Zeitgeist Desmascarado

Artigo anônimo publicado no blogue socialista britânico “Third Estate”. Traduzido por José Geraldo Gouvêa (com ajuda do Google Translator, dada a urgência). Todas as notas de rodapé escritas pelo tradutor.

Esta tradução é a primeira de uma série que contribuirei ao blogue Universo Racionalista com o objetivo de informar à comunidade cética nacional sobre o modo como o filme Zeitgeist e o movi­mento derivado a partir dele são vistos e analisados pelos sítios de movimentos céticos gringos. Praticamente não existem análises independentes em português sobre o filme. É surpreendente que, quase quatro anos após minhas críticas iniciais ao filme Zeitgeist, não tenha surgido na blogosfera cética brasileira nenhuma análise mais profunda do filme — em vez disso vão surgindo simpatizantes do Movimento Zeitgeist tentando usar os blogues céticos para difundir suas ideias.

Acredito que parte do problema deriva da falta de respeito com que, tradicionalmente, os céticos brasileiros encaram as ciências humanas, a História principalmente. O seu conceito delas já é previamente direcionado a considerá-las inconfiáveis e presas da ideologia (no pior dos casos o indivíduo considerará que as ciências sociais são marxistas ou parte de um Grande Plano frustrado de implantação do comunismo) — o que explica a popularidade de “filósofos” como Olavo de Carvalho. Temos um caldo de cultura favorável à desqualificação do conhecimento e receptivo a teorias de conspiração que consigam se disfarçar de iconoclasmo

Espero que a continuidade deste projeto sirva para ensejar um debate mais maduro sobre o filme Zeitgeist e o Movimento criado a partir dele. Um debate no qual as estratégias diversionistas e as falácias sejam desmascaradas honestamente, e do qual os leitores de mente aberta saiam com mais conhecimento do que entraram.

Links importantes

  • http://thethirdestate.net/2010/03/zeitgeist-exposed/ (fonte do artigo em inglês)
  • http://www.biblebelievers.org.au/przion1.htm (edição atualizada dos Protocolos)

No romance policial clássico de Agatha Christie Os Assassinatos ABC, o detetive Hercule Poirot se sai com a seguinte frase:

Quando você menos percebe um alfinete faltando? Quando se está em uma almofada de alfinetes. Quando você menos nota um assassinato específico? Quando faz parte de uma série de assassinatos relacionados.

Eu gostaria de expandir um pouco o raciocínio de Poirot:

Quando você menos nota uma teoria da conspiração extremamente perniciosa e perigosa? Quando estiver incluída em um filme de duas horas, entre muitas outras teorias da conspiração.

Ao longo do último ano um número de pessoas já me disseram que eu deveria assistir Zeitgeist: The Movie. Todas estas pessoas de esquerda ou inclinadas à esquerda, e cada uma me disse que o filme dá uma boa ideia das estruturas de poder no mundo moderno. Essas pessoas pertencem a uma grande variedade de origens e idades, algumas delas ambientalistas, algumas sindicalistas, alguns socialistas, algumas britânicas, algumas americanas. O filme alcançou índices de audiência em massa a nível mundial, com mais de 3.000.000 de pessoas assistindo-o no YouTube, e muitos mais em DVD ou Google Video. E de todas as pessoas que recomendaram o filme para mim, ninguém notou sua dependência em relação ao velho mito da “conspiração judaica mundial”. Neste artigo espero expor a relação do filme com textos e mitos antissemitas mais antigos e ver mais de perto como essas teorias são feitas para enganar os esquerdistas. Gostaria de explicar porque esse filme se tornou tão atraente para pessoas que, de outra forma, estão envolvidas no bom combate contra o capitalismo, contra a guerra e para salvar o meio ambiente. Estou particularmente interessado na relação entre o filme e um livro chamado Os Protocolos dos Sábios de Sião e com o uso de outros temas antissemitas que existiram ao longo da modernidade.1

Zeitgeist: The Movie é dividido em três partes: A primeira centra-se na relação entre a simbologia astrológica e da história de Jesus, o segundo a respeito da “verdade sobre o 11/9” e o terceiro sobre mercado financeiro internacional. Em toda a honestidade a primeira parte não tem muita importância. O argumento é que o cristianismo não é original na sua forma particular de mitologia, e em vez disso é uma reconfiguração dos mitos mais antigos focando sol deuses. Se vamos ou não tomar esse argumento como verdade tem muito pouco impacto sobre a forma como entendemos a sociedade moderna. A segunda parte do filme expõe uma teoria que 9/11 foi um trabalho interno, cometido pelo Estado americano. Muitas pessoas acreditam nisso em sério, e muita da informação é inacessível, mas o argumento que eu gostaria de fazer é que essas duas teorias da conspiração são, em muitos aspectos, sem consequências para o sentido geral do filme. Ao contrário, são usadas ​​como cortina de fumaça para justificar a difusão de material antissemita na seção final do filme.

O que São Os Protocolos dos Sábios de Sião?

Trata-se de um livro publicado pela primeira vez por volta da virada do século XX na Rússia. É um documento fraudulento e fictício, feito para ler como se fosse a troca de informações entre diver­sos grupos de judeus influentes que planejam dominar o mundo. Ele sugere que o povo judeu pre­tende dominar o mundo através de um processo de controle dos governos, da imprensa e dos ban­cos, enganando a população em geral. A alegação é de que os judeus pretendem escravizar o mundo através da criação de um “governo mundial”. É claro que o texto é profundamente antis­se­mita, e foi demonstrado várias vezes como uma falsificação,2 mas tem sido utilizado de forma con­sistente em todo desde então para justificar as atrocidades cometidas contra judeus. Além disso, continua popular em algumas partes do mundo, e entre algumas organizações de direita e grupos fascistas.3

A relação entre dois textos

É bastante fácil encontrar evidências de que há uma grande influência dos Protocolos dos Sábios de Sião sobre o conteúdo de Zeitgeist. Dá para encontrar até citações. Por exemplo, quando Zeit­geist diz que “os banqueiros internacionais têm agora uma máquina eficiente para expandir as suas ambições pessoais”, os Protocolos dizem que “as engrenagens das máquinas de todos os esta­dos são movidas pela força do motor, que está em nossas mãos, e o motor da máquina de nossos estados é o ouro”. Mas gostaria de dizer que esse tipo de crítica não vai longe o suficiente. Em vez disso gostaria de mostrar que todo o argumento da terceira seção do filme foi levantado a partir dOs Protocolos. É o mesmo argumento, muitas vezes em linguagem ligeiramente alterada, e é por isso que parece tão antissemita. Vou me concentrar em cinco aspectos particulares.

O Governo Mundial

Um dos grandes temores dos teóricos da conspiração é um governo mundial. Este ponto é expli­cado claramente na parte final do Zeitgeist em uma discussão sobre uma União da América do Norte, uma união asiática, a União Europeia, e uma União Africana. Até que, finalmente, se diz que “quando for a hora certa, elas vão se fundir e formar as fases finais do plano em que estes homens têm estado a trabalhar há mais de 60 anos: Um governo mundial… Um banco, um exér­cito, um centro de poder.” Este argumento é particularmente relacionado com a abertura do Pro­tocolo 3, em que lemos:

Hoje posso dizer que a nossa [dos judeus] meta agora está apenas a poucos passos. Resta somente um pequeno espaço a atravessar no longo caminho que temos trilhado antes que ciclo da Serpente Simbólica, por que nós simbolizamos nosso povo, seja concluído. Quando este anel se fechar, todos os Estados da Europa estarão bloqueados em seus anéis como em uma poderosa prisão.

Os Protocolos continuam no Protocolo 5:

Por todos esses meios vamos assim desgastar os goyim [não-judeus] até que eles sejam obrigados a oferecer-nos poder internacional de uma natureza que nos permitirá absor­ver todas as forças estatais do mundo e formar um Super-Governo.

O uso da guerra

Há uma seção no filme em que se afirma que as justificativas para os Estados Unidos entrarem em uma série de guerras mundiais foram orquestradas por “homens por trás do governo.” Dizem-nos que o naufrágio do Lusitânia foi planejado, que o incidente do Golfo do Tonkin nunca aconteceu, que se sabia sobre Pearl Harbor com a devida antecedência4 e é claro que 11/9 foi um trabalho interno. Diz-se que ambos os lados do conflito têm sido financiados pelos mesmos “banqueiros internacionais”. Esta seção do filme é levantada diretamente do protocolo nº 7, que diz:

Ao longo de toda a Europa, e por meio de relações na Europa, e também em outros con­tinentes, devemos criar fermentos, discórdia e hostilidade. É assim que ganhamos uma dupla vantagem. Em primeiro lugar, manter sob controle todos os países, pois bem eles sabem muito bem que temos o poder de criar distúrbios quando quisermos e res­taurar a ordem… Precisamos ficar em uma posição para responder a todos os atos de oposição pela guerra com os vizinhos do país que ouse se opor a nós, mas se esses vizinhos também se aventurarem a ficar coletivamente contra nós, então devemos oferecer resistência pela guerra universal.

Não vou negar aqui que guerras foram travadas cinicamente, porque é claro que foram, e também não estou dizendo que não deveríamos nos opor a certas guerras só porque outras guerras mere­ceram nossa oposição. O ponto aqui é, porém, que esse argumento em particular sobre a guerra, baseado na ideia de que os judeus mandam no mundo, deveria ser jogado fora.

Manipular a população

Existem dois tipos de pensamento nas teorias clássicas da conspiração judaica sobre a forma como as pessoas são feitas de bobas e enganadas. O primeiro, e o que foi realmente mais significativo na história das teorias da conspiração judaica, é a ideia de judeus controlando os meios de comuni­cação. O segundo, que se tornou menos utilizado, mas ainda existe em Zeitgeist: The Movie é a ideia de controle judaico do sistema de ensino para torná-lo ineficaz.

A questão do controle judeu da mídia é coberto no Protocolo 12, em que está escrito:

Nem um único anúncio chegará ao público sem nosso controle. Mesmo agora isso é alcan­çado por nós na medida em que todas as notícias são recebidas por algu­mas agên­cias em cujos escritórios são focadas de todas as partes do mundo. Tais agên­cias então já serão inteiramente nossas e darão publicidade apenas ao que ditarmos.

E no Protocolo 13:

Nós os distraímos ainda mais [aos não-judeus] com divertimentos, jogos, passatempos, paixões, palácios públicos… Estamos para começar a propor através da imprensa com­petições de arte e de todos os tipos de esportes. Esses interesses finalmente distrairão suas mentes das questões de que devemos nos encontrar compelidos opor-nos a eles.

Em Zeitgeist questões idênticas são cobertos o tempo todo, mas existe em particular a discussão de uma “cultura totalmente saturada de entretenimento através dos meios de comunicação em massa.” Dizem-nos que as mesmas pessoas por trás da tomada planejada do governo estão “por trás da grande mídia”.5

Em ambos Zeitgeist e os Protocolos vemos alguma discussão sobre o sistema de ensino. Em Zeitgeist nos é mencionada “a decadência do sistema de ensino dos EUA” e que “eles [o governo] não querem que seus filhos sejam educados”. Não é surpresa que o mesmo argumento seja feito no Protocolo 16: “Quando estivermos no poder, removeremos todo tipo de assunto perturbador do curso da educação e faremos dos jovens filhos obedientes da autoridade”. O narrador de Zeitgeist diz: “a última coisa que os homens atrás da cortina querem é um consciente, público informado”, ecoando o sentimento do protocolo 5: “não há nada mais perigoso para nós [os judeus] que a iniciativa pessoal.”

Ouro ou dinheiro, reserva federal e usura judaica

Tanto os Protocolos (particularmente Protocolos 21 e 22) e Zeitgeist focam fortemente sobre ques­tões relacionadas a dinheiro ou ouro. Ambos oferecem a teoria de que os problemas da sociedade são causados ​​por sistemas monetários e que o dinheiro está sendo controlado por um pequeno grupo de pessoas de moral duvidosa. O importante aqui é que o foco está no dinheiro e não no capi­tal ou no sistema de produção. Em vez de oferecer perspectivas críticas sobre as estruturas da sociedade que causam a opressão e a pobreza, a opinião geral é que a sociedade atual é benevo­lente e tal benevolência está subvertida por problemas na esfera da circulação.

Ao longo dos séculos, desde a expulsão dos judeus da Grã-Bretanha em 1290, a acusação de usura foi dirigida contra estes para fins antissemitas. Zeitgeist diz do imposto de renda federal:

Cerca de 25% da renda média do trabalhador é levado através deste imposto, e adi­vinha onde esse dinheiro vai? Vai pagar os juros sobre a moeda que está sendo pro­duzida pelo Federal Reserve Bank. O dinheiro que você ganha trabalhando por quase três meses ao ano vai quase literalmente para os bolsos dos banqueiros internacionais.

Mais uma vez, por uma questão de tentar fazer com que as palavras não apareçam como racistas que são, o termo judeu é substituído por “banqueiros internacionais”. Esta é mais uma vez a reafirmação de um mito antissemita. Assim como em todos esses exemplos, os argumentos aqui são levantadas a partir de teorias antissemitas mais antigas. Zeitgeist não está oferecendo uma explicação do mundo, ou dos sistemas econômicos políticos nacionais. Estes argumentos só existem para promover uma atitude de ódio a um determinado grupo pré-definido da sociedade.

A cabala secreta?

Em última análise, o argumento que está sendo feito em todo Zeitgeist é que o mundo está sendo controlado por uma pequena sociedade secreta de indivíduos. No contexto da história das teorias da conspiração, isto quer dizer “os judeus”. Quando nos é dito pelo filme sobre reuniões destes “banqueiros internacionais” que são “secretas e escondidas da vista do público”, as discussões sobre “uma agenda defendida pela elite impiedosa”, ou “as pessoas por trás do governo”, eles estão dando novo alento a um velho mito racista que devemos tentar manter distância.

Há uma insistência em toda a teorias da conspiração de que alguém ou algum grupo de pessoas é pessoalmente responsável por todos os males do mundo, e isso está muito relacionado com o antis­semitismo ao longo da modernidade. Por centenas de anos, os judeus têm sido o bode expi­a­tório oficial do capitalismo. Quando os sistemas de produção empobreceram povo, os judeus foram responsabilizados, onde as pessoas sentiram os impostos como injustos, os judeus foram responsabilizados, onde as pessoas se sentiram alienados pelas estruturas da sociedade, foram informados de que são de fato alienadas porque não fazem parte das reuniões secretas de judeus.

Em última análise, estas teorias nos levam para longe de uma crítica do capitalismo. O filósofo esloveno, Slavoj Zizek defende exatamente este ponto com referência ao antissemitismo de Wagner quando escreve:

Ele precisa de um judeu, de modo que, em primeiro lugar, a modernidade — este pro­cesso impessoal abstrato — tenha um rosto humano, seja identificada com uma carac­terística concreta e palpável; então, em um segundo movimento, rejeitando o judeu que incorpora tudo o que se desintegrou na modernidade, podemos manter as suas van­tagens. Em suma, o antissemitismo não representa anti-modernismo como tal, mas uma tentativa de combinar a modernidade com o corporativismo social que é carac­te­rís­tico dos revolucionários conservadores.

Quem foi o senador Louis McFadden?

Louis McFadden, que é muito cotado em Zeitgeist, era um senador dos EUA na primeira parte do século XX. Ele também calhou de ser um antissemita decidido e se saiu com frases como “nos Estados Unidos de hoje, os gentios têm tiras de papel enquanto os judeus têm o dinheiro legal”

Ele é citado duas vezes no filme dizendo o seguinte: “Um sistema bancário mundial estava a ser criado aqui… um superestado controlado por banqueiros internacionais, agindo em conjunto para escravizar o mundo para seu próprio prazer…” e “Foi uma ocorrência cuidadosamente planejada. Banqueiros internacionais procuraram trazer uma condição de desespero para que pudessem aparecer como governantes de todos nós.”

Dentro do contexto da visão de mundo de McFadden, ele usa “banqueiros internacionais” como um epíteto para os judeus. O que é notável é que os realizadores de Zeitgeist parecem dispostos a omitir este contexto, para sugerir que McFadden simplesmente está a oferecer uma crítica do capi­talismo. O fato é que, dentro de teorias de conspiração, a rotulagem dos judeus como “banqueiros internacionais” e “capital financeiro internacional” é um traço comum. Estas citações teriam sido entendidas na época, e ainda são entendida por muitos, agora, como antissemitas.

O caso de Jeremiah Duggan e a verdade sobre Lyndon LaRouche

Outro personagem bastante obscuro que aparece em Zeitgeist é o ativista político norte-americano Lyndon LaRouche. Senti que deveria incluir a seguinte história como evidência anedótica de quão perigosas estas pessoas podem ser:

Jeremiah Duggan era um estudante britânico na Sorbonne que morreu em 2003 em circunstâncias extremamente suspeitas. Nos meses que antecederam a sua morte, Duggan tinha se envolvido no que acreditava ser uma organização pacifista. Na verdade, tinha se enrascado com um grupo de organizações políticas liderados pelo ativista político norte-americano Lyndon LaRouche. Em março daquele ano, Duggan participou de uma conferência dessas organizações no Instituto Schiller (um local de propriedade do movimento de LaRouche) em Wiesbaden, Alemanha. No trans­correr das reuniões Duggan revelou ser judeu e, no entanto, em tais reuniões do movi­mento de LaRouche, judeus são os culpados pelo início da guerra, reanimando os velhos mitos da cons­pi­ra­ção sobre judeus incentivando guerras como ajudar no controle social. Ele disse em seu discurso de abertura da conferência:

Este plano para lançar uma nova guerra mundial foi intelectualmente influenciado por pessoas que, como Hitler, admiram Nietzsche, mas por “serem judias”, não poderiam se qualificar para a liderança do partido nazista, apesar de seu fascismo ser absoluta­mente puro! Tão extremo qaunto o de Hitler! Eles as enviaram para os Estados Unidos. […] Quem está por trás disso?… A turma do sistema de banco central independente, a escória do lodo. Os interesses financeiros.

Por volta das 05:00, depois que Duggan tinha revelado sua identidade judaica na conferência, ele telefonou para sua mãe. Disse: “Mãe, estou em apuros… Você conhece essa Nouvelle Solidarité?…” Ele disse: “Eu não posso suportar isso… Quero sair.” E nesse ponto o telefone foi cortado. E então o telefone tocou de novo, quase que imediatamente… E, em seguida, a primeira coisa que disse daquela vez: “Mamãe, estou com medo”. Ela percebeu que ele estava em tal perigo que ela lhe disse: “Eu te amo.” E então ele disse: “Eu quero vê-la agora.” Ela disse: Bem, onde você está, Jerry?” E ele disse: “Wiesbaden.” E ela disse: “Como é que você escreve?” E ele disse: “W I E S” E então o telefone foi cortado.

No dia seguinte, Jeremiah foi encontrado morto, com membros do movimento de LaRouche ale­gando que ele cometera suicídio. Inquéritos ainda estão em andamento para determinar o que houve naquela noite. Nas últimas semanas, um segundo inquérito sobre sua morte foi anunciado.6

LaRouche foi conhecido como um teórico da conspiração judaica por mais de 30 anos. Sua organi­zação é cultista e perigosa (uma das razões pelas quais eu escolho para escrever este artigo anoni­ma­mente), e o conteúdo de muito do que ele diz pode ser rastreada até o tipo de alegações apre­sen­tadas nOs Protocolos dos Sábios de Sião. O que é, então, que um homem como este está fazendo em um filme que pretende ser uma crítica esquerdista liberal da sociedade?7

Zeitgeist e a Esquerda

Sob muitos aspectos, o que há de mais inquietante a respeito deste filme é ele pretender ser de esquerda, ou liberal. À medida que o filme termina, vemos imagens de três homens aparecerem e desaparecerem: Mahatma Gandhi, Martin Luther King e John Lennon. Ao longo do filme, temos citações do comediante esquerdista Bill Hicks e uma parte é reservada a Michael Meacher, um político do New Labour. Afirma-se mais uma vez que o objetivo deste filme é a afirmação da uni­dade da humanidade, de acabar com a diferença, seja ela de classe, raça ou sexo. Somos levados a pensar que o filme está a oferecer uma crítica radical, pela esquerda, do poder estabelecido. Em vez disso ele chafurda no tipo de teorias que se casam mais com os libertários de direita. Eu não sei por que o grupo Zeitgeist foca especialmente a esquerda. É, talvez, uma medida de divisão, mas também, possivelmente, apenas uma arena onde eles sentem que podem converter as pessoas à sua maneira de pensar. O que está claro, porém, é que a sugestão de que as ideias expressas são de esquerda ou liberais, com a implantação de citações de esquerdistas e liberais bem conhecidos, é absolutamente cínica.

O problema positivista

Há uma razão em particular para que essas conspirações possam parecer compatíveis com os modos de pensamento de esquerda, e que tem a ver com o problema filosófico do positivismo. Dito de forma mais simples, isto quer dizer que ideias sobre a transformação de uma sociedade não podem ser diretamente expressas na linguagem ou modos de pensar correntes na sociedade que pretendem transformar. E este problema é comum a todas as teorias de transformação da sociedade. Provavelmente, o ramo mais influente deste tipo de pensamento derivou de Hegel a Marx e até os marxistas dos séculos 20 e 21. A solução para eles é falar em termos de uma dialética, ou seja, comparando-se a consciência de uma sociedade para a realidade material. A conclusão significativa deste tipo de pensamento é que a consciência da sociedade, até um certo ponto é sempre falsa.

Os teóricos da conspiração retomam esta questão de outra maneira. Dizem que, se a nossa consci­ên­cia da sociedade é sempre falsa, ela é forçada a ser falsa por um pequeno número de poderosos que tornam falsas.8 Eles acreditam que somos constantemente enganados por uma quadrilha que tudo sabe e que controla cada aspecto de nossas vidas. E as soluções diferem demasiado. Para os marxistas e socialistas o problema é que a sociedade produz uma consciência que não nos permite compre­ender plenamente a nossa miséria no trabalho, do desemprego, ou impotência e a solução é a transfor­mação radical da sociedade em um mundo mais justo e menos exploradora. Para os teóricos da cons­pi­ração, a resposta é a eliminação de tal pequena e poderosa elite. Eles não acre­ditam que a sociedade precisa de mais transformação do que isso.

Este é um terreno filosófico difícil de trilhar. Corremos um grande risco se quisermos criticar os teó­ricos da conspiração por não serem positivistas e por não trabalharem dentro dos modos acei­tos de pensamento. Em vez disso, o que temos de dizer é que o seu modo particular de pen­sa­mento crítico não propõe uma solução correta para a solução de problemas da sociedade e, ade­mais, não se baseia na unificação, mas na divisão. Devemos mostrar que a desigualdade na socie­dade é estrutural em vez de ser baseada nos desejos de um pequeno grupo de judeus.9

O que deve ser feito?

O filme Zeitgeist parece ter uma popularidade crescente e, além disso, está surgindo um movi­mento baseado nele. Mais e mais pessoas estão sendo influenciadas pelo que o filme tem a dizer, sem per­ce­ber bem onde ele está vindo. É importante que possamos expor o mais amplamente possível o subtexto antissemita deste filme. Devemos expô-lo como sendo cinicamente posicio­nado de maneira a influ­enciar os liberais e esquerdistas. Ao atacarmos as ideias apresentadas por Zeitgeist, não é suficiente discutir meros detalhes, e devemos, em vez disso, tentar compreender a política que este filme, como um todo, tenta apresentar. Precisamos ler através das muitas cama­das de teorias da conspiração aqui, e entender que há uma em particular em que eles querem nos fazer crer, e que esta é, naturalmente, a mais perigosa e perniciosa.

É importante entender que o tipo de crítica da sociedade oferecido pelo movimento Zeitgeist não pode ser separada da teoria conspiração judaica. Não se pode tomar os textos antissemitas clás­sicos, subs­ti­tuir a palavra “judeu” por “banqueiros internacionais” ou “capital financeiro inter­na­cional” e acre­di­tar que sua teoria não é mais antissemita. Claro que existem bons argumentos de que o capitalismo e impe­rialismo são de fato extremamente perigosos. Há bons argumentos em uma perspectiva de esquerda ou liberal para dizerem que as guerras no Afeganistão e no Iraque nunca deveria ter sido travadas. E é aqui que temos de reconhecer que os fins não justificam os meios. Não podemos nos dar ao luxo de apoiar qualquer causa que é simplesmente anticapitalista, ou qualquer outra causa que é simplesmente antiguerra, caso contrário, corremos o risco de ir para a cama com os fascistas. Em vez disso, nossas posições sobre o capitalismo e da guerra devem surgir a partir de crítica profunda, em vez de uma reedição revista de narrativas antis­semitas antigas.

A fim de difundir esta mensagem o mais amplamente possível, encorajo a todos que republiquem esta peça em seus próprios sítios, que a enviem a amigos e camaradas, a mostrá-la a quem lhe apre­sen­tar “este novo filme fabuloso você simplesmente tem que assistir”. Uma das maneiras mais fáceis é, se você está no Twitter, clicar no botão Tweet deste post. Se possível, dê-nos retorno aqui nO Terceiro Estado para que possamos monitorar quão amplamente este material está sendo dissemi­nado. Nas próximas semanas recriarei este artigo como um vídeo narrado, bastante no estilo de Zeitgeist: The Movie, a fim de que podemos espalhar esses pontos de vista para ainda mais pessoas que possam vir a ser influenciadas por este filme repugnante.

  1. O antissemitismo é um pensamento caracteristicamente direitista, estando fartamente documentada a tentativa de associar as teorias socialistas com o pensamento judaico. A circunstância fortuita de que alguns expoentes do pensamento esquerdista (começando por Karl Marx) eram judeus foi utilizada como arma de propaganda por todos os tipos de reacionários, começando pela Igreja Católica, que tentou criar sua própria doutrina social para contrabalançar o sindicalismo socialista e ateu, passando pelos nacionalistas e fascistas até chegar a regimes de centro-esquerda interessados em conter o avanço do “bolchevismo”. Mesmo nos regimes socialistas o antissemitismo encontrou certo espaço, estando presente, por exemplo, na onda de perseguições a Trotsky e seus seguidores. No entanto, esta identificação do socialismo como uma “doutrina judaica” é falsa, pois um número significativo de outros famosos socialistas não tinha qualquer relação com o judaísmo: Friedrich Engels, Mikhail Kropotkin, Lênin, Stálin, Mikhail Bakunin, Pierre Proudhon, Antonio Gramsci etc.

  2. São conhecidas as fontes. O plano de conspiração deriva de um romance satírico escrito por Maurice Joly para zombar de Napoleão III, intitulado “O Diálogo no Inferno Entre Maquiavel e Montesquieu” — que não possui conteúdo antissemita. O cenário no cemitério, a ideia de um complô de dominação mundial e alguns conceitos adicionais foram acrescentados por Herman Goedsche, que plagiou a obra de Joly transformando-a no romance gótico Biarritz. A partir desta segunda fonte o chefe da Polícia Secreta czarista, a Okhrana, criou a primeira edição dos Protocolos. A farsa foi desmontada pelo jornal britânico, The Times, ainda em 1921.

  3. Uma das razões da contínua popularidade dOs Protocolos é o seu caráter aparentemente “profético”, por descre­ve­rem uma realidade muito próxima à nossa. Esta circunstância, porém, não passa de vaticinium ex post facto, pois sucessivas edições introduzem alterações (às vezes sutis) de forma a “atualizar” o conteúdo. Como não há direito autoral que possa controlar a republicação e tampouco existem manuscritos originais fide­dig­nos que possam ser usados para dirimir dúvidas (pois a obra em si é forjada a partir do plágio de outras, que tam­bém estão em domí­nio público), não há limites para novas falsificações do texto. Uma boa medida destas falsificações pode ser obtida na comparação com o texto original russo (publicado em 1902) com o texto da primeira edição em inglês, datada de 1919, que, curiosamente, substitui os judeus por bol­che­viques. A mais famosa edição americana foi a finan­ci­ada por Henry Ford, que, embora não tenha sido a pri­meira a restaurar a menção dos judeus, foi a primeira a redi­vidir o conteúdo em “protocolos”, isto é, propostas de ação feitas pelos líderes judeus aos seguidores do mundo.

  4. Ao atacar a participação americana na II Guerra Mundial esta teoria de conspiração, obviamente, enfraquece a posição ideológica dos Aliados, abrindo espaço para uma rediscussão do “outro lado”, o nazifascismo.

  5. Acredito que o autor deste texto não pretendeu negar a realidade do controle da mídia mundial por um grupo res­trito de pessoas, como o magnata Rupert Murdoch, que controla diversos órgãos de imprensa na Austrália, na Grã Bretanha, no Canadá e nos Estados Unidos. A existência de tais pessoas e o seu controle efetivo sobe nume­rosos órgãos de imprensa não são teorias de conspiração, mas fatos conhecidos e documentados. O que se pretendeu negar é que os meios de imprensa seriam, na verdade, de propriedade de outras pessoas, judeus, claro, que os usariam para seus fins.

  6. O inquérito sobre a morte de Jeremiah Duggan reiterou que se tratou de suicídio, sem apresentar novas evidências. Acredito que, exceto pela identificação de Lyndon La Rouche como um líder de extrema direita (e bota extrema nisso) a menção do caso não acrescenta ao texto.

  7. Não se trata aqui de induzir a culpa por associação, mas apenas observar que uma das pessoas que Zeitgeist escolheu citar é de um caráter duvidoso, para dizer o mínimo. A citação de La Rouche, além de ser um apelo falacioso à autoridade, pois ele não tem embasamento para fazer as análises que faz, é um indicativo das tendências perigosas de extrema direita que estão envolvidas no filme.

  8. Atenção para a diferença entre a dialética marxista, que enxerga uma limitação metodológica em nossa capacidade de compreender a sociedade, e a retórica conspiracionista, segundo a qual nossa falta de entendimento da sociedade resulta de sermos deliberadamente enganados.

  9. O artigo original falha por não mencionar dois outros notórios simpatizantes do nazismo citados no filme: Charles Lindbergh e Henry Ford (este não tem sua fala narrada, mas apenas exibida em um quadro fixo e não está incluído na transcrição). Lindbergh era um proponente da eugenia e Ford financiou uma edição em massa dos Protocolos dos Sábios de Sião, para distribuição entre seus empregados e por todo o país. Seu jornal, o "Dearborn Independent", foi o maior responsável pela difusão do antissemitismo nos EUA.

Lula, o Gênio

Se você descobrisse que tem as maiores reservas inexploradas de petróleo do mundo e suas forças armadas estão praticamente na idade da pedra, o que faria se o maior consumidor mundial de energia, e com um histórico de invadir países ricos em matéria prima, resolvesse estabelecer uma frota de sua marinha bem diante de seu litoral?

Eu, em minha santa inocência, procuraria trazer como parceiro nestas reservas um dos maiores inimigos do tal país. E tentaria armar as minhas defesas com tecnologia comprada de outro.

A história ensina que os russos costumam ser ótimos amigos, do tipo que não abandona quem lhes deu a mão. Cubanos e sírios que o digam.

E os chineses, bem, enquanto eles não tiverem frota diante de nosso litoral e estiverem dipostos a pagar, eu acho uma ótima ideia trocar petróleo por amizade com eles.

Os BRICS foram uma sacada gigantesca do Lula, que aproveitou um artigo de um economista inglês para ter uma desculpa perfeita para começar uma aliança contra os EUA. Rússia e China não são somente dois países "emergentes" (o primeiro está mais para "submergente"), mas duas potências com poder de veto na ONU e com interesse em tudo que seja contra o interesse americano. Também têm tecnologia que nos interessa. A Índia meio que não é quente nem fria nessa história, mas sua presença ajuda a diminuir a margem de manobra ianque na Ásia, e cimenta a aliança asiática.

Recentemente, a entrada da África do Sul pretendeu sinalizar aos africanos que os chineses estão dispostos a fazer na África algo que os americanos e europeus nunca fizeram: compartilhar poder. Aos poucos os BRICS cercaram uma parte significativa do mundo, criando uma situação na qual a entrada dos EUA só poderá ser através de uma guerra total. O sucesso da estratégia ficou configurado com a crise síria, resta saber se os EUA vão ser tão medrosos quando a aposta for mais alta. Talvez até sejam, mas os russos e chineses, até lá, já terão conseguido se preparar para enfrentar o desafio.

O primeiro passo é o desmonte do dólar como divisa internacional. Rússia, China e Índia já estão comerciando entre si em rublos e rúpias (ainda não em yuans, mas isso começará em breve). China, Rússia e Índia asseguraram seu acesso permanente a todo tipo de matérias primas, ao se alinharem com o Brasil e a África do Sul. A China está formando reservas de ouro e platina (a África do Sul, maior produtor mundial dos dois metais, não entrou nos BRICS à toa). O Brasil se propôs a compartilhar o custo de desenvolvimento da nova geração de super-caças russos. Em troca, receberá a preço de banana os MiG e Sukhoi que forem aposentados da força aérea russa. O trato é parecido com o que Rússia e China fizeram nos anos 80, e resultou nos misseis "Bicho da Seda", nos foguetes "Longa Marcha", nas cápsulas espaciais "Shenzhou" e nos clones de aviões MiG e Sukhoi que a China produz. Duvido que os nossos militares fiquem tristes com a qualidade do material que terão em mãos.

Desde que foi revelado que o governo americano espionava todos os serviços de internet, quebrando a confiança até mesmo da autenticação TSL/SSL, ficou clara preocupação ianque com os rumos que a coisa tomava. Qual seria o sentido de comprar caças americanos, ou caças suecos com tecnologia americana embarcada? Esses caças seriam inúteis numa guerra contra o único país do mundo que deu mostrar de querer nos invadir: os EUA. Nesse sentido, faz todo sentido usar armamento russo. Eu até acho que devíamos ceder uma base naval e/ou aeronáutica aos russos. A Síria não se arrependeu de ter feito isso, e talvez os russos estejam interessados. Talvez apenas isso deva ser feito devagar, para não assustar o grande irmão do norte.

Revolutions Inc.

Bom dia para você, reacionário de direita travestido de jovem anarquista, que saiu às ruas nesse fim de semana querendo causar impacto. Devia ter ouvido o Humberto Gessinger e feito o pacto.1 Você está, conscientemente ou não, fazendo seu trabalho de formiguinha na preparação do caos. Eu sou astrólogo, vocês precisam acreditar em mim. Eu sou astrólogo e conheço a história do princípio ao fim.2

Digo isto apoiado em uma leitura porca dos mais recentes descobrimentos da psicologia (por mais recentes eu me refiro a mais de meio século, mas você, reacinha, talvez não tenha nem ouvido falar de Freud) e uma leitura um pouco mais cuidadosa de fatos que já são história. Fatos da história mundial recente que sugerem que o Império mudou sua tática e não está mais investindo nos militares para derrubar os governos que não lhe interessam: militares podem não ser confiáveis, podem estar interessados em fazer algo de bom pelo próprio país, podem sair do controle e custa caro recuperar os que fogem da gaiola, como Noriega, Saddam Hussein e Hugo Chávez.

Símbolo da Otpor!

Na verdade o processo é bem simples, já está amplamente documentado, e já foi empregado com sucesso em pelo menos oito oportunidades. Mesmo assim a nossa juventude "descolada", utilizando em larga escala um superpoder chamado "ignorância", fecha os olhos para os indícios de manipulação. Desde que os puxões nas cordas sejam feitos com suavidade, não se importam de ser marionetes.

Refiro-me aqui ao "pacote revolucionário libertador" financiado por entidades interessadas apenas no progresso dos povos e no aperfeiçoamento da civilização, como a USAID, o National Endowment for Democracy, o American Center for International Labor Solidarity, o European Endowment for Democracy, o Center for International Media Assistance e a CIA. Paralelamente a estas entidades, think tanks ligados às grandes multinacionais, como o Heritage Foundation, o American Enterprise Institute e o Open Society Institute.

Se você vive dentro de uma pedra, ou se é tão impermeável quanto uma pedra a notícias que se choquem com suas ideias preconcebidas, provavelmente não sabe que estas entidades, e outras antecessoras suas, têm atuado na desestabilização de regimes contrários aos interesses americanos desde os anos 70 e já tiveram sucesso em produzir pelo menos sete movimentos de massa liderados por organizações não governamentais financiadas pelas entidades citadas.

  • Derrubada de Slobodán Milosević (Sérvia, 2000), liderada pelo movimento "Otpor!" (Recuse!), tendo como símbolo a cor negra e um punho fechado. Milosević foi substituído por um líder mais afeito aos interesses americanos e abriu caminho para a independência de Kossovo, criando um protetorado euroamericano nos Bálcãs (área de interesse russa).
  • Revolução Rosa (Geórgia, 2003), liderada pelo movimento "Kmara" (Chega!), tendo como símbolo a cor negra e um punho fechado. Derrubou Eduard Shevardnadze, que se mantinha alinhado com a Rússia, e o substituiu por Mikhail Saakashvilli, que se alinhou com os EUA, tentou entrar para a OTAN e acabou eventualmente sendo posto em seu lugar pela invasão russa de 2008.
  • Revolução Laranja (Ucrânia, 2004), liderada pelo movimento "Pora!" (Chega!), tendo como símbolo as cores preta e laranja e o sol nascente. Conseguiu anular as eleições, fraudadas por Viktor Yanukovich, e colocar no poder o controverso presidente Viktor Yushenko, que quase morreu envenenado durante a campanha eleitoral, supostamente por obra do FSB (novo nome da KGB). Yushenko, sob forte oposição, não conseguiu avançar muito em sua política internacional, apenas criou leis de autonomia política e cultural favorecendo os ucranianos em relação aos russos. Acabou derrotado nas eleições seguintes pela lindíssima e gatíssima (mas aparentemente perigosíssima e corruptíssima) Yulia Timoshenko, que atualmente come cana braba por supostamente aceitar dinheiro de potências estrangeiras.
  • Revolução das Tulipas (Quirguízia, 2005), liderada pelo movimento "KelKel" (Renascença), tendo como símbolo as cores rosa e amarela e o sol nascente. Conseguiu derrubar Askar Akaev, um dinossauro que permanecia desde os tempos comunistas, e implantar um regime mais democrático.

Símbolo do Pora!

Estes movimentos tiveram características em comum:

  • liderados por uma ONG financiada por uma ou mais das entidades citadas mais acima;
  • caracterizados por um slogan que se confunde com o nome da organização;
  • o nome da organização inclui um ponto de exclamação, para maior ênfase;
  • adoção de um logotipo e de uma cor para simbolizar o movimento;
  • identificação com um líder político "novo";
  • esvaziamento do movimento após o sucesso inicial (mudança de regime).

Em alguns casos, símbolos idênticos foram utilizados (Sérvia e Geórgia), ou um slogan que é praticamente o mesmo (Sérvia e Ucrânia). Os regimes afetados sempre são adversários dos interesses americanos em regiões de interesse geopolítico americano (Bálcãs, Mar Negro e Ásia Central) e os regimes substitutos são liderados por políticos que são claramente alinhados com Washington ou, pelo menos, no caso da Quirguízia, tem o potencial de se alinharem mais facilmente.

Os líderes adotados pelas revoluções coloridas foram Yushenko (Ucrânia) e Saakashvilli (Geórgia).

Símbolo do Kmara!

Em todos os casos, o movimento original se esvazia após produzir seu efeito (certamente por não mais receber tanta assessoria e financiamento). O movimento ucraniano "Pora!" não consegue nem 2% dos votos nas eleições e tem ficado fora do parlamento. Na Geórgia o "Kmara" jamais conseguiu se formalizar como partido. O "Otpor!" da Sérvia ficou de fora do parlamento, embora tenha conseguido cerca de 5% dos votos certa vez.

As semelhanças ficam mais interessantes quando avaliamos que não foram somente estes casos. Houve outros movimentos fundados em outros países, com objetivos semelhantes:

  • Zubr -Bielorrússia
  • Oborona ("Defesa") - Rússia
  • Mjaft! ("Basta!") - Albânia

Símbolo da Oborona!

A cor negra está presente nos símbolos de quase todos esses movimentos, ainda que os movimentos tenham sido identificados por cores diferentes (branco, na Sérvia, laranja, na Ucrânia, rosa, na Geórgia, amarelo, na Quiguízia, azul, na Bielorrússia). Símbolos de origem anarquista (punho fechado, bandeira negra) idem. Os movimentos se solidarizam e chegam a prestar assistência mútua. Agentes sérvios organizaram o "Pora!" na Ucrânia e o "Kmara!" na Geórgia. Os georgianos, por sua vez, prestaram assistência aos quirquizes, enquanto os ucranianos auxiliaram os bielorrussos.

Após uma onda inicial de sucesso das revoluções coloridas, alguns países expulsaram as instituições citadas, o que evitou que o movimento crescesse na Bielorrússia, no Uzbequistão e na Albânia. Na Rússia o protesto chegou a ser grande, exigindo a renúncia de Vladimir Putin, mas foi reprimido e passou à clandestinidade. Onde as instituições de ajuda americana não atuam, os movimentos sociais de oposição não se desenvolvem.

A inspiração desses movimentos remete à Revolução dos Cravos (em Portugal, 1974) e à Revolução Amarela (nas Filipinas, 1986). Ambos movimentos não-violentos de resistência civil com o objetivo de derrubar ditaduras. Vale lembrar, porém, que a Geórgia e a Ucrânia não eram ditaduras.

Além dos contatos diretos entre os líderes desses movimentos, há uma clara articulação através da internet, mesmo no caso da Quirguízia, onde uma parcela ínfima da população conhecia a informática.3. A associação com a internet, naquela fase, deu ao movimento um ar de novidade, de poder espontâneo do povo.

Como os regimes fortes perceberam a jogada e começaram a se proteger, a estratégia mudou ligeiramente. Em vez de financiar a fundação de organizações formais, com sede e hierarquia públicas, os Estados Unidos passaram a patrocinar uma atuação desconcentrada, informal e sem hierarquia definida. Ou melhor, com um único centro de decisões, "virtual", localizado fora do país alvo. Muitas características permaneceram, ainda:

  • A Revolução do Cedro (Líbano, 2005) catalisou-se em torno do ex primeiro ministro Rafik Hariri, recentemente morto. O objetivo alcançado foi forçar a saída do exército sírio que tutelava o regime libanês.
  • A Revolução Verde (Irã, 2009), tentou questionar a eleição de Mahammound Ahmadinejad e forçar uma transição para o "moderado" Mir-Hussein Mussavi. Fracassou devido à forte repressão e à incapacidade de Moussavi para fornecer evidências firmes de fraude na eleição (além de ele não ter e mantido firme até as últimas consequências, preferindo contemporizar com o regime).

A tecnologia social desenvolvida através destas maquinações foi rapidamente assimilada em lugares onde a juventude é mais inteligente do que no Brasil, de forma que regimes autoritários alinhados aos EUA começaram a ser vítimas de estratégias semelhantes, desenvolvidas de forma autônoma:

  • Revolução do Jasmin (Tunísia, 2010) retirou do poder um grande aliado americano e abriu caminho para uma geração de políticos nacionalistas, muitos deles tendentes a aproximar-se do Irã e da Rússia.
  • Revolução do Lótus (Egito, 2010) retirou do poder aquele que talvez fosse o mais fiel aliado americano e abriu caminho para a legalização da Irmandade Muçulmana, considerada pelos EUA uma organização terrorista.

Estas duas revoluções se caracterizaram pela falta de um controle central definido, pelo emprego das redes sociais para articular os protestos e pela falta de líderes políticos óbvios, embora em momento algum seus participantes as tenham concebido como apolíticas. O apartidarismo desses movimentos se devia unicamente ao fato de não haverem partidos políticos legais e legítimos em atuação naqueles países. Estas revoluções estiveram fortemente ligadas (biunivocamente) com o Movimento Ocupem Wall Street (Estados Unidos) e com o Grito dos Indignados (Espanha).

O caso da Líbia é sui generis, pois a tentativa americana de produzir uma revolução colorida no país levou a uma guerra civil de grandes proporções, que quase destruiu o país. Por um momento, as estratégias americanas ficaram paralisadas em torno da questão líbia.

Mas no momento seguinte temos a reação. No Egito, organizações semelhantes às que haviam atuado nas revoluções coloridas vão às ruas contra o presidente Mohammed Morsi (que, por sua vez, demonstrava um alto grau de incompetência e sede precoce de controle) e legitimam um golpe de estado que restabelece no poder homens de confiança de Washington. Temos então o começo da revolta síria, desde o início planejada já tendo em vista a perspectiva de uma evolução idêntica à da Líbia. As estratégias foram, inclusive, as mesmas (criação de um governo de oposição, que adota a bandeira anterior do país).

O último elo desta corrente é o Anonymous, uma "grife" de protestos pela internet que surgiu como um grupo de pessoas interessadas em expor a Igreja da Cientologia.

O Anonymous pode ser descrito como um coletivo informal de usuários avançados de computadores (tanto crackers como phreakers e hackers) com a adesão de inúmeros script kiddies e n00bs interessados em fama.

De 2003 a 2011 o Anonymous, cujos membros adotaram como símbolo a máscara usada pelo personagem de Hugo Weaving no filme "V de Vingança", que, por sua vez, é uma referência a Guy Fawkes.4 A partir de 2011, porém, com a prisão de dezenas de seus mais brilhantes operadores, o grupo perde sua aura heróica e passa a segundo plano. Não sem antes contribuir ideológica e estruturalmente para o conceito da e-Revolução.

[CONTINUA]

1"Por isso, garota, façamos um pacto de não usar a highway para causar impacto." (Gessinger, H. "Infinita Highway". In: Longe Demais das Capitais. BMG/Ariola: 1987.

2Seixas, Raul. "Al Capone". In: Krig-Há, Bandolo!. EMI/1973.

3 http://www.academia.edu/2446594/e-Revolution_in_Kyrgyzstan

4 "Terrorista" inglês do século XVI (uma época na qual a palavra, obviamente, ainda não era conhecida), Fawkes pretendia explodir o Parlamento Britânico, matando o rei e todos os deputados, para facilitar a retomada do trono por uma dinastia católica.

Sobre os Malefícios Mentais do “Anarcomiguxismo” (2)

Sendo o anarcomiguxismo um sistema de crenças essencialmente irracional, como demonstrado acima, a continuidade da crença depende da supressão do espírito crítico. Refiro-me a uma atitude receptiva em relação a conhecimentos obtidos de certa fonte (especialmente os artigos do Instituto Mises e os dados do Heritage Foundation, mas não somente) aliada à rejeição apriorística de informações obtidas de outras origens. Essa "endogamia" intelectual, na qual as ideias do indivíduo são alimentadas exclusivamente por textos que reforçam seus conceitos anteriores (pré-conceitos) produz uma baixa gradual do ceticismo, pois um texto é aceito como corroboração de outro, de forma recursiva, em um gradual afastamento em relação a qualquer capacidade de questionar.

Essa autorreferência do pensamento anarcomiguxo produz um descolamento da realidade tão profundo que somente aos olhos de quem está "de fora" é possível discernir o grau de absurdo. O "anarcomiguxismo" é, então, uma espécie de Cientologia econômica, cujos artigos que mencionam Xenu só são apresentados a quem já leu as obras mais básicas. Da mesma forma que a Cientologia não começa por pregar ao neófito que há bilhões de anos um vilão espacial transportou seus inimigos para a Terra a bordo de aviões DC-10 e os explodiu com bombas atômicas dentro de vulcões, os anarcomiguxos não começam explicando textos polêmicos, tais como:

  • A Ética da Liberdade (Murray Rothbard), em cujo capítulo XIV ele diz que os pais deveriam ter poder ilimitado sobre seus filhos --- inclusive podendo matá-los, vendê-los ou prostituí-los --- e que a educação infantil deveria ser facultativa.
  • Legalize Drunk Driving (Lew Rockwell), onde se argumenta que o Estado não tem o direito de, mesmo sob o pretexto de proteger a vida de outras pessoas, impedir que o proprietário de um veículo o dirija.
  • O Caminho da Servidão (Frederik Hayek), onde se argumenta que a adoção de medidas humanitárias e a concessão de direitos às massas produziriam o fim da liberdade (econômica, claro), criando ditaduras e destruindo o mundo…

A adesão a esse sistema de crenças enviesado e em franca contradição com o bom senso (Rockwell e Rothbard) ou com os fatos históricos observados (Hayek) tem sobre o "anarcomiguxo" o efeito de condicionar a sua própria interpretação da realidade, levando-o a agir de forma equivocada diante de situações que exijam uma leitura correta dos acontecimentos.

Um exemplo deste efeito "alucinógeno" do "anarcomiguxismo" sobre seus adeptos é o que está acontecendo com o Dâniel Fraga.

Dâniel é figurinha carimbada dos fóruns internéticos há muitos anos. Nunca foi muito certo da bola, tendendo a ter opiniões exacerbadas e uma reção meio infantil diante de contestações firmes. Certamente alguém com certo problema mal resolvido com autoridade, sei lá, talvez um complexo de Édipo.

Ele aderiu às ideias "anarcomiguxas" de uns dois ou três anos para cá. Pelo menos esse é o horizonte de tempo ao longo do qual eu me lembro de tê-lo visto discursando enfaticamente contra as maldades do Estado e as maravilhas das empresas e dos indivíduos. Seu canal no YouTube foi, durante este tempo todo, uma das maiores fontes de difusão do pensamento "anarcomiguxo". De fato, eu uso este termo, que não foi cunhado por mim, de forma a evocar aquilo que Fraga se tornou. Minha definição de "anarcomiguxo" é Daniel Fraga.

A fama lhe subiu à cabeça, embora não lhe tenha sido suficiente para subir de nível a mobília de seu quarto (que, ainda assim, parece mais organizado que o meu). Isso fez com que ele subisse de nível em suas críticas, adotando um tom cada vez mais destemido, belicoso até. Desenvolvou uma entortada de boca que sugere alguém que morde as palavras com raiva quando as diz, e expele seus argumentos com força e dor, como quem expele cálculos. Não sei se isso foi intencional, mas ele copiou de muitas formas os trejeitos de Olavo de Carvalho. A diferença é que Olavo se auto-exilou nos EUA, de onde pode dizer o que quiser sem riscos. Fraga ficou no Brasil, e aqui, como sabemos, não existe liberdade de expressão absoluta.

Eventualmente Fraga cometeu algo temerário: criticou um juiz. Juízes são bichos difíceis de criticar porque, apesar de todo o aperfeiçoamento de nossa democracia desde 1988, eles ainda são, praticamente, acima da lei. A pior coisa que pode acontecer a um cidadão é incorrer no desagrado de um juiz. Melhor blasfemar contra Deus do que contra um juiz, se é que vocês me entendem. Porque, mesmo que não façamos nada de errado, não é desejável o incômodo de um longo processo, com todo o seu custo monetário e o desgaste de imagem que isso traz. Dependendo das circunstâncias, um veredito de inocente pode ser totalmente irrelevante, pois o processo em si já foi uma punição cruel.

Mas Fraga fez pior: ele não se limitou a criticar o juiz, ele o fez de forma insultuosa, estendeu a crítica a outros juízes, e explicitou em sua crítica que o juiz seria "ignorante" (sic) do assunto sobre o qual decidiria.

Por mais que eu ache que a liberdade de expressão deva ser mais garantida neste país, eu não consigo achar certo o modo como Fraga se expressou. Um juiz é uma autoridade, e uma autoridade que não tem origem democrática, ainda. Isso quer dizer que existe certo protocolo envolvido. Você não pode simplesmente tratar um juiz como trata um vereador, que pode perder a próxima eleição e cuja autoridade é limitada por essa e outras circunstâncias. O juiz não está sujeito a eleições, ele não presta contas a ninguém, e ele tem suas prerrogativas de forma vitalícia.

Não que eu concorde com esse estado de coisas. Longe de mim. Mas essa é uma leitura realista da mundo real. Diante de uma leitura realistas, devemos tomar medidas realistas. O mundo real não é um fórum da internet, onde você se esconde atrás de um fake para xingar um desafeto. Em certo momento, Fraga se esqueceu de que não estava "na internet" quando fez uma crítica sobre um fato do mundo real. O juiz, ser material existente no mundo real, tomou conhecimento e agiu.

Imagino que Fraga, ao fazer sua crítica, não supôs que haveria consequências. Ele está acostumado a usar palavras muito fortes para se referir a seus desafetos e a políticos de quem discorda. A impunidade o fez ficar descuidado. Não entendeu que não podia simplesmente chamar um juiz de "ignorante" e que não tinha o direito (nesse caso eu afirmo que ele não tinha o direito) de falar rosnando para uma autoridade como ele falou.

Foi um erro grave, mas ainda não foi o mais grave de seus erros. Tamanho era o descolamento de Fraga em relação à realidade que, mesmo depois de notificado judicialmente, ele continuou a agir de forma tresloucada, sem levar a sério a situação em que se metera, tal como Josef K. Se amanhã ou depois tiver um triste fim, "como um cão", terá sido por sua própria falta de juízo. Se é que me entendem.

O juiz ofendido, aparentemente, acionou-o por calúnia e pediu segredo de justiça porque Fraga, tendo acesso ao YouTube, poderia fazer uma grande celeuma sobre o caso, prejudicando o processo. Entendo que o pedido de segredo de justiça foi desnecessário, mas eu entendo aonde o juiz quis chegar e não consigo discordar totalmente de sua interpretação. Opinião minha achar desnecessário. Mas absurdo o pedido não foi.

Porém "Fraga Man" --- o super herói anarcomiguxo, que combate o Malvado Estado usando sua camisa azul-água, seus óculos sem aro, seu roupeiro padrão cerejeira e seu teclado --- não se conformou em não poder noticiar o acontecido! Não, o povo precisa saber. E já que o juiz botou segredo de justiça, what would Misus do? Se ele tivesse simplesmente continuado a falar do caso, mesmo com ordem de manter segredo, já estaria fazendo uma cagada grande, mas o típico anarcomiguxo não se contenta com pouco: Fraga precisava fazer uma cagada gigantesca. Ele mesmo confessou em um vídeo que "na internet não existe segredo de justiça" e exibiu cópias impressas de documentos referentes ao processo.

Não tenho palavras para descrever o que pensei ao vê-lo dizer isso. Meu queixo caiu no chão e quicou. Se um documento está em segredo de justiça e ele o obteve através da internet, esse arquivo só pode ter sido obtido mediante uma invasão do sistema do TJ-SP, um acesso não autorizado. Espionagem, se é que vocês me entendem. Fraga confessou publicamente que obteve por meio ilegal (possivelmente criminoso) documentos que um juiz determinara serem segredo de justiça. Não apenas ele violou o segredo de justiça decretado, como fez questão de dizer que a violação ocorreu por um meio ilegal!

É difícil acreditar que uma ameba destas tenha inteligência normal. Na minha opinião, a partir do momento em que ele CONFESSOU ter violado o site do TJ-SP para obter os documentos, a punição de Fraga não apenas se tornou inevitável, mas é agora necessária. Em nome da democracia e da segurança das instituições, um sujeito que viola o site do Tribunal de Justiça para ter acesso a documentos sob segredo de justiça não pode ficar impune. Isso desmoraliza a própria justiça e achincalha a democracia.

Gostaria de deixar aqui bem claro que existem dois momentos separados nesse evento. O momento em que Fraga faz uso de sua liberdade de expressão para criticar um juiz e o momento em que ele se vangloria de apresentar documentos obtidos apesar do segredo de justiça.

No primeiro momento Daniel tem a minha solidariedade, embora eu ache que ele foi ingênuo, idiota e sem educação (coisa que ele normalmente é na internet). Acho que ele merecia uma reprimenda. Possivelmente o caso estava sendo tratado com exagero (talvez por vaidades envolvidas), mas ele precisava de um susto para "tomar tenência na vida". Para não ficar achando que pode falar o que quer, do jeito que quer, com qualquer pessoa. Para alguém que propõe a viabilidade dum "pacto de não agressão" entre os indivíduos numa sociedade sem Estado, Daniel é agressivo demais.

Mas eu não me solidarizo com Daniel Fraga pelo seu segundo ato. Se ele se sentia injustiçado, tinha todo o direito de se defender, constituir advogado, lançar uma campanha de solidariedade, apelar à Anistia Internacional, acender uma vela para Exu e outra para Jeová; fazer o que quisesse, DENTRO DA LEI. Recursos existem para isso mesmo. O processo é doloroso, a última coisa que eu quero é ficar inimigo de um juiz, mas chutar para o alto as leis e os costumes da democracia têm um custo maior.

Talvez Dâniel tenha querido brincar de desobediência civil. Leu demais Henry David Thoureau. Duvido que tenha pensado em se fazer de mártir da liberdade de expressão, ou do movimento libertário (t.c.c. "anarcomiguxo"). Talvez apenas não tenha se dado conta em tempo da necessidade de racionalidade para agir no mundo real, visto que no mundo virtual a sua persona se caracteriza pelo exercício contínuo da irracionalidade. Minha impressão é que Dâniel se tornou uma vítima da distorção cognitiva que o "anarcomiguxismo" provoca, incapacitando o indivíduo para compreender a realidade de forma útil.

E desta forma, Fraga se vê no meio desse redemoinho, totalmente despreparado para compreender esta cruel realidade, tão diferente do universo mágico em que viveu por tantos anos. Para tornar seu caso ainda mais trágico, ele não me parece ter os meios materiais para se defender eficazmente e a própria ideologia que defende parece ser incompatível com a solidariedade de outros como ele.

Diante destas circunstâncias, acho que a melhor saída é pedir que alguém da família requisite sua tutela por insanidade.

Sobre os Malefícios Mentais do “Anarcomiguxismo” (1)

Toda ideologia é uma prisão mental em termos: ela condiciona o indivíduo a pensar de determinada forma, e com tal intensidade que somente à custa de muito esforço ele consegue superar estas amarras invisíveis e pensar "fora da caixa".

Entretanto, a existência de ideologias é um fato dado, principalmente se considerarmos o termo em um sentido mais amplo, significando algo mais do que seu significado mais recorrente. Da inevitabilidade da ideologia surge uma necessidade imperiosa de selecionar as ideologias que nos convém abrigar. Há ideologias positivas e negativas, benéficas e prejudiciais, boas ou más. É um equívoco supor que exista inocência nas ideologias, equívoco tão grande, mas tão útil, que ele próprio se transmutou em uma ideologia, o apoliticismo, que serve para castrar grandes contigentes de potenciais pensadores, facilitando o trabalho da minoria que idealiza.

Não pretendo fazer aqui um apanhado de quais ideologias são boas ou más, primeiro porque confesso minha imensa ignorância em relação a uma ampla quantidade de assuntos e fatos que eu precisaria dominar para sequer começar a entender o tema em profundidade. Nunca li Adorno, Althusser, Harendt, Freud, etc. Minhas leituras são irregulares demais para que eu, simples sapateiro, me aventure além das sandálias.

Minha análise será muito mais humilde e restrita: pretendo demonstrar, de forma quase prosaica, que aquilo a que tenho chamado "anarcomiguxismo" é uma ideologia absurda e totalmente nociva não só ao conjunto da sociedade, mas, e nisso meu argumento talvez encontre apelo entre os adeptos, ao próprio indivíduo que a siga.

Em primeiro lugar, recuperar a definição usual de "anarcomiguxismo", uma ideologia de difícil classificação no espectro ideológico tradicional (esquerda/direita), trata-se de uma mistura em partes desiguais de uma série de conceitos de diversas origens, entre os quais:

  • Primazia do indivíduo sobre a sociedade, por intermédio de uma interpretação limitada de parte da filosofia de Nietzsche ("Humano, Demasiado Humano", "Gaia Ciência", "Assim Falava Zaratustra" e "Ecce Hommo", principalmente).
  • Valor moral do egoísmo, por intermédio de Ayn Rand, romancista americana de origem russa que tinha uma interpretação pervertida de outra parte da filosofia de Nietzsche.
  • Crença fundamentalista no capitalismo e rejeição enfática do socialismo, obtida por leituras de artigos publicados pelo Instituto Mises.
  • Ideal de autossuficiência não muito diferente do de comunidades religiosas ultramontanas, como os Amish, e a extrema direita sulista americana (Minutemen, Survivalists e o Militia Movement).
  • Aspiração anarquista ("AnCaps") ou secessionista ("Seasteading", "Charter Cities") em relação à sociedade existente.
  • Negação da solidariedade social, não apenas de forma ideológica ("moral") mas afirmando mesmo a impossibilidade desta.
  • Negação da intervenção estatal no contrato social, propondo ideias como "Pacto de Não Agressão" e "Autorregulamentação Privada".
  • Crenças dogmáticas sobre princípios econômicos ou relações sociais herdadas da teoria econômica pseudocientífica de Mises e Hayek, especialmente derivando através dos artigos inacreditáveis de Murray "Direito de Dirigir Bêbado e de Vender os Filhos" Rothbard.
  • Afirmativas behavioristas e mecanicistas sobre o comportamento humano.

Esse sistema ideológico abstruso e desconexo tem se popularizado muito nos últimos anos, especialmente entre a classe média brasileira, única do mundo que consome avidamente os artigos do Instituto Mises. Já disse anteriormente que há indícios de que a divulgação desta ideologia seja uma estratégia de "astroturfing" com o objetivo de "bagunçar o coreto" ideológico do Brasil neste momento em que o país começa a ensaiar passos mais ousados no cenário mundial (vide "A Conspiração Anarcomiguxa"). No Brasil, especificamente, o anarcomiguxismo se manifesta com características excepcionais:

  • Antipetismo histérico, como se o PT fosse o único partido corrupto (ou o mais corrupto) e como se ele fosse resposável pelos maiores atos de corrupção da história do Brasil. O antipetismo histérico se caracteriza por oposição automática a tudo que seja anunciado como polítia do governo, mesmo que atenda a reivindicações feitas anteriormente (vide a postura reacionária frente ao "Mais Médicos", criado em resposta às manifestações de junho).
  • Desprezo quase racista pela América Latina, especialmente Cuba, Venezuela, Paraguai e Bolívia.
  • Apoliticismo, enquanto os anarcomiguxos norte-americanos têm cerrado fileiras com o Partido Republicano, a ponto de causarem êxodo de republicanos tradicionais (o que pode criar condições para, finalmente, o surgimento de um terceiro partido nos EUA), os brasileiros insistem no discurso supra ou antipartidário.
  • Vínculos com o movimento "Anonymous", que tem atuado como um apêndice da CIA desde a prisão de seus principais líderes.

Quando tomamos os princípios e práticas do anarcomiguxismo sobre mesa e tentamos analisá-los de forma racional, é difícil imaginar que alguém consiga engolir um todo tão contraditório e sem sentido. De fato o é, pois raramente estas características acima elencadas pertencem a um indivíduo único. Aliás, parte do discurso dos anarcomiguxos é justalmente salientar as diferenças entre o "anarcomiguxismo padrão" e sua ideologia pessoal, como forma de negar a validade do rótulo. No entanto, mesmo rejeitando o termo pejorativo, existem indivíduos que, de forma espantosa, conseguem encarnar todos esses princípios e ainda não entrar em convulsão. Não citarei nomes. Analisemos inicialmente de que forma a difusão excessiva de ideias anarcomiguxas seria prejudicial à sociedade.

A difusão de uma ideologia individualista mina as estruturas democráticas de decisão, pois o individualista, por negar-se a cumprir o consenso da sociedade, ameça a legitimidade das instituições. Isto não é necessariamente ruim quando um número significativo de pessoas se opõe a instituições por discordâncias ideológicas ou humanitárias (caso dos que combatem ditaduras, lutam por mudanças na legislação etc.), mesmo que essa oposição seja por canais não institucionais. Mas quando o solapamento das instituições democráticas não se faz visando ao aperfeiçoamento da liberdade democrática, mas meramente em nome das idiossincrasias dos que não aceitam as decisões da maioria, temos uma situação na qual não há solução possível, a não ser a ruptura institucional, com consequencias violentas. Uma luta contra uma ditadura desagua numa democracia, uma exigência de mudança na legislação pode ser atendida com o atendimento do pleito; mas como solucionar um conflito social se os que protestam apenas não querem ser parte de um sistema democrático de decisão?

A crença fundamentalista no capitalismo, sob a vertente da escola austríaca, é um grave problema epistemológico, pois borra a fronteira entre ciência e pseudociência, especialmente na área de Humanas, onde tal fronteira é sempre acusada de já ser tênue. O enfraquecimento da área de Humanas é útil ao status quo, especialmente porque o conhecimento da história e da economia favorecem ao entendimento dos mecanismos de atraso e de dominação. Desacreditar a História é útil aos revisionistas, aos relativistas e à ultra-direita neoliberal. Não é por acaso que, apesar da crítica de Hayek e Mises aos fascismos, muitos neonazistas e neofascistas têm aderido a certas ideias "anarcomiguxas": o individualismo exacerbado favorece a tolerância a movimentos que seriam intoleráveis em uma sociedade democrática funcional e capaz de se defender de seus detratores.

O ideal de autossuficiência, da forma como difundido, emprega jargão e literatura herdados de movimentos ultradireitistas americanos, ligados a igrejas fundamentalistas, a Associação Nacional do Rifle e aos Baby Shakers. Trata-se do tipo de gente que produziu fenômenos religiosos como Jim Jones e David Koresh, a mesma gente que criava e implementava informalmente as chamadas "Leis Jim Crow" (costumes e práticas racistas no sul dos EUA). Isso abre espaço para a doutrinação de nossa juventude por textos de gente que inspirou terroristas como Timothy McVeigh. Imagino quantos até não estarão lendo o próprio Manifesto do Unabomber ou o livro de Anders Breivik, que dialoga com todo esse movimento.

As aspirações anarquistas ou autonomistas dos "anarcomiguxos" muitas vezes supoem a secessão de parte do território nacional (vide, novamente, o artigo sobre Charter Cities) ou a emigração para um tal território cedido por outro país. Na prática, isto quer dizer que os anarcomiguxos que esposam estas ideias são suscetíveis a apoiar a tomada de território nacional por potências estrangeiras se estiverem convencidos de que seus ideais serão implementados lá. Isto, obviamente, os coloca na direção de eventualmente se tornarem traidores da pátria (embora, espero, não "muito perto").

As proposições que fazem em relação ao convívio social, como substitutos da atuação "repressora" do Estado são quimeras irrealizáveis ou, pior, propostas absolutamente imorais (quando não ineficazes). A substituição da polícia e da justiça por serviços privados, como alguns propõem, é um retrocesso ao feudalismo ou, de forma mais caricata, ao coronelismo brasileiro (se bem que, no caso deste último, havia uma aparência de legalismo). A ideia de um pacto de não agressão para explicar como a sociedade se sustentaria sem a coação da lei é uma crença ingênua digna de um cristão embevecido. Por sua vez, a expectativa de que as empresas possam se autorregular, prescindindo da fiscalização pelo poder público e evitando mecanismos típicos do mercado imperfeito (como monopólios, oligopólios, trustes e cartéis), vai contra tudo que já se observou na história human.

O antipetismo histérico esteriliza o debate político, criando uma situação maniqueísta na qual o governo está sempre errado, ou até, em alguns casos, propostas se tornam erradas por serem encampadas pelo governo. O que conduz a um impasse, que impossibilita um debate racional. O recente caso da reação da classe médica às medidas do Ministério da Saúde é um claro exemplo de como a obsessão em bloquear a política do governo foi priorizada em detrimento de qualquer contribuição que as entidades de classe pudessem dar em relação ao tema.

O apoliticismo, combinado com o antipetismo, produz um esvaziamento do debate político, favorecendo discursos golpistas ou autoritários e criando falsas expectativas de um governo "forte" que "resolva" os dilemas, o tipo de caldo de cultura em que cresceu Mussolini.

Mas estes aspectos prejudiciais do "anarcomiguxismo" para a sociedade não serão compreendidos nem aceitos pelos simpatizantes de tais ideologias justamente porque eles raciocinam que eu, como esquerdista assumido, tenho por bandeira desqualificar ideias que vejo como "reacionários". Nisso eles têm certa razão. As críticas que faço são as críticas que um esquerdista pode fazer. Imagino que algumas delas, especialmente quanto ao potencial de traição pátria contido na ideologia "anarcomiguxa", também poderiam ser feitas por um direitista duro, mas em sua maioria elas estão, pelo menos, vazadas numa linguagem que trai conceitos exclusivos de esquerda. Existe algo, porém, que um esquerdista pode dize e que sensibilizará um "anarcomiguxo": uma demonstração de que este naipe de ideias é prejudicial ao indivíduo.

No próximo capítulo.

Por uns vinte centavos

Às vezes é preciso acompanhar de perto para entender, mas há vezes em que estar de longe é melhor do que dentro das tripas do momento. Eu estou de longe, eu percebo tudo através da deturpação deliberada feita pela imprensa comprometida com o caos, por isso demoro a opinar. Não quero ser precipitado, mas tomo agora uma decisão sem volta: vou fechar este blogue.

É inegável que o uso político de ferramentas como o Blogger.com se tornou perigoso não só para as pessoas que as utilizam, mas também para as causas que defendem. Não podemos tentar exercer nossos direitos políticos usando produtos (sic) da indústria americana de serviços, especialmente agora que se descobriu que todos os grandes players deste mercado cooperam voluntariamente com a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos para fornecer em tempo real informações sobre o conteúdo que controlam, sem sequer a necessidade de uma ordem judicial.

Sim, eu fui um dos tolos que levou a sério, em certa época, o slogan do Google: Don't Be Evil. Mas, desde que eles, sem alarde, deixaram de resistir às exigências chinesas de cooperação com a sua censura, eu percebi que havia algo errado. Até mesmo o slogan deixou de ser posto em evidência: como se alguém da companhia tentasse discretamente alertar o mundo que o Don't havia sido removido. Durante algum tempo acreditei que o Facebook era, este sim, vergonhosamente vendido e cooperador, enquanto o Google pelo menos tentava resistir. Agora todos sabemos que não há diferença entre as empresas, pois nem mesmo há necessidade de um agente chegar e pedir: os dados são encaminhados em tempo real para as instalações da NSA e ali podem ser acessados arbitrariamente por todos que tenham acesso ao computador.

Eu me pergunto, então: por que continuar produzindo conteúdo para alimentar esta indústria de espionagem que viola os direitos de todos os países do mundo e seus cidadãos? Enquanto não encontre um lugar e um meio para blogar de forma independente eu vou manter minha boca calada, pelo menos nesse blogue de assuntos mais sensíveis. Mas a médio prazo migrarei até mesmo o meu querido outro blogue para algum serviço, gratuito ou pago, que tenha como principal feature não ser hospedado nos Estados Unidos e nem ser baseado em software de código fechado.

Para o momento eu estou estudando alternativas. Consegui instalar em meu computador pessoal versões do Movable Type e do WordPress, com as quais brinquei durante toda a semana. Acabei decidindo que realmente o WordPress é insuperável, especialmente com a adição do CKEditor, do PrintFriendly e alguns outros plug-ins. Acredito que seria capaz de instalar uma cópia dele em um servidor remoto. Já estou procurando onde fazer isso. De momento, esta cópia local serviu, e muito bem, para fazer um backup total do meu blogue de literatura. E de agora para frente eu vou escrever nela e publicar depois de concluído o teste na instalação local.

Somente me preocupam duas coisas: o fato de que muitos serviços de hospedagem nacionais utilizam-se de servidores em território estrangeiro e a certeza de que o Google continuará alimentando a NSA com minhas informações através de sua ferramenta de busca. Mais do que nunca vale o conselho de que aquilo que realmente importa não deve ser posto na rede.

Corra, Kim, que a Polícia do Mundo Vem Aí.

Potências imperiais gostam de brincar de polícia com o mundo. Claro, no papel da polícia e chamando de ladrão quem esteja no seu caminho. Pode ser um regime realmente maligno, como a Alemanha nazista, ou um governo bem intencionado e absolutamente inofensivo, como a Nicarágua sandinista. Pode ser um regime realmente adversário, como a URSS, ou um simplesmente um amigo que tinha o defeito de se preocupar com o próprio povo, como a Guatemala de Árbenz.

No fundo a política internacional é um jogo sujo, baseado na mais abjeta e escrota hipocrisia. Para as potências hegemônicas, principalmente, princípios não existem, apenas conveniências. Pelo pretexto de combater uma “ditadura” comunista, os EUA apoiaram durante mais de uma década a ditadura comunista e genocida do Khmer Vermelho contra o governo de reconstrução nacional criado pela intervenção vietnamita. Diz que se importa com a democracia na América, mas patrocinou, a partir do final do século XIX, as ditaduras mais cruéis e caricatas da história de cada um dos países ao sul do Río Grande. Rejeita a legitimidade das eleições venezuelanas, atestada por observadores internacionais, mas teve um presidente eleito em um pleito marcado pela fraude e pela obscuridade e há menos de um ano abençoou um pleito mexicano com sinais evidentes de trapaça. E enquanto tenta erradicar o extremismo religioso talibã no Afeganistão, mantém a Arábia Saudita como “nação mais favorecida” de seu comércio, justamente o país de onde emana a maior parte do fundamentalismo islâmico de hoje.

Infelizmente, as pessoas se esquecem muito fácil desse passado de crimes dos Estados Unidos contra a soberania de outros países, esquecem das mentiras que inventaram para justificar intervenções nas quais o único interesse a se preservar era o de Wall Street. Agora a máquina de propaganda ianque está a todo vapor tentando criar um pretexto para aniquilar a deprimente Coreia do Norte, último reduto comunista tr00 deste planeta. E uma quantidade enorme de macacas de auditório senta e levanta ao ritmo ditado pela imprensa, aplaudindo e apupando conforme quem aparece tenha olhos amendoados ou não.


Para começo de conversa, vamos deixar estabelecido que este post não tem por objetivo nenhum tipo de solidariedade com a tosca Coreia do Norte, lugar aonde não quero ir morar (principalmente “morar”) nem no pior de meus pesadelos.1 E certamente se eu tivesse que escolher entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos para serem meus senhores, eu certamente preferiria os segundos. O objetivo deste post é demonstrar o funcionamento dos mecanismos que estão em ação neste episódio, e lembrar, através de paródia, um momento da história:

Primeiro foram atrás do Iraque,
e eu não disse nada porque não sou iraquiano.
Depois foram atrás do Afeganistão,
e eu não disse nada porque não sou afegão.
Então foram atrás de Honduras,
e eu não disse nada porque não sou hondurenho.
Então foram atrás da Tunísia,
e eu não disse nada porque não sou tunisino.
Então foram atrás da Líbia,
e eu não disse nada porque não sou líbio.
Estão indo atrás da Coreia do Norte,
e eu nada digo porque não sou norte-coreano.
Um dia virão atrás de nós,
e não haverá ninguém para dizer coisa alguma.

Existe um princípio na dinâmica da política internacional que diz que o inimigo é sempre bárbaro. Desumanizar o adversário faz parte do jogo. Isso se faz com palavras e com imagens, mas com palavras é melhor, porque elas atuam de forma mais subreptícia. Lembra do tempo em que se dizia que comunista comia criancinha?2

Houve uma época em que os britânicos chamavam os alemães de “hunos”, diziam que os cientistas do Kaiser tinham inventado uma arma terrível que envenenava os soldados à distância e que, se as potências centrais ganhassem a Grande Guerra, toda a Europa seria anexada ao Império Alemão.

Os hunos originais foram um povo de raça turca (ou mongólica, ou mestiça, ou negra, ou sabe-se lá o que) que atacaram a Europa Oriental no fim da Antiguidade. Os romanos os descreviam como comedores de carne crua, praticantes da automutilação, imundos, canibais etc. Quatrocentos anos antes as legiões romanas conquistaram a Gália e denunciaram a prática de sacrifícios humanos pelos druidas. Sacrifícios tão cruéis e desumanos que os pobres gauleses foram submetidos a um verdadeiro genocídio, alimentando por séculos os “circos” romanos, onde se sacrificava gente não a deuses, mas ao divertimento. Era obsceno que os gauleses sacrificassem virgens nos seus feriados. Era civilizado que os romanos sacrificassem todo tipo de gente a cada domingo.

Assim se repete a história desde sempre,  e sempre há um bárbaro novo cuja conquista se tem que justificar. Tal como Trajano pintou os dácios como monstros para poder roubar seu ouro, o império americano pinta os árabes como monstros para poder roubar seu petróleo. Certamente havia monstros entre os dácios e certamente os há entre os árabes. Mas maior foi a monstruosidade do genocídio romano, como maior é a monstruosidade dos genocídios em curso atualmente, no Iraque, na Líbia, na Síria, no Afeganistão e no Paquistão.

Quando o inimigo é fraco, às vezes nem precisa inventar muita coisa, pois a ação já terá sido concluída antes que a opinião pública tenha tempo de assimilá-la. Assim foi na Guatemala, na República Dominicana, em Granada… Mas o inimigo pode prolongar a ação, então é preciso preparar terreno. E aí é preciso inventar que ele tem “armas de destruição em massa”, “que ele é uma ameaça à paz internacional” ou que faz parte de um “eixo do mal”.

A Coreia do Norte é a bola da vez — o que significa que as baterias midiáticas ianques, tanto as próprias quanto as terceirizadas, atirarão à vontade contra o regime que se quer derrubar. Foi para vingar o 11 de Setembro e acabar com as “armas de destruição em massa” que se atacou um Iraque já exangue por mais de uma década de fortes sanções econômicas. Foi para acabar com o “terrorismo de estado” sudanês que se bombardeou o principal complexo industrial do país e se impôs um bloqueio econômico que levou o país ao caos econômico e à guerra civil. Foi para “Caçar Osama bin Laden” que se invadiu o Afeganistão e se matou mais gente que o talibã havia matado antes. Mas no fim das contas Saddam não tinha nenhuma das tais armas, a fábrica bombardeada era uma indústria farmacêutica que produzia principalmente remédios contra doenças tropicais, e Osama bin Laden estava escondido no Paquistão, país “amigo” dos Estados Unidos.

A única coisa que todos esses regimes tinham em comum era que, por serem detestáveis violadores de direitos humanos, ninguém se levantou para denunciar a violação de sua soberania. Tal como no “poema” de Martin Niemöller. Mas um dia talvez venham atrás de nós, e o resto do mundo nos verá como detestáveis também, violadores de direitos, cortadores de árvores, estupradores de turistas, possuidores de armas de destruição em massa, ou seja o que for. E ninguém falará contra nós.

[continua] — na parte 2: Por que atacar a Coreia do Norte?


1 A palavra “morar” significava originalmente trabalhar e residir em um mesmo lugar. Aplicava-se a colonos e escravos.
2 Não se sabe se alguma vez alguém comeu criancinha por ser comunista, mas é sabido que houve algumas fomes terríveis em países comunistas como União Soviética (nos anos 1930), na China (nos anos 1950), no Camboja (anos 1970) e na Etiópia (anos 1980). Não que tenham deixado de haver fome em lugares sob influência capitalista, mas fatos são fatos.

Sobre a Eliminação Física de Líderes Inimigos pelos Serviços Secretos

Os fatos relacionados à doença e morte do presidente venezuelano Hugo Chávez estão causando certa polêmica desde que o presidente em exercício, Nicolás Maduro, acusou abertamente o governo dos Estados Unidos, através da CIA, de ter causado o câncer que veio a matar o falecido líder. É uma afirmação grave, que dificilmente seria feita de forma leviana por um chefe de estado — certamente os venezuelanos têm suas razões para desconfiar de que os eventos fatídicos que levaram ao óbito do mandatário foram extraordinários — mas o bom senso recomenda que não turvemos nossa visão da realidade com os óculos unidimensionais da ideologia. Antes de ridicularizar humoristicamente os que acreditam nesta teoria, ou demonizar como cúmplices do Mal aqueles que celebram a morte de Chávez sem acreditar em qualquer fato não natural, é preciso fazer alguma pesquisa de fundo para avaliar a plausibilidade do que disse o atual chefe de estado venezuelano.

Existem quatro perguntas a se responder:

  1. Existem precedentes históricos de eliminação física de líderes inimigos, adversários políticos ou pessoas incômodas através de meios sub reptícios (envenenamento, traições etc.)?
  2. A política dos Estados Unidos quanto a isso envolve algum tipo de endosso ou tolerância com a prática da eliminação física de líderes adversários?
  3. Houve casos documentados de líderes políticos ou personae non gratae que sofreram de câncer, ou de situações que poderiam/poderão resultar em câncer?
  4. Existem cânceres conhecidos pela ciência que poderiam, em tese, ser induzidos de forma eficiente (isto é, a custo relativamente baixo e desfecho a curto ou médio prazo)?

    Se pudermos responder “sim” às quatro perguntas acima, é forçoso concluir que a teoria aventada pelo presidente venezuelano não é um delírio — mesmo que efetivamente se descubra que Chávez não foi envenenado. Ideias são delirantes quando não possuem base lógica ou conexão com realidade. Ideias que possuem base lógica e se harmonizam com a realidade, mas são falsas, não são delírios, são apenas equívocos. As pessoas se equivocam todo o tempo. Você está em uma cidade estranha e entra em esquinas erradas até se perder. Tem várias marcas de refrigerante para escolher, mas frequentemente pede um que não o satisfaz tanto quanto um outro de que só se lembrou depois que o pedido veio. Errar é humano. Erros não são delírios.

    Meu objetivo neste artigo não é provar que Chávez foi morto pela CIA, mas analisar se esta teoria é um delírio ou uma hipótese válida, ainda que provavelmente falsa.

    Precedentes históricos

    A traição é uma ferramenta da política desde antes do homem ser homem. Desde que desenvolvemos a inteligência, a luta pela primazia no bando deixou de ser uma competição de força e passou a incluir a habilidade. Um macaco mais fraco, mas ágil no manejo de um porrete, poderia matar outro mais bruto. Se a força tivesse continuado o parâmetro para definir as lideranças, a civilização não existiria. O engano e a traição estão entre os elementos que construíram o mundo em que vivemos. E você ainda se pergunta por que há tanta gente má lá fora.

    O envenenamento, embora frequentemente depreciado como uma prática “de mulheres”, foi amplamente empregado desde a Antiguidade, especialmente na difícil tarefa de livrar-se de reis sem cometer abertamente o regicídio — que era sempre punido com penas bestiais, como o escafismo (na Pérsia), drawing and quartering (Inglaterra) ou o evisceramento (Japão). A prática do envenenamento era tão comum na Pérsia que havia até uma lenda que dizia que certos homens poderiam, se o recebessem desde cedo em doses progressivas, desenvolver tolerância a qualquer veneno.

    Os envenenamentos de inimigos políticos mais notáveis para a nossa análise são os seguintes:

    1. Tódor Romza, bispo ortodoxo de Mukachev, Ucrânia, envenenado com curare (veneno paralisante).Mandante: URSS. Data: 1947.
    2. Stepan Bandera, líder nacionalista ucraniano, envenenado com cianureto. Mandante: URSS. Data: 1959.
    3. Aleksandr Dubcek, líder tcheco-eslovaco, envenenado com estrôncio (sobreviveu). Mandante: URSS. Data: 1968.
    4. João Goulart, ex presidente brasileiro, na época exilado na Argentina. Envenenado pela substituição de um de seus comprimidos para hipertensão, substituído por um de anfetamina, segundo confessado por um agente do serviço secreto da polícia uruguaia. Mandante: Brasil. Ano: 1976.
    5. Georgi Markov, jornalista e escritor búlgaro, envenenado com um pequeno projétil contendo rícino disparado por uma arma oculta em um guarda-chuva. Mandante: Bulgária. Data: 1978.
    6. Khaled Meshal, líder nacionalista palestino (Hamas), envenenado com uma substância desconhecida, instilada através de seu ouvido por uma dispositivo de spray. Sobreviveu graças à prisão dos agentes responsáveis pela tentativa pela polícia da Jordânia, que ameaçou matá-los caso o antídoto não fosse fornecido. Mandante: Israel. Ano: 1997.
    7. Roman Tsepov, empresário russo e possivelmente líder mafioso, supostamente amigo e posteriormente desafeto de V. Putin. Envenenado por alta dose de algum material radioativo (autópsia não realizada). Mandante: provavelmente a Rússia. Data: 2001.
    8. Ibn al-Kathab, nacionalista islâmico da Chechênia, envenenado por uma carta embebida em sarin ou outro agente tóxico contra os nervos. Mandante: Rússia. Data: 2002.
    9. Aleksandr Litvinenko, agente secreto russo que havia desertado para a Grã Bretanha após denunciar um plano para matar Bóris Berezovsky, milionário (e possivelmente mafioso) russo, em um caso semelhante ao de Tsepov. Envenenado por polônio (oficialmente o inquérito sobre sua morte foi abandonado, por razões diplomáticas). Mandante: Rússia. Data: 2003.
    10. Anna Politkovskaya, jornalista e defensora dos direitos das minorias na Rússia, opositora do conflito na Chechênia. Sobreviveu a uma tentativa de envenenamento por alguma substância posta em seu chá, que não foi efetiva porque ela o cuspiu em vez de engolir. Mandante: Rússia. Data: 2004.
    11. Viktor Yushenko, político ucraniano. Sobreviveu a uma tentativa de envenenamento por dioxina (agente laranja). Ironicamente liderava um movimento democrático apelidado de “Revolução Laranja”. Mandante: desconhecido (mas seus adversários políticos eram ligados fortemente à Rússia). Data: 2004.
    12. Yasser Arafat, líder nacional palestino. Morreu após um longo período de tratamento na França, de causas não divulgadas. Pesquisas posteriores encontraram grande quantidade de polônio em seus objetos pessoais. Investigações feitas por pesquisadores suíços sugerem que morreu em decorrência de câncer causado por envenenamento por substância radioativa. Mandante: Israel. Ano: 2004.
    13. Viktor Kalashnikov, escritor russo, irmão de Mikhail, inventor do famoso fuzil AK-47. Sobreviveu (com sequelas) a um envenenamento por mercúrio. Mandante: Rússia (segundo a vítima). Data: 2010.

    Portanto, existem pelo menos treze precedentes históricos recentes e significativos de pessoas que foram mortas a mando de governos, empregando envenenamento (tecnicamente, a contaminação por radioatividade é uma forma de envenenamento). É certo que a maioria destes casos é atribuída aos serviços secretos comunistas ou aos serviços secretos russos (herdeiros da KGB), mas não custa lembrar que nós não ouvimos o lado de lá da História: o fim do bloco socialista, nos anos 1990, significou o triunfo da versão ocidental, expurgada de seus próprios casos.

    Analisando esta sequência de casos vemos um padrão preocupante: as ações anteriormente executadas através de venenos tradicionais se tornaram cada vez mais frequentemente feitas com substâncias radioativas. Embora estas substâncias sejam fáceis de detectar (a ponto de a tumba de Aleksandr Litvinenko ser selada com chumbo para evitar contaminação), elas são difíceis de limpar do organismo: mesmo que a vítima sobreviva ao envenenamento inicial, ela sofrerá depois as consequências da radiação, desenvolvendo tumores. É possível que a ideia de empregar radiação como veneno tenha surgido ou se fortalecido após o incidente com Césio-137 em Goiânia, durante o qual várias pessoas ingeriram o contaminante radioativo, com os efeitos lamentáveis que se conhece.

    Alguns dos casos mencionados nesta lista são peças que lembram filmes de espionagem: agentes instilando venenos em spray no ouvido de inimigos, xícaras de chá envenenadas, guarda-chuvas que atiram projéteis de rícino, dardos de curare disparados por zarabatanas em praças públicas. Estão listados aqui para sacudir um pouco o ceticismo do leitor, que acha que algo que “parece de coisa de filme” não pode ter acontecido na realidade. É fato que os serviços secretos do mundo todo empregam métodos engenhosos para envenenar e matar aqueles que seus governos elegem como alvos. Métodos que parecem saídos de um filme do Agente 86, mas que funcionam.

    Política americana 

    Uma vez estabelecido que a prática do envenenamento de inimigos políticos, inclusive pelo uso de radiação, é comum e corriqueira, temos que definir qual a política dos EUA quanto a isso. Há duas questões a se levantar. A primeira é quão corriqueiros esses casos são, dirá o leitor. A segunda questão é que esse não parece ser o jeito americano de agir.

    Treze casos não são exatamente uma abundância incrível. Mas há que se lembrar que são treze casos notórios, envolvendo pessoas públicas ou que, de outra forma, atraíram a atenção da mídia. Não é todo dia que alguém é morto por um dardo envenenado numa rua de Munique ou por uma bala envenenada disparada por um guarda chuva em um metrô em Londres. Devem existir inúmeros outros casos que não conhecemos porque envolvem pessoas obscuras demais ou que ocorreram em lugares distantes ou sem testemunhas.

    É verdade que a CIA parece gostar mais de explodir pessoas do que brindá-las com um chá da meia-noite. Mas parecer não é ser. O curioso (e bizarro) caso dos agentes do Mossad que espirraram veneno dentro do ouvido de um líder do Hamas nos dão uma sugestão de que os serviços secretos ocidentais também sabem ser sutis quando querem, ou precisam.

    Na verdade, a simples existência de precedentes de assassinato de líderes inimigos (“decapitação”, no jargão do Mossad) serve de apoio à nossa tese, porque os métodos dependerão sempre das circunstâncias. Anwar al-Aulaqi e Osama bin Laden foram mortos em ações militares violentas porque estavam em território hostil e porque, dada a natureza de suas atividades, ninguém lamentaria essa opção (ainda que vários juristas e políticos tenham advertido sobre a gravidade da violação das leis internacionais que aconteceu durante a missão de execução de Osama). Um inimigo sobre o qual se pudesse ter um acesso controlado em território não conflagrado (como um quarto de hotel) poderia ser morto de maneira menos estrepitosa. O que precisamos é saber se essa maneira é possível. Porque se é possível, ela já deve ter sido usada.

    Casos polêmicos

    Analisemos agora a coisa por outro lado. Sabemos que houve vários casos documentados de pessoas que foram envenenadas a mando de serviços secretos (principalmente da URSS/Rússia, mas também de Israel e até do Brasil). Existem, porém, registros de mortes suspeitas que poderiam ter sido causadas por envenenamentos, excluindo os casos de morte violenta (como a de Juscelino Kubitschek)?

    Difícil dizer, visto que existem muitos venenos que são capazes de produzir efeitos semelhantes ao de morte natural (e muitos venenos são empregados justamente por terem tal propriedade). Então, se não há uma suspeita de possível envenenamento, que dificilmente há se a vítima for idosa, não haverá uma necrópsia detalhada, capaz de identificar a causa mortis. Restam os murmúrios, como os que duvidam da naturalidade da morte de Carlos Lacerda, que desmaiou na rua em 1977 e nunca mais acordou e de Tancredo Neves e sua misteriosa doença. O que podemos dizer  é que, com toda segurança, nenhuma morte por envenenamento é fácil de detectar à distância, e as mortes de pessoas públicas costumam ser envoltas em mistério.

    Cânceres úteis

    Referindo-nos especificamente ao caso, que substâncias  seriam capazes de produzir um câncer relativamente letal de forma “segura” (suponhamos que Chávez nunca foi detectado com doses altas de radiação)?

    • Azoximetano. “Particularmente efetivo para produzir cânceres de cólon”.
    • Tório. Se inalado ou ingerido causa cânceres de órgãos internos, como pâncreas e fígado.
    • Metilcolantreno. Produz câncer de próstata rapidamente se ingerido.
    • 3-Nitrobenzantrônio. Um dos componentes resultantes da queima do óleo diesel. Potente carcinogênico ligado às vias respiratórias.
    • 4NQO (4-Nitroquinolina 1-oxidina). Produz tumores nas regiões atingidas após ser inserido na circulação sanguínea.
    • N-Nitroso-N-metiluréia (NMU). Carcinogênico “bastante confiável” ligado a tumores malignos do estômago, sarcomas e gliomas cerebrais, adenocarcinomas pancreáticos, leucemias e linfomas.

    Uma das argumentações contra a possibilidade de Chávez ter sido envenenado reside na “dificuldade” de se induzir alguém a ter câncer. No entanto, uma rápida pesquisa na Wikipédia já me revelou quatro substâncias conhecidas cujos efeitos carcinogênicos são descritos com adjetivos como “efetivo”, “rápido”, “potente” e “confiável”. Algumas substâncias causam cânceres específicos, outras, de forma traiçoeira, estão ligadas a diferentes tipos, podendo ter efeitos difíceis de prever. Todas estas substâncias são efetivas para induzir câncer em quantidades relativamente pequenas, que poderiam passar despercebidas (substâncias cancerígenas em dosagens muito altas são bastante numerosas, mas pouco efetivas porque ninguém chegaria a consumir quantidades muito grandes).

    Isto, claro, se refere a substâncias tão conhecidas que têm verbetes na Wikipédia. Suponho que existam muitas outras substâncias que não estão lá porque não são muito conhecidas, que não estão lá porque são secretas ou que estão lá mas eu não percebi (minha pesquisa foi bem porca).

    Aonde isso nos leva

    Sabemos que a prática de envenenar inimigos é antiquíssima, que várias potências contemporâneas a têm usado (notavelmente a URSS/Rússia), que existe certo segredo sobre as causas das mortes dos líderes mundiais (e dos papas, por que não?) e que existem substâncias capazes de envenenar de várias formas, inclusive causando câncer.

    Tendo todos estes dados sobre a mesa, mas ainda sem emitir um juízo de valor sobre o caso Hugo Chávez, podemos afirmar sem medo de ridículo que a possibilidade de envenená-lo para causar-lhe o câncer que o matou não é uma insanidade. Insano é acreditar que os Estados Unidos “não fariam isso”, é um pensamento análogo à fé cega. Não só os EUA “fariam isso” contra um desafeto como já o fizeram várias vezes.

    É difícil, senão impossível, saber se a tentativa aconteceu, ou se a morte efetivamente foi causada por ela ou por outro incidente ou fenômeno natural. O mundo é regido por uma certa dose de caos. O fato de alguém tentar matar outrem não quer dizer que a morte, caso ocorra, é resultado do primeiro ato. Como num filme de humor negro, no qual o espião atira no inimigo, mas a bala se perde e o inimigo, seguindo calmamente seu caminho, escorrega numa casca de banana e morre de traumatismo craniano ao bater no chão.

    Este artigo não foi escrito para provar que Chávez foi envenenado pela CIA, mas para mostrar como a ridicularização desta hipótese revela uma certa “fé” de certos setores e pessoas nos valores morais de uma potência estrangeira, os Estados Unidos. Aparentemente, os EUA são o único país do mundo liderado por pessoas absolutamente isentas e sensatas, que jamais tentariam matar pessoas por discordarem de sua ideologia.

    De minha parte, acredito que o melhor argumento contra a hipótese ainda é o de que o estilo americano é mais parecido com enfiar uma bala no sujeito. Malcolm X, John Kennedy, Martin Luther King, Anwar al-Aulaqi, Osama bin Laden. Ou, talvez, sabotar seu avião. Omar Torrijos-Herrera. Mas Chávez esteve várias vezes às turras com Israel, por causa de sua amizade com o Irã. E Israel teve aqueles caras com o spray de veneno no ouvido do líder do Hamas…

    O Mundo Mudou, e Eu Não me Encontro Mais Nele

    Quando eu era adolescente, a gente tinha uma intuição secreta de que todos mentiam para nós, o tempo todo. Sabíamos mais ou menos que estávamos saindo de uma ditadura, havia uma certa perplexidade com a televisão, que exibia nu frontal em propaganda do jeans Villejack e um busto feminino nu em uma propaganda de iogurte. Havia algumas vozes dissonantes na mídia: bandas de rock e pop que criticavam o «sistema» com versos que denunciavam a manipulação da opinião pública pelo governo: Plebe Rude, Capital Inicial, Lobão, Legião Urbana. Os mais comportados, claro, faziam mais sucesso: Kid Abelha, Biquíni Cavadão, Ultraje a Rigor, Marina Lima. Havia uma sensação generalizada de que era preciso questionar o que aparecia. Os «descolados» eram os que traziam esse ceticismo. Chamavam-nos a um canto e diziam: a televisão mente para você, o governo mente para você. As teorias de conspiração rolavam soltas, desde as de fundo místico, como o menino diabo paulista, até as mais politizadas, que diziam que as vacinas eram usadas pelo governo para marcar as pessoas. À medida em que fomos crescendo, essa desconfiança em relação à informação disponível nos levou a buscar conhecimento. Algumas dessas crenças e desconfianças desapareceram diante da luz dos fatos, outras apenas mudaram de forma.

    Uma coisa, porém, a nossa geração tinha de sobra: vontade de mudar o mundo. Essa vontade ficou um pouco frustrada quando o palhaço do Fernando Collor, — que se elegeu com uma imagem de juventude e contestação, prometendo mundos e fundos mesmo depois de eleito — teve aquele triste fim. Alguns se despolitizaram, outros foram em busca de outros rumos. Mas é certo que a maioria continuou desconfiando da verdade fácil.

    Mas aquela mídia que nós sabíamos que estava mentindo conseguiu continuar mentindo sem questionamento por tanto tempo que provocou um refluxo nesse estado de espírito. Os filhos da revolução que se tornariam burgueses sem religião e cuspiriam de volta o lixo em cima das elites acabaram se tornando adultos conformados, fãs de novelas e times de futebol, consumidores vorazes e apetitosos do lixo que o adolescente sentia ser forçado pela sua garganta abaixo, do lixo que queríamos vomitar. Se é verdade que a audiência televisiva diminuiu e que os jornais vendem menos, é verdade que estão hoje muito mais ousados do que nos anos oitenta. As pessoas parece que perderam o pudor não só em relação ao sexo, mas em relação ao ridículo. Imitam qualquer «dancinha» que algum grupo musical «novo» apresente em um programa de auditório, assimilam qualquer gíria de novela, macaqueiam qualquer estilo. Isso, claro, já existia nos anos oitenta, mas não era tão vigoroso: as pessoas faziam isso inocentemente. Hoje há quem o faça de propósito.

    O mundo virou ao contrário. Se antes era chique duvidar, hoje é chique aderir. Adere-se à direita ou à esquerda como quem veste um estilo ou se filia a uma tribo urbana. Para a maioria, o importante é entrar em algum clima, refletir está fora de moda.

    Então entrou em cena a internet. Aí a coisa ficou séria. Se ela teve o poder de facilitar a difusão de conteúdos alternativos, foi ela também a responsável pela difusão irrefletida de conteúdo. As lendas urbanas de minha adolescência, que se propagavam com a lentidão do disse me disse ao pé do ouvido, hoje se espalham como fogo no pasto no inverno. E as pessoas cada vez menos se importam em criticar o que repassam. Mesmo pessoas aparentemente bem informadas. Se um pedaço de conteúdo está de acordo com o que a pessoa já pensa, ela imediatamente o compartilha, sem pensar se aquilo ali procede. Com o tempo, mentiras vão se acumulando, turvando o horizonte da verdade. E o questionamento do conhecimento hegemônico é usado como ferramenta para reforçar este conhecimento hegemônico, só que on a computer,* o que, na opinião de muita gente, significa que ele é diferente. A velha manipulação midiática continua existindo, só que agora ela não é movida pela imposição dos jornais e do rádio, mas impulsionada pela própria irreflexão do povo.

    Há coisas que as pessoas têm vergonha de admitir em público, como os seus preconceitos sexuais, raciais ou de classe. Estas coisas, porém, não causam a mesma vergonha on a computer. Alguém que jamais chama um negro de ladrão quando o vê na rua tem coragem de difundir supostos estudos comprovando que negros cometem mais crimes. Como as pessoas não verificam e não questionam, especialmente se a fonte for «alternativa», fica fácil criar factoides e transformá-los em «memes» na internet. O anonimato, e a difusão descontrolada, dificultam o desmentido. Se alguém o chamar de ladrão na internet não haverá como defender-se disso. Só que «a internet» não é um justiceiro mascarado idealista para apontar os erros do mundo.

    Estas reflexões me vieram à cabeça quando uma pessoa que conheço, que regula idade comigo e que estudou História como eu, saiu compartilhando por uma rede social esta imagem:

    Existem vários problemas com esta imagem, problemas que desaconselham que uma pessoa bem informada a compartilhe, especialmente se tal pessoa, além do benefício do conhecimento histórico, teve o azar de ser contemporânea do fato citado. Por uma questão de ideologia política (a pessoa em questão parece ter um claro alinhamento oposicionista em relação ao governo de centro-esquerda, a julgar pelo que anda compartilhando), este imagem foi passada adiante mesmo que para isso fosse preciso desconsiderar fatos históricos conhecidos e esquecer dores vividas na pele enquanto assalariado. E este esforço de esquecimento requerido para se compartilhar esta imagem me assustou com o nível de negacionismo que se tornou possível atualmente nesse país.

    Ao tempo em que negam as conquistas reais de um governo que; com todas as suas falhas e incompetências, levou o país mais à frente do que o antecessor; procuram embasar isto com dados falsos ou interpretações superficiais.

    O dado falso é o índice de 19,2%. Em maio de 2000 o salário mínimo aumentou de R$ 136,00 para R$ 151,00. Isso significa um aumento de 11,02% (façam a conta, amigos, os dados históricos do salário mínimo são fáceis de achar na internet). Portanto, é mentira que o aumento aprovado foi de generosos 19,2%. Se você acha que 8,18% são uma diferença irrelevante, apenas considere que o aumento de 19,2% teria elevado o salário mínimo a R$ 162,11.

    No entanto, apesar de ser o mais gritante, por ser uma simples e verificável mentira, esse não é o problema mais grave. Afinal, uma pessoa tem o direito de se enrolar com números. Quem hoje se lembra de quanto era o salário mínimo há dez, doze, vinte anos? Não censuro minha amizade por causa disso. O que realmente eu não entendo é como pode ser possível esquecer as agruras por que passavam os assalariados naquela época, com um nível de vida lastimável, pois o salário mínimo legal não era suficiente para comprar nem uma cesta básica. Vivemos quase uma década e meia (de 1991 a 2003) reclamando que o salário mínimo era insuficiente e agora, de repente, pessoas que viveram esta época e fizeram esta reclamação, se esquecem disso e distribuem imagens celebrando os «grandes aumentos» que o salário mínimo teve naquela época.

    Se isto não é uma campanha de desinformação articulada através das redes sociais, por pessoas muito bem informadas, contando com a irreflexão de quem o compartilha, então não existe campanha de desinformação. Se isto não é o bicho, o bicho não existe. Se tem duas patas, penas, bico, crista, asas, bota ovo e faz cocoricó e não é uma galinha, então galinha é um ser legendário.

    Para os que nasceram depois, e não tiveram que sofrer uma década na esperança do mítico dia em que o salário mínimo chegaria a «cem dólares» (isso foi promessa de campanha de todos os candidatos a presidente até 2001), uma rápida consulta à mídia vendida ao «lulopetismo» nos mostra os dados: Um artigo de 16/02/2011 — um mês após o salário mínimo ter sido aumentado para R$ 540,00 (um aumento de 5,88%) — revela os valores históricos do salário mínimo desde a sua criação, atualizados para o real de 16/02/2011.

    Quando criado, em 1940, o salário mínimo equivalia a 1.202 reais de 16/02/2011. Ele perdeu valor rapidamente até 1951, quando chegou a equivaler R$ 491. Então houve o polêmico aumento decretado por Getúlio Vargas e João Goulart, que valeu ao primeiro uma articulação de golpe de estado e ao segundo, a eterna pecha de «comunista»: o salário foi restaurado em seu poder aproximado de compra, para R$ 1.252. Este valor se manteve alto, com oscilações, até 1963, atingindo seu maior valor em 1959, sob Juscelino, R$ 1.732. Com a «Revolução» (ahã) de 1964 iniciou-se uma longa fase de baixo valor real, pois foi feito um grande expurgo de correção monetária. Os militares entregaram o salário mínimo equivalendo a cerca de R$ 603.

    A aceleração da inflação após a redemocratização fez erodir ainda mais o valor do mínimo. Quando Fernando Henrique implantou o Plano Real, ele equivalia a R$ 346, cerca de pouco menos de um quarto do valor original. Sob Fernando Henrique presidente, o mínimo se manteve nos seus índices históricos mais baixos, chegando a equivaler a meros R$ 266 em 1996. O famoso aumento de maio de 2000, descontada a inflação, melhorou em R$ 7 reais o poder de compra do salário mínimo em relação ao valor de dois anos antes. Um aumento merecedor do gesto de desdém protagonizado por José Dirceu, Aloízio Mercadante, Ricardo Berzoini e de todos os brasileiros, petistas ou não. Houve até aliados do presidente que criticaram o aumento tão baixo.

    A série histórica mostra que após a virada política de 2001 o valor do mínimo só fez aumentar, com correções sempre acima da inflação. A ponto de este aumento ter efeitos sobre o mercado de trabalho, com a quase extinção das domésticas (que ganhando mais podem investir em sua formação e buscar outras profissões menos degradantes), entre outros efeitos amplamente estudados e conhecidos. O governo petista pode ter seus pecados, mas ele certamente fez por merecer os altos índices de aprovação de que goza porque melhorou o poder de compra do assalariado, restando a quem se opõe a ele inventar mentiras e manipulações, contando com a irreflexão dos internautas para difundi-las como ser verdade fossem.

    Alguns dizem que o governo, com medidas redistributivas como essa, está «comprando sua aprovação». Eu não entendo o que se passa na cabeça de quem pensa assim, pois me pareceu sempre óbvio que a aprovação de um governo é resultado de ele atender às demandas legítimas do povo e melhorar a vida de todos. Melhorar a vida do povo sempre rendeu votos. Isso não é demagogia. Dinheiro no bolso não mente. Salário maior não mente. E então não é demagogia essa «compra de aprovação». Estranho é alguém supor que um governo deva ser aprovado sem nada fazer para melhorar o padrão de vida dos eleitores.

    O que mais me deixa triste nisso tudo é que as pessoas deixam de criticar as verdadeiras falhas que esse governo tem, e ficam inventando mentiras para desacreditar os seus acertos. Talvez seja porque uma crítica construtiva ao governo possa resultar — ó que horror — em um aperfeiçoamento dessas políticas de empoderamento do povo e melhora do seu nível de vida. Melhor fazer piadinha no Facebook. Afinal, essa droga de povo já levantou demais a crista.

    * Sátira ao sistema americano de patentes, que parece estar disposto a considerar como novas invenções a implementação informática de coisas triviais.

    A Conspiração Anarcomiguxa

    Qual a relação que você consegue enxergar entre o filme Zeitgeist e a modinha liber­tária que perpassa a internet? Nenhuma? Alguma vaga conexão que você não consegue explicar direito? Chega mais, senta e relaxa. Prepare-se para ler muito, e para descobrir a grande manipu­lação a que estamos sendo submetidos. Prepare-se para ter abertos os seus olhos: eu não espero convencer você, espero apenas apontar para onde o vento sopra, para que você olhe e veja por si aquilo que descobri agora há pouco, enquanto comia uma pizza de sala­minho com catupiry.

    Mesmo mantendo um razo­ável ceticismo, não se deve excluir de antemão a possibi­lidade de que seja verdade aquilo que parece improvável. Pelo menos não enquanto não surgir uma explicação fun­cional que recorra apenas ao que é possível. A navalha de Occam, quando apli­cada de forma indiscriminada, funciona mais como um obstá­culo do que como um guia. Foi utilizando um princípio seme­lhante que Aristóteles desconsiderou a teoria atômica de Demócrito e propôs sua versão simples e cética dos quatro elementos. Com isso e mais a sua auto­ridade, atrasou o desenvolvimento da química por milênios.
    Esta defesa prévia que proponho acima se deve à natureza do que vou escrever abaixo, que parecerá uma reles Teoria de Conspiração. Muitas pessoas se esquecem, ao fazer esse tipo de acusação, que, de fato, conspi­rações existem. As teorias de conspiração só se tornam ridículas quando envolvem participantes sobrenaturais (como os aliení­genas cinzentos) ou quando exigem o conluio de tantas partes diferentes, e durante tanto tempo, criando tantas difi­cul­dades, que a simples concepção de uma tal teoria dá mais trabalho do que supor, simplesmente, que a conspiração não existe. Não é o caso do que vou explicar. Posso estar enganado, mas mesmo que a conspiração não exista de forma deliberada e de antemão — e eu não afirmo que exista — o encadeamento do fato nos autoriza supor que, pelo menos, os fatos posteriores foram postos em ação a partir do conhe­cimento das condições prévias, de forma muito cuidadosa. Então, é irrele­vante a acusação de que tudo não passa de mera teoria de cons­piração: o simples encade­amento dos fatos já é um fenômeno interes­sante em si mesmo.

    Comecemos por algumas definições importantes (algumas delas vão para o glossário). O «movimento anarco­miguxo» é a mais recente modinha entre os descolados da internet, tal qual o «movimento ateu» já foi um dia (e lamen­tavel­mente reconheço que o foi apenas como uma prepa­ração para um passo posterior, como passo a demonstrar). Trata-se da difusão de um deter­minado dis­curso político e econômico através de blogues, vlogues e perfis em redes sociais. Um discurso ultra­­conservador em termos políticos (mas suposta­mente «liberal» em relação aos costumes) e ultra­liberal em termos econômicos, a partir dos trabalhos da chamada «escola austríaca» de economia (que, apesar do nome, hoje se baseia nos Estados Unidos) e suas teses minar­quistas (estado mínimo) e ultra­capitalistas (libera­lismo econômico máximo). Este discurso não é novo, claro, mas um velho conhecido de quem estuda História ou se prende aos aspectos históricos da ciência econômica: trata-se do discurso do liberalismo, herdeiro dos fisio­cratas franceses (Turgot e Quesnay) por meio dos liberais ingleses (Adam Smith, David Ricardo e Stanley Jevons) e com um pedágio entre os aristocratas reacionários do império austro-húngaro (Menger, Böhm-Bawerk e Mises) que se refugiaram nos Estados Unidos diante da ameaça do nazismo e lá encontraram o terreno ideal para difundir suas ideias, iniciando seguidores como Murray Rothbard. Este discurso é temperado pela ideologia de Ayn Rand, uma escritora americana de origem russa autointitulada filósofa, expresso em calhamaços de difícil leitura, como A Rebelião de Atlas (Atlas Shrugged) e A Fonte (The Fountainhead).

    Existem boas razões para se pensar que estamos vivendo um imenso processo de astroturfing (ou «lavagem cerebral através de propa­ganda de massas», se você prefere) que tem por objetivo dire­cionar a opinião pública em um sentido mais conser­vador, prepa­rando ter­reno, talvez, para interfe­rências políticas que satisfaçam essa «opinião pública espontânea». Um processo que pode ter sido preme­ditado, ou estar sendo «surfado» por pessoas que sentiram para onde soprava o vento. Um processo que começou com o filme Zeitgeist. Ou talvez antes, mas eu só o detecto a partir dali. As ideias ainda estão confusas, mais ou menos como você se sente quando tem a sensação de que tropeçou em algo grande. É o que sinto. Tenho até medo das conclusões a que estou chegando: nem todas eu incluirei neste texto. Que, no entanto, é o corolário deste blogue: é o desmas­cara­mento da «arapuca libertária» que eu, indis­tinta­mente, farejava no ar quando comecei a blogar aqui, faz uns dois anos.

    Comecemos por Zeitgeist. A menos que você seja um imbecil quase completo ou não conheça quase nada nem de História, nem de economia e nem de engenharia ou física, você percebeu que esse filme, do qual hoje quase nem se fala mais, possuía mais furos do que um queijo suíço. Na época eu me senti ultrajado de ver a gros­seria com que o realizador, «Peter Joseph», manipulava a mitologia egípcia (minha mais ou menos conhecida) a fim de «provar» que Jesus e Hórus possuíam dezenas de elementos comuns na biografia. O filme foi bem sucedido em plantar essa ideia de jerico na cabeça do povo (pelo menos na parte do povo que pensa e age como jerico), tanto assim que Jesus = Hórus se tornou um meme na internet: volta e meia vê-se um ateu «jogando na cara» de algum religioso essa «informação revolucionária». Dá vontade de olhar-lhe fixamente dizer: «ó, que descobrida cê fazeu!» O sucesso de Zeitgeist em incorporar essa informação falsa no imaginário popular, ou pelo menos no imaginário da subcultura virtual a que chamo de «movimento ateu», é uma prova do quanto é perigoso o processo de astroturfing a que me refiro, e que passarei a qualificar, dora­vante, de «A Conspiração Anarcomiguxa».

    Zeitgeist possuía três partes, e nem mesmo os fãs do filme conse­guiam entender completamente a relação entre elas: a primeira argumentando que Jesus é um mito astrológico de origem egípcia, a segunda dizendo que o atentado de 11/09/2001 foi feito por agentes do próprio governo americano e a terceira dizendo que o sistema bancário internacional se sustenta em uma fraude, a moeda fidu­ciária (fiat money, como eles gostam de dizer). A aparente desco­nexão entre os assuntos levou a muitas teorias mirabolantes sobre as razões dos temas terem sido inseridos em um mesmo filme. A minha teoria mirabolante particular era de que o filme procurava inculcar em quem o visse uma menta­lidade anti-semita. Afinal, o filme começava «provando» que Jesus não era um judeu, dizia que o maior atentado da história americana fora come­tido pelo próprio governo ianque e terminava dizendo que o governo estava sob o controle dos judeus (que não têm, claro, nenhum parentesco com Jesus). Faz sentido sim, e até pode ter sido uma das intenções originais dos realizadores de Zeitgeist, mas isto não explica tudo.

    Existem duas maneiras de encarar a História. Uma que a vê como o enca­de­amento de fatos sucessivos, sempre influ­en­ciados pelo passado, e raramente resultantes de deli­be­ra­ções. E uma que a vê como um processo cheio de idas e vindas, influenciado não exatamente pelo passado, mas por fluxos e conjunturas que, em certas fases, parecem antecipar momentos futuros. Se analisarmos as modinhas da internet que têm relação com os três temas abor­dados no filme, veremos que as explica­ções que obtemos pela apli­cação de cada uma das duas maneiras resultam diferentes. Se pensarmos na história como um processo unívoco, então a modinha libertária pegou carona no refluxo do movimento Zeitgeist, do qual ninguém quase ouve falar mais, e requentou alguns dos mesmos temas, radicalizando naqueles que interessam aos que seguram a mangueira que faz a lavagem cere­bral das massas. Mas se pensarmos na História como algo um pouco mais dinâmico, nos perguntamos se esse próprio refluxo não era esperado, ou até previsto, e se não teria havido, desde o início, um direcionamento que permitisse o surgimento, após o refluxo do MZ, de uma nova modinha exatamente com as características da que surgiu de fato. Mineiro que sou, declaro-me adepto de ambas as teses, mas não vejo motivos para negligenciar a segunda: de fato ela me parece sugestivamente forte, como vou argu­mentar.

    O primeiro sinal em minha consciência de que havia uma coisa qualquer de podre na metafórica Dinamarca foi quando tomei conhe­cimento do rompimento entre o Movimento Zeitgeist e o Projeto Vênus. Isso ocorreu em abril de 2011, mas o MZ é tão rele­vante que eu demorei um ano e meio para ficar sabendo, e ninguém notou nenhuma diferença no universo por causa disso. Not a single fuck was given. Eu sempre achei que ambos (MZ e PV) eram mastur­bações intelectuais de ativistas inter­néticos movidos a leite de pera, ovomaltine e generosas baforadas de mari­juana. Estava enganado (eu me engano muito, mas raramente alguém se importa de me mostrar isso). Embora previsto e previsível, o refluxo do MZ era parte de um processo. Depois de se apropriar das ideias de Jacque Fresco e Roxanne Meadows, as pessoas por trás do MZ passaram a ter um conjunto bastante grande de ideias e propostas, a ponto de poderem se caracterizar como um tipo de partido político ou religião — só não tinham projeção social para isso, porque o MZ era tudo menos receptivo. Então era neces­sário tirar de cena o MZ e passar à fase seguinte do projeto. E vocês repararam que a modinha anarcomiguxa começou a criar força à medida em que o MZ perdia força? Vocês acham isso coincidência?

    Poderíamos resumir dizendo que o filme Zeitgeist prepara caminho para uma ideo­logia direitista extremamente reacionária poli­ti­ca­mente, ultraliberal no sentido econômico. Faz isso desacre­di­tando o cris­tianismo, que oferece uma mensagem social que pode ser usada para defender um socia­lismo que não seja ateísta. Desa­credi­tado o cristianismo, é possível insurgir contra todas as formas de cole­ti­vismo e preocupação social sem o risco de vê-las legitimadas pela religião. Depois Zeitgeist apresenta o estado como inimigo do povo, o que legitima o ataque ao estado como uma guerra liber­tadora — ainda que boa parte das garantias de direitos só existam através do Estado. Por fim, lança dúvidas sobre o sistema econô­mico existente, preparando caminho para as teses da escola austríaca e seu ultraliberalismo.


    Por isso eu digo que o movimento anarco­mi­guxo não existiria sem que Zeitgeist tivesse existido. A modinha anarco­mi­guxa inclui quatro elementos centrais:
    1. pensamento individualista
    2. radicalismo da ação política
    3. o ultraliberalismo econômico
    4. dicotomia maniqueísta

    O individualismo exacerbado, a ponto de alguns usarem mesmo o termo egoísmo e se negarem qualquer responsabilidade sobre as conse­quências de seus atos sobre outrem (ou melhor, conforme correção enviada por um leitor abaixo: qualquer obri­gação de agirem em benefício de outrem), deriva das obras de Ayn Rand, romancista americana de origem russa, auto­intitulada filósofa (embora suas obras sejam livros de ficção).  Este tipo de postura, obvia­mente, induz ao radica­lismo, pois uma filosofia destas fatal­mente resulta em um pequeno número de satis­feitos e grandes massas de explo­rados. Nas obras de Rand isso redunda em dita­duras que subjugam as massas, destroem suas formas de organização solidária (sindicatos, por exemplo) e impõem um tipo de governo «dos melhores». Defensores mais modernos e menos deslavados, que não teriam coragem de, como Rand, admirar um estu­prador e esquarte­jador de meninas, preferem propor a coisa em termos mais pala­táveis, suge­rindo uma tecno­cracia ao exigir que os gover­nantes sejam «preparados». Alguns chegaram a exigir pré-requisitos para o exercício da adminis­tração pública tão elevados que pratica­mente nenhum líder mundial se qualificaria.

    Percebe-se, clara­mente, que as teses anarco­mi­guxas (ou minar­co­mi­guxas, para agradar a alguns mais específicos) formam um todo coerente, embora trazidas da obra de dois autores de origens tão diversas: Mises um lambe-botas dos aristocratas do Império Austro-Húngaro que foi ado­tado como guru nos EUA na época do macar­thismo e Rand uma judia russa dotada de um forte senti­mento anti­popular, antis­sindical, antis­social e anti­ético (no sentido de que negava uma ética comum à cole­ti­vidade, propondo um egoísmo racional que, logicamente, só seria ético para quem a adotasse). Esses autores possuem suas idios­sincrasias: o ateísmo egoísta de Rand e o mani­queísmo into­lerante de Mieses poderiam causar certos atritos com persona­li­dades mais sofis­ticadas ou mais religiosas. Isso explica o filme Zeitgeist.

    Se pensarmos que havia, desde o início, a intenção de estimular o surgi­mento de uma «opinião pública» girada à direita e que os deten­tores de tal inten­ção perce­beram que isso poderia ser feito apenas através da subver­são da ética, insti­lando um egoísmo cuja justi­ficação mais acessível estava na obra de Rand; percebe-se a neces­sidade de aplainar as arestas da perso­na­li­dade desta para torná-la mais aceitável ao grande público. Em outra época uma pessoa como Rand seria tachada de epítetos desa­gra­da­bi­lís­simos. Particular­mente proble­mático seria o seu ateísmo.  Além do mais, uma crítica defini­tiva ao socia­lismo não pode ser feita sem se ter primeiro desa­cre­ditado o cristia­nismo, devido às muitas seme­lhanças existentes entre as propostas sociais cristãs contidas na Bíblia em si e aquelas teorias avan­çadas pelos marxistas.

    Então, quem criou o filme Zeitgeist fez uma parte para «provar» que o mito de Jesus é «falso», o que serviu para esti­mular o surgi­mento e popu­la­ri­zação de um tipo de «ateísmo miguxo» baseado na revol­tinha e em doses cavalares de igno­rância, leite de pera e ovo­mal­tine. Daí, quando é apre­sentado às ideias de Rand, não acha problema algum o ateísmo dela, acha até vantagem. O neo-ateísmo, voltado para a direita, não deriva do ateísmo histórico, tradicionalmente de esquerda, mas dos delírios egoístas de Rand, que leu Nietzsche, entendeu mal e o perverteu de forma a justificar sua revolta pessoal contra o Estado soviético.

    As outras partes do filme atacam o sistema econômico. Elas são, de fato, o objetivo central do filme. A primeira parte é só uma isca para ateus revol­tados. O anar­co­mi­gu­xismo propaga a ideia de que um «estado mínimo» seria mais pacífico, princi­pal­mente porque não poderia coagir os seus cidadãos (que, diga-se de passagem, estariam armados até os dentes, com todo tipo de armas de fogo que pudes­sem comprar). Isto explica porque o primeiro filme fez tanta força para provar que um órgão do governo, a CIA, planejou e exe­cutou o atentado de 11/09/2001. Ao organizar um atentado contra o povo, o Estado se revela «o que é»: inimigo do povo. Então o povo deve enfra­quecer o Estado para libertar-se (por isso os anar­co­mi­guxos se dizem «libertários»).


    A suposta paz de que se desfrutaria com a eliminação, ou pelo menos a inanição do Estado, é tão irrealista que os próprios anar­co­mi­guxos admitem que a função de polícia teria que ser mantida, a fim de poder garantir a «ordem social». Uma ordem social opres­sora mantida por uma polícia a serviço de uma elite egoísta não me parece algo muito liberto, mas os liber­tá­rios não estão interessados em libertar a todos, apenas a si mesmos. Então faz sentido.

    Finalmente, temos algo bem mais explícito, que é a relação entre a crítica dos «austríacos» à moeda fiduciária e aos bancos centrais, encon­trada quase ipsis litteris na terceira parte de Zeitgeist, na qual temos a «revelação» de que o dinheiro que conhece­mos não possui valor intrín­seco (ó, que descubrida!) e que a função dos bancos centrais é inter­mediar o endi­vi­da­mento do Estado. De certa forma, sim, mas esta inter­me­diação deveria ser no sentido de controlá-lo. Engraçado que os anar­co­mi­guxos são contra os controles estatais, mas protes­tam contra o endi­vi­da­mento descon­tro­lado do Estado, que é causado justa­mente pela elimi­nação de regu­lações. É uma valsa do austríaco doido isso aí.

    Vemos, então, que as três partes prefiguram. Colocando tudo em um caldeirão e deixando fermentar, perce­bemos que alguém, em algum lugar, concebeu Zeitgeist como a semente de um movi­mento direitista ultra­liberal suposta­mente espon­tâneo, mas de fato diri­gido difusa­mente através de vídeos virais e sites de refe­rência (como o Instituto Mises). Isto é o astro­turfing de que falei. Para isso atacou a religião cristã, preparando terreno para a aceitação das ideias de Ayn Rand (que são essen­cial­mente anticristãs e, por isso mesmo, também anti­co­munistas). Ao mesmo tempo criou a teoria de que o atentado de 11/09/2001 teria sido promovido pelo governo ame­ri­cano, a fim de fazer com que muitas pessoas passassem a des­confiar do governo enquanto insti­tuição. E por fim, difundiu a men­sagem de que o dinheiro não tem valor intrínseco e que os gover­nos se endi­vidam inde­fi­ni­da­mente, preparando-se para enfrentar a crise ine­vitável, durante a qual os valores liberais seriam postos em xeque.

    Em relação às teses do filme, deve-se dizer que se elas fossem intei­ra­mente absurdas elas não teriam credi­bi­li­dade. Elas são falsas não porque são absurdas, mas porque mis­turam absurdos e verdades, de forma que um conta­mina o outro. O absurdo reduz a credi­bi­li­dade do que é verdadeiro, e a verdade empresta valor ao que é absurdo. Em relação a Jesus, por exemplo, é verdade que ele é um mito. É mentira que esse mito não tem conexão com uma figura histórica real. É verdade que este mito tem origem helenística, influ­en­ciada pelo judaísmo, e não judaica. Mas é mentira que seja pura­mente um culto astro­lógico. É verdade que Jesus foi miti­fi­cado usando elementos comuns e arque­típicos. Mas é mentira que havia um protótipo de «Deus sofredor» no qual Jesus, Dionísio, Hórus e Adônis estariam compre­endidos. É verdade que vários ele­mentos da biografia de Jesus se base­aram nas biografias de outros perso­na­gens de outras mitologias. Mas é mentira que algum perso­na­gem tenha todos os elementos da biografia de Jesus (e se tem, não é Hórus o melhor modelo, mas Hércules). Não me atrevo a comentar demais sobre as outras duas partes, porque a minha área é a História. Mas suponho que também nelas impera esta mistura indis­cri­mi­nada de verdade e mani­pu­lação deslavada. Existem boas fontes na internet para se pesquisar isso, mas eu não preciso pesquisar, porque pelo dedo se conhece o gigante.

    Depois de ter difundido esse conjunto aparentemente desconexo de ideias, os idea­li­za­dores do Zeitgeist descobriram o Projeto Vênus, com suas ideias de tecno­cracia futurista e governo mínimo, baseado em «cidades susten­táveis». Ao mesmo tempo começou a bombar na internet o conceito das «cidades-estado» (charter cities), proposto pelo cien­tista polí­tico ame­ri­cano Paul Romer. Tanto as cidades sus­ten­táveis de Jacque Fresco quanto as cidades estado de Romer seriam uni­dades autô­no­mas, fechadas em si. Comu­ni­dades isoladas e autos­sufi­ci­entes como Galt's Gulch (o refúgio dos super homens de Ayn Rand, em A Revolta de Atlas). A separação entre o Projeto Vênus e o Movimento Zeitgeist indica que, de fato, essa união não foi nunca essencial: o Projeto Vênus era esquer­dista demais em suas preo­cu­pações sociais. A separação era esperada. No entanto, o Projeto Vênus e a difusão do conceito de cidades-estado tiveram sua função: criar a impressão de que existe na aca­demia um pensa­mento liberal minar­quista relevante e que não é carac­te­ris­ti­ca­mente vinculado com a direita.

    O conceito básico envolvido é a minarquia, a diminuição do poder do Estado até ele se tornar mera­mente um instru­mento de orga­ni­zação ao nível local e básico, algo suposta­mente melhor do que o grande estado que conhe­cemos. Quando tudo isto alcançou uma massa crítica, ao se tornar viral na internet, os movimentos ori­gi­nais foram aban­do­nados porque já se havia criado um estado mental recep­tivo à propo­sição das ideias inicial­mente aven­tadas pelo Zeit­geist e pelo Projeto Vênus. Foi então que se começou a ouvir falar de Mises e da Escola Austríaca e o governo de Honduras, fruto daquele golpe canhestro patro­cinado pelos EUA, resolveu criar duas cidades estado no padrão de Romer para testar sua hipótese. São várias fren­tes de batalha simul­tâneas, todas bombar­de­ando a ideia ultraliberal no fim.

    Conforme se nota no gráfico forne­cido pelo Alexa.com, ao longo de quase todo o ano de 2011 há um aumento (não muito regular) dos aces­sos ao site www.mises.org, a nave mãe do movi­mento anar­co­miguxo. Em 2012 já se nota um decrés­cimo sig­ni­fi­ca­tivo, pois parece que, enfim, as pessoas não gos­ta­ram muito da verda­deira face do que estava por trás da modinha. Pelo menos não a nível global. Mas há algo dife­rente  a se notar quando ana­li­samos o mesmo gráfico em relação ao capítulo bra­si­leiro do Instituto Mises.

    Aqui a coisa é diferente, enquanto lá fora os acessos ao Insti­tuto Mises estão caindo, entre nós parece haver um inte­resse cres­cente nas ideias ultra­li­berais da Escola Austríaca. Enquanto nos anos anteriores os acessos pouco pas­sa­vam do traço, em 2012 , espe­cial­mente nos últimos meses, ocorre um cres­ci­mento bastante claro, a ponto de o tráfego brasi­leiro, sozinho, quase igua­lar o da matriz ameri­cana. Evi­den­te­mente o movimento anar­co­mi­guxo inter­na­cional deu chabu, mas anda bom­bando no Brasil.

    E isso nos leva a… essa tentativa ridícula de se criar de novo como partido a Aliança Reno­vadora Nacional (Arena), o espan­talho ide­o­ló­gico que dava cober­tura pseudo­par­ti­dária à dita­dura mili­tar bra­sileira. Não teríamos chegado ao ponto de se propor aber­ta­mente a recria­ção da Arena se não tivesse acon­tecido antes um longo pro­cesso de pre­pa­ração. A ideia de uma direita total­mente des­co­nec­tada de pre­ocu­pa­ções sociais, aven­tando uma meri­to­cracia que não exis­tiu nunca. Isso só está acon­te­cendo porque há pelo menos uns cinco ou seis anos a menta­li­dade do povo vem sendo pre­pa­rada por con­te­ú­dos difun­di­dos digi­tal­mente para legi­ti­mar as teses da direita mais extrema.

    Perceberam aonde quero chegar: alguém em algum lugar teve a boa ideia de tentar criar uma geração de jovens reaças a fim de dar subs­tância a um movi­mento rea­cio­nário. Isto era muito neces­sário, tendo em vista as suces­sivas crises do capi­ta­lismo a par­tir dos anos oitenta, aliadas ao cres­ci­mento de certas eco­no­mias emer­gentes, o sucesso de pro­je­tos que confli­tam com o pen­sa­mento esta­be­lecido (como Argen­tina, Islân­dia e Vene­zu­ela) e também a orga­ni­zação para­lela dos países peri­fé­ricos (como os BRICS). Estes desen­vol­vi­mentos ame­açam o con­senso capi­ta­lista e liberal, que triunfou com a queda do comu­nismo em 1989, especial­mente agora que a Europa está em crise também.

    O fascismo se alimenta de crises. Não é surpre­endente que justa­mente Grécia e Espanha estejam vendo crescer seus movi­mentos de ultra-direita (Aurora Dourada e Falange Católica, respec­ti­vamente). Mas o fas­cismo também pode ser utili­zado para insu­flar insta­bi­li­dade em países que se quer deses­ta­bilizar — e me parece muito claro que há um inte­resse em deses­ta­bi­lizar as insti­tui­ções brasi­leiras, já que em vez de alinhar-se aos inte­res­ses pre­do­mi­nantes o Brasil pre­fe­riu aproximar-se de Venezuela, Argentina, Rússia e outras ovelhas negras.

    As ideias ultraliberais e fascistóides parecem não ter sido muito bem sucedidas lá fora, onde as pessoas são, em geral, mais bem infor­madas do que aqui — e menos inte­res­sadas em maca­quear os ian­ques. Somente estão funcionando em países acu­ados por crises eco­nô­micas extre­mas, como os citados. Mas entre nós, os boto­cudos, todo espe­lhinho que venha de fora parece o máximo, mesmo essas ide­o­logias conce­bidas para nos fazerem mal. Isso explica por­que, fora a Guatemala, citada pelos próprios mise­anos como exemplo de país onde a Escola Austríaca é ensi­nada como dou­trina main­stream, o Brasil seja um dos países onde o inte­resse pela babo­seira pseudo­cien­tí­fica da Escola Austríaca esteja ganhando popu­laridade.

    E simultaneamente querem refundar a Arena, cri­mi­na­li­zar a polí­tica (jul­ga­mento do Men­sa­lão) e usar o terror como jus­ti­fi­ca­tiva para o endu­re­ci­mento (vio­lência em São Paulo). O ovo da serpente está chocando. E há polí­ticos opor­tu­nistas esquentando-o, pen­sando em votos. Ou pisamos logo nele, ou em breve esta­remos fugindo de uma cobra bem venenosa.