Zeitgeist Desmascarado

Artigo anônimo publicado no blogue socialista britânico “Third Estate”. Traduzido por José Geraldo Gouvêa (com ajuda do Google Translator, dada a urgência). Todas as notas de rodapé escritas pelo tradutor.

Esta tradução é a primeira de uma série que contribuirei ao blogue Universo Racionalista com o objetivo de informar à comunidade cética nacional sobre o modo como o filme Zeitgeist e o movi­mento derivado a partir dele são vistos e analisados pelos sítios de movimentos céticos gringos. Praticamente não existem análises independentes em português sobre o filme. É surpreendente que, quase quatro anos após minhas críticas iniciais ao filme Zeitgeist, não tenha surgido na blogosfera cética brasileira nenhuma análise mais profunda do filme — em vez disso vão surgindo simpatizantes do Movimento Zeitgeist tentando usar os blogues céticos para difundir suas ideias.

Acredito que parte do problema deriva da falta de respeito com que, tradicionalmente, os céticos brasileiros encaram as ciências humanas, a História principalmente. O seu conceito delas já é previamente direcionado a considerá-las inconfiáveis e presas da ideologia (no pior dos casos o indivíduo considerará que as ciências sociais são marxistas ou parte de um Grande Plano frustrado de implantação do comunismo) — o que explica a popularidade de “filósofos” como Olavo de Carvalho. Temos um caldo de cultura favorável à desqualificação do conhecimento e receptivo a teorias de conspiração que consigam se disfarçar de iconoclasmo

Espero que a continuidade deste projeto sirva para ensejar um debate mais maduro sobre o filme Zeitgeist e o Movimento criado a partir dele. Um debate no qual as estratégias diversionistas e as falácias sejam desmascaradas honestamente, e do qual os leitores de mente aberta saiam com mais conhecimento do que entraram.

Links importantes

  • http://thethirdestate.net/2010/03/zeitgeist-exposed/ (fonte do artigo em inglês)
  • http://www.biblebelievers.org.au/przion1.htm (edição atualizada dos Protocolos)

No romance policial clássico de Agatha Christie Os Assassinatos ABC, o detetive Hercule Poirot se sai com a seguinte frase:

Quando você menos percebe um alfinete faltando? Quando se está em uma almofada de alfinetes. Quando você menos nota um assassinato específico? Quando faz parte de uma série de assassinatos relacionados.

Eu gostaria de expandir um pouco o raciocínio de Poirot:

Quando você menos nota uma teoria da conspiração extremamente perniciosa e perigosa? Quando estiver incluída em um filme de duas horas, entre muitas outras teorias da conspiração.

Ao longo do último ano um número de pessoas já me disseram que eu deveria assistir Zeitgeist: The Movie. Todas estas pessoas de esquerda ou inclinadas à esquerda, e cada uma me disse que o filme dá uma boa ideia das estruturas de poder no mundo moderno. Essas pessoas pertencem a uma grande variedade de origens e idades, algumas delas ambientalistas, algumas sindicalistas, alguns socialistas, algumas britânicas, algumas americanas. O filme alcançou índices de audiência em massa a nível mundial, com mais de 3.000.000 de pessoas assistindo-o no YouTube, e muitos mais em DVD ou Google Video. E de todas as pessoas que recomendaram o filme para mim, ninguém notou sua dependência em relação ao velho mito da “conspiração judaica mundial”. Neste artigo espero expor a relação do filme com textos e mitos antissemitas mais antigos e ver mais de perto como essas teorias são feitas para enganar os esquerdistas. Gostaria de explicar porque esse filme se tornou tão atraente para pessoas que, de outra forma, estão envolvidas no bom combate contra o capitalismo, contra a guerra e para salvar o meio ambiente. Estou particularmente interessado na relação entre o filme e um livro chamado Os Protocolos dos Sábios de Sião e com o uso de outros temas antissemitas que existiram ao longo da modernidade.1

Zeitgeist: The Movie é dividido em três partes: A primeira centra-se na relação entre a simbologia astrológica e da história de Jesus, o segundo a respeito da “verdade sobre o 11/9” e o terceiro sobre mercado financeiro internacional. Em toda a honestidade a primeira parte não tem muita importância. O argumento é que o cristianismo não é original na sua forma particular de mitologia, e em vez disso é uma reconfiguração dos mitos mais antigos focando sol deuses. Se vamos ou não tomar esse argumento como verdade tem muito pouco impacto sobre a forma como entendemos a sociedade moderna. A segunda parte do filme expõe uma teoria que 9/11 foi um trabalho interno, cometido pelo Estado americano. Muitas pessoas acreditam nisso em sério, e muita da informação é inacessível, mas o argumento que eu gostaria de fazer é que essas duas teorias da conspiração são, em muitos aspectos, sem consequências para o sentido geral do filme. Ao contrário, são usadas ​​como cortina de fumaça para justificar a difusão de material antissemita na seção final do filme.

O que São Os Protocolos dos Sábios de Sião?

Trata-se de um livro publicado pela primeira vez por volta da virada do século XX na Rússia. É um documento fraudulento e fictício, feito para ler como se fosse a troca de informações entre diver­sos grupos de judeus influentes que planejam dominar o mundo. Ele sugere que o povo judeu pre­tende dominar o mundo através de um processo de controle dos governos, da imprensa e dos ban­cos, enganando a população em geral. A alegação é de que os judeus pretendem escravizar o mundo através da criação de um “governo mundial”. É claro que o texto é profundamente antis­se­mita, e foi demonstrado várias vezes como uma falsificação,2 mas tem sido utilizado de forma con­sistente em todo desde então para justificar as atrocidades cometidas contra judeus. Além disso, continua popular em algumas partes do mundo, e entre algumas organizações de direita e grupos fascistas.3

A relação entre dois textos

É bastante fácil encontrar evidências de que há uma grande influência dos Protocolos dos Sábios de Sião sobre o conteúdo de Zeitgeist. Dá para encontrar até citações. Por exemplo, quando Zeit­geist diz que “os banqueiros internacionais têm agora uma máquina eficiente para expandir as suas ambições pessoais”, os Protocolos dizem que “as engrenagens das máquinas de todos os esta­dos são movidas pela força do motor, que está em nossas mãos, e o motor da máquina de nossos estados é o ouro”. Mas gostaria de dizer que esse tipo de crítica não vai longe o suficiente. Em vez disso gostaria de mostrar que todo o argumento da terceira seção do filme foi levantado a partir dOs Protocolos. É o mesmo argumento, muitas vezes em linguagem ligeiramente alterada, e é por isso que parece tão antissemita. Vou me concentrar em cinco aspectos particulares.

O Governo Mundial

Um dos grandes temores dos teóricos da conspiração é um governo mundial. Este ponto é expli­cado claramente na parte final do Zeitgeist em uma discussão sobre uma União da América do Norte, uma união asiática, a União Europeia, e uma União Africana. Até que, finalmente, se diz que “quando for a hora certa, elas vão se fundir e formar as fases finais do plano em que estes homens têm estado a trabalhar há mais de 60 anos: Um governo mundial… Um banco, um exér­cito, um centro de poder.” Este argumento é particularmente relacionado com a abertura do Pro­tocolo 3, em que lemos:

Hoje posso dizer que a nossa [dos judeus] meta agora está apenas a poucos passos. Resta somente um pequeno espaço a atravessar no longo caminho que temos trilhado antes que ciclo da Serpente Simbólica, por que nós simbolizamos nosso povo, seja concluído. Quando este anel se fechar, todos os Estados da Europa estarão bloqueados em seus anéis como em uma poderosa prisão.

Os Protocolos continuam no Protocolo 5:

Por todos esses meios vamos assim desgastar os goyim [não-judeus] até que eles sejam obrigados a oferecer-nos poder internacional de uma natureza que nos permitirá absor­ver todas as forças estatais do mundo e formar um Super-Governo.

O uso da guerra

Há uma seção no filme em que se afirma que as justificativas para os Estados Unidos entrarem em uma série de guerras mundiais foram orquestradas por “homens por trás do governo.” Dizem-nos que o naufrágio do Lusitânia foi planejado, que o incidente do Golfo do Tonkin nunca aconteceu, que se sabia sobre Pearl Harbor com a devida antecedência4 e é claro que 11/9 foi um trabalho interno. Diz-se que ambos os lados do conflito têm sido financiados pelos mesmos “banqueiros internacionais”. Esta seção do filme é levantada diretamente do protocolo nº 7, que diz:

Ao longo de toda a Europa, e por meio de relações na Europa, e também em outros con­tinentes, devemos criar fermentos, discórdia e hostilidade. É assim que ganhamos uma dupla vantagem. Em primeiro lugar, manter sob controle todos os países, pois bem eles sabem muito bem que temos o poder de criar distúrbios quando quisermos e res­taurar a ordem… Precisamos ficar em uma posição para responder a todos os atos de oposição pela guerra com os vizinhos do país que ouse se opor a nós, mas se esses vizinhos também se aventurarem a ficar coletivamente contra nós, então devemos oferecer resistência pela guerra universal.

Não vou negar aqui que guerras foram travadas cinicamente, porque é claro que foram, e também não estou dizendo que não deveríamos nos opor a certas guerras só porque outras guerras mere­ceram nossa oposição. O ponto aqui é, porém, que esse argumento em particular sobre a guerra, baseado na ideia de que os judeus mandam no mundo, deveria ser jogado fora.

Manipular a população

Existem dois tipos de pensamento nas teorias clássicas da conspiração judaica sobre a forma como as pessoas são feitas de bobas e enganadas. O primeiro, e o que foi realmente mais significativo na história das teorias da conspiração judaica, é a ideia de judeus controlando os meios de comuni­cação. O segundo, que se tornou menos utilizado, mas ainda existe em Zeitgeist: The Movie é a ideia de controle judaico do sistema de ensino para torná-lo ineficaz.

A questão do controle judeu da mídia é coberto no Protocolo 12, em que está escrito:

Nem um único anúncio chegará ao público sem nosso controle. Mesmo agora isso é alcan­çado por nós na medida em que todas as notícias são recebidas por algu­mas agên­cias em cujos escritórios são focadas de todas as partes do mundo. Tais agên­cias então já serão inteiramente nossas e darão publicidade apenas ao que ditarmos.

E no Protocolo 13:

Nós os distraímos ainda mais [aos não-judeus] com divertimentos, jogos, passatempos, paixões, palácios públicos… Estamos para começar a propor através da imprensa com­petições de arte e de todos os tipos de esportes. Esses interesses finalmente distrairão suas mentes das questões de que devemos nos encontrar compelidos opor-nos a eles.

Em Zeitgeist questões idênticas são cobertos o tempo todo, mas existe em particular a discussão de uma “cultura totalmente saturada de entretenimento através dos meios de comunicação em massa.” Dizem-nos que as mesmas pessoas por trás da tomada planejada do governo estão “por trás da grande mídia”.5

Em ambos Zeitgeist e os Protocolos vemos alguma discussão sobre o sistema de ensino. Em Zeitgeist nos é mencionada “a decadência do sistema de ensino dos EUA” e que “eles [o governo] não querem que seus filhos sejam educados”. Não é surpresa que o mesmo argumento seja feito no Protocolo 16: “Quando estivermos no poder, removeremos todo tipo de assunto perturbador do curso da educação e faremos dos jovens filhos obedientes da autoridade”. O narrador de Zeitgeist diz: “a última coisa que os homens atrás da cortina querem é um consciente, público informado”, ecoando o sentimento do protocolo 5: “não há nada mais perigoso para nós [os judeus] que a iniciativa pessoal.”

Ouro ou dinheiro, reserva federal e usura judaica

Tanto os Protocolos (particularmente Protocolos 21 e 22) e Zeitgeist focam fortemente sobre ques­tões relacionadas a dinheiro ou ouro. Ambos oferecem a teoria de que os problemas da sociedade são causados ​​por sistemas monetários e que o dinheiro está sendo controlado por um pequeno grupo de pessoas de moral duvidosa. O importante aqui é que o foco está no dinheiro e não no capi­tal ou no sistema de produção. Em vez de oferecer perspectivas críticas sobre as estruturas da sociedade que causam a opressão e a pobreza, a opinião geral é que a sociedade atual é benevo­lente e tal benevolência está subvertida por problemas na esfera da circulação.

Ao longo dos séculos, desde a expulsão dos judeus da Grã-Bretanha em 1290, a acusação de usura foi dirigida contra estes para fins antissemitas. Zeitgeist diz do imposto de renda federal:

Cerca de 25% da renda média do trabalhador é levado através deste imposto, e adi­vinha onde esse dinheiro vai? Vai pagar os juros sobre a moeda que está sendo pro­duzida pelo Federal Reserve Bank. O dinheiro que você ganha trabalhando por quase três meses ao ano vai quase literalmente para os bolsos dos banqueiros internacionais.

Mais uma vez, por uma questão de tentar fazer com que as palavras não apareçam como racistas que são, o termo judeu é substituído por “banqueiros internacionais”. Esta é mais uma vez a reafirmação de um mito antissemita. Assim como em todos esses exemplos, os argumentos aqui são levantadas a partir de teorias antissemitas mais antigas. Zeitgeist não está oferecendo uma explicação do mundo, ou dos sistemas econômicos políticos nacionais. Estes argumentos só existem para promover uma atitude de ódio a um determinado grupo pré-definido da sociedade.

A cabala secreta?

Em última análise, o argumento que está sendo feito em todo Zeitgeist é que o mundo está sendo controlado por uma pequena sociedade secreta de indivíduos. No contexto da história das teorias da conspiração, isto quer dizer “os judeus”. Quando nos é dito pelo filme sobre reuniões destes “banqueiros internacionais” que são “secretas e escondidas da vista do público”, as discussões sobre “uma agenda defendida pela elite impiedosa”, ou “as pessoas por trás do governo”, eles estão dando novo alento a um velho mito racista que devemos tentar manter distância.

Há uma insistência em toda a teorias da conspiração de que alguém ou algum grupo de pessoas é pessoalmente responsável por todos os males do mundo, e isso está muito relacionado com o antis­semitismo ao longo da modernidade. Por centenas de anos, os judeus têm sido o bode expi­a­tório oficial do capitalismo. Quando os sistemas de produção empobreceram povo, os judeus foram responsabilizados, onde as pessoas sentiram os impostos como injustos, os judeus foram responsabilizados, onde as pessoas se sentiram alienados pelas estruturas da sociedade, foram informados de que são de fato alienadas porque não fazem parte das reuniões secretas de judeus.

Em última análise, estas teorias nos levam para longe de uma crítica do capitalismo. O filósofo esloveno, Slavoj Zizek defende exatamente este ponto com referência ao antissemitismo de Wagner quando escreve:

Ele precisa de um judeu, de modo que, em primeiro lugar, a modernidade — este pro­cesso impessoal abstrato — tenha um rosto humano, seja identificada com uma carac­terística concreta e palpável; então, em um segundo movimento, rejeitando o judeu que incorpora tudo o que se desintegrou na modernidade, podemos manter as suas van­tagens. Em suma, o antissemitismo não representa anti-modernismo como tal, mas uma tentativa de combinar a modernidade com o corporativismo social que é carac­te­rís­tico dos revolucionários conservadores.

Quem foi o senador Louis McFadden?

Louis McFadden, que é muito cotado em Zeitgeist, era um senador dos EUA na primeira parte do século XX. Ele também calhou de ser um antissemita decidido e se saiu com frases como “nos Estados Unidos de hoje, os gentios têm tiras de papel enquanto os judeus têm o dinheiro legal”

Ele é citado duas vezes no filme dizendo o seguinte: “Um sistema bancário mundial estava a ser criado aqui… um superestado controlado por banqueiros internacionais, agindo em conjunto para escravizar o mundo para seu próprio prazer…” e “Foi uma ocorrência cuidadosamente planejada. Banqueiros internacionais procuraram trazer uma condição de desespero para que pudessem aparecer como governantes de todos nós.”

Dentro do contexto da visão de mundo de McFadden, ele usa “banqueiros internacionais” como um epíteto para os judeus. O que é notável é que os realizadores de Zeitgeist parecem dispostos a omitir este contexto, para sugerir que McFadden simplesmente está a oferecer uma crítica do capi­talismo. O fato é que, dentro de teorias de conspiração, a rotulagem dos judeus como “banqueiros internacionais” e “capital financeiro internacional” é um traço comum. Estas citações teriam sido entendidas na época, e ainda são entendida por muitos, agora, como antissemitas.

O caso de Jeremiah Duggan e a verdade sobre Lyndon LaRouche

Outro personagem bastante obscuro que aparece em Zeitgeist é o ativista político norte-americano Lyndon LaRouche. Senti que deveria incluir a seguinte história como evidência anedótica de quão perigosas estas pessoas podem ser:

Jeremiah Duggan era um estudante britânico na Sorbonne que morreu em 2003 em circunstâncias extremamente suspeitas. Nos meses que antecederam a sua morte, Duggan tinha se envolvido no que acreditava ser uma organização pacifista. Na verdade, tinha se enrascado com um grupo de organizações políticas liderados pelo ativista político norte-americano Lyndon LaRouche. Em março daquele ano, Duggan participou de uma conferência dessas organizações no Instituto Schiller (um local de propriedade do movimento de LaRouche) em Wiesbaden, Alemanha. No trans­correr das reuniões Duggan revelou ser judeu e, no entanto, em tais reuniões do movi­mento de LaRouche, judeus são os culpados pelo início da guerra, reanimando os velhos mitos da cons­pi­ra­ção sobre judeus incentivando guerras como ajudar no controle social. Ele disse em seu discurso de abertura da conferência:

Este plano para lançar uma nova guerra mundial foi intelectualmente influenciado por pessoas que, como Hitler, admiram Nietzsche, mas por “serem judias”, não poderiam se qualificar para a liderança do partido nazista, apesar de seu fascismo ser absoluta­mente puro! Tão extremo qaunto o de Hitler! Eles as enviaram para os Estados Unidos. […] Quem está por trás disso?… A turma do sistema de banco central independente, a escória do lodo. Os interesses financeiros.

Por volta das 05:00, depois que Duggan tinha revelado sua identidade judaica na conferência, ele telefonou para sua mãe. Disse: “Mãe, estou em apuros… Você conhece essa Nouvelle Solidarité?…” Ele disse: “Eu não posso suportar isso… Quero sair.” E nesse ponto o telefone foi cortado. E então o telefone tocou de novo, quase que imediatamente… E, em seguida, a primeira coisa que disse daquela vez: “Mamãe, estou com medo”. Ela percebeu que ele estava em tal perigo que ela lhe disse: “Eu te amo.” E então ele disse: “Eu quero vê-la agora.” Ela disse: Bem, onde você está, Jerry?” E ele disse: “Wiesbaden.” E ela disse: “Como é que você escreve?” E ele disse: “W I E S” E então o telefone foi cortado.

No dia seguinte, Jeremiah foi encontrado morto, com membros do movimento de LaRouche ale­gando que ele cometera suicídio. Inquéritos ainda estão em andamento para determinar o que houve naquela noite. Nas últimas semanas, um segundo inquérito sobre sua morte foi anunciado.6

LaRouche foi conhecido como um teórico da conspiração judaica por mais de 30 anos. Sua organi­zação é cultista e perigosa (uma das razões pelas quais eu escolho para escrever este artigo anoni­ma­mente), e o conteúdo de muito do que ele diz pode ser rastreada até o tipo de alegações apre­sen­tadas nOs Protocolos dos Sábios de Sião. O que é, então, que um homem como este está fazendo em um filme que pretende ser uma crítica esquerdista liberal da sociedade?7

Zeitgeist e a Esquerda

Sob muitos aspectos, o que há de mais inquietante a respeito deste filme é ele pretender ser de esquerda, ou liberal. À medida que o filme termina, vemos imagens de três homens aparecerem e desaparecerem: Mahatma Gandhi, Martin Luther King e John Lennon. Ao longo do filme, temos citações do comediante esquerdista Bill Hicks e uma parte é reservada a Michael Meacher, um político do New Labour. Afirma-se mais uma vez que o objetivo deste filme é a afirmação da uni­dade da humanidade, de acabar com a diferença, seja ela de classe, raça ou sexo. Somos levados a pensar que o filme está a oferecer uma crítica radical, pela esquerda, do poder estabelecido. Em vez disso ele chafurda no tipo de teorias que se casam mais com os libertários de direita. Eu não sei por que o grupo Zeitgeist foca especialmente a esquerda. É, talvez, uma medida de divisão, mas também, possivelmente, apenas uma arena onde eles sentem que podem converter as pessoas à sua maneira de pensar. O que está claro, porém, é que a sugestão de que as ideias expressas são de esquerda ou liberais, com a implantação de citações de esquerdistas e liberais bem conhecidos, é absolutamente cínica.

O problema positivista

Há uma razão em particular para que essas conspirações possam parecer compatíveis com os modos de pensamento de esquerda, e que tem a ver com o problema filosófico do positivismo. Dito de forma mais simples, isto quer dizer que ideias sobre a transformação de uma sociedade não podem ser diretamente expressas na linguagem ou modos de pensar correntes na sociedade que pretendem transformar. E este problema é comum a todas as teorias de transformação da sociedade. Provavelmente, o ramo mais influente deste tipo de pensamento derivou de Hegel a Marx e até os marxistas dos séculos 20 e 21. A solução para eles é falar em termos de uma dialética, ou seja, comparando-se a consciência de uma sociedade para a realidade material. A conclusão significativa deste tipo de pensamento é que a consciência da sociedade, até um certo ponto é sempre falsa.

Os teóricos da conspiração retomam esta questão de outra maneira. Dizem que, se a nossa consci­ên­cia da sociedade é sempre falsa, ela é forçada a ser falsa por um pequeno número de poderosos que tornam falsas.8 Eles acreditam que somos constantemente enganados por uma quadrilha que tudo sabe e que controla cada aspecto de nossas vidas. E as soluções diferem demasiado. Para os marxistas e socialistas o problema é que a sociedade produz uma consciência que não nos permite compre­ender plenamente a nossa miséria no trabalho, do desemprego, ou impotência e a solução é a transfor­mação radical da sociedade em um mundo mais justo e menos exploradora. Para os teóricos da cons­pi­ração, a resposta é a eliminação de tal pequena e poderosa elite. Eles não acre­ditam que a sociedade precisa de mais transformação do que isso.

Este é um terreno filosófico difícil de trilhar. Corremos um grande risco se quisermos criticar os teó­ricos da conspiração por não serem positivistas e por não trabalharem dentro dos modos acei­tos de pensamento. Em vez disso, o que temos de dizer é que o seu modo particular de pen­sa­mento crítico não propõe uma solução correta para a solução de problemas da sociedade e, ade­mais, não se baseia na unificação, mas na divisão. Devemos mostrar que a desigualdade na socie­dade é estrutural em vez de ser baseada nos desejos de um pequeno grupo de judeus.9

O que deve ser feito?

O filme Zeitgeist parece ter uma popularidade crescente e, além disso, está surgindo um movi­mento baseado nele. Mais e mais pessoas estão sendo influenciadas pelo que o filme tem a dizer, sem per­ce­ber bem onde ele está vindo. É importante que possamos expor o mais amplamente possível o subtexto antissemita deste filme. Devemos expô-lo como sendo cinicamente posicio­nado de maneira a influ­enciar os liberais e esquerdistas. Ao atacarmos as ideias apresentadas por Zeitgeist, não é suficiente discutir meros detalhes, e devemos, em vez disso, tentar compreender a política que este filme, como um todo, tenta apresentar. Precisamos ler através das muitas cama­das de teorias da conspiração aqui, e entender que há uma em particular em que eles querem nos fazer crer, e que esta é, naturalmente, a mais perigosa e perniciosa.

É importante entender que o tipo de crítica da sociedade oferecido pelo movimento Zeitgeist não pode ser separada da teoria conspiração judaica. Não se pode tomar os textos antissemitas clás­sicos, subs­ti­tuir a palavra “judeu” por “banqueiros internacionais” ou “capital financeiro inter­na­cional” e acre­di­tar que sua teoria não é mais antissemita. Claro que existem bons argumentos de que o capitalismo e impe­rialismo são de fato extremamente perigosos. Há bons argumentos em uma perspectiva de esquerda ou liberal para dizerem que as guerras no Afeganistão e no Iraque nunca deveria ter sido travadas. E é aqui que temos de reconhecer que os fins não justificam os meios. Não podemos nos dar ao luxo de apoiar qualquer causa que é simplesmente anticapitalista, ou qualquer outra causa que é simplesmente antiguerra, caso contrário, corremos o risco de ir para a cama com os fascistas. Em vez disso, nossas posições sobre o capitalismo e da guerra devem surgir a partir de crítica profunda, em vez de uma reedição revista de narrativas antis­semitas antigas.

A fim de difundir esta mensagem o mais amplamente possível, encorajo a todos que republiquem esta peça em seus próprios sítios, que a enviem a amigos e camaradas, a mostrá-la a quem lhe apre­sen­tar “este novo filme fabuloso você simplesmente tem que assistir”. Uma das maneiras mais fáceis é, se você está no Twitter, clicar no botão Tweet deste post. Se possível, dê-nos retorno aqui nO Terceiro Estado para que possamos monitorar quão amplamente este material está sendo dissemi­nado. Nas próximas semanas recriarei este artigo como um vídeo narrado, bastante no estilo de Zeitgeist: The Movie, a fim de que podemos espalhar esses pontos de vista para ainda mais pessoas que possam vir a ser influenciadas por este filme repugnante.

  1. O antissemitismo é um pensamento caracteristicamente direitista, estando fartamente documentada a tentativa de associar as teorias socialistas com o pensamento judaico. A circunstância fortuita de que alguns expoentes do pensamento esquerdista (começando por Karl Marx) eram judeus foi utilizada como arma de propaganda por todos os tipos de reacionários, começando pela Igreja Católica, que tentou criar sua própria doutrina social para contrabalançar o sindicalismo socialista e ateu, passando pelos nacionalistas e fascistas até chegar a regimes de centro-esquerda interessados em conter o avanço do “bolchevismo”. Mesmo nos regimes socialistas o antissemitismo encontrou certo espaço, estando presente, por exemplo, na onda de perseguições a Trotsky e seus seguidores. No entanto, esta identificação do socialismo como uma “doutrina judaica” é falsa, pois um número significativo de outros famosos socialistas não tinha qualquer relação com o judaísmo: Friedrich Engels, Mikhail Kropotkin, Lênin, Stálin, Mikhail Bakunin, Pierre Proudhon, Antonio Gramsci etc.

  2. São conhecidas as fontes. O plano de conspiração deriva de um romance satírico escrito por Maurice Joly para zombar de Napoleão III, intitulado “O Diálogo no Inferno Entre Maquiavel e Montesquieu” — que não possui conteúdo antissemita. O cenário no cemitério, a ideia de um complô de dominação mundial e alguns conceitos adicionais foram acrescentados por Herman Goedsche, que plagiou a obra de Joly transformando-a no romance gótico Biarritz. A partir desta segunda fonte o chefe da Polícia Secreta czarista, a Okhrana, criou a primeira edição dos Protocolos. A farsa foi desmontada pelo jornal britânico, The Times, ainda em 1921.

  3. Uma das razões da contínua popularidade dOs Protocolos é o seu caráter aparentemente “profético”, por descre­ve­rem uma realidade muito próxima à nossa. Esta circunstância, porém, não passa de vaticinium ex post facto, pois sucessivas edições introduzem alterações (às vezes sutis) de forma a “atualizar” o conteúdo. Como não há direito autoral que possa controlar a republicação e tampouco existem manuscritos originais fide­dig­nos que possam ser usados para dirimir dúvidas (pois a obra em si é forjada a partir do plágio de outras, que tam­bém estão em domí­nio público), não há limites para novas falsificações do texto. Uma boa medida destas falsificações pode ser obtida na comparação com o texto original russo (publicado em 1902) com o texto da primeira edição em inglês, datada de 1919, que, curiosamente, substitui os judeus por bol­che­viques. A mais famosa edição americana foi a finan­ci­ada por Henry Ford, que, embora não tenha sido a pri­meira a restaurar a menção dos judeus, foi a primeira a redi­vidir o conteúdo em “protocolos”, isto é, propostas de ação feitas pelos líderes judeus aos seguidores do mundo.

  4. Ao atacar a participação americana na II Guerra Mundial esta teoria de conspiração, obviamente, enfraquece a posição ideológica dos Aliados, abrindo espaço para uma rediscussão do “outro lado”, o nazifascismo.

  5. Acredito que o autor deste texto não pretendeu negar a realidade do controle da mídia mundial por um grupo res­trito de pessoas, como o magnata Rupert Murdoch, que controla diversos órgãos de imprensa na Austrália, na Grã Bretanha, no Canadá e nos Estados Unidos. A existência de tais pessoas e o seu controle efetivo sobe nume­rosos órgãos de imprensa não são teorias de conspiração, mas fatos conhecidos e documentados. O que se pretendeu negar é que os meios de imprensa seriam, na verdade, de propriedade de outras pessoas, judeus, claro, que os usariam para seus fins.

  6. O inquérito sobre a morte de Jeremiah Duggan reiterou que se tratou de suicídio, sem apresentar novas evidências. Acredito que, exceto pela identificação de Lyndon La Rouche como um líder de extrema direita (e bota extrema nisso) a menção do caso não acrescenta ao texto.

  7. Não se trata aqui de induzir a culpa por associação, mas apenas observar que uma das pessoas que Zeitgeist escolheu citar é de um caráter duvidoso, para dizer o mínimo. A citação de La Rouche, além de ser um apelo falacioso à autoridade, pois ele não tem embasamento para fazer as análises que faz, é um indicativo das tendências perigosas de extrema direita que estão envolvidas no filme.

  8. Atenção para a diferença entre a dialética marxista, que enxerga uma limitação metodológica em nossa capacidade de compreender a sociedade, e a retórica conspiracionista, segundo a qual nossa falta de entendimento da sociedade resulta de sermos deliberadamente enganados.

  9. O artigo original falha por não mencionar dois outros notórios simpatizantes do nazismo citados no filme: Charles Lindbergh e Henry Ford (este não tem sua fala narrada, mas apenas exibida em um quadro fixo e não está incluído na transcrição). Lindbergh era um proponente da eugenia e Ford financiou uma edição em massa dos Protocolos dos Sábios de Sião, para distribuição entre seus empregados e por todo o país. Seu jornal, o "Dearborn Independent", foi o maior responsável pela difusão do antissemitismo nos EUA.

Hugo Chávez e o Herói Padrão de Lord Raglan

Você provavelmente já deve ter percebido algo de estranho na recorrência de certas características na biografia de personagens mitológicos (e às vezes personagens históricos). É como se a maioria dos nomes famosos tivesse em comum algo além da fama em si. Pode parecer teoria de conspiração barata, mas essa impressão não é fruto de sua imaginação: ela já foi detectada, estudada e sistematizada por historiadores. Enfim: já se comprovou que existe mesmo um padrão que se aplica à maioria dos relatos biográficos, hagiográficos ou mitológicos de personalidades reais, mitificadas ou míticas.

A comprovação está em uma obra intitulada “O Herói: Um Estudo da Tradição, da Mitologia e da Literatura” — publicada em 1936 pelo folclorista britânico FitzRoy Somerset, Barão de Raglan. Nesta obra, Lord Raglan sintetizou 22 características que são encontradas nos relatos sobre uma grande variedade de personagens reais ou não. Não são as únicas características compartilhadas, mas as que mais frequentemente se repetem.

O estudo destas características não é muito útil para identificar a historicidade de personagens duvidosos, visto que o czar Nicolau II, personagem histórico amplamente conhecido, morto em 1917, tinha 14 das 22 características (uma pontuação superior à de Harry Potter, Ulisses, Sansão e Aquiles); mas é muito interessante para avaliar possíveis interpolações laudatórias feitas em relatos genuínos sobre personagens reais (“mitificação”) e a possibilidade de que um personagem real seja futuramente elevado a um nível de mito ou santo.

Com a recente morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, parece estar havendo uma tentativa de apropriação da sua biografia pelos seus herdeiros políticos, transformando-o em um herói. A análise a seguir procurará coincidências de sua biografia com o padrão do herói de Lord Raglan, para avaliar o potencial de Chávez como futuro arquétipo revolucionário latinoamericano (tal como Sandino, Guevara e Bolívar).

1. A mãe do herói é uma virgem de sangue real.


Verdadeiro no caso de Jesus Cristo, mas não no caso de Chávez, que sequer era o filho mais velho.

2. Seu pai era um rei


Filho de pais pobres, Chávez não se enquadra aqui. Mas o seu bisavô tinha sido um oficial do exército federalista de Ezequiel Zamora, e por isso Chávez merece marcar meio ponto nesse item.

3. Fruto de um amor incestuoso ou ilegal


Nenhuma coincidência conhecida.

4. As circunstâncias de sua concepção são incomuns


Nenhuma coincidência conhecida.

5. Ele é também considerado filho de um deus


Nenhuma coincidência conhecida.

6. Ao nascer ocorre um atentado contra a sua vida, geralmente cometido por um membro da família, ou por sua ordem


Não consta nas biografias oficiais que isto tenha ocorrido.

7. Ele é salvo e levado embora


Como não houve o atentado, não pode haver coincidência aqui.

8. Criado por pais adotivos em um lugar distante.


Chávez foi criado durante vários anos por sua avó, Rosa, em outra cidade, devido às dificuldades econômicas dos seus pais. Um ponto.

9. Quase nada sabemos de sua infância.


Existem poucas fontes sobre sua infância. Não localizei menção a nenhum episódio. Isto, claro, é de se esperar de uma criança pobre. Mas é também característico do herói de Raglan. Outro ponto.

10. Ao se fazer homem, ele volta (ou vai) para o seu futuro Reino.


Aos dezessete anos, Chávez entrou, por escolha própria, para uma academia militar, sendo parte da primeira turma submetida a um novo e mais rigoroso programa de treinamento, que incluía todas as disciplinas militares normais e também vários tipos de conhecimentos técnicos e gerais. Tendo Chávez se notabilizado como um líder do exército antes de ser presidente, esta sua ida para as forças armadas por escolha própria lhe faz marcar mais um ponto.

11. Depois de uma vitória sobre o rei e/ou sobre um gigante ou dragão ou fera...


Apesar de derrotado na quartelada que organizou em 1992, Chávez acabou sendo, de fato, um vencedor, ao defenestrar o odiado presidente Carlos Andrés Pérez e, dessa formar, frustrar os planos do Consenso de Washington. Como os EUA são representados heraldicamente por uma águia, temos aqui uma fera também. Ou seja, Chávez marca esse ponto com pleno louvor.

12. Ele se casa com uma princesa, que pode ser filha/parente do seu predecessor.


Enquanto estava na cadeia, foi abandonado por sua primeira mulher, Nancy Colmenares, e posteriormente por sua amante, Herma Marksman, uma historiadora, que havia sido sua grande inspiradora durante o primeiro período revolucionário. Pouco antes de ser eleito presidente, Chávez se casou com uma jornalista bonita e de origem rica chamada Marisabel Rodríguez.  Se considerarmos o papel influente da imprensa na América Latina, e especialmente na Venezuela, e ainda mais especialmente em relação a Chávez, Marisabel pode ser considerada uma “princesa” (metaforicamente), ligada aos seus maiores inimigos. Casar-se com uma mulher da elite, às vezes abandonando a antiga namorada/amiga, é um mau passo que quase todo herói dá (Sansão, Artur...) e por isso Chávez marca mais um lindo e perfeito ponto.

13. E se torna rei.


Como a Venezuela não é uma monarquia, esse “tornar-se rei” precisa ser entendido como “ser eleito presidente”. Mas ressaltemos que nem toda monarquia era hereditária e vitalícia. Os reis da Polônia, da Lituânia, da Irlanda, do Sacro-Império Romano-Germânico e da Noruega eram eleitos pelos seus pares. Os sultões do mundo islâmico e os imperadores romanos raramente escolhiam descendentes diretos como sucessores. Monarquias nas quais o rei tinha poder temporário incluem as antigas monarquias gregas e as monarquias célticas em geral (especialmente na Irlanda, em Gales e na antiga Escócia). Então, a necessidade de metáfora é bem secundária aqui. Ponto para Chávez.

14. Por algum tempo reina pacificamente.


O tempo de reinado pacífico de Chávez se refere ao período posterior ao golpe de estado que sofreu em 2002. Até esse momento todos os seus movimentos fazem parte da acomodação da situação política. Sua vitória sobre o golpe é a sua definitiva entronização, pois a partir daí ele não teve praticamente oposição alguma que conseguisse impedi-lo de fazer o que quisesse. E seu reinado foi pacífico porque não houve nenhuma oposição militar ao seu mando, nem ameaça externa real. Ponto para Chávez.

15. Promulga leis.


Esta é sem dúvida a característica mais marcante do governo Chávez, que implementou na Venezuela uma verdadeira revolução institucional, derrubando leis antiquadas e aumentando o poder dos órgãos de representação popular mais próximos do povo. A rapidez com que lançou leis e criou instituições torna seu governo o mais criativo de toda a história daquele país. E por isso ele marca mais um ponto.

16. Porém ele perde o favor dos deuses ou de seus súditos


A coisa mais parecida com uma divindade no contexto político latinoamericano é o poder dos Estados Unidos de fazer e desfazer lideranças (e às vezes até governos). Chávez claramente perdeu o favor desse “deus” metafórico. Na mitologia a perda do favor divino era o início da derrocada do herói. A perda de tal favor poderia ser causada por coisas mínimas (Moisés perdeu o favor de Deus porque bateu com cajado em uma pedra e Sansão porque cortou o cabelo). No caso de Chávez, o simples fato de priorizar a melhora das condições de vida do povo o tornou inimigo dos EUA, que, historicamente, não ligam para o bem estar de nenhum outro povo, especialmente se não for branco. Ponto para Chávez.

17. Após o que é retirado do trono e do reino.


Observe que não há relação de causalidade. A retirada do herói de seu trono é posterior à perda do favor dos deuses, mas não necessariamente causada por ela. Digo isto para arrefecer os apressadinhos que me acusarão de acreditar na história da arma cancerígena da CIA (se bem que eu acredito). No caso de Chávez, após anos de embate contra os EUA ele adoece (câncer) e resolve se tratar em Cuba (sua retirada do trono) por períodos cada vez mais longos. Ponto para Chávez.

18. Sua morte é misteriosa.


Se misteriosa não foi, pelo menos os seus aliados tentam fazer ao máximo que se pareça sendo. A acusação de que seu câncer foi causado por interferência da CIA (ou do Mossad) cria essa aura de mistério e faz Chávez marcar mais um ponto. Sem falar em outras circunstâncias misteriosas, como a data de sua morte, os motivos de não ter sido embalsamado e o misterioso rejuvenecimento de seu cadáver.

19. Comumente no topo de uma montanha.


Nenhuma coincidência conhecida.

20. Seus filhos, se os tem, não o sucedem.


Sucedido por um aliado, não por seus filhos. Mais um ponto.

21. Seu corpo não é enterrado.


Parte do mistério que cerca sua morte envolve o lugar onde deveria ser enterrado. Embora ele tenha acabado por ser enterrado no Forte Montaña, já existe a proposta de uma emenda constitucional para que seja transladado para o Panteão Nacional, ao lado de Bolívar, onde ele não ficaria enterrado, mas depositado em um ossuário suspenso.

22. Mesmo assim ele tem um ou mais sepulcros.


Sendo transferido para o Panteão Nacional, Chávez terá dois locais conhecidos de sepultamento (Forte Montaña, o provisório, e Panteão Nacional, o definitivo). Sem falar nos possíveis boatos de que teria sido, na verdade, enterrado em outro lugar. Mas tais boatos não seriam necessários, porque o ponto já está marcado.

Conclusões


Chávez marca surpreendentes 14 pontos no padrão do herói de Lord Raglan, mesma pontuação de Nicolau II. Para se ter uma ideia de onde Chávez se situa na escala, observemos as seguintes pontuações:

  • Édipo e Krishna : 21
  • Moisés e Teseu : 20
  • Dionísio, Jesus e Artur : 19
  • Perseu e Rômulo : 18
  • Hércules e Maomé : 17
  • Beowulf e Buda : 15
  • Hugo Chávez, Zeus e Nicolau II : 14
  • Sansão e Robin Hood : 13 
  • São Jorge : 12
  • Sigurd (Siegfried) : 11
  • Aquiles : 10
  • Harry Potter e Ulisses : 8

Os mitologistas interpretam a escala de Lord Raglan da seguinte forma: uma pontuação inferior a seis indica que a biografia do personagem é provavelmente factual e as coincidências são apenas coincidências, mas uma pontuação superior a seis sugere que o personagem não é real ou então que a sua biografia sofreu/sofre adulterações mitificantes.

Sendo o herói um arquétipo, existe uma tendência humana a adulterar a história de pessoas tidas como heróicas (ou que se pretende fazer parecidas com heróis) de forma a se tornarem parecidas com o herói arquetípico. No passado, a transmissão oral do conhecimento sobre o herói favorecia esta adulteração, sendo inúmeros os casos conhecidos de personagens  cujas biografias contêm elementos atribuídos com finalidade mitificante.

Finalmente, para os que acham que há imperfeições na escala (sim, ela não é perfeita), existem propostas de expandi-la da seguinte forma:

  • Separar “virgem” de “real” em relação à donzela mãe do herói.
  • Adicionar a categoria “prodígios na infância”
  • Adicionar a categoria “cumprimento de profecia”, tanto em relação ao nascimento quanto em relação à morte.

Com tais adições, alguns personagens religiosos (como Jesus e Maomé) marcariam mais pontos, porém a pontuação de personagens reais (como Nicolau II e Chávez) seria menos impressionante. O que é certo é que o falecido presidente da Venezuela tem um grande potencial para ser herói nacional, e a pontuação deve aumentar ao longo do tempo, especialmente se os seus aliados durarem algumas décadas no poder.

A Moda É Ser Idiota

“Idiota” era como os gregos chamavam aqueles cidadãos que cuidavam exclusivamente de seus negócios pessoais e não participavam da vida política. Somente muito mais tarde a palavra ganhou um sentido mais negativo. Fazia parte do conjunto de crenças comum a todos os gregos que cada cidadão deveria ser responsável pelo governo de sua cidade. De tal forma se valorizava isso que a participação em certos órgãos governamentais, como o tribunal do Areópago, em Atenas, ou a assembléia dos éforos, em Esparta, era, em certa época, sorteada entre todos os homens aptos. Esse era o conceito de “liberdade” defendido pelos antigos filósofos: livre era o homem que era dono de si, não possuía senhores. A liberdade era contraposta à escravidão.

Quando o pensamento grego foi revalorizado, a partir da Renascença, o conceito de liberdade dos gregos pareceu anacrônico e inadequado. Era impossível governar países extensos com base em uma democracia direta, da qual todos os cidadãos participassem por sorteio, mesmo que fossem considerados cidadãos apenas os nobres. Não obstante, certos estados menores, como a Holanda e as cidades livres hanseáticas, tiveram uma forma de governo razoavelmente parecida, na qual todos os “homens bons” tinham sua voz ouvida.

Existe uma nobreza nesta definição de liberdade, nobreza que fascinou aos filósofos iluministas e também a Nietzsche. A liberdade dos antigos não era uma liberdade egoísta, não era uma busca hedonista. O homem não era livre para agradar a si mesmo, mas para fazer o bem à comunidade. E havia uma identificação do cidadão com a cidade. A raiz dessa identificação está na percepção da política como uma extensão de si. O estado (pólis) não era visto como um ente estranho, mas como uma espécie de família estendida, à qual se pertence, mesmo nos momentos em que algum dos membros faz algo de que discordamos. Desta forma, sempre que um indivíduo procurava impor sua opinião através das armas, do dinheiro ou da oratória, a cidade lhe reservava a pena do ostracismo (exílio), com o objetivo de reduzir-lhe ainda mais a capacidade de convencer aos outros. Nunca, porém, ninguém foi forçado a deixar a cidade: era o cidadão que percebia, no voto do ostracismo, a rejeição da cidade contra si e contra tudo o que ele representava. Exilar-se era a única opção. Mas reconciliar-se era o único objetivo. Somente os escravos não almejavam retornar à sua cidade original.

No embate das forças ideológicas posteriormente à revolução francesa, o tipo de liberdade cidadã que os gregos compreendiam foi abraçado pelos socialistas. Não por acaso escolheram essa denominação para si. Divergindo dos gregos apenas na noção nova, francesa, de que todo filho da nação é um cidadão seu. A essência do pensamento altruísta, que logo se confundiu com a esquerda, e parcialmente com o socialismo, é a de que cada indivíduo pertence a um conjunto, a sociedade, e não lhe é lícito fazer nada que cause dano à sociedade. Diferentemente dos socialistas, os diversos tipos de ideologias individualistas sempre preconizaram o direito individual de fazer mesmo aquilo que prejudicasse à sociedade. As posições centristas admitem que o indivíduo possa moderadamente causar dano à sociedade, conquanto sempre  menor do que dispêndio que a sociedade precisaria fazer para impedi-lo. Se, como disse Oscar Wilde, a sociedade embrutece mais com a reiteração de castigos do que com a recorrência dos delitos, é mais sábio tolerar certa ordem de transgressões, a fim de diminuir o embrutecimento coletivo.

Nos últimos anos e meses começou a ganhar popularidade aqui no Brasil uma corrente de pensamento de extrema direita e de extremo individualismo chamada libertarianismo (alvo preferencial deste blogue, daí o título), que defende exatamente o oposto do pensamento atruísta. Supostamente baseada em Nietzsche (na verdade derivada de um pastiche mal construído de alguns aspectos de sua filosofia, por intermédio dos romances de Ayn Rand), essa ideologia propõe que ninguém deve jamais se preocupar com o próximo, nem de forma alguma unir-se a quem quer que seja em nome de objetivos comuns, pois a “virtude” estaria em enfrentar as consequências e vicissitudes da vida de forma “livre”. Um exemplo de texto difundido pelos libertários na internet é o citado a seguir:

  1. Quando uma pessoa de direita não gosta de armas, não as compra. Quando uma pessoa de esquerda não gosta das armas, proíbe que você as possua.
  2. Quando uma pessoa de direita é vegetariana, não come carne. Quando uma pessoa de esquerda é vegetariana, faz campanha contra os produtos à base de proteínas animais.
  3. Quando uma pessoa de direita conhece uma pessoa de orientação sexual diferente, vive tranquilamente a sua vida. Quando uma pessoa de esquerda é homossexual, faz um movimento com alarde para que todos também se tornem homossexuais e os respeitem.
  4. Quando uma pessoa de direita é prejudicada no trabalho, reflete sobre a forma de sair dessa situação e age em conformidade. Quando uma pessoa de esquerda é prejudicada no trabalho, levanta uma queixa contra a discriminação de que foi alvo e vai à justiça do trabalho pedir indenização por dano moral (e o pior: ganha!).
  5. Quando uma pessoa de direita não gosta de um debate transmitido pela televisão, desliga a televisão ou muda de canal. Quando uma pessoa de esquerda não gosta de um debate transmitido pela televisão, quer entrar na justiça contra os sacanas que dizem essas sandices. E até uma pequena queixa por difamação será bem-vinda.
  6. Quando uma pessoa de direita é ateísta, não vai à igreja, nem à sinagoga e nem à mesquita. Quando uma pessoa de esquerda é ateísta, quer que nenhuma alusão a deus ou a uma religião seja feita na esfera pública, exceto para o islã (com medo de retaliações provavelmente).
  7. Quando uma pessoa de direita, mesmo sem dinheiro disponível, tem necessidade de cuidados médicos, vai ver o seu médico e, a seguir, compra os medicamentos receitados. Quando uma pessoa de esquerda tem necessidade de cuidados médicos, recorre à solidariedade nacional ou ao sírio libanês para tratar.
  8. Quando a economia vai mal, a pessoa de direita diz que é necessário arregaçar as mangas e trabalhar mais. Quando a economia vai mal, a pessoa de esquerda diz que os sacanas dos empresários, proprietários etc… são os responsáveis e punem o país.
  9. Teste final: quando uma pessoa de direita lê esse texto, posta argumentos lógicos. Quando uma pessoa de esquerda lê esse teste, fica puta da vida e quer xingar, além de querer processar e prender quem escreveu…

Como toda comparação estereotipada, esta também é falsa. Mas ele ser falso não me espanta nem me comove. Estranho é que muitas pessoas inteligentes — como +Vides Júnior+Saulo Cesar+Mário César de Araújo e +Francisco Quiumento
— e outras nem tanto, como o +Dâniel Fraga, o difundam sem pensar, aderindo automática e acriticamente a essas afirmações redutoras como se fossem um mantra.

Esse texto nada mais é do que uma mentira. Nem pessoas de direita e nem pessoas de esquerda são assim. Existe um tipo de pessoa de direita que diz/acha que é assim e que tenta impor essa definição de direita como uma universalização do credo e da práxis “direitista”. Esse é o primeiro erro porque, em tese, ninguém que seja direitista se diz ser, porque faz parte da essência do pensamento não esquerdista a negação da existência de luta de classes e da legitimidade da esquerda enquanto teoria política. O pensamento de esquerda é só um desvio, a luta de classes é uma ficção. Mas o texto, obviamente, reivindica uma suposta neutralidade, ao usar os termos “esquerda” e “direita” em terceira pessoa (“uma pessoa”) o autor procura sugerir que está fazendo um exame distanciado das duas formas de pensamento. Essa é uma técnica argumentativa bastante eficaz, porque as pessoas rejeitam pensamentos que honestamente se assumem como parciais: todos querem opiniões isentas, mas que coincidam com determinada forma de pensar.

São muitas as pegadinhas distribuídas pelo texto, e a simples identificação de cada uma delas deveria envergonhar quem o difunde (mas tenho a desiludida certeza de que ninguém se retratará, afinal, compartilhar um texto não é endossá-lo, ou é?).

O primeiro parágrafo faz uma comparação assimétrica entre uma ação individual (“não comprar”) e uma ação que nenhum indivíduo isoladamente teria poder para praticar (“proibir”). O terceiro, pior ainda, compara pontos de vista diferentes sobre uma mesma situação. A pessoa de direita “conhece alguém de orientação homossexual , a pessoa de esquerda “é homossexual”. Além do maldoso subtexto de que o esquerdista é veado, ainda temos uma comparação que não faz sentido, pois é perfeitamente aceitável que tenhamos reações diferentes quando estamos envolvidos. Ou seja, possivelmente uma pessoa que viveria tranquilamente a vida após conhecer um homossexual se sentiria compelida a fazer campanha pelos direitos homossexuais caso se descobrisse homoafetiva, simplesmente porque a percepção da cena muda quando você deixa de ser plateia e passa a ser ator.

Em comum, os sete primeiros parágrafos têm uma característica: a essência da “pessoa de direita” é a passividade diante dos fatos que encontra, caracterizando-se por “não fazer”, “continuar fazendo” ou “apenas refletir”. Não há uma só recomendação de um curso de ação diante dos desafios. O direitista “não compra” armas, não come carne, vive tranquilamente, reflete sobre a injustiça que sofreu,  muda de canal, não vai ao templo/sinagoga/igreja/mesquita. Por outro lado, o esquerdista sempre toma atitudes, apresentadas como equivocadas: ele “proíbe” (sic) a compra de armas (ou procura proibir), faz campanha contra a carne, faz um movimento, presta uma queixa, entra na justiça etc. Independente do fato de que em certas situações é melhor agir e em outras, não, resulta óbvio da análise do texto que o direitista ideal é alguém que age o mínimo possível. Quando alguma ação é recomendada, trata-se de uma ação individual e inócua, como mudar o canal da televisão (o que equivale a enterrar a cabeça na areia e fingir que o problema não existe). Esta é a essência do conservadorismo: qualquer tentativa de melhorar o mundo vai é piorar, então é melhor aceitar tudo do jeito que está. O conservador mais radical difere do reacionário em um simples fato: ele admite o progresso, desde que não seja obra de reivindicações revolucionárias e seja lento.

O silêncio sobre a ação é mais eloquente no quarto parágrafo, quando  a pessoa de direita “reflete” sobre o seu infortúnio. Por um paradoxo inexplicável, mas compartilhável, esse indivíduo de direita não estará agindo “em conformidade” caso escolha usar a justiça para se defender. Como não acredito que o autor do texto esteja defendendo o uso direto da força (vingança), suponho que a inação seja a única forma de ação conforme, sob a ótica direitista.

Não é à toa que um filósofo bem menos burro do que eu classificou a história positivista (conservadora e direitista) como “uma sucessão de fatos sem conexão, ligados a símbolos inexplicáveis e pessoas sem personalidade, em que nada possui causas, nada gera consequências, todas as reviravoltas são completamente inesperadas e todos os acontecimentos, irrepetíveis e desprovidos de qualquer valor moral para o presente.” É uma crítica antiga, do tempo em que ainda se usava falar em “moral” em filosofia, mas segue válida. Na ótica desse direitista ideal, apresentado nesse texto, a única coisa a fazer diante dos obstáculos da realidade é omitir-se, ou então tomar uma atitude isolada. Fica a impressão de que até mesmo formação de quadrilha é uma atividade esquerdista.

Uma vez que o indivíduo não está autorizado a tomar qualquer atitude concreta diante dos fatos, resta-lhe aceitar os fatos, de forma inexplicável. Como se vê no sétimo parágrafo, onde o autor afirma direitista consulta um médico e compra os remédios até quando não possui o dinheiro disponível. Não consigo imaginar como tal seria possível, nem de que forma os médicos e as farmácias andam aceitando pagamento se você for direitista. A atitude do esquerdista pelo menos é coerente: se não tem dinheiro disponível, recorre à solidariedade nacional. Acredito que a chave do enigma esteja no fato de que o autor, provavelmente, não sabe o que é “não ter dinheiro disponível” para pagar uma consulta e comprar remédios.

O oitavo parágrafo é o mais curioso de todos, pois tenta colocar como antônimas duas atitudes que não são sequer incompatíveis. Propor-se a “arregaçar as mangas e trabalhar mais” é algo que qualquer pessoa que dependa de seu trabalho terá de fazer diante de uma crise (mas de nada adiantará esta determinação se não houver trabalho). Mas esta disposição não significa que a pessoa não deva ter sua própria opinião sobre as causas do problema. O mecânico, pode perfeitamente consertar o carro enquanto lhe pergunta se o defeito não foi causado por algum mau hábito seu ao volante, como acelerar o carro embreado. Obviamente o autor do texto acredita que especular sobre as causas dos problemas que afligem a todos (ou pelo menos a muitos) é algo que não se deve fazer.

Por fim, a “chave de ouro” do texto, uma espécie de salvaguarda do seu autor contra as críticas advindas de sua “obra”. Por causa dela eu acredito que seja inútil postar argumentos lógicos contra o texto, porque, na visão em preto e branco da mula que cagou esse pedaço de excremento (só estou xingando para ser fiel ao estereótipo), um argumento de esquerda não pode ser lógico. Mesmo eu tendo feito uma análise moderada e pretensamente lógica do seu conteúdo, minha discordância soará como um zurro, por um fenômeno de pareidolia auditiva, que faz com que ouçamos coisas parecidas com o que nos é familiar.  Mas posto-os mesmo assim, sabendo que pelo menos entre os padawans da esquerda eu serei lido (e também por algum direitista honesto entre os vinte ou trinta que deve haver).

Não consigo entender como pessoas  bem informadas apregoem um texto tão primário e fácil de demolir. Acima de tudo porque o individualismo idiota que ele prega (no sentido grego do termo) é prejudicial à sociedade como um todo. Em nome de uma pseudoliberdade essas pessoas pregam um sistema no qual cada um estaria sozinho e indefeso diante da opressão. Alguém já disse que grandes problemas demandam grandes soluções, e grandes homens. A via proposta pelo texto é que as soluções venham através de atitudes pequenas, de pequenos e isolados homens. É muito triste que pessoas inteligentes difundam isso, de forma tão acrítica, mesmo porque a ignorância dos exemplos da história não é uma desculpa. A ignorância nunca é uma desculpa. Especialmente porque alguns dos que difundem isso de tempo em tempo parecem ter os conhecimentos mínimos necessários para discernir a patranha. Mas parece que, depois que se estuda muito, e se duvida de tanto, começam as pessoas a buscar credos em que descansar seus neurônios. E nesse caso, se a ideologia está certa, o pacote inteiro vai de brinde, e está certo também.

Sobre a Eliminação Física de Líderes Inimigos pelos Serviços Secretos

Os fatos relacionados à doença e morte do presidente venezuelano Hugo Chávez estão causando certa polêmica desde que o presidente em exercício, Nicolás Maduro, acusou abertamente o governo dos Estados Unidos, através da CIA, de ter causado o câncer que veio a matar o falecido líder. É uma afirmação grave, que dificilmente seria feita de forma leviana por um chefe de estado — certamente os venezuelanos têm suas razões para desconfiar de que os eventos fatídicos que levaram ao óbito do mandatário foram extraordinários — mas o bom senso recomenda que não turvemos nossa visão da realidade com os óculos unidimensionais da ideologia. Antes de ridicularizar humoristicamente os que acreditam nesta teoria, ou demonizar como cúmplices do Mal aqueles que celebram a morte de Chávez sem acreditar em qualquer fato não natural, é preciso fazer alguma pesquisa de fundo para avaliar a plausibilidade do que disse o atual chefe de estado venezuelano.

Existem quatro perguntas a se responder:

  1. Existem precedentes históricos de eliminação física de líderes inimigos, adversários políticos ou pessoas incômodas através de meios sub reptícios (envenenamento, traições etc.)?
  2. A política dos Estados Unidos quanto a isso envolve algum tipo de endosso ou tolerância com a prática da eliminação física de líderes adversários?
  3. Houve casos documentados de líderes políticos ou personae non gratae que sofreram de câncer, ou de situações que poderiam/poderão resultar em câncer?
  4. Existem cânceres conhecidos pela ciência que poderiam, em tese, ser induzidos de forma eficiente (isto é, a custo relativamente baixo e desfecho a curto ou médio prazo)?

    Se pudermos responder “sim” às quatro perguntas acima, é forçoso concluir que a teoria aventada pelo presidente venezuelano não é um delírio — mesmo que efetivamente se descubra que Chávez não foi envenenado. Ideias são delirantes quando não possuem base lógica ou conexão com realidade. Ideias que possuem base lógica e se harmonizam com a realidade, mas são falsas, não são delírios, são apenas equívocos. As pessoas se equivocam todo o tempo. Você está em uma cidade estranha e entra em esquinas erradas até se perder. Tem várias marcas de refrigerante para escolher, mas frequentemente pede um que não o satisfaz tanto quanto um outro de que só se lembrou depois que o pedido veio. Errar é humano. Erros não são delírios.

    Meu objetivo neste artigo não é provar que Chávez foi morto pela CIA, mas analisar se esta teoria é um delírio ou uma hipótese válida, ainda que provavelmente falsa.

    Precedentes históricos

    A traição é uma ferramenta da política desde antes do homem ser homem. Desde que desenvolvemos a inteligência, a luta pela primazia no bando deixou de ser uma competição de força e passou a incluir a habilidade. Um macaco mais fraco, mas ágil no manejo de um porrete, poderia matar outro mais bruto. Se a força tivesse continuado o parâmetro para definir as lideranças, a civilização não existiria. O engano e a traição estão entre os elementos que construíram o mundo em que vivemos. E você ainda se pergunta por que há tanta gente má lá fora.

    O envenenamento, embora frequentemente depreciado como uma prática “de mulheres”, foi amplamente empregado desde a Antiguidade, especialmente na difícil tarefa de livrar-se de reis sem cometer abertamente o regicídio — que era sempre punido com penas bestiais, como o escafismo (na Pérsia), drawing and quartering (Inglaterra) ou o evisceramento (Japão). A prática do envenenamento era tão comum na Pérsia que havia até uma lenda que dizia que certos homens poderiam, se o recebessem desde cedo em doses progressivas, desenvolver tolerância a qualquer veneno.

    Os envenenamentos de inimigos políticos mais notáveis para a nossa análise são os seguintes:

    1. Tódor Romza, bispo ortodoxo de Mukachev, Ucrânia, envenenado com curare (veneno paralisante).Mandante: URSS. Data: 1947.
    2. Stepan Bandera, líder nacionalista ucraniano, envenenado com cianureto. Mandante: URSS. Data: 1959.
    3. Aleksandr Dubcek, líder tcheco-eslovaco, envenenado com estrôncio (sobreviveu). Mandante: URSS. Data: 1968.
    4. João Goulart, ex presidente brasileiro, na época exilado na Argentina. Envenenado pela substituição de um de seus comprimidos para hipertensão, substituído por um de anfetamina, segundo confessado por um agente do serviço secreto da polícia uruguaia. Mandante: Brasil. Ano: 1976.
    5. Georgi Markov, jornalista e escritor búlgaro, envenenado com um pequeno projétil contendo rícino disparado por uma arma oculta em um guarda-chuva. Mandante: Bulgária. Data: 1978.
    6. Khaled Meshal, líder nacionalista palestino (Hamas), envenenado com uma substância desconhecida, instilada através de seu ouvido por uma dispositivo de spray. Sobreviveu graças à prisão dos agentes responsáveis pela tentativa pela polícia da Jordânia, que ameaçou matá-los caso o antídoto não fosse fornecido. Mandante: Israel. Ano: 1997.
    7. Roman Tsepov, empresário russo e possivelmente líder mafioso, supostamente amigo e posteriormente desafeto de V. Putin. Envenenado por alta dose de algum material radioativo (autópsia não realizada). Mandante: provavelmente a Rússia. Data: 2001.
    8. Ibn al-Kathab, nacionalista islâmico da Chechênia, envenenado por uma carta embebida em sarin ou outro agente tóxico contra os nervos. Mandante: Rússia. Data: 2002.
    9. Aleksandr Litvinenko, agente secreto russo que havia desertado para a Grã Bretanha após denunciar um plano para matar Bóris Berezovsky, milionário (e possivelmente mafioso) russo, em um caso semelhante ao de Tsepov. Envenenado por polônio (oficialmente o inquérito sobre sua morte foi abandonado, por razões diplomáticas). Mandante: Rússia. Data: 2003.
    10. Anna Politkovskaya, jornalista e defensora dos direitos das minorias na Rússia, opositora do conflito na Chechênia. Sobreviveu a uma tentativa de envenenamento por alguma substância posta em seu chá, que não foi efetiva porque ela o cuspiu em vez de engolir. Mandante: Rússia. Data: 2004.
    11. Viktor Yushenko, político ucraniano. Sobreviveu a uma tentativa de envenenamento por dioxina (agente laranja). Ironicamente liderava um movimento democrático apelidado de “Revolução Laranja”. Mandante: desconhecido (mas seus adversários políticos eram ligados fortemente à Rússia). Data: 2004.
    12. Yasser Arafat, líder nacional palestino. Morreu após um longo período de tratamento na França, de causas não divulgadas. Pesquisas posteriores encontraram grande quantidade de polônio em seus objetos pessoais. Investigações feitas por pesquisadores suíços sugerem que morreu em decorrência de câncer causado por envenenamento por substância radioativa. Mandante: Israel. Ano: 2004.
    13. Viktor Kalashnikov, escritor russo, irmão de Mikhail, inventor do famoso fuzil AK-47. Sobreviveu (com sequelas) a um envenenamento por mercúrio. Mandante: Rússia (segundo a vítima). Data: 2010.

    Portanto, existem pelo menos treze precedentes históricos recentes e significativos de pessoas que foram mortas a mando de governos, empregando envenenamento (tecnicamente, a contaminação por radioatividade é uma forma de envenenamento). É certo que a maioria destes casos é atribuída aos serviços secretos comunistas ou aos serviços secretos russos (herdeiros da KGB), mas não custa lembrar que nós não ouvimos o lado de lá da História: o fim do bloco socialista, nos anos 1990, significou o triunfo da versão ocidental, expurgada de seus próprios casos.

    Analisando esta sequência de casos vemos um padrão preocupante: as ações anteriormente executadas através de venenos tradicionais se tornaram cada vez mais frequentemente feitas com substâncias radioativas. Embora estas substâncias sejam fáceis de detectar (a ponto de a tumba de Aleksandr Litvinenko ser selada com chumbo para evitar contaminação), elas são difíceis de limpar do organismo: mesmo que a vítima sobreviva ao envenenamento inicial, ela sofrerá depois as consequências da radiação, desenvolvendo tumores. É possível que a ideia de empregar radiação como veneno tenha surgido ou se fortalecido após o incidente com Césio-137 em Goiânia, durante o qual várias pessoas ingeriram o contaminante radioativo, com os efeitos lamentáveis que se conhece.

    Alguns dos casos mencionados nesta lista são peças que lembram filmes de espionagem: agentes instilando venenos em spray no ouvido de inimigos, xícaras de chá envenenadas, guarda-chuvas que atiram projéteis de rícino, dardos de curare disparados por zarabatanas em praças públicas. Estão listados aqui para sacudir um pouco o ceticismo do leitor, que acha que algo que “parece de coisa de filme” não pode ter acontecido na realidade. É fato que os serviços secretos do mundo todo empregam métodos engenhosos para envenenar e matar aqueles que seus governos elegem como alvos. Métodos que parecem saídos de um filme do Agente 86, mas que funcionam.

    Política americana 

    Uma vez estabelecido que a prática do envenenamento de inimigos políticos, inclusive pelo uso de radiação, é comum e corriqueira, temos que definir qual a política dos EUA quanto a isso. Há duas questões a se levantar. A primeira é quão corriqueiros esses casos são, dirá o leitor. A segunda questão é que esse não parece ser o jeito americano de agir.

    Treze casos não são exatamente uma abundância incrível. Mas há que se lembrar que são treze casos notórios, envolvendo pessoas públicas ou que, de outra forma, atraíram a atenção da mídia. Não é todo dia que alguém é morto por um dardo envenenado numa rua de Munique ou por uma bala envenenada disparada por um guarda chuva em um metrô em Londres. Devem existir inúmeros outros casos que não conhecemos porque envolvem pessoas obscuras demais ou que ocorreram em lugares distantes ou sem testemunhas.

    É verdade que a CIA parece gostar mais de explodir pessoas do que brindá-las com um chá da meia-noite. Mas parecer não é ser. O curioso (e bizarro) caso dos agentes do Mossad que espirraram veneno dentro do ouvido de um líder do Hamas nos dão uma sugestão de que os serviços secretos ocidentais também sabem ser sutis quando querem, ou precisam.

    Na verdade, a simples existência de precedentes de assassinato de líderes inimigos (“decapitação”, no jargão do Mossad) serve de apoio à nossa tese, porque os métodos dependerão sempre das circunstâncias. Anwar al-Aulaqi e Osama bin Laden foram mortos em ações militares violentas porque estavam em território hostil e porque, dada a natureza de suas atividades, ninguém lamentaria essa opção (ainda que vários juristas e políticos tenham advertido sobre a gravidade da violação das leis internacionais que aconteceu durante a missão de execução de Osama). Um inimigo sobre o qual se pudesse ter um acesso controlado em território não conflagrado (como um quarto de hotel) poderia ser morto de maneira menos estrepitosa. O que precisamos é saber se essa maneira é possível. Porque se é possível, ela já deve ter sido usada.

    Casos polêmicos

    Analisemos agora a coisa por outro lado. Sabemos que houve vários casos documentados de pessoas que foram envenenadas a mando de serviços secretos (principalmente da URSS/Rússia, mas também de Israel e até do Brasil). Existem, porém, registros de mortes suspeitas que poderiam ter sido causadas por envenenamentos, excluindo os casos de morte violenta (como a de Juscelino Kubitschek)?

    Difícil dizer, visto que existem muitos venenos que são capazes de produzir efeitos semelhantes ao de morte natural (e muitos venenos são empregados justamente por terem tal propriedade). Então, se não há uma suspeita de possível envenenamento, que dificilmente há se a vítima for idosa, não haverá uma necrópsia detalhada, capaz de identificar a causa mortis. Restam os murmúrios, como os que duvidam da naturalidade da morte de Carlos Lacerda, que desmaiou na rua em 1977 e nunca mais acordou e de Tancredo Neves e sua misteriosa doença. O que podemos dizer  é que, com toda segurança, nenhuma morte por envenenamento é fácil de detectar à distância, e as mortes de pessoas públicas costumam ser envoltas em mistério.

    Cânceres úteis

    Referindo-nos especificamente ao caso, que substâncias  seriam capazes de produzir um câncer relativamente letal de forma “segura” (suponhamos que Chávez nunca foi detectado com doses altas de radiação)?

    • Azoximetano. “Particularmente efetivo para produzir cânceres de cólon”.
    • Tório. Se inalado ou ingerido causa cânceres de órgãos internos, como pâncreas e fígado.
    • Metilcolantreno. Produz câncer de próstata rapidamente se ingerido.
    • 3-Nitrobenzantrônio. Um dos componentes resultantes da queima do óleo diesel. Potente carcinogênico ligado às vias respiratórias.
    • 4NQO (4-Nitroquinolina 1-oxidina). Produz tumores nas regiões atingidas após ser inserido na circulação sanguínea.
    • N-Nitroso-N-metiluréia (NMU). Carcinogênico “bastante confiável” ligado a tumores malignos do estômago, sarcomas e gliomas cerebrais, adenocarcinomas pancreáticos, leucemias e linfomas.

    Uma das argumentações contra a possibilidade de Chávez ter sido envenenado reside na “dificuldade” de se induzir alguém a ter câncer. No entanto, uma rápida pesquisa na Wikipédia já me revelou quatro substâncias conhecidas cujos efeitos carcinogênicos são descritos com adjetivos como “efetivo”, “rápido”, “potente” e “confiável”. Algumas substâncias causam cânceres específicos, outras, de forma traiçoeira, estão ligadas a diferentes tipos, podendo ter efeitos difíceis de prever. Todas estas substâncias são efetivas para induzir câncer em quantidades relativamente pequenas, que poderiam passar despercebidas (substâncias cancerígenas em dosagens muito altas são bastante numerosas, mas pouco efetivas porque ninguém chegaria a consumir quantidades muito grandes).

    Isto, claro, se refere a substâncias tão conhecidas que têm verbetes na Wikipédia. Suponho que existam muitas outras substâncias que não estão lá porque não são muito conhecidas, que não estão lá porque são secretas ou que estão lá mas eu não percebi (minha pesquisa foi bem porca).

    Aonde isso nos leva

    Sabemos que a prática de envenenar inimigos é antiquíssima, que várias potências contemporâneas a têm usado (notavelmente a URSS/Rússia), que existe certo segredo sobre as causas das mortes dos líderes mundiais (e dos papas, por que não?) e que existem substâncias capazes de envenenar de várias formas, inclusive causando câncer.

    Tendo todos estes dados sobre a mesa, mas ainda sem emitir um juízo de valor sobre o caso Hugo Chávez, podemos afirmar sem medo de ridículo que a possibilidade de envenená-lo para causar-lhe o câncer que o matou não é uma insanidade. Insano é acreditar que os Estados Unidos “não fariam isso”, é um pensamento análogo à fé cega. Não só os EUA “fariam isso” contra um desafeto como já o fizeram várias vezes.

    É difícil, senão impossível, saber se a tentativa aconteceu, ou se a morte efetivamente foi causada por ela ou por outro incidente ou fenômeno natural. O mundo é regido por uma certa dose de caos. O fato de alguém tentar matar outrem não quer dizer que a morte, caso ocorra, é resultado do primeiro ato. Como num filme de humor negro, no qual o espião atira no inimigo, mas a bala se perde e o inimigo, seguindo calmamente seu caminho, escorrega numa casca de banana e morre de traumatismo craniano ao bater no chão.

    Este artigo não foi escrito para provar que Chávez foi envenenado pela CIA, mas para mostrar como a ridicularização desta hipótese revela uma certa “fé” de certos setores e pessoas nos valores morais de uma potência estrangeira, os Estados Unidos. Aparentemente, os EUA são o único país do mundo liderado por pessoas absolutamente isentas e sensatas, que jamais tentariam matar pessoas por discordarem de sua ideologia.

    De minha parte, acredito que o melhor argumento contra a hipótese ainda é o de que o estilo americano é mais parecido com enfiar uma bala no sujeito. Malcolm X, John Kennedy, Martin Luther King, Anwar al-Aulaqi, Osama bin Laden. Ou, talvez, sabotar seu avião. Omar Torrijos-Herrera. Mas Chávez esteve várias vezes às turras com Israel, por causa de sua amizade com o Irã. E Israel teve aqueles caras com o spray de veneno no ouvido do líder do Hamas…

    A Aposta de Pascal Reduzida ao Absurdo na Internet

    Se você deseja defender uma opinião sua, qualquer que seja, deverá, naturalmente, escolher para esse fim argumentos que convençam com sinceridade e transparência, e não insinuações pessoais, provocação de medo ou apelo à ignorância. Quanto mais sólidos os seus argumentos, porém, menor a sua popularidade: argumentos racionais fazem com que as pessoas burras se sintam burras mesmo. Como a Constante de Auden nos ensina que a soma total da inteligência simultaneamente presente na humanidade tem se mantido constante nos últimos séculos, a conclusão óbvia é que haverá sempre mais pessoas dispostas a aceitar ideias idiotas do que explicações racionais. Sem falar nas vantagens evolutivas de ser crédulo, que já foram mencionadas por um etólogo agnóstico britânico famoso.


    Isso explica a força com que se propagam os chamados «memes», esses pedaços desconexos de informação anônima que vagam pelo mundo. Antigamente a gente chamava isso de fofoca, mexerico, boato, calúnia, etc. Mas como as pessoas progressivamente se cansaram de ser acusadas de propagar essas coisas chamadas por nomes tão desagradáveis, adotaram o termo mais chique. Ninguém se sente uma vizinha fofoqueira quando e nem se identifica com um caluniador inconsequente quando «replica um meme».

    Gatos não precisam de explicação. Precisam das pílulas de ácido que você tinha escondido na gaveta.

    Memes apelam a afetos superficiais. Gatos, por exemplo. Desde que deixamos de guardar nossa comida em grandes celeiros eles deixaram de ter para nós qualquer importância a não ser a afetiva. Gatos são fofuchos pronto, não precisa explicar nada.

    Memes apelam aos nossos medos. E principalmente ao medo do outro. O medo do «lá fora», onde estão todos os monstros e perigos. Não há nenhum perigo na nossa casa, na nossa rua, no nosso país, no nosso partido, na nossa religião. O inferno são os outros.

    O maior dos medos é o medo da morte. Para agudizá-lo existe o medo maior ainda, do inferno. Não basta deixar de existir, é possível passar a existir numa realidade de eterna tortura. Afinal, Deus nos ama.

    Diante deste medo, o filósofo francês Pascal criou um raciocínio sobre que atitude deveria ter um ser racional diante do problema da existência de Deus.  A famosa «aposta de pascal», até hoje difundida como o argumento «matador» contra o ateísmo. Como toda bala de prata, ela só funciona se o monstro for um lobisomem.

    A aposta de Pascal contempla quatro possibilidades:

    1. Deus existe e vivemos crendo nele: morremos e estamos salvos.
    2. Deus existe e vivemos não crendo nele: morremos e estamos perdidos.
    3. Deus não existe e vivemos crendo nele: nada acontece.
    4. Deus não existe e vivemos não crendo nele: nada acontece.

    O argumento central da aposta é que somente podemos estar fodidos se Deus existir e nós não crermos nele. Portanto, crer em Deus é uma maneira de se garantir contra o pior cenário. É uma espécie de seguro da alma contra os riscos de inferno.

    Supostamente esta geringonça de bronze era capaz de fazer adições.

    É díficil crer que um filósofo tão respeitável quanto Pascal, um gênio precoce que inventou uma máquina calculadora aos 14 anos, ainda no século XVII, tenha concebido uma argumentação que hoje até uma criança de 14 anos que não sabe nem montar um carrinho de Lego é capaz de destruir. A aposta de Pascal padece de dois vícios. O primeiro é que ela não aborda a questão da existência de Deus em si, mas apenas as suas possíveis consequências. O apelo às consequências pode ser persuasivo, mas nada diz sobre a verdade. O segundo vício é que ela só lida com duas possibilidades: «existe» ou «não existe», sem considerar que Deus pode existir e ser diferente desta entidade concebida pelo cristianismo. A aposta, enfim, só funciona se você já acredita em Deus, e no Deus específico de que estamos falando.

    Mas o apelo às consequências é eloquente para pessoas que pensam com medo, e limitar as possibilidades àquelas que a pessoa já conhece, sem exigir que ela aprenda nada novo, ajuda a angariar adeptos para qualquer ideia. Se o seu argumento depende de que os ouvintes busquem conhecimento para concluírem por si mesmos, então prepare-se para a resposta das paredes, porque todos querem apenas descobrir que «já sabiam» o que precisavam saber. Isso inclui Deus: se o argumento sobre Deus contempla apenas o Deus que a pessoa já conhece, então esse argumento será facilmente aceito.

    Uma das maiores provas da falha bisonha da Aposta de Pascal é que ela é o mecanismo «racional» por trás dos boatos de internet. Sempre que você recebe uma mensagem propondo evitar que algo horrível aconteça, ou propondo ajudar algo bom a acontecer, você faz a mesma matemática de Pascal:

    1. Se for verdade, eu ajudei, eu fiz minha parte.
    2. Se for verdade e eu não ajudei, vou me sentir culpado um dia.
    3. Se for mentira, não me custou nada tentar ajudar.
    4. Se for mentira e eu não ajudei, não perdi nada encaminhando a mensagem para mais alguém.

    Entre lidar com a culpa de não ter ajudado quando não custava nada e a sensação de ter salvado 0,01% do mundo sem gastar nenhum tostão, nós optamos pela segunda hipótese. Portanto, mesmo quando duvidamos da mensagem (como nos famosos centavos que o Facebook paga para quem compartilha fotos de garotinhos com câncer ou gatinhos agredidos), achamos legal a ideia de compartilhar aquilo, porque não custa nada, e de repente ajuda.

    Se estes últimos três parágrafos não foram suficientes para você entender o tamanho da besteira que Pascal disse (apesar de ter inventado uma calculadora mecânica aos 14 anos, em pleno século XVII, o que é algo muito mais ultra-foda do que qualquer de nós fará em toda a vida), então não resta muito a dizer. Infelizmente nós temos a ideia de que pessoas geniais só dizem coisas geniais, e que mulheres bonitas não cagam. Por isso, toda vez que ouvimos falar da Aposta de Pascal, pensamos naquela calculadora (puta merda, como o cara fez isso naquela época em que se amarrava cachorro com linguiça?) e nos esquecemos de pesar os argumentos.

    A coisa fica mais triste porque o que Pascal disse foi mais ou menos o que qualquer pessoa descuidada pensa. Então uma pessoa descuidada lê isso e se acha foda: «eu penso igual ao cara que inventou uma calculadora mecânica aos 14 anos, no século XVII». Como é que se tira esse besteira da cabeça de um cara que não tem mais nenhum motivo para se sentir especial?

    Um claro exemplo da Aposta de Pascal recentemente no Facebook é o boato de que basta compartilhar um «aviso de privacidade» contendo uma obscura menção a um artigo obscuro de uma lei obscura daquele obscuro país chamado Estados Unidos da América e «magicamente» nem o Mark Zuckerberg e nem ninguém poderá se apropriar do que você escreve em seu mural.

    O nome disso é «amuleto jurídico». O sujeito acha que só porque citou um artigo de lei já passou a estar amparado por ela. Quer um exemplo disso: ponha na cerca de sua propriedade um aviso «Propriedade Particular: Proibido Caçar, Pescar e Nadar». Funciona? Por que funcionaria com o Facebook? Ah, mas é uma lei americana. Leis americanas são melhores e funcionam melhor, não é mesmo. Desde que você vá aos Estados Unidos abrir um processo, pague um advogado e consiga a simpatia de um tribunal consuetudinário para validar o que você pediu. Na prática, o prejuízo é mais barato.

    Mesmo que você esteja nos Estados Unidos e possa supor que nenhuma sociedade anônima (é isso que significa «public company» em inglês, seus tradutores de meia tigela)  jamais violará uma lei (nunca se ouviu falar de tamanha ousadia, não é mesmo?), ainda assim você ainda tem um problema: você assinou um contrato com o Facebook quando criou a sua conta, esse contrato é regido pelas leis da Califórnia, Estados Unidos. E os Estados Unidos, pátria do direito consuetudinário, queridos padawans, considera os contratos como sagrados. Lá não existe Código de Defesa do Consumidor e nem revogação de «cláusula leonina». Um processo contra o Facebook provavelmente resultaria em você ser condenado a pagar as custas, e só. Mas lembre-se que o Facebook contratará advogados muito mais caros que os seus.

    A maioria das pessoas, porém,  não compartilha isso pensando seriamente em processar o Facebook em um tribunal californiano (judicialmente falando, a coisa mais parecida com por a cabeça dentro da boca de um crocodilo marinho e fazer cócegas em sua úvula). Não, elas fazem porque, seguindo a Aposta de Pascal, se tudo for verdade e todo mundo agir de boa fé (coisa que as sociedades anônimas sempre fazem, afinal), elas terão «protegido seus direitos» sem gastar nada! It's all free! Mas se tudo for mentira ou alguém agir de má fé (não que isso sequer tenha a menor chance de acontecer), pelo menos não gastaram nada! It's still free!

    Você não se sente muito bem quando o seu grande argumento que justifica a sua crença serve também para explicar a difusão de spam e boatos estapafúrdios na Internet?

    Porque o Ateísmo Continua Não Sendo uma Crença – Parte 1

    Está por concluir-se por esses dias uma série de postagens feitas no Bule Voador com o título «Porque o Ateísmo É uma Crença», assinadas por Gregory Gaboardi, estudante de comunicação na UFRGS (até onde pude apurar pela internet, mas aguardo correção de quem possa perguntar-lhe diretamente suas credenciais). Considerando que finalmente o autor concluiu sua argumentação, inicio hoje aqui uma série de comentários a respeito de suas colocações.

    Introdução

    Gostaria de advertir os meus leitores que ainda não sabem (sempre se deve estar precavido contra distraídos ou recém-chegados) que eu sou um crítico do que chamo de «movimento ateu» brasileiro, mesmo sendo eu mesmo um ateu. Minhas críticas não se dirigem ao ateísmo em si, em nenhuma de suas correntes, mas à atuação de seus pretensos líderes, próceres e ídolos, e se limitam estritamente àqueles pontos nos quais posso discernir o que considero erros estratégicos. Em resumo: acredito que a maioria dos ateus brasileiros que têm visibilidade na blogosfera ou nas redes sociais são pessoas muito imaturas e despreparadas para uma argumentação racional, embora se considerem, devido ao ateísmo (o que é a maior tragédia), mais preparadas que qualquer reles papa hóstias. Acima de tudo, percebo nestas pessoas um alto grau de dependência em relação ao que se escreve, diz e pensa sobre ateísmo em inglês. A falta de originalidade faz com que reajam de forma às vezes desconexa ou até incompreensível diante de desafios específicos de nossa realidade.

    Portanto, nesta postagem, como de vezes anteriores, procurarei desmascarar, na medida em que minha limitada formação acadêmica e cultura geral o permita, os equívocos cometidos por Gaboardi, um prócer do movimento cético. Não sei se o autor se auto intitula ateu ou outra coisa e o Bule Voador parece não tomar um lado nesta questão, preferindo alargar o muro para que o maior número possível de pessoas possa estar em cima.

    Como não pretendo discutir o tema deixando meu leitor «no vácuo», a série de artigos escrita por Gaboardi pode ser encontrada integralmente nos links a seguir:

    1. Parte I
    2. Parte II
    3. Parte III
    4. Parte IV
    5. Parte V
    6. Parte VI
    7. Parte VII
    8. Parte VIII
    9. Parte IX — pendente

    Ao contrário de Gaboardi, que dividiu sua argumentação em várias partes para evitar uma leitura muito longa e intimidante, eu dividirei a minha em partes para simplesmente separar diferentes linhas de raciocínio. Cada parte subsequente a esta pode repetir e repisar conceitos aqui já abordados, apenas sob outro ponto de vista. As diferentes partes de meu argumento são como diferentes ângulos, e não partes sequenciais de um todo.

    Por que Escrevi esta Réplica

    Normalmente só me dou ao trabalho de responder na forma de um artigo  alguma coisa escrita em outro blogue quando o tema é realmente polêmico e o potencial do assunto é grande. Neste caso específico, determinei-me a escrever estas respostas porque percebi dois grandes equívocos na série de argumentos alinhavada por Gaboardi:

    1. Apesar de uma preocupação terminológica obsessiva, Gaboardi não parece perceber — ou faz questão de dissimular — que para poder empregar o termo «crença» em relação ao ateísmo, seria necessário não empregá-lo simultaneamente para o que se entende normalmente como crença referente a religião. A consequência desta obscuridade é a impressão que se passa ao leitor desavisado (ou ao leitor mal intencionado e muito bem avisado) de que é possível igualar toda a ampla gama de conceitos relacionados ao ateísmo com todo e qualquer conceito esposado pelas religiões.
    2. A espinha do argumento de Gaboardi se insurge contra a validade da falácia da inversão do ônus da prova. Ou seja: o autor sugere (obliquamente, mas sugere) que inverter o ônus da prova não é uma falácia e que as pessoas que rejeitam afirmações positivas precisam embasar sua rejeição, ainda que as afirmações originais jamais tenham sido embasadas. Obviamente Gaboardi não leu o artigo de Bertrand Russell no qual se criou o conceito do Bule Voador.

    Pelos três motivos acima, considero que o autor, que não é filósofo, empreendeu-se a uma tarefa hercúlea, contrapondo-se a uma imensa parede de tradição filosófica (inclusive a base da epistemologia moderna, Karl Popper) usando apenas sua atiradeira e saiu-se muito mal. E por considerar que saiu-se mal, propus-me a demonstrar de que maneira.

    Inicialmente esta réplica sairia em forma de livro eletrônico. Porém, quando percebi que o texto estava ultrapassando as cem páginas, notei que o foco havia sido perdido e, mesmo que o trabalho fosse ainda justificável, era preciso produzir uma peça menor e mais ágil para abordar o tema.

    O Significado de «Crença»: Armando o Inimigo

    Independente dos erros argumentativos cometidos por Gaboardi, que serão melhor explicitados em outra postagem, existe um outro problema envolvido no conjunto de sua argumentação: ao igualar no nível do termo «crença» tanto as posições aceitas pelos religiosos quanto a negação delas (o ateísmo), o autor efetivamente legitima as religiões — ainda que apenas aos olhos das pessoas que não consigam perceber a sutiliza envolvida nas diferentes acepções da palavra «crença». A este respeito, eu só posso fazer minhas as palavras da «Atéia Zangada» (Greta Christina): precisamos buscar a precisão para evitar armar o inimigo.

    A falta de clareza a que me refiro está no emprego de um termo carregado de simbolismos religiosos para algo que de forma alguma está relacionado a imaginar um Velho Barbudo no Céu que criou tudo e dirige nossas vidas. Nossa língua é rica o bastante para possuir uma quantidade bastante variada de termos que se prestam a isso, sem que precisemos abusar da palavra «crença». Se for para dizer que achamos que algo está certo, poderíamos usar verbos como «concluir», «supor», «achar», etc. Nunca «crer». Infelizmente a palavra «crença» está de tal forma contaminada pelo uso em contextos religiosos que qualquer tentativa de retirá-la de lá será contraproducente, só servirá para confundir a todo mundo, religiosos e ateus, sobre o que realmente pensamos. Greta Christina expressou este dilema de forma quase lapidar:

    É impossível evitar que os religiosos deturpem nossas ideias. É impossível evitar que os religiosos ponham palavras em nossas bocas e finjam que dissemos coisas que claramente nunca dissemos e que não pensamos. Mas não temos que ajudá-los a fazer isso.

    Portanto, o primeiro grande equívoco de Gaboardi é empregar um termo ambíguo em um texto dirigido a um público amplo e leigo, que não tem conhecimento das sutilezas envolvidas.

    Prove-me que Estou Errado

    A mais extraordinária das colocações feitas por Gaboardi em sua série de artigos (emprego este adjetivo por amor de ser educado) é esta aqui, na abertura da segunda parte:

    Este argumento costuma acompanhar a conversa sobre o ônus da prova: cabe ao teísta provar qualquer coisa, o ateu não precisa provar nada, o ateu supostamente não tem crença alguma e não faz afirmações extravagantes. Chamo esta confortável posição na qual o ateu tenta se colocar de comodismo argumentativo, terei mais a dizer sobre ela nas partes finais deste ensaio, por ora o que posso adiantar é que ela é desastrosa para o ateísmo.

    Acho muito imprópria a preocupação de Gaboardi com a suposta comodidade da posição ateísta. Existe, de fato, uma grande comodidade em estar assentado sobre alguma medida de ceticismo e racionalidade em vez de fazendo malabarismos verbais para justificar sua crença em entidades nunca evidenciadas. Se o ateísmo está em uma posição cômoda, isso é problema dos teístas, não dos ateus.

    Uma das bases da epistemologia, ou seja, da filosofia subjacente ao método científico, que produziu este computador através do qual você me lê, é que não é necessário provar uma negação, a menos que a afirmação correspondente tenha sido inicialmente demonstrada. Rejeitar este princípio remove a melhor ferramenta que temos para discernir entre o que é fantasia e o que é interpretação válida da realidade. Sem empregarmos o princípio do ônus da prova, não temos como descartar a afirmação feita por uma criança segundo a qual existe um dragão na Lua, a menos que tenhamos meios para fisicamente subir até lá e procurar dentro de cada cratera. Não custa lembrar que descartar o argumento da criança pura e simplesmente é uma falácia: o argumento da respeitabilidade, ou da idade (argumentum ad verecundiam).

    Então, somente devemos crer naquilo que puder ser demonstrado. Enquanto indemonstrado, um conceito é apenas um conceito, uma ideia, uma hipótese, mera «achologia». Não existe nenhuma justificativa lógica para promover a inversão do ônus da prova: mesmo quando se trata de provar que um conceito está errado, o que se faz é provar que outro conceito está certo. Por exemplo: quando se descartou a física aristotélica (aquela dos Quatro Elementos) isto se fez pela demonstração da existência de uma grande variedade de elementos diferentes. Não se provou que Aristóteles estava errado senão através da proposição de uma explicação funcional que era incompatível com sua visão.

    Existem, porém, duas formas através das quais os teístas escapam desta limitação lógica. A primeira é induzindo o incauto a aceitar que o conceito de Deus já está demonstrado pela crença recorrente há tantos milênios. Existem dois erros lógicos graves envolvidos nesta acepção: o primeiro é o argumento pela antiguidade, segundo a qual as ideias vão se tornando verdadeiras à medida em que se tornam antigas, e o segundo é a confusão entre a crença na existência e existência propriamente dita. A segunda forma é o recurso às «provas lógicas da existência de Deus», cujo corolário foi obtido por São Tomás de Aquino.

    Imagino que Gaboardi nunca imaginou (ou nunca pretendeu) que sua distinção especial ao conceito de Deus rendesse homenagem a estas duas estratégias teístas típicas. Mas é isso, de fato, o que ele faz. Preocupado com a posição cômoda do ateu diante da crença do religioso, ele reivindica para a filosofia a tarefa anômala de provar que Deus não existe. Como tal prova não pode ser obtida, conclui que o ateísmo é uma crença. Três observações importantes devem ser feitas neste ponto:

    1. Fica evidente que quando o autor fala que ateísmo é crença ele quer dizer «crença-crença» mesmo, e não «crença opinião» ou qualquer outro conceito filosófico. Crença enquanto aceitação de algo que não pode ser racionalmente demonstrado.
    2. Para concluir que a inexistência de Deus não pode ser provada, o autor ainda recorre a outro truque argumentativo, que bem poderia ser classificado como «sofístico»: o ceticismo absoluto justificado pela inaplicabilidade da prova lógica. 
    3. Em momento algum de sua exposição o autor explica porque o conceito do Deus monoteísta merece a distinção de ser aceito a priori pela filosofia.

    Afirmo que a segunda parte da argumentação de Gaboardi (e talvez todas as outras) se baseia em sofismas vazios porque o autor supõe que se possa empregar a lógica formal estrita para provar um conceito tão fugidio quanto o de Deus. A conclusão de que a impossibilidade de se falsear Deus usando a lógica implica em que o ateísmo é uma crença está perigosamente perto do limite do argumentum ad ignorantiam, a falácia lógica que afirma que o fato de não haver evidência contrária é uma prova em si contra a proposição inicial.  Ainda que o conceito de Deus fosse suficientemente delimitado (e não é) e falseável (idem), a falta da demonstração contrária nada diz sobre a validade ou não deste.

    Tão absurda é a exigência de tal prova que o autor admite (como não o faria) que não se pode sequer provar que temos perna ou que porcos não voam. Não podemos porque os fatos naturais não estão sobre controle estrito da lógica matemática e podem, frequentemente, ser acidentais ou irrepetíveis. As ciências naturais buscam o fenômeno, para derivar dele suas teorias, o que é diferente da sofística, que busca as teorias, para enfiar o mundo dentro delas. Ainda mais que o autor não percebe dois equívocos que comete ao mencionar o conceito de prova.

    1. Não percebe que a afirmativa negativa de que exista um número maior que todos os outros se baseia num axioma (o de que os números naturais são infinitos) e que números são conceitos abstratos, desprovidos de existência real (diferentemente de coisas que existem ou deveriam existir).
    2. Afirma (e nisso sim temos uma crença) que se pode provar que não é possível existir um homem com oito metros de altura. Neste caso o erro é novamente a falácia do apelo à ignorância: não se observou ainda um homem com oito metros de altura, mas não se pode descartar que possa vir a existir um (e se ele pode vir a existir, é possível que já exista agora, apenas incógnito).

    A manipulação do conceito de prova aplicado ao conceito de Deus resulta em prejuízo da racionalidade e da lógica, pois não se pode aplicar um método matemático para analisar fenômenos existenciais.

    Mas, Porém, No Entanto, Todavia...

    EXISTEM evidências lógicas que amparam a inexistência de deuses. Estas evidências são amplamente conhecidas de todos, apenas não são por todos interpretadas como tal. A compreensão de tais evidências surge quando nos perguntamos qual é, essencialmente, a diferença entre crer em Deus ou no Monstro Voador de Espaguete (no original fica ambíguo se a propriedade de voar pertence ao espaguete ou ao monstro que é feito dele).

    Normalmente as pessoas educadamente distinguem o Monstro como uma criação deliberada de um único indivíduo, em tempos recentes. Isto implica em negar que os deuses das religiões foram inventados um dia, por indivíduos. Implica em admitir alguma forma sobrenatural de descoberta destes conceitos. «Deus é diferente» porque não o vimos nascer.

    Ocorre que a evolução dos conceitos de Deus pode ser acompanhada de forma até clara pelos estudos históricos, analisando os livros sagrados (ou não) desde a remota antiguidade. Isto é uma evidência forte de que Deus foi progressivamente desenvolvido como um conceito cultural (tanto assim que há concepções diferentes de divindade em cada cultura). Não há nenhum requisito de fé para esta constatação, a menos que se resolva duvidar do conteúdo dos próprios livros sagrados e negar a validade das próprias Ciências Sociais como um todo. Devido ao alto para se descartar a evidência da historicidade de Deus, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o ateísmo não é uma «crença» no sentido em que as diversas formas de teísmo o são.

    Elaborando um pouco mais, podemos dizer que a própria historicidade do conceito de Deus é prova da má fé da argumentação teísta, pois as sucessivas redefinições do conceito nada mais são do que estratégias ad hoc para manter a crença, mesmo diante da refutação parcial apresentada pela ciência. É por isso que Deus vai progressivamente se afastando de nós, de uma presença diuturna e imediata na antiguidade, presidindo cada relâmpago, à sua inefabilidade atual, que chega a ser classificada por teólogos mais argutos como uma «existência além da existência». O nome dessa estratégia é «mudança de meta» (em inglês, moving the goalposts, uma metáfora futebolística) e consiste em redefinir os critérios de forma a impedir que sejam refutados. É uma variação da falácia terminológica, que consiste em redefinir as definições de forma a impedir a refutação.

    Conclusões

    O ateísmo é um fenômeno cultural muito complexo. Devido à multiplicação dos conceitos de deuses, é natural que pessoas diferentes entendam o ateísmo também de forma diferente. Porém, mesmo que algumas pessoas efetivamente «creiam» (no sentido de crença-crença) que Deus não existe, isto não torna o ateísmo em si uma crença. Primeiro porque o ateísmo não se limita a um posicionamento quanto à existência de divindades, mas inclui um estilo de vida e um conjunto de valores (variáveis ambos, de pessoa a pessoa) derivado de não se crer em Deus. O próprio agnosticismo não é incompatível com o ateísmo e muitos ateus de fato se identificam como agnósticos apenas porque não desejam expor-se a manipulações sofísticas como a tentada por Gaboardi. Richard Dawkins, por exemplo, se diz «agnóstico», mas é difícil imaginar que alguém possa ser mais descrente do que ele hoje em dia. Contrariamente ao que muita gente pensa, agnosticismo não é ficar «em cima do muro» quanto à possibilidade de existência do Velho Barbudo do Céu.

    Em outras oportunidades voltarei a abordar o tema, notadamente depois que Gaboardi publicar a nona parte de seu ensaio.

    A Verdade, Apenas um Detalhe

    Dizia o antigo adágio que «política, futebol e religião» não se discute. Obviamente esta restrição da dita «sabedoria» popular se refere ao caráter insolúvel das paixões envolvidas nos três temas: ninguém muda o time para o qual o amigo torce, nem a religião que segue, nem as suas convicções políticas. No fundo os três fatores estão muito mais ligados do que se pensa: os três são manifestações fortemente ideológicas.

    Para provar isso basta uma rápida olhada nas rivalidades regionais de nosso futebol e detectar o dedo da política. Sem necessidade de descer a detalhes que podem ser obtidos numa rápida pesquisa na internet (sou do tempo em que ao escrever um artigo era quase sempre necessário citar as informações, porque dificilmente o leitor conseguiria localizar as informações suficientes para entender o raciocínio). Arrisco-me a dizer, porém, que o futebol é, dos três temas, o que melhor evoluiu. A não ser em países obviamente selvagens, ninguém mais mata ninguém por causa de futebol — e nem relações são postas a perder. Meus sogros, um botafoguense e uma flamenguista, estão aí para não deixar ninguém sem entender.

    Digo que foi o que melhor evoluiu porque a religião é a bagunça que aí está, com muita discussão (quase sempre baseada no desejo que cada líder de seita tem de regular a bunda ou a carteira dos outros) e nenhum resultado (aliás, deve-se dizer, em favor do futebol, que mesmo os torcedores mais fanáticos não saem por aí propondo exterminar quem não torce para time algum). E a política também, com o agravante de que as paixões partidárias foram substituídas, em um nível ainda mais profundo, pelas ideológicas.

    Um partido é como um time de futebol: encarna uma ideia, um objetivo, uma visão de mundo etc.; mas não se confunde com as coisas que expressa. Por isso é possível que os partidos mudem de ideologia ao longo do tempo (conforme demonstra a fantástica trajetória do PCB, que se transformou em PPS e por fim se resignou a legenda de aluguel a serviço da direita tupiniquim), por isso é possível que pessoas mudem de partido (ou porque o partido mudou, ou porque a própria pessoa mudou, ou ambas as coisas, confusa e simultaneamente). Mas quando os partidos se enfraquecem, tornam-se pálidas sombras das ideias imemoriais, então eles se tornam ainda mais epidérmicos, secundários, instrumentos. A política passa a ser feita no nível mais básico, o da ideologia em estado bruto: e aí temos um fenômeno terrivelmente perigoso.

    Ideologias são confusas. Não devemos confundir uma ideologia com um programa de partido político. Nem mesmo devemos confundi-la com a palavra articulada de um líder. Ideologia é algo tão profundo que é quase inexprimível, arquetípico. No Brasil, devido à superficialidade dos partidos, a política se faz no nível da ideologia — e isso significa que nossa política é essencialmente irracional e se expressa de forma virulenta.

    Uma pessoa que age motivada por sua ideologia pode, muitas vezes, agir sem a menor noção das consequências de seus atos. Tal como um suicida fundamentalista (islâmico ou não) se lança sobre seu alvo sem pensar na dor ou na morte. Um ser movido a ideologias é kamikaze em tudo o que faz. Quando uma pessoa age assim, ela tende a aceitar sem nenhuma crítica as versões que preenchem as suas expectativas.

    Funciona da mesma forma que os milagres e aparições. Uma pessoa que quer ver Jesus de qualquer maneira o encontrará nas marcas de uma torrada ou numa mancha de mofo. Um torcedor fanático acreditará que o seu time, após três ou quatro sofridas vitórias no começo do campeonato, poderá sagrar-se vencedor. E uma pessoa embebida de ideologia política selecionará aquilo em que crê de acordo com as suas noções preconcebidas do que seja a verdade. A semana entre 27 de maio e 2 de junho foi marcada por uma demonstração deste funcionamento semiautomático da mente. E não foram quaisquer mentes, foram as mentes dos céticos e iluminados membros da direita ateísta na internet.

    Algumas palavras sobre estes seres: vocês já os conhecem de meu artigo recente sobre o processo de criação e autodestruição de um partido laico. O «movimento ateu» na internet está dividido em facções, de acordo com o santo inspirador que cada uma cegue (ato de seguir mais ou menos cegamente). Os de direita idolatram uma filósofa, Ayn Rand, que expressou suas ideias principalmente através de romances imensamente longos e intoleravelmente chatos, e um economista austríaco, Ludwig von Mises. Ambos intolerantes e dogmáticos em seu «liberalismo» (basicamente voltado para o aspecto econômico).

    O episódio a que me refiro é a reação na blogosfera e nas redes sociais às declarações do Ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, ao semanário «Veja» (uma revista que já no título concebe a realidade como não interativa). Como se tratava de uma denúncia contra Lula, ícone da esquerda, a direita ateísta não hesitou em ecoar, enfática e festivamente, chegando até mesmo a botar nos trending topics do Twitter.com a proposta #LulaNaCadeia. Tudo porque o Ministro disse que fora pressionado pelo ex presidente a adiar o julgamento do chamado «Mensalão» para depois das eleições.

    Quando uma pessoa rapidamente acredita em uma história porque ela está de acordo com os seus conceitos ou preconceitos, torna-se constrangedor voltar atrás. Costuma ser muito doloroso admitir, especialmente no caso de pessoas que se dizem «ceticas» e «racionais», que «saltaram» para conclusões sem analisar o contexto apropriadamente. O que poderiam fazer esses próceres do ceticismo, esses doutores em falácias, quando a história começou a fazer água, com negativas peremptórias por parte da única testemunha (o ex Ministro do STF e ex Ministro da Defesa Nélson Jobim) e contradições por parte do denunciante, que tentou, através de múltiplas versões, estabelecer uma versão do fato que fosse definitiva?

    Quem pôde, fingiu-se de morto. Quem foi cobrado e tinha uma personalidade excessivamente pública para simplesmente desaparecer, defendeu-se com uma barragem de argumentos irrelevantes e falaciosos, exatamente como fazem os religiosos, quando suas crenças são distendidas ao limite. Você pode perfeitamente admitir que uma pessoa tenha se desfiliado de toda forma de religião, mas é quase um absurdo esperar que esta pessoa realmente tenha conseguido adquirir uma visão de mundo desapaixonada o suficiente para analisar os fatos com objetividade e para, mais importante que tudo, recuar sobre suas versões e aceitar que estava errado. Na prática, o que se viu foram diversos rabudos protegendo cada um o rabo alheio, foram explicações que nada explicavam.

    O raciocínio da direita facebookiana parece ser de cunho utilitarista: «sabendo» que Lula é (ou tem que ser) culpado de alguma coisa, então qualquer acusação é verdadeira (ou precisa ser). Não é preciso checar coisa nenhuma, não é preciso analisar nada com frieza, se a acusação «serve». É uma espécie de estratégia Eliot Ness: se você não pode provar que Al Capone era o chefe de todo o crime organizado, então bote-o na cadeia por sonegar imposto de renda. Mas e se Al Capone não fosse, de fato, o chefe do crime organizado? E, mais grave, se ele pagasse os impostos em dia mas fosse, ainda assim, encarcerado? A diferença entre a direita ateísta e o Eliot Ness é que o famoso policial americano assegurou-se de que a acusação fosse verdadeira. Nossos agentes secretos não tem o mesmo cuidado: desde que o Lula seja achado culpado, ele não precisa ser, de fato.

    Quando confrontado com o fato de que duas das três pessoas presentes ao encontro (o próprio Lula e Nélson Jobim) haviam desmentido o fato (Jobim o fez, várias vezes, para três jornais diferentes: Estadão, Globo, Folha e Zero Hora), começaram a pipocar explicações tão vergonhosas que eu nem sei como exatamente classificá-las. Prefiro pensar que todas as falácias formais são apenas tipos específicos de non sequitur. A primeira destas foi a tentativa de desqualificar o desmentido de Jobim, com a desculpa de que este seria «aliado de Lula» (esquecendo que ele também é/era aliado e amigo de Mendes, de quem foi colega no STF) sem nunca se darem sequer ao trabalho de reparar que as negativas de Jobim foram todas coerentes, enquanto as versões de Gilmar se multiplicavam (uma nova a cada entrevista). A segunda foi a inacreditável afirmação de um conhecido líder do «movimento ateu» segundo a qual Gilmar Mendes teria credibilidade maior que Lula e Jobim juntos em função do cargo que ocupa ter «fé pública» (esta afirmativa é tão incrivelmente bisonha que chamá-la de falácia seria uma espécie de promoção). A terceira, mais sofisticada, brandida por um defensor do «conhecido líder», foi que não haveria nenhuma razão para acreditar nos desmentidos, visto que políticos são notórios por fazer suas versões conforme a conveniência e qualquer dos lados poderia ter razão.

    A primeira afirmação é um ataque pessoal clássico, baseado no envenenamento da fonte. Aquilo que você diz a respeito de uma pessoa deixa de ter valor se você for amigo dela, mas aquilo que um adversário diz passa a ter automaticamente um valor de verdade. A segunda é um tipo específico de apelo à autoridade chamado «credencialismo». Enquanto no apelo à autoridade clássico você usa um nome ilustre para corroborar a sua tese, no credencialismo você justifica suas opiniões com base em seus diplomas ou cargos. A terceira afirmação parte de uma generalização (todos os políticos são mentirosos) para se chegar a uma conclusão irrelevante (como todos são mentirosos ou ambíguos, a versão coerente tem tanto valor quanto a incoerente). E as pessoas que brandiram contra mim estes argumentos se disseram, no fim, decepcionados comigo.

    Após a entrevista inicial, a situação evoluiu curiosamente. Gilmar Mendes se enrolou em outras entrevistas, chegando a desmentir-se e contradizer, e depois passando a acusar Jobim. Por fim acusou Lula de ter orquestrado uma campanha de difamação contra si e advogou a proibição dos patrocínios a veículos de imprensa que critiquem as «instituições». Veio à luz o fato de que Gilmar teria ficado um mês sem revelar a pressão, quando ela teria tido maior efeito justamente se tivesse sido revelada há um mês e, pior, o próprio Gilmar admitiu que a primeira pessoa a quem confidenciou o ocorrido foi o líder de um partido político (o Senador Agripino Maia) e que sua primeira notificação a um outro Ministro do STF foi poucos dias antes da saída da revista. Os reiterados desmentidos de Nélson Jobim e as variadas versões divulgadas por Gilmar Mendes criaram em todas as pessoas bem informadas a impressão (bastante lógica) de que o Ministro estaria mentindo. O corolário de tudo foi o sensato comentário de Mauro Santayana, explicando que uma conversa com os exatos teores propalados por Gilmar Mendes não configuraria em nenhum crime da parte de Lula que, na qualidade de ex presidente, é uma pessoa comum, que não tem que seguir nenhum rito específico de cargo (ao contrário de Gilmar, que não deveria estar em um encontro privado com personalidades políticas, como o fez duas vezes no mesmo dia, primeiro com Lula e depois com Agripino Maia).
    Esses desdobramentos fizeram a turma direitista, que já tinha até comprado os foguetes para o dia em que Lula fosse em cana, botasse o rabo entre as pernas, fizesse cara de paisagem e comentasse sobre os lindos navios que estão singrando as montanhas de Minas Gerais.

    Não conseguindo responder a estas acusações diretas e frontais, representantes da mui lógica e filosófica «direita ateísta» do Facebook passaram a praticar a tática do «olha o avião». Fizeram isso de duas formas: primeiro, desviando o assunto para uma espécie de julgamento de Lula e seu governo e segundo, acusando-me de ser um «crente» da Igreja Lulista e defensor incondicional do ex presidente em tudo. E a essa altura, mesmo com os desmentidos do próprio Gilmar Mendes pipocando na internet e com vários comentaristas políticos (até o Noblat, dO Globo) indicando que acreditavam que tudo fora uma farsa, ainda assim eu estava encontrando ouvidos moucos na direita ateísta, que sustentava como verdade aquilo que até mesmo o próprio Gilmar Mendes já dissera, desmentindo a Veja, que fora um mal entendido.

    Ataques à pessoa em vez de seus argumentos são sempre uma baixeza, e evidenciam que você atingiu o fígado do oponente de forma irremediável (e certos fígados do «movimento ateu» não são só fáceis de atingir, devido ao descuido com a guarda, mas também inflamados e sensíveis). Natural que os ignoremos, por isso foi natural que eu tentasse a todo custo trazer o debate de volta ao seu tema original: se seria aceitável, se seria racional que uma pessoa que «se acha» a melhor bolacha do pacote do «movimento ateu» aceitasse impromptu, uma denúncia baseada em nuvens, em palavras vagas, em pouco, talvez nada. Em poucas palavras: como alguém pode se apresentar como um cético e pretender-se superior aos crentes se, em relação às coisas em que acredita, é tão crédulo quanto o mais simplório dos religiosos? É muito fácil ser cético em relação àquilo em que você já não crê. Os protestantes, por exemplo, são extremamente céticos em relação aos milagres atribuídos aos santos católicos — ainda que eles próprios, em seus cultos, produzam milagres incríveis atribuídos ao Senhor Jesus ou ao Espírito Santo. Difícil é ser cético em relação às coisas em que você acredita, é reformar uma ideia que lhe é cara diante de evidências.

    A direita ateísta da internet aceitou a versão inicial de Gilmar Mendes e amarrou-se a ela. Ninguém pestanejou, nem mesmo quando o Ministro se desmentiu. Negaram que ele tivesse desmentido. Acusaram toda a imprensa de ser «governista» por «comprar a versão de Lula», ignorando os fatos (a atuação nitidamente oposicionista da maioria de nossos veículos de imprensa) e resvalando para uma grande teoria de conspiração lulista (todos estão mancomunados, tudo é uma grande estratégia para silenciar a oposição e fazer o PT ficar no governo noventa anos). Só falta dizerem que a própria Veja é governista se ela publicar uma versão contraditória na edição de hoje.

    E eu nem mencionei o preconceito de classe envolvido na polêmica. Gilmar Mendes, por ser um doutor jurista, é colocado num verdadeiro pedestal de moralidade, enquanto Lula, o «molusco», o «apedeuta», era colocado em dúvida o tempo todo, como se sua falta de diploma o impedisse de ser coerente, ou mesmo de ter razão. Na ideologia mesquinha da direita, existe uma pureza na ignorância, mas só quando o ignorante faz um trabalho braçal. Pobre só é lindo quando está obedecendo, no dia em que adquire poder, ou mesmo a mera independência, torna-se a encarnação do «perigo vermelho». Não adiantou outro doutor, o Jobim, ter saído em defesa do ex presidente, afinal, era apenas um aliado dele. Apenas, como se a carreira inteira do Jobim (que vem de bem antes de Lula ter sido eleito, se apequenasse no papel de capacho do ex presidente).

    Ninguém, em momento algum, exerceu qualquer ceticismo salutar em relação à notícia, mesmo sendo publicada na Veja, revista que já foi anteriormente pilhada em mentiras e que está sendo alvo de investigações por ter utilizado como base para reportagens gravações de conversas telefônicas de autoridades feitas por um criminoso e escroque internacional.

    No fundo do poço da argumentação, os representantes desta direita ateísta que aceita denúncias falsas, desde que convenientes, sem nenhuma preocupação de ceticismo, me acusaram de estar tolhendo a liberdade de expressão deles ao criticar seus pontos de vista. Faltou pouco para evocarem a garantia constitucional de liberdade de crença. «Crenças não merecem respeito, pessoas sim» — eles gostam de dizer. Mas quando você ataca suas ideias (crenças?) eles reclamam que sua crítica é uma ameaça à sua liberdade de expressão. Talvez porque eles só saibam expressar-se quando não estão sendo criticados, ou quando as críticas não são realmente eficientes.

    Claro que eles tem o direito de pensar diferente de mim. Cada um segue a religião que quer, e se eles resolvem seguir Mises, Moisés ou Maharishi isso não me atinge. A não ser quando acham que o seu «ceticismo» é algo que os diferencia. Ninguém tem o direito de se sentir melhor que os outros quando pensa da mesma forma que eles. Um modo de pensar é algo que está acima de crenças: você pode crer em Jesus ou no Iron Maiden, mas o seu fanatismo é o mesmo se você reage desordenadamente a críticas.

    Se todos temos liberdade de expressão, isso não significa que temos impunidade no que dizemos. As nossas palavras geram consequências, mesmo que apenas um reflexo na imagem que os outros têm de nós. A imagem que as lideranças da «direita ateísta» constroem quando ecoam mais uma denúncia vazia da Veja não é a de excelsos filósofos, mestres da lógica, mas simples padawans periféricos que papagueiam palavras bonitas, mas não conseguem comportar-se de acordo com elas when the push comes to shove.

    Estes comentários se baseiam em uma discussão que iniciei em um grupo do Facebook intitulado «Livres Pensadores». Enquanto estava revisando o leiaute do blog, corrompido por algum gadget problemático, eis que me dou conta de que a vergonha alheia segue campeando firme no grupo. Incomodados com a impossibilidade de justificar o modo automático como aderiram a uma versão conveniente (um dos membros chegou a mencionar que a hashtag #LulaNaCadeia já existia, como se isso o dispensasse de pensar antes de aderir), perverteram o assunto do tópico e passaram a discutir carros esporte! Faltou, porém, combinarem com todo mundo (não, conspirações não são tão fáceis de fazer, por isso elas geralmente não existem) e um membro do grupo puxou de volta o fio da discussão. Para que? Para novamente ME acusar de não ser cético.
    Veja bem, você pode acreditar piamente em tudo que a imprensa escreve, mas isso não o impede de ser cético. Você pode crer numa acusação contra um político de quem não gosta, mesmo ela sendo ilógica, mas não deixa de ser cético. Você pode empregar todo tipo de falácias para justificar-se e não ter que simplesmente admitir: «é, eu tava enganado, desculpa aí», mas não deixa de ser cético. Mas se você cutuca o dedo na ferida daqueles que se acham céticos, então eles vão dizer que você só é ateu para cumprir uma agenda marxista. Agora esses molequinhos que nasceram ontem resolvem julgar, sem nunca terem me visto pessoalmente, se sou ou não «ateu de verdade». E não surge uma voz sequer dotada de algum vislumbre de clareza para dizer: «gentem, por favor, o José Geraldo pode pensar diferente de nós, mas nesse caso ele fez uma crítica válida.»

    Por essas e outras é que eu cada vez sinto mais razão quando líderes religiosos acusam certas partes do «movimento ateu» de serem «igrejas ateístas».

    Atualização em 14 de agosto. Agora com o julgamento do «Mensalão» a pleno vapor ninguém mais está  da gravíssima acusação feita pelo Ministro Gilmar Mendes ao ex presidente Lula. Até as pedras deviam saber que o caso não daria em nada, mas as pessoas que se apressaram a festejar na internet, criando um clima «genérico» de revolta contra «isso que está aí» não admitiram até hoje que foram precipitadas e injustas ao acreditarem sem nenhum ceticismo nas afirmações do ministro. Em vez disso estão de novo soltando foguetes porque o advogado de Roberto Jefferson disse que «Lula sabia de tudo».

    Porque Critico o «Movimento Ateu»

    Eu não sou ateu conservador e nem teísta mas vejo mal a militância ateísta. Vejo mal no sentido de que ela quase não aparece, e quando aparece aparece mal. E aparece mal porque, em vez de unir-se em torno de projetos comuns, ela se divide em torno de interesses conflitantes. Como aliás tudo nesse país e nesse mundo: vivemos numa era na qual os partidos e os movimentos optam entre serem grandes ou serem duradouros. A única coisa que permanece é o poder do capital, esse sim unido em sua coerência agressiva e egoísta, que não precisa de bandeiras e nem de partidos.

    A militância ateísta está mal de várias formas, variadas maneiras. Está mal quando coloca a não existência de divindades como ponto central. Deveria colocar os valores racionais e humanistas. Está mal quando identifica na religião organizada o seu inimigo. Deveria identificá-lo na superstição difusa e nos cultos improvisados com o único objetivo de ganhar dinheiro e controlar o poder. Está mal quando provoca, em vez de convencer. Está mal quando choca, em vez de conscientizar. Está mal quando ataca, em vez de reivindicar. Está mal quando se propõe como uma elite, mostrando excludente quando devia procurar agregar. Está mal quando rotula, em vez de tolerar.

    Há momentos nos quais a militância ateísta me parece fundamentalista, bolchevista, jacobina, cruzadista. Fundamentalista porque se aferra ao cientifismo e ao positivismo lógico como valores inquestionáveis (revelando uma miséria filosófica que deveria causar vergonha alheia a quem lê). Bolchevista porque ataca os setores moderados que procuram soluções negociadas. Jacobina porque se propõe a um ataque desenfreado contra a ordem estabelecida, mesmo sabendo que esse frenesi de "terror" não seria duradouro. Cruzadista porque se acha detentora de uma verdade que precisa ser ensinada ao mundo.

    E há momentos em que é nazista também, julgando povos e pátrias (inclusive a nossa) segundo estereótipos para justificar posicionamentos absolutamente ideológicos (como o neoliberalismo ou as ideias de Ayn Rand).

    Estes setores do movimento ateu escolhem seus «papas» e «pastores» informais (Richard Dawkins, Neil de Grasse Tyson) e os canoniza após a morte (Christopher Hitchens, Nietzsche, Ayn Rand). Certas obras são lidas como se fossem quase bíblias.

    É difícil dissociar esse comportamento do que se chamou de «neo ateísmo» porque, em essência, esse comportamento se caracteriza por transformar o ateísmo em um movimento, em uma militância. Antes do neo ateísmo não havia ateísmo militante, havia apenas ateísmo, sem sobrenome. Não havia necessidade de uma taxonomia dos ateus (ou uma Goécia, como um místico católico julgaria mais irônico).

    Não custa lembrar, ao fechar este breve ensaio, que o termo «movimento ateu» é apenas um modo de dizer e não se refere a um movimento real e organizado, da mesma forma que «movimento roqueiro», «cristianismo» ou o maldito «sistema» que a tantos assusta.

    Sobre a Necessidade do Isolamento

    O ser humano é gregário por natureza. Desde Aristóteles (que talvez não tenha sido o autor do dito) circula a noção de que o homem é um «animal político». A animalidade (ou seja, a naturalidade) de nossa inclinação política nos faz supor que é «bom» que estejamos sempre unidos a alguma coisa: classe social, partido, religião, torcida ou fã clube. Hoje, porém, dei-me conta da relevância de ser solitário, de não estar formalmente ligado a nenhum grupo ideológico.

    Grupos ideológicos são prisões mentais: eles nos obrigam a entrar em conformidade com paradigmas externos, que podem não ser mais do que a pressão da maioria. Não é nenhuma surpresa que os partidos políticos se degradem com o correr do tempo, perdendo seus ideais de juventude e degenerando em meros instrumentos de poder. Quando você optar por filiar-se a um grupo por ideologia, está voluntariamente renunciando a ter ideias próprias sobre os temas controversos ou, de outra forma, terá de conviver com uma forte dialética na qual a pressão da maioria acabará empurrando suas considerações iniciais para posições conciliatórias.

    Somente o solitário detém a liberdade de estar dissociado daquilo de que discorda e de reiterar sua opinião sem considerações de ordem prática. O partidário precisa apoiar alianças que lhe causam pesadelos, o torcedor precisa ignorar os defeitos de seu time, o religioso precisa engolir o dogma inteiro. Quem apenas tangencia, sem incorporar-se, poderá, em qualquer circunstância, fazer a crítica que achar necessária e, caso solicitado, sair pela porta por onde entrou. A necessidade de estar agregado a algum tipo de organização, sociedade, clube ou identidade é mãe das incoerências mais graves: através delas somos orientados a silenciar a voz da consciência em nome de conveniências.

    Esta constatação surgiu em mim como resultado de minhas sucessivas decepções com as «igrejas ateístas» que tentam organizar o «movimento ateu» no Brasil. Desejoso de abrigar-me no seu seio para superar a solidão de ser um livre pensador em uma sociedade que valoriza o rebanho, muitas vezes me vi tentado a engolir sapos ideológicos em nome dos supostos benefícios de ser parte de «algo maior». Só a maturidade nos ensina que este isto só é válido se tal «algo maior» é também algo «bom»: ser parte de uma grande máquina do mal não é algo de que nos devamos orgulhar. Infelizmente, porém, a preocupação com a repercussão social de nossos atos é um valor em crise em nossa sociedade: estamos ficando egoístas.

    Se entendo essa mudança para o egoísmo como ruim, como estou a defender a solidão? Caro leitor, entenda, há uma diferença imensa entre estar só e ser um egoísta. Há pessoas que estão em meio a muita companhia, mas por motivos errados: a necessidade de estar em «algo maior» é uma motivação egoísta para buscar ajuntar-se a um movimento coletivo. Outras pessoas foram deixadas sozinhas porque não querem compactuar com valores de que discordam. Prefiro estar só porque quando me mantenho fiel a uma organização apesar de seus erros não reparados, eu corroboro os erros por ela cometidos. «Mudar o sistema a partir de dentro» é só uma história usada pelos adesistas para desculpar o gordo salário que recebem.

    Dizer, porém, que estou decepcionado com as lideranças ateístas é injusto. Em primeiro lugar, nenhuma liderança é mesmo perfeita. Além do mais, lideranças razoáveis podem aceitar acomodações, negociações. Lideranças podem ser trocadas. O problema do «movimento ateu» brasileiro, só agora vejo, não está nos líderes, está nos liderados. Por mais que as lideranças dividam; competindo entre si por nacos de notoriedade, contagens de visitantes a seus blogues, cliques em seus anúncios, doações para suas contas, compras em suas lojinhas virtuais; sempre é no seio dos liderados que as piores decepções acontecem.

    Os erros das lideranças foram muitos. Houve as que se perderam tentando estabelecer condições para ser chamado de «ateu». Outras se perderam tentando delimitar de forma mais contrastante os diversos rótulos envolvidos nos movimentos que ficam ideologicamente à esquerda da religião. Outras se envolveram em mesquinhas disputas pelo poder, que me evocaram até mesmo os equívocos mais graves de episódios históricos do passado. Outras, por fim, se perderam tentando assumir para si uma posição superior no terreno ideológico e epistemológico. Quando essa última tentativa se voltava contra as religiões e o sentimento religioso, era difícil discernir o seu equívoco, mas quando se voltava contra o próprio «movimento ateu», então o difícil era ignorar que se estava esgrimindo conceitos filosóficos excessivamente abstratos com o objetivo único de «demarcar território» e desqualificar pensamentos divergentes. Quem detém o controle da terminologia, tem o poder de validar ou invalidar os pensamentos originados de fora da «torre de controle», o que é uma capacidade muito útil quando se busca erguer uma ideologia eficiente, e lucrativa.

    Não bastassem esses problemas todos com as lideranças (reais ou fruto de auto-engano, legítimas ou impostas), ficou evidente para mim algo ainda pior: a tendência do «baixo clero» em aviltar o movimento, monstrando-se ávido por más notícias sobre a religião, rápido em aplaudir tudo que as «desmascare» e impiedoso em sua falta de limites éticos para exercer estas tendências. Por mais que dentro de campo estejam jogando 11 cavalheiros engravatados e bilíngues, como nos tempos do futebol elitista de inícios do século xx, as arquibancadas rugem com espectadores como os do coliseu romano, sequiosos de sangue.

    Dois episódios específicos me chamaram a atenção. O primeiro foi a reação de algumas pessoas no seio do «movimento ateu» diante da morte do ator Thiago Klimek, que interpretava Judas Iscariotes em uma «Paixão de Cristo» amadora. O segundo foi a tendência direitista que o Partido Laico Humanista vai tomando.

    No primeiro caso, o absurdo de praticamente «comemorar» a morte de uma pessoa que não estava fazendo nada mais que praticar a arte que amava. Rir da desgraça alheia nunca é algo bonito, mas fica ainda pior quando o motivo do riso é ideológico. Se o ator tivesse morrido interpretando Santos Dumont ou Tiradentes o caso não mereceria tanta ironia.

    No segundo caso o problema não está na tendência direitista em si, mas no tipo de conteúdo trollesco e desrespeitador que está sendo compartilhado lá; e que me fez deixar o grupo. Não há como iniciar um projeto político de grande envergadura se não houver respeito de parte a parte. Não há respeito por parte dos «direitistas» a que me refiro, que estão deliberadamente procurando inflamar o debate para dividir. Infelizmente nada posso fazer, pois o grupo está na mão deles. E eles, obviamente, trabalham para destruir o grupo porque, ateus ou não, um grupo de ideologia direitista será sempre contrário a iniciativas populares.

    São pessoas torpes que compartilham slogans de que religião não define caráter, mas mostram falta de caráter. Compartilham slogans de que os valores morais não são exclusividade dos religiosos, mas não demonstram ter valores morais apreciáveis. Se é verdade que religião não define caráter, também é verdade que algumas tentam, ainda que apenas de forma parcial ou imperfeita. Eu me proponho a ser um dos que tentam fazer o mesmo, só que isolado, falando sozinho na praça da internet.

    Eu rejeitei a ATEA e seu líder porque não concordo que uma entidade que se propõe a representar minorias perseguidas imponha condições para que os membros de tais minorias sejam associados. Rejeitei a UNA porque as arquibancadas empoderaram um «golpe bolchevique» contra os seus moderados líderes, fazendo inclusive com que um deles se afastasse definitivamente do movimento. Rejeitei a LiHS porque não concordei com a tentativa de acobertar uma «barriga» que tomaram ao publicarem como verdade uma mentira criada por um mitômano, posteriormente rejeitei-a mais uma vez ao perceber a tentativa de manipulação ideológica que estavam cometendo. Não tenho hoje nenhuma afiliação explícita com grupo algum, sou livre e solitário. Tenho a liberdade que somente a solidão pode dar. Do alto desta liberdade eu pressinto que é uma profunda felicidade não estar associado a nenhuma destas entidades. Ou a qualquer outra, formal ou informal.

    Não sei para onde estou indo. E isto é ótimo.Que tristeza seria o mundo se todos soubéssemos para onde estamos indo. Sei que, estando só, estarei exposto à covardia dos que, de um lado ou de outro, se aproveitarão de eu não ter «costas quentes» e nem companheiros que me vinguem. Já sou, porém, maduro o bastante para saber que este tipo de garantia não impede que os membros de torcidas organizadas sejam mortos. Mais importante do que o conforto ilusório dos números é a coerência de não assinar embaixo daquilo de que discordo. Passei daquela fase em que as pessoas procuram turmas. Nem nessa fase eu tive. Hoje prefiro ficar de meu lado, vendo as turmas se esbofetearem inutilmente. Um dia alguns desses crescerão e talvez tenham tempo para entender o que estou dizendo. Enquanto isso o «movimento ateu» continua seguindo a máxima de Mencken, segundo a qual quantidade total de inteligência no mundo permanece invariável.

    Ceticismo em Crise: A Infinita Querela Entre as Ciências Formais, Naturais e Sociais

    É um tanto difícil abordar este tema sem parecer que estou puxando a brasa para a minha própria sardinha porque, de fato, estou. Acredito que é necessário admitir isso honestamente desde o princípio para evitar que os leitores tenham uma compreensão errada do que virá a seguir. Infelizmente, esta honestidade de declarar explicitamente de onde vem e para onde vai está ausente na maior parte dos debates sobre ciência que acontecem na internet. Ali o que se vê é a tentativa de desqualificar o lado oposto de qualquer maneira e reivindicar para si o reinado da cocada preta.

    As Ciências Sociais, sendo «irmãs mais jovens» da família científica, ainda não levadas tão a sério pelas demais ciências, já melhor estabelecidas na tradição. Além disso, pelo fato de terem o «poder» de construir ou explodir coisas e de matar ou salvar gente, as demais ciências parecem ter uma «superioridade evidente», que os seus adeptos tentam cristalizar desenvolvendo definições de ciência que favoreçam justamente essa posição de superioridade. Essa crendice serve de base para a desqualificação das Ciências Sociais, ainda mais porque ninguém explode nem constrói coisas com História, Psicologia, Sociologia, Antropologia, Linguística etc. Ainda há muita gente que acredita no mito da «objetividade» das Ciências Formais e na eficácia absoluta do «método científico», como o forista que afirmou: O método científico existe justamente para eliminar todo resquício de subjetividade.

    Já falei aqui sobre o preconceito que as pessoas têm contra a Linguística. Duzentos e tantos anos «no mercado» e produzindo conhecimentos importantíssimos para a compreensão do mundo não foram suficientes para que esta ciência fosse respeitada: qualquer zé mané se sente à vontade para exibir sua idolatria pela gramática normativa e seu preconceito contra qualquer abor­dagem educacional científica, especialmente aquelas que reconhecem a existência dos falares regionais e/ou variações de prestígio. Mas a coisa vai mais longe: o mesmo preconceito se estende a todas as ciências sociais.

    Como dito no começo, em parte isto se deve à juventude das Ciências Sociais (exceto da História que, no entanto, era considerada até relativamente há pouco tempo como uma espécie de Literatura). Em parte, porém, isto se deve a motivações ideológicas. Ao estudarmos uma realidade imper­feita — a sociedade — é natural que tenhamos de apresentar tais imperfeições nos resultados. Aqueles, porém, que se beneficiam das imperfeições não se beneficiam da exposição delas. Natural, portanto, que denunciem o caráter «subversivo» e «esquerdista» das Ciências Sociais para evitar que seus resultados definam prioridades políticas ou impactem no imaginário coletivo. A posição das Ciências Sociais não é ajudada pelo fato de tantos «esquerdistas» de fato terem se dedi­cado a elas, especialmente por causa do legado de Karl Marx. Por outro lado, é difícil saber se nesse caso as pessoas esquerdistas procuram as Ciências Sociais ou se é natural mover-se para a esquerda do espectro ideológico quando se conhece a realidade imperfeita da sociedade capitalista em que vivemos.

    Seria aceitável tal atitude preconceituosa proveniente de alguém obviamente ignorante e incapaz de raciocínios abstratos. Mas na prática o que se verifica é que muito frequentemente as acusa­ções contra as Ciências Sociais partem de pessoas que aparentemente estudaram um pouco, pelo menos o estritamente necessário para saber quem foi Karl Popper, embora não o suficiente para se livrarem da concepção positivista, como na ilusão de que é possível conhecer exatamente «como a História é» (palavras tomadas de um forista no Facebook). Não podemos, então, pensar que tais acusações sejam fruto da mera ignorância e temos que avançar a tese de que envolvem um pensamento ideológico de direita e/ou um preconceito contra formas de pensar diferentes.

    Em geral, pessoas que procuram desqualificar o caráter científico das Ciências Sociais, espe­cialmente da História, da Geografia Humana e da Sociologia, o fazem por discordarem de um difuso «marxismo» que imaginam ainda definir de forma intransigente toda esta área do conhe­ci­mento humano. Tipicamente estas desqualificações são precedidas ou vêm acompanhadas de críticas a Cuba ou menções às ditaduras comunistas, que são usadas como argumento contra uma abor­dagem metodológica de fatos sociais. A falácia do non sequitur deveria ser óbvia nestes casos, porém é mais fácil amestrar um rebanho de gatos do que convencer um direitista que os erros come­tidos por políticos simpáticos a uma ideologia não são argumentos contra análises influen­ciadas pela mesma ideologia. Se o argumentador for cristão, ele não verá, inclusive, nenhum pro­blema em insistir em uma visão cristã do mundo apesar das violências praticadas no passado em nome do cristianismo. A analogia entre os dois casos nunca será evidente o bastante.

    Tal preconceito se cristaliza também por culpa dos próprios profissionais das áreas de Ciências Sociais, quando não «vestem a camisa» nem se embasam para defender sua posição e quando fazem trabalhos porcos baseados exclusivamente em fontes secundárias e opinativas para defen­der ridículas «pós graduações» de merda que só servem para angariar-lhes títulos em con­cursos públicos para subempregos municipais. Estas pessoas, que muitas vezes foram parar num curso de Letras, História ou Serviço Social por não terem preparo suficiente para obter uma vaga onde realmente queriam (um curso de Direito, Medicina ou Engenharia), não tendo realmente amor pelo que fazem, não se importam em contribuir para a melhora da imagem de sua profissão. Como o homem que casa com a amiga feia porque foi rejeitado na disputa pela beldade da classe, mas depois vive falando mal da esposa ou não lhe dá a atenção de que precisa. Às vezes, porém, esta frustração não impede que o indivíduo empregue sua posição enquanto estudante, licenciado, bacharel ou mestre em alguma ciência social para embasar um falso argumento de autoridade que ataca estas ciências, como o forista que disse: E, antes de você vir com a acusação de que tenho preconceito contra as Ciências Humanas, sou da área de Letras…

    Mas, deixando de lado estas analogias machistas e autoflagelação, é preciso gritar pelos quatro mil alto-falantes que as Ciências Sociais são ciências (até Popper admitia isso) e que sua desqualificação é um ataque falacioso, motivado ideologicamente. Falacioso porque se baseia em exigir delas que sejam capazes de cumprir tarefas para as quais não são adequadas. Não se julga o golfinho por sua capacidade de escalar árvores, tal como não se pode rebaixar as Ciências Sociais por não construírem nem explodirem coisas, como fez o forista que comentou: Um computador não pode ser construído com base em estudos de Ciências Humanas. Assim, não foram elas que ajudaram a criar as vacinas, por exemplo. Diante deste tipo de argumento, é dever de todo aquele que possui uma formação na área de Humanas defender-se deste tipo de abuso. A defesa não deve se basear em argumentos de autoridade, mas na própria lógica formal, que está de nosso lado de várias maneiras:

    As Ciências Sociais não são abstrações. Elas procuram estudar fatos que realmente aconteceram. Sua limitação reside na impossibilidade de conhecer com plena exatidão todos os fatos, devido à precariedade dos registros ou a impossibilidade de verificar in loco os fatos deduzidos a partir dos dados parciais. Neste caso, é útil apontar que esta limitação é a mesma que afeta ciências como a Paleontologia, a Arqueologia e a Cosmologia, bem como ramos importantes de outras ciências, como a Taxonomia.

    O fato de haver discordância entre vários autores quanto à interpretação dos dados conhecidos não é privativo das Ciências Sociais. Temos exemplos em outros ramos do conhecimento de teorias conflitantes, até mutuamente excludentes, ou baseadas em pura especulação. Pode ser interessante citar aqui a dificuldade para se harmonizar a Teoria da Evolução com a classificação taxonômica dos animais, o que só foi possível com o desenvolvimento da Genética e da Microbiologia, graças as quais se pôde detectar que a divisão da vida em dois «reinos» era uma arbitrariedade e descobrir relações entre espécies que não se baseavam apenas na aparência, dando origem à «síntese moderna» da Teoria da Evolução. A diferença em relação à História reside unicamente em que não temos a esperança de encontrar dados suficientes para dirimir todas as dúvidas persistentes. Então, a consequência disso é que teremos de conviver, em muitos casos, com interpretações vagas ou explicações parciais. Estas divergências ou incompletudes não invalidam as Ciências Sociais porque o objeto do conhecimento é real, embora conhecido de forma parcial. Não se pode comparar, por exemplo, a História com Ufologia ou Criptozoologia, por exemplo, que obviamente são pseudociências, pois procuram justificar a própria existência provando a realidade daqueles que seriam seus objetos de estudo: a humanidade existe e tem um passado, não é necessário provar isso.

    O problema metodológico reside na suposta não falseabilidade do conjunto teórico dos postulados das ciências sociais. Entretanto, dentro de tal conjunto existem postulados que foram falseados com sucesso: sabemos, por exemplo, que determinado sítio arqueológico foi ocupado há tantos milhares de anos com base na análise por estratigrafia, carbono-14 ou decifração epigráfica. Podem haver aspectos controversos na interpretação dos dados, mas é inegável, por exemplo, que o sítio de Jericó foi habitado desde há cerca de 10 mil anos e que realmente os cruzados europeus estiveram na Palestina medieval. Outras ciências também possuem aspectos controversos entre seus postulados. Na Astrofísica, por exemplo, a «Teoria das Cordas» ainda não é considerada seriamente por todos os acadêmicos. No máximo, admitem que ela é um «modelo teórico promissor» para harmonizar a Física Quântica com a Teoria da Relatividade, mas que ainda precisa de comprovação. Ninguém em sã consciência diria que a Astrofísica é uma «balela» por causa de precariedade da «Teoria das Cordas», mas há quem considere a História uma «balela» só porque existem explicações diferentes para as causas da queda do Império Romano, por exemplo.

    O mais curioso é que podemos concluir estas observações notando que o comportamento destas pessoas em relação às Ciências Sociais é análogo ao dos criacionistas. Tal como o cria­cionista rejeita em bloco toda uma gama de fatos e teorias no âmbito da Biologia, por não con­cor­darem com a conclusão a que apontam, o «objetivista-direitista» moderno rejeita em bloco toda uma série de campos de conhecimento, as «Ciências Sociais», com base em suas concepções equi­vocadas e positivistas do método científico e na rejeição das consequências de tais estudos por razões ideológicas. O criacionista não pode aceitar a Biologia porque ela invalida sua crença na inerrância do livro sagrado. A atitude dos que rejeitam as «Ciências Sociais» enquanto ciên­cias é mais matizada, havendo os que o fazem por serem adeptos de uma crença ingênua na objeti­vi­dade científica, os que o fazem por seguirem uma ideologia política direitista e os que o fazem por uma interpretação utilitarista do conhecimento. Para os primeiros, as inter­pretações feitas pelos cientistas sociais não são científicas porque procuram ir além dos dados; para os segundos, as ciências sociais são «comunistas» (ou algo assim) porque criticam o capitalismo, a sociedade de classes e os construtos ideológicos nos quais se assenta a ideologia predominante e difundida pelos meios de comunicação de massa; para os terceiros as Ciências Sociais não são ciência porque não podem criar nem explodir coisas.

    Por mais ofensiva que esta analogia seja (afinal, nem mesmo os criacionistas aceitam mais serem chamados de criacionistas, tendo desenvolvido todo um sistema de argumentação em torno do conceito do desígnio inteligente a fim de não terem que afirmar abertamente suas motivações religiosas), é necessário apresentá-la, para que os envolvidos percebam que não se pode, a priori, negar a legitimidade de um ramo do conhecimento apenas porque não concordamos com seus postulados. Espero que este artigo tenha contribuído com algo neste sentido.