Quando a Justiça Odeia

Não é nenhuma novidade mais que estamos vivendo um processo intenso de radicalização, com o terreno do centro sendo gradualmente comprimido pelos extremismos e com os rituais da democracia sendo estuprados em nome de interesses pessoais. Isto inclui os partidos, que planejam golpes ou eternização no poder, passa pelas instituições da sociedade civil, que frequentemente se fundam na defesa de privilégios e na construção de barreiras contra o outro, e pervade a sociedade como um todo, que começa a regurgitar episódios de ódio contra minorias raciais, ideológicas ou comportamentais.

Quando, porém, alguma voz nos tenta convencer de que não é tão grave assim a doença de nossa democracia, eis que uma voz rouca ecoa de dentro das cavernas, um promotor público utiliza o Facebook para mandar um recado à polícia de choque para que reprima com violência uma manifestação popular pois ele se encarregaria de arquivar o inquérito contra os responsáveis:

Alguém poderia avisar à tropa de choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial.
Petista de merda. Filhos da puta. Vão fazer protesto na puta que os pariu… Que saudades da época em que esse tipo de coisa era resolvida [sic] com borrachada nas costas dos medras…

O ódio é incompatível com a justiça, isto é algo que nem seria necessário dizer. Infelizmente, o Brasil não só é um país onde tem feito falta enfatizar o óbvio — como as noções básicas de cidadania, direitos humanos, justiça, dignidade etc. — como é um país onde dizer o óbvio parece cada vez mais causa de escândalo. Quando o rei está nu, para evitar o escândalo, é necessário reagir com toda radicalidade diante de quem ameace dizer isso. Por isso, no Brasil de hoje, quem diz o óbvio costuma ser atacado com mais força do quem expressa o absurdo.

O que este promotor de justiça disse é absurdo, mas muita gente aplaude. Aplaude porque o ódio está na moda, especialmente entre os simpatizantes de forças políticas que vem sendo deixadas para trás pelo trem da história. Almejam descarrilar o futuro e, se possível, empurrar tudo de volta para trás. O reacionarismo precisa de muito ódio e violência, porque não é possível explicar racionalmente às pessoas porque elas devem abrir mão de tudo que tornou sua vida melhor nos últimos dez ou vinte ou trinta anos. O reacionarismo precisa subjugar porque não consegue convencer. Ele precisa de uma tropa de choque, e de um promotor previamente comprometido a arquivar os inquéritos contra os policiais que aceitem matar aqueles de quem o promotor discorda.

Cada dia que passa nós damos um passo rumo ao abismo. Episódios como esse nos mostram que o fundo do poço moral tem porão. Que não existem limites para a falta de ética, de cidadania e de responsabilidade. Quando um membro do judiciário exibe total descompromisso com a Lei, e mesmo com os princípios que norteiam a Lei, cabe perguntar como podemos confiar nessa justiça. Nessa justiça sem freios e sem controle externo, onde a punição para um discurso de ódio como esse se limita a uma “aposentadoria”.

Havia uma antiga piada contada por um amigo meu, estudante de Direito, segundo a qual a diferença entre um juiz e um advogado é que o advogado apenas acha que é Deus. Só uma piada de advogado, claro, mas esse promotor leva tudo isso muito a sério. Ele se arroga o direito de decidir sobre a vida e a morte de pessoas que não conhece, apenas porque simpatizam com um partido (isso segundo sua percepção, pois não há provas de que os manifestantes seriam exclusiva ou mesmo majoritariamente “petistas”). Se algum dia, em um curso de direito, houver a necessidade de exemplificar o que é “injustiça”, basta exibir o print dessa postagem desse promotor, que violou a constituição e se tornou um criminoso ao se tornar mandante de assassinatos (o fato de tais assassinatos não terem sido cometidos não diminuiu o fato de que ele os ordenou).

A continuidade deste promotor em seu cargo, após isso, é um estupro ao direito constitucional e uma cuspida na cara da sociedade. Principalmente porque, se ficar claro que um membro do judiciário pode cometer tal temeridade impunemente, a perspectiva é que, cada vez mais, as vozes das cavernas ousem berrar na cara do povo, especialmente do povo “petista” (ou seja, aqueles a quem os reacionários acusam de ser petistas) que eles não têm direitos.

O ovo da serpente já está no ninho. Resta saber se vamos ser tolerantes contra  a intolerância ou seremos capazes de mostrar organização para resistir ao desmonte da democracia por aqueles que têm saudades do tempo em que podiam dar “borrachadas” em quem protestava.

Adeus Facebook: Está Chegando o Dia 31

Tenho uma promessa feita de excluir meu perfil do Facebook no dia 31 de maio de 2013. A promessa já era antiga, mas eu só a divulguei na própria rede social no final do mês passado porque, durante muito tempo, hesitei em tomar esta medida tão radical. Por mais que entendesse que a participação na rede social estava prejudicando vários aspectos de minha vida pessoal e profissional, eu ainda tinha alguma percepção de que continuar participando estava trazendo outros benefícios que compensavam. As últimas semanas, porém, foram me convencendo de que os lucros não são suficientes para cobrir os prejuízos.

Primeiro abandonei definitivamente as comunidades de debate, onde ideias diferentes permanentemente se chocam e nunca se chega a nenhum consenso. Depois abandonei as comunidades literárias, onde se fala de muita coisa (até de literatura) e nada se produz de interessante. Comecei a excluir amizades com pessoas que não conheço pessoalmente e com quem não interajo: essas pessoas podem ser testemunhas inúteis de coisas que digo e penso, ou  podem estar coletando informações contra mim. Se gostam, convido-as a assinarem os feeds de meus blogues. Até para a finalidade de futura sabotagem elas estarão melhor servidas.

Durante algum tempo mantive meu perfil ativo, comentando normalmente, testemunhando a árdua escalada do pensamento da maioria rumo ao trogloditismo. Pessoas que eu julgava esclarecidas aderindo a discursos de ódio, defendendo posições ultra-direitistas (ou ultra-esquerdistas, o que dá no mesmo). Pessoas que eu julgava bem informadas repetindo artigos superficiais, com acusações estúpidas. Pessoas que eu julgava sábias, cometendo erros crassos de julgamento.

São muitas as manifestações de boçalidade nas redes sociais. Desde o ódio imbecil contra o Brasil, expresso numa espécie de complexo de vira latas que idolatra tudo que é estrangeiro e execra tudo o que é nacional, como se nós fôssemos a escória da humanidade, até uma crença ingênua nas virtudes das potências imperiais, vistas como vestais da humanidade.

Em uma época na qual somos mais livres do que jamais fomos, a juventude que nunca teve que ouvir um “não” de seus pais se dedica a propagandear as virtudes da ditadura. Enquanto o país atravessa um longo processo de melhora, expresso até no desaparecimento dos carros velhos da paisagem de nossas cidades, tanta gente achando que vivemos os estertores do Armagedom. E quando temos a possibilidade de mudar o nosso destino através do democrático instrumento do voto, tanta gente vendo justamente nele a fonte da “corrupção”, que aparentemente, entre todas as nações do planeta, só existe aqui, e entre todas as épocas da história, parece ter surgido de dez anos para cá.

Aos poucos fui perdendo a paciência com isso, fui deixando de lado esses debates: ninguém vai ao pasto silenciar o zurro das mulas, apenas nos incomodamos quando vêm dar coices e cagar em nossas portas. Cada vez que eliminei algum desses laços, ficou mais leve a minha decisão, que não será antecipada e nem adiada.

O mais recente destes cortes foi o  mais surpreendente, ao ver uma pessoa a quem respeitava defender o direito da maioria de praticar bullying contra a minoria através do “humor politicamente incorreto” (através do questionamento do direito que os ofendidos têm de se sentirem ofendidos) eu simplesmente deixei de acreditar na possibilidade de um debate racional nas redes sociais. Ao que parece, a simples convivência ali contribui para nos empurrar para posições reacionárias. +Ligia+Mário e +Francisco que me desculpem, mas há coisas que eu resolvi não perdoar. Eu tenho a opção de não ouvir aquilo que considero absurdo demais. Deixem-me cá com as minhas ilusões de um mundo mais justo, no qual a força do número não seja usada para humilhar os poucos, no qual não se exija de quem propõe mudanças uma pureza superior à de quem sempre esteve no poder, no qual crenças fundamentalistas em conceitos abstratos não fiquem acima do desejo de construir um mundo melhor para todos.

Cá de fora terei mais tempo para viver a minha vida e, sinceramente, adquiri mais simpatia pelas Testemunhas de Jeová. Elas podem estar erradas, eu posso discordar delas, mas elas não ficam poluindo o mundo pela distribuição aos quatro ventos de tratados nos quais afirmam coisas que ofendem aos crentes de outras igrejas. Eles vêm de vez em quando, fazem seu comercial e vão embora sorrindo. Diferente dos reaças da internet, que pululam sem parar, atacando tudo, xingando quem pensa diferente, desacreditando de todo projeto de mudança, etc. Prefiro um mundo com mais pregadores em meu portão do que a internet embebida de reacionarismo. Porque o meu portão ainda está sob o meu controle, e se eu quiser fingir que estou dormindo no domingo de manhã ninguém me obrigará a ouvir o que dizem.

As Redes Antissociais

Cada dia que passa me trombo com novas evidências de que as redes sociais têm, no fundo, um modus operandi diferente do ideal que é propalado pelos seus entusiastas. Com todos os seus defeitos, a Deep Web me parece ser o espaço realmente revolucionário, onde a promessa de liberdade anárquica da rede se cumpre. Redes sociais são cercadinhos mentais, que impedem o desenvolvimento do espírito crítico.

Não sei até que ponto isto é defeito colateral ou uma característica designada. As redes sociais, afinal, não foram criadas com finalidade política, mas meramente como uma espécie de correio galante. A única delas que ofereceu ferramentas realmente eficazes para o contraponto de ideias foi o Orkut, mas ele já não faz parte dos planos de ninguém.

Nas demais redes sociais, como o Facebook, a Diaspora, o Plus e outras, o que temos é uma organização que dificulta a localização e o compartilhamento de conteúdo — além de também dificultar a identificação e a contextualização de comentários. Os fóruns do Orkut não serão igualados porque o que se quer das redes sociais não é aquela interface favorável a discussões. Todas as redes atualmente em uso tornam cada usuário em ditador de seus perfis, redes e grupos. Respostas são ocultadas à medida em que novas respostas aparecem, de forma que a proposta inicial sempre está em evidência, mesmo tendo sido rebatida. E todos podem facilmente isolar-se de críticas deletando comentários desabonadores ou contestações eficientes.

A médio e longo prazo isso faz com que as redes sociais, em vez de ágoras ruidosas onde os diferentes pensamentos se contrapõem e pessoas de todas as opiniões argumentam entre si, acabem como feudos de opiniões não contestadas. Os usuários podem permanecer longos períodos de tempo lendo apenas aquilo que lhes interessa, sem nunca se chocarem frontalmente com o contradito. Não importa que uma opinião se embase em preconceitos e ignorância, controlando a capacidade alheia de questionar os preconceitos e de informar os ignorantes, cria-se a impressão de que não existe resposta para aquilo que até as pedras estariam respondendo. E claro, isso fanatiza e radicaliza as opiniões, em ambos os extremos do espectro político.

Hoje tive um exemplo de como funciona isso. Um amigo meu publicou um artigo insano sobre o bloqueio econômico americano a Cuba com uma conclusão imensamente inepta: de que Cuba usa o bloqueio para ocultar sua deficiência econômica crônica, causada pelas contradições internas do socialismo, e que o bloqueio não é a causa das agruras do povo cubano porque os EUA não são os únicos fornecedores dos produtos que faltam na ilha.

O nível de primitivismo, de ignorância e de falta de inteligência nesta proposição é tão grande que é até difícil ser educado em uma resposta. Mesmo porque, quando você questiona um idiota ele sempre reage mal, porque qualquer questionamento válido expõe que ele é um idiota.

Todas estas proposições já foram suficientemente desmontadas por gente como Salim Lamrani, em sua famosa entrevista com Yoani Sánchez, mas o controle do contraponto, possibilitado pelas redes sociais, faz com que ideias estúpidas continuem sendo difundidas, simplesmente porque quem lê esses relinchos não encontra reações.

Para que o meu leitor entenda o tamanho da bestagem que foi dita pelo meu «amigo» facebookiano, vou expor a coisa em argumentos simples, que sequer necessitam de pesquisa, apenas de lógica elementar. Infelizmente esses argumentos não serão lidos por direitistas ou por apoiadores do bloqueio. Essa gente acredita que eu sou um idiota porque penso diferente, e não virão aqui ler o meu artigo, diferente de mim, que frequentemente leio artigos deles.

Primeiro o, ehem, «argumento» ignora que o bloqueio econômico não impede apenas a importação do que falta em Cuba, mas também a exportação do que lá se produz. Sendo os EUA o maior mercado consumidor do mundo, e estando tão próximo, logicamente o bloqueio nega a Cuba um mercado fácil e próximo para os seus produtos. Existe aí um segundo fator importante, especialmente durante a Guerra Fria: a economia turística cubana, que era toda focada em turistas americanos, praticamente deixou de existir porque os novos parceiros econômicos socialistas não faziam turismo. Somente a perda desta indústria já trouxe um prejuízo imenso à ilha. Quando os cubanos deram um jeito de substituir os turistas americanos por outros, os americanos deram jeito de criar novos boicotes e bloqueios.

Segundo que, se o bloqueio fosse ineficaz, como dizem os direitistas, se ele não causasse as dificuldades econômicas de Cuba,  não haveria necessidade de mantê-lo. Se ele apenas fornecesse ao governo cubano uma desculpa para sua incompetência, como dizem, então os EUA estariam de fato ajudando a manter no poder a ditadura dos Castro. Essa parte do argumento é mais controversa porque, de fato, bloqueios são pouco eficazes para derrubar regimes. As sanções econômicas contra a África do Sul, o Iraque e, mais recentemente, o Irã, não deram grandes resultados. As odiosas ditaduras dos dois primeiros desses países acabaram, respectivamente, pela exaustão de sua capacidade militar e pela invasão americana. Os bloqueios só serviram para criar dificuldades relativamente pequenas, no caso sul africano, ou para matar crianças de fome e doenças evitáveis, no caso iraquiano. Então eu acredito que o bloqueio funcione para causar o caos, falhe em remover o regime, mas seja mantido pelos EUA por uma questão de mero orgulho.

Mas a escala do bloqueio é também controversa. Segundo o meu «amigo» facebookiano, se os revolucionários americanos odeiam tanto os ianques, não deveriam procurar comércio com eles, mas com outros países. Esta frase é, por si, idiota. Acredito que ninguém em Cuba odeie «os americanos». Alguns certamente odeiam o imperialismo americano, mas odiar as pessoas nascidas no Estados Unidos é outra coisa. Ainda que o governo de Cuba tenha suas diferenças com o governo dos Estados Unidos. Então seria possível algum nível de comércio entre os dois países, empresas americanas vendendo para pessoas cubanas, pessoas americanas comprando de empresas cubanas, pessoas de ambos os lados visitando turisticamente o outro etc. Nada disso impediria a pureza ideologica de ambos os regimes. Não custa lembrar que os EUA tinham comércio com as nações socialistas durante a guerra fria.

Mesmo supondo, porém, que o ódio aos «americanos» devesse se traduzir num boicote recíproco e que, por pureza ideológica, Cuba devesse procurar comprar e vender de outros governos e povos, ainda assim o bloqueio é monstruoso porque desde a Lei Helms-Buron, de 1992, qualquer empresa que venda a Cuba pode ser proibida de vender aos EUA, na prática obrigando-as a optar entre o mercado americano e o cubano. Isso não inclui só empresas americanas, ou filiais de multinacionais americanas, mas até empresas estrangeiras. É verdade que esta lei tem sido implementada de forma seletiva (não me consta que os EUA tenham deixado de negociar com a PDVSA ou  com a PEMEX), mas ela segue como um fantasma para quem pretenda vender a Cuba.

Todos estes dados aqui transcritos foram informados ao meu amigo, com a recomendação de que pesquisasse sobre o assunto e não repassasse informações erradas. O efeito de minha intervenção foi ver meus comentários excluídos, logo depois fui verbalmente agredido, na base do «este é o meu perfil e eu posto o que quero, vá defender a ditadura cubana noutro chiqueiro» e não me restou alternativa senão excluir a amizade. Porque uma pessoa que quer me dizer coisas erradas, mas não quer ouvir minha resposta, é alguém que eu não quero ouvir mais.

E este desfecho me abriu os olhos para o modo como funcionam estas redes sociais, como contribuem para reforçar os preconceitos e a desinformação. Os leitores do meu «amigo» que não viram minhas intervenções antes de serem apagadas terão a impressão de que ninguém consegue contestar os «dados» e as conclusões dele, apesar de serem fáceis de desmontar. Mesmo alguns que viram, como já estão «vacinados» contra essa «doença esquerdista», devem ter quebrado paus no ouvido e seguido com a cantilena.

E no fim das contas, por um medida de honestidade, preciso admitir que eu mesmo, às vezes, resvalo nesse tipo de atitude. O que me leva a concluir que todos os lados estão sendo infantilizados pelas redes sociais, que não funcionam como ágoras, mas como clubinhos. Que não estimulam o livre debate de ideias, mas as miúdas conspirações isoladas entre si.

Vá Pelo Raso, meu Filho

Para todo fato complexo existe uma explicação simples... e furada.

Quanto mais simples a pessoa, maior sua tendência a buscar explicações simples, para não ter que lidar com ideias complexas.

A grande ilusão de nosso tempo é substituir o esforço pela mágica. A malhação pelo anabolizante, a construção pela prefabricação, a dieta e o exercício pelo remédio milagroso que "seca gordura", o conhecimento profundo pelas teorias rápidas e redutoras.

A internet é o veículo destas simplificações, que apelam aos simples.

Quem não sabe nadar, procura cruzar o rio pelo vau.

A Aposta de Pascal Reduzida ao Absurdo na Internet

Se você deseja defender uma opinião sua, qualquer que seja, deverá, naturalmente, escolher para esse fim argumentos que convençam com sinceridade e transparência, e não insinuações pessoais, provocação de medo ou apelo à ignorância. Quanto mais sólidos os seus argumentos, porém, menor a sua popularidade: argumentos racionais fazem com que as pessoas burras se sintam burras mesmo. Como a Constante de Auden nos ensina que a soma total da inteligência simultaneamente presente na humanidade tem se mantido constante nos últimos séculos, a conclusão óbvia é que haverá sempre mais pessoas dispostas a aceitar ideias idiotas do que explicações racionais. Sem falar nas vantagens evolutivas de ser crédulo, que já foram mencionadas por um etólogo agnóstico britânico famoso.


Isso explica a força com que se propagam os chamados «memes», esses pedaços desconexos de informação anônima que vagam pelo mundo. Antigamente a gente chamava isso de fofoca, mexerico, boato, calúnia, etc. Mas como as pessoas progressivamente se cansaram de ser acusadas de propagar essas coisas chamadas por nomes tão desagradáveis, adotaram o termo mais chique. Ninguém se sente uma vizinha fofoqueira quando e nem se identifica com um caluniador inconsequente quando «replica um meme».

Gatos não precisam de explicação. Precisam das pílulas de ácido que você tinha escondido na gaveta.

Memes apelam a afetos superficiais. Gatos, por exemplo. Desde que deixamos de guardar nossa comida em grandes celeiros eles deixaram de ter para nós qualquer importância a não ser a afetiva. Gatos são fofuchos pronto, não precisa explicar nada.

Memes apelam aos nossos medos. E principalmente ao medo do outro. O medo do «lá fora», onde estão todos os monstros e perigos. Não há nenhum perigo na nossa casa, na nossa rua, no nosso país, no nosso partido, na nossa religião. O inferno são os outros.

O maior dos medos é o medo da morte. Para agudizá-lo existe o medo maior ainda, do inferno. Não basta deixar de existir, é possível passar a existir numa realidade de eterna tortura. Afinal, Deus nos ama.

Diante deste medo, o filósofo francês Pascal criou um raciocínio sobre que atitude deveria ter um ser racional diante do problema da existência de Deus.  A famosa «aposta de pascal», até hoje difundida como o argumento «matador» contra o ateísmo. Como toda bala de prata, ela só funciona se o monstro for um lobisomem.

A aposta de Pascal contempla quatro possibilidades:

  1. Deus existe e vivemos crendo nele: morremos e estamos salvos.
  2. Deus existe e vivemos não crendo nele: morremos e estamos perdidos.
  3. Deus não existe e vivemos crendo nele: nada acontece.
  4. Deus não existe e vivemos não crendo nele: nada acontece.

O argumento central da aposta é que somente podemos estar fodidos se Deus existir e nós não crermos nele. Portanto, crer em Deus é uma maneira de se garantir contra o pior cenário. É uma espécie de seguro da alma contra os riscos de inferno.

Supostamente esta geringonça de bronze era capaz de fazer adições.

É díficil crer que um filósofo tão respeitável quanto Pascal, um gênio precoce que inventou uma máquina calculadora aos 14 anos, ainda no século XVII, tenha concebido uma argumentação que hoje até uma criança de 14 anos que não sabe nem montar um carrinho de Lego é capaz de destruir. A aposta de Pascal padece de dois vícios. O primeiro é que ela não aborda a questão da existência de Deus em si, mas apenas as suas possíveis consequências. O apelo às consequências pode ser persuasivo, mas nada diz sobre a verdade. O segundo vício é que ela só lida com duas possibilidades: «existe» ou «não existe», sem considerar que Deus pode existir e ser diferente desta entidade concebida pelo cristianismo. A aposta, enfim, só funciona se você já acredita em Deus, e no Deus específico de que estamos falando.

Mas o apelo às consequências é eloquente para pessoas que pensam com medo, e limitar as possibilidades àquelas que a pessoa já conhece, sem exigir que ela aprenda nada novo, ajuda a angariar adeptos para qualquer ideia. Se o seu argumento depende de que os ouvintes busquem conhecimento para concluírem por si mesmos, então prepare-se para a resposta das paredes, porque todos querem apenas descobrir que «já sabiam» o que precisavam saber. Isso inclui Deus: se o argumento sobre Deus contempla apenas o Deus que a pessoa já conhece, então esse argumento será facilmente aceito.

Uma das maiores provas da falha bisonha da Aposta de Pascal é que ela é o mecanismo «racional» por trás dos boatos de internet. Sempre que você recebe uma mensagem propondo evitar que algo horrível aconteça, ou propondo ajudar algo bom a acontecer, você faz a mesma matemática de Pascal:

  1. Se for verdade, eu ajudei, eu fiz minha parte.
  2. Se for verdade e eu não ajudei, vou me sentir culpado um dia.
  3. Se for mentira, não me custou nada tentar ajudar.
  4. Se for mentira e eu não ajudei, não perdi nada encaminhando a mensagem para mais alguém.

Entre lidar com a culpa de não ter ajudado quando não custava nada e a sensação de ter salvado 0,01% do mundo sem gastar nenhum tostão, nós optamos pela segunda hipótese. Portanto, mesmo quando duvidamos da mensagem (como nos famosos centavos que o Facebook paga para quem compartilha fotos de garotinhos com câncer ou gatinhos agredidos), achamos legal a ideia de compartilhar aquilo, porque não custa nada, e de repente ajuda.

Se estes últimos três parágrafos não foram suficientes para você entender o tamanho da besteira que Pascal disse (apesar de ter inventado uma calculadora mecânica aos 14 anos, em pleno século XVII, o que é algo muito mais ultra-foda do que qualquer de nós fará em toda a vida), então não resta muito a dizer. Infelizmente nós temos a ideia de que pessoas geniais só dizem coisas geniais, e que mulheres bonitas não cagam. Por isso, toda vez que ouvimos falar da Aposta de Pascal, pensamos naquela calculadora (puta merda, como o cara fez isso naquela época em que se amarrava cachorro com linguiça?) e nos esquecemos de pesar os argumentos.

A coisa fica mais triste porque o que Pascal disse foi mais ou menos o que qualquer pessoa descuidada pensa. Então uma pessoa descuidada lê isso e se acha foda: «eu penso igual ao cara que inventou uma calculadora mecânica aos 14 anos, no século XVII». Como é que se tira esse besteira da cabeça de um cara que não tem mais nenhum motivo para se sentir especial?

Um claro exemplo da Aposta de Pascal recentemente no Facebook é o boato de que basta compartilhar um «aviso de privacidade» contendo uma obscura menção a um artigo obscuro de uma lei obscura daquele obscuro país chamado Estados Unidos da América e «magicamente» nem o Mark Zuckerberg e nem ninguém poderá se apropriar do que você escreve em seu mural.

O nome disso é «amuleto jurídico». O sujeito acha que só porque citou um artigo de lei já passou a estar amparado por ela. Quer um exemplo disso: ponha na cerca de sua propriedade um aviso «Propriedade Particular: Proibido Caçar, Pescar e Nadar». Funciona? Por que funcionaria com o Facebook? Ah, mas é uma lei americana. Leis americanas são melhores e funcionam melhor, não é mesmo. Desde que você vá aos Estados Unidos abrir um processo, pague um advogado e consiga a simpatia de um tribunal consuetudinário para validar o que você pediu. Na prática, o prejuízo é mais barato.

Mesmo que você esteja nos Estados Unidos e possa supor que nenhuma sociedade anônima (é isso que significa «public company» em inglês, seus tradutores de meia tigela)  jamais violará uma lei (nunca se ouviu falar de tamanha ousadia, não é mesmo?), ainda assim você ainda tem um problema: você assinou um contrato com o Facebook quando criou a sua conta, esse contrato é regido pelas leis da Califórnia, Estados Unidos. E os Estados Unidos, pátria do direito consuetudinário, queridos padawans, considera os contratos como sagrados. Lá não existe Código de Defesa do Consumidor e nem revogação de «cláusula leonina». Um processo contra o Facebook provavelmente resultaria em você ser condenado a pagar as custas, e só. Mas lembre-se que o Facebook contratará advogados muito mais caros que os seus.

A maioria das pessoas, porém,  não compartilha isso pensando seriamente em processar o Facebook em um tribunal californiano (judicialmente falando, a coisa mais parecida com por a cabeça dentro da boca de um crocodilo marinho e fazer cócegas em sua úvula). Não, elas fazem porque, seguindo a Aposta de Pascal, se tudo for verdade e todo mundo agir de boa fé (coisa que as sociedades anônimas sempre fazem, afinal), elas terão «protegido seus direitos» sem gastar nada! It's all free! Mas se tudo for mentira ou alguém agir de má fé (não que isso sequer tenha a menor chance de acontecer), pelo menos não gastaram nada! It's still free!

Você não se sente muito bem quando o seu grande argumento que justifica a sua crença serve também para explicar a difusão de spam e boatos estapafúrdios na Internet?

Nome aos Bois



Tudo começou quando um desconhecido me chamou no bate papo do Facebook parabenizando-me pelos textos que publico neste blogue. Foram vários elogios, que me deixaram muito feliz, claro, mas não é deles que vou me gabar. Houve um certo momento durante a conversa virtual em que o meu fã distante fez-me uma pergunta que me chocou sobremaneira:

— Como é foda ser anarquista no mundo de hoje, não é mesmo?

Meu choque se explica: eu nunca me definiria como anarquista, nem que me pusessem uma faca no pescoço. Morreria negando. Aliás, já foram muitas as oportunidades em que me dissociei fortemente do anarquismo, a que já chamei de «pensamento porra louca», «sonho irrealizável», etc. Muitas as vezes em que sugeri que anarquistas deveriam mudar-se para a Somália (de fato e de direito o único lugar do mundo onde impera a anarquia).

Mas a verdade que eu tive que admitir é que eu mesmo sou um anarquista. Como assim?

A pergunta me chocou, mas não me surpreende mais que ela tenha sido feita. De fato, uma rápida análise do pensamento por mim expresso nesse blogue revela que eu estou dissociado demais do pensamento esquerdista majoritário, e mesmo da social democracia. Como não existe a mais remota compatibilidade possível com a direita, a solução é rotular-me como anarquista, ainda na esquerda, mas não na esquerda herdeira de Marx por intermédio de Kropotkin, Lênin e Stálin.

Dizer-se anarquista é muito difícil porque vão atirar contra mim exatamente os mesmos argumentos que eu atiro nos outros anarquistas. E com razão. Meu erro ao brandir tais argumentos, erro derivado de minha incompreensão do meu próprio anarquismo, era o de imaginar que o anarquismo seja alguma coisa prática. Isso non ecziste.

O anarquismo é a suprema utopia. Algumas utopias parecem realizáveis em um prazo curto, médio ou longo. Outras parecem simplesmente irrealizáveis, mesmo tendo todo o resto da vida do universo para tentarmos. Entre as mais abstratas delas, o ideal da República platônica e o anarquismo. Nenhum das duas ideias é para ser levada a sério. A primeira porque condiciona o bom funcionamento do governo à virtude pessoal dos governantes e a segunda porque condiciona a paz social à boa índole de todo a sociedade. Msmo sendo anarquista eu concordo com Thomas Hobbes e prevejo que a ausência do Estado provocaria algo muito diferente de uma paz paradisíaca. A Somália serve-nos de exemplo: bellum omnia omnes.

Isso explica minha relutância em reconhecer traços de ateísmo no que penso e escrevo, mas não invalida a minha necessidade de pensar e escrever as coisas desse jeito. Penso e escrevo como um anarquista porque somente alguém desconectado de fidelidades ideológicas pode reconhecer e criticar falhas que cada ideologia tenha. Ser anarquista não é somente propor a destruição do Estado, é não aceitar ser tangido por ideias preconcebidas, por projetos alheios. Ou tentar resistir.

Ser anarquista no mundo de hoje é ver que por todos os lados projetos ideológicos estão calando vozes dissidentes, impondo verdades, estruturando formas de dominação. É denunciar pelo menos alguns destes mecanismos. Assim, o anarquista acaba servindo à democracia, mesmo que preferisse uma sociedade sem Estado. Se o Estado é inevitável, que seja democrático. Esse foi o pragmatismo que levou os anarquistas a formarem um governo de coalizão na Espanha republicana, e a fórmula através da qual meu livre pensamento não se leva a rejeitar minha pátria e uma parte das ideologias a ela relacionadas. Se é para servir a alguém, que seja ao meu povo, e não a um povo estrangeiro. Se é para viver sob um domínio, que seja o da lei. Se é para haver uma hierarquia, que seja laica. Se é inevitável um governo, que seja democrático. Se é para haver um Estado, que promova o bem comum. E o bem comum tem de ser bom para todos, ou para a maioria possível.

Então não me mandem para a Somália. Mas tampouco me mandem para onde o Estado é forte demais e o povo não consegue ser ouvido.

Manifestações Inúteis de «Sofativismo» do «Movimento Ateu»

Rejeitar «Deus Seja Louvado» das Notas de Real

Todo ateu que se preze acredita piamente que vivemos sob um «estado laico» e que, por esta razão, qualquer manifestação da religiosidade hegemônica deve existir tão somente na esfera pessoal. Isso explica porque essa gente não tolera que nossas notas de real tenham a inscrição «Deus Seja Louvado», nelas instalada por um nosso ex presidente que não se notabilizou nunca por seu cristianismo. Como essa gente não tem latim (ou bufunfa) suficiente para impetrar um mandado de segurança contra o Banco Central e a Casa da Moeda, resolve cometer um ato pessoal de terrorismo para «mostrar o dedo» ao «sistema», na melhor tradição da rebeldia punk: suja, ineficaz, ininteligível, equivocada e contraproducente. Estou falando de hábito, muito festejado nas rodinhas ateístas nas redes sociais, de rabiscar nas notas a inscrição maldita.

É um ato sujo porque emporcalha o nosso dinheiro, que já é um dos mais vilipendiados do mundo. É ineficaz porque alguns poucos idiotas fazendo isso com as vinte ou trinta notas que passam pelo seu bolso por semana não conseguem fazer ninguém notar que existe um «movimento» de rejeição ao Deus-Seja-Louvado. É ininteligível porque, mesmo se alguém perceber os rabiscos, dificilmente entenderá a mensagem de que «o estado é laico e esta inscrição viola os direitos constitucionais de isonomia entre os credos, ao não contemplar crenças não cristãs ou não monoteístas». Em vez disso, a pessoa pensará que um satanista porco estragou aquela nota. Isso, claro, é ótimo para os objetivos do «movimento ateu» — e explica porque o ato é equivocado e contraproducente.

PODIA PIORAR? Sim, sempre pode. Se rasurar a inscrição já é uma atitude tosca, existe uma maneira de levar isso ao modo berserk: encomende um carimbo contendo uma tarja preta (para cobrir a inscrição) e uns dizeres explicando o porquê em poucas palavras («o estado é laico»).

PORQUE É AINDA PIOR? Porque dificilmente as pessoas compreenderão o protesto. Continua sendo sujo, continua-se estragando o dinheiro, continua sendo irrelevante, continua sendo ininteligível porque quase ninguém sabe o que é «laico» e a maioria acha que «estado» se refere a Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, Pernambuco… 
 

QUAIS OS RESULTADOS? As notas estragadas pelos dementes serão recolhidas tão logo passem pelas mãos de um caixa cuidadoso, em qualquer agência bancária. Serão encaminhadas ao Banco do Brasil, e posteriormente ao Banco Central, como «numerário não utilizável». Serão incineradas e substituídas por notas novas. Ao rasurar a inscrição, o ateu «modinha» apenas aumentou a despesa do BaCen com a manutenção do meio circulante.

O QUE DEVERIA SER FEITO? Junte um bando de gente interessada e impetre um mandado de segurança contra o Banco Central citando o artigo constitucional que veda ao Estado estabelecer cultos religiosos (Artigo 19, inciso I da Constituição Federal). Ao inscrever «Deus Seja Louvado» no meio circulante o Estado está determinando que a divindade monoteísta seja cultuada, o que viola uma cláusula constitucional explícita. Se a ação for derrotada, então o estado não é laico, coisa alguma. Que tal mudar-se para os States? Oh, esqueci… «In God We Trust».

Debates em Blogues ou Redes Sociais Ateístas

Blogar é muito útil para quem é ateu. Pois é somente através da internet que muitas pessoas, vivendo em cidadezinhas ou em comunidades urbanas de mentalidade estreita, conseguem entrar em contato com outros que pensam igual, ou mesmo desabafar para o vento. Quem não é tão bom para escrever se conforma em visitar os blogues e páginas sociais de quem escreve e deixa lá seus comentários elogiosos. Trata-se de algo tão natural que as pessoas não percebem o quanto é inútil.

É inútil porque, para falar a verdade, cada vez menos gente lê blogues. Tenho os meus já faz quase quatro anos e até hoje só ganhei treze dólares de AdSense e tive 28200 visitantes. Então ficar vociferando contra criacionistas, «crentelhos», pastores dinheiristas, «homofóbicos» ou testemunhas de Jeová em blogues como este (ou como aquele em que você está pensando, mesmo que ele tenha mais visitantes…) é como gritar para dentro de uma caverna. Ninguém importante vai ouvir e o máximo que pode lhe acontecer é levar pela cara uma revoada de morcegos.

MAS PODE FICAR PIOR. Claro que pode. Tem gente que faz disso uma verdadeira cruzada. Só que, em vez de garbosos cavaleiros andantes lidando pela verdade, essas pessoas estão brandindo suas espadas enferrujadas contra inimigos imaginários. Chega a ser deprimente pensar que tem gente que gasta preciosas horas de sua vida «debatendo» contra crentes e criacionistas, que se orgulhe de «humilhar» os pobres «cristõezinhos». Como se esmagando baratas avulsas pudéssemos higienizar uma casa infestada de pragas. Não são moinhos de vento, não, amigo, são mesmo gigantes. E dê um abraço no Sancho Pança.

PORQUE AINDA É PIOR? Porque o criacionista não é um ser maligno em si, ele é fruto de um sistema que precisa de idiotas desinformados, convencidos de que suas certezas superficiais o tornam especial. Esse é o tipo de gente que se alista em exércitos e enfrenta o canhão do inimigo com uma baioneta na mão, que encara doze horas de chão de fábrica durante a semana e ainda vai torcer pelo seu time no domingo. Tire desses pessoas sua ilusão de que «alguém lá em cima gosta de mim e odeia meu patrão» e você terá uma revolução. Só que todo mundo já entendeu como funciona esse troço e sabe muito bem que é só não adubar o chão que a sementinha vermelha não brota. Se você realmente quer que existam menos criacionistas e menos crentes em geral, precisa provar ao «sistema» que é possível hipnotizar as massas usando outra cenoura. Enquanto as elites estiverem convencidas de que o povo sem religião vai cantar a Internacional pelas ruas, continuará estimulando esses ridículos pregadores que tentam nos convencer de que uma mulher realmente pariu caveirinhas de «prástico» porque se afastou dos caminhos do «sinhô».

QUAIS OS RESULTADOS? Quanto mais virulentos, mais folclóricos se tornam esses paladinos do ateísmo. Além do ridículo pessoal eles conseguem fazer a reputação justamente daqueles a quem pretendem neutralizar. Existe uma razão pela qual biólogos «de verdade» não debatem contra criacionistas em lugar algum, e é a mesma razão pela qual você não joga xadrez com uma pomba. Dawkins explicou isso muito bem ao se negar a debater com William Lane Craig: «tal debate ficaria muito melhor em sua biografia do que na minha». Ao aceitar debater contra pessoas obviamente despreparadas você facilmente aparece como um vilão orgulhoso, no dia em que se deparar com uma pessoa preparada, mas mal intencionada, poderá não conseguir uma vitória tão fácil e então esse seu «engasgo» será contabilizado como «vitória» pelo seu oponente. Se William Lane Craig está até hoje cantando vitória porque Dawkins «não teve coragem» de debater contra ele, imagine o que não estaria fazendo se ele conseguisse fazer uma pergunta que o biólogo britânico não soubesse responder… 
 

O QUE DEVERIA SER FEITO? Primeiro, vá estudar. Se já estudou, pense em começar a compartilhar conhecimento (e não patadas). Ajude a divulgar conhecimentos históricos, científicos e filosóficos para quem deles precisa. Torne-se um professor ou então voluntarie-se em alguma ONG ou cursinho. Seja respeitoso com essas pessoas: ignorância não é falha moral. Quando você conseguir aumentar sua cultura geral, perceberá que elas terão mais autonomia intelectual e, mesmo que nunca se tornem ateístas, pelo menos vão aprender a respeitar melhor modos diferentes de pensar e de seguir pastores folclóricos com chapelões ou gírias cafajestes envolvendo falsas dicotomias sexuais porque deixarão de acreditar que o Ser «Oni-Fodão» que criou o universo precisa de dinheiro e tem uma estranha preocupação com o uso que fazem de seus orifícios corporais.

Ler o Cânone do Neo-Ateísmo Moderno Contemporâneo e Atualizado

Não importa se Hitchens escrevia sob uma perspectiva rigidamente eurocêntrica, se Dawkins argumenta para um público familiarizado com a cultura britânica, se Sam Harris é um chauvinista americano, etc. Não importa. Somente pela leitura das obras mais recentes dos Grandes Ateus de hoje é que você se torna um ateu de verdade. Quem não leu nenhuma destas obras sequer tem o direito de opinar em voz alta, no máximo comentários curtos e respeitosos no blogue, nunca contestando o genius loci.

MAS PODE FICAR PIOR. Validar o posicionamento político e filosófico de uma pessoa com base no que leu é imaginar que as pessoas só podem chegar ao posicionamento x através da leitura, nunca por meios autônomos. É negar a autonomia intelectual que os ateus supostamente, muito supostamente, defendem. É transferir a responsabilidade pelo pensamento aos grandes centros filosóficos que, curiosamente, escrevem em inglês, a língua que tanta gente aprende bem em cursinhos pelo Brasil afora. Isso se transforma em idiota berserk quando a vítima, tão bem educada por tantas leituras úteis, começa a defender a primazia dos States e seus valores, preconizando que façamos exatamente como a elite americana propagandeia que deveríamos fazer. Lavagem cerebral auto induzida pela leitura acrítica de obras de qualidade variável, de autores muitas vezes comprometidos com a defesa dos interesses das sociedades em que estão inseridos. Esta história de «cidadão do mundo» é uma forma de dourar a pílula do imperialismo para os colonizados engolirem.

PORQUE É PIOR? Porque o «libertarianismo» que anda tão em voga nada mais é do que uma ideologia de extrema direita que descende do vigilantismo, do Macartismo, da Ku Klux Klan, dos sobrevivencialistas e do Tea Party. Esses caras negam a própria civilização ocidental, ao negar os valores sobre os quais se assentam as poucas coisas boas que temos (ou achamos que temos): a solidariedade social. Essa gente quer abolir a aposentadoria, acabar com as garantias trabalhistas, acabar com os impostos, o diabo. Consideram o Estado o seu maior diabo. Quem come desse feno com a boca boa não percebe que o Estado de fato nunca deixará de existir: essa pantomima toda é só um jogo de cena para justificar o desmonte das garantias sociais, já que estamos chegando ao fim dos tempos em que era possível sonhar com uma prosperidade universal. Entrar nessa onda de libertarianismo é como chegar numa Assembleia Geral da ONU representando seu país de cidadãos barbados e turbantados usando um cartaz escrito «Bomb Us Next».

QUAIS OS RESULTADOS? Um bando de gente que se acha inteligentinha porque comprou e leu, ou leu sem comprar, alguns livros que a maioria não se interessa em ler.

O QUE DEVERIA SER FEITO. Estudar a história do pensamento político humano. Um bom livro de «História da Filosofia» e alguns exemplares da coleção «A Obra Prima de Cada Autor» da Martim Claret já seria de boa ajuda.

A Verdade, Apenas um Detalhe

Dizia o antigo adágio que «política, futebol e religião» não se discute. Obviamente esta restrição da dita «sabedoria» popular se refere ao caráter insolúvel das paixões envolvidas nos três temas: ninguém muda o time para o qual o amigo torce, nem a religião que segue, nem as suas convicções políticas. No fundo os três fatores estão muito mais ligados do que se pensa: os três são manifestações fortemente ideológicas.

Para provar isso basta uma rápida olhada nas rivalidades regionais de nosso futebol e detectar o dedo da política. Sem necessidade de descer a detalhes que podem ser obtidos numa rápida pesquisa na internet (sou do tempo em que ao escrever um artigo era quase sempre necessário citar as informações, porque dificilmente o leitor conseguiria localizar as informações suficientes para entender o raciocínio). Arrisco-me a dizer, porém, que o futebol é, dos três temas, o que melhor evoluiu. A não ser em países obviamente selvagens, ninguém mais mata ninguém por causa de futebol — e nem relações são postas a perder. Meus sogros, um botafoguense e uma flamenguista, estão aí para não deixar ninguém sem entender.

Digo que foi o que melhor evoluiu porque a religião é a bagunça que aí está, com muita discussão (quase sempre baseada no desejo que cada líder de seita tem de regular a bunda ou a carteira dos outros) e nenhum resultado (aliás, deve-se dizer, em favor do futebol, que mesmo os torcedores mais fanáticos não saem por aí propondo exterminar quem não torce para time algum). E a política também, com o agravante de que as paixões partidárias foram substituídas, em um nível ainda mais profundo, pelas ideológicas.

Um partido é como um time de futebol: encarna uma ideia, um objetivo, uma visão de mundo etc.; mas não se confunde com as coisas que expressa. Por isso é possível que os partidos mudem de ideologia ao longo do tempo (conforme demonstra a fantástica trajetória do PCB, que se transformou em PPS e por fim se resignou a legenda de aluguel a serviço da direita tupiniquim), por isso é possível que pessoas mudem de partido (ou porque o partido mudou, ou porque a própria pessoa mudou, ou ambas as coisas, confusa e simultaneamente). Mas quando os partidos se enfraquecem, tornam-se pálidas sombras das ideias imemoriais, então eles se tornam ainda mais epidérmicos, secundários, instrumentos. A política passa a ser feita no nível mais básico, o da ideologia em estado bruto: e aí temos um fenômeno terrivelmente perigoso.

Ideologias são confusas. Não devemos confundir uma ideologia com um programa de partido político. Nem mesmo devemos confundi-la com a palavra articulada de um líder. Ideologia é algo tão profundo que é quase inexprimível, arquetípico. No Brasil, devido à superficialidade dos partidos, a política se faz no nível da ideologia — e isso significa que nossa política é essencialmente irracional e se expressa de forma virulenta.

Uma pessoa que age motivada por sua ideologia pode, muitas vezes, agir sem a menor noção das consequências de seus atos. Tal como um suicida fundamentalista (islâmico ou não) se lança sobre seu alvo sem pensar na dor ou na morte. Um ser movido a ideologias é kamikaze em tudo o que faz. Quando uma pessoa age assim, ela tende a aceitar sem nenhuma crítica as versões que preenchem as suas expectativas.

Funciona da mesma forma que os milagres e aparições. Uma pessoa que quer ver Jesus de qualquer maneira o encontrará nas marcas de uma torrada ou numa mancha de mofo. Um torcedor fanático acreditará que o seu time, após três ou quatro sofridas vitórias no começo do campeonato, poderá sagrar-se vencedor. E uma pessoa embebida de ideologia política selecionará aquilo em que crê de acordo com as suas noções preconcebidas do que seja a verdade. A semana entre 27 de maio e 2 de junho foi marcada por uma demonstração deste funcionamento semiautomático da mente. E não foram quaisquer mentes, foram as mentes dos céticos e iluminados membros da direita ateísta na internet.

Algumas palavras sobre estes seres: vocês já os conhecem de meu artigo recente sobre o processo de criação e autodestruição de um partido laico. O «movimento ateu» na internet está dividido em facções, de acordo com o santo inspirador que cada uma cegue (ato de seguir mais ou menos cegamente). Os de direita idolatram uma filósofa, Ayn Rand, que expressou suas ideias principalmente através de romances imensamente longos e intoleravelmente chatos, e um economista austríaco, Ludwig von Mises. Ambos intolerantes e dogmáticos em seu «liberalismo» (basicamente voltado para o aspecto econômico).

O episódio a que me refiro é a reação na blogosfera e nas redes sociais às declarações do Ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, ao semanário «Veja» (uma revista que já no título concebe a realidade como não interativa). Como se tratava de uma denúncia contra Lula, ícone da esquerda, a direita ateísta não hesitou em ecoar, enfática e festivamente, chegando até mesmo a botar nos trending topics do Twitter.com a proposta #LulaNaCadeia. Tudo porque o Ministro disse que fora pressionado pelo ex presidente a adiar o julgamento do chamado «Mensalão» para depois das eleições.

Quando uma pessoa rapidamente acredita em uma história porque ela está de acordo com os seus conceitos ou preconceitos, torna-se constrangedor voltar atrás. Costuma ser muito doloroso admitir, especialmente no caso de pessoas que se dizem «ceticas» e «racionais», que «saltaram» para conclusões sem analisar o contexto apropriadamente. O que poderiam fazer esses próceres do ceticismo, esses doutores em falácias, quando a história começou a fazer água, com negativas peremptórias por parte da única testemunha (o ex Ministro do STF e ex Ministro da Defesa Nélson Jobim) e contradições por parte do denunciante, que tentou, através de múltiplas versões, estabelecer uma versão do fato que fosse definitiva?

Quem pôde, fingiu-se de morto. Quem foi cobrado e tinha uma personalidade excessivamente pública para simplesmente desaparecer, defendeu-se com uma barragem de argumentos irrelevantes e falaciosos, exatamente como fazem os religiosos, quando suas crenças são distendidas ao limite. Você pode perfeitamente admitir que uma pessoa tenha se desfiliado de toda forma de religião, mas é quase um absurdo esperar que esta pessoa realmente tenha conseguido adquirir uma visão de mundo desapaixonada o suficiente para analisar os fatos com objetividade e para, mais importante que tudo, recuar sobre suas versões e aceitar que estava errado. Na prática, o que se viu foram diversos rabudos protegendo cada um o rabo alheio, foram explicações que nada explicavam.

O raciocínio da direita facebookiana parece ser de cunho utilitarista: «sabendo» que Lula é (ou tem que ser) culpado de alguma coisa, então qualquer acusação é verdadeira (ou precisa ser). Não é preciso checar coisa nenhuma, não é preciso analisar nada com frieza, se a acusação «serve». É uma espécie de estratégia Eliot Ness: se você não pode provar que Al Capone era o chefe de todo o crime organizado, então bote-o na cadeia por sonegar imposto de renda. Mas e se Al Capone não fosse, de fato, o chefe do crime organizado? E, mais grave, se ele pagasse os impostos em dia mas fosse, ainda assim, encarcerado? A diferença entre a direita ateísta e o Eliot Ness é que o famoso policial americano assegurou-se de que a acusação fosse verdadeira. Nossos agentes secretos não tem o mesmo cuidado: desde que o Lula seja achado culpado, ele não precisa ser, de fato.

Quando confrontado com o fato de que duas das três pessoas presentes ao encontro (o próprio Lula e Nélson Jobim) haviam desmentido o fato (Jobim o fez, várias vezes, para três jornais diferentes: Estadão, Globo, Folha e Zero Hora), começaram a pipocar explicações tão vergonhosas que eu nem sei como exatamente classificá-las. Prefiro pensar que todas as falácias formais são apenas tipos específicos de non sequitur. A primeira destas foi a tentativa de desqualificar o desmentido de Jobim, com a desculpa de que este seria «aliado de Lula» (esquecendo que ele também é/era aliado e amigo de Mendes, de quem foi colega no STF) sem nunca se darem sequer ao trabalho de reparar que as negativas de Jobim foram todas coerentes, enquanto as versões de Gilmar se multiplicavam (uma nova a cada entrevista). A segunda foi a inacreditável afirmação de um conhecido líder do «movimento ateu» segundo a qual Gilmar Mendes teria credibilidade maior que Lula e Jobim juntos em função do cargo que ocupa ter «fé pública» (esta afirmativa é tão incrivelmente bisonha que chamá-la de falácia seria uma espécie de promoção). A terceira, mais sofisticada, brandida por um defensor do «conhecido líder», foi que não haveria nenhuma razão para acreditar nos desmentidos, visto que políticos são notórios por fazer suas versões conforme a conveniência e qualquer dos lados poderia ter razão.

A primeira afirmação é um ataque pessoal clássico, baseado no envenenamento da fonte. Aquilo que você diz a respeito de uma pessoa deixa de ter valor se você for amigo dela, mas aquilo que um adversário diz passa a ter automaticamente um valor de verdade. A segunda é um tipo específico de apelo à autoridade chamado «credencialismo». Enquanto no apelo à autoridade clássico você usa um nome ilustre para corroborar a sua tese, no credencialismo você justifica suas opiniões com base em seus diplomas ou cargos. A terceira afirmação parte de uma generalização (todos os políticos são mentirosos) para se chegar a uma conclusão irrelevante (como todos são mentirosos ou ambíguos, a versão coerente tem tanto valor quanto a incoerente). E as pessoas que brandiram contra mim estes argumentos se disseram, no fim, decepcionados comigo.

Após a entrevista inicial, a situação evoluiu curiosamente. Gilmar Mendes se enrolou em outras entrevistas, chegando a desmentir-se e contradizer, e depois passando a acusar Jobim. Por fim acusou Lula de ter orquestrado uma campanha de difamação contra si e advogou a proibição dos patrocínios a veículos de imprensa que critiquem as «instituições». Veio à luz o fato de que Gilmar teria ficado um mês sem revelar a pressão, quando ela teria tido maior efeito justamente se tivesse sido revelada há um mês e, pior, o próprio Gilmar admitiu que a primeira pessoa a quem confidenciou o ocorrido foi o líder de um partido político (o Senador Agripino Maia) e que sua primeira notificação a um outro Ministro do STF foi poucos dias antes da saída da revista. Os reiterados desmentidos de Nélson Jobim e as variadas versões divulgadas por Gilmar Mendes criaram em todas as pessoas bem informadas a impressão (bastante lógica) de que o Ministro estaria mentindo. O corolário de tudo foi o sensato comentário de Mauro Santayana, explicando que uma conversa com os exatos teores propalados por Gilmar Mendes não configuraria em nenhum crime da parte de Lula que, na qualidade de ex presidente, é uma pessoa comum, que não tem que seguir nenhum rito específico de cargo (ao contrário de Gilmar, que não deveria estar em um encontro privado com personalidades políticas, como o fez duas vezes no mesmo dia, primeiro com Lula e depois com Agripino Maia).
Esses desdobramentos fizeram a turma direitista, que já tinha até comprado os foguetes para o dia em que Lula fosse em cana, botasse o rabo entre as pernas, fizesse cara de paisagem e comentasse sobre os lindos navios que estão singrando as montanhas de Minas Gerais.

Não conseguindo responder a estas acusações diretas e frontais, representantes da mui lógica e filosófica «direita ateísta» do Facebook passaram a praticar a tática do «olha o avião». Fizeram isso de duas formas: primeiro, desviando o assunto para uma espécie de julgamento de Lula e seu governo e segundo, acusando-me de ser um «crente» da Igreja Lulista e defensor incondicional do ex presidente em tudo. E a essa altura, mesmo com os desmentidos do próprio Gilmar Mendes pipocando na internet e com vários comentaristas políticos (até o Noblat, dO Globo) indicando que acreditavam que tudo fora uma farsa, ainda assim eu estava encontrando ouvidos moucos na direita ateísta, que sustentava como verdade aquilo que até mesmo o próprio Gilmar Mendes já dissera, desmentindo a Veja, que fora um mal entendido.

Ataques à pessoa em vez de seus argumentos são sempre uma baixeza, e evidenciam que você atingiu o fígado do oponente de forma irremediável (e certos fígados do «movimento ateu» não são só fáceis de atingir, devido ao descuido com a guarda, mas também inflamados e sensíveis). Natural que os ignoremos, por isso foi natural que eu tentasse a todo custo trazer o debate de volta ao seu tema original: se seria aceitável, se seria racional que uma pessoa que «se acha» a melhor bolacha do pacote do «movimento ateu» aceitasse impromptu, uma denúncia baseada em nuvens, em palavras vagas, em pouco, talvez nada. Em poucas palavras: como alguém pode se apresentar como um cético e pretender-se superior aos crentes se, em relação às coisas em que acredita, é tão crédulo quanto o mais simplório dos religiosos? É muito fácil ser cético em relação àquilo em que você já não crê. Os protestantes, por exemplo, são extremamente céticos em relação aos milagres atribuídos aos santos católicos — ainda que eles próprios, em seus cultos, produzam milagres incríveis atribuídos ao Senhor Jesus ou ao Espírito Santo. Difícil é ser cético em relação às coisas em que você acredita, é reformar uma ideia que lhe é cara diante de evidências.

A direita ateísta da internet aceitou a versão inicial de Gilmar Mendes e amarrou-se a ela. Ninguém pestanejou, nem mesmo quando o Ministro se desmentiu. Negaram que ele tivesse desmentido. Acusaram toda a imprensa de ser «governista» por «comprar a versão de Lula», ignorando os fatos (a atuação nitidamente oposicionista da maioria de nossos veículos de imprensa) e resvalando para uma grande teoria de conspiração lulista (todos estão mancomunados, tudo é uma grande estratégia para silenciar a oposição e fazer o PT ficar no governo noventa anos). Só falta dizerem que a própria Veja é governista se ela publicar uma versão contraditória na edição de hoje.

E eu nem mencionei o preconceito de classe envolvido na polêmica. Gilmar Mendes, por ser um doutor jurista, é colocado num verdadeiro pedestal de moralidade, enquanto Lula, o «molusco», o «apedeuta», era colocado em dúvida o tempo todo, como se sua falta de diploma o impedisse de ser coerente, ou mesmo de ter razão. Na ideologia mesquinha da direita, existe uma pureza na ignorância, mas só quando o ignorante faz um trabalho braçal. Pobre só é lindo quando está obedecendo, no dia em que adquire poder, ou mesmo a mera independência, torna-se a encarnação do «perigo vermelho». Não adiantou outro doutor, o Jobim, ter saído em defesa do ex presidente, afinal, era apenas um aliado dele. Apenas, como se a carreira inteira do Jobim (que vem de bem antes de Lula ter sido eleito, se apequenasse no papel de capacho do ex presidente).

Ninguém, em momento algum, exerceu qualquer ceticismo salutar em relação à notícia, mesmo sendo publicada na Veja, revista que já foi anteriormente pilhada em mentiras e que está sendo alvo de investigações por ter utilizado como base para reportagens gravações de conversas telefônicas de autoridades feitas por um criminoso e escroque internacional.

No fundo do poço da argumentação, os representantes desta direita ateísta que aceita denúncias falsas, desde que convenientes, sem nenhuma preocupação de ceticismo, me acusaram de estar tolhendo a liberdade de expressão deles ao criticar seus pontos de vista. Faltou pouco para evocarem a garantia constitucional de liberdade de crença. «Crenças não merecem respeito, pessoas sim» — eles gostam de dizer. Mas quando você ataca suas ideias (crenças?) eles reclamam que sua crítica é uma ameaça à sua liberdade de expressão. Talvez porque eles só saibam expressar-se quando não estão sendo criticados, ou quando as críticas não são realmente eficientes.

Claro que eles tem o direito de pensar diferente de mim. Cada um segue a religião que quer, e se eles resolvem seguir Mises, Moisés ou Maharishi isso não me atinge. A não ser quando acham que o seu «ceticismo» é algo que os diferencia. Ninguém tem o direito de se sentir melhor que os outros quando pensa da mesma forma que eles. Um modo de pensar é algo que está acima de crenças: você pode crer em Jesus ou no Iron Maiden, mas o seu fanatismo é o mesmo se você reage desordenadamente a críticas.

Se todos temos liberdade de expressão, isso não significa que temos impunidade no que dizemos. As nossas palavras geram consequências, mesmo que apenas um reflexo na imagem que os outros têm de nós. A imagem que as lideranças da «direita ateísta» constroem quando ecoam mais uma denúncia vazia da Veja não é a de excelsos filósofos, mestres da lógica, mas simples padawans periféricos que papagueiam palavras bonitas, mas não conseguem comportar-se de acordo com elas when the push comes to shove.

Estes comentários se baseiam em uma discussão que iniciei em um grupo do Facebook intitulado «Livres Pensadores». Enquanto estava revisando o leiaute do blog, corrompido por algum gadget problemático, eis que me dou conta de que a vergonha alheia segue campeando firme no grupo. Incomodados com a impossibilidade de justificar o modo automático como aderiram a uma versão conveniente (um dos membros chegou a mencionar que a hashtag #LulaNaCadeia já existia, como se isso o dispensasse de pensar antes de aderir), perverteram o assunto do tópico e passaram a discutir carros esporte! Faltou, porém, combinarem com todo mundo (não, conspirações não são tão fáceis de fazer, por isso elas geralmente não existem) e um membro do grupo puxou de volta o fio da discussão. Para que? Para novamente ME acusar de não ser cético.
Veja bem, você pode acreditar piamente em tudo que a imprensa escreve, mas isso não o impede de ser cético. Você pode crer numa acusação contra um político de quem não gosta, mesmo ela sendo ilógica, mas não deixa de ser cético. Você pode empregar todo tipo de falácias para justificar-se e não ter que simplesmente admitir: «é, eu tava enganado, desculpa aí», mas não deixa de ser cético. Mas se você cutuca o dedo na ferida daqueles que se acham céticos, então eles vão dizer que você só é ateu para cumprir uma agenda marxista. Agora esses molequinhos que nasceram ontem resolvem julgar, sem nunca terem me visto pessoalmente, se sou ou não «ateu de verdade». E não surge uma voz sequer dotada de algum vislumbre de clareza para dizer: «gentem, por favor, o José Geraldo pode pensar diferente de nós, mas nesse caso ele fez uma crítica válida.»

Por essas e outras é que eu cada vez sinto mais razão quando líderes religiosos acusam certas partes do «movimento ateu» de serem «igrejas ateístas».

Atualização em 14 de agosto. Agora com o julgamento do «Mensalão» a pleno vapor ninguém mais está  da gravíssima acusação feita pelo Ministro Gilmar Mendes ao ex presidente Lula. Até as pedras deviam saber que o caso não daria em nada, mas as pessoas que se apressaram a festejar na internet, criando um clima «genérico» de revolta contra «isso que está aí» não admitiram até hoje que foram precipitadas e injustas ao acreditarem sem nenhum ceticismo nas afirmações do ministro. Em vez disso estão de novo soltando foguetes porque o advogado de Roberto Jefferson disse que «Lula sabia de tudo».