O Manifesto-Pirraça da Direita Infantil

Ao acessar o Facebook na data de ontem, fui surpreendido por mais uma prova de que certos seguidores da nossa direita parecem comer capim (isso se não comem cocô mesmo). Trata-se de um texto tão inacreditável e tão tosco que eu ainda prefiro acreditar que é uma gozação que alguém escreveu para ridicularizar o pensamento direitista nacional. E se não for isso, por favor, não me contem. Comentarei o tal texto, mas partindo do pressuposto de que ele é uma trollagem.

O texto saiu no blog da UFSCON e logo a seguir foi reproduzido em outros focos virtuais de pensamento reacionário, como o “Direitas Já”. Se a aparente seriedade do blogue de onde saiu não bastasse para atestar que o texto foi escrito a sério, a republicação depõe seriamente contra a inteligência dos responsáveis pelas páginas que o repetiram.

O “Manifesto” é de João Victor Gasparino Silva, do curso de Relações Internacionais na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina, e contém um protesto contra a solicitação de um trabalho de pesquisa sobre Karl Marx, feita por um professor.

Direitista empedernido, o aluno se recusa a sequer tomar conhecimento da existência do marxismo e rejeita a pesquisa pedida. No manifesto, procura justificar porque não fez o trabalho.

São tantas as coisas erradas na atitude em si que é quase supérflua a análise do texto. A recusa em estudar um pensamento diverso do próprio já é motivo mais do que suficiente para classificar o aluno como obscurantista e intolerante. Mas tal impressão poderia ser evitada se o texto contivesse embasamento teórico e desenvolvesse uma argumentação sólida, em vez de uma reclamação imatura.

A análise é útil, porém, para compreender como funciona a propagação de uma ideologia de extrema direita em nosso país. Segue a transcrição comentada do “Manifesto”:

Como o senhor deve saber, eu repudio o filósofo Karl Marx e tudo o que ele representa e representou na história da humanidade, sendo um profundo exercício de resistência estomacal falar ou ouvir sobre ele por mais de meia hora.

Infelizmente para o enjoado reacinha, Karl Marx teve um papel fundamental no desenvolvimento da ciência econômica, das ideologias polí­ticas, das lutas sociais e da metodologia histórica. Mesmo que rejeitemos por alguma razão a validade de seu trabalho, é impossível ignorar o impacto que ele teve sobre a História contemporânea. Por isso, o nosso reacinha enjoado que trate de tomar um Engov e aprender tudo.

Os personagens históricos não deixam de ser importantes só porque nós não gostamos deles. A atitude do nosso reacinha é a de um menino pirracento que sempre teve satisfeitas todas as suas vontades e agora se sente no direito de decidir o que é ou não importante no currículo da própria faculdade onde estuda. Trata-se de um ato infantilidade tão gigantesca que os direitistas não imbecis (temos agora a oportunidade para saber quão poucos são) devem estar sentindo vergonha alheia pelo rapaz, que passou tremendo recibo de imaturidade. Se algum dia alguém mereceu ser qualificado de “moleque de apartamento, criado a leite de pera e ovomaltino” esse cara é o autor do texto.

Aproveito através deste trabalho, não para seguir as questões que o senhor estipulou para a turma, mas para expor de forma livre minha crítica ao marxismo, e suas ramificações e influências mundo afora.

A proposta até que é interessante. Uma crítica ao marxismo, se fundamentada, certamente mereceria uma boa nota, pois, para poder fazê-la, o aluno teria de estudar a obra de Marx e demonstrar que compreendeu-a tanto que conseguiu refutá-la.

Quero começar falando sobre a pressão psicológica que é, para uma pessoa defensora dos ideais liberais e democráticos, ter que falar sobre o teórico em questão de uma forma imparcial, sem fazer justiça com as próprias palavras.

O pirralho que nunca ouviu um “não” e sempre o papai lhe comprou tudo o que quis acha que é “pressão psicológica” ter de falar imparcialmente sobre um autor de que discorda. Que grande tragédia forçar um pobre coxinha a estudar uma ideologia de esquerda, isso deve ser pior que uma noite no pau de arara!

Infelizmente, por toda a vida, deparamo-nos com ideias ou pessoas de que discordamos. Não podemos fechar os olhos para essa realidade, não temos o poder de escolher o que queremos saber e estudar. Estudamos e aprendemos aquilo que é “necessário”.

Observem, ao final da citação acima, como o aluno se sente frustrado por não poder “fazer justiça com as próprias palavras”. Acredito que, se Marx já não estivesse morto há mais de 150 anos, o cara bem gostaria de matá-lo, e fazer justiça com as próprias mãos, ou pelo menos de xingá-lo, vilipendiá-lo, fazendo justiça com palavras. A impossibilidade do linchamento (literal ou verbal) de Karl Marx é a causa da “pressão psicológica” vivida pelo aluno reacinha.

Me é uma pressão terrível, escrever sobre Marx e sua ideologia nefasta, enquanto em nosso país o marxismo cultural, de Antonio Gramsci, encontra seu estágio mais avançado no mundo ocidental, vendo a cada dia, um governo comunista e autoritário rasgar a Constituição e destruir a democracia, sendo que foram estes os meios que chegaram ao poder, e até hoje se declararem como defensores supremos dos mesmos ideais, no Brasil.

A típica paranoia apocalíptica e hiperbólica do extremista de direita coxinha. Qualificar o nosso governo atual de comunista é prova de uma ignorância tão grande que somente esta frase já justificaria a reprovação do aluno. Afinal, ele não só desconhece o que é “comunismo” mas também não consegue uma análise coerente da situação política que tem diante de si.

Outros reflexos disso, a criminalidade descontrolada, a epidemia das drogas cujo consumo só cresce (São aliados das FARCs), a crise de valores morais, destruição do belo como alicerce da arte (funk e outras coisas), desrespeito aos mais velhos, etc. Tudo isso sintomas da revolução gramscista em curso no Brasil.

Aqui vemos um salto lógico (ou melhor, ilógico) de amplitude absurda. Se o trabalho era sobre a obra de Marx, por que o reacinha saltou tão rapidamente para o governo brasileiro atual, que de marxista só mantém uma leve tintura? Trazer o governo atual para um debate sobre a obra de Marx é uma apelação sem sentido, uma fuga ao tema.

Mas pelo menos esta fuga nos permite boas gargalhadas, ao percebermos que o idiota que escreveu este texto fantasia que o governo atual é o culpado por todas as mazelas que afligem nosso país. Da maneira como fala, fica parecendo até que não havia crime no Brasil antes de Lula, que o consumo de drogas era minúsculo, que o PT inventou o funk, que toda vez que alguém bate num velhinho é porque era petista, “coisas assim”. É verdade que os governos petistas desde 2002 não conseguiram resolver muitos de nossos problemas, mas atribuir-lhes culpa por tais problemas é algo que só se explica por muita ignorância ou pela deliberação de mentir.

A revolução leninista está para o estupro, assim como a gramscista está para a sedução, ou seja, se no passado o comunismo chegou ao poder através de uma revolução armada, hoje ele buscar chegar por dentro da sociedade, moldando os cidadãos para pensarem como socialistas, e assim tomar o poder.

À parte o fato de que nunca houve uma tomada de poder por meio de tal estratégia “gramscista”, o próprio conceito parece absurdo (e é), uma vez que seriam necessárias várias gerações para o pensamento revolucionário chegar a uma massa crítica. Ainda mais considerando a incrível eficiência de nossas escolas. Uma estratégia de tão longo prazo é tão ineficaz que os membros de qualquer grupo ou partido que a estivesse implementando estariam mortos ou muito velhos quando (e se) ela chegasse a ser bem sucedida. Esta estratégia assume, então, ares meio sobrenaturais, um quê de conspiração milenar, um jeitão meio óbvio de delírio das minhocas da cabeça de quem não sabe o que diz.

Fazem isso através da educação, o velho e ‘’bom’’ Paulo Freire, que chamam de “educação libertadora” ou “pedagogia do oprimido”, aplicando ao ensino, desde o infantil, a questão da luta de classes, sendo assim os brasileiros sofrem lavagem cerebral marxista desde os primeiros anos de vida.

Então os alunos do prézinho estudam a luta de classes. Os alunos das escolas estaduais paulistas (onde não se ensina mais História) também estudam luta de classes. Os alunos dos colégios religiosos idem. Pois todos são comunistas. Até a Igreja Católica é comunista.

Em nosso país, os meios culturais, acadêmicos, midiáticos e artísticos são monopolizados pela esquerda a [sic] meio século, na universidade é quase uma luta pela sobrevivência ser de direita.

Os jornais são de esquerda. A Globo é de esquerda. É tudo esquerda. Só temos jornais e emissoras de rádio e TV esquerdistas desde o golpe militar de 1964. Os generais derrubaram Jango e depois deram todos os canais de rádio e TV para os esquerdistas! Esse cara é um maluco.

Quanto à luta pela sobrevivência que ele enfrenta na faculdade, pouco se pode dizer, a não ser que realmente é uma inglória guerra a que se trava contra o conhecimento. Se o seu direitismo é baseado; como viu-se até agora; em ignorância, teimosia e preconceitos; realmente deve ser muito difícil protegê-los dos contínuos ataques da razão e do conhecimento. Em um ambiente um pouco mais “liberal” (um beco escuro à noite, por exemplo), talvez os nossos reacinhas virassem o jogo e eliminassem essa ameaça na base de muita porrada.

Agora gostaria de falar sobre as consequências físicas da ideologia marxista no mundo, as nações que sofreram sob regimes comunistas, todos eles genocidas, que apenas trouxeram miséria e morte para os > seus povos. O professor já sabe do ocorrido em países como URSS, China, Coréia do Norte, Romênia e Cuba, dentre outros, mas gostaria de falar sobre um caso específico, o Camboja, que tive o prazer de visitar em 2010.

À parte a simplificação grosseira (somente trouxeram miséria e morte) dos resultados das revoluções socialistas, o parágrafo é de uma empáfia raríssima. O aluno se mete a lecionar para o professor! E o pior, ainda pior, é que a lição provavelmente está fora do tema do trabalho encomendado (aparentemente, o “marxismo”).

Segue-se um relato bastante factual dos acontecimentos do Camboja nos anos 1970, governo do Khmer Vermelho. Só que este relato, além de ser um parêntese no raciocínio que o autor tentava (em vão) desenvolver, não está relacionado diretamente com o tema e resvala, perigosamente, no apelo emocional, como neste trecho:

Os castigos e formas de extermínio, mais uma vez preciso de uma resistência estomacal, incluíam lançar bebês recém-nascidos para o alto, e apanhá-los no ar, utilizando a baioneta do rifle, sim, isso mesmo, a baioneta contra um recém-nascido indefeso.

Por mais horrível que tenha sido o regime do Khmer Vermelho (e deve ter sido mesmo, pois ele causou uma diminuição de quase um quarto da população do país), essas atrocidades não afetam o valor da obra de Karl Marx nem minimamente, pois este nunca mandou, por exemplo, que soldados espetassem bebês em baionetas. Atribuir a Karl Marx a culpa pelos erros e crimes de regimes que se inspiraram nele, é atribuir à Bíblia a culpa por pregadores malucos, como Jim Jones e David Koresh.

Bem, com isto, acho que meu manifesto é suficiente, para expor meu repúdio ao simples citar de Marx e tudo o que ele representa.

Não obstante seu repúdio, a relevância de Marx continua a mesma, e se você quiser obter a nota terá de apresentar outro trabalho.

Diante de um mundo, e particularmente o Brasil, em que comunistas são ovacionados como os verdadeiros defensores dos pobres e da liberdade, me sinto obrigado a me manifestar dessa maneira, pois ele está aí ainda, assombrando este mundo sofrido.

O aluno poderia pelo menos ter se perguntado por que o comunismo conserva esta reputação, apesar de seus erros. Poderia ter obtido algumas respostas interessantes. Mas preferiu manter distância do tema, o que fez o seu texto ser raso, parecendo ser mais uma desculpa para não ter entregue o trabalho dentro do prazo.

Em seguida o aluno cita um suposto “decálogo de Lênin” que não existe (pelo menos não como um texto determinado). Mais uma vez ele se posta como professor, revelando uma mentalidade predeterminada, e mais uma vez o faz para difundir uma informação incorreta.

Depois da difusão inicial pelos canais alternativos, na internet, o texto chegou à grande mídia, sendo replicado pelo blogueiro Rodrigo Constantino, que escreve na Veja. Rodrigo, no entanto, possui um grau suficiente de honestidade intelectual e admite que o texto fica longe de ser mítico como a direita o julgou. Especificamente, Constantino admite o emprego de uma informação falsa, justamente o “decálogo de Lênin”:

O decálogo de Lênin, ainda que soe verdadeiro para quem conhece o leninismo, é falso até onde sei. O que não tira o mérito do manifesto.

Se o Constantino não estivesse tão interessado com a descoberta de um raro exemplo de texto direitista articulado que não resvala no neonazismo ou na escrotice pura e simples, poderia ter admitido outras das muitas falhas do texto, como emprego de evidência anedótica (quando o autor usa a viagem ao Camboja como “fonte”) e o fato de que o uso do “decálogo” (que é citado integralmente) tira, sim, o mérito do manifesto. Se os dados são viciados, o resultado é viciado. Boa parte das acusações feitas pelo autor ao marxismo podem derivar de textos, como o “decálogo”, que difundem desinformação. Então, o emprego de fontes tais sugere que a revolta do autor é causada pela sua seleção de textos inconfiáveis. Donde podemos concluir que o ferrenho antimarxismo exibido pelo autor se enraíza em informações distorcidas, contidas em textos apócrifos como o “decálogo”. E podemos concluir, então, que se o autor não sabe selecionar uma fonte legítima, um documento real, de uma fonte forjada, ele não tem nenhum comando da metodologia, e isso é uma bala de prata contra seu argumento: por isso eu disse desde lá no início que o “manifesto” depõe contra quem o escreveu.

Sim, contra quem o escreveu. A julgar por esse texto que divulgou, o Sr. João Victor Gasparino Silva não domina o discurso acadêmico com a proficiência necessária, não sabe diferenciar documentos legítimos de outros forjados, expressa opiniões engajadas que acompanham sua incapacidade de diferenciar entre a realidade e a invenção dos adversários do marxismo. Em vez de prestar um grande serviço à direita, este texto mostra um direitismo imaturo, pirracento, ignorante e, o que se mostra ainda mais surpreendente, oposto à hierarquia e sem respeito formal pelos ritos acadêmicos.

O Trote como uma Expressão do Conservadorismo Social Brasileiro

Sempre fui contra o trote, e isso independe de ser trote machista, homofóbico ou o que seja. Minha análise é visceral: o trote é um instrumento de controle da ascensão social das classes oprimidas, originalmente concebido para uso direto das classes opressoras e posteriormente manipulado em seu nome pelos anteriormente aceitos, criando uma “cultura” continuísta deletéria a todos os valores que supostamente são praticados na vida acadêmica. E o trote brasileiro, como costuma acontecer por aqui com quase tudo, tem adquirido gradualmente um aspecto cada vez mais bestial.

Os trotes descendem das cerimônias iniciáticas das antigas religiões. Os gregos, por exemplo, tinham rituais que envolviam embebedar os neófitos e fazê-los participar de orgias (culto de Dioniso) e submeter os homens a provações físicas extremas (Olimpíadas) etc. A submissão dos jovens aos seus “mestres” (efebofilia) era proverbial. Embora não haja registros diretos disto, existem certos indícios de que certos cultos de mistérios incluíam o acasalamento de mulheres com animais (mito de Pasifaé, mito dos sátiros). Outros povos anteriores sempre tiveram seus rituais de iniciação, nem todos tão sistematizados quanto os gregos.

Não farei aqui um histórico detalhado dos ritos de iniciação antigos porque isto vai muito além dos objetivos modestíssimos desse artigo, que é uma breve reelaboração de um comentário deixado no blogue “Escreva, Lola, Escreva” em resposta a um artigo sobre os acontecimentos recentes durante o trote de início de ano na Universidade de São Carlos, no estado de São Paulo. Basta-me pincelar amplamente que existe uma relação de continuidade do trote universitário, criado na Idade Média, com os ritos de passagem dos povos antigos (alguns bastante dolorosos, como a circuncisão, uma espécie de “trote” imposto por certas religiões e costumes tribais).

A Igreja Católica aboliu os antigos cultos e suas práticas apenas gradual e nominalmente. No fundo, foram adaptados em festivais e ritos cristãos, mas continuaram existindo humilhações (como a raspagem do cabelo das noviças e os jejuns) e demonstrações públicas de estoicismo, como o andar sobre as brasas da fogueira de São João. Para os monges e freiras era pior, pois, de certa forma, era como se a vida religiosa fosse um trote para entrar na universidade de Deus.

Os alunos das primeiras universidades criaram suas iniciações para testar se os novos alunos eram “dignos” dos diplomas que ostentariam. Tal dignidade incluía certos valores morais, como a disposição de “fechar” com os valores do grupo (corporativismo). Isso era importante em uma época durante a qual os segredos de certas profissões eram heréticos e sua revelação poderia ensejar grandes perseguições contra seus praticantes (como de fato houve contra os fisiologistas pioneiros, por exemplo). Um dos meios de se evitar que o neófito eventualmente desse com a língua nos dentes era levá-lo a cometer um crime, acobertado pela irmandade. Caso futuramente ele não se mostrasse digno, sua participação seria revelada, destruindo sua reputação e provavelmente custando-lhe a vida. Estuprar camponesas ou cometer sacrilégios eram boas opções. Os maçons incluíam em seus ritos práticas e ícones notoriamente controversos, facilmente interpretáveis como satânicos, justamente para que, no caso de haver uma quebra de sigilo, todos os envolvidos serem inculpados (a Inquisição salvava a alma do arrependido, mas não o seu corpo).

Sobrevivem nos trotes universitários elementos desse trote original que buscava trazer a solidariedade pelo crime. Um bom exemplo é o Dia da Pendura praticado pelos futuros advogados. Em algumas faculdades, os calouros são instados a participar de um lauto jantar em determinado restaurante, sem pagar a conta. As más línguas dizem que é para que o futuro causídico aprenda desde cedo a apoderar-se do alheio… Os advogados que se ofendem com isso certamente não consideram que a maioria das pessoas chamaria isso de roubo. Maioria constituída pela totalidade da população menos os advogados.

O trote não sobrevive apenas no Brasil, mas em outros lugares ele mudou de figura ao longo do tempo, indo numa direção diferente. Nos Estados Unidos, por exemplo, o aluno entra em uma fraternidade para participar da vida social da universidade. Não ser membro de uma significa ser excluído. Nem todas as fraternidades têm prestígio igual. Algumas são patrocinadas por nomes famosos, ex membros seus. Algumas chegam a ter fama internacional, como a Skull and Bones, da Universidade de Yale, à qual pertenceu George W. Bush, presidente americano. Ao pertencer a uma fraternidade, secreta ou não, o aluno usufrui de sua “proteção” e de sua influência, não só durante o curso, mas em sua carreira posterior. Conseguir entrar para uma boa fraternidade abre portas, mesmo se o seu talento for pouco notável, o que explica que um homem como George W. Bush tenha chegado à presidência americana. Falhar em entrar para uma delas pode ser uma sentença de morte acadêmica: a constante pressão dos demais alunos pode dificultar as mais simples das tarefas quotidianas, prejudicando as horas de estudo, interferindo em experimentos ou até danificando manuscritos. Episódios que podem resultar em reações indisciplinadas, que prejudicam ainda mais o futuro profissional da vítima, manchada por um comportamento inadequado. Em um mundo no qual o sucesso a qualquer preço é exigido dos alunos, que estudam em universidades cada vez mais caras, isto explica que alguns percam a cabeça e usem de violência. Adicione à equação aquela típica facilidade americana para comprar armas e você tem explicação interessante para os tiroteios em escolas e universidades.

Lá como cá, porém, o trote é um instrumento de poder, que reflete estruturas de poder existentes dentro e fora do ambiente acadêmico. Em vez de selecionar neófitos confiáveis para proteger um segredo profissional, o trote hoje seleciona adeptos dispostos a aceitar o enquadramento social que lhes seja imposto, ensaiando assim o papel subalterno que se espera que estes futuros profissionais tenham ao saírem da graduação, pois no Brasil ainda impera mais o poder da grana sobre o poder do conhecimento, e não é incomum que o diplomado vá trabalhar sob as ordens de alguém que não possui graduação. Antigamente o coronel semi analfabeto tinha ao seu serviço o doutor advogado, o contador, o padre, o médico etc. Não era conveniente que esses profissionais tivessem uma atitude arrogante, deviam ser desde cedo treinados a ter a cabeça baixa. E abaixar cabeças é uma das funções do trote que, como a raspagem da cabeça dos recrutas, não tem finalidade prática a não ser a subjugação do ego.

Não é uma cena de filme pornográfico sadomasoquista

Porque os trotes quase sempre envolvem a “submissão” do calouro ao veterano, ensaio da submissão do profissional ao mercado. Para filhos dos milionários, o trote pode ser mais benigno, muitas vezes substituído por “dar festas” — uma espécie nada sutil de exibição do poderio econômico, que já qualifica o “festeiro” como alguém que é do grupo e que, por isso, não precisará ter a cabeça baixa na vida. Em outras épocas e países, os trotes foram usados também em questões nacionalistas. Estudantes galeses, por exemplo, seriam humilhados pilhados conversando em galês dentro das universidades britânicas. E isso foi parte importante na supressão da cultura galesa.

No Brasil, que costuma exarcebar o que outras culturas têm de ruim, o trote virou uma instituição, que choca a sociedade como um todo, em vez de ser só um segredo podre dentro dos portões das universidades. Aliás, nem poderia ser de outra forma, pois a maioria de nossas instituições de ensino mais antigas não goza da privacidade das americanas e nem de sua autonomia política. Então o trote deixa de ser algo que acontece dentro das “casas de fraternidade”, de forma não só tolerada, mas protegida pelo sistema. Deixa de ser uma “festinha” para a qual é fácil fechar os olhos, desde que se tenha o cuidado de não matar, mutilar nem engravidar ninguém, do tipo “se todos amanhecerem inteiros, então não aconteceu nada”. Ao sair para as ruas, o trote esfrega na cara do século XXI como nós ainda somos primitivos, e isso incomoda. Incomoda, mas continua.

O episódio mais recente na história dos trotes bestiais brasileiros aconteceu em São Carlos: incomodados com o protesto de um grupo de feministas contra a degradante submissão a que as calouras eram submetidas, um grupo de veteranos exibiu-lhes os seus genitais, atitude que, comportamentalmente falando, está um passo apenas acima de atirar excrementos. O que se expressa como machismo nesse caso reflete uma estrutura mais profunda de perpetuação de um sistema de “controle” da ascensão social, que envolve não só a opressão horizontal (misoginia e homofobia), mas também a opressão vertical (dita luta de classes).

Exibir os genitais é uma tentativa bizarra e infantil de mostrar “eu tenho e você não tem”, usando o pênis como um símbolo de poder. Alguém associará esse ato com as concepções arquetípicas de Jung, que nos lembram que tais símbolos são fálicos: lanças, espadas, vara, cetros, báculos, batutas, cassetetes. Não é à toa que existem palavras como “varão”. Esses atos, porém, não ocorrem de forma totalmente espontânea: são alimentados pela mídia manipuladora.

Dia desses, em um bate papo informal, dei-me conta de algo estranho, que certamente não é casual: vocês já repararam que desde o início das restrições à publicidade de bebidas alcoólicas a baixa música popular passou a investir no álcool como tema? A música sertaneja, por exemplo, nunca cessou, de 2006 para cá, de ter um sucesso mencionando cachaça. Houve casos mais escrotos que chegaram a mencionar marcas comerciais, como a música que Seu Jorge fez para a cachaça Sagatiba e um recente sucesso de funk-sertanejo mencionando a vodca Absolut. E isto simultaneamente à Lei Seca no trânsito e a grandes campanhas governamentais de combate ao alcoolismo. Será que isso é por acaso? Alguns dirão que letras sobre alcoolismo sempre existiram e sempre existirão, mas será que elas existiam em tal quantidade e apresentando-o de forma sempre tão positiva?

Dito isto a respeito do álcool, que pensar dos temas sexuais na música popular? Qual é o principal tema dos funks, sertanejos e outros? Nada é mais semelhante do que a figura troglodita de um machinho idiota balançando o pinto em cima de um trio elétrico do que as letras desse tipo rasteiro de música. E quem aqui acredita que a música popular é assim porque simplesmente os artistas e o povo “querem assim”? As pessoas aprenderam a querer isso porque é isso que lhes é dado desde a mais tenra idade através do rádio e da televisão e, recentemente, outros meios de comunicação mais novos.

Será que faz sentido pensarmos em lutar contra o machismo e a homofobia sem pensarmos em uma luta mais ampla contra as manipulações midiáticas que ecoam e amplificam esses sentidos primitivos? Acho que o inimigo é maior do que um grupo de alunos de uma universidade, mas é bom usá-los como exemplo, porque da mesma forma como se pode implantar a ideia da banalização do sexo através de uma música comercial manipulada, pode-se implantar a ideia do respeito ao próximo através de ações pontuais, mas consistentes. Está mais do que na hora de socializarmos esses episódios, deixar de vê-los como “problema da calourada”. Só porque já passamos por isso, não temos a obrigação de passar adiante a imbecilidade de que fomos vítimas ou partícipes.

O trote universitário, mesmo o tal “trote solidário”, precisa acabar. E digo que até o solidário precisa porque este nada mais é do que uma dourada pílula com o mesmo significado de rito de passagem imposto. E serve como cortina de fumaça para a perpetuação de relações impositivas que vão muito além das salas de aula.

Cotas Raciais e Racismo

Ontem tive a oportunidade de ser sabatinado no Facebook por alguns amigos virtuais que questionaram meu pensamento sobre as famigeradas quotas raciais criadas pelo atual governo (considero Dilma uma continuadora de Lula, então o «atual governo» começou em 2003). Dentre as muitas bobagens que disse, selecionei algumas mais elaboradas para compartilhar convosco…

«Cotas raciais existem apenas em sociedades racistas»: este deve ser o princípio de qualquer debate sobre o tema. Acho que assim fica melhor. Não se pode falar sobre o assunto sem abordar a questão da materialidade do racismo. Não vou cometer a ignomínia de dizer que ser contra cotas é ser racista, mas digamos que ser contra ou a favor das cotas envolve (não exclusivamente) o entendimento de que exista ou não racismo no Brasil. O outro elemento envolvido é a análise de natureza mais prática se as quotas são uma resposta adequada ao racismo que se crê existir (caso você conclua que ele existe).

Antes de chegarmos, porém, ao racismo, devemos passar pelo tema do chauvinismo, que é a crença de que uma determinada cultura seja superior a outra. O chauvinismo está muito próximo do nacionalismo e, de fato, muitos estados-nação europeus se construíram a partir desta complexa relação. Exemplo clássico é a França republicana, que impôs a langue d'oïl como único idioma oficial do estado, procurando ativamente suprimir línguas regionais. Outros países que adotaram políticas similares foram a Grã Bretanha, a Itália, a Grécia, a Turquia, a Alemanha, o Japão… e o Brasil (pelo menos desde Vargas). A supressão da língua é reconhecida internacionalmente como uma das formas de supressão do povo que a fala: roubando-lhe a língua, força-se a assimilação à maioria. A política linguística excludente procura sedimentar a nacionalidade. Somente estados «fracos» (como a Bélgica, a Tcheco-Eslováquia, a Finlândia e o Canadá) toleram a existência livre de línguas minoritárias, um desafio à cultura dominante. No Brasil, a supressão das línguas indígenas e africanas foi parte importante do processo de subjugação.

Mais do que forçar que uma minoria adote a língua da maioria, é necessário estigmatizar a influência do substrato linguístico, o que faz com que os povos assimilados pratiquem uma forma linguística mais conservadora e requintada (isso explica o florescimento de autores irlandeses e galeses entre o fim do século XIX e o começo do século XX). Quem não consegue obter essa chancela de pureza é discriminado ainda, no plano linguístico, como demonstra brilhantemente Marcos Bagno em sua obra «Preconceito Linguístico: o que é e como se faz», na qual explica que as variantes que padecem de desprestígio são justamente aquelas faladas pelos mestiços ou descendentes dos povos subjugados.

Mais do que meramente o preconceito linguístico, existiu no Brasil um preconceito materializado em múltiplas formas, um preconceito que tinha uma cara e tinha um alvo. A pobreza brasileira tem cor, e tem sotaque.

Infelizmente, não acredito que a política de cotas resolverá isso. Na verdade, parece que ela piorou tudo porque gerou um reacionarismo muito mais forte do que se podia supor. Era preciso algum tipo de ação afirmativa para equilibrar a balança em favor dos historicamente desfavorecidos, mas acho que o governo errou a mão nas quotas educacionais. E acho isso por quatro razões:

  • Não se tocou na criminosa ineficiência do nosso ensino público.

O ensino PRECISA ser em tempo integral, e precisa incluir duas línguas estrangeiras, música e esportes. Não se faz isso porque tocaria no grande negócio dos cursos de inglês nesse país, além do que, o ensino em tempo integral requereria mais estrutura física, professores com dedicação integral e outras coisas. Como nada disso se faz da noite para o dia, o governo preferiu a abordagem fast food e universalizou a precariedade.

  • Os quotistas não recebem nenhum preparo para se adequarem aos cursos, o que significa que as bolsas que recebem podem ser desperdiçadas devido a escolhas erradas.

Já que o governo vai investir em um jovem dando-lhe bolsa, seria necessário orientar esse jovem para que escolha um curso de acordo com a sua aptidão e a necessidade pública. O Brasil não precisa de tantos contadores, advogados ou pedagogos. Precisa de mais engenheiros, arquitetos, geógrafos, geólogos, químicos, médicos, enfermeiros etc. E uma vez que o governo pagou pela educação do sujeito, ele deveria ter que pagar por isso não com uma dívida a longo prazo, mas com dedicação ao serviço público. O estudante quotista deveria ser mandado para os lugares onde sua profissão faz falta, por exemplo. Médico do SUS por exemplo: quem que se forma na USP quer ir clinicar no interior do Amapá?

  • Parece estar havendo um rebaixamento da qualidade do ensino superior devido à dificuldade de elevação do padrão do ensino formativo.

Sobre este item muita gente já comentou bem. Vou citar o recente caso da greve como um episódio que pareceu destinado a quebrar a espinha do sindicalismo docente e preparar caminho para um aviltamento da carreira.

  • As quotas foram estabelecidas de acordo com o vago conceito de «raça» quando deveriam ter privilegiado grupos sociais geograficamente localizados.

Todo mundo sabe que o Brasil é um país miscigenado e que raramente algum de nós poderá exibir uma árvore genealógica isenta de antepassados indígenas ou africanos. Mais do que isso: a grande maioria dos que possuem fenótipo negro possuem antepassados brancos. Desta forma, uma classificação racial é muito complexa de se fazer, e falha. Eu acho bacana o governo construir IFETs nas regiões mais desassistidas do país. Isso sim é uma abordagem justa. Com uma massa crítica de gente bem formada, a região tende a atrair empresas ou os próprios formados iniciam seus negócios. Mesmo que alguns saiam para trabalhar longe, remeterão parte do dinheiro para a família. Da mesma forma, acho que vale mais a pena investir em educar o povo de uma área carente (uma favela por exemplo) do que selecionar por cor um negro que pode estar muito bem na zona sul. Acho que a Dilma tentou melhorar isso criando cotas sociais para o ensino público, mas não sei se vai funcionar.

É necessário ter muito cuidado, porém, com as críticas às quotas. Há críticas justas e outras nem tanto. Uma crítica apressada, que associe a oposição às quotas a um «racismo» é uma exibição gratuita de totalitarismo e culpa por associação que a esquerda não poderia cometer (mas comete, claro, desde Marx). Claro que existem setores da sociedade aos quais interessa a manutenção do status quo, e claro que estes setores são compostos majoritariamente por brancos (porque, a grosso modo, nosa elite é branca e nosso povo é preto).

Claro que isso não quer dizer que qualquer crítica seja motivada por racismo. Esta é a falácia da culpa por associação (ou «envenenamento da fonte»), que desqualifica opiniões aludindo a interesses escusos de quem as expressa. Isso é errado. Mas não muda o fato de que muitas (eu diria até a maioria) das críticas feitas às cotas são mesmo de cunho racista. Temos é que resistir a tentação de associar uma coisa com outra.

O que ocorre é que, tentando consertar o mundo a marreta, o governo acabou criando muita animosidade, que se revelou no reacionarismo mais agressivo e radical que chega a mandar matar nordestino ou a dizer que «tudo deveria ser privatizado e cada um use o que puder pagar». Essa agressividade existe porque o governo enfiou com força demais o dedo na ferida do racismo e da imobilidade social de que padece nossa sociedade, ainda presa a ranços de coronelismo, mas fingindo que é liberal inspirada em Ludwig von Mises para ter argumentos contra a distribuição de renda e qualquer política de redução de privilégios.

Um dos argumentos problemáticos envolve a oposição entre os descendentes de imigrantes europeus e os negros. Os primeiros se sentem ofendidos com a sugestão de que gozaram de «benefícios» negados aos negros e, para defender a própria dignidade, atacam os negros, juntando-se ao coro do racismo latente. Ocorre que tal acusação não é muito justa. Primeiro porque a maioria dos imigrantes que para cá vieram não tinha muita escolha: eram um bando de mortos de fome ou perseguidos políticos, que escaparam da cova imigrando para os trópicos. Segundo que a exclusão dos negros não foi obra deles, mas de quem os contratou.

Primeiro, eles herdaram os empregos que deveriam ser dos negros. Não só os empregos qualificados nas indústrias, para os quais teria sido necessário educar os negros, mas até os braçais. Os negros foram empurrados para os quilombos, as favelas, os subemprego, o desemprego, a criminalidade ou a dependência clientelista.

Depois herdaram a organização política popular, que eles, alfabetizados e educados, criaram através de partidos anarquistas e socialistas para defenderem seus direitos. Enquanto os negros, imersos na ignorância, demoraram em começar a criar consciência de classe.

Isso não é acusação. É fato histórico. O que se pretende reparar é justamente esta exclusão dos negros do processo histórico, que foi causada por uma política deliberada de «branqueamento» da população, que foi bastante bem sucedida a ponto de a proporção de brasileiros de pele clara ter subido de 40% para 54% entre 1900 e 2000, enquanto a de negros caiu de 14% para 5% (dados do IBGE). Uma política que, porém, ficou longe de dar vida mansa aos imigrantes.

Uma acusação comumente feita aos negros é a de que eles ficaram excluídos porque abandonaram as fazendas tão logo se viram libertados pela Lei Áurea. Duvido que os autores de tais acusações ficariam um dia a mais dentro da cadeia depois que fossem autorizados a sair. Para o escravo, o seu local de trabalho é uma prisão. O negro que «fugiu» da fazenda onde originalmente estava embengado estava experimentando a tal liberdade, a ver se existia mesmo. Queria um emprego em outro lugar, mas ninguém deu, pois todos queriam europeus branquinhos.

A política de branqueamento nunca foi praticada abertamente pelo govero. Era algo mais oficioso, sub reptício. Não houve medidas explícitas e sistemáticas de expulsão, mas casos em que os negros foram expulsos, de forma pontual, criando um padrão segundo o qual, sempre que começavam a incomodar em certo lugar eles eram reprimidos, forçados a fugir para outro, indefinidamente.

Desta forma, é bastante justo pensar em políticas de compensação para minorar o dano histórico que o Brasil de ontem causou aos antepassados dos que hoje formam o maior contingente de excluídos. Difícil, a esta altura, é acreditar que a estratégia adotada é a melhor possível.

Os Professores Não Devem Ser “Anastasiados”

« Primeiro eles o ignoram, depois o ridicularizam, depois reagem violentamente, e então você vence. » (Gandhi)

O que governo de Minas Gerais está fazendo com os professores da rede estadual de ensino é uma queda de braço tal como a de Margareth Thatcher com os mineiros de carvão no início dos anos 80. Ele está disposto a deixar tudo quebrar e depois por a culpa nos grevistas. Thatcher não hesitou em desmantelar toda a indústria de mineração britânica a fim de esmagar o sindicalismo. Talvez o governador pense em desmantelar definitivamente toda a educação no estado a fim de definitivamente subjugar os professores.

Ele não vai ceder porque sabe que, se ceder, terá aberto um precedente e outros que ganham salários inconstitucionais em outros lugares do Brasil também se revoltarão. Por isso, por debaixo dos panos, ele deve receber os mais diversos apoios. Os meios de comunicação, por exemplo, estão com ele.

Por toda parte houvem-se vozes roucas culpando os professores de “irresponsabilidade” por ousarem conduzir uma greve de noventa dias. Ninguém acha irresponsável um governo que paga um salário abaixo do devido ou que trata seus funcionários da forma que ele trata. A mídia manipuala a opinião pública e faz a massa teleguiada acreditar que os professores “não estão pensando nos alunos” como se sessenta dias sem aulas fossem piores do que duas décadas de abandono por governos deliberados em sucatear o ensino a todo custo.

Os professores estão, sim, pensando nos alunos. Pensam em ganhar salários melhores a fim de poderem dedicar-se integralmente ao magistério. Dependendo de quanto ganhem, não precisarão de dois cargos e poderão dedicar mais atenção às suas turmas. Desta forma, os alunos terão professores menos desgastados e que terão tempo e dinheiro para reciclar-se. Sem falar que bons salários atraem bons profissionais. Pagando o que se paga nesse país ao magistério, os governos parecem dar o recado de que desejam que as pessoas competentes e ambiciosas escolham outras carreiras, que professor é profissão de perdedor. Já houve um governador desse estado, de triste memória, que disse que o problema das professoras era serem mal casadas.

E sempre tem os idiotas de plantão dizendo que os professores são egoístas, sugerindo que estão sendo “mercenários” ao fazer uma greve tão longa por dinheiro. Mercenária é a mãe de quem diz isso. Até na Bíblia está escrito que é justo que o trabalhador receba seu salário. Não tem nada desse negócio de que o magistério é um sacerdócio. Nem sacerdote trabalha de graça. O magistério é uma profissão como outra qualquer: ninguém está ali para fazer caridade, mas para ganhar a vida. Claro que é uma profissão importante e que tem um papel fundamental no futuro do país, mas não deixa de ser meio de vida para os profissionais que a ela se dedicam.

Eu não gosto da ideia do magistério como “sacerdócio” por uma segunda razão também: quem aceita trabalhar por um péssimo salário em nome de um “sacerdócio” é porque serve a algum interesse. Ou está ali meramente para fazer proselitismo religioso, ou para doutrinar politicamente os alunos, ou… Deus nos livre… para alguma atividade que nem ouso dizer o nome. Ou ainda porque não consegue coisa melhor na vida, então o magistério “serve”. É um absurdo supor que o magistério seja uma profissão de refugo, e é isso que a atitude do governador parece sinalizar. Porque se ele conseguir o que deseja, haverá um grande êxodo de cérebros do professorado. Concurso tem todo dia, e muitos professores talvez pensem em buscar outra carreira ondem ganhe mais, COMO FIZ EU.

Quem não está "pensando nos alunos" é o governo neoliberal, que paga péssimos salários, contrata qualquer um, efetiva gente sem concurso, impõe uma pedagogia ineficaz, não investe em qualidade do ensino, etc. E ainda culpa os professores pelo que é uma estratégia deliberada do estado: impedir que o povo se eduque nas escolas públicas. Afinal, todo mundo sabe que os representantes do atraso são inimigos da escola.

A greve dos professores é justa. Tanto o é que nenhum tribunal conseguiu julgá-la ilegal. Ilegal é o governador querer que os professores, que têm nível superior, trabalhem por um salário menor que o de profissões de nível fundamental. É revoltante saber que um gari ganha mais que um professor. Isto significa que o governo dá uma importância excessiva ao lixo, ou então que trata as crianças como lixo.

Justamente por ser formador de opinião o professor não pode aceitar ser feito de besta pelo governo. Quando o professor aceita ser humilhado ele rebaixa a sua classe e desavaloriza a educação. Desta forma, ele deixa de ter moral para dar exemplo aos alunos, para falar-lhes sobrea importância de educar-se. Na impossibilidade de conseguir o que está sendo buscado, o professor tem que abandonar a profissão, deixar as escolas às moscas, sem quem lecione. Talvez aí, quando os pais de alunos estiverem nas ruas fazendo panelaço porque a escola está sem professor, talvez então o governo aumente o salário para atrair profissionais.

Só que isso é um absurdo, e eu tenho vergonha de dizer isso. Será necessário sacrificar uma geração para que nossos governantes cumpram seu papel? Não é melhor a geração sacrificar os governantes? Será que as revoltas via Twitter e Facebook só servem para derrubar ditadores cafonas do Oriente Médio? Acho que, mesmo sem ser árabe, nosso país está precisando de um pouco de revolta. De vez em quando, para o cérebro da classe política pegar no tranco, é bom uma boa dose de gente na rua protestando, quebrando fachadas, queimando ônibus, jogando ovos em autoridades, etc. Às vezes eles reagem mandando a polícia atirar no povo, mas, a longo prazo, eles perdem, como disse bem dito um cara que ousou organizar protestos de milhões contra uma minoria, um idiota qualquer chamado Gandhi, antes que me chamem de idiota por ter escrito o que escrevi.

Relativismo no … dos outros é refresco

Comentário a postagem do blog do Paulo Roberto Lopes.


A questão dos costumes tribais dos povos ditos “primitivos” é um dos temas mais espinhosos com que nos deparamos. Os espinhos a que me refiro estão ligados às contradições de nossa cultura dita “civilizada” e à maneira como ela encara as demais culturas do mundo.

Durante muito tempo os “africanos”, os “muçulmanos”, os “orientais” e os “aborígines” foram vistos como seres de segunda ou de terceira classe na humanidade, pessoas às quais não se aplicavam, pelo menos não integralmente, os valores do ocidente. A raiz do relativismo cultural se nutre, e muito, da continuidade de tal preconceito. Até há poucos anos, por exemplo, a voz corrente da “intelligentsia” internacional era de que os “povos muçulmanos” não teriam qualquer apreço pela democracia, com a qual o Islã seria incompatível. Os recentes movimentos nos países do Norte da África e do Oriente Médio deveriam ter envergonhado essa gente distinta que acha que tem a régua para medir a cultura alheia. Mas eles são ensebados e espertos e encontrarão uma maneira de continuar com credibilidade. Basta sacrificar os nomes proeminentes, como fizeram com Francis Fukuyama, o profeta do “fim da História” e arauto do consenso de Washington.

Dizer que o relativismo é preconceituoso é quase um acinte ao senso comum, porque a maioria de nós está em um contexto ideológico baseado na repetição ad nauseam de que o respeito às diferenças é uma forma de superação do preconceito. A afirmação insistente desta ideologia a transforma em um pseudo paradigma e nos faz admitir, sem raciocínio crítico, que a única maneira de respeitar alguém é aceitando-o como um pacote fechado, sem fazer interferências. Isto é monstruoso no aspecto ético, e é uma falácia lógica que não resiste a uma reflexão. Mas reflexão é justamente o que está proibido fazer sobre o tema: não há nenhuma receptividade a ideias que contradigam o pseudo consenso do relativismo. A antropologia, por exemplo, é uma ciência que hoje se funda firmemente nisto. Tal como os zoológicos se fundam na existência de animais em jaulas, a antropologia se funda em manter cada povo em sua jaula cultural particular.

A ideia de que as diferentes culturas devem ser aceitas como tais se baseia na noção de que todos os componentes de todas as culturas são construções sociais baseadas na tradição. O que o relativismo enfatiza é que a nossa própria cultura não é privilegiada como régua para medir as outras porque também os nossos valores são resultado de construções culturais. Em tese é uma afirmativa justa, porque de fato o hábito de usarmos calças enquanto os árabes usam vestidos é algo indiferente sob todos os aspectos, inclusive funcionais e estéticos. Porém, se sairmos do âmbito de vestidos e calçados e partirmos para valores e instituições políticas o relativismo perde sua justiça, porque os valores e instituições ditos “ocidentais” não o são de fato.

Os valores e instituições sociopolíticos predominantes no mundo moderno não são “ocidentais”, ainda que o dito Ocidente tenha dado significativa contribuição ao seu desenvolvimento. Não são restritos a uma cultura em particular, não se originam de uma tradição única, não são praticados em um âmbito geográfico limitado. Por terem origens mistas, longa história milenar e por terem sido com sucesso relativo aceitos por povos de diversas partes do mundo esses valores se mostraram superiores. Valores e instituições são tecnologias. Tecnologias sociais. A democracia representativa é uma tecnologia social, por exemplo. Sua aplicação com sucesso em contextos nos quais ela era estranha demonstra que ela não é meramente o “jeito ocidental” de governar, ainda que inventada pelo ocidente. O sucesso da democracia em lugares como a Índia (onde ela se desenvolve, mesmo que aos trancos e barrancos, desde 1950) é uma prova de que ela é uma tecnologia útil.

Um povo adotar valores de outro não é moralmente errado. Ninguém achou que os ingleses ficaram culturalmente descaracterizados quando adotaram as técnicas chinesas de porcelana e ninguém reclamou que os italianos aprendessem com os chineses a fazer macarrão. Os indianos não estão minimamente tristes por terem aprendido o conceito de democracia com os ingleses. Aliás, eles estão felizes até de terem aprendido a própria língua inglesa, que lhes permite ter um governo funcional e neutro em um país retalhado em mais de 1600 culturas.

As culturas não são bichos empalhados, que não mais se reproduzirão e nem interagem com o ambiente. Culturas são vivas. Elas se perpetuam, interagem com o meio, modificam-se, modificam ao meio em que vivem. Mudar faz parte da força de uma cultura. Querer preservar in vitro uma cultura, sem permitir que ela evolua interagindo com o meio em que existe é condená-la a uma forma de “empalhamento”.

Se queremos preservar as culturas indígenas, é preciso permitir que elas evoluam. Esta evolução é inevitável. Se os ritos intoleráveis permanecerem, os jovens quererão fugir ou crescerão com ódio da própria cultura. Nenhuma das circunstâncias favorecerá a conservação da cultura indígena. Não se preserva a cultura matando o índio e nem torturando-o.

Se aplicássemos esses conceitos relativistas toscos à nossa própria cultura “ocidental” (que aos olhos dos relativistas parece ser a única que tem o privilégio de estar livre para evoluir), ainda teríamos que estar fazendo coisas como enclausurar perpetuamente em conventos as moças que perdessem a virgindade antes de casar, ainda teríamos que passar a quaresma sem comer carne e a sexta feira da paixão sem sequer tomar água, ainda teríamos que considerar os canhotos como endemoninhados ou que marcar a ferro os criminosos.

Todos esses costumes foram abandonados (bem como inúmeros outros) porque se tornaram incompatíveis com a progressiva evolução de nossa ética social. Alguns eram meras superstições, outros derivavam de uma sociedade rigidamente patriarcal, outros eram devidos à falta de um sistema legal eficaz. Tudo isso mudou à medida em que nossa vida melhorou.

Com que argumentos lógicos podemos querer que os índios continuem submetidos a tais rituais? Como considerar perigosos esses jovens que não desejam perpetuar tais crueldades? Estaremos dizendo que os homens que no passado se levantaram contra as práticas crueis de nossa cultura eram igualmente perigosos? Estaremos sugerindo, por exemplo, que o marinheiro João Cândido, líder da rebelião contra o castigo da chibata na marinha brasileira, era um homem “perigoso” e que tal costume “enraizado em nossa cultura” desde o século XVII e herdado de Portugal desde o século XV, deveria ter continuado?

Mais Compreensão do que Estudo…

Não é a primeira vez que eu vejo esse tipo de opinião circular pelo mundo. Mas desta, como apareceu na Internet, percebi que era preciso comentar.

A história tem tantos lados quanto podemos imaginar. E, na boa, história exige mais compreensão do que estudo: decorar datas é mais fácil que compreender os fatos nelas ocorridos. Como todo mundo se mete a entender de história só porque viu… documentários, leu meia dúzia de livros tendenciosos e viu o horário político, a nossa ciência está jogada na lama.Mas, tudo nesse mundo tem salvação (assim espero)…

Esta é só uma pequena postagem no Facebook, mas ela reflete de várias maneiras a ideia distorcida que os brasileiros têm da História — e das ciências humanas também, de certa forma. O autor disso provavelmente imaginou que estava sendo um paladino da ciência, e é normal que pense assim, pois esse tipo de pensamento recebe aplausos fáceis, até mesmo entre os profissionais de ensino: é praticamente uma tradição de nosso país considerar as ciências humanas menos importantes, concepção cristalizada até nos quadros de horários de nossas escolas, nos quais Português e Matemática têm cinco aulas semanais, enquanto História e Geografia têm somente duas cada. Então o que esse rapaz disse é fruto de um sistema que ensina desde cedo a desconsiderar como “menos importantes” certas áreas do conhecimento humano. E as pessoas propagam isso, sem perceberem que estão papagaiando um discurso ideológico alienante e obscurantista. Vamos demonstrar as falácias deste raciocínio:

A primeira afirmação é que A história tem tantos lados quanto podemos imaginar. Dizendo desta maneira, a História (com agá minúsculo) fica reduzida a um simples “causo” de pescador, ou a uma Lenda da Mulher de Branco, que cada um conta como quer, mudando os detalhes conforme sua preferência. Claro que existe quem pense assim ou até quem faça isso, mas História (agá maiúsculo) não é isso!

Podem me acusar de positivista (o que, para os que, como eu, mamaram nas tetas do Marxismo, uma ofensa), mas acredito que a História é uma tentativa metódica (portanto racional) de buscar o conhecimento de um fato realmente acontecido. O fato é objetivo, positivo. O que pode variar é a interpretação dos dados que conduzem ao fato. Como a História é metódica (portanto racional, e nunca é demais repetir), há um limite para o tipo de interpretação que se pode dar aos dados, o que significa que não há infinitas versões possíveis de um mesmo fato. Pode haver certa controvérsia quanto a interpretação de um documento, porém somente serão historicamente válidas as teorias que seguirem certo método. Vamos dar um exemplo.

Se acharmos um documento datado de abril de 1500 no qual um arquivista português comunique ao rei de Portugal o episódio do “descobrimento” do Brasil, não podemos usar tal documento como “prova” de que, no século XV, os portugueses conseguiam navegar entre a Bahia e Lisboa, em suas caravelas, no prazo de nove dias, no máximo. As únicas hipóteses racionais serão aquelas que considerarem como erro a data do documento novo (ou do antigo, a Carta de Caminha), ou ainda as que considerarem que o Brasil já era conhecido e a viagem de Pedro Álvares Cabral foi só formalidade diplomática. Imaginar as caravelas singrando o Oceano Atlântico à velocidade de um petroleiro moderno não é algo aceitável. Tudo, claro, considerando que o documento encontrado não seja forjado.

Logo em seguida, vem a afirmação de que história exige mais compreensão do que estudo. À primeira vista é uma afirmação quase tautológica, mas não é nada inocente o que ela implica: que História não precisa ser estudada. Esta é uma opinião que encontra eco profundo no nosso sistema educacional, não só entre os alunos mas também — lamentavelmente — entre certos maus professores que veem a escola como uma rinha, na qual devem digladiar-se por espaço no horário e onde as matérias que são “mais importantes” precisam sempre ter a “prioridade”. Você não precisa “estudar história” se tiver algo abstrato como “compreensão” (que é um privilégio talvez inato, visto que não precisa ser adquirido pelo estudo). Os que tiverem “compreensão” não precisam estudar datas e nomes “chatos”. Eu já tinha falado disso anteriormente, num artigo sobre a cultura de aplauso da ignorância que existe no Brasil e nos “atalhos” que desenvolvemos para não termos que aprender. Claro que uma afirmação dessas é chocante, por isso deve ser atenuada com uma frase bacana: decorar datas é mais fácil que compreender os fatos nelas ocorridos. Curioso é que quem diz que é “mais fácil” decorar datas está justamente dando uma justificativa para não ter que fazer isso. E se compreender os fatos é mais difícil, a lógica seria então que a História fosse mais estudada, pois ninguém pode compreender o que não conhece (não existe sabedoria na ignorância). Vê-se, porém, pelo contexto, que não existe a preocupação em estudar mais, mas em “compreender mais”.

A frase a seguir chega mais longe na incongruência: Como todo mundo se mete a entender de história só porque viu documentários, leu meia dúzia de livros tendenciosos e viu o horário político, a nossa ciência está jogada na lama. Eu não consigo alcançar o que o autor desta frase quis dizer, mas fica parecendo (e devemos julgar as pessoas de acordo com o que elas dizem — e não com o que pensaram em dizer) que assistira a documentários, ler “meia dúzia de livros” e assistir o horário político (todas ferramentas que estão ao alcance dos interessados, graças à televisão por assinatura, às bibliotecas e a outras ferramentas de acesso público) não são meios eficientes para alguém chegar a “entender de história”. Há dois problemas com esta afirmação.

O primeiro problema é o elitismo, que já ficava evidente na afirmação anterior, sobre a “compreensão” em vez do “estudo”. Não adianta você recorrer aos meios populares de difusão de conhecimento, pois você não chegará a “entender de história” através deles. Para “entender de história” você precisa de outra coisa (que pode ser uma “sabedoria” inata ou algum conhecimento arcano, a que somente privilegiados podem ter acesso). A História se reveste, então, de uma aura mística, sagrada, alheia-se da “necessidade” do povo. E não custa nunca lembrar que o “povo” precisa aprender muita gramática e muita matemática e muita ciência.

O segundo problema está na parte final. Por que a nossa ciência está “jogada na lama” como consequência de “todo mundo” se meter a “entender de história” vendo documentários e lendo livros tendenciosos? Ora, bolas, porque estas pessoas que se metem a entender de História, evidentemente, não estão estudando matemática, português e “ciência” (às Ciências Humanas é muito comum que seja contestado o status). Veja só que coisa, esta gente que fica tentando “entender de história” é que está jogando a ciência na lama. Não, a culpa não do governo, que mantém um sistema educacional tão inepto que só pode ser de propósito, a culpa não é de nossa sociedade e seus valores, a culpa é, claro, de quem tenta ter acesso a um conhecimento que não é para o bico do povo. A culpa, é claro, é da vítima!

Mas ainda tem caroço nesse angu. Esta gente que “se mete” a “entender de história” costuma ficar de crista alta, reclamando da vida, apontando para certas coisas que não se deveria discutir. Teria sido bem melhor só estudarem português, matemática e “ciência”. Então, quando essa gente surge, discutindo temas difíceis, pondo pimenta no olho de quem não quer enxergar as raízes antigas de nossos problemas de hoje, é preciso desqualificar, é preciso rebaixar, é preciso viralatizar.

E aqui chegamos ao terceiro dos problemas implícitos nessa frase tão curta: a falácia de que, na impossibilidade de se ter o conhecimento perfeito, o conhecimento imperfeito não tem valor. Leia de novo e observe bem: Como todo mundo se mete a entender de história só porque viu documentários, leu meia dúzia de livros tendenciosos e viu o horário político…

Está bem claro aí que o conhecimento que se obtem assistindo documentários, lendo alguns livros e assistindo horário político é um conhecimento inútil por ser parcial. Empregando a reductio ad absurdum, pode-se dizer que é melhor ser analfabeto do que ler mal. Como o autor da frase certamente não cometeria a insanidade de estar de acordo com esta reformulação, imagino que negará ter querido dizer que o conhecimento incompleto obtido através de documentários, livros e “horário político” seria inútil. Mas, como dizia Nietzsche, o importante não é como você pensa, mas como você o diz.

Gostaria de dizer ao autor destas frases que eu não acredito que ele seja pessoa má, que defenda o obscurantismo ou algo assim. Estas coisas que ele disse não são, de fato, pensamentos seus, mas chavões populares em nosso país. Ele apenas papagaiou o que se diz por aí, possivelmente sem nem refletir sobre os nuances do que disse. Uma característica destes chavões é que eles simplificam os problemas e oferecem, então, explicações fáceis para questões difíceis. Existe uma ilusão entre os ignorantes de que existe um atalho para o conhecimento sem passar pelo estudo. O sonho das pessoas que ignoram uma matéria é conseguirem a esperteza de chegarem à outra margem do rio sem passar pela ponte. Assim, toda explicação simples fica rapidamente popular e aqueles que assimilam tais “verdades” se arraigam a elas porque ali acham o que antes lhes fazia falta. Através das explicações simples, o ignorante supera a sensação de insegurança. Ele então passa a encarar esta explicação simples como um verdadeiro artigo de fé.

Não pretendo me aprofundar sobre este mecanismo de crença, porque reconheço minha limitação nesse campo. O que digo é o que ouvi dizerem pessoas que sabiam mais do que eu. Quero apenas concluir dizendo que é preciso denunciar esta ideologia segundo a qual a História é uma espécie de “vale tudo”. Não há esperança para a educação no Brasil, nem mesmo para o ensino das matérias “importantes” enquanto nós encararmos o conhecimento pela ótica desta estratégia de “redução de danos”, que nos impele a evitar ao máximo a necessidade de aprender. É por isso que se “prioriza” matérias que são importantes, é por isso que existem os “macetes” de vestibular e concurso, é por isso que os livros de auto-ajuda fazem sucesso. Estudar e aprender são coisas tão horríveis na mentalidade do brasileiro, que é preciso evitar ao máximo. Vamos aprender o que é “importante” e não é preciso saber a matéria se você tiver os “macetes” da prova de múltipla escolha.

Só que tem uma coisa engraçada: quando você começa a “priorizar” conhecimentos, criando uma hierarquia de importância (na qual muita gente acha que História fica abaixo até do Ensino Religioso), você cria um efeito progressivo de downsizing que termina com o desmonte de todo o sistema. A escola que hoje não acha importante ensinar História, facilmente chegará ao ponto em que “ensinar” em si deixará de ser importante, desde que se consiga “socializar o aluno” e “instrumentalizá-lo” para o convívio enquanto cidadão de uma sociedade democrática.

Para terminar, um caso curioso, que muita gente deve lembrar. Há alguns anos, ainda no tempo em que fazia o “Caco Antibes” no programa humorístico “Sai de Baixo”, Miguel Fallabela protagonizou o anúncio de uma coletânea da Som Livre (hoje exorcizada da Web) que usava o slogan “O Melhor do Melhor, dos Melhores”. Acontece que era uma antologia de música clássica, em um álbum duplo. Se considerarmos que a música “clássica” abarca mais de cinco séculos de tradição e que algumas de suas obras possuem horas de duração, não é difícil imaginar que o resultado foi uma coletânea de vinhetas das grandes obras. Quem a comprasse ouviria apenas trechos soltos, e não as obras propriamente. Da mesma forma como você não fica conhecendo Beethoven só porque botou Für Elise como toque de seu telefone celular. Um sistema educacional que tão arbitrariamente discrimina entre as áreas de conhecimento pode acabar, como a Som Livre, produzindo uma coletânea de vinhetas, de pedaços amputados das obras originais. Vinhetas de conhecimento não ajudam ninguém a se tornar realmente competente e nem sábio. No máximo servem como toque de celular.

Regra Universal da Pronúncia Inglesa

O Orkut anda cheio de spam, isto é inegável. Boa parte deste spam deriva de uma fonte única, a divulgação de uma obra chamada “Regra Universal da Pronúncia Inglesa” (que vou chamar de RUPI de agora em diante, por economia de espaço) que se propõe a ensinar qualquer pessoa a assimilar a pronúncia daquele idioma sem esforço. Embora eu não seja um especialista em ensino de línguas modernas (nem tampouco de línguas antigas, diga-se de passagem), o referido método apresenta certos aspectos que não me caem bem, que vou comentar no texto a seguir, originalmente publicado por mim, sob pseudônimo, em comunidade literária naquele sítio de relacionamento.

Jonathan Swift conta, em suas “Viagens de Gulliver”, que em certo país fictício, encontrado pelo herói, haviam inventado uma tinta mágica que era usada para escrever as complicadas fórmulas da álgebra em biscoitos de aveia: as crianças que comessem dos biscoitos aprendiam imediatamente a fazer os mais complicados cálculos. Acontece que tal tinta era de um gosto tão horrível que as crianças não o conseguiam suportar e cuspiam fora com tanta vontade que era praticamente preciso amarrá-las e enfiar à força os biscoitos pelas suas bocas adentro. A moral da história é simples: não há uma maneira “fácil” de se chegar ao conhecimento. Se você não investe tempo e dedicação, terá de passar por provações talvez piores. Hoje em dia os que querem aprender rápido não passam pela tortura de serem alimentados à força, mas costumam ficar aliviados de uma boa parte do dinheiro que ganham tão suado.

Quando eu era criança, eram inúmeros os métodos de “Inglês Sem Mestre” ou de “Aprenda Matemática Dormindo”. O método miraculoso sempre se baseou, porém, numa curiosa relação: você paga primeiro e depois “se vira” para aprender com o método que lhe é ensinado. As pessoas compravam aqueles livros de “Alemão Sem Mestre” e ficavam balbuciando aquelas frases, imaginando, desesperadas, que esses exercícios a tornariam capazes de usar a língua de uma maneira útil. Até hoje me lembro de algumas que decorei naquela época: “Wir haben keinen platz!”, “Wo wären Sie wahrend das Krieges in Deutschland?”, “Der Wein ist sauer!”, mas se tivesse de ir à Alemanha hoje eu provavelmente não conseguiria conversar com ninguém que não fosse, como eu, fluente em inglês ou espanhol.

No caso específico do ensino de idiomas, sempre houve muita picaretagem. Cursos honestos, que se baseiam em pelo menos alguma vaga noção de pedagogia, jamais prometem “inglês rápido” em dois anos (ou menos) sem sequer diferenciar se o candidato a poliglota já estudou alguma língua (ou alguma coisa) antes e sem avaliar o grau de aptidão de cada um.

Certamente que é possível aprender uma língua em dois anos. É possível aprender até em menos tempo do que isso. Tudo depende de fatores variados, que nenhum curso do mundo tem como controlar: idade do aluno, número de idiomas que já domina, talento natural para línguas, dedicação do aluno, idade em que aprendeu o primeiro idioma etc. Além de outros elementos que o curso manipula, como método, horas/aula, formação do instrutor etc. O que não é possível fazer é formatar um curso com a promessa de aprendizado em determinado período de tempo (cada vez menor, na competição suicida do capitalismo educacional) sem distinguir estes pontos que influenciam no sucesso da promessa. Um curso honesto é aquele que faz o melhor possível, e não o que promete o impossível.

Mas há muitas pessoas que odeiam a honestidade porque ela conta que terão de esforçar-se para conseguir o que querem. O ser humano odeia o esforço e comprará soluções mágicas que lhe facilitem isso. É só ver os anúncios na televisão, de máquinas de musculação que não exigem esforço! Falta pouco para prometerem musculação por correspondência. As pessoas preferem pagar por ilusões, fingir que podem milagrosamente livrar-se de seus problemas. Para estas pessoas há todo tipo de promessa, e prometer dá dinheiro, especialmente quando você cobra antecipadamente por algo que, no fim das contas, dependerá do esforço de quem paga, e não da qualidade do que se vende.

Mas qual é o problema com a RUPI?

O problema principal é que ela explora a ignorância. Qualquer pessoa com algum conhecimento de pedagogia voltada para o ensino de línguas percebe o embuste em três tempos. Mas quem não sabe nada se impressiona com a prestidigitação feita pelo criador da RUPI.

Em primeiro lugar, o autor ignora que o inglês, de fato, não possui uma equivalência segura entre a forma escrita e a pronúncia porque as convenções ortográficas se baseiam em duas tradições diferentes (anglo-normando e anglo-saxão) e refletem a pronúncia do século XVII, época em que palavras como “deaf” e “leaf” faziam rimas perfeitas nos sonetos dos poetas. Claro que ainda existe alguma consistência residual, mas esse primeiro problema é suficiente para complicar de tal forma a questão do aprendizado da pronúncia que se torna desonesto tentar convencer alguém que é possível aprender a pronúncia de qualquer palavra a partir de certos grupos.

O segundo problema é a variedade dialetal, que faz com que a mesma palavra tenha pronúncias radicalmente diferentes em cada lugar. Um bom exemplo são os cognatos de “direct”. Na Grã Bretanha a pronúncia mais usual é “dairect”, “dairector”, “dairection” etc. Nos EUA a pronúncia mais usual é “direct”, “director” … Mas o verbo “redirect” não é pronunciado na Grã Bretanha com o ditongo em vez da vogal! Esse foi só um exemplo, mas há inúmeros outros. Eles adicionam mais exceções dos que a já aceitas pelo RUPI, tornando mais difícil conceber um sistema uniforme e confiável.

O terceiro problema é supor que o aprendizado das convenções de pronúncia seja um problema relevante no aprendizado de um idioma. Tal concepção se baseia no uso de métodos atrasados de ensino, que recorrem ao texto impresso. Uma língua é um meio de comunicação primordialmente oral. Se as crianças aprendem a falar antes de escrever, é uma coisa antinatural querer que os alunos aprendam uma língua a partir de sua escrita. Todos os métodos pedagógicos modernos de ensino de línguas se baseiam na imersão e na prática oral. Não há necessidade de aprender as convenções de pronúncia de forma insistente, pelo simples fato de que você já aprende as palavras pronunciando-as.

Mas mesmo que não haja condições, em sua cidade ou curso, para fazer uma imersão — e você seja forçado a aprender a partir da escrita, como se fazia na Idade Média — você ainda poderá contar com um consolo animador: a quantidade de palavras necessárias para uma comunicação a nível básico (cujas pronúncias podem ser aprendidas simultaneamente com seus significados) geralmente é menor do que a quantidade de regras e exceções que você tem que aprender. Dá menos trabalho estudar cada palavra com sua pronúncia (recorrendo ao famigerado dicionário) do que memorizar dezenas de regras e suas exceções. Uma rápida pesquisa na Internet lhe revelará a surpreendente informação de que o vocabulário básico necessário para a comunicação quotidiana, em qualquer língua, não passa de mil palavras!

Vamos comparar estas mil palavras com o que promete a RUPI: “Os elementos fonêmicos básicos da REGRA são cerca de 1.000”. Ou seja, se você resolver adotar a RUPI, você terá decorado MIL REGRAS que apenas lhe ensinam a ler, como um papagaio, palavras cujo significado você não entende. Em vez disso, poderia ter gasto este tempo aprendendo MIL PALAVRAS, com suas pronúncias e significados, habilitando-se a atingir a proficiência básica necessária para o idioma. Conclusão: a RUPI atrapalha em vez de ajudar.

O quarto engano grave cometido pelo autor do método é que as suas regras de pronúncia se baseiam na “pronúncia figurada”, ou seja, uma tentativa de explicar a pronúncia dos vocábulos estrangeiros usando convenções ortográficas do português, resultando em coisas como “Iunáitid Kíndom”. Este sistema, além de simplesmente ridículo de se ver, também atrapalha em vez de ajudar. Acontece que já existe um sistema científico, difundido e eficiente para representar a pronúncia de uma língua. Este sistema é o Alfabeto Fonético Internacional, ou IPA. Ensinar o IPA em vez da grafia do “Iunáitid Kíndom” capacita o aluno a compreender as chaves de pronúncia que se acham nos dicionários (sempre em IPA) e permitem que o aluno, caso algum dia estude outro idioma, reutilize este aprendizado como base para o novo estudo. Resumindo: a “pronúncia figurada” é uma gambiarra tosca que pode até dar a impressão de ajudar em um momento inicial, mas na prática ela oferece um avanço ilusório e depois coloca o aluno diante de um beco sem saída. Se o professor ensinar IPA desde o começo, o aluno poderá rapidamente adquirir vocabulário (com pronúncia razoável) por seus próprios meios.

Outro grave equívoco da pronúncia figurada é dar ao aluno a falsa impressão de que as palavras do idioma inglês podem ser pronunciadas com os mesmos fonemas a que estamos acostumados em português. Acontece que a língua inglesa tem um conjunto de fonemas bastante diferente do português, sob várias formas. Não apenas o inglês tem (na pronúncia padrão britânica) 22 fonemas vocálicos (simples ou ditongados) contra 14 em português (vogais longas ditongadas não existem em nossa língua), como tem 24 fonemas consonantais contra 16 do português (em ambos os casos podendo haver variações dialetais). Não há correspondência exata entre os dois conjuntos de fonemas.

Para piorar as coisas, ainda há casos óbvios em que a pronúncia da consoante em português difere da pronúncia em inglês, especialmente em posição final de sílaba. Sem falar que existem no inglês certas correspondências fonéticas inexistentes em português, como o fato de que P, T e K são geralmente aspirados (Ph, Th, Kh) enquanto B, D e G não são, ou as curiosas transformações que as consoantes dentais (T e D) sofrem diante de R, S e I. A RUPI se baseia, então, no equívoco de que é possível haver um terreno comum entre a fonética de ambos os idiomas só porque ambos empregam o alfabeto latino.

A questão da diferença fonética é importante porque, ao aprender através de uma pronúncia figurada ilusoriamente fácil, o aluno tende a adquirir um sotaque carregado e dificilmente compreensível por um falante nativo. Esta dificuldade decorre do fato de que o reconhecimento das palavras só ocorrerá se o interlocutor (também lusófono) for capaz de associar uma palavra escrita a uma sequência de fonemas portugueses macaqueando uma pseudo-pronúncia do inglês. O resultado disso é que o inglês aprendido com a ajuda da RUPI será mais facilmente compreendido por quem fale português do que por pessoas realmente originárias de outras culturas, tornando-se, assim, inútil naquela que é a principal função de uma língua estrangeira que aprendemos: possibilitar comunicação com estrangeiros.

Mas é evidente que o principal ponto fraco do método é mesmo o fato de seu próprio criador admitir que ele se baseia em MIL REGRAS.

Vai Começar… o Estupidification…

Há algumas semanas divulgou-se uma estarrecedora pesquisa segundo a qual aproximadamente 80% dos estudantes brasileiros, ao término do primeiro grau, ainda não haviam adquirido plena competência da leitura; número que não era significativamente reduzido ao fim do segundo grau (porque, obviamente, não há espaço na escola secundária para trabalhar a alfabetização), e que ainda tinha impacto nos cursos universitários. Nada menos que 5% dos formandos em cursos superiores seriam analfabetos funcionais (e uma boa outra quantidade seria incompletamente alfabetizada).

Pois bem, há alguns dias, em São Paulo, uma garotinha de doze anos morreu, em um hospital de relativo renome, porque a enfermeira lhe injetou vaselina líquida em vez de soro fisiológico.

Você consegue ver a relação entre estas duas coisas? Não? Vou tentar explicar.

Se temos uma proporção tão grande de analfabetos funcionais ao término do curso superior, se temos tantas pessoas que, mesmo alfabetizadas, ainda não têm domínio pleno da leitura, é evidente que uma boa quantidade dos profissionais que estão sendo formados neste país tem dificuldade para ler e compreender instruções, rótulos, alertas, receitas etc.

Isto quer dizer que temos médicos que desconhecem sintomas porque não leem os laudos até o fim, que temos engenheiros que calculam errado porque não entendem as especificações, que temos professores que não conseguem ensinar bem porque ainda não dominam a matéria que deviam ensinar, que temos enfermeiras que podem matar crianças de doze anos porque não leem rótulos e receitas.

Uma característica do analfabeto funcional, e também dos que, mesmo alfabetizados, têm ainda dificuldade de leitura, é a preguiça de ler. Quem não é plenamente alfabetizado procura evitar ler porque ler lhes é penoso. Quando veem um texto longo como esse, desanimam de ler e reclamam de quem escreve. Quando veem letrinhas miúdas…

O que estou querendo dizer é que a ineficiência de nosso sistema educacional está produzindo uma geração de profissionais relapsos e incompetentes, profissionais que cada vez mais cometerão erros idiotas porque não querem ler, porque leem e não entendem ou porque as instruções, escritas por outros incompetentes, não são claras. A longo prazo esta incompetência generalizada vai matar cada vez mais gente. Enfermeiras que injetarão remédio errado, médicos que vão operar a pessoa errada, engenheiros que vão calcular errado, mecânicos que não vão saber consertar direito os novos modelos, com suas estruturas complexas etc.

Se você acha que estou inventando estes números, vamos a alguns links:

Mas o que mais me espanta é, diante de tais números absurdos, a presidente eleita ter dito que «a educação no Brasil já está encaminhada». Bem, encaminhada ela está. Apenas eu e a presidente divergimos para onde.

MEC Fornece Pornografia às Escolas

Os pedagogos do MEC, responsáveis pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (esta peça de humor pastelão que rebatizou o ensino de português como «Linguagens, Códigos e Suas Tecnologias») acharam que não seria apropriado que a obra «Caçadas de Pedrinho», de Monteiro Lobato, um clássico de nossa literatura, fosse distribuída às bibliotecas de nossas escolas públicas, afinal existem nela resíduos de racismo que podem traumatizar as crianças negras ou tornar em potenciais hitlers todas as demais.

No entanto, segundo tive o desprazer de ver hoje no telejornal matutino da Rede Record, o critério para considerar impróprio o livro de Lobato parece muito mais vago do que inicialmente parecia — e ele já parecia muito vago.

O caso é que ao mesmo tempo em que pretendeu censurar um clássico da literatura por conter trechos potencialmente racistas, o MEC não viu problema algum em distribuir a mais de quarenta mil escolas do Brasil a tradução portuguesa de um mangá de Kazuichi Hanawa intitulado «Na Prisão».

A escolha do tema já é, por si só, preocupante. Em vez de pretender ensinar conteúdos positivos para os jovens, o MEC achou que seria interessante que eles aprendessem sobre como é a vida em uma prisão japonesa. Mas me abstenho de imaginar razões para a escolha do tema e me restrinjo a tentar compreender como ou porque esta obra em especial foi aceita.

Porque Kazuichi Hanawa não a escreveu para crianças em idade escolar — e sim para adultos. No Japão o consumo de mangá e animê pelos adultos é pelo menos tão grande quanto para crianças. A temática da obra em questão não é nada «infantil»: trata-se do retrato da cruel rotina de uma prisão, na qual o protagonista encontra todo tipo de gente e ouve todo tipo de histórias — inclusive histórias que envolvem crimes sexuais (hetero e homo), uso de drogas (até injetáveis), tortura (física e mental), nudez representação gráfica de órgãos e atos sexuais (como estupro, masturbação e outras coisas).

Ressalva: como não li a obra, estou deduzindo tudo isto a partir das imagens que foram exibidas pelo telejornal e pelas descrições da obra que encontro na Internet. Mas adoraria que quem tenha lido me envie mais detalhes.

Tudo isso pode ser aceitável (e o é) numa obra voltada para um público adulto, devidamente distribuída de forma discreta e contendo na capa alerta sobre o conteúdo inapropriado. Mas como algum pedagogo resolveu achar que uma obra de conteúdo tão pesado seria apropriada para crianças que já enfrentam tanto conteúdo impróprio no mundo?

Eu ainda achava tolerável quando a obra do MEC era caracterizada apenas pela incompetência (que tantas vezes levou este órgãos a escolher os piores livros didáticos possíveis) e pelo descaso (expresso no sorridente diagnóstico de que «a educação neste país já está bem encaminhada»); mas agora tudo tomou proporções totalmente diferentes: já não se trata apenas de incompetência e de descaso, deve haver alguém deliberadamente sabotando a educação no Brasil — ou então a corrupção e a inépcia dos funcionários do MEC atingiu níveis nos quais já não seriam capazes de diferenciar entre a própria bunda e uma melancia.

Referências:

  1. Link para a reportagem no portal R7: http://noticias.r7.com/videos/escola-estadual-de-porto-alegre-rs-disponibiliza-livro-improprio-para-criancas/idmedia/9c6ccd8b5bc9f7354564c68bfd6c24f7.html
  2. Prova de que o livro foi distribuído pelo MEC: http://www.fomezero.gov.br/noticias/escolas-publicas-recebem-historias-em-quadrinhos

Agradeço quem puder contribuir scans das páginas desta história, ESPECIALMENTE scans da edição distribuída pelo MEC, que contém o selo do PNBE na capa.

Literatura e Política: Para Todos e Para Ninguém

Nietzsche colocou em seu livro Assim Falou Zaratustra um subtítulo interessante: «um livro para todos e para ninguém». Trata-se de uma declaração quase esfíngica: como um livro pode, ao mesmo tempo, ser destinado a todo mundo e a ninguém? A solução do enigma surge quando você analisa o livro em si, pelo seu conteúdo e pela sua forma. Quanto à forma, é um livro para todos devido ao estilo bíblico e linear da narrativa (sim, embora escrito por um filósofo, trata-se de uma narrativa): supôs o autor que estas escolhas tornariam o livro acessível a praticamente todos os que fossem alfabetizados. Por isso «um livro para todos». No entanto, o conteúdo desta obra é particularmente difícil, por lidar com dilemas existenciais cuja própria reflexão é rejeitada por estes seres cordatos que habitam as civilizações, esse homo vulgaris que persegue a gratificação de seus desejos imediatos tal e qual um cão correndo atrás do próprio rabo. Por isso é um livro para ninguém.

Há certos assuntos sobre os quais falamos que deveriam ser também agraciados com um subtítulo equivalente: para todos, porque é perfeitamente possível falar deles de uma forma que muita gente entenda; para ninguém, porque é quase impossível achar quem se interesse por eles. Um de tais assuntos é a política.

O lugar comum (que é o sistema através do qual pensam, de forma quase exclusiva, as pessoas sem imaginação e/ou sem inteligência própria) dita (no sentido de «ditadura») que «político é tudo safado» — talvez porque as pessoas que assim o dizem espelham os políticos em si mesmas. Embora eu não ponha a mão no fogo por nenhum político, essa afirmativa é preguiçosa e burra. Preguiçosa porque é um preconceito e porque exime quem assim pensa da obrigação de informar-se (ai, isso envolve ler, ah, e ler dói), de refletir, de discutir e de concluir. É muito mais fácil dizer que todo político é safado e não ter que se dar a esse trabalho.

Como vocês já devem ter percebido, existe uma estreita relação entre a nossa postura diante dos livros e as causas desse desastre que é a nossa política. Nosso povo lê pouco, e por ler pouco ele não sabe quase nada daquilo que não diga respeito ao seu horizonte imediato. E por ser ignorante daquilo que não lhe diz respeito de forma direta, ele não é capaz de discutir a política.

Acontece que os ignorantes não vão querer admitir isso. No fundo, apesar do desprezo verbal pela cultura que vive na boca de muita gente, ser ignorante não é bonito. Então é preciso sentar em cima desse rabo grande e peludo e fingir que ele não existe. A incompetência de ter uma discussão sobre política é mascarada pelo desinteresse, justificado pela constatação, necessariamente desinformada, de que todo político é safado.

O curioso é que essas pessoas que assim pensam estão duplamente equivocadas. Não apenas estão partindo para uma conclusão preconceituosa (porque é uma generalização desinformada), mas estão abordando o problema pelo lado errado: política não se faz de cima para baixo. É perfeitamente justificável a sensação de que nós não temos nenhum tipo de controle sobre o que pensam e fazem os políticos nas altas esferas do poder. Mas eles não chegaram lá de paraquedas, eles passaram por um longo processo, que muitas vezes começou numa candidatura à vereança em sua cidade. E é nesse momento que a política distante se torna próxima que vemos, com maior vergonha, o quanto as mesmas pessoas ignorantes são também desonestas.

Safado é povo, não o político. O político é safado porque ele é parte do povo. Talvez se os nossos políticos fossem estrangeiros eles fossem menos safados (ou mais). Mas como eles são brasileiros como nós, eles são tão safados quanto somos, na média.

Safado é o eleitor que vende seu voto em troca de cimento, de um emprego, de gasolina, de um par de tênis ou de dinheiro. Quem prostitui a sua opinião em troca de vantagens imediatas (tal qual o macaco da fábula, que vende a cauda por um pão) não tem moral para acusar os nosso políticos de coisa alguma.

Safado é o eleitor que se orgulha de ser parte do curral eleitoral de um político: «aqui no bairro tal a gente vota é no fulano», ou «sicrano é o candidato da cidade X». Abdicando da própria opinião e aceitando ser levado no cabresto (como burro que é), esse eleitor vai reclamar do que?

Essas coisas que eu disse acima não são filosofias profundas, dignas de um Nietzsche, de um Schopenhauer ou de um Espinoza. São coisas simples e claras que para concluir basta você pensar com calma e somar dois com dois. No entanto elas serão incompreendidas e rechaçadas. A transparência do raciocínio será rejeitada pela oposição do conteúdo ao que é confortável ao leitor. «Eu fiz isso, diz minha memória. Eu não posso ter feito isso, diz meu orgulho. Por fim a memória cede».

Por isso estas palavras que disse são para todos e para ninguém. São para todos porque qualquer um que saiba ler as lerá e compreenderá. Para ninguém porque com elas não ganharei nenhum seguidor no blogue, não farei nenhum amigo, não receberei sequer um elogio, não mudarei a postura de um eleitor sequer. O ser humano nunca muda, de fato: apenas se torna, cada vez mais, aquilo que é. A única mudança possível é a que se faz nas gerações futuras, através da educação de nossos filhos. Esta é a tragédia da humanidade: os estúpidos têm mais filhos e têm mais tempo para ensinar.