se endividou. O que importa é se consegue repagar os empréstimos feitos. Mas este repagamento não significa que o país está saudável, porque se os credores quiserem eles podem emprestar dinheiro para pagar as dívidas anteriores, mantendo a bicicleta a rodar. Um país se torna inadimplente, muitas vezes, apenas porque os credores decidiram que ele deve se tornar inadimplente.

Enquanto os credores ainda não decidiram que o país deve inadimplir, ele terá acesso fácil ao crédito e poderá acumular um nível de endividamento inimaginável para uma pessoa física. A Grécia, por exemplo, deve 180% do PIB. Isso é o mesmo que uma pessoa que recebe R$ 60.000,00 por ano ter uma dívida de R$ 108.000,00. Não parece muito (na verdade, se você fez financiamento imobiliário este deve ser o patamar de endividamento que você tem agora, desconsiderando seu patrimônio como fonte potencial de receita em caso de venda). De fato não é muito.

Um endividamento de 180% do PIB é menor, por exemplo, do que o endividamento do Japão. Não me consta que o Japão esteja inadimplente com seus compromissos ou que os credores temam uma bancarrota nipônica iminente. Os fatores que explicam a crise grega são outros. A Grécia está em crise, e finalmente inadimpliu, porque, à parte o seu endividamento, o país está há quase uma década em recessão. Se a economia estivesse crescendo normalmente, a Grécia poderia fazer algumas reformas estruturais, gerar superavit e continuar pagando a dívida até extingui-la, dentro de décadas ou séculos. Mas a agudização da recessão levou o país ao deficit, a má gestão econômica agravou isso e o FMI, com sua receita de desastre, determinou o desfecho ao obrigar a Grécia a fazer exatamente tudo que deprime a economia em vez de fazê-la crescer.

O FMI é o médico que receita o mesmo remédio para todos os pacientes e, mesmo vendo-os sempre morrer, continua acreditando na cura e culpando os falecidos por o remédio não ter funcionado com eles.

A receita do FMI para a Grécia foi a mesma que causou a «década perdida» da América Latina. A diferença é que a Grécia é menor, menos populosa e tem menos recursos naturais do que os países latino-americanos. A Grécia não tem como gerar superavit exportando produtos primários porque tem uma economia subdesenvolvida e limitada ao setor de serviços (turismo e navegação). Todo o resto da economia grega tem pequena importância relativa ao PIB. A economia grega é extremamente vulnerável à «confiança» externa porque de fato não possui nenhuma commoditie significativa para oferecer e nem se industrializou como uma Coreia do Sul ou uma Taiwan.

O que está acontecendo na Grécia não é, portanto, um caso análogo ao batedor de carteiras roubando a velhinha. A menos que a velhinha seja a Grécia e o batedor de carteiras seja o sistema financeiro internacional.

Os gregos não têm nenhuma falha moral, não estão «roubando» nada aos demais países do mundo, mesmo porque não foi aos cidadãos desses países que os gregos andaram a pagar suas dívidas, mas a um grupo pequeno de grandes empresas financeiras e seus controladores.

O caso da Grécia se parece mais com o do sujeito que se endividou com o agiota e, não tendo como pagar, teve as pernas quebradas por um capanga e ainda assim tem de trabalhar para pagar, ou terá os braços quebrados também. O que estamos vendo na Grécia não é um país que não honra seus compromissos, mas um país que decidiu que a dívida, por mais que se deva pagar, é uma preocupação posterior. Na hierarquia de necessidades, nesse momento salvar o país é mais importante do que pagar a dívida.

Nos anos 1980 o ditador Nicolae Ceausescu decidiu pagar a íntegra de sua dívida com o FMI através de um esforço de exportação agrícola e industrial combinado com redução de salários e racionamento de bens de necessidade, como carvão para calefação. Milhares de pessoas morreram de fome ou de frio na Romênia durante anos. Mas a dívida foi paga. Afinal, era o que os romenos deviam fazer, pois «eles» haviam contraído aquela dívida e era seu dever moral pagar. Não é mesmo?

Lula, o Gênio

Se você descobrisse que tem as maiores reservas inexploradas de petróleo do mundo e suas forças armadas estão praticamente na idade da pedra, o que faria se o maior consumidor mundial de energia, e com um histórico de invadir países ricos em matéria prima, resolvesse estabelecer uma frota de sua marinha bem diante de seu litoral?

Eu, em minha santa inocência, procuraria trazer como parceiro nestas reservas um dos maiores inimigos do tal país. E tentaria armar as minhas defesas com tecnologia comprada de outro.

A história ensina que os russos costumam ser ótimos amigos, do tipo que não abandona quem lhes deu a mão. Cubanos e sírios que o digam.

E os chineses, bem, enquanto eles não tiverem frota diante de nosso litoral e estiverem dipostos a pagar, eu acho uma ótima ideia trocar petróleo por amizade com eles.

Os BRICS foram uma sacada gigantesca do Lula, que aproveitou um artigo de um economista inglês para ter uma desculpa perfeita para começar uma aliança contra os EUA. Rússia e China não são somente dois países "emergentes" (o primeiro está mais para "submergente"), mas duas potências com poder de veto na ONU e com interesse em tudo que seja contra o interesse americano. Também têm tecnologia que nos interessa. A Índia meio que não é quente nem fria nessa história, mas sua presença ajuda a diminuir a margem de manobra ianque na Ásia, e cimenta a aliança asiática.

Recentemente, a entrada da África do Sul pretendeu sinalizar aos africanos que os chineses estão dispostos a fazer na África algo que os americanos e europeus nunca fizeram: compartilhar poder. Aos poucos os BRICS cercaram uma parte significativa do mundo, criando uma situação na qual a entrada dos EUA só poderá ser através de uma guerra total. O sucesso da estratégia ficou configurado com a crise síria, resta saber se os EUA vão ser tão medrosos quando a aposta for mais alta. Talvez até sejam, mas os russos e chineses, até lá, já terão conseguido se preparar para enfrentar o desafio.

O primeiro passo é o desmonte do dólar como divisa internacional. Rússia, China e Índia já estão comerciando entre si em rublos e rúpias (ainda não em yuans, mas isso começará em breve). China, Rússia e Índia asseguraram seu acesso permanente a todo tipo de matérias primas, ao se alinharem com o Brasil e a África do Sul. A China está formando reservas de ouro e platina (a África do Sul, maior produtor mundial dos dois metais, não entrou nos BRICS à toa). O Brasil se propôs a compartilhar o custo de desenvolvimento da nova geração de super-caças russos. Em troca, receberá a preço de banana os MiG e Sukhoi que forem aposentados da força aérea russa. O trato é parecido com o que Rússia e China fizeram nos anos 80, e resultou nos misseis "Bicho da Seda", nos foguetes "Longa Marcha", nas cápsulas espaciais "Shenzhou" e nos clones de aviões MiG e Sukhoi que a China produz. Duvido que os nossos militares fiquem tristes com a qualidade do material que terão em mãos.

Desde que foi revelado que o governo americano espionava todos os serviços de internet, quebrando a confiança até mesmo da autenticação TSL/SSL, ficou clara preocupação ianque com os rumos que a coisa tomava. Qual seria o sentido de comprar caças americanos, ou caças suecos com tecnologia americana embarcada? Esses caças seriam inúteis numa guerra contra o único país do mundo que deu mostrar de querer nos invadir: os EUA. Nesse sentido, faz todo sentido usar armamento russo. Eu até acho que devíamos ceder uma base naval e/ou aeronáutica aos russos. A Síria não se arrependeu de ter feito isso, e talvez os russos estejam interessados. Talvez apenas isso deva ser feito devagar, para não assustar o grande irmão do norte.

Porque os EUA Precisavam Neutralizar a Coreia do Norte

Ao contrário da maioria, e à semelhança de Nélson Rodrigues, eu tenho uma certa aversão à unanimidade. Não porque ela seja burra, mas porque enquanto todos estão concordando, não sobra tempo para se analisar o lado oposto, o que significa que, se a unanimidade estiver errada, e ela pode estar, não há ninguém preparando um plano B. É muito importante duvidar, mesmo daquilo que parece certo. Duvidar não é descartar, duvidar é especular alternativas, é tentar chegar mais perto da verdade mesmo quando todos insistem que já estamos o mais perto possível. Só que não existe um horizonte de eventos para verdade, e geralmente as unanimidades são construídas através do efeito de manada.

Este post é ilustrado por uma foto do “Bosque dos Heróis”, um monumento em Windhoek, na Namíbia. Este é um dos vários monumentos comemorativos construídos pelo mundo por uma empresa chamada Mansudae Overseas Projects, da Coreia do Norte. Somente em 2011 esta empresa, apesar do bloqueio econômico a que o país de brinquedo de Kim Jong-Un está submetido, trouxe mais de US$ 160 milhões em divisas para Pyongyang. A MOP é uma das mais de cem empresas criadas pelo governo da Coreia do Norte nos últimos dez anos em vários ramos da indústria pesada (construção civil, aço) e leve (componentes eletrônicos, plástico, processamento de pesca, etc.). Será que isso parece com um país morto de fome a ponto de seus habitantes estarem supostamente comendo uns aos outros?

Quando você terminar de ler este artigo, eu espero ter conseguido abrir seus olhos para muita coisa que não vem à tona do debate sobre a Disneylândia dos comunistas.

A primeira destas coisas é o estado real da economia norte coreana. A julgar pelas notícias veiculadas pela imprensa alinhada com os interesses americanos, a Coreia do Norte vive desde 1992 em um estágio pré falimentar, caracterizado pela fome generalizada, a obsolescência de toda a infraestrutura e a corrupção desenfreada do governo. Em suma, um país tão pronto para se liquefazer amanhã quanto Jesus está pronto para voltar.

Mas um país em tal estado não conseguiria dar mostras de vigor industrial e econômico, não conseguiria retomar e terminar a construção do mais famoso prédio inacabado do mundo. Não conseguiria fazer três testes nucleares e vários lançamentos de foguetes em um curto espaço tempo.

É verdade que esses triunfos devem estar sendo conseguidos à custa do sofrimento do povo, mas não há muito leite para se ordenhar em uma pedra: se o país não estivesse recuperado da crise de meados da década de 1990, não haveria nada para roubar do povo e destinar à megalomania de seu governo. É preciso ter a cabeça firmemente enterrada na areia para conseguir acreditar que um país que só piora economicamente teria capacidade para criar novas indústrias, desenvolver tecnologia bélica e começar a prestar consultoria a outros países. Sim, a Coreia do Norte presta consultoria em engenharia e administração de sistemas. Só não tem mais fregueses por causa do embargo, e do fato de que não há muito mercado para computadores em coreano.

Então fica evidente que o discurso da Coreia combalida deve ser só uma mentira a mais contada pelos americanos para criar empatia na comunidade internacional, assim as pessoas ficam com peninha dos coreanos mortinhos de fome e apoiam que sejam bombardeados de volta à Idade da Pedra, como no Iraque.

A verdade deve ser que os americanos receiam que esse relativo ressurgimento da Coreia do Norte vai dar fôlego  aos tiranetes de lá para continuarem brincando por mais algumas décadas, especialmente depois que a transição de poder do descabelado para o gorduchinho parece ter se consolidado, ao contrário do que esperavam os analistas ianques.

A segunda coisa parte justamente desta transição: parece haver consenso de que o novo tiranete consegue ser mais ridículo que seu pai (que já fora ridículo a ponto de sequestrar um diretor de cinema e forçá-lo para fazer uma paródia socialista de Godzilla, pentear o cabelo para cima para parecer mais alto e mandar construir pelo país auto-estradas de oito pistas em cada direção, que ficam vazias quase todo o tempo). Ora, se um óbvio idiota conseguiu ficar no poder de uma ditadura cruel, isso deve significar que ele não tem poder nenhum, deve ser só um fantoche, uma face humana do jogo de poder dos bastidores, um Grande Irmão vivo. Vocês já devem ter reparado que ele está quase sempre acompanhado de alguns generais com quepes altos e dólmãs tão condecorados que é preciso usar a calça para exibir o resto das insígnias. Se isto for verdade, não adianta esperar pela morte dele, não adianta nem matar ele. Sempre haverá um outro rosto para pôr no lugar e o regime ficará de pé.

Então, as tentativas americanas de agredir a Coréia do Norte revelam o desespero de quem já percebeu que não adianta esperar pela combustão espontânea do regime de Pionguiangue. A Coréia do Norte está aí para ficar, incomodando os Estados Unidos durante ainda algumas décadas. E agora que o Irã e a Síria caíram debaixo da asa amiga da Rússia, o mundo está começando a ficar salpicado de lugares onde Tio Sam não põe o pé. Uma nova cortina de ferro está se formando devagarinho.

Sobre os Malefícios Mentais do “Anarcomiguxismo” (2)

Sendo o anarcomiguxismo um sistema de crenças essencialmente irracional, como demonstrado acima, a continuidade da crença depende da supressão do espírito crítico. Refiro-me a uma atitude receptiva em relação a conhecimentos obtidos de certa fonte (especialmente os artigos do Instituto Mises e os dados do Heritage Foundation, mas não somente) aliada à rejeição apriorística de informações obtidas de outras origens. Essa "endogamia" intelectual, na qual as ideias do indivíduo são alimentadas exclusivamente por textos que reforçam seus conceitos anteriores (pré-conceitos) produz uma baixa gradual do ceticismo, pois um texto é aceito como corroboração de outro, de forma recursiva, em um gradual afastamento em relação a qualquer capacidade de questionar.

Essa autorreferência do pensamento anarcomiguxo produz um descolamento da realidade tão profundo que somente aos olhos de quem está "de fora" é possível discernir o grau de absurdo. O "anarcomiguxismo" é, então, uma espécie de Cientologia econômica, cujos artigos que mencionam Xenu só são apresentados a quem já leu as obras mais básicas. Da mesma forma que a Cientologia não começa por pregar ao neófito que há bilhões de anos um vilão espacial transportou seus inimigos para a Terra a bordo de aviões DC-10 e os explodiu com bombas atômicas dentro de vulcões, os anarcomiguxos não começam explicando textos polêmicos, tais como:

  • A Ética da Liberdade (Murray Rothbard), em cujo capítulo XIV ele diz que os pais deveriam ter poder ilimitado sobre seus filhos --- inclusive podendo matá-los, vendê-los ou prostituí-los --- e que a educação infantil deveria ser facultativa.
  • Legalize Drunk Driving (Lew Rockwell), onde se argumenta que o Estado não tem o direito de, mesmo sob o pretexto de proteger a vida de outras pessoas, impedir que o proprietário de um veículo o dirija.
  • O Caminho da Servidão (Frederik Hayek), onde se argumenta que a adoção de medidas humanitárias e a concessão de direitos às massas produziriam o fim da liberdade (econômica, claro), criando ditaduras e destruindo o mundo…

A adesão a esse sistema de crenças enviesado e em franca contradição com o bom senso (Rockwell e Rothbard) ou com os fatos históricos observados (Hayek) tem sobre o "anarcomiguxo" o efeito de condicionar a sua própria interpretação da realidade, levando-o a agir de forma equivocada diante de situações que exijam uma leitura correta dos acontecimentos.

Um exemplo deste efeito "alucinógeno" do "anarcomiguxismo" sobre seus adeptos é o que está acontecendo com o Dâniel Fraga.

Dâniel é figurinha carimbada dos fóruns internéticos há muitos anos. Nunca foi muito certo da bola, tendendo a ter opiniões exacerbadas e uma reção meio infantil diante de contestações firmes. Certamente alguém com certo problema mal resolvido com autoridade, sei lá, talvez um complexo de Édipo.

Ele aderiu às ideias "anarcomiguxas" de uns dois ou três anos para cá. Pelo menos esse é o horizonte de tempo ao longo do qual eu me lembro de tê-lo visto discursando enfaticamente contra as maldades do Estado e as maravilhas das empresas e dos indivíduos. Seu canal no YouTube foi, durante este tempo todo, uma das maiores fontes de difusão do pensamento "anarcomiguxo". De fato, eu uso este termo, que não foi cunhado por mim, de forma a evocar aquilo que Fraga se tornou. Minha definição de "anarcomiguxo" é Daniel Fraga.

A fama lhe subiu à cabeça, embora não lhe tenha sido suficiente para subir de nível a mobília de seu quarto (que, ainda assim, parece mais organizado que o meu). Isso fez com que ele subisse de nível em suas críticas, adotando um tom cada vez mais destemido, belicoso até. Desenvolvou uma entortada de boca que sugere alguém que morde as palavras com raiva quando as diz, e expele seus argumentos com força e dor, como quem expele cálculos. Não sei se isso foi intencional, mas ele copiou de muitas formas os trejeitos de Olavo de Carvalho. A diferença é que Olavo se auto-exilou nos EUA, de onde pode dizer o que quiser sem riscos. Fraga ficou no Brasil, e aqui, como sabemos, não existe liberdade de expressão absoluta.

Eventualmente Fraga cometeu algo temerário: criticou um juiz. Juízes são bichos difíceis de criticar porque, apesar de todo o aperfeiçoamento de nossa democracia desde 1988, eles ainda são, praticamente, acima da lei. A pior coisa que pode acontecer a um cidadão é incorrer no desagrado de um juiz. Melhor blasfemar contra Deus do que contra um juiz, se é que vocês me entendem. Porque, mesmo que não façamos nada de errado, não é desejável o incômodo de um longo processo, com todo o seu custo monetário e o desgaste de imagem que isso traz. Dependendo das circunstâncias, um veredito de inocente pode ser totalmente irrelevante, pois o processo em si já foi uma punição cruel.

Mas Fraga fez pior: ele não se limitou a criticar o juiz, ele o fez de forma insultuosa, estendeu a crítica a outros juízes, e explicitou em sua crítica que o juiz seria "ignorante" (sic) do assunto sobre o qual decidiria.

Por mais que eu ache que a liberdade de expressão deva ser mais garantida neste país, eu não consigo achar certo o modo como Fraga se expressou. Um juiz é uma autoridade, e uma autoridade que não tem origem democrática, ainda. Isso quer dizer que existe certo protocolo envolvido. Você não pode simplesmente tratar um juiz como trata um vereador, que pode perder a próxima eleição e cuja autoridade é limitada por essa e outras circunstâncias. O juiz não está sujeito a eleições, ele não presta contas a ninguém, e ele tem suas prerrogativas de forma vitalícia.

Não que eu concorde com esse estado de coisas. Longe de mim. Mas essa é uma leitura realista da mundo real. Diante de uma leitura realistas, devemos tomar medidas realistas. O mundo real não é um fórum da internet, onde você se esconde atrás de um fake para xingar um desafeto. Em certo momento, Fraga se esqueceu de que não estava "na internet" quando fez uma crítica sobre um fato do mundo real. O juiz, ser material existente no mundo real, tomou conhecimento e agiu.

Imagino que Fraga, ao fazer sua crítica, não supôs que haveria consequências. Ele está acostumado a usar palavras muito fortes para se referir a seus desafetos e a políticos de quem discorda. A impunidade o fez ficar descuidado. Não entendeu que não podia simplesmente chamar um juiz de "ignorante" e que não tinha o direito (nesse caso eu afirmo que ele não tinha o direito) de falar rosnando para uma autoridade como ele falou.

Foi um erro grave, mas ainda não foi o mais grave de seus erros. Tamanho era o descolamento de Fraga em relação à realidade que, mesmo depois de notificado judicialmente, ele continuou a agir de forma tresloucada, sem levar a sério a situação em que se metera, tal como Josef K. Se amanhã ou depois tiver um triste fim, "como um cão", terá sido por sua própria falta de juízo. Se é que me entendem.

O juiz ofendido, aparentemente, acionou-o por calúnia e pediu segredo de justiça porque Fraga, tendo acesso ao YouTube, poderia fazer uma grande celeuma sobre o caso, prejudicando o processo. Entendo que o pedido de segredo de justiça foi desnecessário, mas eu entendo aonde o juiz quis chegar e não consigo discordar totalmente de sua interpretação. Opinião minha achar desnecessário. Mas absurdo o pedido não foi.

Porém "Fraga Man" --- o super herói anarcomiguxo, que combate o Malvado Estado usando sua camisa azul-água, seus óculos sem aro, seu roupeiro padrão cerejeira e seu teclado --- não se conformou em não poder noticiar o acontecido! Não, o povo precisa saber. E já que o juiz botou segredo de justiça, what would Misus do? Se ele tivesse simplesmente continuado a falar do caso, mesmo com ordem de manter segredo, já estaria fazendo uma cagada grande, mas o típico anarcomiguxo não se contenta com pouco: Fraga precisava fazer uma cagada gigantesca. Ele mesmo confessou em um vídeo que "na internet não existe segredo de justiça" e exibiu cópias impressas de documentos referentes ao processo.

Não tenho palavras para descrever o que pensei ao vê-lo dizer isso. Meu queixo caiu no chão e quicou. Se um documento está em segredo de justiça e ele o obteve através da internet, esse arquivo só pode ter sido obtido mediante uma invasão do sistema do TJ-SP, um acesso não autorizado. Espionagem, se é que vocês me entendem. Fraga confessou publicamente que obteve por meio ilegal (possivelmente criminoso) documentos que um juiz determinara serem segredo de justiça. Não apenas ele violou o segredo de justiça decretado, como fez questão de dizer que a violação ocorreu por um meio ilegal!

É difícil acreditar que uma ameba destas tenha inteligência normal. Na minha opinião, a partir do momento em que ele CONFESSOU ter violado o site do TJ-SP para obter os documentos, a punição de Fraga não apenas se tornou inevitável, mas é agora necessária. Em nome da democracia e da segurança das instituições, um sujeito que viola o site do Tribunal de Justiça para ter acesso a documentos sob segredo de justiça não pode ficar impune. Isso desmoraliza a própria justiça e achincalha a democracia.

Gostaria de deixar aqui bem claro que existem dois momentos separados nesse evento. O momento em que Fraga faz uso de sua liberdade de expressão para criticar um juiz e o momento em que ele se vangloria de apresentar documentos obtidos apesar do segredo de justiça.

No primeiro momento Daniel tem a minha solidariedade, embora eu ache que ele foi ingênuo, idiota e sem educação (coisa que ele normalmente é na internet). Acho que ele merecia uma reprimenda. Possivelmente o caso estava sendo tratado com exagero (talvez por vaidades envolvidas), mas ele precisava de um susto para "tomar tenência na vida". Para não ficar achando que pode falar o que quer, do jeito que quer, com qualquer pessoa. Para alguém que propõe a viabilidade dum "pacto de não agressão" entre os indivíduos numa sociedade sem Estado, Daniel é agressivo demais.

Mas eu não me solidarizo com Daniel Fraga pelo seu segundo ato. Se ele se sentia injustiçado, tinha todo o direito de se defender, constituir advogado, lançar uma campanha de solidariedade, apelar à Anistia Internacional, acender uma vela para Exu e outra para Jeová; fazer o que quisesse, DENTRO DA LEI. Recursos existem para isso mesmo. O processo é doloroso, a última coisa que eu quero é ficar inimigo de um juiz, mas chutar para o alto as leis e os costumes da democracia têm um custo maior.

Talvez Dâniel tenha querido brincar de desobediência civil. Leu demais Henry David Thoureau. Duvido que tenha pensado em se fazer de mártir da liberdade de expressão, ou do movimento libertário (t.c.c. "anarcomiguxo"). Talvez apenas não tenha se dado conta em tempo da necessidade de racionalidade para agir no mundo real, visto que no mundo virtual a sua persona se caracteriza pelo exercício contínuo da irracionalidade. Minha impressão é que Dâniel se tornou uma vítima da distorção cognitiva que o "anarcomiguxismo" provoca, incapacitando o indivíduo para compreender a realidade de forma útil.

E desta forma, Fraga se vê no meio desse redemoinho, totalmente despreparado para compreender esta cruel realidade, tão diferente do universo mágico em que viveu por tantos anos. Para tornar seu caso ainda mais trágico, ele não me parece ter os meios materiais para se defender eficazmente e a própria ideologia que defende parece ser incompatível com a solidariedade de outros como ele.

Diante destas circunstâncias, acho que a melhor saída é pedir que alguém da família requisite sua tutela por insanidade.