A Argumentação Fascista

Chamo de “argumentação fascista” aquele estilo de debater que emprega o máximo artifício, para obter o maior efeito possível sobre o leitor. O argumentador fascista não quer que o leitor entenda o ponto, mas que capitule diante das estratégias argumentativas empregadas. Se no mundo real o fascista emprega a violência direta como meio para chegar aos seus objetivos, no mundo virtual transferirá um mesmo estilo ao seu texto, recorrendo a todo tipo de agressão e minimizando a sofisticação intelectual do texto.

A argumentação fascista é, então, uma forma de violência gráfico-verbal que tem por meta subjugar o leitor, em vez de convencê-lo. Existem várias formas de se argumentar de uma maneira fascista:

Parede de texto

A prolixidade pode empregada para pôr o leitor em uma situação de inferioridade intelectual aparente. Se não consegue compreender o texto, pela sua extensão e sua aridez, não conseguirá rebatê-lo eficientemente. A falha logo será usada pelo argumentador como uma “prova” de que o seu oponente não possui estatura intelectual suficiente para o debate, desacreditando-o sem que suas ideias sejam ouvidas no contexto.

Violência verbal

Sempre que o texto emprega de uma forma constante e repetitiva uma agressividade que parece gratuita, podemos ter certeza de que isto não é acaso. Os palavrões, desqualificações e ironias; tudo não passa de bullying verbal para intimidar debatedores. Alguns sentem receio porque são atingidos em sua autoestima ou se identificam com os rótulos usados para desqualificá-los. Por exemplo: o emprego de ataques pessoas indiscriminados contra pessoas que possivelmente tenham certas opiniões é uma forma de desestimular que interfiram (“todo mundo que pensa diferente é viado”). O uso de rótulos é uma maneira eficaz de esvaziar posições contrárias (“você só diz isso porque é comunista”).

Maniqueísmo

A prioridade da argumentação fascista, seja qual for o contexto, é a construção de consensos, em vez da busca pela verdade. O argumentador fascista busca, então, unir em torno de si os que já são simpáticos à sua causa. No passo seguinte ele coage os que pensam de forma semelhante, mas não idêntica, a abandonarem suas pequenas “heresias” e aderirem ao pensamento único. Por fim, tendo estabelecido um terreno seguro, o argumentador fascista é tentado a usar a força para silenciar posições diferentes e monopolizar o discurso. O processo todo se constrói com uma argumentação dualista de que “quem não está conosco é porque está contra nós”. Forçando o contraste, o fascista ressalta as identidades e suprime as nuanças.

Respostas prontas

Como diz o verso dos Engenheiros do Hawaii, na canção “Toda Forma de Poder”: o fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante fascinada. A cultura é a melhor arma contra o fascismo porque ela nos convence a não aceitar a fascinação do fácil. O fascismo pode ser, também, definido como um “facilismo”. O ódio do fascista à cultura é forte justamente porque a simplificação que o maniqueísmo oferece é desmascarada pelo conhecimento. Não é possível aceitar respostas fáceis quando você conhece a realidade em mais detalhes. Quem vê um arco íris não pode aceitar que o mundo seja preto-e-branco, mesmo que todas as construções visíveis tenham sido descoloridas. Então, quando um texto argumenta com excesso de repostas prontas e fáceis, podemos suspeitar que todas sejam falsas, ou em sua maioria.

Falsa autoridade

Citações são como calças, aqueles que fingem usar não podem enganar ninguém, a menos que se escondam. Quando você usa citações de maneira incorreta, basta que alguém bem informado leia, perceba a bestagem e poste um comentário. Então, se você só está engalanando o seu texto com citações para enganar ignorantes, precisará manter estrito controle sobre quem o lê e quem o comenta. Se o controle do primeiro tipo for menor (textos escritos já com a finalidade de compartilhar), então o controle do segundo tipo precisará ser exponencialmente maior. Textos contendo argumentação fascista geralmente são encontrados em blogues cujos comentários são controlados, fóruns onde a “fauna” é hostil, ou páginas que só aceitam reações via correio eletrônico.1

Um bom exemplo disso são os sites dos próceres da direita — Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho e os blogueiros da Veja. Na verdade, todo fórum da internet é um habitat potencial para a argumentação do tipo fascista, visto que agregam manadas de leitores cujo pensamento tende a coincidir com o divulgado localmente. O mesmo pode ser dito dos blogues, inclusive este. Então, é extremamente importante o leitor ter discernimento para não aceitar como autoritativo o que é apenas autoritário. Digo tudo isso para enfatizar que a presença de citações em um texto nada diz sobre seu embasamento. Quando você não checa as citações dadas, você aceita religiosamente o que está escrito. Mas quando você tenta checar, e percebe que todos os caminhos levam a lugar-nenhum, então pode se tranquilizar na certeza de que o texto emprega citações e referências apenas como uma forma de intimidar.

A Fascistização do conteúdo na internet

Tenho observado que essas técnicas de argumentação e arregimentação se tornaram comuns na internet. Empregam-na blogueiros de todos os matizes ideológicos (principalmente na direita, mas a esquerda não fica imune). Isso nos sugere que cada vez menos o conteúdo real da internet terá a capacidade de influenciar. Em vez disso, os blogues e sites se fetichizarão, valendo mais pela marca que vendem e pelas manchetes que divulgam do que pelos argumentos que realmente apresentam.

1 Um bom exemplo de como os fascistas fecham a porta para o questionamento pode ser visto ao vivo no blogue da “Universidade de Santa Catarina Conservadora”, onde um texto inacreditavelmente estúpido foi postado, mas ninguém pode comentar.

Sobre os Malefícios Mentais do “Anarcomiguxismo” (2)

Sendo o anarcomiguxismo um sistema de crenças essencialmente irracional, como demonstrado acima, a continuidade da crença depende da supressão do espírito crítico. Refiro-me a uma atitude receptiva em relação a conhecimentos obtidos de certa fonte (especialmente os artigos do Instituto Mises e os dados do Heritage Foundation, mas não somente) aliada à rejeição apriorística de informações obtidas de outras origens. Essa "endogamia" intelectual, na qual as ideias do indivíduo são alimentadas exclusivamente por textos que reforçam seus conceitos anteriores (pré-conceitos) produz uma baixa gradual do ceticismo, pois um texto é aceito como corroboração de outro, de forma recursiva, em um gradual afastamento em relação a qualquer capacidade de questionar.

Essa autorreferência do pensamento anarcomiguxo produz um descolamento da realidade tão profundo que somente aos olhos de quem está "de fora" é possível discernir o grau de absurdo. O "anarcomiguxismo" é, então, uma espécie de Cientologia econômica, cujos artigos que mencionam Xenu só são apresentados a quem já leu as obras mais básicas. Da mesma forma que a Cientologia não começa por pregar ao neófito que há bilhões de anos um vilão espacial transportou seus inimigos para a Terra a bordo de aviões DC-10 e os explodiu com bombas atômicas dentro de vulcões, os anarcomiguxos não começam explicando textos polêmicos, tais como:

  • A Ética da Liberdade (Murray Rothbard), em cujo capítulo XIV ele diz que os pais deveriam ter poder ilimitado sobre seus filhos --- inclusive podendo matá-los, vendê-los ou prostituí-los --- e que a educação infantil deveria ser facultativa.
  • Legalize Drunk Driving (Lew Rockwell), onde se argumenta que o Estado não tem o direito de, mesmo sob o pretexto de proteger a vida de outras pessoas, impedir que o proprietário de um veículo o dirija.
  • O Caminho da Servidão (Frederik Hayek), onde se argumenta que a adoção de medidas humanitárias e a concessão de direitos às massas produziriam o fim da liberdade (econômica, claro), criando ditaduras e destruindo o mundo…

A adesão a esse sistema de crenças enviesado e em franca contradição com o bom senso (Rockwell e Rothbard) ou com os fatos históricos observados (Hayek) tem sobre o "anarcomiguxo" o efeito de condicionar a sua própria interpretação da realidade, levando-o a agir de forma equivocada diante de situações que exijam uma leitura correta dos acontecimentos.

Um exemplo deste efeito "alucinógeno" do "anarcomiguxismo" sobre seus adeptos é o que está acontecendo com o Dâniel Fraga.

Dâniel é figurinha carimbada dos fóruns internéticos há muitos anos. Nunca foi muito certo da bola, tendendo a ter opiniões exacerbadas e uma reção meio infantil diante de contestações firmes. Certamente alguém com certo problema mal resolvido com autoridade, sei lá, talvez um complexo de Édipo.

Ele aderiu às ideias "anarcomiguxas" de uns dois ou três anos para cá. Pelo menos esse é o horizonte de tempo ao longo do qual eu me lembro de tê-lo visto discursando enfaticamente contra as maldades do Estado e as maravilhas das empresas e dos indivíduos. Seu canal no YouTube foi, durante este tempo todo, uma das maiores fontes de difusão do pensamento "anarcomiguxo". De fato, eu uso este termo, que não foi cunhado por mim, de forma a evocar aquilo que Fraga se tornou. Minha definição de "anarcomiguxo" é Daniel Fraga.

A fama lhe subiu à cabeça, embora não lhe tenha sido suficiente para subir de nível a mobília de seu quarto (que, ainda assim, parece mais organizado que o meu). Isso fez com que ele subisse de nível em suas críticas, adotando um tom cada vez mais destemido, belicoso até. Desenvolvou uma entortada de boca que sugere alguém que morde as palavras com raiva quando as diz, e expele seus argumentos com força e dor, como quem expele cálculos. Não sei se isso foi intencional, mas ele copiou de muitas formas os trejeitos de Olavo de Carvalho. A diferença é que Olavo se auto-exilou nos EUA, de onde pode dizer o que quiser sem riscos. Fraga ficou no Brasil, e aqui, como sabemos, não existe liberdade de expressão absoluta.

Eventualmente Fraga cometeu algo temerário: criticou um juiz. Juízes são bichos difíceis de criticar porque, apesar de todo o aperfeiçoamento de nossa democracia desde 1988, eles ainda são, praticamente, acima da lei. A pior coisa que pode acontecer a um cidadão é incorrer no desagrado de um juiz. Melhor blasfemar contra Deus do que contra um juiz, se é que vocês me entendem. Porque, mesmo que não façamos nada de errado, não é desejável o incômodo de um longo processo, com todo o seu custo monetário e o desgaste de imagem que isso traz. Dependendo das circunstâncias, um veredito de inocente pode ser totalmente irrelevante, pois o processo em si já foi uma punição cruel.

Mas Fraga fez pior: ele não se limitou a criticar o juiz, ele o fez de forma insultuosa, estendeu a crítica a outros juízes, e explicitou em sua crítica que o juiz seria "ignorante" (sic) do assunto sobre o qual decidiria.

Por mais que eu ache que a liberdade de expressão deva ser mais garantida neste país, eu não consigo achar certo o modo como Fraga se expressou. Um juiz é uma autoridade, e uma autoridade que não tem origem democrática, ainda. Isso quer dizer que existe certo protocolo envolvido. Você não pode simplesmente tratar um juiz como trata um vereador, que pode perder a próxima eleição e cuja autoridade é limitada por essa e outras circunstâncias. O juiz não está sujeito a eleições, ele não presta contas a ninguém, e ele tem suas prerrogativas de forma vitalícia.

Não que eu concorde com esse estado de coisas. Longe de mim. Mas essa é uma leitura realista da mundo real. Diante de uma leitura realistas, devemos tomar medidas realistas. O mundo real não é um fórum da internet, onde você se esconde atrás de um fake para xingar um desafeto. Em certo momento, Fraga se esqueceu de que não estava "na internet" quando fez uma crítica sobre um fato do mundo real. O juiz, ser material existente no mundo real, tomou conhecimento e agiu.

Imagino que Fraga, ao fazer sua crítica, não supôs que haveria consequências. Ele está acostumado a usar palavras muito fortes para se referir a seus desafetos e a políticos de quem discorda. A impunidade o fez ficar descuidado. Não entendeu que não podia simplesmente chamar um juiz de "ignorante" e que não tinha o direito (nesse caso eu afirmo que ele não tinha o direito) de falar rosnando para uma autoridade como ele falou.

Foi um erro grave, mas ainda não foi o mais grave de seus erros. Tamanho era o descolamento de Fraga em relação à realidade que, mesmo depois de notificado judicialmente, ele continuou a agir de forma tresloucada, sem levar a sério a situação em que se metera, tal como Josef K. Se amanhã ou depois tiver um triste fim, "como um cão", terá sido por sua própria falta de juízo. Se é que me entendem.

O juiz ofendido, aparentemente, acionou-o por calúnia e pediu segredo de justiça porque Fraga, tendo acesso ao YouTube, poderia fazer uma grande celeuma sobre o caso, prejudicando o processo. Entendo que o pedido de segredo de justiça foi desnecessário, mas eu entendo aonde o juiz quis chegar e não consigo discordar totalmente de sua interpretação. Opinião minha achar desnecessário. Mas absurdo o pedido não foi.

Porém "Fraga Man" --- o super herói anarcomiguxo, que combate o Malvado Estado usando sua camisa azul-água, seus óculos sem aro, seu roupeiro padrão cerejeira e seu teclado --- não se conformou em não poder noticiar o acontecido! Não, o povo precisa saber. E já que o juiz botou segredo de justiça, what would Misus do? Se ele tivesse simplesmente continuado a falar do caso, mesmo com ordem de manter segredo, já estaria fazendo uma cagada grande, mas o típico anarcomiguxo não se contenta com pouco: Fraga precisava fazer uma cagada gigantesca. Ele mesmo confessou em um vídeo que "na internet não existe segredo de justiça" e exibiu cópias impressas de documentos referentes ao processo.

Não tenho palavras para descrever o que pensei ao vê-lo dizer isso. Meu queixo caiu no chão e quicou. Se um documento está em segredo de justiça e ele o obteve através da internet, esse arquivo só pode ter sido obtido mediante uma invasão do sistema do TJ-SP, um acesso não autorizado. Espionagem, se é que vocês me entendem. Fraga confessou publicamente que obteve por meio ilegal (possivelmente criminoso) documentos que um juiz determinara serem segredo de justiça. Não apenas ele violou o segredo de justiça decretado, como fez questão de dizer que a violação ocorreu por um meio ilegal!

É difícil acreditar que uma ameba destas tenha inteligência normal. Na minha opinião, a partir do momento em que ele CONFESSOU ter violado o site do TJ-SP para obter os documentos, a punição de Fraga não apenas se tornou inevitável, mas é agora necessária. Em nome da democracia e da segurança das instituições, um sujeito que viola o site do Tribunal de Justiça para ter acesso a documentos sob segredo de justiça não pode ficar impune. Isso desmoraliza a própria justiça e achincalha a democracia.

Gostaria de deixar aqui bem claro que existem dois momentos separados nesse evento. O momento em que Fraga faz uso de sua liberdade de expressão para criticar um juiz e o momento em que ele se vangloria de apresentar documentos obtidos apesar do segredo de justiça.

No primeiro momento Daniel tem a minha solidariedade, embora eu ache que ele foi ingênuo, idiota e sem educação (coisa que ele normalmente é na internet). Acho que ele merecia uma reprimenda. Possivelmente o caso estava sendo tratado com exagero (talvez por vaidades envolvidas), mas ele precisava de um susto para "tomar tenência na vida". Para não ficar achando que pode falar o que quer, do jeito que quer, com qualquer pessoa. Para alguém que propõe a viabilidade dum "pacto de não agressão" entre os indivíduos numa sociedade sem Estado, Daniel é agressivo demais.

Mas eu não me solidarizo com Daniel Fraga pelo seu segundo ato. Se ele se sentia injustiçado, tinha todo o direito de se defender, constituir advogado, lançar uma campanha de solidariedade, apelar à Anistia Internacional, acender uma vela para Exu e outra para Jeová; fazer o que quisesse, DENTRO DA LEI. Recursos existem para isso mesmo. O processo é doloroso, a última coisa que eu quero é ficar inimigo de um juiz, mas chutar para o alto as leis e os costumes da democracia têm um custo maior.

Talvez Dâniel tenha querido brincar de desobediência civil. Leu demais Henry David Thoureau. Duvido que tenha pensado em se fazer de mártir da liberdade de expressão, ou do movimento libertário (t.c.c. "anarcomiguxo"). Talvez apenas não tenha se dado conta em tempo da necessidade de racionalidade para agir no mundo real, visto que no mundo virtual a sua persona se caracteriza pelo exercício contínuo da irracionalidade. Minha impressão é que Dâniel se tornou uma vítima da distorção cognitiva que o "anarcomiguxismo" provoca, incapacitando o indivíduo para compreender a realidade de forma útil.

E desta forma, Fraga se vê no meio desse redemoinho, totalmente despreparado para compreender esta cruel realidade, tão diferente do universo mágico em que viveu por tantos anos. Para tornar seu caso ainda mais trágico, ele não me parece ter os meios materiais para se defender eficazmente e a própria ideologia que defende parece ser incompatível com a solidariedade de outros como ele.

Diante destas circunstâncias, acho que a melhor saída é pedir que alguém da família requisite sua tutela por insanidade.

Sobre os Malefícios Mentais do “Anarcomiguxismo” (1)

Toda ideologia é uma prisão mental em termos: ela condiciona o indivíduo a pensar de determinada forma, e com tal intensidade que somente à custa de muito esforço ele consegue superar estas amarras invisíveis e pensar "fora da caixa".

Entretanto, a existência de ideologias é um fato dado, principalmente se considerarmos o termo em um sentido mais amplo, significando algo mais do que seu significado mais recorrente. Da inevitabilidade da ideologia surge uma necessidade imperiosa de selecionar as ideologias que nos convém abrigar. Há ideologias positivas e negativas, benéficas e prejudiciais, boas ou más. É um equívoco supor que exista inocência nas ideologias, equívoco tão grande, mas tão útil, que ele próprio se transmutou em uma ideologia, o apoliticismo, que serve para castrar grandes contigentes de potenciais pensadores, facilitando o trabalho da minoria que idealiza.

Não pretendo fazer aqui um apanhado de quais ideologias são boas ou más, primeiro porque confesso minha imensa ignorância em relação a uma ampla quantidade de assuntos e fatos que eu precisaria dominar para sequer começar a entender o tema em profundidade. Nunca li Adorno, Althusser, Harendt, Freud, etc. Minhas leituras são irregulares demais para que eu, simples sapateiro, me aventure além das sandálias.

Minha análise será muito mais humilde e restrita: pretendo demonstrar, de forma quase prosaica, que aquilo a que tenho chamado "anarcomiguxismo" é uma ideologia absurda e totalmente nociva não só ao conjunto da sociedade, mas, e nisso meu argumento talvez encontre apelo entre os adeptos, ao próprio indivíduo que a siga.

Em primeiro lugar, recuperar a definição usual de "anarcomiguxismo", uma ideologia de difícil classificação no espectro ideológico tradicional (esquerda/direita), trata-se de uma mistura em partes desiguais de uma série de conceitos de diversas origens, entre os quais:

  • Primazia do indivíduo sobre a sociedade, por intermédio de uma interpretação limitada de parte da filosofia de Nietzsche ("Humano, Demasiado Humano", "Gaia Ciência", "Assim Falava Zaratustra" e "Ecce Hommo", principalmente).
  • Valor moral do egoísmo, por intermédio de Ayn Rand, romancista americana de origem russa que tinha uma interpretação pervertida de outra parte da filosofia de Nietzsche.
  • Crença fundamentalista no capitalismo e rejeição enfática do socialismo, obtida por leituras de artigos publicados pelo Instituto Mises.
  • Ideal de autossuficiência não muito diferente do de comunidades religiosas ultramontanas, como os Amish, e a extrema direita sulista americana (Minutemen, Survivalists e o Militia Movement).
  • Aspiração anarquista ("AnCaps") ou secessionista ("Seasteading", "Charter Cities") em relação à sociedade existente.
  • Negação da solidariedade social, não apenas de forma ideológica ("moral") mas afirmando mesmo a impossibilidade desta.
  • Negação da intervenção estatal no contrato social, propondo ideias como "Pacto de Não Agressão" e "Autorregulamentação Privada".
  • Crenças dogmáticas sobre princípios econômicos ou relações sociais herdadas da teoria econômica pseudocientífica de Mises e Hayek, especialmente derivando através dos artigos inacreditáveis de Murray "Direito de Dirigir Bêbado e de Vender os Filhos" Rothbard.
  • Afirmativas behavioristas e mecanicistas sobre o comportamento humano.

Esse sistema ideológico abstruso e desconexo tem se popularizado muito nos últimos anos, especialmente entre a classe média brasileira, única do mundo que consome avidamente os artigos do Instituto Mises. Já disse anteriormente que há indícios de que a divulgação desta ideologia seja uma estratégia de "astroturfing" com o objetivo de "bagunçar o coreto" ideológico do Brasil neste momento em que o país começa a ensaiar passos mais ousados no cenário mundial (vide "A Conspiração Anarcomiguxa"). No Brasil, especificamente, o anarcomiguxismo se manifesta com características excepcionais:

  • Antipetismo histérico, como se o PT fosse o único partido corrupto (ou o mais corrupto) e como se ele fosse resposável pelos maiores atos de corrupção da história do Brasil. O antipetismo histérico se caracteriza por oposição automática a tudo que seja anunciado como polítia do governo, mesmo que atenda a reivindicações feitas anteriormente (vide a postura reacionária frente ao "Mais Médicos", criado em resposta às manifestações de junho).
  • Desprezo quase racista pela América Latina, especialmente Cuba, Venezuela, Paraguai e Bolívia.
  • Apoliticismo, enquanto os anarcomiguxos norte-americanos têm cerrado fileiras com o Partido Republicano, a ponto de causarem êxodo de republicanos tradicionais (o que pode criar condições para, finalmente, o surgimento de um terceiro partido nos EUA), os brasileiros insistem no discurso supra ou antipartidário.
  • Vínculos com o movimento "Anonymous", que tem atuado como um apêndice da CIA desde a prisão de seus principais líderes.

Quando tomamos os princípios e práticas do anarcomiguxismo sobre mesa e tentamos analisá-los de forma racional, é difícil imaginar que alguém consiga engolir um todo tão contraditório e sem sentido. De fato o é, pois raramente estas características acima elencadas pertencem a um indivíduo único. Aliás, parte do discurso dos anarcomiguxos é justalmente salientar as diferenças entre o "anarcomiguxismo padrão" e sua ideologia pessoal, como forma de negar a validade do rótulo. No entanto, mesmo rejeitando o termo pejorativo, existem indivíduos que, de forma espantosa, conseguem encarnar todos esses princípios e ainda não entrar em convulsão. Não citarei nomes. Analisemos inicialmente de que forma a difusão excessiva de ideias anarcomiguxas seria prejudicial à sociedade.

A difusão de uma ideologia individualista mina as estruturas democráticas de decisão, pois o individualista, por negar-se a cumprir o consenso da sociedade, ameça a legitimidade das instituições. Isto não é necessariamente ruim quando um número significativo de pessoas se opõe a instituições por discordâncias ideológicas ou humanitárias (caso dos que combatem ditaduras, lutam por mudanças na legislação etc.), mesmo que essa oposição seja por canais não institucionais. Mas quando o solapamento das instituições democráticas não se faz visando ao aperfeiçoamento da liberdade democrática, mas meramente em nome das idiossincrasias dos que não aceitam as decisões da maioria, temos uma situação na qual não há solução possível, a não ser a ruptura institucional, com consequencias violentas. Uma luta contra uma ditadura desagua numa democracia, uma exigência de mudança na legislação pode ser atendida com o atendimento do pleito; mas como solucionar um conflito social se os que protestam apenas não querem ser parte de um sistema democrático de decisão?

A crença fundamentalista no capitalismo, sob a vertente da escola austríaca, é um grave problema epistemológico, pois borra a fronteira entre ciência e pseudociência, especialmente na área de Humanas, onde tal fronteira é sempre acusada de já ser tênue. O enfraquecimento da área de Humanas é útil ao status quo, especialmente porque o conhecimento da história e da economia favorecem ao entendimento dos mecanismos de atraso e de dominação. Desacreditar a História é útil aos revisionistas, aos relativistas e à ultra-direita neoliberal. Não é por acaso que, apesar da crítica de Hayek e Mises aos fascismos, muitos neonazistas e neofascistas têm aderido a certas ideias "anarcomiguxas": o individualismo exacerbado favorece a tolerância a movimentos que seriam intoleráveis em uma sociedade democrática funcional e capaz de se defender de seus detratores.

O ideal de autossuficiência, da forma como difundido, emprega jargão e literatura herdados de movimentos ultradireitistas americanos, ligados a igrejas fundamentalistas, a Associação Nacional do Rifle e aos Baby Shakers. Trata-se do tipo de gente que produziu fenômenos religiosos como Jim Jones e David Koresh, a mesma gente que criava e implementava informalmente as chamadas "Leis Jim Crow" (costumes e práticas racistas no sul dos EUA). Isso abre espaço para a doutrinação de nossa juventude por textos de gente que inspirou terroristas como Timothy McVeigh. Imagino quantos até não estarão lendo o próprio Manifesto do Unabomber ou o livro de Anders Breivik, que dialoga com todo esse movimento.

As aspirações anarquistas ou autonomistas dos "anarcomiguxos" muitas vezes supoem a secessão de parte do território nacional (vide, novamente, o artigo sobre Charter Cities) ou a emigração para um tal território cedido por outro país. Na prática, isto quer dizer que os anarcomiguxos que esposam estas ideias são suscetíveis a apoiar a tomada de território nacional por potências estrangeiras se estiverem convencidos de que seus ideais serão implementados lá. Isto, obviamente, os coloca na direção de eventualmente se tornarem traidores da pátria (embora, espero, não "muito perto").

As proposições que fazem em relação ao convívio social, como substitutos da atuação "repressora" do Estado são quimeras irrealizáveis ou, pior, propostas absolutamente imorais (quando não ineficazes). A substituição da polícia e da justiça por serviços privados, como alguns propõem, é um retrocesso ao feudalismo ou, de forma mais caricata, ao coronelismo brasileiro (se bem que, no caso deste último, havia uma aparência de legalismo). A ideia de um pacto de não agressão para explicar como a sociedade se sustentaria sem a coação da lei é uma crença ingênua digna de um cristão embevecido. Por sua vez, a expectativa de que as empresas possam se autorregular, prescindindo da fiscalização pelo poder público e evitando mecanismos típicos do mercado imperfeito (como monopólios, oligopólios, trustes e cartéis), vai contra tudo que já se observou na história human.

O antipetismo histérico esteriliza o debate político, criando uma situação maniqueísta na qual o governo está sempre errado, ou até, em alguns casos, propostas se tornam erradas por serem encampadas pelo governo. O que conduz a um impasse, que impossibilita um debate racional. O recente caso da reação da classe médica às medidas do Ministério da Saúde é um claro exemplo de como a obsessão em bloquear a política do governo foi priorizada em detrimento de qualquer contribuição que as entidades de classe pudessem dar em relação ao tema.

O apoliticismo, combinado com o antipetismo, produz um esvaziamento do debate político, favorecendo discursos golpistas ou autoritários e criando falsas expectativas de um governo "forte" que "resolva" os dilemas, o tipo de caldo de cultura em que cresceu Mussolini.

Mas estes aspectos prejudiciais do "anarcomiguxismo" para a sociedade não serão compreendidos nem aceitos pelos simpatizantes de tais ideologias justamente porque eles raciocinam que eu, como esquerdista assumido, tenho por bandeira desqualificar ideias que vejo como "reacionários". Nisso eles têm certa razão. As críticas que faço são as críticas que um esquerdista pode fazer. Imagino que algumas delas, especialmente quanto ao potencial de traição pátria contido na ideologia "anarcomiguxa", também poderiam ser feitas por um direitista duro, mas em sua maioria elas estão, pelo menos, vazadas numa linguagem que trai conceitos exclusivos de esquerda. Existe algo, porém, que um esquerdista pode dize e que sensibilizará um "anarcomiguxo": uma demonstração de que este naipe de ideias é prejudicial ao indivíduo.

No próximo capítulo.

A Cultura da Periferia É uma Ideologia Conservadora

É difícil você pensar diferente, fora da caixa. São muitos os que estão dispostos a aplaudir aquilo que está na mídia, e formam uma claque ruidosa quando pensam que precisam defender seus ídolos.

Por isso meu conforto ao ver esta postagem, que ecoa um pensamento que eu já tenho há muito tempo e não se limita ao "Esquenta". Antes deste programa houve outros: houve o "Central da Periferia", houve outros de que nem me lembro.

Deixando de lado o aspecto do racismo, exemplarmente abordado pelo blogueiro, que praticamente esgotou o tema, enxergo nesse programa uma operação deliberada de lavagem cerebral das massas. A ideologia do "Esquenta" é a de que não é necessário adquirir cultura para produzir cultura. Em vez de valorizar quem demonstra habilidade artística, expõe e valoriza quem aceita inserir-se num papel predeterminado de palhaço.

Houve uma época em que existiu um diálogo entre a periferia e o centro. Os artistas renomados iam aos morros e subúrbios porque sabiam que encontrariam ali talentos populares de nível igual ao seu em qualidade, embora talvez não em vivência. Muitos entre os grandes compositores brasileiros de origem elitista se relacionaram com o popular e muitos compositores de origem popular galgaram um espaço de respeito na música brasileira por causa de seu talento, independente de formação musical ou mesmo de aparência.

Nessa época era bonito ver um jovem burguês como Noel Rosa inserir-se na Lapa e dali extrair inspiração para obras-primas (esquecidas) de nosso cancioneiro, ou o triunfo de homens de origem simples, como Paulinho da Viola, Jair Rodrigues, Cartola, Nélson Cavaquinho, Adoniram Barbosa ou Lupicínio Rodrigues. Era bacana ver Tom Jobim e Vinícius de Morais tratando de igual para igual um homem como Zé Keti ou uma mulher como a Elza Soares.

Mas o que o "Esquenta" nos mostra é um tipo de "artista" que não almeja emular a qualidade do centro, que não deseja mostrar seu valor, mas aceito como é. Aceitar o outro como ele é pode parecer bonito no papel, mas é uma atitude contraproducente na prática. Aceitar o outro sem ressalvas envolve não lhe indicar um caminho de melhora ou superação. Aceitar o outro como é assume, assim, um caráter de ultraconservadorismo.

E nesse sentido a "periferia" caricata que a Rede Globo mostra, mais do que senzala metafórica, é uma espécie de "reserva indígena" onde o atraso pitoresco existe e viceja, e não pode ser afetado pelo progresso, pois a periferia demanda ser aceita como é.