O Especialista em Helicópteros

Bateu o desespero na imprensa. Comprometida em bater no governo a todo custo, louca para ungir um político de oposição que derrube a situação, ela não hesita mais em nenhum tipo de manobra. Então, quando uma bomba atômica cai no colo de um de seus eleitos, fica evidente que o compromisso com a verdade, com a imparcialidade e com a notícia deixou de existir muito antes da virgindade da mãe do dono da revista. Afinal, não é mais possível esconder que o filho de um importante aliado do principal político de oposição hoje foi surpreendido pela apreensão de um helicóptero de sua propriedade traficando cocaína (daremos nomes aos bois aqui, "tráfico" é cognato de "tráfego", e, portanto, "levar drogas" é "traficar drogas"). E se não dá mais para esconder, o remédio é ironizar, é tentar achar furinhos por onde se possa inserir a dúvida, para que nada seja levado sério, tudo se esqueça, e esse pequeno detalhe seja varrido como pó para debaixo do tapete. E que imenso tapete vai ser preciso.

Esta semana o folclórico Reinaldo Azevedo resolveu pesquisar sobre helicópteros para tentar achar algo a dizer em defesa dos donos do "helipóptero". Sua pesquisa foi feita no lugar óbvio, o site do fabricante do modelo de helicóptero envolvido no caso. Sei disso porque achei o fabricante no Google e os dados conferem.

Com base no que achou lá, Tio Rei inventou uma estranha matemática para provar que o dito "helipóptero" jamais poderia ter transportado 445 kg de pasta base de coca. Afinal, matemática não se discute, não é?

Bem, matemática não existe. Números são apenas rótulos que damos a quantidades de coisas. Números nada significam em si mesmos, tanto quanto palavras não significam mais do que as próprias coisas a quem dão nomes. Se as palavras adquirem algum sentido extra material, e os números também, isto é uma espécie de misticismo que não se ampara nos fatos reais. E não estamos aqui discutindo filosofia, mas se um helicóptero voa ou não com 445kg de pasta base de coca.

Os números do Reinaldo devem ter sido retirados do site do fabricante. Se não foram, então os meus são melhores que os dele. A Robinson Helicopters dá os seguinte números ao seu modelo R-66:

  1. Peso Bruto Máximo: 1225 kg (dado fornecido corretamente pelo Reinaldo)
  2. Peso vazio aproximado (incluindo óleo e equipamentos padrão, informação que ele sonegou): 581 kg
  3. Tripulação: 1
  4. Capacidade: 5 (trata-se de um helicóptero de passageiros, ora pois)
  5. Combustível máximo: 224 kg (ok)
  6. Passageiros e bagagem com o combustível máximo: 420 kg (ok)

Quantidade de pessoas presas no voo: 2 (informação importante, anote isso). ISSO QUER DIZER QUE HAVIA TRÊS LUGARES VAZIOS. O próprio Reinaldo admite que o helicóptero estava "adaptado para cargas" (o que significa que ele não tinha os três assentos traseiros).

A carga máxima com bagagem considera 5 a bordo, não 2. Considerando 70 kg para cada pessoa (pilotos de aeronaves costumam ser levinhos) temos que o helicóptero teria uma capacidade restante de

1225 - 140 - 224 = 861 kg.

Nesses 861 kg temos que descontar 445 kg de cocaína e sobram 416 kg para a aeronave. Mas a aeronave pesa 581 kg. Estão faltando, portanto:

581 - 416 = 165 kg.

Se você vai transportar uma carga valiosíssima (como pasta base de coca) e tem três lugares sobrando, o que é mais racional fazer?

  1. Remover três assentos sem uso para levar mais carga
  2. Levar menos carga

Três assentos pesariam 165 kg? Facilmente. Esses assentos pesariam, cada um, no mínimo, 35 a 50 kg. Pois incluem bases de metal, forro, cinto de segurança, etc. No mínimo estamos falando de eliminar 100 a 120 kg. No mínimo. Podemos eliminar ainda mais se diminuirmos combustível. Se a autonomia do helicóptero é de 660 km e a maior distância percorrida foi, segundo o próprio Reinaldo, de 513 km, temos aí 150 km a menos. O próprio Tio Rei diz que 59 kg são suficientes para 173 km. Portanto, para 150 km precisamos de apenas 50 kg. Dos 165 kg que faltam, podemos reduzir 50 em combustível. E três assentos facilmente economizam 100 kg.

Agora a conta fechou para você?

Não, eu não sou mais inteligente que o Reinaldo Azevedo nem sou especialista em helipóptero.

Quando a Justiça Odeia

Não é nenhuma novidade mais que estamos vivendo um processo intenso de radicalização, com o terreno do centro sendo gradualmente comprimido pelos extremismos e com os rituais da democracia sendo estuprados em nome de interesses pessoais. Isto inclui os partidos, que planejam golpes ou eternização no poder, passa pelas instituições da sociedade civil, que frequentemente se fundam na defesa de privilégios e na construção de barreiras contra o outro, e pervade a sociedade como um todo, que começa a regurgitar episódios de ódio contra minorias raciais, ideológicas ou comportamentais.

Quando, porém, alguma voz nos tenta convencer de que não é tão grave assim a doença de nossa democracia, eis que uma voz rouca ecoa de dentro das cavernas, um promotor público utiliza o Facebook para mandar um recado à polícia de choque para que reprima com violência uma manifestação popular pois ele se encarregaria de arquivar o inquérito contra os responsáveis:

Alguém poderia avisar à tropa de choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial.
Petista de merda. Filhos da puta. Vão fazer protesto na puta que os pariu… Que saudades da época em que esse tipo de coisa era resolvida [sic] com borrachada nas costas dos medras…

O ódio é incompatível com a justiça, isto é algo que nem seria necessário dizer. Infelizmente, o Brasil não só é um país onde tem feito falta enfatizar o óbvio — como as noções básicas de cidadania, direitos humanos, justiça, dignidade etc. — como é um país onde dizer o óbvio parece cada vez mais causa de escândalo. Quando o rei está nu, para evitar o escândalo, é necessário reagir com toda radicalidade diante de quem ameace dizer isso. Por isso, no Brasil de hoje, quem diz o óbvio costuma ser atacado com mais força do quem expressa o absurdo.

O que este promotor de justiça disse é absurdo, mas muita gente aplaude. Aplaude porque o ódio está na moda, especialmente entre os simpatizantes de forças políticas que vem sendo deixadas para trás pelo trem da história. Almejam descarrilar o futuro e, se possível, empurrar tudo de volta para trás. O reacionarismo precisa de muito ódio e violência, porque não é possível explicar racionalmente às pessoas porque elas devem abrir mão de tudo que tornou sua vida melhor nos últimos dez ou vinte ou trinta anos. O reacionarismo precisa subjugar porque não consegue convencer. Ele precisa de uma tropa de choque, e de um promotor previamente comprometido a arquivar os inquéritos contra os policiais que aceitem matar aqueles de quem o promotor discorda.

Cada dia que passa nós damos um passo rumo ao abismo. Episódios como esse nos mostram que o fundo do poço moral tem porão. Que não existem limites para a falta de ética, de cidadania e de responsabilidade. Quando um membro do judiciário exibe total descompromisso com a Lei, e mesmo com os princípios que norteiam a Lei, cabe perguntar como podemos confiar nessa justiça. Nessa justiça sem freios e sem controle externo, onde a punição para um discurso de ódio como esse se limita a uma “aposentadoria”.

Havia uma antiga piada contada por um amigo meu, estudante de Direito, segundo a qual a diferença entre um juiz e um advogado é que o advogado apenas acha que é Deus. Só uma piada de advogado, claro, mas esse promotor leva tudo isso muito a sério. Ele se arroga o direito de decidir sobre a vida e a morte de pessoas que não conhece, apenas porque simpatizam com um partido (isso segundo sua percepção, pois não há provas de que os manifestantes seriam exclusiva ou mesmo majoritariamente “petistas”). Se algum dia, em um curso de direito, houver a necessidade de exemplificar o que é “injustiça”, basta exibir o print dessa postagem desse promotor, que violou a constituição e se tornou um criminoso ao se tornar mandante de assassinatos (o fato de tais assassinatos não terem sido cometidos não diminuiu o fato de que ele os ordenou).

A continuidade deste promotor em seu cargo, após isso, é um estupro ao direito constitucional e uma cuspida na cara da sociedade. Principalmente porque, se ficar claro que um membro do judiciário pode cometer tal temeridade impunemente, a perspectiva é que, cada vez mais, as vozes das cavernas ousem berrar na cara do povo, especialmente do povo “petista” (ou seja, aqueles a quem os reacionários acusam de ser petistas) que eles não têm direitos.

O ovo da serpente já está no ninho. Resta saber se vamos ser tolerantes contra  a intolerância ou seremos capazes de mostrar organização para resistir ao desmonte da democracia por aqueles que têm saudades do tempo em que podiam dar “borrachadas” em quem protestava.

A Classe Média Aprendeu a Matar

O recente latrocínio cometido com requintes de crueldade contra uma dentista em São Paulo, com a vítima sendo queimada viva porque tinha somente R$ 30,00 em sua conta bancária, vem suscitando muito questionamento sobre os motivos do crime. Existe uma corrente sociológica, muito significativa no lado esquerdo do espectro político, segundo a qual o crime é uma reação dos excluídos a uma situação opressiva de miséria. Enquanto isso, no lado direito, a violência é vista como uma falha de caráter, um pecado cometido em plena consciência, por alguém dotado de pleno livre arbítrio. A solução proposta pelos primeiros é intensificar a redistribuição de renda, a dos segundos é prender e punir (coisas diferentes no jargão direitista, que vê a cadeia como uma espécie de colônia de férias).

Acredito que ambos os lados estão errados, embora não completamente. A verdade, como sempre, é complexa, fica no meio. Não é correto dizer que a causa da violência é exclusivamente a miséria econômica, ou teríamos mais crimes em países mais pobres (como a Índia e a Bolívia) e não é correto dizer que o criminoso faz uso de seu livre arbítrio, ignorando os condicionamentos a que somos submetidos.

Bem, eu li em algum lugar, talvez dentro de minha própria mente falha e pervertida, que a verdadeira causa do crime é a eterna insatisfação do ser humano, resultante de sua desconexão com os valores da família/tribo/coletividade/etc. em uma situação de injustiça.


Funcionaria assim: vivemos em uma sociedade que nos julga pelo que temos, não pelo que somos, e ao mesmo tempo não nos oferece oportunidades iguais de adquirirmos aquilo que a sociedade valoriza. Então, sabemos que “ficaremos doces” se tivermos um Camaro amarelo, mas esse só está acessível a uns poucos. Aos demais sobra o ressentimento de, por exemplo, ver as garotas bonitas dando para caras ricos (ou filhinhos de papai rico) enquanto eles chupam o dedo. Mas a falta de acesso ao Camaro amarelo não é, ao contrário dos estúpidos libertários acham, resultado da discrepância do esforço individual.

Em primeiro lugar, porque a construção de uma fortuna costuma ser um processo que dura gerações: os Rotschild, por exemplo, não se tornaram o que se tornaram em cinco ou dez anos de “trabalho duro”. Essa acumulação rápida só acontece quando alguém tem muita sorte de estar no lugar certo e na hora certa (o que é necessariamente raro). Se a acumulação é um processo que dura gerações, a “culpa” dos pobres por sua miséria acaba sendo uma espécie de “carma” e o discurso moral do esforço pessoal se desfaz no ar.

Em segundo lugar, porque, ainda que originalmente todos estivessem no mesmo nível social e possuidores das mesmas oportunidades, as discrepâncias surgidas ao longo das gerações colocariam em diferentes patamares de oportunidade os descendentes das gerações anteriores. E então, essas diferenças pré-existentes criariam uma situação injusta que permitiria que idiotas preguiçosos nascidos em famílias ricas gozassem de um padrão de vida muito superior ao de espertos trabalhadores nascidos em famílias pobres, simplesmente porque o pai do primeiro fora esperto e o do segundo, não.

Esse caráter cármico da miséria é o que torna o discurso libertário do esforço individual uma crença irracional, essencialmente irracional, a ponto de ser religiosa fundamentalista (fundamentalista em relação à crença na perfeição do “mercado”, esta entidade abstrata que é mais importante que pessoas, na visão libertária).

Porém, em um mundo reverso, no qual as pessoas fossem julgadas pelo que são, e não pelo que têm, ainda existiria injustiça equivalente. Porque pessoas trabalhadoras e competentes, que se esforçaram para ganhar muito dinheiro, ainda seriam vistas de forma inferior a outras que tivessem talentos, beleza, ou outras coisas que não podem exatamente ser ganhadas. E esta desigualdade inerente seria ainda pior do que a existente em nossa sociedade do “ter em vez de ser” porque aquilo que somos é algo muitas vezes inato, ou fruto de processos longos, sobre os quais não temos nenhum controle. Como explicar para um garoto que ele é tido como socialmente inferior por ser menos bonito ou menos inteligente? Na minha opinião, não há diferença entre essa explicação e alguma outra, segundo a qual a inferioridade resultaria da etnia ou  da orientação sexual. Ambos os extremos são errados. Nem o ter e nem o ser deveriam determinar parâmetros para a injustiça. Como diziam os romanos, a virtude está no meio.

Há que se dizer, também, que a carência é algo relativo: alguns carecem de pão, outros de colares de diamantes. Alguns se sentem o máximo por comerem num restaurante junto com a classe média, outros invejam o Rolls-Royce do vizinho mesmo tendo um Camaro amarelo na própria garagem. A insatisfação não é racional. Por isso o crime não está restrito aos pobres, que “invejam” aos ricos e por isso votam em candidatos “comunistas” que os expropriarão (outra boçalidade libertária), mas se propaga por toda a sociedade, mudando apenas o tipo de crime. Certamente uma pessoa inculta tenderá a compensar suas carências de forma violenta, cometendo um latrocínio, enquanto outra mais culta as compensará de forma não violenta, cometendo uma fraude. Mas a imprensa só enxerga sangue, não enxerga sangrias contábeis. Por isso hediondo é o estupro da patricinha pelo menino do morro, mas o desvio por um político ou empresário de milhões de reais que seriam destinados à habitação popular é tratado como um pecadilho.

Existe um problema, também, com os sistemas de correção desta injustiça, quando eles absolutizam um lado. Como a injustiça é inerente a qualquer sistema fundamentalista (de mercado ou de valores) e o equilíbrio do "meio" é difícil, o resultante é que todas as sociedades serão injustas em certa medida, e o que manterá a paz da sociedade será uma ideologia que ensine as pessoas a se conformarem com as diferenças. Para que isso funcione é preciso que as diferenças não sejam grandes demais (para que as pessoas consigam desconsiderá-las como exceções ou mesmo nem enxergá-las) e que as ideologias sejam razoavelmente igualitárias (seja no lado social democrata, seja no lado cristão ou budista ou sei lá o que). É preciso também que exista uma forma de controle da própria sociedade sobre si, através das instituições espontâneas, como a família, os amigos, os clubes, os grupos etc. Instituições que dependem de um nível de interrelacionamento entre as pessoas que parece impossível no mundo superpopuloso e egoísta em que vivemos.

Então, a causa da violência é complexa, mas evidente. Temos pessoas frustradas por suas carências (absolutas ou relativas), vivendo em um mundo no qual não têm de prestar contas a ninguém e, por isso, acham que podem fazer tudo impunemente. Isso é explosivo porque elas tentarão suprir suas carências, materiais ou afetivas, rompendo as regras do convívio social. Isso funciona em todas as sociedades, variando apenas a frequência. O garoto que estupra a patricinha está, muitas vezes, se rebelando contra  a falta de oportunidades reprodutivas que a sociedade lhe oferece: evolutivamente falando, é melhor engravidá-la hoje do que trabalhar uma vida para, talvez, tentar fazer isso depois de velho. O instintos humanos não conhecem o conceito de futuro.

Se quisermos reduzir a violência, precisamos reduzir a pressão sobre o indivíduo, mantida pela desigualdade (mesmo que uma desigualdade fútil entre marcas de carro), aumentar a coesão social e diminuir a sensação de liberdade individual que existe nas grandes metrópoles. Precisamos de uma ideologia que pregue a harmonia e a solidariedade entre os indivíduos, e não o direito dos vencedores a obterem supremacia sobre os vencidos. Precisamos diminuir a escala das instâncias de poder, fazendo a sociedade funcionar a partir da base, e não a partir de cima. Eleger os líderes comunitários antes de elegermos o prefeito. Substituir a partidarização em larga escala, que reduz as ideologias a marcas de sabão, pela organização das pessoas em seus locais de trabalho, em suas ruas, em suas famílias, em suas escolas. Dirão que proponho uma “sovietização”. Não tenho medo da palavra. A ideia essencial era boa, não se pode culpar uma ideia por ter sido mal interpretada ou mal implementada.

Mais Radicais ou Mais Violentos?

Quando eu era adolescente a gíria da moda era «radical». Promovida pela poderosa Rede Globo de Televisão através de programas como o «Armação Ilimitada», esta gíria contaminou-nos de tal forma que teve seu sentido original pervertido. Em vez de algo ligado à base, à raiz, tornou-se algo arriscado, temerário. Terá sido intencional? Terá havido um objetivo de fazer uma confusão entre ideologias «radicais» e esportes «radicais» enfatizando em ambos o perigo? Em se tratando de nossos canais de televisão, nada é por acaso.

De lá para cá, de «radicalismo» em radicalismo fomos perdendo a noção da fidelidade aos objetivos originais, às teses básicas. Nossos partidões não têm ideias, não têm programas definidos. Nós mesmos não temos uma coisa nem outra. Desenraizados, sofremos com qualquer ventania, podemos ser levados pela primeira enxurrada.

Mas não é preciso ter um nome para algo existir. Não vivemos num mundo mágico criado pelas palavras. A Novilíngua imposta pelos meios de comunicação pode dificultar-nos discutir sobre os temas mais profundos, mais próximos às raízes que nutrem e fixam. Mas não nos impede que as raízes, mesmo débeis, ainda existam. Raízes podres, mas raízes.

A desideologização da juventude nos reduziu ao que vemos: egoístas e imediatistas, voltados sempre para satisfações hedonistas. Esta juventude, na qual não me reconheço, sem possuir em si a radicalidade do diagnóstico, a radicalidade da compreensão, a radicalidade da experiência; vive a violência, verbal e física, de projetar um mundo à medida de seus delírios.

Estamos cada vez mais violentos, embora não exatamente radicais. Não posso usar o respeitável adjetivo para me referir a quem brande cegamente o seu punho. O radical não é um fanático e nem sociopata. O radical é um desesperado pela justiça que busca um alvo imediato, uma meta factível, primeira de uma série a perseguir na reforma do mundo.

Estamos mais violentos quando mendigos são queimados, brigas entre torcidas acontecem mesmo quando as torcidas são «facções» de um mesmo time, recrudescem os crimes sexuais, prolifera o discurso do ódio (racial, de gênero ou religioso). Essa violência choca o ovo da serpente que já mordeu países muito mais cultos e conscientes do que nós.

Infelizmente eu não vejo caminho. A solidão não oferece alternativas diante da injustiça. Isolados somos ilhas, somos fragmentos. Devíamos unir-nos, em torno de qualquer bandeira, vermelha ou não, que simbolize algo diferente do roubo institucionalizado, da opressão pela força, do estupro, do fanatismo, do obscurantismo e da humilhação. Sofremos por não conseguir, porque quando o mal consegue, não precisa conseguir muito. Poucos e pequenos grupos que se unem na violência causam mais dor do que inúmeros e imensos grupos de bondade. A bondade precisa de continuidade, a violência apenas precisa ser pontual. Lembramos da morte que houve, não das vidas que continuam.

Deveríamos Declarar Guerra Total às Drogas?

Hoje tive a oportunidade de encontrar, compartilhado por um amigo virtual no Google Plus, um artigo de autoria de Richard Branson, o milionário dono do conglomerado de comunicações e transportes Virgin defendendo o fim da guerra às drogas. Após ler a opinião que ele expressou, fiquei seriamente inclinado a duvidar dos resultados, mas uma dose salutar de ceticismo precisa ser controlada para não descambar no descarte de informações que vão contra aquilo que chamamos de «bom senso» e que, na maioria das vezes, é apenas o condicionamento relacionado aos nossos preconceitos e, em nome disso, decidi que precisava refletir mais sobre o tema, não apenas checando as informações apresentadas por ele em defesa de sua opinião, mas buscando também o contradito.

Não gosto muito de iniciar este tipo de empreitada porque, cidadão do interior que sou, sofro de sérias limitações para empreender esse tipo de pesquisa fora da internet, mas a grande rede me permite ter acesso a informações que eu nem sonharia ter há cinquenta anos — e por causa disso eu me animei a fazer a pesquisa.

Sempre foi minha convicção que o uso de qualquer tipo de droga é uma ocorrência altamente indesejável em qualquer sociedade e que, por esta razão, deve ser severamente combatido. Eu costumava fazer uma analogia com crimes como o estupro e o assassinato: é impossível erradicar completamente a sua ocorrência sem que se pratique um grau tão alto de restrição das liberdades do cidadão, que a obsessão pela profilaxia acaba se tornando uma doença. Mesmo assim, eu pensava, existe um mínimo tolerável de estupro e assassinato em uma sociedade civilizada, e este só poderia ser atingido através do policiamento preventivo, visto que tais crimes não estariam, na minha opinião, relacionados a nenhum tipo de problema econômico. Da mesma forma, o uso de drogas seria algo a se combater pela repressão, pois tais vícios supostamente surgiriam da combinação da imaturidade ou fragilidade da vítima com a presença de fornecedores. Eliminando os fornecedores, as vítimas frágeis não estariam expostas a essa forma de auto-engano, e acabariam recorrendo a outros menos nocivos, como chocolate ou música pop.

Sim, era uma opinião ingênua. Não nego. Esta opinião começou a mudar há cerca de um mês quando me deparei na internet com referências a um novo tipo de droga que está em voga na Rússia. Ao pesquisar sobre o terrível Krokodil eu me dei conta de que as minhas certezas não eram suficientes para explicar este fenômeno, tão real quanto terrível, que está destruindo as vidas de tantos jovens daquele país. Ninguém usa algo assim por razões hedonistas ou pressão de grupo. Não existe busca desenfreada pelo prazer e nem desejo de pertencimento que leve uma pessoa a destruir-se de forma tão pavorosa e rápida. Obviamente aquelas pessoas eram vítimas (disso eu nunca duvidei) de algo mais forte do que elas e que não vinha diretamente delas, nenhum tipo de «pecado» ou «falha de caráter» poderia estar envolvido.

Escrevendo para este blog, não tenho o hábito de dar referências em ordem e citar links daqui e daí. Meus leitores, imagino, são suficientemente safos para acharem a informação no Oráculo. Se algo não está nas grandes ferramentas de busca, logo estará. Krokodil está, e não é mentira. Aliás, advirto ao leitor que NÃO PROCURE informações sobre esta droga sem previamente desabilitar o carregamento automático de imagens pelo navegador. Existem coisas que são agressivas demais para muitas pessoas, existem coisas que você simplesmente não quer ver. Então não tente ser corajoso sem necessidade: se as fotos não lhe chocarem é porque você é um idiota insensível.1Minhas pesquisas sobre a famigerada droga russa me levaram a uma série de descobertas interessantes, que podem ser resumidas nos seguintes pontos.

Há algumas décadas, aproximadamente desde os anos 1970, a Rússia, então parte da U.R.S.S., era um dos países do mundo com maior taxa de consumo de opióides. Isso tinha a ver com a dificuldade de acesso a drogas da moda no Ocidente capitalista, como a maconha e a cocaína. Ao mesmo tempo, era muito fácil, devido à proximidade geográfica, obter haxixe e ópio de lugares como Afeganistão, Paquistão e Índia. Alguns analistas chegam a dizer que a invasão soviética do Afeganistão, em 1979, teve como principal objetivo tentar acabar com as máfias de traficantes afegãos, que enchiam as fronteiras soviéticas de todo tipo de narcótico ilegal que, posteriormente, se espalhava pelo país através de suas rápidas e eficientes ferrovias.

O combate às drogas na U.R.S.S. era feito pelo lado da criminalização tanto do fornecimento quanto do uso. Traficantes e usuários eram igualmente enviados para campos de trabalhos forçados, onde supostamente seriam reeducados para uma vida produtiva a serviço do capitalismo. A guerra do Afeganistão, porém, piorou muito a situação, porque os jovens recrutas que voltavam da guerra, muitos deles mutilados ou traumatizados, haviam adquirido a toxicomania. Com isso o número de usuários aumentou e o fluxo de ópio cresceu. Em um país de população altamente escolarizada—onde engenheiros, químicos e físicos podiam ser achados às dezenas em qualquer cidadezinha— o passo seguinte foi a industrialização do ópio, criando uma tradição tipicamente soviética de consumo de heroína.

A retirada do Afeganistão não modificou muito a situação porque a droga continuou fluindo fácil, diante da crescente incapacidade da U.R.S.S. em vigiar suas fronteiras. Oficiais empobrecidos em postos de fronteira isolados eram alvo fácil para a corrupção, que lhes permitia complementar a magra renda, ou para a intimidação, contra a qual pouco podiam fazer pois, possivelmente, os oficiais de nível acima já estariam devidamente comprados pelos traficantes. Assim, desde o início da definitiva derrocada soviética (que pode ser assinalada por volta de 1985) a oferta de heroína barata se manteve na região. Alguns países que se separaram da U.R.S.S. obtiveram relativo sucesso em controlar o problema, notadamente os países bálticos, mas em outros lugares o uso de heroína adquiriu o caráter de epidemia.

Mas tudo sempre pode piorar. A progressiva ascensão de Vladimir Putin trouxe à Rússia um moderado alento econômico—derivado, principalmente, de um processo de conserto das funções básicas do Estado, ainda que sob um prisma autoritário—mas ressuscitou velhos equívocos, herdados do comunismo. A política de repressão a todo custo, por exemplo, incluindo até mesmo a execução sumária de quem for surpreendido com certa quantia de drogas. Ao mesmo tempo em que muitos traficantes comiam tundra pela raiz, o enxugamento eficiente do exército e da polícia de fronteira conseguiu cortar a rede de suprimento de ópio, ou pelo menos a enfraqueceu significativamente, a ponto de o preço da heroína ter se multiplicado várias vezes desde a subida de Putin ao poder, e notoriamente nos últimos quatro anos. Mas este processo não foi acompanhado de NENHUM tipo de programa de apoio aos viciados já existentes.

Na Rússia não há tratamento público de saúde para dependentes químicos, a política de «redução de danos» é considerada crime, o internamento de viciados só pode ser feito por determinação policial ou voluntariamente pelo próprio viciado, medicamentos usados no ocidente para tratamento de dependência química (como a metadona) são por lá considerados como droga também e, para coroar o circo de horrores, em vez de programas de reinserção social dos jovens recuperados, existe um forte preconceito contra eles, que se prolonga, na maioria dos casos, por toda a vida. Na grande maioria dos casos o tratamento é feito por instituições privadas, geralmente religiosas e geralmente estrangeiras (americanas principalmente, vinculadas à Igreja Batista ou às Testemunhas de Jeová). Isto gera mais uma camada de desconfiança: a Igreja Ortodoxa, favorecida pelo Estado, vê nestes centros de tratamento uma mera forma de proselitismo, uma tentativa de ganhar espaço na sociedade russa à revelia de suas tradições e costumes. O Estado, muito interessado ultimamente em manter boas relações com a Igreja Ortodoxa, fiscaliza de perto estas entidades religiosas e muitas vezes as manda fechar por mínimas infrações, devolvendo à rua os doentes em tratamento (vale lembrar que os doentes que lá estão são aqueles que querem tratar-se).

Talvez em nenhum outro país do mundo a situação do dependente químico seja tão desesperadora. Ao mesmo tempo está inserido em uma cultura na qual o acesso às drogas mais pesadas é mais fácil do que o acesso a drogas leves, como a maconha, e também está completamente abandonado pelo Estado e pela sua Igreja quando se vicia. Um uso ocasional, que muitas vezes não é nem voluntário,2 o atira em uma espiral descendente que só termina com a sua morte, a menos que tenha a sorte de encontrar uma entidade religiosa que lhe dê um tratamento em torno de sua alma — e tenha ainda mais sorte de concluir o tratamento sem que a polícia mande fechar a clínica. E então, de repente, o Estado reprime com força o tráfico de ópio e provoca uma explosão inflacionária do preço da heroína (que deriva dele). O que acontece num caso desses?

Num primeiro momento a máfia corta custos, fazendo dispensas de seus «quadros». Estas pessoas rejeitadas pelo crime organizado, saídas da prostituição ou de uma vida de crimes, estão completamente à mercê de seu vício e não têm outra saída a não ser roubar para obter o dinheiro com que comprar a heroína cada vez mais cara, e rara. O dilema é o mesmo dos usuários espontâneos.3Esta situação produz uma forte pressão na violência urbana, onde a polícia então atua de forma também violenta, resultando nas lindas cenas de «polícia russa» que você encontra no YouTube e outros lugares. A raridade da heroína, por sua vez, faz com que mesmo quem tenha dinheiro fique sem obtê-la, quanto mais os pobres que só conseguem juntar alguns caraminguás ocasioalmente. Então, os russos, que também têm seu «jeitinho», improvisam. E o fruto desta improvisação é o Krokodil.

Na Rússia, como em muitos países do mundo, é possível comprar analgésicos e anticongestionantes nasais sem receita médica. Não vou mencionar aqui quais os medicamentos envolvidos, mas quem estiver interessado em saber rapidamente descobrirá do que se trata. Os viciados, sem ter como conseguir heroína, mas muito bem informados graças à presença entre eles de pessoas com formação universitária, resolvem produzir desomorfina caseira para chaparem barato.

A desomorfina é uma substância conhecida desde os anos 1930, quando foi inventada por um químico americano. O processo de sua obtenção foi patenteado, mas a patente já expirou há décadas, resultando na divulgação de inúmeros métodos para obtê-la, inclusive o método original. Os russos desenvolveram um método novo, que envolve pílulas para enxaqueca, descongestionante nasal, gasolina, fósforos, fluido de isqueiro e uma série de outras substâncias de gelar a espinha. Submetidas a um processo caseiro de preparo que os viciados chamam de «cozimento», o resultado é um líquido ralo e acastanhado, rico em desomorfina (que é bem menos poderosa do que a heroína). Este líquido é injetado direto na veia, produzindo um transe profundo que dura entre sessenta e noventa minutos. Depois vem uma longa crise de desintoxicação que, supondo que o usuário não volte a injetar-se, poderá prolongar-se por até quarenta dias. Os longos efeitos indesejáveis são a principal razão pela qual a desomorfina nunca fora usada como droga recreacional.

Se injetar-se com uma substância extremamente tóxica (no sentido de venenosa) já não fosse ruim o bastante, ainda tem a questão das impurezas produzidas durante o cozimento doméstico (e não esterilizado) do Krokodil e o problema menor da falta de esterilização das agulhas e seringas usadas para a injeção. Estes três fatores resultam no lado realmente tétrico do uso desta droga.

Além do fato de que desomorfina é um opióide venenoso (que muitas vezes mata o usuário já na primeira aplicação), as impurezas do Krokodil são ainda mais perigosas e o resultado é uma impressionante degradação física e mental do paciente, que morre dentro de, no máximo, dois anos, e fica inválido em poucos meses.

A morte geralmente ocorre por acidentes vasculares, visto que as impurezas sólidas do Krokodil geram tromboses ou isquemias em vasos capilares. Quando isto ocorre nas extremidades, dá-se a necrose de tecidos como as pontas dos dedos ou as orelhas. Quando ocorre no cérebro a pessoa pode morrer ou sofrer um acidente vascular que a incapacita. Se nada disso ocorrer na fase inicial do uso, o dependente poderá morrer de septicemia causada pela contaminação de seu sangue pelas impurezas da droga e das seringas ou causada pela consequência mais nefasta e impressionante do uso do Krokodil: a necrose ou gangrena da pele e dos tecidos musculares nas regiões onde é feita a aplicação. Quando isto ocorre o paciente já está tão lesionado em seu sistema nervoso, e a região já foi tão afetada por sua vez, que a horrível ferida que se abre é indolor. A consequência, porém, é inominável: a carne se solta dos ossos e membros inteiros ficam reduzidos a esqueletos. A única solução é a amputação, que sequer requer anestesia, como mostra um famoso (e cavernoso) vídeo do YouTube.

Cheguei até aqui contando a história do Krokodil para voltar a falar sobre as ideias de Richard Branson. O ciclo se completa quando você resume o caso soviético, antes de compará-lo ao caso de Portugal, que o milionário cita em seu blog.

Na Rússia a repressão de todo tipo de droga levou os usuários a começarem mais cedo em drogas pesadas, não o contrário. A repressão dificulta o tratamento dos que desejam tratar-se, criminalizando o uso. A repressão sobre o usuário ignora que muitos se tornaram viciados contra sua vontade, em um país onde o crime organizado é quase uma instituição. Ignora também os tratamentos desenvolvidos no Ocidente e, apesar de supostamente a U.R.S.S. ter sido um Estado ateu, desde o início até hoje a política antidrogas foi condicionada por valores moralistas, tanto que a esclerótica Igreja Ortodoxa os abraçou. O resultado do «sucesso» da repressão recente ao tráfico (não há como negar que Putin obteve um grande «sucesso» ao fazer a heroína rarear em toda parte na Rússia) levou um grande número de usuários a uma situação de grande sofrimento, pois não se larga heroína da noite para o dia, com base apenas na «força de vontade». E o fim desse novelo é a invenção do Krokodil, a droga dos pobres. A droga de quem não se importa mais em morrer ou transformar-se em um esqueleto humano.

Richard Branson alude à política antidrogas de Portugal, que descriminalizou o uso e transferiu a abordagem do Ministério da Justiça para o Ministério da Saúde. Por volta da virada do milênio, a percentagem de usuários regulares de drogas em Portugal havia batido a casa de 1% da população. Com dez anos da nova política o país ainda tem um alto índice de pessoas que experimentaram drogas, embora ainda menor que o dos E.U.A., mas uma percentagem menor de viciados. A política pode não ter erradicado o uso de drogas, mas produziu uma situação de equilíbrio com a qual o dano social é minimizado. Na Rússia, onde se estima que até 3 milhões de pessoas, ou 2% da população, seja usuária regular de algum tipo de substância, o combate policial às drogas produziu o Krokodil.

Eu nem vou mais comentar sobre que argumentos exatamente o Richard Branson usou. Não precisa. Eu ia até comentar sobre a hipocrisia dos que defendem o livre arbítrio dos usuários de crack que, coitadinhos, são internados à força pelo governo fascista do Rio de Janeiro, em clara violação de seus «direitos humanos». Mas não precisa. Não tanto porque o texto ficou longo, mas porque tudo que eu precisava ter dito hoje eu sinto que já disse.

P.S. — Não estrague seu ano novo procurando imagens do Krokodil. Eu avisei.

1 Correndo o risco de cometer a «falácia etimológica» que tanto celeuma causou recentemente no «movimento ateu», esclareço que a palavra «idiota» não significa (ou pelo menos não significava originalmente) uma pessoa estúpida, mas uma pessoa egoísta, que não se sensibilizava com as questões coletivas. Na democracia grega, o cidadão que se abstinha de participar das assembleias era chamado assim.

2 Existem relatos de casos nos quais a máfia russa (que dá medo nos chefões italianos) injeta heroína à força em jovens para viciá-los. Através desta prática a máfia adquire o controle da pessoa, ao controlar o suprimento de heroína a que ela tem acesso. Esta tática é usada principalmente para controlar prostitutas estrangeiras ou jovens migrantes internos que são empregados como assassinos de aluguel.

3 Estou chamando de «usuários espontâneos» aqueles que não foram induzidos forçosamente ao vício, ou seja, ao usuário «comum».

O Verdadeiro Autor Marginal

Post descaradamente copiado do meu outro blog, Letras Elétricas.

Você provavelmente nunca ouviu falar de Charles Kembo. Acontece que ele se tornou hoje o pivô de uma das notícias literárias mais interessantes do ano, ao tornar-se o autor do livro “A Trindade dos Super-Garotos, Livro I: A Busca pela Água”. Aparentemente não há razão alguma para que o caso seja “interessante”, mas o caso merece atenção.

Antes de tudo, é preciso dizer que a obra citada é bem justamente o que parece: uma trilogia de ficção científica protagonizada por jovens que salvarão o mundo de uma catástrofe. Mais do mesmo, óbvio. Você já leu esta história tantas vezes que não precisa ler mais esta para saber quase em detalhes tudo que acontecerá. Eu não li, mas as poucas informações que pude obter sobre o livro (que não pretendo comprar, pois meu dinheiro não dá em árvore) me fazem supor que os jovens correspondem a todos os modelos prefabricados de personagens heroicos adolescentes que aparecem nos livros mais vendidos atualmente. Portanto, a menos que Charles Kembo seja um artista genial com as palavras, o livro dele é provavelmente ruim. Acontece que o título por ele escolhido para o primeiro volume de sua trilogia não sugere que ele seja.

Ademais, o canal através do qual esta obra chegou a ser publicada não é nem um pouco recomendável: trata-se da famigerada PublishAmerica (cujo link não incluo para não gerar receita para picaretas), famosa por ter aceitado um pastiche intitulado “Atlanta Nights”, criado por alguns autores filiados à Associação Americana de Autores de Ficção e Fantasia (SFWA), mais um programa de computador. O caso está arquivado aqui (em inglês, sorry). Mas incluo um resumo abaixo, para benefício dos que não sabem inglês (e também da preguiça peluda que em que às vezes certos leitores se metamorfoseiam em noites de lua, cheia ou não, em uma estranha licantropia). Se você já conhece o caso, preferiu ler o texto que está no link ou se simplesmente confia em minha palavra, de que a PublishAmerica deveria chamar-se PublishIt!, salte os parágrafos comentados a seguir.

Muitos autores filiados à SFWA (e também jovens autores não filiados, mas que buscavam conselho) reclamavam das práticas da PublishAmerica, uma editora de fachada que se fazia passar por “tradicional”, mas que apenas arrancava dinheiro dos ingênuos. Esse tipo de empresa é chamada nos EUA de “author mill” (moinho de autores).
As reclamações variavam desde a qualidade da revisão e do projeto gráfico até à falta de promoção, passando pelos altos preços cobrados dos autores (você que escreve deve ter encontrado algo parecido aqui no Brasil, não?). Diante da divulgação destas reclamações pela SFWA (em sua página Writers Beware, ou “Atenção Autores”), a PublishAmerica defendeu-se atacando, de forma arrasadora, não apenas os autores reclamantes, mas todos os autores de ficção científica e fantasia. Segundo a PublishAmerica, o insucesso dos autores não se devia à falhas da editora, mas à falta generalizada de qualidade das obras destes gêneros, que, por serem relativamente fáceis de escrever, atraem um grande número de incompetentes, que se escondem atrás da fantasia para não terem que fazer pesquisa e nem preocupar-se com a verossimilhança de suas histórias. Ainda segundo a editora, os altos preços cobrados eram destinados especificamente aos autores de tais gêneros, pois em relação a eles não havia a menor possibilidade de sucesso devido à péssima qualidade das obras, e o dinheiro assim obtido seria investido nas carreiras de outros autores, mais talentosos.
Diante destas acusações graves e arrasadoras (com as quais eu concordo em parte, mas não em relação a todo e qualquer autor de ficção científica e fantasia), a SFWA se propôs a uma vingança: humilhar a PA provando que eles publicariam qualquer coisa desde que o autor estivesse disposto a pagar, e publicariam não apenas sem revisar, mas até sem ler.
Os autores se propuseram a escrever um livro que não apenas fosse terrivelmente ruim (mal escrito e incoerente), mas também cheio de erros óbvios: dois capítulos com a mesma numeração, um número de capítulo faltando, um capítulo com numeração menor que o anterior, personagens que não apenas morrem e depois reaparecem, mas até mesmo mudam de sexo de uma página para outra. Um dos capítulos foi produzido através de um programa de computador chamado Bonsai Text Generator, que produz frases gramaticalmente corretas, mas absolutamente sem sentido, a partir de um outro texto longo dado como amostra.
A obra assim produzida foi submetida à apreciação da PublishAmerica e não apenas foi aceita (com as congratulações e elogios de praxe, acompanhadas da “perspectiva de tornar-se um sucesso”) como foi supostamente “revisada” e “formatada” para impressão. Tendo coletado as provas (através de comunicações via e-mail) os autores foram aconselhados por um advogado a não assinar o contrato (pois incorreriam em falsidade ideológica) que permitiria a publicação (pois causariam prejuízo intencional). Preferiram divulgar amplamente o caso, achando que haviam obtido sua vingança.
Infelizmente, o mundo não é justo. Nasce um idiota a cada dia, e o fluxo contínuo de idiotas mantém a PublishAmerica funcionando e ganhando dinheiro até hoje. Talvez a PublishAmerica tivesse razão.

O que torna o caso de Charles Kembo literariamente interessante não são os aspectos intrínsecos de sua obra (que é provavelmente lixo), mas as circunstâncias que envolvem o autor. Se você já ouviu falar de “literatura marginal”, deveria engolir em seco, pois trata-se de muito mais do que isso: Charles Kembo é um assassino condenado à prisão perpétua por vários crimes ocorridos entre 2002 e 2005, um perfeito exemplar da fauna norte-americana de serial killers.

Por chocante que esta revelação possa parecer, ela traz à baila um debate importante para a literatura: até que ponto devemos separar a vida e a obra de um indivíduo. Recentemente, no Brasil, houve um sério debate sobre a proibição (ou pelo menos a restrição da divulgação) da obra infantil de Monteiro Lobato porque o autor era manifestamente racista. Charles Kembo é comprovadamente um assassino cruel e calculista, sem nenhum remorso. Isto, claro, é muito pior do que ser meramente racista. Ainda mais: ele está vivo, pronto para causar mais mortes se sair da cadeia, enquanto Monteiro Lobato, do túmulo, não pode produzir mais nenhuma frase racista além das que cometeu em vida. Quando do debate sobre a obra do criador do Sítio do Picapau Amarelo, defendi a tese de que as obras deviam ser analisadas em seu contexto, e não à luz dos defeitos do homem que as produziu, pois se formos policiar o caráter dos indivíduos para julgar o que fazem, então praticamente não haverá obra neste mundo que possa ser aceita, pois todos são, de alguma forma, moralmente reprováveis, ainda que apenas pelo bolinho que roubaram da vendedora ambulante quando crianças. Mas será que eu tenho a coragem de pregar o mesmo no caso de um assassino que se torna escritor?

No caso em questão eu não preciso me preocupar, porque o livro escrito pelo serial killer é uma porcaria óbvia. Ou melhor, pensando bem, preciso preocupar-me sim, porque a história recente nos tem mostrado que porcarias óbvias estão se transformando em livros muito vendidos e influentes. Não cito nomes porque não estou a fim de levar pedradas hoje, mas provavelmente você que me lê deve ter na cabeceira pelo menos uma obra que, se algum dia acumular mais leituras, se envergonhará de admitir que leu.

Então, se a falta de qualidade da obra não nos permite afastar a possibilidade de que ela faça sucesso (da mesma forma que a picaretice da PublishAmerica não a impede de continuar tendo um grande número de clientes até hoje), precisamos analisar o caso com atenção, e três perguntas se configuram:

1 - É aceitável que um criminoso tente tornar-se um artista? Vivemos a ilusão de que a cadeia é uma instituição que se propõe a regenerar o criminoso. Ao mesmo tempo convivemos com a existência no mundo de penas capitais e de prisão perpétua, que negam a possibilidade de regeneração de alguns criminosos ou, alternativamente, negam a aceitabilidade de que, tendo cometido certos crimes especialmente graves, alguém tenha o direito de querer regenerar-se. Existem até estudos psiquiátricos fundamentando que certos indivíduos, os tais “sociopatas” seriam criminosos incuráveis. Temos então duas posições possíveis, antagônicas.

A primeira nos diz que o indivíduo que comete um crime, qualquer crime, tem o direito de regenerar-se e eventualmente retornar ao convívio da sociedade, tendo cumprido sua pena. Se aceitarmos esta tese como correta, então não podemos negar a Charles Kembo o direito de aspirar a ser um escritor. Afinal, escrever é um tipo de trabalho (ainda que muita gente ache que não), inclusive um que tem grande potencial para utilização em tratamento psicoterápico ou psiquiátrico, devido à possibilidade que oferece de se ter acesso aos processos mentais do paciente. Permitir que um criminoso escreva é permitir que ele produz extenso material que pode ser utilizado para analisar seu comportamento e seus processos mentais, o que pode ser útil para definir se ele pode ser ressocializado.

A segunda posição nos diz que existem certos crimes para os quais não há e nem pode haver perdão ou regeneração, apenas a vingança. Você comete o tal crime e a sociedade se vinga de você, aprisionando-o pelo resto da vida em um cubículo, com acesso controlado a todas as coisas que definem a vida livre de um cidadão (ar puro, sol, liberdade de expressão, direito de ir e vir etc.), ou então matando-o de forma mais (enforcamento, apedrejamento, garroteamento, empalamento, linchamento, afogamento, sufocamento) ou menos (envenenamento, guilhotinamento, fuzilamento) dolorosa. Nesse caso a pretensão literária de um condenado à pena perpétua é uma violação de sua reclusão, e deve ser impedida.

2 - Quais os riscos envolvidos em ler uma obra produzida por um criminoso? Esta pergunta embute o conceito de que as pessoas são influenciáveis por aquilo que leem, o que eu acho correto, e que os autores conseguem fazer com que suas obras influenciem os leitores sempre em uma direção deliberada durante o ato da escrita, o que já acho altamente discutível. O grande problema com esta pergunta é que ela ignora um fato: não existe fundamentalmente nada diferente na mentalidade de um delinquente que não tenha pelo menos uma vez passado pela mente de alguém que nunca delinquiu.

A diferença é que algumas pessoas resolvem não fazer certa coisa, enquanto outras resolvem fazer. Podem existir razões que condicionam a escolha para uma direção ou para outra, mas existe também a sublimação: a possibilidade de converter um impulso destrutivo em uma ação não destrutiva. Um piromaníaco pode tornar-se um especialista em efeitos especiais, a fim de saciar sua vontade de ver as coisas queimando através da encenação de incêndios em cenários. E uma pessoa com tendências sádicas pode contentar-se em escrever livros profundamente violentos, detalhando torturas e mutilações espantosas. Nesse sentido, pelo pouco que li dos dois, existe mais violência na obra de um autor incensado, como Chuck Palahniuk, do que na tímida obra infanto-juvenil de Charles Kembo. Então é óbvio que o perigo de uma obra escrita por um assassino em série não está no seu conteúdo, visto que obras ainda mais violentas podem ser produzidas por pessoas de bem, que nunca fizeram mal a uma mosca. Se chegamos a esse ponto do raciocínio, fica a dúvida: qual seria, então a natureza do perigo envolvido na leitura de uma tal obra?

3 - Quais as motivações pelas quais Charles Kembo escreveu sua obra? Esta terceira pergunta é a consequência lógica da dúvida mencionada no item anterior. Se nos parece óbvio que o livro escrito por um criminoso violento e impiedoso não possui elementos tais, evidentemente isso se deve às motivações pelas quais a obra foi escrita. Quando Charles Kembo estava matando pessoas (sempre brancas, adultas e de classe média para baixo) ele tinha um determinado recado para a sociedade. Agora que ele está escrevendo, pode ser que ele tenha outro recado, relacionado ou não. Se existe um recado subjacente, então existe um perigo também: poderia o autor estar querendo passar algum tipo de mensagem codificada para alguém fora da cadeia? Ou está apenas querendo atrair simpatia para sua causa? Não custa lembrar que o famoso “Maníaco do Parque” pôde escolher uma esposa entre centenas de candidatas, jovens bonitas e estudadas — e não precisou escrever nada.

Penso que existem no mundo muitos livros mais perigosos do que qualquer obra escrita por um assassino confesso e condenado, como Charles Kembo (por quem, admito, desenvolvi certa simpatia ao escrever estes comentários). O autor dos “Protocolos dos Sábios de Sião” foi um funcionário público respeitável, que provavelmente morreu sem saber das consequências nefastas de seu patético esforço para convencer o povo russo de que todos os males do país eram resultado de um complô secreto dos judeus. É espantoso que tal livro tenha ensejado uma guerra mundial e justificado o massacre de dezenas de milhões de judeus ao longo do século XX (não estou me limitando aos judeus mortos pela Alemanha nazista, mas incluindo os linchados ou executados pela URSS, pela Turquia, pelas nações árabes após a partilha da Palestina e até pelos EUA). Dificilmente a obra humilde de Charles Kembo provocará algo de tal gravidade — e eu duvido muito que seja esta a sua intenção, a menos que ele tenha uma personalidade de vilão de desenho animado.

Como você já deve ter percebido, as respostas para estas três perguntas são difíceis. Para a primeira é possível simplesmente deixar que cada leitor escolha uma, de acordo com suas opiniões. Mas para as duas outras não há como achar explicação, somente poderíamos ter resposta se pudéssemos ler a mente do autor.

O resultado desta falta de solução é o espanto com que contemplamos o esforço literário de um condenado por tantas mortes. Cabe perguntar que tipo de gente se interessaria em ler tal livro? Que tipo de gente lê livros apelativos, pornográficos, violentos? Que tipo de gente desenvolve simpatia por criminosos (a ponto até de querer casar com eles)? Que mundo é esse, meu Deus?

Eu só sei de uma coisa: continuo mantendo a minha opinião. A obra é uma coisa separada do artista. Não me importa se quem a produziu era o maior dos depravados, desde que a obra produzida seja boa. Eu até acho aceitável rejeitar obras que tenham sido produzidas especificamente através do crime (uma obra escrita, por exemplo, com o sangue das vítimas do assassino, ou o seu diário “de campo” seriam totalmente inaceitáveis), mas se a obra não está diretamente conectada, na posição de “resultado” com o ato do criminoso, que mal há nela? Muitos autores foram, em algum momento de suas vidas, condenados (alguns até a morte). Tal condenação tem efeito retroativo para desqualificar as suas obras? Ou somente as obras produzidas depois dos crimes são “ruins”. Uma pessoa que comete crimes (especialmente crimes em série) não tivera sempre dentro de si o impulso para o mal?

Se não quisermos ter que responder a estas questões bizantinas, teremos que nos contentar com a solução pela simplicidade: julgue a obra por si, de forma que o autor possa até ser elevado ou rebaixado por ela, mas não deixemos que os erros ou acertos do autor interfiram nos erros ou acertos de sua obra. Pois, não custa lembrar, aquilo que é válido para o mal igualmente vale para o bem: devemos ler avidamente os livros péssimos escritos por pessoas de ótimo caráter?