Hugo Chávez e o Herói Padrão de Lord Raglan

Você provavelmente já deve ter percebido algo de estranho na recorrência de certas características na biografia de personagens mitológicos (e às vezes personagens históricos). É como se a maioria dos nomes famosos tivesse em comum algo além da fama em si. Pode parecer teoria de conspiração barata, mas essa impressão não é fruto de sua imaginação: ela já foi detectada, estudada e sistematizada por historiadores. Enfim: já se comprovou que existe mesmo um padrão que se aplica à maioria dos relatos biográficos, hagiográficos ou mitológicos de personalidades reais, mitificadas ou míticas.

A comprovação está em uma obra intitulada “O Herói: Um Estudo da Tradição, da Mitologia e da Literatura” — publicada em 1936 pelo folclorista britânico FitzRoy Somerset, Barão de Raglan. Nesta obra, Lord Raglan sintetizou 22 características que são encontradas nos relatos sobre uma grande variedade de personagens reais ou não. Não são as únicas características compartilhadas, mas as que mais frequentemente se repetem.

O estudo destas características não é muito útil para identificar a historicidade de personagens duvidosos, visto que o czar Nicolau II, personagem histórico amplamente conhecido, morto em 1917, tinha 14 das 22 características (uma pontuação superior à de Harry Potter, Ulisses, Sansão e Aquiles); mas é muito interessante para avaliar possíveis interpolações laudatórias feitas em relatos genuínos sobre personagens reais (“mitificação”) e a possibilidade de que um personagem real seja futuramente elevado a um nível de mito ou santo.

Com a recente morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, parece estar havendo uma tentativa de apropriação da sua biografia pelos seus herdeiros políticos, transformando-o em um herói. A análise a seguir procurará coincidências de sua biografia com o padrão do herói de Lord Raglan, para avaliar o potencial de Chávez como futuro arquétipo revolucionário latinoamericano (tal como Sandino, Guevara e Bolívar).

1. A mãe do herói é uma virgem de sangue real.


Verdadeiro no caso de Jesus Cristo, mas não no caso de Chávez, que sequer era o filho mais velho.

2. Seu pai era um rei


Filho de pais pobres, Chávez não se enquadra aqui. Mas o seu bisavô tinha sido um oficial do exército federalista de Ezequiel Zamora, e por isso Chávez merece marcar meio ponto nesse item.

3. Fruto de um amor incestuoso ou ilegal


Nenhuma coincidência conhecida.

4. As circunstâncias de sua concepção são incomuns


Nenhuma coincidência conhecida.

5. Ele é também considerado filho de um deus


Nenhuma coincidência conhecida.

6. Ao nascer ocorre um atentado contra a sua vida, geralmente cometido por um membro da família, ou por sua ordem


Não consta nas biografias oficiais que isto tenha ocorrido.

7. Ele é salvo e levado embora


Como não houve o atentado, não pode haver coincidência aqui.

8. Criado por pais adotivos em um lugar distante.


Chávez foi criado durante vários anos por sua avó, Rosa, em outra cidade, devido às dificuldades econômicas dos seus pais. Um ponto.

9. Quase nada sabemos de sua infância.


Existem poucas fontes sobre sua infância. Não localizei menção a nenhum episódio. Isto, claro, é de se esperar de uma criança pobre. Mas é também característico do herói de Raglan. Outro ponto.

10. Ao se fazer homem, ele volta (ou vai) para o seu futuro Reino.


Aos dezessete anos, Chávez entrou, por escolha própria, para uma academia militar, sendo parte da primeira turma submetida a um novo e mais rigoroso programa de treinamento, que incluía todas as disciplinas militares normais e também vários tipos de conhecimentos técnicos e gerais. Tendo Chávez se notabilizado como um líder do exército antes de ser presidente, esta sua ida para as forças armadas por escolha própria lhe faz marcar mais um ponto.

11. Depois de uma vitória sobre o rei e/ou sobre um gigante ou dragão ou fera...


Apesar de derrotado na quartelada que organizou em 1992, Chávez acabou sendo, de fato, um vencedor, ao defenestrar o odiado presidente Carlos Andrés Pérez e, dessa formar, frustrar os planos do Consenso de Washington. Como os EUA são representados heraldicamente por uma águia, temos aqui uma fera também. Ou seja, Chávez marca esse ponto com pleno louvor.

12. Ele se casa com uma princesa, que pode ser filha/parente do seu predecessor.


Enquanto estava na cadeia, foi abandonado por sua primeira mulher, Nancy Colmenares, e posteriormente por sua amante, Herma Marksman, uma historiadora, que havia sido sua grande inspiradora durante o primeiro período revolucionário. Pouco antes de ser eleito presidente, Chávez se casou com uma jornalista bonita e de origem rica chamada Marisabel Rodríguez.  Se considerarmos o papel influente da imprensa na América Latina, e especialmente na Venezuela, e ainda mais especialmente em relação a Chávez, Marisabel pode ser considerada uma “princesa” (metaforicamente), ligada aos seus maiores inimigos. Casar-se com uma mulher da elite, às vezes abandonando a antiga namorada/amiga, é um mau passo que quase todo herói dá (Sansão, Artur...) e por isso Chávez marca mais um lindo e perfeito ponto.

13. E se torna rei.


Como a Venezuela não é uma monarquia, esse “tornar-se rei” precisa ser entendido como “ser eleito presidente”. Mas ressaltemos que nem toda monarquia era hereditária e vitalícia. Os reis da Polônia, da Lituânia, da Irlanda, do Sacro-Império Romano-Germânico e da Noruega eram eleitos pelos seus pares. Os sultões do mundo islâmico e os imperadores romanos raramente escolhiam descendentes diretos como sucessores. Monarquias nas quais o rei tinha poder temporário incluem as antigas monarquias gregas e as monarquias célticas em geral (especialmente na Irlanda, em Gales e na antiga Escócia). Então, a necessidade de metáfora é bem secundária aqui. Ponto para Chávez.

14. Por algum tempo reina pacificamente.


O tempo de reinado pacífico de Chávez se refere ao período posterior ao golpe de estado que sofreu em 2002. Até esse momento todos os seus movimentos fazem parte da acomodação da situação política. Sua vitória sobre o golpe é a sua definitiva entronização, pois a partir daí ele não teve praticamente oposição alguma que conseguisse impedi-lo de fazer o que quisesse. E seu reinado foi pacífico porque não houve nenhuma oposição militar ao seu mando, nem ameaça externa real. Ponto para Chávez.

15. Promulga leis.


Esta é sem dúvida a característica mais marcante do governo Chávez, que implementou na Venezuela uma verdadeira revolução institucional, derrubando leis antiquadas e aumentando o poder dos órgãos de representação popular mais próximos do povo. A rapidez com que lançou leis e criou instituições torna seu governo o mais criativo de toda a história daquele país. E por isso ele marca mais um ponto.

16. Porém ele perde o favor dos deuses ou de seus súditos


A coisa mais parecida com uma divindade no contexto político latinoamericano é o poder dos Estados Unidos de fazer e desfazer lideranças (e às vezes até governos). Chávez claramente perdeu o favor desse “deus” metafórico. Na mitologia a perda do favor divino era o início da derrocada do herói. A perda de tal favor poderia ser causada por coisas mínimas (Moisés perdeu o favor de Deus porque bateu com cajado em uma pedra e Sansão porque cortou o cabelo). No caso de Chávez, o simples fato de priorizar a melhora das condições de vida do povo o tornou inimigo dos EUA, que, historicamente, não ligam para o bem estar de nenhum outro povo, especialmente se não for branco. Ponto para Chávez.

17. Após o que é retirado do trono e do reino.


Observe que não há relação de causalidade. A retirada do herói de seu trono é posterior à perda do favor dos deuses, mas não necessariamente causada por ela. Digo isto para arrefecer os apressadinhos que me acusarão de acreditar na história da arma cancerígena da CIA (se bem que eu acredito). No caso de Chávez, após anos de embate contra os EUA ele adoece (câncer) e resolve se tratar em Cuba (sua retirada do trono) por períodos cada vez mais longos. Ponto para Chávez.

18. Sua morte é misteriosa.


Se misteriosa não foi, pelo menos os seus aliados tentam fazer ao máximo que se pareça sendo. A acusação de que seu câncer foi causado por interferência da CIA (ou do Mossad) cria essa aura de mistério e faz Chávez marcar mais um ponto. Sem falar em outras circunstâncias misteriosas, como a data de sua morte, os motivos de não ter sido embalsamado e o misterioso rejuvenecimento de seu cadáver.

19. Comumente no topo de uma montanha.


Nenhuma coincidência conhecida.

20. Seus filhos, se os tem, não o sucedem.


Sucedido por um aliado, não por seus filhos. Mais um ponto.

21. Seu corpo não é enterrado.


Parte do mistério que cerca sua morte envolve o lugar onde deveria ser enterrado. Embora ele tenha acabado por ser enterrado no Forte Montaña, já existe a proposta de uma emenda constitucional para que seja transladado para o Panteão Nacional, ao lado de Bolívar, onde ele não ficaria enterrado, mas depositado em um ossuário suspenso.

22. Mesmo assim ele tem um ou mais sepulcros.


Sendo transferido para o Panteão Nacional, Chávez terá dois locais conhecidos de sepultamento (Forte Montaña, o provisório, e Panteão Nacional, o definitivo). Sem falar nos possíveis boatos de que teria sido, na verdade, enterrado em outro lugar. Mas tais boatos não seriam necessários, porque o ponto já está marcado.

Conclusões


Chávez marca surpreendentes 14 pontos no padrão do herói de Lord Raglan, mesma pontuação de Nicolau II. Para se ter uma ideia de onde Chávez se situa na escala, observemos as seguintes pontuações:

  • Édipo e Krishna : 21
  • Moisés e Teseu : 20
  • Dionísio, Jesus e Artur : 19
  • Perseu e Rômulo : 18
  • Hércules e Maomé : 17
  • Beowulf e Buda : 15
  • Hugo Chávez, Zeus e Nicolau II : 14
  • Sansão e Robin Hood : 13 
  • São Jorge : 12
  • Sigurd (Siegfried) : 11
  • Aquiles : 10
  • Harry Potter e Ulisses : 8

Os mitologistas interpretam a escala de Lord Raglan da seguinte forma: uma pontuação inferior a seis indica que a biografia do personagem é provavelmente factual e as coincidências são apenas coincidências, mas uma pontuação superior a seis sugere que o personagem não é real ou então que a sua biografia sofreu/sofre adulterações mitificantes.

Sendo o herói um arquétipo, existe uma tendência humana a adulterar a história de pessoas tidas como heróicas (ou que se pretende fazer parecidas com heróis) de forma a se tornarem parecidas com o herói arquetípico. No passado, a transmissão oral do conhecimento sobre o herói favorecia esta adulteração, sendo inúmeros os casos conhecidos de personagens  cujas biografias contêm elementos atribuídos com finalidade mitificante.

Finalmente, para os que acham que há imperfeições na escala (sim, ela não é perfeita), existem propostas de expandi-la da seguinte forma:

  • Separar “virgem” de “real” em relação à donzela mãe do herói.
  • Adicionar a categoria “prodígios na infância”
  • Adicionar a categoria “cumprimento de profecia”, tanto em relação ao nascimento quanto em relação à morte.

Com tais adições, alguns personagens religiosos (como Jesus e Maomé) marcariam mais pontos, porém a pontuação de personagens reais (como Nicolau II e Chávez) seria menos impressionante. O que é certo é que o falecido presidente da Venezuela tem um grande potencial para ser herói nacional, e a pontuação deve aumentar ao longo do tempo, especialmente se os seus aliados durarem algumas décadas no poder.

A Moda É Ser Idiota

“Idiota” era como os gregos chamavam aqueles cidadãos que cuidavam exclusivamente de seus negócios pessoais e não participavam da vida política. Somente muito mais tarde a palavra ganhou um sentido mais negativo. Fazia parte do conjunto de crenças comum a todos os gregos que cada cidadão deveria ser responsável pelo governo de sua cidade. De tal forma se valorizava isso que a participação em certos órgãos governamentais, como o tribunal do Areópago, em Atenas, ou a assembléia dos éforos, em Esparta, era, em certa época, sorteada entre todos os homens aptos. Esse era o conceito de “liberdade” defendido pelos antigos filósofos: livre era o homem que era dono de si, não possuía senhores. A liberdade era contraposta à escravidão.

Quando o pensamento grego foi revalorizado, a partir da Renascença, o conceito de liberdade dos gregos pareceu anacrônico e inadequado. Era impossível governar países extensos com base em uma democracia direta, da qual todos os cidadãos participassem por sorteio, mesmo que fossem considerados cidadãos apenas os nobres. Não obstante, certos estados menores, como a Holanda e as cidades livres hanseáticas, tiveram uma forma de governo razoavelmente parecida, na qual todos os “homens bons” tinham sua voz ouvida.

Existe uma nobreza nesta definição de liberdade, nobreza que fascinou aos filósofos iluministas e também a Nietzsche. A liberdade dos antigos não era uma liberdade egoísta, não era uma busca hedonista. O homem não era livre para agradar a si mesmo, mas para fazer o bem à comunidade. E havia uma identificação do cidadão com a cidade. A raiz dessa identificação está na percepção da política como uma extensão de si. O estado (pólis) não era visto como um ente estranho, mas como uma espécie de família estendida, à qual se pertence, mesmo nos momentos em que algum dos membros faz algo de que discordamos. Desta forma, sempre que um indivíduo procurava impor sua opinião através das armas, do dinheiro ou da oratória, a cidade lhe reservava a pena do ostracismo (exílio), com o objetivo de reduzir-lhe ainda mais a capacidade de convencer aos outros. Nunca, porém, ninguém foi forçado a deixar a cidade: era o cidadão que percebia, no voto do ostracismo, a rejeição da cidade contra si e contra tudo o que ele representava. Exilar-se era a única opção. Mas reconciliar-se era o único objetivo. Somente os escravos não almejavam retornar à sua cidade original.

No embate das forças ideológicas posteriormente à revolução francesa, o tipo de liberdade cidadã que os gregos compreendiam foi abraçado pelos socialistas. Não por acaso escolheram essa denominação para si. Divergindo dos gregos apenas na noção nova, francesa, de que todo filho da nação é um cidadão seu. A essência do pensamento altruísta, que logo se confundiu com a esquerda, e parcialmente com o socialismo, é a de que cada indivíduo pertence a um conjunto, a sociedade, e não lhe é lícito fazer nada que cause dano à sociedade. Diferentemente dos socialistas, os diversos tipos de ideologias individualistas sempre preconizaram o direito individual de fazer mesmo aquilo que prejudicasse à sociedade. As posições centristas admitem que o indivíduo possa moderadamente causar dano à sociedade, conquanto sempre  menor do que dispêndio que a sociedade precisaria fazer para impedi-lo. Se, como disse Oscar Wilde, a sociedade embrutece mais com a reiteração de castigos do que com a recorrência dos delitos, é mais sábio tolerar certa ordem de transgressões, a fim de diminuir o embrutecimento coletivo.

Nos últimos anos e meses começou a ganhar popularidade aqui no Brasil uma corrente de pensamento de extrema direita e de extremo individualismo chamada libertarianismo (alvo preferencial deste blogue, daí o título), que defende exatamente o oposto do pensamento atruísta. Supostamente baseada em Nietzsche (na verdade derivada de um pastiche mal construído de alguns aspectos de sua filosofia, por intermédio dos romances de Ayn Rand), essa ideologia propõe que ninguém deve jamais se preocupar com o próximo, nem de forma alguma unir-se a quem quer que seja em nome de objetivos comuns, pois a “virtude” estaria em enfrentar as consequências e vicissitudes da vida de forma “livre”. Um exemplo de texto difundido pelos libertários na internet é o citado a seguir:

  1. Quando uma pessoa de direita não gosta de armas, não as compra. Quando uma pessoa de esquerda não gosta das armas, proíbe que você as possua.
  2. Quando uma pessoa de direita é vegetariana, não come carne. Quando uma pessoa de esquerda é vegetariana, faz campanha contra os produtos à base de proteínas animais.
  3. Quando uma pessoa de direita conhece uma pessoa de orientação sexual diferente, vive tranquilamente a sua vida. Quando uma pessoa de esquerda é homossexual, faz um movimento com alarde para que todos também se tornem homossexuais e os respeitem.
  4. Quando uma pessoa de direita é prejudicada no trabalho, reflete sobre a forma de sair dessa situação e age em conformidade. Quando uma pessoa de esquerda é prejudicada no trabalho, levanta uma queixa contra a discriminação de que foi alvo e vai à justiça do trabalho pedir indenização por dano moral (e o pior: ganha!).
  5. Quando uma pessoa de direita não gosta de um debate transmitido pela televisão, desliga a televisão ou muda de canal. Quando uma pessoa de esquerda não gosta de um debate transmitido pela televisão, quer entrar na justiça contra os sacanas que dizem essas sandices. E até uma pequena queixa por difamação será bem-vinda.
  6. Quando uma pessoa de direita é ateísta, não vai à igreja, nem à sinagoga e nem à mesquita. Quando uma pessoa de esquerda é ateísta, quer que nenhuma alusão a deus ou a uma religião seja feita na esfera pública, exceto para o islã (com medo de retaliações provavelmente).
  7. Quando uma pessoa de direita, mesmo sem dinheiro disponível, tem necessidade de cuidados médicos, vai ver o seu médico e, a seguir, compra os medicamentos receitados. Quando uma pessoa de esquerda tem necessidade de cuidados médicos, recorre à solidariedade nacional ou ao sírio libanês para tratar.
  8. Quando a economia vai mal, a pessoa de direita diz que é necessário arregaçar as mangas e trabalhar mais. Quando a economia vai mal, a pessoa de esquerda diz que os sacanas dos empresários, proprietários etc… são os responsáveis e punem o país.
  9. Teste final: quando uma pessoa de direita lê esse texto, posta argumentos lógicos. Quando uma pessoa de esquerda lê esse teste, fica puta da vida e quer xingar, além de querer processar e prender quem escreveu…

Como toda comparação estereotipada, esta também é falsa. Mas ele ser falso não me espanta nem me comove. Estranho é que muitas pessoas inteligentes — como +Vides Júnior+Saulo Cesar+Mário César de Araújo e +Francisco Quiumento
— e outras nem tanto, como o +Dâniel Fraga, o difundam sem pensar, aderindo automática e acriticamente a essas afirmações redutoras como se fossem um mantra.

Esse texto nada mais é do que uma mentira. Nem pessoas de direita e nem pessoas de esquerda são assim. Existe um tipo de pessoa de direita que diz/acha que é assim e que tenta impor essa definição de direita como uma universalização do credo e da práxis “direitista”. Esse é o primeiro erro porque, em tese, ninguém que seja direitista se diz ser, porque faz parte da essência do pensamento não esquerdista a negação da existência de luta de classes e da legitimidade da esquerda enquanto teoria política. O pensamento de esquerda é só um desvio, a luta de classes é uma ficção. Mas o texto, obviamente, reivindica uma suposta neutralidade, ao usar os termos “esquerda” e “direita” em terceira pessoa (“uma pessoa”) o autor procura sugerir que está fazendo um exame distanciado das duas formas de pensamento. Essa é uma técnica argumentativa bastante eficaz, porque as pessoas rejeitam pensamentos que honestamente se assumem como parciais: todos querem opiniões isentas, mas que coincidam com determinada forma de pensar.

São muitas as pegadinhas distribuídas pelo texto, e a simples identificação de cada uma delas deveria envergonhar quem o difunde (mas tenho a desiludida certeza de que ninguém se retratará, afinal, compartilhar um texto não é endossá-lo, ou é?).

O primeiro parágrafo faz uma comparação assimétrica entre uma ação individual (“não comprar”) e uma ação que nenhum indivíduo isoladamente teria poder para praticar (“proibir”). O terceiro, pior ainda, compara pontos de vista diferentes sobre uma mesma situação. A pessoa de direita “conhece alguém de orientação homossexual , a pessoa de esquerda “é homossexual”. Além do maldoso subtexto de que o esquerdista é veado, ainda temos uma comparação que não faz sentido, pois é perfeitamente aceitável que tenhamos reações diferentes quando estamos envolvidos. Ou seja, possivelmente uma pessoa que viveria tranquilamente a vida após conhecer um homossexual se sentiria compelida a fazer campanha pelos direitos homossexuais caso se descobrisse homoafetiva, simplesmente porque a percepção da cena muda quando você deixa de ser plateia e passa a ser ator.

Em comum, os sete primeiros parágrafos têm uma característica: a essência da “pessoa de direita” é a passividade diante dos fatos que encontra, caracterizando-se por “não fazer”, “continuar fazendo” ou “apenas refletir”. Não há uma só recomendação de um curso de ação diante dos desafios. O direitista “não compra” armas, não come carne, vive tranquilamente, reflete sobre a injustiça que sofreu,  muda de canal, não vai ao templo/sinagoga/igreja/mesquita. Por outro lado, o esquerdista sempre toma atitudes, apresentadas como equivocadas: ele “proíbe” (sic) a compra de armas (ou procura proibir), faz campanha contra a carne, faz um movimento, presta uma queixa, entra na justiça etc. Independente do fato de que em certas situações é melhor agir e em outras, não, resulta óbvio da análise do texto que o direitista ideal é alguém que age o mínimo possível. Quando alguma ação é recomendada, trata-se de uma ação individual e inócua, como mudar o canal da televisão (o que equivale a enterrar a cabeça na areia e fingir que o problema não existe). Esta é a essência do conservadorismo: qualquer tentativa de melhorar o mundo vai é piorar, então é melhor aceitar tudo do jeito que está. O conservador mais radical difere do reacionário em um simples fato: ele admite o progresso, desde que não seja obra de reivindicações revolucionárias e seja lento.

O silêncio sobre a ação é mais eloquente no quarto parágrafo, quando  a pessoa de direita “reflete” sobre o seu infortúnio. Por um paradoxo inexplicável, mas compartilhável, esse indivíduo de direita não estará agindo “em conformidade” caso escolha usar a justiça para se defender. Como não acredito que o autor do texto esteja defendendo o uso direto da força (vingança), suponho que a inação seja a única forma de ação conforme, sob a ótica direitista.

Não é à toa que um filósofo bem menos burro do que eu classificou a história positivista (conservadora e direitista) como “uma sucessão de fatos sem conexão, ligados a símbolos inexplicáveis e pessoas sem personalidade, em que nada possui causas, nada gera consequências, todas as reviravoltas são completamente inesperadas e todos os acontecimentos, irrepetíveis e desprovidos de qualquer valor moral para o presente.” É uma crítica antiga, do tempo em que ainda se usava falar em “moral” em filosofia, mas segue válida. Na ótica desse direitista ideal, apresentado nesse texto, a única coisa a fazer diante dos obstáculos da realidade é omitir-se, ou então tomar uma atitude isolada. Fica a impressão de que até mesmo formação de quadrilha é uma atividade esquerdista.

Uma vez que o indivíduo não está autorizado a tomar qualquer atitude concreta diante dos fatos, resta-lhe aceitar os fatos, de forma inexplicável. Como se vê no sétimo parágrafo, onde o autor afirma direitista consulta um médico e compra os remédios até quando não possui o dinheiro disponível. Não consigo imaginar como tal seria possível, nem de que forma os médicos e as farmácias andam aceitando pagamento se você for direitista. A atitude do esquerdista pelo menos é coerente: se não tem dinheiro disponível, recorre à solidariedade nacional. Acredito que a chave do enigma esteja no fato de que o autor, provavelmente, não sabe o que é “não ter dinheiro disponível” para pagar uma consulta e comprar remédios.

O oitavo parágrafo é o mais curioso de todos, pois tenta colocar como antônimas duas atitudes que não são sequer incompatíveis. Propor-se a “arregaçar as mangas e trabalhar mais” é algo que qualquer pessoa que dependa de seu trabalho terá de fazer diante de uma crise (mas de nada adiantará esta determinação se não houver trabalho). Mas esta disposição não significa que a pessoa não deva ter sua própria opinião sobre as causas do problema. O mecânico, pode perfeitamente consertar o carro enquanto lhe pergunta se o defeito não foi causado por algum mau hábito seu ao volante, como acelerar o carro embreado. Obviamente o autor do texto acredita que especular sobre as causas dos problemas que afligem a todos (ou pelo menos a muitos) é algo que não se deve fazer.

Por fim, a “chave de ouro” do texto, uma espécie de salvaguarda do seu autor contra as críticas advindas de sua “obra”. Por causa dela eu acredito que seja inútil postar argumentos lógicos contra o texto, porque, na visão em preto e branco da mula que cagou esse pedaço de excremento (só estou xingando para ser fiel ao estereótipo), um argumento de esquerda não pode ser lógico. Mesmo eu tendo feito uma análise moderada e pretensamente lógica do seu conteúdo, minha discordância soará como um zurro, por um fenômeno de pareidolia auditiva, que faz com que ouçamos coisas parecidas com o que nos é familiar.  Mas posto-os mesmo assim, sabendo que pelo menos entre os padawans da esquerda eu serei lido (e também por algum direitista honesto entre os vinte ou trinta que deve haver).

Não consigo entender como pessoas  bem informadas apregoem um texto tão primário e fácil de demolir. Acima de tudo porque o individualismo idiota que ele prega (no sentido grego do termo) é prejudicial à sociedade como um todo. Em nome de uma pseudoliberdade essas pessoas pregam um sistema no qual cada um estaria sozinho e indefeso diante da opressão. Alguém já disse que grandes problemas demandam grandes soluções, e grandes homens. A via proposta pelo texto é que as soluções venham através de atitudes pequenas, de pequenos e isolados homens. É muito triste que pessoas inteligentes difundam isso, de forma tão acrítica, mesmo porque a ignorância dos exemplos da história não é uma desculpa. A ignorância nunca é uma desculpa. Especialmente porque alguns dos que difundem isso de tempo em tempo parecem ter os conhecimentos mínimos necessários para discernir a patranha. Mas parece que, depois que se estuda muito, e se duvida de tanto, começam as pessoas a buscar credos em que descansar seus neurônios. E nesse caso, se a ideologia está certa, o pacote inteiro vai de brinde, e está certo também.

Redistribuição de Renda "for Dummies"

Certos conceitos são melhor entendidos quando transportados do terreno vago da terminologia para a solidez do dia a dia. Um exemplo é a tal “redistribuição de renda” de que tantos políticos falam, e que tanta gente é contra ou a favor sem nem saber o que é. Tentarei demonstrar como isso funciona usando como exemplo uma recente campanha no Facebook contra um supermercado de minha cidade natal que passou a cobrar pelas entregas em domicílio. Segundo a campanha, a cobrança seria desta forma:

  • R$ 6,00 por entregas no “centro da cidade”,
  • R$ 10,00 por entregas em “bairros próximos”,
  • R$ 15,00 por entregas em “bairros distantes”.
As aspas foram empregadas porque, sendo Cataguases uma cidade de meros 70 mil habitantes, os conceitos de “centro”, “bairros” e “distante” terão um significado muito diferente do que têm para um habitante de metrópole. Existem “bairros” (como o BNH ou a Vila Domingos Lopes) que estão mais próximos da loja do supermercado em questão do que certas áreas do “centro” que, aliás, não mede mais que um quilômetro de um lado a outro. Certos distritos (fora do perímetro urbano) são também mais próximos da loja do que certos “bairros distantes”. Enfim, os conceitos são vagos o suficiente para haver interpretações contraditórias.

O supermercado em questão possui um enorme estacionamento próprio e não cobra taxa de quem compre a partir de certo valor (se não me engano R$ 30,00). Combine este fato com a recente cobrança por entregas em domicílio e podemos entender disso que se está estimulando o uso do automóvel em detrimento do ônibus, da bicicleta ou da sola do sapato. 

O que este supermercado está fazendo é uma discriminação contra o pobre. A mensagem passada é que ele não quer ter clientes “pedestres” porque estes, em sua  maioria, são os que não têm condição de ter carro. Certa vez uma famosa loja de luxo paulista, a Daslu, construiu uma sede que só era acessível através do estacionamento, que cobrava R$ 100,00 por hora. Obviamente a Daslu, hoje falida, queria que pobre passasse longe. O supermercado cataguasense também parece que quer o pobre longe, comprando no mercadinho de bairro. Como não pode pôr na porta um aviso de que está “proibida a entrada de pobre”, o supermercado resolve penalizar com uma taxa as entregas das compras de quem não tem condição de levar de carro. Observe que a taxa é significativamente maior para “bairros distantes” (definidos de uma forma vaga). Com R$ 15,00 o pobre poderia comprar 10 kg de arroz, por exemplo. Difícil esperar que alguém troque tanta comida pelo conforto de receber as compras em casa.

Alguns de meus leitores; especialmente anarcomiguxos, escroques individualistas e antissociais em geral; reclamarão desta postagem dizendo que o supermercado está certo, porque o custo da entrega era embutido na margem de lucro e que, ao cobrar à parte, o preço das mercadorias poderá ser reduzido. “Não é justo que todos os fregueses fiquem pagando mais caro,  mesmo quando levam eles mesmos suas compras, para os que usam o serviço de entrega em domicílio” — dirão eles, ingenuamente acreditando que a redução de custos será transformada em redução de preços. Aqui temos, então, o conceito de redistribuição de renda sendo discutido, sutilmente.

Uma política de redistribuição de renda significa, entre outras coisas, que os bens, serviços e impostos são mais baratos para quem ganha menos e mais caros para quem ganha mais, a fim de facilitar o acesso a esses bens e serviços por pessoas que ganham menos. Redistribuição de renda é você fazer por cinco reais o preço do prato feito para aquele mendigo esfomeado que chega com uma nota amarrotada de cinco paus, mesmo que você esteja cobrando oito dos clientes normais. Redistribuição de renda é não cobrar a entrega das compras dos pobres, embutindo o custo nas mercadorias, dividindo entre todos os fregueses.

Quando um Estado, ou uma empresa, resolve individualizar os custos e os serviços, sem olhar quem paga, sobre o pretexto de “igualdade”, o que ocorre é justamente punir o pobre. Porque o rico, que já estava de passagem pelo centro em seu automóvel, não se importa de levar a compra ou mesmo de pagar pela entrega. Sem falar que o rico não vive, normalmente, em “bairros distantes” e que, de certa forma, o bairro pobre é sempre “mais distante” que o bairro rico, se não em quilômetros, certamente em percepção.

O resultado destas políticas de individualização de custos é a redução da capacidade de consumo das pessoas que ganham menos, esvaziando as lojas dessa gente “diferenciada” que atrapalha as compras dos “bons clientes”.

Infelizmente, pelo menos na internet, esse tipo de ideologia parece estar ficando popular. E medidas ocasionais, como essa do  supermercado, nos sugerem que a mentalidade do "cada um por si" está ganhando terreno. Esperemos que esta erva não vingue, porque as dificuldades de cada um não são aumentadas pela solidariedade com quem tem ainda  mais dificuldades. 

A Ideologia da Inveja, ou a Inveja da Ideologia

Faz parte do pensamento direitista típico uma peculiar disfunção cognitiva: uma incapacidade de enxergar corretamente a realidade, o que os leva a interpretações muito equivocadas dos fatos. Há, de fato, dois tipos de direitista: o conservador e o reacionário. Tanto quanto existem dois tipos de esquerdista: o reformista e o revolucionário. Para entender como funciona esta disfunção da direita é preciso por estes quatro lados em perspectiva.

O conservador é alguém que considera que vivemos no melhor dos mundos possíveis, ou quase isso, e que, portanto, é preciso evitar, ou minimizar as mudanças, para evitar que se rompa o frágil equilíbrio da realidade. Mudanças, se inevitáveis, devem ser pelo menos retardadas para que todos tenham tempo de se adaptar aos seus efeitos.

O reacionário é o indivíduo que crê vivermos em um mundo em decadência, que o passado era melhor, que os valores positivos da sociedade estão se perdendo e que é necessário fazer alguma coisa quanto a isto. Esta «alguma coisa» normalmente significa neutralizar toda iniciativa de mudança, pois toda mudança nos afasta do antigo mundo ideal, e reverter tanto quanto possível as mudanças que já aconteceram, responsáveis por nossa queda de uma idade de ouro pretérita.

Comparemos isso com a esquerda e veremos uma correspondência óbvia. O reformista se contrapõe ao conservador, tanto quanto o revolucionário ao reacionário. Mas ambos os extremos odeiam a todo o resto.

O reformista acredita que o mundo precisa melhorar, e para isso é necessário atacar as causas (ou os sintomas) dos problemas que atualmente existem. Geralmente adepto da democracia, o reformista crê que estas reformas podem ser feitas por consenso, através da conscientização das massas e de processos graduais, como reformas educacionais, aperfeiçoamentos legislativos, investimentos pontuais em desenvolvimento regional, etc.

O revolucionário acredita que o mundo não tem conserto, a não ser se substituirmos toda a estrutura sobre a qual suas instituições se assentam. Isso, claro, pode ser feito de forma pacífica, mas normalmente só acontece pelo emprego da violência (e bastante violência) porque aqueles que se beneficiam do status quo não aceitarão facilmente a remoção de seus privilégios. Revoluções são tentativas de adiantar o relógio da História algumas horas em alguns minutos. Costumam ser sucedidas por iniciativas reacionárias que atrasam o relógio algumas horas em alguns minutos, mas não todas as horas que haviam sido adiantadas antes. Assim, toda revolução produz mudanças duradouras.

Ambos os tipos de direitistas têm em comum o temor da esquerda. Por causa dele, se recusam a enxergar a distinção entre um reformista e um revolucionário. No fundo, o que lhes importa é que, pacífica ou violentamente, todo esquerdista quer mexer no seu queijo; então é preciso rosnar, mostrar as garras e, eventualmente, morder. Da mesma forma, o direitista não vê problemas em transitar para o reacionarismo: a radicalização é uma estratégia legítima, à medida que os desafios para a manutenção do status quo se tornam maiores.

A análise da situação política, quando feita por um direitista, assemelha-se muito a um discurso religioso. Quando não nega, pura e simplesmente, a existência de quaisquer problemas com a realidade (síndrome de Moranguinho), em vez de buscar causas materiais para os problemas materiais, o direitista busca motivações intangíveis, explicações metafísicas.

Por exemplo, a miséria não é causada por dificuldade de acesso aos meios de produção (entre eles educação de qualidade) ou baixa remuneração do trabalho, mas pela «indolência» ou «falta de capacidade de trabalho» do pobre. Este tipo de interpretação costuma ser fortemente racista, atribuindo o sucesso dos povos desenvolvidos a fatores genéticos ou culturais que «não existem» no povo brasileiro. Com um pouco mais de sorte você se deparará com o indivíduo culpando a «miscigenação» brasileira pelo nosso atraso.

Se os negros são menos favorecidos, isto não é porque sofreram um longo processo de dominação e exclusão, no decurso da escravidão ou posteriormente a ela, mas sim porque sua «cultura» não contempla o trabalho organizado, ou porque «têm uma obsessão com o pensamento mágico» em vez de trabalhar, coisas assim.

A desigualdade social é apresentada como algo natural, necessário, algo como o direito divino dos reis e nobres, tão essencial à estabilidade dos povos (segundo concebida até o século XX), que as jovens nações arrancadas do jugo otomano (Grécia, Bulgária, Sérvia, Romênia) receberam príncipes alemães para seus tronos. Não se concebia que o povo pudesse sequer ter um rei que não fosse originalmente de sangue azul. O pobre não se conformar com a desigualdade é ter «inveja» do sucesso de quem é rico. Ainda que o sucesso do segundo possa ser herdado e o fracasso do primeiro persista, mesmo diante de hercúleas lutas contra as portas e punhos fechados com que a vida recebe os que estão «de fora».

Causas imaginárias produzem soluções surrealistas. Em vez de atacar a miséria, ataca-se o miserável, como se fazia na Inglaterra do século XVII, com suas leis contra vadiagem que puniam com trabalhos forçados (não remunerados) os que não conseguiam emprego. Ou então explora-se o miserável, como nas estratégias assistencialistas eleitoreiras típicas de políticos fisiológicos e ligados às oligarquias.

Durante boa parte da História do mundo a partir do advento do Iluminismo, estas forças têm se enfrentado: a esquerda e a direita. A primeira, buscando sempre melhorar o mundo, segundo entende necessário ou possível. A segunda, oscilando entre negar a necessidade (ou a possibilidade) de qualquer melhora, ou francamente se propondo a reverter a obra da esquerda. A Revolução Francesa depôs reis, redesenhou fronteiras, criou conceitos novos (como os de República, Constituição, sufrágio universal e Direitos Humanos) e lançou a ideia de que era preciso acabar com os regimes baseados no privilégio de nascimento e no direito divino. A «Santa Aliança» conseguiu reentronizar algumas dinastias, mas cem anos depois nenhuma das nações invadidas por Napoleão estava imune à «gripe republicana». Uma a uma as monarquias foram caindo, os nobres foram condenados ao dolce far niente enquanto a míngua de suas fortunas não os forçava a casar-se na burguesia. A Igreja Católica nunca mais recuperou seu poder. De 1789 para cá ela não cessou de sangrar uma dia sequer. Apesar de todas as Santas Alianças, de todas as Machas da Família com Deus pela Liberdade e de todas as TFPs.

Este é só um exemplo da dinâmica da política: existem outros. O voto feminino foi uma bandeira da esquerda, combatido pela direita. Assim foram os direitos humanos, o fim da segregação racial e a igualdade de todos perante a lei. A direita resistiu com ditaduras, tortura, apartheid, national sozialist Partei… Foram os sindicatos, inspirados por Marx e Bakunin, que exigiram jornadas de trabalho razoáveis, salário mínimo, férias remuneradas, seguro desemprego, fundo de pensão, todas essas coisas que andam falando em «flexibilizar» porque a crise é grande.

A esquerda sempre teve soluções. Para acabar com a miséria era preciso impedir que as crianças ingressassem cedo demais no trabalho, o que as impedia de estudar. Para a direita, isso seria condenar todas à «vagabundagem» (esse termo genérico com que se desqualifica os que estão desajustados ou excluídos das engrenagens do sistema). Era preciso um sistema público de ensino, para que os pais pobres não tivessem que tirar pão da boca para pôr um lápis na mão do filho. Para a direita, uma escola gratuita faria com que as crianças crescessem «sem dar valor» ao conhecimento. Talvez permanecendo analfabetas elas dariam mais valor, ao que não tinham.

Quem tem ideias corre riscos. Vários dos planos «mirabolantes» da esquerda falharam. Em alguns casos a esquerda soube recuperar-se deles rápido, em outros nem tanto, de outros nunca. É muito fácil apontar os erros criticamente. Mas é preciso disfarçar que muitos fracassos se deram por forte oposição reacionária, por radicalização desnecessária (consequência de um ambiente de conflitos) ou mera ingenuidade. Nós, os esquerdistas, temos a ingênua ilusão de que podemos tornar o mundo um lugar melhor. Muitas vezes a luta da esquerda foi pervertida, sequestrada, confundida. Houve aproveitadores, sabotadores, ou meros líderes ineptos. O que nunca acabou nem acabará é a utopia de que é possível vencer a noite. Muita coisa mudou nesses dois séculos desde que o povo aprendeu que é possível deixar de ser súdito e passar a ser cidadão. Enquanto isso a direita continua dizendo que os problemas do mundo são insolúveis, que há mais males necessários do que bens possíveis e que todo movimento de libertação produz mais escravidão.

Nunca a direita esteve tão atuante no Brasil, tão visível. Eles têm a força, mas a força é tudo o que eles têm.

O PT e seu Projeto de Perpetuação no Poder

Todo reacionário nutre uma espécie de desprezo absoluto pelo Partido dos Trabalhadores e tudo o que ele representa, de bom ou de ruim, indistintamente. O PT só é unanimidade entre os reaças: eles o detestam sem ressalvas. Uma das muitas acusações que é feita contra o partido é que possui um projeto de perpetuação no poder. Tão forte é essa «acusação» que ela já transbordou dos núcleos mais duros do reacionarismo e atingiu o mainstream político. Hoje você vê políticos de várias correntes oposicionistas e veículos da grande imprensa dando vazão ao conceito de que existe uma tentativa «lulopetista» de eternizar-se na presidência. Para uma acusação que começou com Olavo de Carvalho e Merval Pereira (o imortal que não escreveu nenhuma obra literária) é até uma difusão surpreendente.

 Trata-se, porém, de uma acusação absurda, se você parar para analisá-la em seus próprios termos.

Em primeiro lugar, as ressalvas habituais (melhor aqui do que em notas de rodapé que ninguém lê): não sou petista, não tenho procuração para defender o governo (e nem obrigação moral) e não acho que tudo que se fez no Brasil lulista de 2002 para cá esteja certo. Não, não e não. Feitas as ressalvas, e também enfatizando que não  tenho informações privilegiadas, passo ao caso.

Imagino que todos os partidos políticos tenham projetos de perpetuação no poder. Considero que faz parte do jogo político a ambição de ganhar sucessivas eleições e manter-se no controle indefinidamente. Não acho que existam partidos que planejem perder a próxima eleição e entregar seus cargos aos adversários em nome de uma «alternância do poder». Creio que esta se faz pela vontade do povo, se e quando o povo quiser. Não cabe a nenhum partido decidir que não quer mais que o povo o queira. Tanto isso é verdade que no mundo todo existem casos de longos predomínios de partidos políticos em regimes democráticos:

  • O Partido do Povo da Áustria (ÖVP) manteve-se no poder, sozinho ou em coligação, por 16 anos (1946-1971), ao que se seguiu um longo predomínio do seu principal adversário, o Partido Social Democrata Austríaco (SPÖ), entre 1971 e 2000.
  • A Noruega foi governada pelo Partido Trabalhista entre 1936 e 1981, exceto durante a II Guerra Mundial (sob ocupação nazista) e por breves intervalos nos anos 1960.
  • Os Estados Unidos foram governados pelo Partido Democrata entre 1933 e 1953.
  • A  Grã Bretanha foi governada pelo Partido Conservador entre 1979 e 1997.

Nenhum desses casos foi apresentado como um risco à democracia (embora eu afirme isso com grandes ressalvas no caso britânico).

É natural que os partidos possuam «projetos de perpetuação no poder» quando eles possuem projetos de longo prazo, visões estratégicas que ultrapassam a eleição seguinte. Se nós justamente criticamos a miopia de nossos políticos, deveríamos festejar que alguns pensem no futuro mais distante.

Disso resulta que a existência de tal projeto não é nenhum mal em si. Mal haveria se o pensamento de perpetuação fosse acompanhado de estratégias para solapar a democracia, limitar a expressão da vontade do povo e estabelecer um autoritarismo. Enquanto existirem eleições livres, garantias constitucionais, livre acesso à justiça e integridade das instituições, não há mal nenhum em um partido ganhar eleições seguidamente. Um dia o povo cansa.

Esta acusação é, porém, muito reveladora das limitações intelectuais e programáticas de nossa oposição. Incapaz de pensar a longo prazo, refém de medidas paliativas, que visam à próxima eleição apenas, ela estranha que algum partido conceba uma visão de futuro que descortina um horizonte mais longo.