A Argumentação Fascista

Chamo de “argumentação fascista” aquele estilo de debater que emprega o máximo artifício, para obter o maior efeito possível sobre o leitor. O argumentador fascista não quer que o leitor entenda o ponto, mas que capitule diante das estratégias argumentativas empregadas. Se no mundo real o fascista emprega a violência direta como meio para chegar aos seus objetivos, no mundo virtual transferirá um mesmo estilo ao seu texto, recorrendo a todo tipo de agressão e minimizando a sofisticação intelectual do texto.

A argumentação fascista é, então, uma forma de violência gráfico-verbal que tem por meta subjugar o leitor, em vez de convencê-lo. Existem várias formas de se argumentar de uma maneira fascista:

Parede de texto

A prolixidade pode empregada para pôr o leitor em uma situação de inferioridade intelectual aparente. Se não consegue compreender o texto, pela sua extensão e sua aridez, não conseguirá rebatê-lo eficientemente. A falha logo será usada pelo argumentador como uma “prova” de que o seu oponente não possui estatura intelectual suficiente para o debate, desacreditando-o sem que suas ideias sejam ouvidas no contexto.

Violência verbal

Sempre que o texto emprega de uma forma constante e repetitiva uma agressividade que parece gratuita, podemos ter certeza de que isto não é acaso. Os palavrões, desqualificações e ironias; tudo não passa de bullying verbal para intimidar debatedores. Alguns sentem receio porque são atingidos em sua autoestima ou se identificam com os rótulos usados para desqualificá-los. Por exemplo: o emprego de ataques pessoas indiscriminados contra pessoas que possivelmente tenham certas opiniões é uma forma de desestimular que interfiram (“todo mundo que pensa diferente é viado”). O uso de rótulos é uma maneira eficaz de esvaziar posições contrárias (“você só diz isso porque é comunista”).

Maniqueísmo

A prioridade da argumentação fascista, seja qual for o contexto, é a construção de consensos, em vez da busca pela verdade. O argumentador fascista busca, então, unir em torno de si os que já são simpáticos à sua causa. No passo seguinte ele coage os que pensam de forma semelhante, mas não idêntica, a abandonarem suas pequenas “heresias” e aderirem ao pensamento único. Por fim, tendo estabelecido um terreno seguro, o argumentador fascista é tentado a usar a força para silenciar posições diferentes e monopolizar o discurso. O processo todo se constrói com uma argumentação dualista de que “quem não está conosco é porque está contra nós”. Forçando o contraste, o fascista ressalta as identidades e suprime as nuanças.

Respostas prontas

Como diz o verso dos Engenheiros do Hawaii, na canção “Toda Forma de Poder”: o fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante fascinada. A cultura é a melhor arma contra o fascismo porque ela nos convence a não aceitar a fascinação do fácil. O fascismo pode ser, também, definido como um “facilismo”. O ódio do fascista à cultura é forte justamente porque a simplificação que o maniqueísmo oferece é desmascarada pelo conhecimento. Não é possível aceitar respostas fáceis quando você conhece a realidade em mais detalhes. Quem vê um arco íris não pode aceitar que o mundo seja preto-e-branco, mesmo que todas as construções visíveis tenham sido descoloridas. Então, quando um texto argumenta com excesso de repostas prontas e fáceis, podemos suspeitar que todas sejam falsas, ou em sua maioria.

Falsa autoridade

Citações são como calças, aqueles que fingem usar não podem enganar ninguém, a menos que se escondam. Quando você usa citações de maneira incorreta, basta que alguém bem informado leia, perceba a bestagem e poste um comentário. Então, se você só está engalanando o seu texto com citações para enganar ignorantes, precisará manter estrito controle sobre quem o lê e quem o comenta. Se o controle do primeiro tipo for menor (textos escritos já com a finalidade de compartilhar), então o controle do segundo tipo precisará ser exponencialmente maior. Textos contendo argumentação fascista geralmente são encontrados em blogues cujos comentários são controlados, fóruns onde a “fauna” é hostil, ou páginas que só aceitam reações via correio eletrônico.1

Um bom exemplo disso são os sites dos próceres da direita — Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho e os blogueiros da Veja. Na verdade, todo fórum da internet é um habitat potencial para a argumentação do tipo fascista, visto que agregam manadas de leitores cujo pensamento tende a coincidir com o divulgado localmente. O mesmo pode ser dito dos blogues, inclusive este. Então, é extremamente importante o leitor ter discernimento para não aceitar como autoritativo o que é apenas autoritário. Digo tudo isso para enfatizar que a presença de citações em um texto nada diz sobre seu embasamento. Quando você não checa as citações dadas, você aceita religiosamente o que está escrito. Mas quando você tenta checar, e percebe que todos os caminhos levam a lugar-nenhum, então pode se tranquilizar na certeza de que o texto emprega citações e referências apenas como uma forma de intimidar.

A Fascistização do conteúdo na internet

Tenho observado que essas técnicas de argumentação e arregimentação se tornaram comuns na internet. Empregam-na blogueiros de todos os matizes ideológicos (principalmente na direita, mas a esquerda não fica imune). Isso nos sugere que cada vez menos o conteúdo real da internet terá a capacidade de influenciar. Em vez disso, os blogues e sites se fetichizarão, valendo mais pela marca que vendem e pelas manchetes que divulgam do que pelos argumentos que realmente apresentam.

1 Um bom exemplo de como os fascistas fecham a porta para o questionamento pode ser visto ao vivo no blogue da “Universidade de Santa Catarina Conservadora”, onde um texto inacreditavelmente estúpido foi postado, mas ninguém pode comentar.

Adeus Facebook: Está Chegando o Dia 31

Tenho uma promessa feita de excluir meu perfil do Facebook no dia 31 de maio de 2013. A promessa já era antiga, mas eu só a divulguei na própria rede social no final do mês passado porque, durante muito tempo, hesitei em tomar esta medida tão radical. Por mais que entendesse que a participação na rede social estava prejudicando vários aspectos de minha vida pessoal e profissional, eu ainda tinha alguma percepção de que continuar participando estava trazendo outros benefícios que compensavam. As últimas semanas, porém, foram me convencendo de que os lucros não são suficientes para cobrir os prejuízos.

Primeiro abandonei definitivamente as comunidades de debate, onde ideias diferentes permanentemente se chocam e nunca se chega a nenhum consenso. Depois abandonei as comunidades literárias, onde se fala de muita coisa (até de literatura) e nada se produz de interessante. Comecei a excluir amizades com pessoas que não conheço pessoalmente e com quem não interajo: essas pessoas podem ser testemunhas inúteis de coisas que digo e penso, ou  podem estar coletando informações contra mim. Se gostam, convido-as a assinarem os feeds de meus blogues. Até para a finalidade de futura sabotagem elas estarão melhor servidas.

Durante algum tempo mantive meu perfil ativo, comentando normalmente, testemunhando a árdua escalada do pensamento da maioria rumo ao trogloditismo. Pessoas que eu julgava esclarecidas aderindo a discursos de ódio, defendendo posições ultra-direitistas (ou ultra-esquerdistas, o que dá no mesmo). Pessoas que eu julgava bem informadas repetindo artigos superficiais, com acusações estúpidas. Pessoas que eu julgava sábias, cometendo erros crassos de julgamento.

São muitas as manifestações de boçalidade nas redes sociais. Desde o ódio imbecil contra o Brasil, expresso numa espécie de complexo de vira latas que idolatra tudo que é estrangeiro e execra tudo o que é nacional, como se nós fôssemos a escória da humanidade, até uma crença ingênua nas virtudes das potências imperiais, vistas como vestais da humanidade.

Em uma época na qual somos mais livres do que jamais fomos, a juventude que nunca teve que ouvir um “não” de seus pais se dedica a propagandear as virtudes da ditadura. Enquanto o país atravessa um longo processo de melhora, expresso até no desaparecimento dos carros velhos da paisagem de nossas cidades, tanta gente achando que vivemos os estertores do Armagedom. E quando temos a possibilidade de mudar o nosso destino através do democrático instrumento do voto, tanta gente vendo justamente nele a fonte da “corrupção”, que aparentemente, entre todas as nações do planeta, só existe aqui, e entre todas as épocas da história, parece ter surgido de dez anos para cá.

Aos poucos fui perdendo a paciência com isso, fui deixando de lado esses debates: ninguém vai ao pasto silenciar o zurro das mulas, apenas nos incomodamos quando vêm dar coices e cagar em nossas portas. Cada vez que eliminei algum desses laços, ficou mais leve a minha decisão, que não será antecipada e nem adiada.

O mais recente destes cortes foi o  mais surpreendente, ao ver uma pessoa a quem respeitava defender o direito da maioria de praticar bullying contra a minoria através do “humor politicamente incorreto” (através do questionamento do direito que os ofendidos têm de se sentirem ofendidos) eu simplesmente deixei de acreditar na possibilidade de um debate racional nas redes sociais. Ao que parece, a simples convivência ali contribui para nos empurrar para posições reacionárias. +Ligia+Mário e +Francisco que me desculpem, mas há coisas que eu resolvi não perdoar. Eu tenho a opção de não ouvir aquilo que considero absurdo demais. Deixem-me cá com as minhas ilusões de um mundo mais justo, no qual a força do número não seja usada para humilhar os poucos, no qual não se exija de quem propõe mudanças uma pureza superior à de quem sempre esteve no poder, no qual crenças fundamentalistas em conceitos abstratos não fiquem acima do desejo de construir um mundo melhor para todos.

Cá de fora terei mais tempo para viver a minha vida e, sinceramente, adquiri mais simpatia pelas Testemunhas de Jeová. Elas podem estar erradas, eu posso discordar delas, mas elas não ficam poluindo o mundo pela distribuição aos quatro ventos de tratados nos quais afirmam coisas que ofendem aos crentes de outras igrejas. Eles vêm de vez em quando, fazem seu comercial e vão embora sorrindo. Diferente dos reaças da internet, que pululam sem parar, atacando tudo, xingando quem pensa diferente, desacreditando de todo projeto de mudança, etc. Prefiro um mundo com mais pregadores em meu portão do que a internet embebida de reacionarismo. Porque o meu portão ainda está sob o meu controle, e se eu quiser fingir que estou dormindo no domingo de manhã ninguém me obrigará a ouvir o que dizem.

As Redes Antissociais

Cada dia que passa me trombo com novas evidências de que as redes sociais têm, no fundo, um modus operandi diferente do ideal que é propalado pelos seus entusiastas. Com todos os seus defeitos, a Deep Web me parece ser o espaço realmente revolucionário, onde a promessa de liberdade anárquica da rede se cumpre. Redes sociais são cercadinhos mentais, que impedem o desenvolvimento do espírito crítico.

Não sei até que ponto isto é defeito colateral ou uma característica designada. As redes sociais, afinal, não foram criadas com finalidade política, mas meramente como uma espécie de correio galante. A única delas que ofereceu ferramentas realmente eficazes para o contraponto de ideias foi o Orkut, mas ele já não faz parte dos planos de ninguém.

Nas demais redes sociais, como o Facebook, a Diaspora, o Plus e outras, o que temos é uma organização que dificulta a localização e o compartilhamento de conteúdo — além de também dificultar a identificação e a contextualização de comentários. Os fóruns do Orkut não serão igualados porque o que se quer das redes sociais não é aquela interface favorável a discussões. Todas as redes atualmente em uso tornam cada usuário em ditador de seus perfis, redes e grupos. Respostas são ocultadas à medida em que novas respostas aparecem, de forma que a proposta inicial sempre está em evidência, mesmo tendo sido rebatida. E todos podem facilmente isolar-se de críticas deletando comentários desabonadores ou contestações eficientes.

A médio e longo prazo isso faz com que as redes sociais, em vez de ágoras ruidosas onde os diferentes pensamentos se contrapõem e pessoas de todas as opiniões argumentam entre si, acabem como feudos de opiniões não contestadas. Os usuários podem permanecer longos períodos de tempo lendo apenas aquilo que lhes interessa, sem nunca se chocarem frontalmente com o contradito. Não importa que uma opinião se embase em preconceitos e ignorância, controlando a capacidade alheia de questionar os preconceitos e de informar os ignorantes, cria-se a impressão de que não existe resposta para aquilo que até as pedras estariam respondendo. E claro, isso fanatiza e radicaliza as opiniões, em ambos os extremos do espectro político.

Hoje tive um exemplo de como funciona isso. Um amigo meu publicou um artigo insano sobre o bloqueio econômico americano a Cuba com uma conclusão imensamente inepta: de que Cuba usa o bloqueio para ocultar sua deficiência econômica crônica, causada pelas contradições internas do socialismo, e que o bloqueio não é a causa das agruras do povo cubano porque os EUA não são os únicos fornecedores dos produtos que faltam na ilha.

O nível de primitivismo, de ignorância e de falta de inteligência nesta proposição é tão grande que é até difícil ser educado em uma resposta. Mesmo porque, quando você questiona um idiota ele sempre reage mal, porque qualquer questionamento válido expõe que ele é um idiota.

Todas estas proposições já foram suficientemente desmontadas por gente como Salim Lamrani, em sua famosa entrevista com Yoani Sánchez, mas o controle do contraponto, possibilitado pelas redes sociais, faz com que ideias estúpidas continuem sendo difundidas, simplesmente porque quem lê esses relinchos não encontra reações.

Para que o meu leitor entenda o tamanho da bestagem que foi dita pelo meu «amigo» facebookiano, vou expor a coisa em argumentos simples, que sequer necessitam de pesquisa, apenas de lógica elementar. Infelizmente esses argumentos não serão lidos por direitistas ou por apoiadores do bloqueio. Essa gente acredita que eu sou um idiota porque penso diferente, e não virão aqui ler o meu artigo, diferente de mim, que frequentemente leio artigos deles.

Primeiro o, ehem, «argumento» ignora que o bloqueio econômico não impede apenas a importação do que falta em Cuba, mas também a exportação do que lá se produz. Sendo os EUA o maior mercado consumidor do mundo, e estando tão próximo, logicamente o bloqueio nega a Cuba um mercado fácil e próximo para os seus produtos. Existe aí um segundo fator importante, especialmente durante a Guerra Fria: a economia turística cubana, que era toda focada em turistas americanos, praticamente deixou de existir porque os novos parceiros econômicos socialistas não faziam turismo. Somente a perda desta indústria já trouxe um prejuízo imenso à ilha. Quando os cubanos deram um jeito de substituir os turistas americanos por outros, os americanos deram jeito de criar novos boicotes e bloqueios.

Segundo que, se o bloqueio fosse ineficaz, como dizem os direitistas, se ele não causasse as dificuldades econômicas de Cuba,  não haveria necessidade de mantê-lo. Se ele apenas fornecesse ao governo cubano uma desculpa para sua incompetência, como dizem, então os EUA estariam de fato ajudando a manter no poder a ditadura dos Castro. Essa parte do argumento é mais controversa porque, de fato, bloqueios são pouco eficazes para derrubar regimes. As sanções econômicas contra a África do Sul, o Iraque e, mais recentemente, o Irã, não deram grandes resultados. As odiosas ditaduras dos dois primeiros desses países acabaram, respectivamente, pela exaustão de sua capacidade militar e pela invasão americana. Os bloqueios só serviram para criar dificuldades relativamente pequenas, no caso sul africano, ou para matar crianças de fome e doenças evitáveis, no caso iraquiano. Então eu acredito que o bloqueio funcione para causar o caos, falhe em remover o regime, mas seja mantido pelos EUA por uma questão de mero orgulho.

Mas a escala do bloqueio é também controversa. Segundo o meu «amigo» facebookiano, se os revolucionários americanos odeiam tanto os ianques, não deveriam procurar comércio com eles, mas com outros países. Esta frase é, por si, idiota. Acredito que ninguém em Cuba odeie «os americanos». Alguns certamente odeiam o imperialismo americano, mas odiar as pessoas nascidas no Estados Unidos é outra coisa. Ainda que o governo de Cuba tenha suas diferenças com o governo dos Estados Unidos. Então seria possível algum nível de comércio entre os dois países, empresas americanas vendendo para pessoas cubanas, pessoas americanas comprando de empresas cubanas, pessoas de ambos os lados visitando turisticamente o outro etc. Nada disso impediria a pureza ideologica de ambos os regimes. Não custa lembrar que os EUA tinham comércio com as nações socialistas durante a guerra fria.

Mesmo supondo, porém, que o ódio aos «americanos» devesse se traduzir num boicote recíproco e que, por pureza ideológica, Cuba devesse procurar comprar e vender de outros governos e povos, ainda assim o bloqueio é monstruoso porque desde a Lei Helms-Buron, de 1992, qualquer empresa que venda a Cuba pode ser proibida de vender aos EUA, na prática obrigando-as a optar entre o mercado americano e o cubano. Isso não inclui só empresas americanas, ou filiais de multinacionais americanas, mas até empresas estrangeiras. É verdade que esta lei tem sido implementada de forma seletiva (não me consta que os EUA tenham deixado de negociar com a PDVSA ou  com a PEMEX), mas ela segue como um fantasma para quem pretenda vender a Cuba.

Todos estes dados aqui transcritos foram informados ao meu amigo, com a recomendação de que pesquisasse sobre o assunto e não repassasse informações erradas. O efeito de minha intervenção foi ver meus comentários excluídos, logo depois fui verbalmente agredido, na base do «este é o meu perfil e eu posto o que quero, vá defender a ditadura cubana noutro chiqueiro» e não me restou alternativa senão excluir a amizade. Porque uma pessoa que quer me dizer coisas erradas, mas não quer ouvir minha resposta, é alguém que eu não quero ouvir mais.

E este desfecho me abriu os olhos para o modo como funcionam estas redes sociais, como contribuem para reforçar os preconceitos e a desinformação. Os leitores do meu «amigo» que não viram minhas intervenções antes de serem apagadas terão a impressão de que ninguém consegue contestar os «dados» e as conclusões dele, apesar de serem fáceis de desmontar. Mesmo alguns que viram, como já estão «vacinados» contra essa «doença esquerdista», devem ter quebrado paus no ouvido e seguido com a cantilena.

E no fim das contas, por um medida de honestidade, preciso admitir que eu mesmo, às vezes, resvalo nesse tipo de atitude. O que me leva a concluir que todos os lados estão sendo infantilizados pelas redes sociais, que não funcionam como ágoras, mas como clubinhos. Que não estimulam o livre debate de ideias, mas as miúdas conspirações isoladas entre si.

Manifestações Inúteis de «Sofativismo» do «Movimento Ateu»

Rejeitar «Deus Seja Louvado» das Notas de Real

Todo ateu que se preze acredita piamente que vivemos sob um «estado laico» e que, por esta razão, qualquer manifestação da religiosidade hegemônica deve existir tão somente na esfera pessoal. Isso explica porque essa gente não tolera que nossas notas de real tenham a inscrição «Deus Seja Louvado», nelas instalada por um nosso ex presidente que não se notabilizou nunca por seu cristianismo. Como essa gente não tem latim (ou bufunfa) suficiente para impetrar um mandado de segurança contra o Banco Central e a Casa da Moeda, resolve cometer um ato pessoal de terrorismo para «mostrar o dedo» ao «sistema», na melhor tradição da rebeldia punk: suja, ineficaz, ininteligível, equivocada e contraproducente. Estou falando de hábito, muito festejado nas rodinhas ateístas nas redes sociais, de rabiscar nas notas a inscrição maldita.

É um ato sujo porque emporcalha o nosso dinheiro, que já é um dos mais vilipendiados do mundo. É ineficaz porque alguns poucos idiotas fazendo isso com as vinte ou trinta notas que passam pelo seu bolso por semana não conseguem fazer ninguém notar que existe um «movimento» de rejeição ao Deus-Seja-Louvado. É ininteligível porque, mesmo se alguém perceber os rabiscos, dificilmente entenderá a mensagem de que «o estado é laico e esta inscrição viola os direitos constitucionais de isonomia entre os credos, ao não contemplar crenças não cristãs ou não monoteístas». Em vez disso, a pessoa pensará que um satanista porco estragou aquela nota. Isso, claro, é ótimo para os objetivos do «movimento ateu» — e explica porque o ato é equivocado e contraproducente.

PODIA PIORAR? Sim, sempre pode. Se rasurar a inscrição já é uma atitude tosca, existe uma maneira de levar isso ao modo berserk: encomende um carimbo contendo uma tarja preta (para cobrir a inscrição) e uns dizeres explicando o porquê em poucas palavras («o estado é laico»).

PORQUE É AINDA PIOR? Porque dificilmente as pessoas compreenderão o protesto. Continua sendo sujo, continua-se estragando o dinheiro, continua sendo irrelevante, continua sendo ininteligível porque quase ninguém sabe o que é «laico» e a maioria acha que «estado» se refere a Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, Pernambuco… 
 

QUAIS OS RESULTADOS? As notas estragadas pelos dementes serão recolhidas tão logo passem pelas mãos de um caixa cuidadoso, em qualquer agência bancária. Serão encaminhadas ao Banco do Brasil, e posteriormente ao Banco Central, como «numerário não utilizável». Serão incineradas e substituídas por notas novas. Ao rasurar a inscrição, o ateu «modinha» apenas aumentou a despesa do BaCen com a manutenção do meio circulante.

O QUE DEVERIA SER FEITO? Junte um bando de gente interessada e impetre um mandado de segurança contra o Banco Central citando o artigo constitucional que veda ao Estado estabelecer cultos religiosos (Artigo 19, inciso I da Constituição Federal). Ao inscrever «Deus Seja Louvado» no meio circulante o Estado está determinando que a divindade monoteísta seja cultuada, o que viola uma cláusula constitucional explícita. Se a ação for derrotada, então o estado não é laico, coisa alguma. Que tal mudar-se para os States? Oh, esqueci… «In God We Trust».

Debates em Blogues ou Redes Sociais Ateístas

Blogar é muito útil para quem é ateu. Pois é somente através da internet que muitas pessoas, vivendo em cidadezinhas ou em comunidades urbanas de mentalidade estreita, conseguem entrar em contato com outros que pensam igual, ou mesmo desabafar para o vento. Quem não é tão bom para escrever se conforma em visitar os blogues e páginas sociais de quem escreve e deixa lá seus comentários elogiosos. Trata-se de algo tão natural que as pessoas não percebem o quanto é inútil.

É inútil porque, para falar a verdade, cada vez menos gente lê blogues. Tenho os meus já faz quase quatro anos e até hoje só ganhei treze dólares de AdSense e tive 28200 visitantes. Então ficar vociferando contra criacionistas, «crentelhos», pastores dinheiristas, «homofóbicos» ou testemunhas de Jeová em blogues como este (ou como aquele em que você está pensando, mesmo que ele tenha mais visitantes…) é como gritar para dentro de uma caverna. Ninguém importante vai ouvir e o máximo que pode lhe acontecer é levar pela cara uma revoada de morcegos.

MAS PODE FICAR PIOR. Claro que pode. Tem gente que faz disso uma verdadeira cruzada. Só que, em vez de garbosos cavaleiros andantes lidando pela verdade, essas pessoas estão brandindo suas espadas enferrujadas contra inimigos imaginários. Chega a ser deprimente pensar que tem gente que gasta preciosas horas de sua vida «debatendo» contra crentes e criacionistas, que se orgulhe de «humilhar» os pobres «cristõezinhos». Como se esmagando baratas avulsas pudéssemos higienizar uma casa infestada de pragas. Não são moinhos de vento, não, amigo, são mesmo gigantes. E dê um abraço no Sancho Pança.

PORQUE AINDA É PIOR? Porque o criacionista não é um ser maligno em si, ele é fruto de um sistema que precisa de idiotas desinformados, convencidos de que suas certezas superficiais o tornam especial. Esse é o tipo de gente que se alista em exércitos e enfrenta o canhão do inimigo com uma baioneta na mão, que encara doze horas de chão de fábrica durante a semana e ainda vai torcer pelo seu time no domingo. Tire desses pessoas sua ilusão de que «alguém lá em cima gosta de mim e odeia meu patrão» e você terá uma revolução. Só que todo mundo já entendeu como funciona esse troço e sabe muito bem que é só não adubar o chão que a sementinha vermelha não brota. Se você realmente quer que existam menos criacionistas e menos crentes em geral, precisa provar ao «sistema» que é possível hipnotizar as massas usando outra cenoura. Enquanto as elites estiverem convencidas de que o povo sem religião vai cantar a Internacional pelas ruas, continuará estimulando esses ridículos pregadores que tentam nos convencer de que uma mulher realmente pariu caveirinhas de «prástico» porque se afastou dos caminhos do «sinhô».

QUAIS OS RESULTADOS? Quanto mais virulentos, mais folclóricos se tornam esses paladinos do ateísmo. Além do ridículo pessoal eles conseguem fazer a reputação justamente daqueles a quem pretendem neutralizar. Existe uma razão pela qual biólogos «de verdade» não debatem contra criacionistas em lugar algum, e é a mesma razão pela qual você não joga xadrez com uma pomba. Dawkins explicou isso muito bem ao se negar a debater com William Lane Craig: «tal debate ficaria muito melhor em sua biografia do que na minha». Ao aceitar debater contra pessoas obviamente despreparadas você facilmente aparece como um vilão orgulhoso, no dia em que se deparar com uma pessoa preparada, mas mal intencionada, poderá não conseguir uma vitória tão fácil e então esse seu «engasgo» será contabilizado como «vitória» pelo seu oponente. Se William Lane Craig está até hoje cantando vitória porque Dawkins «não teve coragem» de debater contra ele, imagine o que não estaria fazendo se ele conseguisse fazer uma pergunta que o biólogo britânico não soubesse responder… 
 

O QUE DEVERIA SER FEITO? Primeiro, vá estudar. Se já estudou, pense em começar a compartilhar conhecimento (e não patadas). Ajude a divulgar conhecimentos históricos, científicos e filosóficos para quem deles precisa. Torne-se um professor ou então voluntarie-se em alguma ONG ou cursinho. Seja respeitoso com essas pessoas: ignorância não é falha moral. Quando você conseguir aumentar sua cultura geral, perceberá que elas terão mais autonomia intelectual e, mesmo que nunca se tornem ateístas, pelo menos vão aprender a respeitar melhor modos diferentes de pensar e de seguir pastores folclóricos com chapelões ou gírias cafajestes envolvendo falsas dicotomias sexuais porque deixarão de acreditar que o Ser «Oni-Fodão» que criou o universo precisa de dinheiro e tem uma estranha preocupação com o uso que fazem de seus orifícios corporais.

Ler o Cânone do Neo-Ateísmo Moderno Contemporâneo e Atualizado

Não importa se Hitchens escrevia sob uma perspectiva rigidamente eurocêntrica, se Dawkins argumenta para um público familiarizado com a cultura britânica, se Sam Harris é um chauvinista americano, etc. Não importa. Somente pela leitura das obras mais recentes dos Grandes Ateus de hoje é que você se torna um ateu de verdade. Quem não leu nenhuma destas obras sequer tem o direito de opinar em voz alta, no máximo comentários curtos e respeitosos no blogue, nunca contestando o genius loci.

MAS PODE FICAR PIOR. Validar o posicionamento político e filosófico de uma pessoa com base no que leu é imaginar que as pessoas só podem chegar ao posicionamento x através da leitura, nunca por meios autônomos. É negar a autonomia intelectual que os ateus supostamente, muito supostamente, defendem. É transferir a responsabilidade pelo pensamento aos grandes centros filosóficos que, curiosamente, escrevem em inglês, a língua que tanta gente aprende bem em cursinhos pelo Brasil afora. Isso se transforma em idiota berserk quando a vítima, tão bem educada por tantas leituras úteis, começa a defender a primazia dos States e seus valores, preconizando que façamos exatamente como a elite americana propagandeia que deveríamos fazer. Lavagem cerebral auto induzida pela leitura acrítica de obras de qualidade variável, de autores muitas vezes comprometidos com a defesa dos interesses das sociedades em que estão inseridos. Esta história de «cidadão do mundo» é uma forma de dourar a pílula do imperialismo para os colonizados engolirem.

PORQUE É PIOR? Porque o «libertarianismo» que anda tão em voga nada mais é do que uma ideologia de extrema direita que descende do vigilantismo, do Macartismo, da Ku Klux Klan, dos sobrevivencialistas e do Tea Party. Esses caras negam a própria civilização ocidental, ao negar os valores sobre os quais se assentam as poucas coisas boas que temos (ou achamos que temos): a solidariedade social. Essa gente quer abolir a aposentadoria, acabar com as garantias trabalhistas, acabar com os impostos, o diabo. Consideram o Estado o seu maior diabo. Quem come desse feno com a boca boa não percebe que o Estado de fato nunca deixará de existir: essa pantomima toda é só um jogo de cena para justificar o desmonte das garantias sociais, já que estamos chegando ao fim dos tempos em que era possível sonhar com uma prosperidade universal. Entrar nessa onda de libertarianismo é como chegar numa Assembleia Geral da ONU representando seu país de cidadãos barbados e turbantados usando um cartaz escrito «Bomb Us Next».

QUAIS OS RESULTADOS? Um bando de gente que se acha inteligentinha porque comprou e leu, ou leu sem comprar, alguns livros que a maioria não se interessa em ler.

O QUE DEVERIA SER FEITO. Estudar a história do pensamento político humano. Um bom livro de «História da Filosofia» e alguns exemplares da coleção «A Obra Prima de Cada Autor» da Martim Claret já seria de boa ajuda.

Ceticismo em Crise: A Infinita Querela Entre as Ciências Formais, Naturais e Sociais

É um tanto difícil abordar este tema sem parecer que estou puxando a brasa para a minha própria sardinha porque, de fato, estou. Acredito que é necessário admitir isso honestamente desde o princípio para evitar que os leitores tenham uma compreensão errada do que virá a seguir. Infelizmente, esta honestidade de declarar explicitamente de onde vem e para onde vai está ausente na maior parte dos debates sobre ciência que acontecem na internet. Ali o que se vê é a tentativa de desqualificar o lado oposto de qualquer maneira e reivindicar para si o reinado da cocada preta.

As Ciências Sociais, sendo «irmãs mais jovens» da família científica, ainda não levadas tão a sério pelas demais ciências, já melhor estabelecidas na tradição. Além disso, pelo fato de terem o «poder» de construir ou explodir coisas e de matar ou salvar gente, as demais ciências parecem ter uma «superioridade evidente», que os seus adeptos tentam cristalizar desenvolvendo definições de ciência que favoreçam justamente essa posição de superioridade. Essa crendice serve de base para a desqualificação das Ciências Sociais, ainda mais porque ninguém explode nem constrói coisas com História, Psicologia, Sociologia, Antropologia, Linguística etc. Ainda há muita gente que acredita no mito da «objetividade» das Ciências Formais e na eficácia absoluta do «método científico», como o forista que afirmou: O método científico existe justamente para eliminar todo resquício de subjetividade.

Já falei aqui sobre o preconceito que as pessoas têm contra a Linguística. Duzentos e tantos anos «no mercado» e produzindo conhecimentos importantíssimos para a compreensão do mundo não foram suficientes para que esta ciência fosse respeitada: qualquer zé mané se sente à vontade para exibir sua idolatria pela gramática normativa e seu preconceito contra qualquer abor­dagem educacional científica, especialmente aquelas que reconhecem a existência dos falares regionais e/ou variações de prestígio. Mas a coisa vai mais longe: o mesmo preconceito se estende a todas as ciências sociais.

Como dito no começo, em parte isto se deve à juventude das Ciências Sociais (exceto da História que, no entanto, era considerada até relativamente há pouco tempo como uma espécie de Literatura). Em parte, porém, isto se deve a motivações ideológicas. Ao estudarmos uma realidade imper­feita — a sociedade — é natural que tenhamos de apresentar tais imperfeições nos resultados. Aqueles, porém, que se beneficiam das imperfeições não se beneficiam da exposição delas. Natural, portanto, que denunciem o caráter «subversivo» e «esquerdista» das Ciências Sociais para evitar que seus resultados definam prioridades políticas ou impactem no imaginário coletivo. A posição das Ciências Sociais não é ajudada pelo fato de tantos «esquerdistas» de fato terem se dedi­cado a elas, especialmente por causa do legado de Karl Marx. Por outro lado, é difícil saber se nesse caso as pessoas esquerdistas procuram as Ciências Sociais ou se é natural mover-se para a esquerda do espectro ideológico quando se conhece a realidade imperfeita da sociedade capitalista em que vivemos.

Seria aceitável tal atitude preconceituosa proveniente de alguém obviamente ignorante e incapaz de raciocínios abstratos. Mas na prática o que se verifica é que muito frequentemente as acusa­ções contra as Ciências Sociais partem de pessoas que aparentemente estudaram um pouco, pelo menos o estritamente necessário para saber quem foi Karl Popper, embora não o suficiente para se livrarem da concepção positivista, como na ilusão de que é possível conhecer exatamente «como a História é» (palavras tomadas de um forista no Facebook). Não podemos, então, pensar que tais acusações sejam fruto da mera ignorância e temos que avançar a tese de que envolvem um pensamento ideológico de direita e/ou um preconceito contra formas de pensar diferentes.

Em geral, pessoas que procuram desqualificar o caráter científico das Ciências Sociais, espe­cialmente da História, da Geografia Humana e da Sociologia, o fazem por discordarem de um difuso «marxismo» que imaginam ainda definir de forma intransigente toda esta área do conhe­ci­mento humano. Tipicamente estas desqualificações são precedidas ou vêm acompanhadas de críticas a Cuba ou menções às ditaduras comunistas, que são usadas como argumento contra uma abor­dagem metodológica de fatos sociais. A falácia do non sequitur deveria ser óbvia nestes casos, porém é mais fácil amestrar um rebanho de gatos do que convencer um direitista que os erros come­tidos por políticos simpáticos a uma ideologia não são argumentos contra análises influen­ciadas pela mesma ideologia. Se o argumentador for cristão, ele não verá, inclusive, nenhum pro­blema em insistir em uma visão cristã do mundo apesar das violências praticadas no passado em nome do cristianismo. A analogia entre os dois casos nunca será evidente o bastante.

Tal preconceito se cristaliza também por culpa dos próprios profissionais das áreas de Ciências Sociais, quando não «vestem a camisa» nem se embasam para defender sua posição e quando fazem trabalhos porcos baseados exclusivamente em fontes secundárias e opinativas para defen­der ridículas «pós graduações» de merda que só servem para angariar-lhes títulos em con­cursos públicos para subempregos municipais. Estas pessoas, que muitas vezes foram parar num curso de Letras, História ou Serviço Social por não terem preparo suficiente para obter uma vaga onde realmente queriam (um curso de Direito, Medicina ou Engenharia), não tendo realmente amor pelo que fazem, não se importam em contribuir para a melhora da imagem de sua profissão. Como o homem que casa com a amiga feia porque foi rejeitado na disputa pela beldade da classe, mas depois vive falando mal da esposa ou não lhe dá a atenção de que precisa. Às vezes, porém, esta frustração não impede que o indivíduo empregue sua posição enquanto estudante, licenciado, bacharel ou mestre em alguma ciência social para embasar um falso argumento de autoridade que ataca estas ciências, como o forista que disse: E, antes de você vir com a acusação de que tenho preconceito contra as Ciências Humanas, sou da área de Letras…

Mas, deixando de lado estas analogias machistas e autoflagelação, é preciso gritar pelos quatro mil alto-falantes que as Ciências Sociais são ciências (até Popper admitia isso) e que sua desqualificação é um ataque falacioso, motivado ideologicamente. Falacioso porque se baseia em exigir delas que sejam capazes de cumprir tarefas para as quais não são adequadas. Não se julga o golfinho por sua capacidade de escalar árvores, tal como não se pode rebaixar as Ciências Sociais por não construírem nem explodirem coisas, como fez o forista que comentou: Um computador não pode ser construído com base em estudos de Ciências Humanas. Assim, não foram elas que ajudaram a criar as vacinas, por exemplo. Diante deste tipo de argumento, é dever de todo aquele que possui uma formação na área de Humanas defender-se deste tipo de abuso. A defesa não deve se basear em argumentos de autoridade, mas na própria lógica formal, que está de nosso lado de várias maneiras:

As Ciências Sociais não são abstrações. Elas procuram estudar fatos que realmente aconteceram. Sua limitação reside na impossibilidade de conhecer com plena exatidão todos os fatos, devido à precariedade dos registros ou a impossibilidade de verificar in loco os fatos deduzidos a partir dos dados parciais. Neste caso, é útil apontar que esta limitação é a mesma que afeta ciências como a Paleontologia, a Arqueologia e a Cosmologia, bem como ramos importantes de outras ciências, como a Taxonomia.

O fato de haver discordância entre vários autores quanto à interpretação dos dados conhecidos não é privativo das Ciências Sociais. Temos exemplos em outros ramos do conhecimento de teorias conflitantes, até mutuamente excludentes, ou baseadas em pura especulação. Pode ser interessante citar aqui a dificuldade para se harmonizar a Teoria da Evolução com a classificação taxonômica dos animais, o que só foi possível com o desenvolvimento da Genética e da Microbiologia, graças as quais se pôde detectar que a divisão da vida em dois «reinos» era uma arbitrariedade e descobrir relações entre espécies que não se baseavam apenas na aparência, dando origem à «síntese moderna» da Teoria da Evolução. A diferença em relação à História reside unicamente em que não temos a esperança de encontrar dados suficientes para dirimir todas as dúvidas persistentes. Então, a consequência disso é que teremos de conviver, em muitos casos, com interpretações vagas ou explicações parciais. Estas divergências ou incompletudes não invalidam as Ciências Sociais porque o objeto do conhecimento é real, embora conhecido de forma parcial. Não se pode comparar, por exemplo, a História com Ufologia ou Criptozoologia, por exemplo, que obviamente são pseudociências, pois procuram justificar a própria existência provando a realidade daqueles que seriam seus objetos de estudo: a humanidade existe e tem um passado, não é necessário provar isso.

O problema metodológico reside na suposta não falseabilidade do conjunto teórico dos postulados das ciências sociais. Entretanto, dentro de tal conjunto existem postulados que foram falseados com sucesso: sabemos, por exemplo, que determinado sítio arqueológico foi ocupado há tantos milhares de anos com base na análise por estratigrafia, carbono-14 ou decifração epigráfica. Podem haver aspectos controversos na interpretação dos dados, mas é inegável, por exemplo, que o sítio de Jericó foi habitado desde há cerca de 10 mil anos e que realmente os cruzados europeus estiveram na Palestina medieval. Outras ciências também possuem aspectos controversos entre seus postulados. Na Astrofísica, por exemplo, a «Teoria das Cordas» ainda não é considerada seriamente por todos os acadêmicos. No máximo, admitem que ela é um «modelo teórico promissor» para harmonizar a Física Quântica com a Teoria da Relatividade, mas que ainda precisa de comprovação. Ninguém em sã consciência diria que a Astrofísica é uma «balela» por causa de precariedade da «Teoria das Cordas», mas há quem considere a História uma «balela» só porque existem explicações diferentes para as causas da queda do Império Romano, por exemplo.

O mais curioso é que podemos concluir estas observações notando que o comportamento destas pessoas em relação às Ciências Sociais é análogo ao dos criacionistas. Tal como o cria­cionista rejeita em bloco toda uma gama de fatos e teorias no âmbito da Biologia, por não con­cor­darem com a conclusão a que apontam, o «objetivista-direitista» moderno rejeita em bloco toda uma série de campos de conhecimento, as «Ciências Sociais», com base em suas concepções equi­vocadas e positivistas do método científico e na rejeição das consequências de tais estudos por razões ideológicas. O criacionista não pode aceitar a Biologia porque ela invalida sua crença na inerrância do livro sagrado. A atitude dos que rejeitam as «Ciências Sociais» enquanto ciên­cias é mais matizada, havendo os que o fazem por serem adeptos de uma crença ingênua na objeti­vi­dade científica, os que o fazem por seguirem uma ideologia política direitista e os que o fazem por uma interpretação utilitarista do conhecimento. Para os primeiros, as inter­pretações feitas pelos cientistas sociais não são científicas porque procuram ir além dos dados; para os segundos, as ciências sociais são «comunistas» (ou algo assim) porque criticam o capitalismo, a sociedade de classes e os construtos ideológicos nos quais se assenta a ideologia predominante e difundida pelos meios de comunicação de massa; para os terceiros as Ciências Sociais não são ciência porque não podem criar nem explodir coisas.

Por mais ofensiva que esta analogia seja (afinal, nem mesmo os criacionistas aceitam mais serem chamados de criacionistas, tendo desenvolvido todo um sistema de argumentação em torno do conceito do desígnio inteligente a fim de não terem que afirmar abertamente suas motivações religiosas), é necessário apresentá-la, para que os envolvidos percebam que não se pode, a priori, negar a legitimidade de um ramo do conhecimento apenas porque não concordamos com seus postulados. Espero que este artigo tenha contribuído com algo neste sentido.

Xinforínfolas

O que aprendi com as discussões dos últimos dias é que a motivação por trás da manutenção da definição de “ateísmo” como “ausência de crença” é realmente política ou social, e não crítica ou reflexiva. Fosse crítica e reflexiva, seria fácil mostrar onde está meu erro — Gregory Gaboardi, em um tópico do Bule Voador.

Pois muito bem, Gregory. Vamos partir para esta tarefa. O post vai ser longo, mas espero que valha a pena. Ontem saí deste debate deixando uma pergunta que ninguém se dignou a responder. Não lamento que alguns a tenham ignorado, porque ela foi especificamente dirigida a outros. Outros como você, especificamente. Para os que não querem voltar e ler a pergunta, repito-a: Você crê na inexistência de xinforínfolas?.

Pode parecer uma pergunta idiota (e na verdade é), mas quando você troca “xinforínfola” por “Deus” você pode começar a entender aonde quero chegar. O problema está no fato de que, pelo caldo cultural em que fomos cozidos, acreditamos (isto, sim, é uma crença) que Deus é um conceito “dado”, ou seja, é um termo definido e pronto para que nos posicionemos diante dele, contra ou a favor.

Podemos detectar nesta presunção uma falácia clara de inversão do ônus da prova. Quem considera “Deus” como um conceito fechado está fugindo da obrigação de defini-lo e transfere para os demais, os que rejeitam o conceito, a obrigação de negar o que sequer foi proposto. Muito embora seja possível falsear uma negativa, neste caso a inversão do ônus da prova é falaciosa (e até arrogante) porque não está previamente acerta se o termo significa o mesmo para os dois lados do debate. Um conhecimento básico de filosofia nos ensina que o debate é um diálogo de surdos quando não se estabelece a terminologia que será empregada nele. Se eu suponho que “pau” significa “pedra” e não conto para você que estou pensando assim, você ficará incapacitado para compreender o que estou falando. Não definir um conceito é como blefar com uma mão ruim no pôquer e recusar-se a mostrar as cartas quando um oponente paga para ver.

Os proponentes do enunciado “Deus existe” não possuem, na maioria das vezes, uma definição do que seria “Deus” e boa parte deles também não consegue explicar em que consistiria a “existência” de tal ser. Se chamarmos de “Deus” a um ser mitológico que tem a função de oferecer exemplos arquetípicos para a transmissão de valores, até um ateu empedernido concordará que “Deus existe”, se a “existência” for definida como abundância de registros ou comprovação de que há ou houve pessoas que acreditavam na realidade de tais seres. Não creio que haja muita controvérsia, portanto, na minha afirmação de que só é possível debater a validade do enunciado acima se houver um consenso quanto ao significado de ambos os termos, tanto o substantivo quanto o verbo.

Em um episódio do Chaves (seriados mexicanos também ensinam filosofia), o professor Jirafales lhe pergunta o que ele desenhou e o Chaves, exibindo um monte de rabiscos, diz que desenhou uma xinforínfola. E ainda acrescenta: “Não ficou parecida?” O desconcertado professor se abstem de comentar. Agnosticamente, alguém diria.

Ocorre que uma xinforínfola é algo que só existe na cabeça do Chaves, não sendo possível, portanto, que o professor saiba se ficou parecido ou não o desenho. Se o Godinez também resolvesse desenhar uma xinforínfola, o desenho poderia ficar muito diferente, mas ele poderia dizer que estava “parecido”. O único que poderia discordar com autoridade seria o Chaves, que imaginou a xinforínfola primeiro, mas ele não teria como provar a dessemelhança, pois para isso teria que descrever a xinforínfola, com o que ele poderia fazer com que seu desenho fosse demonstrado como “não parecido”. Para poder ainda dizer que desenhou parecido, ele teria que ignorar a xinforínfola do Godinez (no mundo real ele poderia iniciar uma guerra santa para apagar do mundo a ideia concorrente ou apregoar-se como seguidor da Xinforínfola Verdadeira).

Historicamente as religiões evitam definir os seus deuses, partindo do pressuposto de que o senso comum já o fez. O livro do Gênesis começa a narrativa da criação dizendo que “no princípio a terra era sem forma e vazia e o espírito de Deus pairava sobre a face das águas”. Não há nenhuma definição profunda de Deus, de espírito ou de que águas se está falando. Presume-se que a ideia de um caos aquático original era conhecida do leitor, que espíritos e deuses são conceitos universalmente entendidos e que o cenário é adequado para o que se pretende mostrar. Seria como começar uma história do cangaço dizendo que “no tempo dos Tenentes o capitão Virgulino, o Lampião, atemorizava os sertões com sua valentia.” Este enunciado é equivalente ao primeiro verso do Gênesis em termos de ambiguidade: não se diz quando foi o tempo dos Tenentes, quem era Virgulino, porque tinha o apelido de Lampião, o que seria um sertão ou de que classe de valentia se está falando. Todos esses conceitos devem fazer parte do imaginário do leitor, ou serão gradualmente apreendidos por ele à medida em que for lendo esta e outras histórias de cangaço. Assim se fez a Bíblia, assim se fez historicamente o conceito de Deus.

Para quem está de fora, só restam tres alternativas racionais: ignorar as xinforínfolas, invalidá-las como “desenhos” avaliáveis ou acatar a palavra do Chaves e do Godinez e tentar imitar os desenhos deles. Com esse colorido (mas desbotado) episódio pretendi demonstrar a fraqueza da posição teísta. Espanta-me que se tenha desenvolvido um tortuoso caminho de argumentações lógicas para validar xinforínfoulas e as pessoas acabaram aceitando que simplesmente existem, mesmo sem ter visto nenhuma e mesmo não tendo uma definição se são animais, vegetais, minerais, artefatos ou alguma outra coisa. A posição racional diante de alguém que crê em xinforínfolas é descrer, no sentido de não aceitar esta ficção, não sem uma evidência ou, pelo menos, uma definição. Porém, dependendo do que se pensa ser uma xinforínfola, esta definição pode ser dada exatamente de forma a impedir que evidências sejam buscadas.

Não aceitar a existência de xinforínfolas não é “crer” que não existem, pelo simples fato de que não há dados que justifiquem a validade da hipótese. Desde quando temos de levar a sério as piadas toscas de um comediante mexicano que se vestia de moleque aos cinquenta anos de idade? Por que devemos levar a sério crenças surgidas entre nossos antepassados das cavernas? Deus não é um conceito “dado” simplesmente porque as pessoas sempre acreditaram nele. Durante milênios as pessoas sempre acreditaram que o Sol girava em torno da Terra, e não obstante quem gira é ela. Cada religião possui a sua xinforínfola particular e nós, que achamos graça disso, temos de aturar sermos chamados de “crentes” por rejeitarmos esse embuste?

Penso que o grande problema está na tradução. Traduttori, tradittori, dizem os italianos. O termo que se usa em inglês não tem acepção primordialmente religiosa. Tanto que se usa o termo religious belief para diferenciar a belief ordinária da belief do crente. Em português, sempre se teve “crença” como um termo religioso (talvez por causa da indigência da filosofia luso-brasileira) e só mais recentemente se introduziu o conceito como um termo filosófico.

Devido ao fato de nossa vida cultural — e principalmente filosófica — ser colonizada, nos deparamos com os bloqueios da língua para entender os argumentos dos filósofos e os nossos tradutores ainda inventam besteiras, como Ego, Super-Ego e Id para traduzir aquilo que Freud chamara de Ich (Eu), Überich (Super-Eu) e Es (Isso). Enfim, difícil a coerência quando nos deparamos com barreiras tais.

A natureza de toda esta polêmica foi cultural — e não filosófica. É claro que, sob um ponto de vista estritamente filosófico, e apropriando crença como uma tradução 1:1 de belief (o que não é verdade), podemos dizer que, sob certo ponto de vista e para algumas pessoas, o ateísmo é uma crença. Penso, porém, que não é e nem pode ser uma “crença na inexistênciab, mas sim uma crença na invalidade da proposição do conceito de Deus. A crença que se manifesta no ateísmo não é quanto a Deus, mas em critérios que permitam racionalmente excluir a possibilidade de existência de xinforínfolas…

O ponto central do agnosticismo, que só fui entender melhor lendo Russell, é que não existem conceitos privilegiados, que devamos necessariamente considerar dignos de apreciação. Ou os conceitos são exprimíveis em termos objetivos (ainda que incrivelmente complexos a ponto de só poucos poderem entender) ou então eles são irrelevantes. Não podem ser provados falsos, mas isso não é uma força de tais conceitos, mas sua incomensurável fraqueza.

Qualquer xinforínfola que eu imagine é absolutamente infalseável, você jamais saberá dizer se meu desenho ficou parecido ou não. A única diferença entre uma xinforínfola e Deus é que nós sabemos quem e quando inventou a ideia de xinforíncula — e com que objetivo (meramente fazer rir) — mas não sabemos quem e quando inventou a ideia de Deus. Será que devemos considerar o conceito “Deus” como privilegiado em relação ao de xinforíncula só porque é muito antigo?

Acredito que Siddharta nos deu uma boa resposta quanto a isso.

«Política, Futebol e Religião não se discute»

Este é um enunciado milenar, quase inquestionado na «sabedoria» popular (que, como sabemos, votou no Tiririca). De fato a mistura costuma desandar, especialmente se as opiniões chegam ao ponto de fervura. O problema não reside, porém, nestes temas específicos, que são apenas polêmicos (sendo os dois últimos mais ou menos análogos). O problema é que a maioria das pessoas simplesmente parece não ter serenidade suficiente para enfrentar uma opinião discordante, quanto mais para encarar um confronto de ideias como uma oportunidade para aprendizado.

Há um desses «provérbios chineses» que dizem que quando duas pessoas trocam ideias, cada uma vai embora levando uma ideia a mais do que tinha quando chegou. Duvido que os próprios chineses ajam assim, visto que a teimosia parece ser um dos muitos defeitos do homem compartilhados por todas as raças, castas e credos. No entanto, é justamente entre nós, brasileiros, que isto menos se vê: os debates não são vistos de forma dialética, mas como disputas de ego. Ninguém debate pensando em sair da sala sabendo mais, todos parecem estar mais interessados em fazer o oponente sair da sala desqualificado. Os debates da Internet brasileira não são debates, são duelos.

E porque o debate se transforma em duelo, torna-se impossível chegar a um consenso. Nunca basta que um lado aceite correções, elas são vistas como demonstração de fraqueza. Não basta que um lado demonstre ter suas razões, se não conseguir derrubar as razões do outro não houve «vitória». Isto seria até compreensível se estivéssemos falando de temas sobre os quais não pode restar dúvida: ninguém discute se água é molhada ou se em setembro chove. Os debates são, por natureza, sobre os temas mais complexos, estapafúrdios, bizantinos. Isso é muito natural: não se debate o que qualquer idiota consegue entender. Talvez por isso, na falha dos argumentos, chamar o outro de idiota é sempre um recurso lembrado: se o outro é idiota isso implica que ele não tem capacidade para compreender um conceito mais avançado, então se torna desnecessário elaborar melhor o argumento. Então, se eu consigo convencer aos outros de que estou debatendo com um idiota, eu posso me declara vencedor mesmo que tenha dito que «cadeiras são ovíparos» ou que «guitarras tem gosto de novelos». A primeira vítima de um duelo verbal é a verdade: geralmente ganha uma rinha dessas o lado que consegue esmurrá-la mais.

Não me surpreende que as pessoas façam isso em nome de crenças irracionais. Eu não discuto com os adeptos de certos conceitos. Apenas sorrio e saio de fininho. Certos conceitos não podem ser discutidos seriamente, e se a pessoa acredita de verdade a gargalhada soará ofensiva. Assistir aos debates entre essas pessoas é tão surrealista quanto ouvir papo de tietes do último grupinho pop: às vezes dá vontade de chorar, às vezes de rir. Geralmente de chorar.

Mas me surpreende muitíssimo que esse nível de argumentação corrosiva, divisiva e hipócrita seja praticado por pessoas que reivindicam saber melhor. Eu mesmo já caí nessa arapuca várias vezes, e foi preciso que um palhaço me alertasse. Bons palhaços são raros, mas quando os encontramos eles sabem o que fazer para ligar no tranco o cérebro amortecido. O palhaço que me acordou me fez enxergar como eu estava sendo cínico e como me rendia a tudo que eu abominara no passado. E ele fez isso sem ter me conhecido no passado.

Mas houve um momento em que eu percebi que debater em certo nível não é interessante porque, como diria Buda, não traz a iluminação. O que aprendo digladiando-me em fóruns da web com pessoas que não estão preparadas para entender o que eu estou dizendo e que passam a odiar-me por chutar suas bengalas?

Não que eu tenha desistido de debater. Quem acompanha esse blog sabe que eu debato bastante. Apenas mudei meus alvos, passei a pensar em causas mais restritas. No momento a minha principal causa é proteger o calo que eu tenho no pé. Sempre que o pisarem eu vou gritar, e tentarei pisar no calo de quem me piso. E de resto apareço como o palhaço, na esperança de que uma frase irrisória que eu diga acorde um cérebro entorpecido de auto-confiança.