Sob o Signo da Águia

Marx inicia O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte tecendo uma série interessante de considerações sobre os processos históricos em perspectiva. Nos primeiros parágrafos encontramos uma das mais famosas invectivas marxistas, segundo a qual "todos os grandes feitos e personagens da história universal aparecem, como se pode dizer, duas vezes[…]: uma vez como tragédia e a outra como farsa.” A exemplo de quase toda a obra do filósofo alemão, esta frase tem sido muito mal interpretada (e não conseguirei corrigir isso, não nesse momento), mas ela expressa algo muito verdadeiro, que só fica claro quando contemplamos o parágrafo seguinte:

Os homens fazem sua própria história, porém não a fazem com o seu livre arbítrio, sob as circunstâncias que eles mesmos escolhem, mas sob as circunstâncias com que se encontram diretamente, que existem e que lhes foram legadas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E quando estes aparentam dedicar-se precisamente a transformar-se e a transformar as coisas, a criar algo nunca visto, nestas épocas de crise revolucionária é precisamente quando conjuram temerosos em seu exílio os espiritos do passado, tomam emprestados seus nomes, suas insígnias de guerra, seus uniformes, para, com este disfarce de velhice venerável e esta linguagem postiça, representar a nova cena da história universal.

Fica claro que “tragédia” e “farsa” são tomadas pelo seu sentido literário, e não pela conotação pedestre que as pessoas normalmente usam. Tragédia é uma história grandiosa e sagrada, de deuses e heróis. Farsa é uma história pequena, limitada e sem sentido. Não há caráter humorístico na segunda, e nem um final necessariamente “trágico” na primeira. O que Marx está querendo dizer é que as repetições se caracterizam pela inautenticidade, pela reivindicação de laços que são, de fato inexistentes.

Os exemplos dados por Marx falam por si em apoio a esta intepretação: Lutero como Paulo, a Revolução Francesa imitando a República Romana e depois o Império. Este artigo pretende apontar mais uma circunstância em que o passado é intencionalmente evocado para legitimar algo novo. Mas não se trata de uma evocação realmente intencional no seu todo, porque os últimos séculos têm mostrado uma estranha tendência dos fatos históricos em espelhar aquilo que houve na noite dos tempos.

Refiro-me à coincidência entre a história da antiga Roma e a história bem conhecida dos Estados Unidos da América. Citei a frase de Marx porque sei que muitos leitores a lembrarão para dizer que várias das semelhanças que vou apontar derivam da imitação intencional dos símbolos do passado. Concordo que tal imitação acontece, apenas não me darei ao trabalho de explicitar quais coincidências eu atribuo a tal imitação e quais não podem receber esta designação. Existem coisas que são mera coincidência, outras que são fruto da imitação e outras que não são nem uma coisa e nem outra, parecendo evocar uma espécie de inércia histórica que move em uma mesma direção genérica as consequências de escolhas parecidas.

Dizendo em palavras mais comuns: não será possível que um país que adote ideologias semelhantes às de um modelo passado venha a se defrontar com desafios parecidos? Será que a História possui uma inércia que permite reproduzir processos antigos a partir de escolhas e circunstâncias parecidas?

Este artigo não pretende argumentar que sim, apenas atiçar a curiosidade do leitor para a possibilidade. Uma resposta definitiva envolveria conhecimento mais profundo das histórias de ambos os países, conhecimento de um nível que não tenho nem esperança de obter. Que o leitor julgue.

Fase Formativa

Ambas as culturas foram eventualmente consideradas "novas" e "sem raízes" porque se formaram a partir de colônias fundadas por culturas mais antigas. Roma pela Etrúria e os Estados Unidos pelo Reino Unido. Ambas as culturas fundadoras eram confederações de estados: Etrúria, uma dúzia de cidades estado de cultura e instituições semelhantes, 1 e o Reino Unido, por pelo menos doze entidades políticas diferentes (embora hoje sejam somente quatro). 2

O fato de ambas as culturas serem monarquias não é exatamente uma surpresa, visto que esta era a forma de governo mais comum entre os países de antigamente, mas é significativo que Etrúria e Inglaterra sejam representadas heraldicamente por predadores carnívoros (lobo e leão, respectivamente) enquanto Roma e os Estados Unidos são representados por aves de rapina (águias, embora de espécies diferentes).

A fundação dos Estados Unidos diverge significativamente da fundação de Roma pelo fato de terem sido fundadas treze colônias, em vez de somente uma, e por não ter sido mitificada na figura de um rei divino (Rômulo). Porém, ambas as culturas foram fundadas por fugitivos. No caso de Roma, os gêmeos Rômulo e Remo foram perseguidos e tiveram negados seus direitos reais, razão pela qual, mesmo após derrotarem seu perseguidor, preferiram deixar sua cidade original, Alba Longa, e fundar uma nova pátria. Alba Longa era uma cidade mestiça, de instituições etruscas e cultura latina, tal como o Reino Unido era uma cultura mestiça, de instituições normandas e cultura anglo-saxã e céltica.

Após a criação da nova cidade, Rômulo tomou uma medida revolucionária, ao convidar a Roma todos os fugitivos e perseguidos, justa ou injustamente. Com este exército de foragidos ele iniciou o seu poder. Da mesma forma os Estados Unidos, não apenas durante sua formação, mas durante séculos, receberam refugiados de todas as partes do mundo. Esta política teve, também, consequências parecidas: no caso romano, atraiu a ira de todas as cidades vizinhas, fazendo com que a nova cidade já nascesse no meio de uma guerra, que obrigou seus cidadãos a recorrer à violência até mesmo para conseguirem mulheres,3 e no caso americano, fez com que o país estivesse envolvido desde o começo em uma grande quantidade de conflitos internacionais.

A independência romana ocorreu ainda sob o signo da monarquia, algo que não aconteceu com os Estados Unidos, mas os historiadores são unânimes em afirmar que a monarquia romana não era efetivamente independente, mas um estado cliente da cidade de Tarquínia (não por outra razão dois dos reis romanos incluíam o nome desta como sobrenome). Hoje em dia se crê que a fundação de Roma foi um ato de colonização levado a efeito pelos etruscos, às custas de cidades latinas como Alba Longa. Se aceitarmos isso como verdadeiro, então a verdadeira independência romana se dá com a derrubada da monarquia, o que nos leva a uma outra série de semelhanças.

Racismo, Genocídios e Consolidação Territorial

Até bem recentemente, os países não se formavam mediante a proteção de órgãos supranacionais, como a ONU, por isso a sua estabilidade só estava garantida se conseguissem consolidar-se e obter um espaço na geopolítica regional. Isso ocorria através da neutralização dos rivais vizinhos e da incorporação de território suficiente para atender à sua economia. No caso de Roma, a fase de consolidação se inicia com a derrubada da monarquia e se conclui com as Guerras Púnicas, nas quais a República assegurou o domínio do Mediterrâneo, eliminou o único estado que lhe fazia frente e aperfeiçoou as suas táticas guerreiras. Durante esse intervalo de tempo, Roma derrotou definitivamente a Etrúria e a incorporou ao seu próprio território. Simultaneamente, o império romano dedicou-se a anexar territórios dos gauleses, até completar a conquista das terras célticas da Europa em 50 a.C.

Evidentemente existem diversas diferenças para o caso dos Estados Unidos, e tais diferenças são esperadas. O inesperado é uma grande quantidade de semelhanças. Primeiramente, os Estados Unidos, uma vez independentes, estavam reduzidos a um pequeno território espremido contra o mar — tal como Roma. Os primeiros anos do novo país foram caracterizados por guerras contra os índios e contra colonizações vizinhas, culminando com a anexação da Luisiana e da Flórida. Por fim, os Estados Unidos derrotaram pela segunda vez sua nação fundadora (na Guerra de 1812), tal como os romanos derrotaram (e anexaram) a Etrúria. Esta derrota rendeu conquistas territoriais, mas diferente da história romana, não resultou na anexação da metrópole.

O melhor paralelo para as Guerras Célticas, no caso americano, é a Guerra do México (1845-1848), ao longo da qual os Estados Unidos tomaram do gigantesco vizinho um território quase equivalente a todo o que tinham antes, correspondendo aos atuais estados do Texas, Novo México, Arizona, Nevada, Califórnia, Utah e Colorado, além de partes do Oklahoma, Kansas e Wyoming. Mas a analogia com os cartagineses funciona para os alemães. Uns e outros foram considerados bárbaros e acusados dos maiores crimes imagináveis. Os romanos não se cansavam de citar os sacrifícios humanos da religião cartaginesa, especialmente a queima de crianças vivas em honra a Moloque, imortalizada no romance histórico Salambô, de Gustave Flaubert. Não se sabe se esta acusação era verdadeira, embora seja muito plausível considerando o que se sabe sobre a religião dos fenícios, fundadores de Cartago. O que se sabe é que nem romanos nem americanos estão isentos dos crimes terríveis que imputaram aos seus inimigos. O sacrifício humano não era desconhecido em Roma mesmo em tempos imperiais (e há quem diga que os espetáculos de gladiadores funcionaram como uma sublimação de tal prática quando ela se perdeu na religião) e a discriminação contra minorias ao ponto do genocídio foi praticada pelos EUA muito antes da Alemanha nazista, sendo que os próprios nazistas herdaram parte de suas ideias de contextos como as guerras indígenas americanas e de obras de eugenistas americanos. Na época da Guerra Fria, pelo menos até os anos 1960, sempre que os americanos acusavam a URSS de não ser um país com eleições livres, os soviéticos replicavam and you lynch negroes (... e vocês lincham negros).

Transição para o Império

No caso romano a transição para o império foi uma movimentação conservadora causada pelo aumento das reivindicações de reformas, que quase chegaram a derrubar o governo. Após a derrota de Espártaco, ficou claro que o antigo modelo oligárquico estava em crise e era preciso mudar alguma coisa. A escolha dos romanos pelo reacionarismo teve muito a ver com o tipo de religiosidade que viviam, e também com o medo de uma realidade desconhecida.

Os Estados Unidos ainda não completaram a sua transição imperial, mesmo porque isto talvez não seja possível no mundo de hoje, com as mudanças culturais que aconteceram desde o século I a.C., entretanto, é possível ver que aconteceram várias guinadas à direita, com a intenção de neutralizar efeitos das reivindicações populares.

Uma das primeiras guinadas foi o macarthismo, nos anos 50, convenientemente surgindo logo após os Estados Unidos lutarem do lado certo em uma guerra de proporções mitológicas contra um inimigo de semelhante categoria. Muitas pessoas teriam se animado com o combate decidido ao racismo científico dos nazistas e com a solidariedade entre americanos e soviéticos. Foi preciso dar então um choque de realidade em todo mundo, fabricando e intensificando uma rivalidade desnecessária, em um mundo no qual os Estados Unidos praticamente imperavam sozinhos, produzindo 54% da soma total dos PIB de todos os países e tendo a mais poderosa força armada do planeta. É interessante notar que o macarthismo não foi uma política presidencial autoritária, mas um “estado de espírito” insuflado pela direita política e exercido através do congresso. Tal como a reação conservadora em Roma foi bancada pelo Senado. Os romanos não teriam aceito um déspota oriental, por isso era preciso manter as aparências republicanas. Da mesma forma, os americanos não aceitariam um ditador, mas tolerariam um sistema político intrinsecamente fechado a projetos alternativos de poder.

A segunda grande guinada à direita ocorreu nos anos 1980, sob o signo de Reagan, o homem que trouxe ao poder os ideais descaradamente reacionários da direita argentária. E esta segunda guinada aconteceu posteriormente ao grande movimento dos direitos civis e da contracultura dos anos 60, tendo até gerado o termo "youppie", em contraposição a "hippie", evidenciando que os valores cultivados naquela década eram diferentes, para dizer o mínimo, do idealismo sessentista.

Podemos associar o episódio do macarthismo com a crise do século I a.C. e seus triunviratos, que terminou com a instalação de um poder imperial mal disfarçado. Nesse caso o grande Júlio César da política americana parece ter sido John Kennedy, sobre cujo assassinato pesa a eterna suspeita de ter sido a mando da própria CIA e das forças armadas, devido à sua resistência aos projetos de poder da direita e sua permeabilidade aos direitos civis dos negros. A CIA, criada para oferecer informação para subsidiar as decisões presidenciais, foi, então, o "Brutus" desse episódio.

Os movimentos da década de 1980 podem ser comparados à reação conservadora dos governos de Vespasiano, Tito e Domiciano, muito embora ideologicamente muito distintos. O que os une não é a identidade ideológica, mas a dinâmica de movimento à direita após um momento de crise (no caso americano a crise é representada pelos desastrosos governos de Kennedy a Carter, que assistiram à diminuição da hegemonia econômica, o crescimento político e militar do bloco comunista e a crise monetária).

Se a analogia se mantiver coerente pelas próximas décadas, podemos dizer que o momento atual da história americana é análogo ao século I d.C., o momento no qual o império já não era tão agressivo militarmente, preferindo conter-se em suas fronteiras após as primeiras derrotas, sofria forte influência cultural estrangeira e via suas tradicionais instituições republicanas serem erodidas por costumes orientalizantes, o agravamento da desigualdade social e ao declínio tecnológico. Não se anime com esta previsão, foi nesta fase que o Império Romano cometeu alguns de seus maiores desatinos, como o genocídio dos dácios e dos bretões e as primeiras perseguições a minorias religiosas!

Religião e Império

Ao contrário do Império Romano, que foi originalmente uma teocracia de certo tipo, os Estados Unidos surgiram com uma promessa de separação entre o governo e a religião. Nunca um presidente americano se comportou, nem mesmo informalmente, como líder religioso, enquanto o estado romano incluía entre seus postos eletivos o de pontifex maximus.

Esta diferença original não significa, porém, que a força da analogia entre as duas culturas se perca. Roma migrou de uma teocracia para um Estado multirreligioso e multiétnico, com tendência a laicização, por um tempo, enquanto os Estados Unidos, originalmente laicos apesar da relativa uniformidade religiosa, migraram para estruturas mais teocráticas, em reação ao surgimento de minorias culturais.

No auge do processo, sob Marco Aurélio, temos um Império praticamente leigo em termos de religião, embora o imperador ainda detivesse o título de pontífice (ainda que desacreditado pelos desatinos que imperadores passados haviam cometido). No auge do processo americano, que vemos atualmente, temos um governo que cede continuamente a uma agenda religiosa cristã.

Entre as minorias religiosas que tensionaram o tecido social romano estavam, certamente, o mitraísmo, o cristianismo, o arianismo, o gnosticismo e o judaísmo. O cristianismo acabou triunfando e absorvendo ensinamentos e teologias de todos os demais, conseguindo quase apagá-los da História. No caso americano, o papel de tensionador é exercido principalmente pelo islamismo, que se apresenta diante do poder imperial americano quase da mesma forma que o cristianismo primitivo em relação às estruturas romanas de poder. Entretando, esta é uma comparação perigosa, porque o cristianismo não era, então, um movimento religioso tão numeroso e tão influente politicamente quanto o islamismo consegue ser no mundo de hoje. Na época em que Roma perseguia cristãos, o único país cristão do mundo era a Armênia!

Símbolos e Instituições

Foi mencionado acima que tanto Roma quanto os Estados Unidos adotaram a águia como insígnia (e curiosamente as nações colonizadoras que deram origem às duas culturas tiveram por símbolo animais carnívoros, lobo e leão). Essa está longe de ser a única semelhança. Deixei, entretanto, essas comparações para o final porque acredito que a sua intencionalidade enfraquece seu sensacionalismo. Talvez tais símbolos tenham sido sugeridos meramente porque, na época da independência americana, era moda o neoclassicismo, que acabou se refletindo na arquitetura política americana, com seus capitólios e palácios colunados. Mas existem semelhanças que não se explicam só com a moda.

Os Estados Unidos criaram um “Senado” inspirado no senado romano (existe um limite mínimo de idade para ser eleito à câmara alta do Capitólio). Enquanto isso, na Revolução Francesa o parlamento era unicameral. O Senado original também era unicameral, posto que não havia câmara eleita entre os romanos.

A instituição presidencial, apesar de um nome não tradicional, deriva da figura do cônsul romano (o título foi efetivamente usado na Revolução Francesa).

A Ideologia Oficial

Romanos e americanos também têm em comum uma ideologia nacional que os apresenta como faróis da civilização. Os romanos se consideravam sucessores dos gregos e chamavam de “bárbaros” a todos os outros povos (esquecidos de que, aos olhos gregos, tanto os etruscos como eles próprios eram “bárbaros”). Ambos os impérios sempre consideraram a difusão de seus valores como um ato civilizatório, ainda que na maioria das vezes tal difusão se tenha feito por métodos violentos e os povos receptores da civilização romana tenham sido, de fato, subjugados e dizimados (o benefício da civilização era dirigido à terra, não ao povo).

Esta ideologia justificou a anexação da Gália, de que resultou o desaparecimento da cultura céltica na Europa continental (os atuais bretões são descendentes de antigos britânicos que se estabeleceram no continente durante a Idade Média), substituída pela romana de uma tal forma que a língua ali se fixou em menos de duzentos anos. Mais tarde, os romanos executaram conquistas sangrentas contra os dácios, os judeus e os britânicos, sempre em nome da expansão da civilização romana.

É difícil não enxergar o mesmo cinismo quando vemos a difusão da civilização americana e seus efeitos sobre países como o México, que perdeu mais da metade de seu território original, Porto Rico, onde a língua espanhola já começa a ceder terreno, Canadá, cuja parte anglófona cada vez mais se assemelha ao grande vizinho do sul, e até mesmo em lugares distantes, como o Brasil e alguns países da África.

A Moeda, as Finanças e as Alianças

Tanto Roma quanto os Estados Unidos enfrentaram em certa época uma crise econômica de caráter muito parecido. Romanos e americanos adotaram originalmente moedas padronizadas segundo metal precioso, o solidus romano e o dólar americano. Ambas as moedas se apreciaram em consequência do expansionismo, no caso romano com as conquistas de Cartago, Egito e Oriente, no caso americano, principalmente, com o ouro da Califórnia e do Alaska.

A apreciação da moeda durante a fase expansionista permitiu que ambos os países acumulassem um grande poderio bélico e construíssem uma infraestrutura que lhes permitiu fazer circular a economia de uma forma muito eficiente. No entanto, as guerras se tornaram progressivamente menos lucrativas porque se tornaram fúteis. As primeiras guerras romanas acrescentaram grandes territórios e aumentaram significativamente o poder da cidade. Mas entre os séculos I a.C. e I d.C. os romanos se envolveram em conflitos desgastantes e infrutíferos em termos de butim, contra os caledônios e britânicos, contra os armênios e persas, contra os judeus, contra os germânicos e, principalmente, contra si mesmos; pois em tempos de paz o belicoso luta contra si.

O exército poderoso precisava ser mantido, e era caro mantê-lo. Quando as guerras começaram a ser principalmente defensivas ou retaliativas, o exército se tornou um peso excessivo para Roma. Uma solução criativa para isso foi a extensão da cidadania romana a algumas províncias (e logo a todas). Nada melhor para o problema do que dividir a despesa com quem se beneficiava da segurança proporcionada pelas legiões. Este tipo de estrutura, o "tratado" (foedus) tem uma analogia curiosa com o estabelecimento da OTAN, como veremos à frente.

O poder, porém, ainda continuou, pelo menos inicialmente, nas mãos dos senadores originários da península itálica.

Algo muito semelhante ocorre no caso americano. Após a consolidação territorial (que se conclui com a Guerra Hispano-Americana, última em que os Estados Unidos anexaram território), o exército deixou de trazer terras e pilhar tesouros para ser um peso para a nação. Inicialmente os governos americanos usaram este exército para defender os interesses econômicos americanos em sua esfera de influência, a América Latina, mas sempre foi evidente que o poder americano era excessivo para esse fim. Isso levou o país a crises periódicas, causadas pela diminuição do ímpeto de anexações, pois o capitalismo imperialista é como uma bicicleta, e só se mantém equilibrado quando se move para frente.

Tal como Nero inventou a inflação ao aviltar as moedas de ouro, recunhando-as com uma liga menos rica, sucessivos governos americanos aviltaram o dólar, reduzindo sua paridade em metal precioso. O primeiro de tais atos foi em 1861, quando o dólar (até então bimetálico) abandonou o padrão prata e ficou restrito ao ouro. O último ocorreu em 1971, quando o dólar definitivamente deixou de ser uma moeda ligada ao metal precioso.

Em ambos os casos a consequência foi o aumento da inflação, muito embora esta tenha sido causada mais pelas instabilidades que levaram ao fim do padrão ouro do que por este fim. A inflação romana foi dramática, levando a fome e desespero porque, já naquela época, os pagadores de salários não queriam reajustar o pagamento de seus empregados. Talvez isto explique a fase violenta que o país viveu após a morte de Nero, só se estabilizando quase vinte anos depois, sob Vespasiano.

A mais chocante semelhança a que aludo neste ponto, porém, é a estratégia adotada por romanos e americanos para reduzir o impacto do exército sobre o orçamento nacional: se os romanos deram cidadania às províncias, os Estados Unidos criaram uma aliança internacional, a OTAN, através da qual outros países tiveram de contribuir para o custeio da máquina de guerra americana, direta ou indiretamente. Vemos então que ambas as culturas procuraram expandir seu alcance fiscal a fim de custear melhor um exército superlativo, e o fizeram através da promessa de segurança, que tinha uma contrapartida em perda de autonomia.

Guerras por Recursos

Em tese toda guerra é por recursos, ainda que isto esteja inicialmente inaparente. Mas quando me refiro aqui a "recursos" eu me refiro a guerras que não têm a intenção de anexar território, mas apenas obter acesso a produtos ou riquezas necessários ao custeio do estado deficitário devido à máquina de guerra. A fase da guerra por recursos é aquela na qual os conflitos deixam de ser focados no aumento do território e passam a buscar a estabilização da economia.

No caso romano, desde o final do século I, as principais guerras travadas foram de cunho econômico ou defensivo. Notório é o caso da conquista da Dácia, última grande conquista romana em termos de território, que, na verdade, teve por objetivo agregar ao erário imperial o imenso tesouro dos dácios, em cujo território se encontravam as maiores minas de ouro da Europa.

Se Roma precisava de ouro (pois não havia uma cultura econômica desenvolvida, que preconizasse algum tipo de produção autônoma e contínua de riqueza), os Estados Unidos dependem, já há um bom tempo, do negro ouro chamado petróleo. É em busca deste que as principais guerras americanas foram travadas, desde há cerca de vinte anos. O principal episódio deste tipo de conflito seguramente foi o Iraque, ainda que haja controvérsia sobre a extensão do controle americano sobre o petróleo de lá.

O Arquiinimigo

Romanos e americanos tiveram de conviver secularmente com nações formidáveis que nunca puderam vencer. No caso romano, a grande Guerra Fria (nem sempre fria) do mundo antigo foi contra os persas (inicialmente o império da Pártia e depois o império sassânida). Esses longos conflitos se caracterivam pelo desgaste contínuo das estruturas militares de ambos os países e por nenhuma solução definida. A fronteira praticamente não avançou em mais 600 anos.

Alguns países se estabeleceram como estados-tampão entre os impérios, como por exemplo a Armênia e a Arábia, que alternavam entre as duas influências.

Pax Romana e Mare Nostrum

Após a consolidação territorial, e institucional, Roma passou a considerar o Mediterrâneo um território exclusivo seu, o que impediu, por exemplo, que a Armênia conseguisse se desenvolver, independente de qualquer desgaste bélico.

Os Estados Unidos consideram o Atlântico, especialmente o Atlântico Norte, um mar tão seu quanto os romanos consideravam o Mediterrâneo. Tanto assim que a aliança militar americana é a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Mas a reivindicação de soberania americana é o mundo todo, claro. Restringe-se na prática ao Atlântico Norte por ser o único oceano limítrofe que não tem contato com o mar territorial de seu grande rival, a Rússia.

Além de um "mar seu", os americanos também estabeleceram uma "esfera de influência" na América Latina, que não tem paralelo no caso da antiga Roma.

Entre meados do século I e o final do século II os romanos experimentaram aquilo que chamaram de Pax Romana, a ausência total de ameaça externa ao império. Este período não foi pacífico internamente, claro, mas durante todo ele nenhum povo bárbaro conseguiu sequer desafiar o império. A Pax Americana surge em 1848, com a derrota definitiva do México, que deixou de ter qualquer chance de surgir como potência mundial. De 1848 a 2001 (ou até hoje, se você pensar bem) nenhum país conseguiu desafiar a hegemonia americana porque nenhum país conseguiu levar o conflito para dentro de seu território. No caso romano isso só vai acontecer no século IV, causando grande espanto.

Conclusões

Este artigo é um mero rascunho, nada exaustivo, mas que eu espero ser provocante o suficiente para que pessoas mais brilhantes do que eu o expandam. Espero que o meu leitor entusiasmado pesquise e encontre ainda mais semelhanças e diferenças. Com base nisso podemos começar a teorizar aquilo a que aludi lá em cima, no comecinho deste artigo:

Dizendo em palavras mais comuns: não será possível que um país que adote ideologias semelhantes às de um modelo passado venha a se defrontar com desafios parecidos? Será que a História possui uma inércia que permite reproduzir processos antigos a partir de escolhas e circunstâncias parecidas?

Com a palavra o leitor.

1O termo “Etrúria” se refere a uma região geográfica, mais ou menos correspondente à Toscana, na Itália, e não a um estado. As cidades originalmente associadas à cultura “etrusca” são (nomes latinos, com os possíveis nomes etruscos em parênteses): Arretium/Arezzo (Arritim), Caere/Cerveteri (Caisra), Clusium/Chiusi (Clevsin), Cortona, Volterra (Felathri), Populonia (Fufluna), Perusia, Tarracina (Tarchna), Tarquinia (Tarchnal), Veio (Veii), Vetulonia (Vetluna), Fiesole (Vipsul), Volci (Velch), Volsinia (Velzna).

2 Quando o Reino Unido se formou, pela união pessoal dos reinos da Escócia e da Inglaterra, um bom número de outras entidades políticas havia sido absorvida anteriormente, por um ou por outro dos reinos unidos. A Inglaterra incorporara, além dos seis reinos anglo-saxões originais, a Cornualha, a Nortúmbria, Gales do Norte, Gales Central, Gales do Sul, Man, Munster, Connaught, Ulster, Leinster e Meade (os cinco últimos os reinos existentes na Irlanda pré-conquista). A Escócia incorporara a Caledônia, as Órcadas e as Shetlands.

3 O episódio do rapto das sabinas.

Corra, Kim, que a Polícia do Mundo Vem Aí.

Potências imperiais gostam de brincar de polícia com o mundo. Claro, no papel da polícia e chamando de ladrão quem esteja no seu caminho. Pode ser um regime realmente maligno, como a Alemanha nazista, ou um governo bem intencionado e absolutamente inofensivo, como a Nicarágua sandinista. Pode ser um regime realmente adversário, como a URSS, ou um simplesmente um amigo que tinha o defeito de se preocupar com o próprio povo, como a Guatemala de Árbenz.

No fundo a política internacional é um jogo sujo, baseado na mais abjeta e escrota hipocrisia. Para as potências hegemônicas, principalmente, princípios não existem, apenas conveniências. Pelo pretexto de combater uma “ditadura” comunista, os EUA apoiaram durante mais de uma década a ditadura comunista e genocida do Khmer Vermelho contra o governo de reconstrução nacional criado pela intervenção vietnamita. Diz que se importa com a democracia na América, mas patrocinou, a partir do final do século XIX, as ditaduras mais cruéis e caricatas da história de cada um dos países ao sul do Río Grande. Rejeita a legitimidade das eleições venezuelanas, atestada por observadores internacionais, mas teve um presidente eleito em um pleito marcado pela fraude e pela obscuridade e há menos de um ano abençoou um pleito mexicano com sinais evidentes de trapaça. E enquanto tenta erradicar o extremismo religioso talibã no Afeganistão, mantém a Arábia Saudita como “nação mais favorecida” de seu comércio, justamente o país de onde emana a maior parte do fundamentalismo islâmico de hoje.

Infelizmente, as pessoas se esquecem muito fácil desse passado de crimes dos Estados Unidos contra a soberania de outros países, esquecem das mentiras que inventaram para justificar intervenções nas quais o único interesse a se preservar era o de Wall Street. Agora a máquina de propaganda ianque está a todo vapor tentando criar um pretexto para aniquilar a deprimente Coreia do Norte, último reduto comunista tr00 deste planeta. E uma quantidade enorme de macacas de auditório senta e levanta ao ritmo ditado pela imprensa, aplaudindo e apupando conforme quem aparece tenha olhos amendoados ou não.


Para começo de conversa, vamos deixar estabelecido que este post não tem por objetivo nenhum tipo de solidariedade com a tosca Coreia do Norte, lugar aonde não quero ir morar (principalmente “morar”) nem no pior de meus pesadelos.1 E certamente se eu tivesse que escolher entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos para serem meus senhores, eu certamente preferiria os segundos. O objetivo deste post é demonstrar o funcionamento dos mecanismos que estão em ação neste episódio, e lembrar, através de paródia, um momento da história:

Primeiro foram atrás do Iraque,
e eu não disse nada porque não sou iraquiano.
Depois foram atrás do Afeganistão,
e eu não disse nada porque não sou afegão.
Então foram atrás de Honduras,
e eu não disse nada porque não sou hondurenho.
Então foram atrás da Tunísia,
e eu não disse nada porque não sou tunisino.
Então foram atrás da Líbia,
e eu não disse nada porque não sou líbio.
Estão indo atrás da Coreia do Norte,
e eu nada digo porque não sou norte-coreano.
Um dia virão atrás de nós,
e não haverá ninguém para dizer coisa alguma.

Existe um princípio na dinâmica da política internacional que diz que o inimigo é sempre bárbaro. Desumanizar o adversário faz parte do jogo. Isso se faz com palavras e com imagens, mas com palavras é melhor, porque elas atuam de forma mais subreptícia. Lembra do tempo em que se dizia que comunista comia criancinha?2

Houve uma época em que os britânicos chamavam os alemães de “hunos”, diziam que os cientistas do Kaiser tinham inventado uma arma terrível que envenenava os soldados à distância e que, se as potências centrais ganhassem a Grande Guerra, toda a Europa seria anexada ao Império Alemão.

Os hunos originais foram um povo de raça turca (ou mongólica, ou mestiça, ou negra, ou sabe-se lá o que) que atacaram a Europa Oriental no fim da Antiguidade. Os romanos os descreviam como comedores de carne crua, praticantes da automutilação, imundos, canibais etc. Quatrocentos anos antes as legiões romanas conquistaram a Gália e denunciaram a prática de sacrifícios humanos pelos druidas. Sacrifícios tão cruéis e desumanos que os pobres gauleses foram submetidos a um verdadeiro genocídio, alimentando por séculos os “circos” romanos, onde se sacrificava gente não a deuses, mas ao divertimento. Era obsceno que os gauleses sacrificassem virgens nos seus feriados. Era civilizado que os romanos sacrificassem todo tipo de gente a cada domingo.

Assim se repete a história desde sempre,  e sempre há um bárbaro novo cuja conquista se tem que justificar. Tal como Trajano pintou os dácios como monstros para poder roubar seu ouro, o império americano pinta os árabes como monstros para poder roubar seu petróleo. Certamente havia monstros entre os dácios e certamente os há entre os árabes. Mas maior foi a monstruosidade do genocídio romano, como maior é a monstruosidade dos genocídios em curso atualmente, no Iraque, na Líbia, na Síria, no Afeganistão e no Paquistão.

Quando o inimigo é fraco, às vezes nem precisa inventar muita coisa, pois a ação já terá sido concluída antes que a opinião pública tenha tempo de assimilá-la. Assim foi na Guatemala, na República Dominicana, em Granada… Mas o inimigo pode prolongar a ação, então é preciso preparar terreno. E aí é preciso inventar que ele tem “armas de destruição em massa”, “que ele é uma ameaça à paz internacional” ou que faz parte de um “eixo do mal”.

A Coreia do Norte é a bola da vez — o que significa que as baterias midiáticas ianques, tanto as próprias quanto as terceirizadas, atirarão à vontade contra o regime que se quer derrubar. Foi para vingar o 11 de Setembro e acabar com as “armas de destruição em massa” que se atacou um Iraque já exangue por mais de uma década de fortes sanções econômicas. Foi para acabar com o “terrorismo de estado” sudanês que se bombardeou o principal complexo industrial do país e se impôs um bloqueio econômico que levou o país ao caos econômico e à guerra civil. Foi para “Caçar Osama bin Laden” que se invadiu o Afeganistão e se matou mais gente que o talibã havia matado antes. Mas no fim das contas Saddam não tinha nenhuma das tais armas, a fábrica bombardeada era uma indústria farmacêutica que produzia principalmente remédios contra doenças tropicais, e Osama bin Laden estava escondido no Paquistão, país “amigo” dos Estados Unidos.

A única coisa que todos esses regimes tinham em comum era que, por serem detestáveis violadores de direitos humanos, ninguém se levantou para denunciar a violação de sua soberania. Tal como no “poema” de Martin Niemöller. Mas um dia talvez venham atrás de nós, e o resto do mundo nos verá como detestáveis também, violadores de direitos, cortadores de árvores, estupradores de turistas, possuidores de armas de destruição em massa, ou seja o que for. E ninguém falará contra nós.

[continua] — na parte 2: Por que atacar a Coreia do Norte?


1 A palavra “morar” significava originalmente trabalhar e residir em um mesmo lugar. Aplicava-se a colonos e escravos.
2 Não se sabe se alguma vez alguém comeu criancinha por ser comunista, mas é sabido que houve algumas fomes terríveis em países comunistas como União Soviética (nos anos 1930), na China (nos anos 1950), no Camboja (anos 1970) e na Etiópia (anos 1980). Não que tenham deixado de haver fome em lugares sob influência capitalista, mas fatos são fatos.

O Pobre Pode

Temos uma revolução silenciosa em curso nesse país, uma que não lutará com baionetas nem canhões, mas pode mudar a cara da nação muito rápido, se os poderes de fato não conseguirem dar o que golpe que andam sonhando: você pode não ter reparado, mas o pobre começou a perceber que pode votar em pobre, porque o pobre também pode governar bem.

Méritos do Lula, que não se formou na Sorbonne mas fez um governo que, mesmo admitindo que não foi o melhor da História, foi pelo menos «na média» ou pouco acima dela. Então, se um homem sem doutorados nem teses conseguiu fazer o basicão, e até o fez bem, então qual é exatamente a necessidade de votar nos luminares, especialmente quando eles são pouco sensíveis ao que povo pensa?

Outros exemplos começaram logo a surgir. O jogador de futebol Romário revelou-se um parlamentar ativo e articulado, apresentando projetos interessantes na defesa dos deficientes físicos e mentais, investigando as obras da Copa do Mundo e das Olimpíadas, tentando de alguma forma ajudar as entidades de apoio à Ciência e à Educação, etc. Até o palhaço Tiririca revelou-se bom deputado, apresentando projetos viáveis e válidos na área cultural e educacional.

Esses exemplos começaram a fazer o povo criar coragem de experimentar. Fortaleceram nossa democracia, as pessoas começam a votar em pessoas que espelhem os seus próprios ideais. E aí começaram a surgir casos folclóricos, como o trocador de ônibus eleito prefeito, o filho estudioso do carroceiro que jurou deslocar-se até a prefeitura em primeiro de janeiro na carroça com que o pai trabalhador pagou os seus estudos.

O velho discurso do «mais preparado» está ruindo pelo país inteiro: as pessoas estão começando a ver que para ser político, especialmente em nível municipal, não é preciso nenhuma formação específica, apenas lucidez, certa inteligência, alguma matreirice e uma boa dose de idealismo e boa vontade. Quanto tempo até que isso comece a influenciar nossos partidos e a transformar nossa prática política?

Difícil dizer, mas se os coturnos não vierem pisotear a flor da democracia, cada vez mais viçosa, ela logo desabrochará em um sistema mais humano e mais próximo do povo. Talvez exatamente por isso haja tanta gente influente apavorada. O povo, ora, o povo...

Um Asilo e uma Civilização em Crise

Finalmente, após semanas de adiamento, o Ministério dos Negócios Exteriores do Equador anunciou oficialmente que aquele país concedeu asilo político a Julian Assange, fundador e líder do polêmico sítio WikiLeaks. A concessão de tal asilo, e as repercussões imediatas e posteriores, revelam uma reviravolta ideológica impensável há poucas décadas, e são, em minha opinião, um dos primeiros sinais de que existem rachaduras na fachada do Grande Império Ocidental Moderno, cuja atual manifestação é encarnada pelos Estados Unidos da América.

Comecemos por explicar de que se trata o referido GIOM — e porque uma nomenclatura destas é necessária, afinal.

Quando estudamos História Antiga, somos apresentados aos povos do passado e suas instituições com um olhar distanciado e quase complacente, que nos permite ignorar diferenças e detalhes e criar grandes ficções. Assim é que nos permitimos chamar de «Egito» a uma série de entidades políticas que existiram no vale do Nilo, apenas porque herdeiras, genética e culturalmente, de uma mesma entidade primordial. Assim, «Egito» é uma «civilização», termo algo vago, que designa algo maior que um povo e maior que o Estado criado por esse povo. Da mesma forma que o «Egito», concebemos as civilizações hitita, mesopotâmica, indiana, chinesa, persa, greco-romana (às vezes chamada de «Mediterrânea»), árabe etc. Grandes simplificações nos permitem enxergar unidade onde existem apenas semelhanças ou, no máximo, relações de causa e efeito.

Mas este olhar muda quando ultrapassamos a fronteira imaginária da Alta Idade Média e penetramos no terreno mais seguro da modernidade. Só porque podemos traçar a origem de nossas culturas e instituições desde estados e proto-estados surgidos entre os séculos VIII e XVI, acreditamos que o conceito de «civilização» (e suas perigosas implicações antropológicas) se torna desnecessário. Então passamos a estudar a História das unidades políticas individualmente, como se independentes fossem, no todo, apenas porque independentes são naquelas partes que escolhemos analisar. Certamente um historiador não contaminado por nenhum eurocentrismo, e vinculado a uma cultura milenar, como a chinesa, a indiana ou a árabe, teria certa facilidade para perceber o casuísmo.

Se no aspecto da História «política» (ou seja, a análise das instituições fictícias criadas pela humanidade para governar-se) esta abordagem parece funcionar, ela é muito simplificada para explicar processos maiores, mais longos e mais profundos, como o processo de queda das civilizações.

É um lugar comum detectar semelhanças entre os Estados Unidos e a civilização romana. Ainda que algumas destas sejam involuntárias, a maioria resulta, na verdade, de deliberada imitação, por convicção. Assim é que os Estados Unidos criaram o conceito moderno de República a partir de uma adaptação das instituições romanas pré imperiais; instituíram um Senado (se bem que não vitalício); deram-se um lema em latim (Ex Pluribus Unum) e um animal heráldico (a águia) parecido com o de Roma; adotaram políticas expansionistas análogas às dos antigos; aceitaram a imigração ao adotarem o jus solis, mas reservaram para uma casta de antigas famílias a maior parte do poder político, com raras exceções; moveram guerras justas e injustas; desenvolveram uma ideologia universalista e impuseram sua língua em muitos lugares onde originalmente não era falada. Vários dos defeitos e muitas das qualidades são comuns a ambas as civilizações. A partir de um certo ponto, movidas pela inércia fenomenal da evolução orgânica das civilizações, estas semelhanças começaram a influenciar o futuro dos Estados Unidos numa direção semelhante à do destino que teve Roma.

Estas semelhanças, porém, só se tornam mais gritantes quando abandonamos a perspectiva míope de que cada país é uma entidade isolada e procuramos enxergar os países, sem considerar seu status jurídico internacional, como co-participantes de um processo civilizatório mais amplo. Nesse ponto podemos identificar que existe uma civilização «Atlântica» (nos dois lados do Atlântico Norte) que possui uma dinâmica mais ou menos uniforme (tendo a Europa um papel parecido com o da Grécia e a Grã Bretanha, mais especificamente, um análogo ao da Etrúria), áreas periféricas, mais ou menos controladas mas não assimiladas (a América Latina e a África) e uma imensa área que abriga civilizações diferentes (a Eurásia).

Se considerarmos os EUA como herdeiros, continuadores e atuais controladores de um processo que começou com a conquista do reino dos Anglo-Saxões pelo conquistador Guilherme, em 1066, a analogia se torna mais forte e podemos detectar o que representam os principais fatos da História recente.

Em primeiro lugar, Espártaco. No caso de Roma, a revolta dos escravos significou o ponto de saturação do sistema social oligárquico (controlado pelos patrícios, através do Senado, em detrimento da maioria da população). Ao massacrar os revoltosos sem atentar para as suas reivindicações, o estado romano se dedicou ao reacionarismo e ao autoritarismo, tornando-se progressivamente mais violento, mais conservador, mais contraditório e mais instável. A subjugação da plebe tornou impossível a sobrevivência de um exército de cidadãos e abriu caminho para as lealdades pagas, até que os mercenários tomaram o poder para si. Diferentemente de Roma, os EUA não tiveram um Espártaco individualizado e dentro de suas fronteiras. Em vez disso, o grande conflito social ocorreu contra um fator externo: o movimento socialista. O socialismo se insurge contra os valores fundamentais da civilização ocidental (que são o individualismo, o dinheiro, a exploração do homem pelo homem, o autoritarismo, o patriarcalismo etc.) e não é absurdo detectar nele uma distante inspiração semítica (a moral judaica e as crenças evangélicas, apesar de ele mesmo ser ateu). A luta contra este «Espártaco» sem rosto foi mais longa, mais violenta e mais empenhada. O resultado, claro, foi uma intensificação maior do conservadorismo, que se manifesta agora nos movimentos de extrema direita americanos, que parecem dar uma atenção fundamentalista aos «valores» capitalistas e a rejeitar toda uma série de conquistas sociais concedidas na época em que o comunismo parecia viável.

Em segundo lugar, Aníbal. O famoso general cartaginês quase levou Roma à derrota na Segunda Guerra Púnica.  Tal como Hitler quase levou a civilização de roldão na Segunda Guerra Mundial. As semelhanças entre os dois não são muitas, é verdade, mas o papel exercido pelos conflitos pode ser comparado. Tal como Roma saiu da Segunda Guerra Púnica com o domínio de quase toda a orla do Mediterrâneo, os Estados Unidos emergiram da Segunda Guerra Mundial controlando mais de 50% da riqueza do mundo.

Em terceiro lugar, Armínio. A primeira vez em que os poderosos exércitos romanos enfrentaram uma derrota foi para um inimigo pouco importante, em um lugar tampouco importante. Foi para um líder tribal germânico, em uma fronteira instável, numa região de pouco interesse econômico. A mesma coisa se repetiu quando os Estados Unidos perderam a Guerra do Vietnã, para líderes que quase podiam ser chamados de tribais, em um lugar instável e desimportante. Ambas as derrotas foram acompanhadas ou sucedidas por grandes campanhas vingativas (Roma massacrou centenas de milhares de germânicos nas décadas seguintes e os EUA submeteram o Vietnã a um quase genocídio quando bombardearam o país com agentes químicos desfolhantes, que destruíram sua agricultura).

Em quarto lugar, os imperadores. Em algum momento da História romana o Senado deixou de ser uma instituição funcional e aventureiros começaram a buscar o poder. O próprio Senado tentou consertar a situação criando o «triunvirato», através do qual renunciava à maior parte do poder, mas sem concedê-lo a um caudilho único. Os triunviratos levaram a guerras civis, que culminaram com a conquista do poder por Júlio César, que foi, por fim, assassinado, e sobre cujo cadáver foi erguida a nova instituição: o império. Tal como os romanos, em tempos clássicos, jamais chamaram os seus imperadores por esse título, mas por eufemismos como César e príncipe (o primeiro), também a nomenclatura dos líderes americanos não mudou, mesmo depois que eles se divorciaram totalmente do interesse popular e passaram a definir suas políticas sem considerar o bem estar do povo, mas considerando as necessidades do imperialismo em si.

Em quinto lugar, a Dácia. Quando o império romano começou a ter dificuldades para expandir-se, devido à imensa distância que separava a capital das regiões mais remotas, quando a questão da cidadania já se tornava premente, pois havia pouquíssimos romanos em um império multiétnico e tão populoso, quando explodiram os custos da imensa burocracia e da manutenção de um exército suficiente para tanto território; nesse momento a economia entrou em colapso. A primeira inflação da história aconteceu no século I, a primeira desvalorização da moeda foi inventada por Nero, que diminuiu o teor de pureza das moedas de ouro padrão. As dificuldades econômicas do império fizeram-no voltar seus olhos para um povo pacífico, relativamente pouco numeroso, mas que vivia em um território rico: os dácios (habitantes originais da atual Romênia). A guerra que se seguiu, sob Trajano, foi um dos primeiros genocídios documentados da História. Para tomar as riquezas dos dácios e não deixar testemunhas de sua covardia, os romanos simplesmente mataram ou escravizaram quase toda a população. Em questão de décadas a cultura dácia desapareceu sem quase deixar vestígios. Mas o ouro da Dácia encheu por alguns anos os cofres romanos. Algo semelhante ao que fizeram os Estados Unidos, em suas guerras recentes contra o Iraque e a Líbia (esta última guerra travada por procuração usando a OTAN  e mercenários). A grande mortandade não importou muito, pois o importante era obter o ouro negro, essencial ao funcionamento da economia americana.

E então os bárbaros começaram a ficar inquietos.

Durante mais de dois séculos (26 AEC – 192 EC) o núcleo da civilização romana esteve em paz, mantida pelo autoritarismo, pelo militarismo e pela política do «pão e circo». As guerras eram uma realidade meramente provincial. Uma coisa de lugares atrasados mesmo. Tal como hoje vemos as guerras como fenômenos ligados a conflitos tribais em cantos perdidos do mundo (como a Somália e o Congo) ou em regiões onde a força do Império anda agindo (Iraque, Afeganistão). A Pax Americana consolidou-se somente com a dissolução da ameaça socialista, mas já é identificável sua influência. Ocorre que o período de paz e domínio termina um dia. Para os romanos, ele termina quando se tenta implantar o poder hereditário (com Cômodo, filho de Marco Aurélio). O resultado são sucessivos conflitos internos, que fragilizam o império diante da ameaça dos bárbaros, culminando no fracionamento do território, novas guerras civis e a necessidade de criar novas instituições.

A alta tensão política interna dos Estados Unidos parece indicar o fim da relativa paz social que este país desfrutou durante a maior parte do século XX. E é neste sentido que Julian Assange entra na história, como um fator que rompe a dinâmica das semelhanças entre Roma e os Estados Unidos.

Devido ao estágio tecnológico em que vivemos, podemos ver um fenômenos como o WikiLeaks, sem nenhuma analogia possível com Roma. Mas a atuação de Julian Assange não é senão a de piromaníaco durante o incêndio. Suas revelações produziram ainda mais exacerbação na política americana, que já parece encaminhar-se para um neomacarthismo.

Em outras épocas pessoas que desafiavam os grandes poderes podiam ser eliminadas sem muita cerimônia, ou com cerimônias destinadas exclusivamente a dissuadir outros — como a execução cerimonial de William Wallace,1 o líder escocês cuja história é narrada pelo filme «Coração Valente». Não havia necessidade de processos. Isso tornava relativamente fácil calar quaisquer questionamentos incômodos, mas produzia revoltas progressivamente mais violentas, como as que o Império Romano viveu no século III.

Então o que Julian Assange conseguiu fazer foi produzir um fato histórico de tipo novo, mas dentro ainda de uma dinâmica previsível. As acusações que surgiram contra ele são, da mesma forma, previsíveis: crimes sexuais sempre são usados como propaganda contra os inimigos. Em todas as épocas e circunstâncias, estereótipos sexuais desqualificavam, animalizavam ou ridicularizavam quem se queria calar. Martinho Lutero acusou o papa de ser «sodomita» e o papa, por sua vez, acusou Lutero de ter dentro de si nada menos que sete demônios, cada um deles levando-o a cometer um dos sete pecados capitais. Ainda hoje circulam histórias sobre as disfunções sexuais de Hitler (que incluem incesto com uma sobrinha, problemas dentários que lhe davam mau hálito, dificuldades eréteis, falta de libido, flatulência excessiva e até «sodomia»). Conseguir prender o adversário sob o pretexto de um crime comum é também muito eficiente.

A segunda e maior novidade no caso Assange, reveladora do estágio avançado de decadência moral e institucional da civilização atlântica, é que o Equador tenha-lhe dado asilo.

O asilo político é um ato de força de uma potência contra um estado mais frágil. A inexpugnabilidade da embaixada repousa sobre a ameaça de canhões. Fugir para a embaixada britânica ou americana, se possível, era obter uma quase salvação. Dissidentes chineses que conseguiram entrar na embaixada americana de Pequim conseguiram sair da China. Até da China. Nunca antes, porém, um país pequeno e desarmado ousara testar os limites do respeito que um país central tem em relação à sua embaixada. Não custa lembrar que os Estados Unidos empregaram, durante vários dias, som em altíssimo volume para incomodar o general panamenho Manuel Noriega, que estava asilado na embaixada do Vaticano. Impossibilitado de dormir, Noriega acabou se entregando. Ainda não está claro se a Grã Bretanha respeitará a soberania da embaixada equatoriana, ou se o emprego de altíssimos decibéis é algo aceitável também no centro de Londres, ou apenas numa cidade da periferia, entre os bárbaros. Mas a simples ousadia do Equador, uma entre muitas que diversos países vêm cometendo, dá uma dimensão das tensões que se acumulam.

O caso tem o potencial de destruir séculos de jurisprudência e abalar todo o direito internacional. Se a embaixada equatoriana for violada, o direito de asilo se tornará letra morta daqui para a frente, os perseguidos políticos estarão ainda mais indefesos e os regimes autoritários ganharão força. Qualquer ato cometido contra a embaixada será uma agressão contra o Equador (e o regime de Rafael Corrêa, ao contrário do Vaticano, não parece empenhado em agradar os Estados Unidos ou incomodado com  a presença de Assange em sua embaixada). Mas se Assange for bem sucedido em seu asilo, o mundo ficará ainda mais interessante, pois se dará o sinal de que as embaixadas dos pequenos também podem ser seguras para quem deseja asilo, o que aumentará a ocorrência de episódios semelhantes, não mais limitados pelo receio de que as embaixadas atualmente seguras costumam ter restrições a certos tipos de perseguidos.

De qualquer forma, adiciona-se mais instabilidade a uma conjuntura institucional internacional que parece encaminhar-se para uma crise, tal como Roma se encaminhou no século III.

E eu nem falei dos problemas de saúde que afetaram a elite romana, da corrupção dos costumes pelos excessos sexuais (em parte exageros puritanos de Edward Gibbon) e dos desobramentos culturais e econômicos dos séculos III-IV.

Diferentemente do que disse Fukuyama (cuspida metafórica em seu cadáver acadêmico, pf), não vivemos nenhum fim da História, mas entramos em tempos «interessantes», tal como na maldição chinesa.2

1 William Wallace foi executado em um espetáculo de crueldade incomum mesmo para a época. Primeiro foi arrastado pelas ruas de Londres amarrado a um cavalo, depois foi enforcado parcialmente (sem provocar a quebra do pescoço e subsequente morte), castrado, eviscerado (suas entranhas foram atiradas a uma fogueira para ele, ainda vivo, ver) e por fim decapitado. Seus restos mortais foram esquartejados e distribuídos por vários lugares, para servir de exemplo aos que se opunham à monarquia britânica.
2 As três «maldições chinesas» (provavelmente inventadas por um humorista britânico do século XIX, época em que a China estava na moda na Europa) são: 1) Que você viva em tempos interessantes, 2) Que o governo se importe com você e 3) Que você encontre o que procura. Elas devem ser entendidas como eufemismos para: 1) Que você encontre muitas dificuldades, 2) Que os governantes o persigam e 3) Que você seja preso e punido.

Grande Apostasia, Grande Hipocrisia, Ambas as Coisas, ou Nada Disso?

Este fim de semana tomei conhecimento desta reportagem no site «End of the American Dream». A leitura foi bastante interessante porque, aparentemente, embora o site seja um ninho de teorias conspiratórias ligadas ao «sobrevivencialismo», os dados frios utilizados para embasar a reportagem foram colhidos de institutos de pesquisa aparentemente sérios. No texto em questão se argumenta que tem havido, particularmente nos últimos trinta anos, uma mudança radical da sociedade americana, pelo menos no que diz respeito à religião, uma mudança na contramão do que tem acontecido no Brasil, mas que não deixa de ser análoga.

Enquanto aqui a percentagem de católicos tem caído e a de evangélicos pentecostais tem crescido, mantendo-se a proporção geral entre crentes e não crentes (pelo menos de acordo com o IBGE, que não possui no recenseamento uma categoria para ateus) e entre cristãos e não cristãos (porque o crescimento de outras religiões ocorre basicamente por causa da imigração); nos EUA tem acontecido um decréscimo da afiliação às denominações protestantes tradicionais, notadamente os batistas, e um aumento dos ateus, dos não cristãos e dos «crentes em deus sem religião» (uma categoria difusa que, basicamente, esconde sob o manto de uma pretensa credulidade aqueles que já não são religiosos mas ainda mantêm, para consumo da sociedade, uma crença nominal em um vago conceito de divindade). As projeções utilizadas pelo artigo indicam que os EUA poderão ter até 30% de ateus no ano 2050 e que o número de fieis das igrejas tradicionais, que já caiu mais de dez pontos percentuais desde 1990, deverá estar reduzido à metade. Um cenário apocalíptico para os cristãos. Nos comentários da notícia, fieis alarmados com a apostasia do governo americano. Alguns sites fundamentalistas, como The Cutting Edge e a folclórica Igreja Batista de Westboro (aquela do «Deus Odeia Bichas»), já pregam abertamente há anos que o governo americano é a Besta do Apocalipse, que deverá levar milhões à apostasia, etc.

Antes de comentar sobre as contradições envolvidas na reportagem, preciso explicar, a quem ainda não sabe, o que é o sobrevivencialismo (ou «survivalismo», na boca de gente que aprendeu inglês direitinho mas fala português tão bem quanto um botocudo). Trata-se de uma ideologia política e religiosa de extrema direita, ligada ao fundamentalismo cristão (principalmente calvinista), ao milenarismo, à Associação Nacional do Rifle (NRA) e ao libertarianismo mais radical. Vamos explicar esse jazz do americano doido, em partes.

O fundamentalismo cristão é uma forma de religiosidade que se baseia na interpretação literal da Bíblia e na aceitação de princípios «fundamentais» que eram aceitos pelos primeiros cristãos. Ou seja, é uma religiosidade moderna que olha para o passado distante, ou pelo que entende que foi o passado distante. Os calvinistas acreditam na predestinação absoluta, para o bem e para o mal.

O milenarismo é um movimento recorrente no cristianismo desde os primeiros séculos, baseado na promessa de Jesus voltar logo. Acreditando que o mundo em breve acabará, os milenaristas tomam medidas extremas para precaver-se, incluindo abdicar dos prazeres carnais e da inserção social para contemplar o apocalipse. Todo fato catastrófico e todo fato político significativo será listado como «prova» de que o fim está próximo.

A Associação Nacional do Rifle é uma entidade que congrega a indústria armamentista e certos movimentos «libertários» que defendem o direito irrestrito do cidadão a portar armas, por razões principalmente ideológicas. Estas pessoas acreditam que o cidadão deve portar armas para defender-se não apenas contra o próximo, mas também contra o Estado, do qual desconfiam fortemente.

O que aqui se está chamando de «libertarianismo» é uma espécie de anarquismo de direita, que prega a não intervenção do Estado na vida do cidadão. Diferentemente do anarquismo tradicional, que é de esquerda, o libertarianismo defende o direito absoluto à propriedade privada constituída (considerando-a como legítima a priori), à autonomia local (inclusive de resistir a leis «injustas») e à autoridade familiar. Os libertários defendem a educação doméstica (home schooling,para os pedantes que só reconhecem um conceito sociológico quando expresso em gringuês), a punição física dos filhos, a submissão feminina, o porte de armas, o não pagamento de impostos etc. entre outras coisas.

O sobrevivencialismo é um «mexidão» de tudo isto, mas travestido de uma aparência mais secular. O sobrevivencialista não se vê como um crente em contemplação do Juízo Final cristão, mas como um «cidadão preocupado» que se prepara para um fim do mundo material. Acontece que, subjacente à sua ideologia, vai a religiosidade milenarista, de forma que esses grupos estão muito frequentemente contaminados pelos religiosos. Uma parte significativa da ideologia se baseia no egoísmo, na concepção da possibilidade de cada um se salvar por si quando der merda para todos.

Todo sobrevivencialista é adepto de teorias de conspiração e preconiza uma conduta subversiva, ao mesmo tempo em que demoniza como «comunista» ou «diabólico» todo movimento que se oponha àquilo que ele rejeita. É uma esquizofrenia difícil de entender. Os caras acreditam que o governo é uma entidade maligna que oprime o povo, mas chamam movimentos como o Anonymous e o Occupy Wall Street pelos piores nomes. Ocorre que eles rejeitam o que o sistema tem de «ruim», mas não querem de fato abrir mão do sistema. Boa parte das estratégias sobrevivencialistas, por exemplo, envolvem, no caso de uma guerra nuclear, contatar pessoas ligadas ao exército e aceitar ser liderado por elas. Ou ir até o Wall-Mart mais próximo para obter suprimentos (saque). Se o Estado e o capitalismo acabarem, não haverá exército e nem Wall-Mart, então talvez o fim do mundo fique mais complicado de sobreviver…

Você pode conhecer as sandices dos sobrevivencialistas (e algumas das coisas sobre as quais eles têm razão) no site www.textfiles.org, que reúne uma coleção de textos sobrevivencialistas dos anos 70, 80 e 90 (época dos BBS e da CompuServe).

Todo esse desvio teve que ser feito para pôr em contexto o tom alarmista do artigo que fala sobre o iminente fim do cristianismo americano. O sobrevivencialista adora alarmes, pois é com eles que justifica suas atitudes piradas no dia a dia (como construir um abrigo nuclear e brigar com o vizinho por causa de um comentário deste sobe a possibilidade de salvarem-se juntas as duas famílias). Temos que ter um certo cuidado ao aceitar o que essa gente diz, porque eles não apenas acreditam na possibilidade do Apocalipse, não apenas desejam sobreviver a ele, mas estão armados para matar os cavalos para comer.

A primeira coisa a se notar é o tipo de cristianismo que está em decadência nos Estados Unidos, segundo as pesquisas citadas. Para as fontes utilizadas no artigo, somente seria cristão quem aderisse a uma «visão de mundo bíblica», que envolveria crenças em:

  1. Moral absoluta,
  2. Total inerrância bíblica em tudo que ensina,
  3. Realidade da existência de Satanás como um ser definido em vez de um símbolo,
  4. Impossibilidade de «barganhar um lugar no céu» em troca de boas ações,
  5. Vida sem pecado de Jesus Cristo,
  6. Existência de um Deus onisciente e onipotente que governa o universo.

Para os autores do artigo, somente quem aceite estes seis postulados é um «cristão de verdade». Isto quer dizer que católicos, metodistas e espiritistas não são cristãos porque querem «barganhar um lugar no céu» em troca de serem boas pessoas. Isto quer dizer que os cristãos monofisistas (como os maronitas, os nestorianos, os coptas e os etíopes) e as Testemunhas de Jeová não são cristãos porque acreditam que Jesus foi um homem de carne e osso, vivendo tudo que a carne propicia. Isto quer dizer que não é cristão o que não seja fundamentalista literalista (e este grupo inclui não apenas os católicos, mas também os presbiterianos, os luteranos, os anglicanos, os ortodoxos e uma renca de outras denominações). Isto quer dizer que os espiritistas não são cristãos porque não acreditam em Satanás.

Quando se define «cristão» de uma forma tão restrita, é natural que haja tão pouca gente que creia nisso. Mesmo em décadas passadas, dificilmente terá havido muita gente bastante ignorante para crer em tudo isso.

Vê-se, então, que o declínio do cristianismo detectado pelo artigo nada mais é do que o declínio do cristianismo fundamentalista mais retrógrado e tacanho que se possa imaginar. Longe de ser um mau augúrio para o cristianismo, esta decadência é uma boa notícia, pois quanto menos pessoas acreditarem em coisas tão absurdas, menos tempo os cristãos terão de gastar explicando que não são como Fred Phelps (da Igreja Batista de Westboro) e poderão dedicar-se a convencer os outros de que Jesus é um cara legal.

Mas de que formas este declínio é benéfico? Acredito que de uma forma muito restrita. Se é fato que o fundamentalismo regrediu tanto (e eu não afirmo isso, quem afirma é o autor do artigo), é impressionante como a agenda fundamentalista, sobrevivencialista e anarco-capitalista está influenciando o debate eleitoral nos EUA, a ponto de a disputa interna do Partido Republicano não poder ser resolvida sem que os candidatos façam concessões ao Movimento Tea Party, que representa o que há de mais escroque, mais egoísta e mais anarco-capitalista na face da terra; o tipo de gente que acredita que não deveria haver férias e nem aposentadoria, que assistência médica é um serviço como qualquer outro, paga quem pode, que a origem da pobreza está na preguiça ou em uma maldição divina etc. Ou as pessoas que deixaram de ser pessoalmente fundamentalistas ainda estão instintivamente seguindo a ideologia fundamentalista no plano coletivo — algo que é possível, considerando a definição de sobrevivencialismo usada acima — ou de fato a decadência que ocorreu se refere exclusivamente ao tipo de fundamentalismo que segue os seis preceitos acima, mas ainda é forte o fundamentalismo que segue quatro ou cinco dos seis — e que, por isso, já é ruim o bastante.

Previsões de Ano Novo

Dando prosseguimento à tradição iniciada em janeiro de 2011, mais uma vez farei uma série de previsões para o ano que se inicia. Antes, porém, devo estabelecer ao leitor as razões de minha autoridade para fazer isso. Obviamente o leitor não ficaria impressionado com previsões feitas por um completo idiota que não sabe o que está falando só porque ele veste uma roupa étnica engraçada, imposta a voz de um jeito incomum, manipula alguns objetos esquisitos ou diz que conversa com espíritos. Não, as pessoas não se impressionam com essas coisas, elas gostam é de resultados! Resultados, no duro. E resultados eu tenho para mostrar. Veja a lista das minhas previsões concretizadas de 2011 antes de ler a minha lista de previsões para 2012.

O ex-vice presidente José Alencar terá graves problemas de saúde.
Não há necessidade de comentários.
O Flamengo anunciará planos de contratar pelo menos uma grande estrela do futebol internacional, mas não vai contratar ninguém.
Até que a Patrícia Amorim tentou, mas os caras parecidos com Thiago Neves e Ronaldinho Gaúcho que vieram jogar no rubro-negro carioca eram apenas clones baratos. Eles não conseguiram jogar nem a metade dos referidos ídolos, que devem estar, a esta altura, em nome do esporte, ganhando uma boa grana disputando a segunda divisão do Uzbequistão ou ajudando a estabelecer o campeonato profissional do Butão (afinal, para ganhar dinheiro o esportista moderno joga até em terrão de Chernobyl e recusa convocação para a Seleção).
Um parente de Michael Jackson dará entrevista a algum programa de televisão nos Estados Unidos afirmando que ele foi assassinado!
Esta foi uma previsão modesta de minha parte. Eu deveria ter previsto aquilo que os espíritos realmente me revelaram, mas a minha fé me falhou e eu não ousei declarar que, ainda em 2011, o médico de Jackson seria condenado pelo seu homicídio.
Silvio Berlusconi fará declarações polêmicas, que irritarão os líderes de outros países.
O homem da bunga-bunga declarou seu desprezo pela Itália em mais de uma oportunidade e foi singelamente demitido de seu posto após concluir o processo de condução da Bota a uma concordata.
Os baianos afirmarão ter inventado um «novo ritmo» que, no entanto, será igual ao pagode e só terá um passinho diferente na dança.
Em 2011 conhecemos o «Rebolation», que teve até disputa por originalidade.
Barack Obama terá dificuldades para implementar seus planos de governo.
Nenhuma necessidade de comentários.
Celso Roth não terminará o ano como técnico do Internacional, a menos que vença o campeonato gaúcho.
Onde está mesmo o Celso?
O presidente Lula seguirá tendo grande influência sobre o governo.
A influência continuou tão forte que ele ainda é chamado de «Presidente Lula» pela Rede Bobo.
Haverá um golpe de estado em um país da África.
Pelo menos um dos quatro chefes de estado que foram delicadamente apeados do poder em 2011 se qualificarão como «golpe de estado».
O site WikiLeaks publicará alguns segredos militares americanos.
Em 2011 o arquivo encriptado que continha toda a informação do Wikileaks foi aberto.
O primeiro ministro do Japão renunciará.
Por causa do desastre de Fukushima ele renunciou.
A China apertará a censura contra sua população, especialmente na Internet.
Além de todo o trabalho de censura ao longo do ano, a China terminou este mês prendendo mais alguns blogueiros.
A AIDS fará muitas vítimas no mundo inteiro, especialmente na África.
Sem comentários.
Haverá uma epidemia de dengue no Brasil.
Só porque a televisão não mostra, isto não quer dizer que a epidemia não aconteceu. Em 2011 teve muita dengue. Aqui em minha cidade mais de 20% da população teve. Até eu tive.
Paulo Coelho receberá uma homenagem no exterior.
As múltiplas traduções de seu novo livro se qualificam claramente como homenagens.
Um astro do futebol brasileiro será contratado por um clube da Europa.
Ainda lamentamos a ida de Diego Tardelli para o importantíssimo Anzhi, do Daguestão. Um joinha para quem sabe onde fica o Daguestão. Diego Tardelli provavelmente não sabe. Mas ganha uma fortuna e meia a mais do que eu. De que resulta que saber onde fica o Daguestão não dá camisa a ninguém.
Haverá um atentado terrorista protagonizado por muçulmanos radicais.
Nem vou me dar ao trabalho de procurar mais cedo no ano, porque houve um agora há pouco no Iraque. Mas se eu tivesse tirado «muçulmanos radicais» e colocado «fanáticos fundamentalistas» eu poderia facilmente listar o principal atentado terrorista do ano: a injustificada, não provocada, inexplicável, estúpida, contraproducente e cruel investida das forças americanas contra um pobre posto de fronteira do Paquistão, provavelmente causada pela «incompetência» dos recrutas para responder às abordagens por rádio dos «agentes de inteligência» ianques, fosse por não terem rádio, fosse por não saberem inglês.
As seleções brasileiras participarão da Liga Mundial de Vôlei.
Perderam, mas participaram.
A Rede Globo apresentará no dia 31 de dezembro de 2011 um programa gravado contendo trechos musicais interpretados por números de sucesso da música popular.
Foi ontem, se você não estava ocupado, como eu, enchendo a cara de cerveja, cidra barata e churrasco, deve ter visto. Minha mulher disse que viu.
Muitos técnicos perderão seus cargos nas primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro.
É necessário comentar?
Acusações de corrupção derrubarão um político no Brasil.
Idem, ibidem.
O resultado do Carnaval carioca será muito polêmico.
Mas a maior polêmica continuará sendo sempre por que a gente ainda leva carnaval a sério.
Haverá grande atrito político entre a Coreia do Norte e a do Sul, mas não guerra declarada.
Quase o ano passou em branco, mas a suspeita morte do tiranete do topete fez a Coreia do Sul passar alguns cagaços no fim do ano.
Eu lançarei um livro, pela Editora Multifoco.
Liber jactus est, como celebremente Júlio César não disse… Se duvida, leia aqui.
Um líder muçulmano conclamará seus seguidores a matar uma personalidade europeia ou americana que supostamente ofendeu o Islã.
Olha, não consegui identificar ainda um fato isolado, mas Gert Wildeers anda recebendo mensagens de ódio quase regularmente, e Ayan Hirsi Ali também.
Palestinos serão mortos pelas Forças de Defesa de Israel.
Foram poucos, mas eles sempre dão um jeito de se matar uns aos outros.
Um brasileiro vencerá corridas de automóvel no exterior.
Tive de recorrer ao Filipe Nasr, do Campeonato Inglês de Fórmula 3, mas a previsão se confirmou.
«Lula, O Filho do Brasil» não vencerá o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Não merecia ganhar nem um prêmio de Melhor Filme Brasileiro.
São Paulo sofrerá com alagamentos causados por chuvas de verão.
Sem comentários.
Um novo modelo de automóvel será lançado.
Não entendo muito de automóveis, mas certamente isto aconteceu.
O papa dará uma declaração sobre planejamento familiar.
Adoção de crianças por gays se enquadra como «planejamento familiar»?
A tese do Aquecimento Global Antropogênico sofrerá duras críticas de «pesquisadores independentes».
Este foi o meu grande erro no ano. Subestimei as críticas. Nos EUA o Tea Party chegou ao ponto de ameaçar fisica e judicialmente projetos ecológicos que eles dizem incluir preocupações com o aquecimento global. A coisa chegou ao nível de paranoia total. Os EUA estão loucos e nem Deus nos livra.

Tendo estabelecido que eu tenho autoridade para fazer previsões, passo a fazer, em um post separado, a minha lista de previsões para 2012.

A Desimportância da Política na Sociedade Moderna

Aristóteles considerava a política uma atividade tão importante que aceitou ser preceptor de Alexandre o Grande, na esperança, talvez, de criar um rei filósofo que levasse a luz da Hélade aos bárbaros. Nunca se saberá exatamente em que estava pensando quando aceitou o emprego. Possivelmente apenas em dinheiro, visto que, na qualidade de «estrangeiro» (da maneira muito peculiar com que os gregos usavam este conceito), era o máximo a que poderia aspirar em uma cidade.

Para dar cabo de sua tarefa, ele escreveu uma obra que fundou uma ciência. Ao longo dos séculos muitos outros pensadores continuaram elaborando teses e conceitos sobre as maneiras pelas quais os senhores e os servos interagem naquilo que hoje em dia chamamos de «sociedade». Verifica-se, porém, um empobrecimento conceitual desta arte no século XX, de certa forma simultâneo ao crescimento do prestígio de um outro campo do conhecimento: a economia.

O que se observa é que não parecem haver muitas ideias políticas relevantes em debate no mundo de hoje. O último grande suspiro da ideologia foram os fascismos: de lá para cá o que se acompanhou foi a decadência do socialismo real, a doença e a eutanásia do Estado de Bem Estar na Europa e sucessivas crises que paralisaram o debate político em torno do ditado da economia. Quando Francis Fukuyama, em um infame ensaio datado de 1989, aventou a possibilidade do «Fim da História», ele não se baseou nos desdobramentos da política, mas no que ele julgava ser a inexorabilidade dos valores econômicos capitalistas.

O triunfo da economia veio acompanhado do triunfo da máquina sobre o homem e do exército sobre o povo. A máquina, ao simplificar o processo produtivo e diminuir a necessidade de treinamento do operário, atuou como um fator destruidor sobre o sindicalismo, que era uma base política popular. O sindicalismo «de resultados» se impôs, aceitando jogar pelas regras ditadas pelo patrão, inclusive medindo o seu próprio sucesso segundo os parâmetros do opressor. Sindicato melhor é aquele que propicia mais ganhos econômicos.

Ao instrumentalizar o sindicato de forma a torná-lo apenas uma ferramenta para negociar reposições salariais, o sistema econômico capou a possibilidade de uma revolução vinda da esquerda. O resultado disso foi o aparelhamento do Estado que aconteceu quando o sindicalismo se elegeu. A ideia de que seria possível fazer uma revolução por dentro, aderindo ao sistema, solidificou e hierarquizou o movimento sindical, a ponto de os peões de chão de fábrica terem uma relação tão distante com os seus líderes quanto os apaniguados dos coronéis tinham no passado. No capitalismo plenamente desenvolvido até mesmo a dissensão é um serviço público.

O triunfo do exército sobre o povo é o mais perigoso de todos. Com armas tão poderosas quanto as que foram inventadas para a Segunda Guerra Mundial (a Grande Guerra Mitológica do Século XX, como a chamarão os historiadores de um século futuro, se não formos extintos antes), o povo tornou-se apenas um detalhe. Um regime consegue perfeitamente massacrar a oposição e assegurar-se no poder. A única coisa que impede isso é o caráter do governante, que pode desejar honestamente uma reforma da sociedade, como Gorbachev, ou ser tão inepto que não tenha a coragem de assumir o ônus do massacre, como muitos ridículos ditadores terceiero-mundistas. Sobre o caráter do governante atua, obviamente, a mídia democrática e as instituições internacionais. Se estas deixarem de existir, nada impedirá que um regime se livre de alguns milhões de habitantes a fim de assegurar a obediência do resto.

A imprensa livre e as relações internacionais foram os trunfos que Gandhi utilizou para fazer sua oposição não violenta ao Império Britânico. Por mais que os britânicos tenham errado em outros lugares, ou por mais mérito que Gandhi tenha amealhado, o sucesso da luta não violenta contra a ocupação da Índia é algo de que um dia os descendentes dos britânicos se orgulharão. Certas derrotas são profundamente significativas. E o Império Britânico escolheu deixar a Índia para não ter que matar milhões. Certamente porque o povo em casa não aceitaria isso, ainda que os indianos não fossem brancos.

Nos anos sessenta a imprensa livre alimentou os protestos contra a Guerra do Vietnã, que os EUA poderiam ter vencido com algumas bombas atômicas e umas dezenas de milhões de mortos que «não fariam falta» na visão dos falcões de Washington. Hoje em dia a imprensa livre parece fraquejar, também ela abraçada pela economia. Os jornais têm cadernos inteiros falando de ações, mas não parecem capazes de analisar o que se passa no restante do mundo.

Dois sinais preocupantes da derrocada da política diante da economia podem ser observados nas crises de 2008 e 2011, tão recentes e já tão assimiladas. Em 2008 a crise se impôs sobre o mandato do primeiro presidente negro americano e castrou sua tentativa de ser diferente. Inaugurou-se com medidas superlativas do que antes criticara: mais déficit, mais dívida, mais transferência de recursos ao setor privado. Em 2011 a crise, habilmente refletida para a Europa pela magia negra do mercado que confia mais no culpado do que nas vítimas, derrubou dois governos eleitos (ainda que ineptos) e impôs governantes biônicos rejeitados pelas populações de Grécia e Itália.

Que o «mercado» (responsável pela crise) tenha eleito homens de sua confiança para geri-la, isto nos diz da profundidade da decadência da política. Mas o pior é que não parece haver nenhum caminho para resgatá-la. A revolução aconteceu, tanto na Grécia quanto na Itália, mas foi abafada com jatos d'água, gás lacrimogêneo e prisões. Aconteceu também nos EUA, onde, além de tudo isso, sofreu a oposição de uma maioria que se sintonizou com o discurso da opressão. No mundo de hoje, a medida da decadência da política está na facilidade com que as revoluções podem ser abortadas ou ignoradas.

A menos que ocorram no Terceiro Mundo, pois ali é possível inventar intervenções e proceder a bombardeios, fazer bloqueios e criar grupos títeres para conduzir mudanças controladas ou nem tanto. E ali também, não custa lembrar, os Estados costumam não ser tão bem protegidos contra seus cidadãos.

No exato momento em que escrevo isto está em discussão no Congresso dos EUA uma lei que permitirá ao presidente ordenar a prisão sem julgamento, por prazo indeterminado, de qualquer suspeito de atividade terrorista ou antipatriótica. Uma lei como esta deveria existir somente em ditaduras, mas… ainda podemos considerar como democracia um país cuja política é bipartidária, discursos alternativos são marginalizados ou até criminalizados e um presidente eleito com um programa bem definido é forçado a abdicar dele depois de tomar posse? E se os Estados Unidos, detentores da maior capacidade bélica, não puderem mais ser considerados uma democracia, quem tipo de futuro haverá para ela?

Porque a Omissão do Cristianismo em Relação à Escravidão Segue Doendo Tanto

Se algum ateu está dizendo que a escravidão existiu POR CAUSA do Cristianismo, então está falando merda mesmo. Tem que ir estudar antes de se achar superior. Que fique bem claro que o Cristianismo não inventou e nem sequer fomentou a escravidão dizendo que 'vai que escravizar é bom, é gostoso, agrada a Deus e não faz mal.' Essa culpa o Cristianismo não tem. Mas tem uma que não é muito diferente.

O que ocorre é que, para um sistema de crenças que se pretende revelado pela própria divindade sumamente boa, que se arroga no direito de julgar toda a humanidade (incluindo os vivos e os mortos), é lamentável que o Cristianismo tenha feito tão pouco contra a escravidão.

Mas por que deveria? Deveria porque uma doutrina divinamente revelada deveria estar à frente de seu tempo, e não "sintonizada" com ele. Se eu hoje disser que o Corinthians vai ser campeão brasileiro eu serei digno de riso. Isso seria um vaticinium ex post facto (previsão do fato acontecido). Se eu disser quem será o campeão ano que vem e acertar, aí sim será notável. Se uma religião prega, com séculos de antecedência que a humanidade deve evitar algo que mais tarde se revelaria prejudicial, então isso é notável, mas se a religião apenas endossa a prática de seu tempo, ainda que prejudicial, então ela não está fazendo nada demais.

Um exemplo: vários livros do AT recomendam aos judeus cortarem os bosques dos povos conquistados, deixando apenas as árvores frutíferas. Nos bosques se cultuava a natureza, o que era "pecado". Graças à devastação comandada por Javé a palestina desertificou-se durante a antiguidade, deixando de ser a "terra de leite e mel" do tempo pré-exílico para ser o pedaço árido que os romanos ali encontraram.

Outro exemplo: a escravidão foi a responsável pela falha estrutural da civilização greco-romana (cuja tecnologia e conhecimentos só seriam igualados no século XIX). Pode não ter sido a única, mas foi a maior culpada. Sem falar no sofrimento incrível que causou às vitimas. Ao endossar a escravidão o Cristianismo prolongou e agravou a agonia da Europa, trouxe morte e destruição ao mundo inteiro.

E digo "endossou" pelo simples fato de que tolerou. Tolerar o mal é endossá-lo. A Igreja guardiã da moral e detentora da revelação divina não achava errado escravizar ninguém. Na Bíblia Paulo até aconselha os escravos a serem submissos.

Ao fazer isso, a Igreja não mostrou revelação à frente de seu tempo, mostrou apenas estar de acordo com o espirito do temop. Tal como hoje, nessa era consumista desenfreada e tão materialista, quando as igrejas vendem Deus como produto e os milagres como um serviço garantido. De acordo com o espírito do tempo. E portanto, totalmente isentas de revelação. Obra de homens apenas. Tal como todas as religiões anteriores.

Não é preciso ser profeta para enxergar o que todo mundo vê.

O Mundo de Cabeça Para Baixo

Uma das notícias mais impressionantes da semana foi o pedido de ajuda de Portugal a Angola. Dá uma certa ânsia imaginar que outras grandes mudanças estão em gestação para este mundo que viveu os últimos vinte anos se equilibrando perigosamente na corda bamba da especulação. Até quando a Europa geriátrica ainda terá esperanças de sobreviver, se ainda tem? Não tentarão estes países, armados e famintos, tomar à força o que não podem comprar, tal como cangaceiros de filme antigo? Talvez não seja o caso do pobre Portugal, que talvez perdesse em uma batalha naval contra Andorra, mas se a crise apertar mesmo, ainda temos respeitáveis canhões na Euroamérica: Estados Unidos, Grã Bretanha, França (apesar de não ganhar nenhuma guerra desde os tempos de Luís XIV), Alemanha (esta desdentada pelos tratados do pós-guerra), Itália (apesar de sua tradição de incompetência militar nos últimos 400 anos) e Rússia. Como pode um país relativamente rico ou “enriquecente” proteger-se sem tecnologia militar de ponta? Parece que somente a China tem essa capacidade, e talvez a Índia. Daí a sorte (sorte?) de estarmos associados a eles (e numa hora dessas devemos xingar muito Collor e FHC por sepultarem nosso projeto de bomba atômica, e certo estava o louco Enéas) em vez de soltos no sertão do século XXI.

O Colonialismo Não Morreu, Só Mudou de Cara

Você já deve ter ouvido falar da famosa Teoria de Conspiração segundo a qual os Estados Unidos planejam tomar a Amazônia do Brasil, no todo ou em parte. Esta história tem rondado a conversa de muitos políticos de esquerda há décadas, apesar de frequentes desmentidos e do fato de que é uma teoria muito maluca. Para começar, basta analisar os precedentes de ocupação de território pelos EUA: quase sempre resultam em fracasso, não necessariamente a longo prazo. Diante dos sucessivos fiascos de tentativas anteriores, fiascos no sentido de prejuízo monetário maior do que os possíveis ganhos, é pouco possível que exista ou venha a existir algum plano de tal natureza por parte do governo americano (pelo menos enquanto pessoas absolutamente estúpidas, loucas e megalomaníacas não tiverem controle total do sistema político ianque, o que não é absolutamente assegurado para sempre). Mas há mais teorias rondando as cabeças dos políticos e economistas do que somos capazes de conceber. E parece haver, de fato, um plano para tomada e ocupação de território em países do terceiro mundo (sob o cuidadoso disfarce de tratados internacionais e boas intenções). Eis o mais extraordinário.

O conceito foi proposto pelo Professor Paul Romer, da Universidade de Stanford (EUA, onde mais?) e se chama “Charter Cities”, um termo de origem medieval que seria melhor traduzido como “cidade-estado” ou “cidade autônoma”. Vamos usar “cidade-estado”.

O Professor Romer acredita que os países do Terceiro Mundo não são capazes de desenvolver formas sustentáveis de governança e nem de prover a suas populações um padrão de vida aceitável (pela ótica do American Way Of Life), a menos que sejam “ensinados” a isso. Romer ainda acredita que a única maneira de resolver os problemas políticos de tais países seria inserir neles núcleos de desenvolvimento (as tais cidades-estado). Uma vez estabelecida a cidade, ela atuaria como uma força transformadora da realidade do país hospedeiro.

O conceito é inspirado nas Zonas Econômicas Especiais, implantadas pela República Popular da China (uma inspiração muito idealista e democrática, diga-se de passagem), mas uma análise mais profunda verá que suas origens remontam às concessões feitas pela China Imperial às potências europeias no século XIX, pois as ZEE nada mais foram que uma reedição de Hong Kong e Macau. Segundo o sítio oficial do projeto:

Cidades estado são zonas especiais de reforma. Elas permitem que os governos adotem rapidamente novos sistemas de regulação. As leis formais de uma cidade estado e as normas que ela encoraja podem diferir substancialmente do sistema prevalente no país. O conceito é muito flexível, mas três elementos são comuns a todas as cidades estado:

  1. Uma porção de território desabitado, suficiente para o estabelecimento de uma cidade, cedida voluntariamente por um país hospedeiro.
  2. Uma Constituição que especifique as leis que governarão a nova cidade.
  3. Liberdade para que todos que desejem ser residentes da cidade nela entrem ou saiam.

Em linhas gerais, a entidade política resultante deste arranjo seria de fato independente do país cessionário, mas deveria ter suas fronteiras liberadas. Na prática, a Cidade Estado funcionaria como um foco de desestabilização do país hospedeiro. Isto porque, embora o Professor Romer afirme categoricamente que não haveria qualquer forma de coação envolvida, o projeto prevê, sim, uma forma de coação:

“As cidades estado são baseadas inteiramente em atos voluntários. Nenhuma pessoa, empresa, investidor ou país pode ser coagido a participar… Apenas países que desejem criar Cidades Estado liberarão território para isso.”

Analisemos, porém, o trecho a seguir:

Há três papéis básicos que os países podem assumir na criação de uma nova cidade em uma zona especial de reforma:

  1. A terra vem de um país hospedeiro.
  2. A população vem de um país provedor.
  3. A segurança de que a Constituição da cidade será respeitada vem de um país garantidor.

Segundo o professor existem “muitos arranjos possíveis” considerando que um mesmo país pode ter um ou mais papéis, ou vários países podem dividir um mesmo papel. Convenientemente, são citados os três papéis menos invasivos à soberania do país doador:

  • Um país poderia assumir os três papéis, como a China fez ao estabelecer as zonas econômicas especiais […] Por exemplo, a Índia parece estar indo neste sentido, usando parcerias público-privadas para criar novas cidades em terras devolutas.
  • Um país pode servir tanto como hospedeiro como garantidor, atraindo residentes de um país provedor específico. Consideremos o caso hipótetico de o Brasil criar uma cidade estado e convidar haitianos a viver nela.
  • Um país poderia servir tanto como hospedeiro como provedor, mas o papel de garantidor seria exercido por um consórcio de aliados do país. Considere o caso hipotético de a Mauritânia criar uma tal cidade. A Nova Zelândia e a Noruega serviriam como garantidores e vários países da região, incluindo a própria Mauritânia, forneceriam a população.

O Professor não deixa de mencionar que existem “outras possibilidades”, mas não se dedica analisar aquela que, entre todas, seria a mais plausível: uma potência militar adquirindo uma concessão territorial de um país pobre e usando-a como “cabeça de praia” para impor ali seus interesses econômicos. Ao contrário do Professor, eu tenho mais facilidade para imaginar uma potência militar e econômica (não necessariamente os Estados Unidos, mas provavelmente eles) tomando à força um território das Filipinas, de Angola ou da própria Mauritânia e impondo ali, de forma limitada, suas leis e seus valores.

Países pobres e instáveis, frequentemente assolados pela corrupção, podem facilmente ser levados a ter no poder um líder dócil aos interesses imperialistas, que assinará o tratado abrindo mão de parte de seu território em troca de benefícios pessoais. A figura do “garantidor” impede que futuramente o país possa arrepender-se e voltar atrás, sob pena de sanção militar (devidamente autorizada pela ONU em razão da “violação de tratados” assinados soberanamente).

Claro que o Professor argumenta com o exemplo chinês para dourar a pílula, mas o que ele está propondo não é diferente, em linhas gerais do que fizeram os britânicos em Hong Kong e Cingapura e que os americanos fizeram em Guantánamo e na Zona do Canal do Panamá. Todos estes lugares apresentaram ou apresentam exatamente as características citadas para as cidades estado. Senão, vejamos:

No caso de Hong Kong a China forneceu o território e a população veio da própria China, mas também da Grã Bretanha e de outros lugares. No caso de Cingapura, o território foi fornecido pelo sultão de Johor (hoje um estado da Federação da Malásia) e a população veio da própria Malásia e também da China, da Índia e das Filipinas. Em ambos os casos a Grã Bretanha atuou como “garantidora”.

No caso de Guantánamo o território foi fornecido por Cuba e a população veio dos Estados Unidos (os cubanos foram expulsos de lá, “liberando território” para o estabelecimento da Cidade). No caso da Zona do Canal do Panamá o mesmo padrão se repetiu, apenas em maior escala. Em ambos os casos os países hospedeiros não tiveram o direito de voltar atrás. Os EUA só saíram do Canal do Panamá quando perceberam que a longo prazo ele deixaria de ser lucrativo, e ainda permanecem em Guantánamo, apesar da denúncia do tratado pelo governo de Cuba.

Não haveria problema algum se algum país resolvesse fazer o que fez a China, com suas ZEE. O próprio Professor relata que a Índia está copiando a idéia e é possível averiguar na Internet que uma situação análoga existe no Egito (Sharm el-Sheik). Só que o fato de o conceito ser tão “elástico” (palavras do Professor) significa que ele funciona muito bem como cortina de fumaça para esconder outros arranjos “possíveis” nos quais a soberania de certos países sairá seriamente prejudicada. Afinal, o mundo está cheio de pequenos países que foram originariamente estabelecidos como cidades estado pelas potências coloniais do século XIX ou herdados do tempo das “feitorias” dos tempos das navegações.

Djibouti só existe porque os franceses tomaram uma parte da costa da Etiópia (depois a Itália tomou o resto). Cingapura e Brunei são “cidades estado” estabelecidas pelos ingleses no Sudeste Asiático, sobre terras inabitadas. Hong Kong e Macau, embora hoje tenham sido devolvidas à China, eram concessões eternas à Grã Bretanha e à Portugal. Só a muito custo a Namíbia conseguiu incorporar ao seu território o porto de Walvisbaai, convenientemente estabelecido pelos alemães como uma “cidade estado” no século XIX.

Tal como no século XIX, ainda existem mentes brilhantes nos círculos acadêmicos dos países desenvolvidos que acreditam que os “selvagens dos trópicos” precisam ser civilizados pelos valores do homem branco. Sob a capa destas boas intenções (capa bem translúcida, diga-se de passagem) ainda vigora o racismo, o eurocentrismo e a aspiração à hegemonia cultural e econômica.

O conceito de cidade estado, uma versão miniaturizada de colonização, atende às necessidades do capitalismo moderno, evitando o dispêndio necessário para controlar um amplo território (tal como os portugueses faziam com suas feitorias), mas ainda tendo a possibilidade de acesso fácil aos recursos naturais e à força de trabalho da região hospedeira.

E se você acha que eu estou inventando esse papo, visite o site dedicado ao projeto, para ver como o “fardo do homem branco” pode ser pintado de cores róseas, mas ainda continua vigorando na mentalidade dos ideólogos do capitalismo (que, aliás, é o único sistema capaz de desenvolver a humanidade, claro).