O Bipartidarismo: uma Democracia de Fachada

A democracia é uma coisa que a gente, muitas vezes acha que é tão estável e confiável quanto os horários dos ônibus: pode ter seus contratempos, mas estão sempre aí passando para nos levar aonde queremos. A verdade é que a democracia é uma coisa tão recente que até assusta quando a gente para a pensar o quanto nos acostumamos com ela em tão pouco tempo. A nossa própria democracia tem pouco menos de trinta anos, e antes dela o mais parecido com democracia que vivêramos não durara mais que escassos dezoito anos. Somente os brasileiros que hoje têm menos de trinta anos gozam do privilégio de jamais terem vivido sob o arbítrio de uma ditadura. Talvez isto explique porque tantos deles gastem sua liberdade de expressão dizendo bobagens, como elogiar a ditadura e falar mal da liberdade de expressão.

Lá fora a coisa não é significativamente melhor. Na nossa América Latina a democracia, regra geral, é muito menos confiável do que podemos supor. Não há nenhum país do México para baixo que tenha gozado de um regime democrático, com sufrágio universal, liberdade de expressão, alternância no poder e independência de decisões econômicas por mais do que vinte anos, os últimos vinte anos, quase sempre. Os casos que antigamente eram citados como exemplos de democracia e estabilidade institucional não passam no crivo da mais básica análise: Venezuela, Costa Rica, Chile e Uruguai viveram décadas de eleições e mandatos cumpridos, mas só porque as oligarquias se revezavam nas cadeiras executivas e legislativas, através de eleições de fachada, nas quais o povo não tinha o que escolher.

A Europa, por sua vez, que adora nos dar lições, tem democracias mais jovens que a nossa (Turquia) ou viveu períodos de arbítrio ainda mais negros do que a nossa «Revolução» (casos do franquismo espanhol, que durou até 1975, ou da Cortina de Ferro socialista, caída entre 1989 e 1992). Mesmo países que empinam o nariz para falar de instituições e direitos humanos tiveram seu passado autoritário, como a França gaullista ou a Itália dos eternos parlamentos que duravam seis meses enquanto o «sistema» governava a partir de funcionários não eleitos. Países que ainda nos anos setenta estavam perseguindo e matando sindicalistas, artistas, estudantes ou gente que se vestia de forma suspeita.

Não é surpresa, então, considerar que a raiz de todo este mal continue firme e forte onde sempre esteve: os Estados Unidos. Os ianques sempre foram a inspiração universal dos sistemas democráticos, eles mesmos se intitulam, nada modestamente, a terra da liberdade («dos hambúrgueres e da azia», completou um personagem de famoso enlatado dos anos oitenta). Mas se o modelo que difundem é viciado, como podem as democracias que inspiram serem melhores? Toda cópia piora um pouco o original.

Então nos lugares onde os Estados Unidos calharam de implantar democracias em vez de ditaduras, caso do Japão, o sistema político resultante espelha o que tem de pior o sistema ianque: a plutocracia. E plutocracia não é democracia.

Sempre que você restringe as escolhas de alguém, você está, obviamente, dirigindo esta pessoa a escolher aquilo que você quer. Então, se a pessoa escolhe uma entre duas alternativas, não se pode dizer que ela realmente escolheu o que queria. Se você chega em um bar e só tem Coca Cola ou Pepsi, ninguém pode dizer que você não gosta de guaraná. Em um bipartidarismo, quem gosta de guaraná não tem a oportunidade de beber, menos gente percebe que gostaria de beber guaraná, todos são levados a crer que tiveram a liberdade de escolher o que beber, mas no fundo estão apenas fazendo girar uma roda de interesses econômicos, um jogo de cartas marcadas entre duas marcas.

Assim são os partidos em uma democracia bipartidária. Acostumados a conviver e a revezar-se, criam leis e estruturas que favorecem um ao outro e dificultam a competição. Isto faz com que as pessoas procurem fazer política dentro destes partidos, em vez de criarem partidos adicionais para defender ideias diferentes. Mas a mensagem que passa, em nível nacional, é a do consenso partidário, que será sempre fabricado por influência das lideranças, visto que os movimentos dissidentes não têm o poder de pagar matérias na imprensa para propagandear suas teses.

Toda democracia tende ao bipartidarismo, tal como o capitalismo tende ao monopolismo, a menos que o Estado crie leis para obstar isso. Mesmo países bastante democráticos podem cristalizar-se em regimes bipartidários, como aconteceu na França. Em um estágio mais profundo de degeneração, o sistema se consolida com um partido eternamente na situação e outro na oposição, como aconteceu com o México durante boa parte do século XX, ou o Paraguai de Stroessner. Isso quase sempre ocorre pelas armas, mas pode ser resultado também de eleições sucessivas em que um mesmo partido se sagre vitorioso.

Como não existe real liberdade de escolha quando as opções são limitadas (sejam duas, sejam três), a conclusão a que se pode facilmente chegar é a de que os regimes bipartidários não são democráticos em geral, mas são especialmente menos democráticos quando se desenvolveu um sistema para bloquear a entrada de novos partidos. Existem dois métodos principais de bloqueio: as restrições de registro e o voto distrital.

O primeiro método é usado em ditaduras ou democracias imperfeitas, e é utilizado para impedir ou cassar o registro de partidos que ameacem o sistema. Na América Latina, durante a maior parte do século XX, os partidos comunistas estiveram proibidos e os partidos de esquerda tiveram sua atuação notavelmente restringida. Na Turquia, durante muito tempo, partidos religiosos foram proibidos. No Brasil, notavelmente, vivemos um bipartidarismo imposto pelo regime militar entre 1967 e 1980.

Em geral os bipartidarismos deste tipo tendem a ser muito antidemocráticos e eventualmente se pode chegar ao bipartidarismo engessado, com a proibição de outros partidos. Mas pode haver um bipartidarismo “suave” no qual a hegemonia substitui a proibição. Nestes sistemas, existem vários métodos para impedir que os demais partidos cheguem ao poder. O sistema de voto distrital é um destes, usado para restringir o acesso de novos partidos quando o sistema quer guardar uma aparência de pluralidade. Os que defendem a democracia americana gostam de citar que o país possui centenas de partidos políticos registrados e que lá é mais fácil fundar um partido que abrir uma empresa. Só que esses partidos não têm futuro porque o sistema eleitoral desenvolvido pelos dois partidos majoritários impede que qualquer terceiro partido se consolide. De fato, é mais fácil concorrer como candidato independente do que como um candidato de um partido minoritário.

O sistema a que me refiro é chamado em inglês de “first past the post” ou “winner-takes-all”, que significam, basicamente, “o primeiro a chegar” ou “o vencedor leva tudo”. Este sistema é característico da Grã Bretanha e dos Estados Unidos e se caracteriza pela divisão do país em distritos eleitorais, cada um elegendo um representante para o congresso (estadual ou municipal). Em cada distrito se elege o candidato mais votado, mesmo que ele detenha menos de 50% dos votos. Combinando isso com o voto facultativo e já houve casos de candidatos eleitos por menos de 10% da população.

Este sistema ainda é burlado de várias formas:

  1. Gerrymandering, ou manipulação dos distritos. O partido que está no poder altera os limites dos distritos para agrupar os núcleos urbanos de forma a favorecer a reeleição de seus candidatos. Um distrito onde o partido vencedor tenha obtido mais de dois terços dos votos será repartido entre outros distritos onde ele perdeu, de forma que na eleição seguinte esses eleitores ajudem a vitória do partido governista nos distritos onde ele perdera a eleição anterior. Esse processo é tão acentuado nos Estados Unidos que há distritos onde o mesmo partido vem ganhando há décadas. Há estados onde o mesmo partido vem ganhando há décadas. Nas eleições você já deve ter visto o mapinha com os estados azuis (democratas) ou vermelhos (republicanos) e note bem que eles raramente mudam. Os poucos estados onde ocorre alternância no poder são chamados de “swing states” (estados-gangorra) e sempre é neles que se resolve a eleição.
  2. Exigência de apoio popular prévio para o registro de candidaturas. Em alguns estados americanos, um terceiro partido, se quiser concorrer, terá que obter assinaturas populares muitas vezes equivalentes a mais do que os votos necessários para vencer a eleição.
  3. “Pork”, ou sistema de retribuição. Os candidatos independentes ou pertencentes a partidos minoritários são excluídos da distribuição de verbas, o que faz com que seus eleitores os vejam como incapazes de trazer benefícios para a comunidade. Nesse sentido, os dois partidos majoritários, e teoricamente adversários, sempre estão unidos contra os partidos alternativos.
  4. “Rotten boroughs”, ou distritos apodrecidos. Na Grã Bretanha, durante muito tempo foi comum que os distritos eleitorais, estabelecidos no século XVII, não guardassem relação com sua densidade demográfica. A importância histórica das cidades valia mais do que sua importância econômica e sua população. Cidades novas não tinham representação própria, eram representadas pelo condado (“shire”) onde se encontravam, enquanto antigos vilarejos tinham até dois representantes próprios. No auge do absurdo, a cidade de Birmingham, segundo maior centro populacional do Reino Unido, tinha somente um representante, enquanto algumas cidades desabitadas tinham dois ou três.

Eu finjo que não sei o que pretendem os partidos que propõem voto distrital no Brasil, mas quero crer que isso é até irrelevante, se considerarmos que toda democracia tende a polarizar-se e somente se renova nas crises periódicas dos grandes partidos e dos grandes movimentos. Democracias excessivamente estáveis envelhecem e se tornam endurecidas, incapazes de promover as mudanças necessárias.

Democracias excessivamente estáveis tendem a deixar de ser democráticas ao longo do tempo.

O “Putinaço”

Entrou para o folclore da política brasileira o famoso "tijolaço" do Leonel Brizola, o incrível direito de resposta que obteve contra a Rede Globo de Televisão, que levou o circunspecto Cid Moreira a ler no Jornal Nacional um artigo no qual o político gaúcho se defendeu de acusações e insinuações feitas pelo jornalismo da emissora empregando uma enorme, mas elegante, agressividade. O ponto alto foi quando, respondendo à acusação de que era senil, Brizola tascou, com a impiedade que somente os legitimamente injustiçados podem brandir:

Ora, tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador, Roberto Marinho, que tem 86 anos. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que os use para si.

Roberto Marinho definiu o episódio como um calamidade. Brizola, numa metáfora anarquista, qualificou-o como um tijolaço atirado à janela da emissora. Jornalistas mais ladinos detectaram ali um "instantâneo da História", o momento no qual o poderio da emissora carioca começou a declinar.

Algo análogo ocorreu nesta semana, quando um artigo supostamente escrito pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, foi publicado na página de editoriais do New York Times. Foi um tijolaço no meio da testa do orgulho americano. Putin disse verdades duras, dolorosas, verdades que muitas vezes foram sussurradas por pessoas que não tem mísseis balísticos intercontinentais para endossá-las. Algum dia esse artigo será, também, lembrado como um episódio profético, o primeiro grande dedo em riste que alguém metaforicamente apontou para a cara do império ianque. E certamente o texto será, doravante, estudado em todas as boas escolas de direito internacional, diplomacia, história e assuntos correlatos. Putin escreveu a história de forma contundente, produzindo o que me permito chamar de "Putinaço" (por analogia com o caso de Brizola).

Obama fez história por ser quem é, pela cor de sua pele. Putin não fez história pelo que é, mas pelas palavras que subscreveu. E palavras, palavras têm a misteriosa tendência à eternidade. Escudado por seus mísseis e ogivas nucleares, Putin teve a coragem de esfregar na cara do império as verdades murmuradas por todos os povos oprimidos do mundo. Somente isto, apesar de quaisquer defeitos próprios do líder russo e da Rússia propriamente dita, é suficiente para dar legitimidade aos argumentos. Quando uma voz se ergue em nome do bom senso, é inútil supor que sofismas a desmentirão. E o artigo, apesar de um tom amistoso, é uma série de "voadoras" no queixo da diplomacia americana e da auto-imagem dos Estados Unidos.

O artigo começa dizendo que Putin resolveu se dirigir aos cidadãos americanos (em primeiro lugar) e aos seus políticos (em segundo) em um momento de falta de comunicação entre as sociedades. Sutilmente está dito aí que os políticos americanos não têm ouvido a diplomacia russa e nem informado ao povo sobre as negociações.

Em seguida, Putin lembra que russos e americanos já viveram momentos de discordância, como na guerra fria, mas que já lutaram juntos contra um inimigo comum, o nazismo — e que foi para evitar a repetição da devastação da Segunda Guerra que as Nações Unidas foram criadas. Ainda mais sutilmente o presidente russo joga a carta da Guerra Mundial para começar a instilar medo no coração do leitor.

No quarto parágrafo, após mencionar que as Nações Unidas tomam decisões baseadas em consenso, o presidente russo relembra o fracasso da Liga das Nações, que aconteceu porque os estados-membros não respeitavam suas decisões. Sabe-se que tal fracasso abriu caminho para a Segunda Guerra Mundial, então Putin está novamente sugerindo que as ações americanas de forma unilateral abrem um risco semelhante.

Ao enumerar os possíveis efeitos negativos de um ataque americano à Síria, cita o "problema nuclear iraniano" como se fosse um fato consumado (há indícios de que o Irã, de fato, já possui a bomba nuclear, ou pelo menos a tecnologia para produzi-la quando quiser). Esta citação é importante, considerando o que ele vai dizer mais à frente no texto.

O texto procura, também, enfatizar que a guerra civil síria não é um conflito claro entre um ditador e forças democráticas, mas uma guerra civil multilateral em um país multicultural, multiétnico e multirreligioso, sendo que várias das organizações combatentes contra Bashar al-Assad são designadas como terroristas pelo próprio governo americano.

Putin se defende da acusação de estar "defendendo Assad" (um sanguinário ditador) e afirma que a posição russa é de defesa da ordem jurídica internacional para evitar que o mundo escorregue para o caos (novamente a carta da Guerra mundial é sugerida de forma sutil).

Em seguida o texto passa a abordar as intervenções unilaterais dos Estados Unidos em outros países. Putin considera alarmante que elas sejam tão comuns e afirma que o mundo vê os americanos pressionando outros países com um argumento maniqueísta de que "quem não está conosco, está contra nós". Tudo em vão, pois estas intervenções não estabilizaram os países invadidos e nem tornaram o mundo, ou os próprios Estados Unidos, mais seguros.

Estas intervenções, em um contexto de enfraquecimento das leis internacionais e do papel das Nações Unidas, levam os países, de uma forma que Putin considera "lógica", a buscar armas de destruição em massa justamente porque, sem o escudo das instituições multilaterais, somente bombas podem proteger. Assim, os Estados Unidos agem de uma forma que desacredita o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (e, considerando os argumentos de Putin, todo país que se julgue ameaçado pelos EUA deveria buscar tê-las). Este é um tópico antigo, um assunto que já era levantado pelo falecido Enéas Carneiro, folclórico político brasileiro que pregava que a solução para a maioria dos problemas nacionais estaria na bomba atômica. Dá certo remorso ter zombado dele agora. Mas lembremos que no começo do artigo Putin falou sobre o "problema nuclear iraniano". Aqui temos claramente uma defesa da busca iraniana pela bomba: o simples fato de o Irã ter um regime do qual os Estados Unidos discordam é justificativa racional para este regime procurar se armar.

Os maiores "roundhouse kicks" aplicados por Putin nos americanos ficam no fim.

Primeiro é na afirmativa de que é necessário parar de usar a linguagem da força e voltar ao caminho do diálogo diplomático civilizado e dos acordos internacionais. O que se diz aqui, de forma sutil, é que a política internacional americana não é civilizada (pois os EUA precisariam "voltar ao caminho" civilizado). Acredito que seja a primeira vez na História contemporânea que um líder relevante qualifica outro líder relevante de uma forma tão desrespeitosa, e imagino que muitos rostos devem ter ficado vermelhos ao ler isto.

O segundo, e mais agressivo ainda, é no momento em que comenta o recente discurso feito por Obama perante o Congresso. Putin discorda e critica a ideia de que os Estados Unidos são diferentes, excepcionais. Para o presidente russo, falando com a sabedoria de um antigo profeta, é extremamente perigoso levar as pessoas a pensarem que são diferentes e excepcionais. É difícil rebater este ponto, pois foi justamente esse tipo de pensamento que levou a Alemanha ao horror nazista. E existem inúmeros episódios de povos "especiais" que tacaram o terror pelo mundo ao longo da História. Se considerarmos a referência inicial ao momento em que russos e americanos estiveram juntos contra o nazismo, vemos claramente que Putin procurou qualificar de nazistóide o pensamento excepcionalista americano!

Como era de se esperar, a agressividade destas polidas palavras não passou despercebida. Políticos de ambos os partidos procuraram reações, mas só conseguiram comentários patéticos.

Para Jay Carney, porta-voz da Casa Branca, "Ao contrário da Rússia, nos EUA defendemos os valores democráticos e os direitos humanos no nosso próprio país e no mundo".

Carney provavelmente usa óleo de peroba como loção pós-barba, pois hoje em dia não é segredo para ninguém que os Estados Unidos têm minado seus valores democráticos e desrespeitado os direitos humanos tanto dentro como fora de suas fronteiras. As intervenções americanas de 2001 para cá produziram registros de horror tão incríveis que revoltaram meio mundo. Só as cenas das mulheres xiitas forçadas sob mira de fuzil a fazer sexo oral em soldados americanos são suficientes para desmentir esse porta-voz. Mas Guantánamo, onde estão presas pessoas que não podem ser acusadas de nada, ali sim temos a prova concreta de que os valores democráticos e os direitos humanos hoje somente restam no discurso hipócrita de gente como Jay Carney, que ganha para mentir.

As respostas de outros políticos não melhoram o tom geral: todas atacam a figura de Putin, suas ligações com a KGB e com a máfia russa, ou atacam o histórico político da Rússia. Todas estas respostas ignoram um fato básico em lógica de argumentação: se um dedo sujo aponta para a Lua, a Lua não é afetada pela sujeira do dedo. Putin pode não ser o maior dos democratas, mas seu discurso é mais útil à democracia do que a postura beligerante, intransigente e chauvinista do governo americano. A Rússia pode não ser um exemplo de democracia e direitos humanos, mas os russos, ao longo de todo o século XX, só cometeram três invasões de outros países: Hungria (1956), Tcheco-Eslováquia (1968) e Afeganistão (1979).

Do episódio o que se extrai é que a diplomacia russa é muito mais construtiva do que a americana, que se comporta como "dona da rua". Putin escreve para a posteridade, e se acontecer algum conflito a história o absolverá por suas palavras premonitórias. Toda a responsabilidade e o desgaste de uma guerra foram por ele depositados sobre os ombros de Obama e seus assessores (que, às vezes, me parecem ser mais seus mentores que seus consultores).

A incapacidade da classe política americana em fazer um desmentido abrangente é um sinal do valor verdade deste texto simples e direto.

Texto que, como dito, foi escrito diretamente nas páginas da História

Revolutions Inc.

Bom dia para você, reacionário de direita travestido de jovem anarquista, que saiu às ruas nesse fim de semana querendo causar impacto. Devia ter ouvido o Humberto Gessinger e feito o pacto.1 Você está, conscientemente ou não, fazendo seu trabalho de formiguinha na preparação do caos. Eu sou astrólogo, vocês precisam acreditar em mim. Eu sou astrólogo e conheço a história do princípio ao fim.2

Digo isto apoiado em uma leitura porca dos mais recentes descobrimentos da psicologia (por mais recentes eu me refiro a mais de meio século, mas você, reacinha, talvez não tenha nem ouvido falar de Freud) e uma leitura um pouco mais cuidadosa de fatos que já são história. Fatos da história mundial recente que sugerem que o Império mudou sua tática e não está mais investindo nos militares para derrubar os governos que não lhe interessam: militares podem não ser confiáveis, podem estar interessados em fazer algo de bom pelo próprio país, podem sair do controle e custa caro recuperar os que fogem da gaiola, como Noriega, Saddam Hussein e Hugo Chávez.

Símbolo da Otpor!

Na verdade o processo é bem simples, já está amplamente documentado, e já foi empregado com sucesso em pelo menos oito oportunidades. Mesmo assim a nossa juventude "descolada", utilizando em larga escala um superpoder chamado "ignorância", fecha os olhos para os indícios de manipulação. Desde que os puxões nas cordas sejam feitos com suavidade, não se importam de ser marionetes.

Refiro-me aqui ao "pacote revolucionário libertador" financiado por entidades interessadas apenas no progresso dos povos e no aperfeiçoamento da civilização, como a USAID, o National Endowment for Democracy, o American Center for International Labor Solidarity, o European Endowment for Democracy, o Center for International Media Assistance e a CIA. Paralelamente a estas entidades, think tanks ligados às grandes multinacionais, como o Heritage Foundation, o American Enterprise Institute e o Open Society Institute.

Se você vive dentro de uma pedra, ou se é tão impermeável quanto uma pedra a notícias que se choquem com suas ideias preconcebidas, provavelmente não sabe que estas entidades, e outras antecessoras suas, têm atuado na desestabilização de regimes contrários aos interesses americanos desde os anos 70 e já tiveram sucesso em produzir pelo menos sete movimentos de massa liderados por organizações não governamentais financiadas pelas entidades citadas.

  • Derrubada de Slobodán Milosević (Sérvia, 2000), liderada pelo movimento "Otpor!" (Recuse!), tendo como símbolo a cor negra e um punho fechado. Milosević foi substituído por um líder mais afeito aos interesses americanos e abriu caminho para a independência de Kossovo, criando um protetorado euroamericano nos Bálcãs (área de interesse russa).
  • Revolução Rosa (Geórgia, 2003), liderada pelo movimento "Kmara" (Chega!), tendo como símbolo a cor negra e um punho fechado. Derrubou Eduard Shevardnadze, que se mantinha alinhado com a Rússia, e o substituiu por Mikhail Saakashvilli, que se alinhou com os EUA, tentou entrar para a OTAN e acabou eventualmente sendo posto em seu lugar pela invasão russa de 2008.
  • Revolução Laranja (Ucrânia, 2004), liderada pelo movimento "Pora!" (Chega!), tendo como símbolo as cores preta e laranja e o sol nascente. Conseguiu anular as eleições, fraudadas por Viktor Yanukovich, e colocar no poder o controverso presidente Viktor Yushenko, que quase morreu envenenado durante a campanha eleitoral, supostamente por obra do FSB (novo nome da KGB). Yushenko, sob forte oposição, não conseguiu avançar muito em sua política internacional, apenas criou leis de autonomia política e cultural favorecendo os ucranianos em relação aos russos. Acabou derrotado nas eleições seguintes pela lindíssima e gatíssima (mas aparentemente perigosíssima e corruptíssima) Yulia Timoshenko, que atualmente come cana braba por supostamente aceitar dinheiro de potências estrangeiras.
  • Revolução das Tulipas (Quirguízia, 2005), liderada pelo movimento "KelKel" (Renascença), tendo como símbolo as cores rosa e amarela e o sol nascente. Conseguiu derrubar Askar Akaev, um dinossauro que permanecia desde os tempos comunistas, e implantar um regime mais democrático.

Símbolo do Pora!

Estes movimentos tiveram características em comum:

  • liderados por uma ONG financiada por uma ou mais das entidades citadas mais acima;
  • caracterizados por um slogan que se confunde com o nome da organização;
  • o nome da organização inclui um ponto de exclamação, para maior ênfase;
  • adoção de um logotipo e de uma cor para simbolizar o movimento;
  • identificação com um líder político "novo";
  • esvaziamento do movimento após o sucesso inicial (mudança de regime).

Em alguns casos, símbolos idênticos foram utilizados (Sérvia e Geórgia), ou um slogan que é praticamente o mesmo (Sérvia e Ucrânia). Os regimes afetados sempre são adversários dos interesses americanos em regiões de interesse geopolítico americano (Bálcãs, Mar Negro e Ásia Central) e os regimes substitutos são liderados por políticos que são claramente alinhados com Washington ou, pelo menos, no caso da Quirguízia, tem o potencial de se alinharem mais facilmente.

Os líderes adotados pelas revoluções coloridas foram Yushenko (Ucrânia) e Saakashvilli (Geórgia).

Símbolo do Kmara!

Em todos os casos, o movimento original se esvazia após produzir seu efeito (certamente por não mais receber tanta assessoria e financiamento). O movimento ucraniano "Pora!" não consegue nem 2% dos votos nas eleições e tem ficado fora do parlamento. Na Geórgia o "Kmara" jamais conseguiu se formalizar como partido. O "Otpor!" da Sérvia ficou de fora do parlamento, embora tenha conseguido cerca de 5% dos votos certa vez.

As semelhanças ficam mais interessantes quando avaliamos que não foram somente estes casos. Houve outros movimentos fundados em outros países, com objetivos semelhantes:

  • Zubr -Bielorrússia
  • Oborona ("Defesa") - Rússia
  • Mjaft! ("Basta!") - Albânia

Símbolo da Oborona!

A cor negra está presente nos símbolos de quase todos esses movimentos, ainda que os movimentos tenham sido identificados por cores diferentes (branco, na Sérvia, laranja, na Ucrânia, rosa, na Geórgia, amarelo, na Quiguízia, azul, na Bielorrússia). Símbolos de origem anarquista (punho fechado, bandeira negra) idem. Os movimentos se solidarizam e chegam a prestar assistência mútua. Agentes sérvios organizaram o "Pora!" na Ucrânia e o "Kmara!" na Geórgia. Os georgianos, por sua vez, prestaram assistência aos quirquizes, enquanto os ucranianos auxiliaram os bielorrussos.

Após uma onda inicial de sucesso das revoluções coloridas, alguns países expulsaram as instituições citadas, o que evitou que o movimento crescesse na Bielorrússia, no Uzbequistão e na Albânia. Na Rússia o protesto chegou a ser grande, exigindo a renúncia de Vladimir Putin, mas foi reprimido e passou à clandestinidade. Onde as instituições de ajuda americana não atuam, os movimentos sociais de oposição não se desenvolvem.

A inspiração desses movimentos remete à Revolução dos Cravos (em Portugal, 1974) e à Revolução Amarela (nas Filipinas, 1986). Ambos movimentos não-violentos de resistência civil com o objetivo de derrubar ditaduras. Vale lembrar, porém, que a Geórgia e a Ucrânia não eram ditaduras.

Além dos contatos diretos entre os líderes desses movimentos, há uma clara articulação através da internet, mesmo no caso da Quirguízia, onde uma parcela ínfima da população conhecia a informática.3. A associação com a internet, naquela fase, deu ao movimento um ar de novidade, de poder espontâneo do povo.

Como os regimes fortes perceberam a jogada e começaram a se proteger, a estratégia mudou ligeiramente. Em vez de financiar a fundação de organizações formais, com sede e hierarquia públicas, os Estados Unidos passaram a patrocinar uma atuação desconcentrada, informal e sem hierarquia definida. Ou melhor, com um único centro de decisões, "virtual", localizado fora do país alvo. Muitas características permaneceram, ainda:

  • A Revolução do Cedro (Líbano, 2005) catalisou-se em torno do ex primeiro ministro Rafik Hariri, recentemente morto. O objetivo alcançado foi forçar a saída do exército sírio que tutelava o regime libanês.
  • A Revolução Verde (Irã, 2009), tentou questionar a eleição de Mahammound Ahmadinejad e forçar uma transição para o "moderado" Mir-Hussein Mussavi. Fracassou devido à forte repressão e à incapacidade de Moussavi para fornecer evidências firmes de fraude na eleição (além de ele não ter e mantido firme até as últimas consequências, preferindo contemporizar com o regime).

A tecnologia social desenvolvida através destas maquinações foi rapidamente assimilada em lugares onde a juventude é mais inteligente do que no Brasil, de forma que regimes autoritários alinhados aos EUA começaram a ser vítimas de estratégias semelhantes, desenvolvidas de forma autônoma:

  • Revolução do Jasmin (Tunísia, 2010) retirou do poder um grande aliado americano e abriu caminho para uma geração de políticos nacionalistas, muitos deles tendentes a aproximar-se do Irã e da Rússia.
  • Revolução do Lótus (Egito, 2010) retirou do poder aquele que talvez fosse o mais fiel aliado americano e abriu caminho para a legalização da Irmandade Muçulmana, considerada pelos EUA uma organização terrorista.

Estas duas revoluções se caracterizaram pela falta de um controle central definido, pelo emprego das redes sociais para articular os protestos e pela falta de líderes políticos óbvios, embora em momento algum seus participantes as tenham concebido como apolíticas. O apartidarismo desses movimentos se devia unicamente ao fato de não haverem partidos políticos legais e legítimos em atuação naqueles países. Estas revoluções estiveram fortemente ligadas (biunivocamente) com o Movimento Ocupem Wall Street (Estados Unidos) e com o Grito dos Indignados (Espanha).

O caso da Líbia é sui generis, pois a tentativa americana de produzir uma revolução colorida no país levou a uma guerra civil de grandes proporções, que quase destruiu o país. Por um momento, as estratégias americanas ficaram paralisadas em torno da questão líbia.

Mas no momento seguinte temos a reação. No Egito, organizações semelhantes às que haviam atuado nas revoluções coloridas vão às ruas contra o presidente Mohammed Morsi (que, por sua vez, demonstrava um alto grau de incompetência e sede precoce de controle) e legitimam um golpe de estado que restabelece no poder homens de confiança de Washington. Temos então o começo da revolta síria, desde o início planejada já tendo em vista a perspectiva de uma evolução idêntica à da Líbia. As estratégias foram, inclusive, as mesmas (criação de um governo de oposição, que adota a bandeira anterior do país).

O último elo desta corrente é o Anonymous, uma "grife" de protestos pela internet que surgiu como um grupo de pessoas interessadas em expor a Igreja da Cientologia.

O Anonymous pode ser descrito como um coletivo informal de usuários avançados de computadores (tanto crackers como phreakers e hackers) com a adesão de inúmeros script kiddies e n00bs interessados em fama.

De 2003 a 2011 o Anonymous, cujos membros adotaram como símbolo a máscara usada pelo personagem de Hugo Weaving no filme "V de Vingança", que, por sua vez, é uma referência a Guy Fawkes.4 A partir de 2011, porém, com a prisão de dezenas de seus mais brilhantes operadores, o grupo perde sua aura heróica e passa a segundo plano. Não sem antes contribuir ideológica e estruturalmente para o conceito da e-Revolução.

[CONTINUA]

1"Por isso, garota, façamos um pacto de não usar a highway para causar impacto." (Gessinger, H. "Infinita Highway". In: Longe Demais das Capitais. BMG/Ariola: 1987.

2Seixas, Raul. "Al Capone". In: Krig-Há, Bandolo!. EMI/1973.

3 http://www.academia.edu/2446594/e-Revolution_in_Kyrgyzstan

4 "Terrorista" inglês do século XVI (uma época na qual a palavra, obviamente, ainda não era conhecida), Fawkes pretendia explodir o Parlamento Britânico, matando o rei e todos os deputados, para facilitar a retomada do trono por uma dinastia católica.

Acabou a Era das Revoluções

Feliz era o tempo em que se podia gritar que “o povo unido jamais será vencido”. Não só porque foram inventadas centenas de maneiras de dividir o povo; cada uma apropriada para um tipo de indiferença, egoísmo ou medo que exista no mundo; mas também porque vencer o povo já não gera as mesmas reações de antes. Houve um tempo em que, pelo menos, as pessoas podiam contar que o mundo encararia com universal opróbrio aqueles que afogassem em sangue a insatisfação popular com seu governo.

Mas tudo mudou depois que os Estados Unidos empregaram todo tipo de chicanas jurídicas para tornar ilegal o protesto do movimento Occupy Wall Street e, posteriormente, com a bênção de um judiciário recheado de conservadores, soltar os cachorros sobre os pacíficos manifestantes de uma maneira não muito diferente da repressão chinesa contra a seita Falun Gong. O mundo foi poupado de cenas emblemáticas como o “tank man”, mas isso foi mais pela censura à cobertura jornalística mainstream.

Um pouco antes, a ida de multidões às ruas do Egito fora vista pelo mesmo governo americano como algo alvissareiro, os protestos dos jovens líbios, uma prova de coragem. Depois que o OWS foi dissipado por meio de gás lacrimogêneo, balas de borracha e bombas de efeito moral, curiosamente mudou o tom das manifestações ianques sobre os continuados protestos egípcios, surgiu uma cautela curiosa quanto aos protestos sírios. Esperava-se um silêncio ensurdecedor sobre outros protestos.

Agora que a Turquia está tendo o seu próprio movimento de ocupação popular, em protesto contra um regime que se torna cada vez mais autoritário, os Estados Unidos falaram baixo, por meio de um funcionário de terceiro escalão. Falaram apenas para cumprir o script, porque não poderiam falar muito alto. Não depois de reprimirem manifestações populares, criarem o maior sistema de espionagem interna em tempos de paz que jamais se teve notícia, não depois de manterem por mais de uma década uma prisão ilegal onde são mantidos sem julgamento cidadãos suspeitos de crimes cometidos em outras jurisdições.

A assustadora perda de legitimidade moral pelo governo dos Estados Unidos é algo que deveria causar grande preocupação. Muitas vezes, a autoridade moral é eficaz para prolongar a paz, para costurar acordos, para promover o bem comum. Mas na falta de qualquer autoridade moral, resta apenas a autoridade das armas, e é bem possível que estas tenham de ser usadas com cada vez mais frequência.

Com a falta desta autoridade moral, os Estados Unidos não servem mais de exemplo positivo para o mundo. Em verdade, os países de tendência autoritárias tendem a exatamente imitar o que os EUA fazem: reprimindo manifestações, como na Turquia, criando redes internas de espionagem, como na Rússia e no Irã, criando acusações sem fundamento contra opositores ideológicos, e outras formas mais insidiosas. Em vez de ensinarem ao mundo sua democracia, os Estados Unidos agora ensinam a destruir a democracia. Felizes éramos nós no tempo em que eles apenas eram hipócritas, e praticavam fora de suas fronteiras coisas diferentes do que faziam em casa: ainda podíamos olhar para dentro deles e ver virtudes imitáveis. Hoje as virtudes deles parecem bem menos significativas. Acabou a hipocrisia, porque no fundo eles já não diferem. Restou só o discurso, mas de belos discursos não se faz melhor o mundo.


Quando a Justiça Odeia

Não é nenhuma novidade mais que estamos vivendo um processo intenso de radicalização, com o terreno do centro sendo gradualmente comprimido pelos extremismos e com os rituais da democracia sendo estuprados em nome de interesses pessoais. Isto inclui os partidos, que planejam golpes ou eternização no poder, passa pelas instituições da sociedade civil, que frequentemente se fundam na defesa de privilégios e na construção de barreiras contra o outro, e pervade a sociedade como um todo, que começa a regurgitar episódios de ódio contra minorias raciais, ideológicas ou comportamentais.

Quando, porém, alguma voz nos tenta convencer de que não é tão grave assim a doença de nossa democracia, eis que uma voz rouca ecoa de dentro das cavernas, um promotor público utiliza o Facebook para mandar um recado à polícia de choque para que reprima com violência uma manifestação popular pois ele se encarregaria de arquivar o inquérito contra os responsáveis:

Alguém poderia avisar à tropa de choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial.
Petista de merda. Filhos da puta. Vão fazer protesto na puta que os pariu… Que saudades da época em que esse tipo de coisa era resolvida [sic] com borrachada nas costas dos medras…

O ódio é incompatível com a justiça, isto é algo que nem seria necessário dizer. Infelizmente, o Brasil não só é um país onde tem feito falta enfatizar o óbvio — como as noções básicas de cidadania, direitos humanos, justiça, dignidade etc. — como é um país onde dizer o óbvio parece cada vez mais causa de escândalo. Quando o rei está nu, para evitar o escândalo, é necessário reagir com toda radicalidade diante de quem ameace dizer isso. Por isso, no Brasil de hoje, quem diz o óbvio costuma ser atacado com mais força do quem expressa o absurdo.

O que este promotor de justiça disse é absurdo, mas muita gente aplaude. Aplaude porque o ódio está na moda, especialmente entre os simpatizantes de forças políticas que vem sendo deixadas para trás pelo trem da história. Almejam descarrilar o futuro e, se possível, empurrar tudo de volta para trás. O reacionarismo precisa de muito ódio e violência, porque não é possível explicar racionalmente às pessoas porque elas devem abrir mão de tudo que tornou sua vida melhor nos últimos dez ou vinte ou trinta anos. O reacionarismo precisa subjugar porque não consegue convencer. Ele precisa de uma tropa de choque, e de um promotor previamente comprometido a arquivar os inquéritos contra os policiais que aceitem matar aqueles de quem o promotor discorda.

Cada dia que passa nós damos um passo rumo ao abismo. Episódios como esse nos mostram que o fundo do poço moral tem porão. Que não existem limites para a falta de ética, de cidadania e de responsabilidade. Quando um membro do judiciário exibe total descompromisso com a Lei, e mesmo com os princípios que norteiam a Lei, cabe perguntar como podemos confiar nessa justiça. Nessa justiça sem freios e sem controle externo, onde a punição para um discurso de ódio como esse se limita a uma “aposentadoria”.

Havia uma antiga piada contada por um amigo meu, estudante de Direito, segundo a qual a diferença entre um juiz e um advogado é que o advogado apenas acha que é Deus. Só uma piada de advogado, claro, mas esse promotor leva tudo isso muito a sério. Ele se arroga o direito de decidir sobre a vida e a morte de pessoas que não conhece, apenas porque simpatizam com um partido (isso segundo sua percepção, pois não há provas de que os manifestantes seriam exclusiva ou mesmo majoritariamente “petistas”). Se algum dia, em um curso de direito, houver a necessidade de exemplificar o que é “injustiça”, basta exibir o print dessa postagem desse promotor, que violou a constituição e se tornou um criminoso ao se tornar mandante de assassinatos (o fato de tais assassinatos não terem sido cometidos não diminuiu o fato de que ele os ordenou).

A continuidade deste promotor em seu cargo, após isso, é um estupro ao direito constitucional e uma cuspida na cara da sociedade. Principalmente porque, se ficar claro que um membro do judiciário pode cometer tal temeridade impunemente, a perspectiva é que, cada vez mais, as vozes das cavernas ousem berrar na cara do povo, especialmente do povo “petista” (ou seja, aqueles a quem os reacionários acusam de ser petistas) que eles não têm direitos.

O ovo da serpente já está no ninho. Resta saber se vamos ser tolerantes contra  a intolerância ou seremos capazes de mostrar organização para resistir ao desmonte da democracia por aqueles que têm saudades do tempo em que podiam dar “borrachadas” em quem protestava.

A Classe Média Aprendeu a Matar

O recente latrocínio cometido com requintes de crueldade contra uma dentista em São Paulo, com a vítima sendo queimada viva porque tinha somente R$ 30,00 em sua conta bancária, vem suscitando muito questionamento sobre os motivos do crime. Existe uma corrente sociológica, muito significativa no lado esquerdo do espectro político, segundo a qual o crime é uma reação dos excluídos a uma situação opressiva de miséria. Enquanto isso, no lado direito, a violência é vista como uma falha de caráter, um pecado cometido em plena consciência, por alguém dotado de pleno livre arbítrio. A solução proposta pelos primeiros é intensificar a redistribuição de renda, a dos segundos é prender e punir (coisas diferentes no jargão direitista, que vê a cadeia como uma espécie de colônia de férias).

Acredito que ambos os lados estão errados, embora não completamente. A verdade, como sempre, é complexa, fica no meio. Não é correto dizer que a causa da violência é exclusivamente a miséria econômica, ou teríamos mais crimes em países mais pobres (como a Índia e a Bolívia) e não é correto dizer que o criminoso faz uso de seu livre arbítrio, ignorando os condicionamentos a que somos submetidos.

Bem, eu li em algum lugar, talvez dentro de minha própria mente falha e pervertida, que a verdadeira causa do crime é a eterna insatisfação do ser humano, resultante de sua desconexão com os valores da família/tribo/coletividade/etc. em uma situação de injustiça.


Funcionaria assim: vivemos em uma sociedade que nos julga pelo que temos, não pelo que somos, e ao mesmo tempo não nos oferece oportunidades iguais de adquirirmos aquilo que a sociedade valoriza. Então, sabemos que “ficaremos doces” se tivermos um Camaro amarelo, mas esse só está acessível a uns poucos. Aos demais sobra o ressentimento de, por exemplo, ver as garotas bonitas dando para caras ricos (ou filhinhos de papai rico) enquanto eles chupam o dedo. Mas a falta de acesso ao Camaro amarelo não é, ao contrário dos estúpidos libertários acham, resultado da discrepância do esforço individual.

Em primeiro lugar, porque a construção de uma fortuna costuma ser um processo que dura gerações: os Rotschild, por exemplo, não se tornaram o que se tornaram em cinco ou dez anos de “trabalho duro”. Essa acumulação rápida só acontece quando alguém tem muita sorte de estar no lugar certo e na hora certa (o que é necessariamente raro). Se a acumulação é um processo que dura gerações, a “culpa” dos pobres por sua miséria acaba sendo uma espécie de “carma” e o discurso moral do esforço pessoal se desfaz no ar.

Em segundo lugar, porque, ainda que originalmente todos estivessem no mesmo nível social e possuidores das mesmas oportunidades, as discrepâncias surgidas ao longo das gerações colocariam em diferentes patamares de oportunidade os descendentes das gerações anteriores. E então, essas diferenças pré-existentes criariam uma situação injusta que permitiria que idiotas preguiçosos nascidos em famílias ricas gozassem de um padrão de vida muito superior ao de espertos trabalhadores nascidos em famílias pobres, simplesmente porque o pai do primeiro fora esperto e o do segundo, não.

Esse caráter cármico da miséria é o que torna o discurso libertário do esforço individual uma crença irracional, essencialmente irracional, a ponto de ser religiosa fundamentalista (fundamentalista em relação à crença na perfeição do “mercado”, esta entidade abstrata que é mais importante que pessoas, na visão libertária).

Porém, em um mundo reverso, no qual as pessoas fossem julgadas pelo que são, e não pelo que têm, ainda existiria injustiça equivalente. Porque pessoas trabalhadoras e competentes, que se esforçaram para ganhar muito dinheiro, ainda seriam vistas de forma inferior a outras que tivessem talentos, beleza, ou outras coisas que não podem exatamente ser ganhadas. E esta desigualdade inerente seria ainda pior do que a existente em nossa sociedade do “ter em vez de ser” porque aquilo que somos é algo muitas vezes inato, ou fruto de processos longos, sobre os quais não temos nenhum controle. Como explicar para um garoto que ele é tido como socialmente inferior por ser menos bonito ou menos inteligente? Na minha opinião, não há diferença entre essa explicação e alguma outra, segundo a qual a inferioridade resultaria da etnia ou  da orientação sexual. Ambos os extremos são errados. Nem o ter e nem o ser deveriam determinar parâmetros para a injustiça. Como diziam os romanos, a virtude está no meio.

Há que se dizer, também, que a carência é algo relativo: alguns carecem de pão, outros de colares de diamantes. Alguns se sentem o máximo por comerem num restaurante junto com a classe média, outros invejam o Rolls-Royce do vizinho mesmo tendo um Camaro amarelo na própria garagem. A insatisfação não é racional. Por isso o crime não está restrito aos pobres, que “invejam” aos ricos e por isso votam em candidatos “comunistas” que os expropriarão (outra boçalidade libertária), mas se propaga por toda a sociedade, mudando apenas o tipo de crime. Certamente uma pessoa inculta tenderá a compensar suas carências de forma violenta, cometendo um latrocínio, enquanto outra mais culta as compensará de forma não violenta, cometendo uma fraude. Mas a imprensa só enxerga sangue, não enxerga sangrias contábeis. Por isso hediondo é o estupro da patricinha pelo menino do morro, mas o desvio por um político ou empresário de milhões de reais que seriam destinados à habitação popular é tratado como um pecadilho.

Existe um problema, também, com os sistemas de correção desta injustiça, quando eles absolutizam um lado. Como a injustiça é inerente a qualquer sistema fundamentalista (de mercado ou de valores) e o equilíbrio do "meio" é difícil, o resultante é que todas as sociedades serão injustas em certa medida, e o que manterá a paz da sociedade será uma ideologia que ensine as pessoas a se conformarem com as diferenças. Para que isso funcione é preciso que as diferenças não sejam grandes demais (para que as pessoas consigam desconsiderá-las como exceções ou mesmo nem enxergá-las) e que as ideologias sejam razoavelmente igualitárias (seja no lado social democrata, seja no lado cristão ou budista ou sei lá o que). É preciso também que exista uma forma de controle da própria sociedade sobre si, através das instituições espontâneas, como a família, os amigos, os clubes, os grupos etc. Instituições que dependem de um nível de interrelacionamento entre as pessoas que parece impossível no mundo superpopuloso e egoísta em que vivemos.

Então, a causa da violência é complexa, mas evidente. Temos pessoas frustradas por suas carências (absolutas ou relativas), vivendo em um mundo no qual não têm de prestar contas a ninguém e, por isso, acham que podem fazer tudo impunemente. Isso é explosivo porque elas tentarão suprir suas carências, materiais ou afetivas, rompendo as regras do convívio social. Isso funciona em todas as sociedades, variando apenas a frequência. O garoto que estupra a patricinha está, muitas vezes, se rebelando contra  a falta de oportunidades reprodutivas que a sociedade lhe oferece: evolutivamente falando, é melhor engravidá-la hoje do que trabalhar uma vida para, talvez, tentar fazer isso depois de velho. O instintos humanos não conhecem o conceito de futuro.

Se quisermos reduzir a violência, precisamos reduzir a pressão sobre o indivíduo, mantida pela desigualdade (mesmo que uma desigualdade fútil entre marcas de carro), aumentar a coesão social e diminuir a sensação de liberdade individual que existe nas grandes metrópoles. Precisamos de uma ideologia que pregue a harmonia e a solidariedade entre os indivíduos, e não o direito dos vencedores a obterem supremacia sobre os vencidos. Precisamos diminuir a escala das instâncias de poder, fazendo a sociedade funcionar a partir da base, e não a partir de cima. Eleger os líderes comunitários antes de elegermos o prefeito. Substituir a partidarização em larga escala, que reduz as ideologias a marcas de sabão, pela organização das pessoas em seus locais de trabalho, em suas ruas, em suas famílias, em suas escolas. Dirão que proponho uma “sovietização”. Não tenho medo da palavra. A ideia essencial era boa, não se pode culpar uma ideia por ter sido mal interpretada ou mal implementada.

Já que Castro Alves não Está Vivo para Defender-se

Recente artigo de autoria da “psicóloga cristã” Marisa Lobo publicado no portal GospelMais procurou diminuir o peso das bobagens ditas a respeito da África pelo pastor e dublê de deputado Marco Feliciano. Já que as declarações do indivíduo são indefensáveis perante o bom senso (embora não perante a justiça que, neste país, tem apenas uma relação remota com tal conceito), é de se esperar que a autora tente encontrar autoridades para referendá-las. De preferência autoridades mortas, que não reclamarão de serem alistadas como guarda costas das ideias tramontanas do tartaruga.1

Buscar autoridades para apoiar algo que é uma bobagem óbvia não diminui o tamanho do erro do que foi dito, ainda mais quando, para justificar uma peruada dita a respeito de um tema científico (no caso também teológico) você evoca uma autoridade literária. Mas fica ainda mais injusto quando um pobre poeta do século XIX é sequestrado pelo discurso de intolerância, e justamente um poeta que dedicou sua vida a combater justamente o obscurantismo e o racismo! Que buscassem algum outro poeta eu não me importaria, pois houve vários outros, filhos de seu tempo, que não conseguiram elevar-se acima da turba. Mas Castro Alves!

Como pode a criatura evocar para a defesa de alguém que dá declarações racistas justamente os versos do poeta baiano, maior (talvez único grande) de nossos abolicionistas e autor de uma obra imortal justamente porque isenta dos preconceitos comuns ao século em que viveu? Um homem bem informado, à frente de seu tempo, que afrontou com sua vida e seu verso uma sociedade cruel, racista e conservadora, em nome de seus ideias e de seus amores.

Pode parecer inacreditável, mas a autora da peça de excremento linkada acima, tenta defender o discurso racista  do deputado argumentando que as mesmas coisas que Feliciano declarou, em momentos de verborreia desatada pelo deslumbramento dos holofotes, usando, principalmente, Castro Alves:

A literatura negra, e poemas como Vozes D’África, do Livro “Navio Negreiro” do poeta abolicionista Castro Alves (1896) provam que Marco Feliciano não é racista, apenas um afrodescendente que como outros poetas, descreveu sua história.

Uma tal declaração revela um grau tão profundo de ignorância generalizada sobre coisas que a pessoa obviamente deve ter estudado, que a única explicação possível é a da dissonância cognitiva: de fato Marisa sabe muito bem do que está falando, mas por razões afetivas e religiosas ela desenvolve teorias estapafúrdias para manter sob controle a constatação do absurdo. Em primeiro lugar, é uma bobagem (para ser educado) evocar uma obra literária, ainda mais um poema lírico, como autoridade em História. Mesmo que houvesse algum valor de conteúdo nessa obra, tal valor estaria condicionado a uma série de fatores interpretativos, os mesmos que nos dizem que nenhum documento é por si bastante para explicar um fato.

O erro metodológico cometido pela afirmativa acima citada é chamado de “abordagem reducionista” e já foi devidamente exorcizado pelos historiadores há mais de oitenta anos, exorcismo que começou com o marxismo e se completou (com louvor) com o desenvolvimento da “História das Mentalidades”. Segundo a abordagem positivista (que já era rejeitada no século XVIII por nomes como Edward Gibbon) os documentos contêm informações sobre fatos, e nenhum conhecimento que não seja documentado pode ser considerado como fato. Disso resulta um peso excessivo ao que está escrito, levando, nos casos de demência intelectual mais agudos, a conclusões reducionistas, como a de que os autores de documentos são sinceros até prova em contrário. Os historiadores mais racionais, desde bem antes de Marx, já tinham por princípio que os documentos devem ser confrontados. Uma consequência do destronamento da abordagem reducionista foi o início dos estudos históricos sobre os povos iletrados e a bem aventurada superação do uso da invenção da escrita como “marco inicial” da História.

Mas Marisa vai mais longe, ao afirmar que:

Citar a história da civilização humana em nenhum momento poderia ser motivo para atribuir a uma pessoa o rótulo de racista para disfarçar outros interesses sórdidos.

Obviamente Marisa considera a Bíblia um relato histórico inquestionável e que, portanto, qualquer coisa ali escrita é parte da história da civilização humana. Somente sob o prisma de um tratamento especial do texto bíblico esta afirmativa é aceitável pois, sem tal condicionante, nenhum documento, por mais alheio à realidade que seja, pode ser questionado em seu valor verdade, nem mesmo “Os Protocolos dos Sábios de Sião” (comprovadamente falsificado, inclusive com as confissões dos autores e com a “árvore genealógica” dos textos e ideias) ou “O Livro de Mórmom”.

Faço esta afirmativa para deixar bem claro a falácia em que Marisa incorre, ao considerar que um texto de sua preferência contém a verdade, enquanto outros textos discordantes não a contêm. As teses levantadas pela autora só fazem sentido se admitirmos previamente que a Bíblia tem tal valor. Mas isto é uma falácia formal (petitio principii), uma vez que o valor de uma afirmativa não pode ser condicionado pela prévia aceitação de outra afirmativa não provada.

Mas o mais engraçado dos efeitos colaterais do argumento é que a legitimação de Castro Alves como fonte histórica traz de contrabando vários fatores altamente problemáticos para o argumento de Marisa Lobo em defesa de Feliciano. Em primeiro lugar, o poeta baiano era, tal como seu ídolo Lord Byron, um ateu declarado — que só não se esforçava mais para exibir sua falta de fé porque a sociedade da época não permitia. Castro Alves viveu maritalmente com uma atriz de teatro (profissão que tinha, na época, um status equivalente ao de meretriz) mais velha e divorciada, um acinte para a sociedade de seu tempo, quase equivalente ao que o comportamento homossexual é para a sociedade de hoje. Além disso, em mais de um momento, usou seus versos para propor a abolição das religiões.

Mas o mais curioso é que, pelas teses aventadas pela psicóloga e dublê de crítica literária, Castro Alves deveria corroborar a origem bíblica da maldição africana, mas não é isso que ele faz. Ou Marisa nunca leu Castro Alves (provável, visto que a leitura das obras do poeta baiano é altamente salutar para o intelecto e o bom gosto) ou leu e não conseguiu enxergar, logo na segunda estrofe (para que não diga como desculpa que é um trechinho perdido lá no meio), que o poeta vincula a suposta maldição da África à mitologia grega:

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé!…
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé…

Não creio que Marisa Lobo seja devota dos deuses olímpicos. Mas, mesmo sem ser, ela deveria ter percebido, em uma leitura mais apressada, que Castro Alves, longe de aludir a uma maldição vergonhosa que pesa sobre a África, está, de fato, sugerindo que o continente sofre uma vingança ignominiosa da divindade por algo que fez de bom ao mundo.

Como sabem os que estudaram mitologia, Prometeu roubou dos deuses o fogo sagrado e ensinou aos homens o seu segredo. De posse do fogo os homens deixaram de ser animais indefesos perante a natureza (governada pelos deuses). Por causa disso, Zeus acorrentou Prometeu nas montanhas do Cáucaso e enviava toda semana a sua águia de estimação para devorar o fígado do herói. Desta forma, o benfeitor original da humanidade sofreu por milhares de anos (até ser libertado por Héracles) injustamente.

Neste magnífico trecho, o poeta baiano compara a África injuriada à figura de Prometeu. Elogio maior não pode haver ao mais injustiçado dos continentes: aqui está implícito o reconhecimento do papel da África na História, não apenas como berço da humanidade, mas também de uma das mais antigas e importantes civilizações. Se o sofrimento dessa África prometeica é uma maldição divina, a divindade responsável é um ser de infinita escrotidão, e não de infinita bondade. E claramente esse deus inicialmente não é Jeová, mas Zeus.

Em outro trecho o poema finalmente alude à maldição de Cã, de uma forma porém incompatível com  a narrativa bíblica. Pois, na sequência dos fatos narrados pelo poema, somente depois que a África acolheu Cã foi que “a Ciência desertou do Egito”. Não faria sentido, se Deus queria amaldiçoar a África, primeiro permitir que Egito florescesse para depois destruí-lo.

Combinadas, as duas citações se anulam em termos de autoridade, pois fica evidente que são usadas meramente como ilustração mitológica, como figura de retórica para dar carne às ideias do poeta. 

Mais à frente Castro Alves fulmina o cristianismo de uma forma tão inapelável que eu não entendo como Marisa Lobo ousa citar Vozes d'África para legitimar suas agressões verbais contra os povos africanos:

Cristo! Embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal…


É isso mesmo que você está lendo, caro leitor, o poeta, em uma estrofe só, afirma que a morte de Cristo foi em vão e que o seu sangue não lavou da fronte africana a mancha de seu suposto pecado. Esta afirmação é extremamente contundente, para os fins da argumentação da autora desse texto, porque havia diversos reinos cristianizados na África e eles não foram poupados do tráfico negreiro. Notadamente o Reino do Congo e a Abissínia. Se a razão das mazelas africanas estivesse em uma maldição “lavável” no sangue de Cristo, a Etiópia e a Eritreia, herdeiras da antiga Abissínia, deveriam ser países bem superiores em “bem aventurança” se comparados aos seus paupérrimos vizinhos. Na verdade, muito pelo contrário, os países menos miseráveis do continente são os de religião islâmica. Talvez Maomé tenha sido melhor nesse negócio de lavar maldições mitológicas…

A verdade é que o poeta, como legítimo ateu, não recorre à narrativa bíblica senão como uma cor mitológica para aumentar a expressividade de seu texto. E faz questão de deixar isso bem claro quando faz sua alusão a Cã ser precedida de outra alusão ao mito de Prometeu: são só dois mitos utilizados com finalidade alegórica, retórica, poética. Ver neles mais do que isso é simplesmente ignorância do que seja literatura (e nem vou falar de outras demonstrações de ignorância despejadas pela dita cuja).

Mas foi importante eu ter começado essa dissertação sobre a argumentação de Marisa Lobo porque me deu a oportunidade de encontrar, na leitura dOs Escravos diversos outros trechos que talvez a autora devesse ter lido, para construir sua tese de que o poeta baiano corrobora as lendas bíblicas. Porém, muito mais do que isso, os valores almejados pelo poeta, com os quais certamente concordo. Valores expressos em algumas das últimas estrofes do poema O Século, que começa com uma longa e desanimadora análise da política internacional da época e termina convocando os povos a um programa que em nada se assemelha com o reacionarismo obscurantista de certos setores da direita religiosa:

E vós, arcas do futuro,
Crisálidas do porvir,
Quando vosso braço ousado
Legislações construir,
Levantai um templo novo,
Porém não que esmague o povo,
Mas lhe seja o pedestal.
Que ao menino dê-se a escola,
Ao veterano — uma esmola...
A todos — luz e fanal!


Luz!... sim; que a criança é uma ave,
Cujo porvir tendes vós;
No sol — é uma águia arrojada,
Na sombra — um mocho feroz.
Libertai tribunas, prelos...
São fracos, mesquinhos elos...
Não calqueis o povo-rei!
Que este mar d'almas e peitos,
Com as vagas de seus direitos,
Virá partir-vos a lei.


Quebre-se o cetro do Papa,
Faça-se dele — uma cruz!
A púrpura sirva ao povo
Pra cobrir os ombros nus,
Que aos gritos do Niagara
— Sem escravos, — Guanabara
Se eleve ao fulgor dos sóis!
Banhem-se em luz os prostíbulos,
E das lascas dos patíbulos
Erga-se a estátua aos heróis!


Além de ateu, nestes versos o poeta se mostra exatamente um comunista, ou seja, o tipo de gente mais indicado para uma religiosa fundamentalista ter como ídolo! Observem que o poeta prevê o fim da religião: Levantai um templo novo, / Porém não que esmague o povo, / Mas lhe seja o pedestal. Este templo não é um templo religioso (observe a curiosa conjunção adversativa “porém” sugerindo que os templos a que o leitor estava acostumado eram do tipo que, sim, esmagava o povo). Em lugar dela, o homem deveria cultuar a si mesmo e às suas realizações (pois os novos templos seriam pedestais do povo). O programa político de Castro Alves incluía educação para todos (Que ao menino dê-se a escola), um sistema público de previdência social (Ao veterano — uma esmola) e até mesmo um programa de renda mínima (A todos — luz e fanal!). Este último aspecto ecoa de modo curioso a máxima marxista (“de todos segundo sua capacidade, a todos segundo sua necessidade”).

Nestes versos o poeta também defende as liberdades de expressão e de imprensa (Libertai tribunas, prelos), afirma que todo o poder emana do povo (povo-rei) e profetiza a Revolução contra os governos que não se submeterem a tal reinado (Que este mar d'almas e peitos, / Com as vagas de seus direitos, / Virá partir-vos a lei.) Não apenas o poeta propõe a derrubada do poder temporal dos reis, ele vai além e propõe a abolição do poder político da igreja:  
Quebre-se o cetro do Papa. Esse poema é do tipo que faria os bolcheviques salivarem. Uma tradução em russo teria se tornado muito popular na União Soviética.

Em suma, se considerarmos a obra e a vida do poeta baiano, nada está mais distante do fundamentalismo racista que Marisa Lobo defende, nada é mais avesso ao reacionarismo do tipo de religião cristã a que ela adere.

1 Diz um antigo ditado que quando vemos uma tartaruga no alto de um poste podemos ter várias dúvidas: como vai descer, como se equilibra lá, quanto tempo vai permanecer ali, se vai sobreviver à queda etc. Mas podemos ter uma certeza: ela não subiu até lá sozinha, mas foi posta lá.

Direito de Escolha e Direito de Resistir

A ideologia da direita ensina que, diante de qualquer coisa errada,  devemos nos omitir ou então adotar uma saída individual. Um caso clássico é a programação da televisão: se acha ruim, troque de canal, mas não proteste, nem processe e nem tente enquadrar na lei. O povo nunca pode organizar-se para nada, pois isso seria “coletivismo”, “corporativismo”, “comunismo”. Anátema, enfim.

Acontece que a liberdade de escolha é uma ilusão, quando a escolha só pode se dar entre alternativas predeterminadas. Se eu só tenho dois ou três canais de televisão, eu não tenho escolha. Se eu só tenho quatro ou cinco marcas de carro, eu não tenho escolha. Escolha existe numa biblioteca, entre milhares de títulos. Não no supermercado, entre sete ou oito marcas, muitas vezes fabricadas por empresas relacionadas ou unidas em cartéis e oligopólios.

Muito mais importante que a liberdade de escolher é a liberdade de organizar-se para resistir às imposições do sistema. A resistência não tem por objetivo aumentar as opções, mas evitar que as opções existentes sejam abusivas. Não se trata de criar mais canais de televisão, todos reproduzindo o mesmo modelo de programação apelativa e emburrecedora, mas de impedir que a televisão abuse de sua liberdade de expressão para suprimir a verdade jornalística ou oferecer uma programação que não contribui para a cultura nacional. Você não é livre para escolher a quem servir, é livre quando não serve. Você não é livre para optar entre mentiras, é livre quando pode buscar a verdade.

Esse tipo de reação coletiva tem sido muito demonizado pelo ultra-liberalismo, a ponto de as pessoas começarem a aceitar a ideia de que são livres porque vivemos numa democracia representativa e podemos votar em quem quisermos. Ninguém percebe o jogo de cartas marcadas entre os partidos e a limitação das alternativas possíveis.

Se existem monopólios, duopólios e oligopólios econômicos; por que não existiriam na política também. Um sistema bipartidário, ou mesmo multipartidário, não é essencialmente diferente de um unipartidarismo a menos que funcione de forma diferente. Se os partidos estão mancomunados em torno de objetivos comuns e só divergem cosmeticamente para fins de propaganda, então funcionam como facções internas de um partido único. E se consideramos democrático um tal sistema, no qual os partidos tendem a um discurso único, temos de considerar democrático um sistema de partido único também. A conclusão é que a democracia não está na quantidade de partidos, mas na pluralidade de discursos e na praticabilidade de mudanças reais através do voto.

A essência desta praticabilidade depende, também, da liberdade do povo em organizar novos partidos se rejeitar o(s) existente(s). E essa liberdade só é materializada mesmo se esses partidos novos puderem disputar com os antigos de uma forma factível. Criar um partido e nunca conseguir acesso à urna, por exemplo, como é comum acontecer nos EUA, não é criar um partido. O partido só fica criado quando o povo toma conhecimento dele.

Em regimes bipartidários baseados em voto distrital (“first past the post”), como os EUA e a Grã Bretanha, é extremamente improvável que um novo partido consiga adquirir relevância porque em cada distrito somente o primeiro colocado obtém vagas. Isto gera distorções, muitas vezes o partido terceiro colocado em votos populares nem consegue eleger deputados, suprimindo um discurso que foi aceito por dez, vinte ou até trinta por cento do eleitorado.

Não é à toa que a direita lançou essa campanha pelo voto distrital, porque através dele é possível bloquear o surgimento de novos partidos e impedir discursos alternativos. Então, tecnicamente, tanto faz um partido único (como em Cuba) ou dois partidos protegidos contra novos entrantes (como nos EUA). O que importa é haver um bloqueio da representação popular. A democracia não está em números, mas na prática.

O Estelionato Eleitoral Praticado Pela Esquerda

A direita chama de populismo qualquer coisa que beneficie o povo: reforma educacional é populismo, corte de imposto é populismo, reforma agrária é populismo, concurso público é populismo, fazer escola é populismo, abrir estrada é populismo. Fica parecendo que a função do governo não é trazer benefício ao povo. Como a boca fala aquilo de que o coração está cheio, essas pessoas provavelmente acham que o governo existe para beneficiar uns poucos e para desviar dinheiro público para contas na Suíça. Quero crer, porém, que só uma minoria pensa assim: a maioria simplesmente não sabe para que serve um governo, e nem como ele pode chegar aos seus objetivos.

Digo que as pessoas acham errado beneficiar o povo porque praticamente todas as medidas tomadas positivas que foram tomadas em benefício do povo nos últimos vinte anos (sim, o Fernando Henrique também beneficiou o povo, mesmo que por descuido) foram criticadas como populistas. Todos os aumentos de salário mínimo acima da inflação foram tachados de populistas, a queda dos juros é populista, a expansão do financiamento imobiliário é populista, redução de impostos sobre bens de consumo é populista … e segue uma série imensa de adjetivações.

Esse populismo tem, claramente, um objetivo eleitoral. Como se fosse errado ter objetivos eleitorais. Vivemos em uma democracia, na qual os governantes precisam ser confirmados periodicamente, e não em uma monarquia vitalícia e hereditária que nunca presta contas de seus atos. Claro que o governo precisa mostrar serviço para que o povo reconheça seu valor e o reeleja. Está para nascer um governante que trabalhe incansavelmente para ser derrotado na eleição seguinte.

Claro que é errado ter objetivos exclusivamente eleitorais, priorizar medidas de curto prazo. Quem faz isso muitas vezes o faz por não ter a competência de capitalizar em cima de projetos de grande envergadura. Mas se for errado pensar em fazer o bem ao povo para colher votos então qual é o sentido que resta à política? Na minha opinião, esse tipo de crítica ao populismo revela é desprezo pela democracia.

Como se fosse errado pensar em beneficiar o cidadão comum, como se este não fosse cidadão. Como se fosse ideal beneficiar a poucos, em vez de beneficiar a muitos. Essas medidas são classificadas de estelionato eleitoral, como se fosse uma falha moral o povo votar em quem lhe atende, como se o certo fosse governar sem fazer nada pelo povo e esperar ter o seu voto.

No fundo isso mostra que existe uma incompatibilidade insanável entre o pensamento e o projeto da direita, de um lado, e as ferramentas e objetivos de uma democracia. A democracia é uma entidade essencialmente esquerdista, construída por revoluções e reivindicações. O direitista transita nela como quem enfrenta o inevitável, como quem é obrigado a morar na casa construída por seu inimigo.

As Redes Antissociais

Cada dia que passa me trombo com novas evidências de que as redes sociais têm, no fundo, um modus operandi diferente do ideal que é propalado pelos seus entusiastas. Com todos os seus defeitos, a Deep Web me parece ser o espaço realmente revolucionário, onde a promessa de liberdade anárquica da rede se cumpre. Redes sociais são cercadinhos mentais, que impedem o desenvolvimento do espírito crítico.

Não sei até que ponto isto é defeito colateral ou uma característica designada. As redes sociais, afinal, não foram criadas com finalidade política, mas meramente como uma espécie de correio galante. A única delas que ofereceu ferramentas realmente eficazes para o contraponto de ideias foi o Orkut, mas ele já não faz parte dos planos de ninguém.

Nas demais redes sociais, como o Facebook, a Diaspora, o Plus e outras, o que temos é uma organização que dificulta a localização e o compartilhamento de conteúdo — além de também dificultar a identificação e a contextualização de comentários. Os fóruns do Orkut não serão igualados porque o que se quer das redes sociais não é aquela interface favorável a discussões. Todas as redes atualmente em uso tornam cada usuário em ditador de seus perfis, redes e grupos. Respostas são ocultadas à medida em que novas respostas aparecem, de forma que a proposta inicial sempre está em evidência, mesmo tendo sido rebatida. E todos podem facilmente isolar-se de críticas deletando comentários desabonadores ou contestações eficientes.

A médio e longo prazo isso faz com que as redes sociais, em vez de ágoras ruidosas onde os diferentes pensamentos se contrapõem e pessoas de todas as opiniões argumentam entre si, acabem como feudos de opiniões não contestadas. Os usuários podem permanecer longos períodos de tempo lendo apenas aquilo que lhes interessa, sem nunca se chocarem frontalmente com o contradito. Não importa que uma opinião se embase em preconceitos e ignorância, controlando a capacidade alheia de questionar os preconceitos e de informar os ignorantes, cria-se a impressão de que não existe resposta para aquilo que até as pedras estariam respondendo. E claro, isso fanatiza e radicaliza as opiniões, em ambos os extremos do espectro político.

Hoje tive um exemplo de como funciona isso. Um amigo meu publicou um artigo insano sobre o bloqueio econômico americano a Cuba com uma conclusão imensamente inepta: de que Cuba usa o bloqueio para ocultar sua deficiência econômica crônica, causada pelas contradições internas do socialismo, e que o bloqueio não é a causa das agruras do povo cubano porque os EUA não são os únicos fornecedores dos produtos que faltam na ilha.

O nível de primitivismo, de ignorância e de falta de inteligência nesta proposição é tão grande que é até difícil ser educado em uma resposta. Mesmo porque, quando você questiona um idiota ele sempre reage mal, porque qualquer questionamento válido expõe que ele é um idiota.

Todas estas proposições já foram suficientemente desmontadas por gente como Salim Lamrani, em sua famosa entrevista com Yoani Sánchez, mas o controle do contraponto, possibilitado pelas redes sociais, faz com que ideias estúpidas continuem sendo difundidas, simplesmente porque quem lê esses relinchos não encontra reações.

Para que o meu leitor entenda o tamanho da bestagem que foi dita pelo meu «amigo» facebookiano, vou expor a coisa em argumentos simples, que sequer necessitam de pesquisa, apenas de lógica elementar. Infelizmente esses argumentos não serão lidos por direitistas ou por apoiadores do bloqueio. Essa gente acredita que eu sou um idiota porque penso diferente, e não virão aqui ler o meu artigo, diferente de mim, que frequentemente leio artigos deles.

Primeiro o, ehem, «argumento» ignora que o bloqueio econômico não impede apenas a importação do que falta em Cuba, mas também a exportação do que lá se produz. Sendo os EUA o maior mercado consumidor do mundo, e estando tão próximo, logicamente o bloqueio nega a Cuba um mercado fácil e próximo para os seus produtos. Existe aí um segundo fator importante, especialmente durante a Guerra Fria: a economia turística cubana, que era toda focada em turistas americanos, praticamente deixou de existir porque os novos parceiros econômicos socialistas não faziam turismo. Somente a perda desta indústria já trouxe um prejuízo imenso à ilha. Quando os cubanos deram um jeito de substituir os turistas americanos por outros, os americanos deram jeito de criar novos boicotes e bloqueios.

Segundo que, se o bloqueio fosse ineficaz, como dizem os direitistas, se ele não causasse as dificuldades econômicas de Cuba,  não haveria necessidade de mantê-lo. Se ele apenas fornecesse ao governo cubano uma desculpa para sua incompetência, como dizem, então os EUA estariam de fato ajudando a manter no poder a ditadura dos Castro. Essa parte do argumento é mais controversa porque, de fato, bloqueios são pouco eficazes para derrubar regimes. As sanções econômicas contra a África do Sul, o Iraque e, mais recentemente, o Irã, não deram grandes resultados. As odiosas ditaduras dos dois primeiros desses países acabaram, respectivamente, pela exaustão de sua capacidade militar e pela invasão americana. Os bloqueios só serviram para criar dificuldades relativamente pequenas, no caso sul africano, ou para matar crianças de fome e doenças evitáveis, no caso iraquiano. Então eu acredito que o bloqueio funcione para causar o caos, falhe em remover o regime, mas seja mantido pelos EUA por uma questão de mero orgulho.

Mas a escala do bloqueio é também controversa. Segundo o meu «amigo» facebookiano, se os revolucionários americanos odeiam tanto os ianques, não deveriam procurar comércio com eles, mas com outros países. Esta frase é, por si, idiota. Acredito que ninguém em Cuba odeie «os americanos». Alguns certamente odeiam o imperialismo americano, mas odiar as pessoas nascidas no Estados Unidos é outra coisa. Ainda que o governo de Cuba tenha suas diferenças com o governo dos Estados Unidos. Então seria possível algum nível de comércio entre os dois países, empresas americanas vendendo para pessoas cubanas, pessoas americanas comprando de empresas cubanas, pessoas de ambos os lados visitando turisticamente o outro etc. Nada disso impediria a pureza ideologica de ambos os regimes. Não custa lembrar que os EUA tinham comércio com as nações socialistas durante a guerra fria.

Mesmo supondo, porém, que o ódio aos «americanos» devesse se traduzir num boicote recíproco e que, por pureza ideológica, Cuba devesse procurar comprar e vender de outros governos e povos, ainda assim o bloqueio é monstruoso porque desde a Lei Helms-Buron, de 1992, qualquer empresa que venda a Cuba pode ser proibida de vender aos EUA, na prática obrigando-as a optar entre o mercado americano e o cubano. Isso não inclui só empresas americanas, ou filiais de multinacionais americanas, mas até empresas estrangeiras. É verdade que esta lei tem sido implementada de forma seletiva (não me consta que os EUA tenham deixado de negociar com a PDVSA ou  com a PEMEX), mas ela segue como um fantasma para quem pretenda vender a Cuba.

Todos estes dados aqui transcritos foram informados ao meu amigo, com a recomendação de que pesquisasse sobre o assunto e não repassasse informações erradas. O efeito de minha intervenção foi ver meus comentários excluídos, logo depois fui verbalmente agredido, na base do «este é o meu perfil e eu posto o que quero, vá defender a ditadura cubana noutro chiqueiro» e não me restou alternativa senão excluir a amizade. Porque uma pessoa que quer me dizer coisas erradas, mas não quer ouvir minha resposta, é alguém que eu não quero ouvir mais.

E este desfecho me abriu os olhos para o modo como funcionam estas redes sociais, como contribuem para reforçar os preconceitos e a desinformação. Os leitores do meu «amigo» que não viram minhas intervenções antes de serem apagadas terão a impressão de que ninguém consegue contestar os «dados» e as conclusões dele, apesar de serem fáceis de desmontar. Mesmo alguns que viram, como já estão «vacinados» contra essa «doença esquerdista», devem ter quebrado paus no ouvido e seguido com a cantilena.

E no fim das contas, por um medida de honestidade, preciso admitir que eu mesmo, às vezes, resvalo nesse tipo de atitude. O que me leva a concluir que todos os lados estão sendo infantilizados pelas redes sociais, que não funcionam como ágoras, mas como clubinhos. Que não estimulam o livre debate de ideias, mas as miúdas conspirações isoladas entre si.