O Dilema da Grécia

O que mais se tem dito, com um «moralismo monetário» de dar nojo, é que a Grécia está a cometer uma espécie e de crime, como se cada grego do mundo estivesse «roubando» de outros aquilo que seu país não tem mais conseguido pagar (e que aparentemente não mais pagará). A hipocrisia é uma homenagem envergonhada que o vício presta à virtude, como disse La Rochefoucauld, mas a falsa analogia é a homenagem que a estupidez faz à racionalidade.

Relações internacionais não são pautadas pelo moralismo. Países não são pessoas. As relações que concebemos entre indivíduos não podem ser estendidas automaticamente às alianças entre nações. Crimes, como «roubo», são definidos pelos estados segundo leis que devem ser obedecidas por seus cidadãos. Tão relativo é o conceito de crime que é frequente que o mesmo ato, tolerado em um lugar, seja severamente punido em outro — e vice-versa. Se as nacionalidades, tomadas em seu coletivo, podem cometer «crimes» (tal como sugeriu Euclides da Cunha), estes não são análogos aos crimes que as pessoas cometem, justamente porque o marco legal que os define é outro. Devemos, pois, deixar de lado todo moralismo pedestre ao analisarmos o caso da Grécia, pois não estamos a falar de alguém que tomou a bolsa de uma velhinha. Nem a Grécia é um punguista e nem os seus credores são uma inocente senhora. Malcolm X disse, com alguma propriedade, que, se não prestarmos atenção, os meios de comunicação podem nos fazer amar ao opressor e detestar ao oprimido. Ponha-se de lado tudo o mais que Malcolm X disse e fez, por esta frase ele já merece ser lembrado, pois é evidentemente assim que as coisas se dão — o caso da Grécia é apenas um exemplo.

A dívida de um país não é como a dívida assumida por um indivíduo. Existem diversas diferenças e pouquíssimas semelhanças. Para começar, a dívida do indivíduo é pessoal, geralmente fruto de um ato de sua vontade, enquanto a dívida nacional é impessoal, fruto de uma política adotada por um governante eleito que apenas supostamente expressa a vontade do povo. Digo que apenas «supostamente» porque é impossível que o povo saiba tudo o que faz o seu governo (se soubesse, como disse Bismarck, não haveria governo) e, ainda que saiba e consinta, é impossível que a tudo entenda e preveja. A maioria das pessoas já tem alguma dificuldade para gerir a própria vida e não reserva muito tempo para pensar «grande» nos destinos do país. Em vez disso, confiam estas decisões aos seus líderes, eleitos ou não, limitando-se a acompanhar, muito mal e porcamente, e a manifestar-se, periodicamente, nas eleições, a respeito do trabalho que se faz. A democracia representativa pode, muito facilmente, conduzir o povo à alienação — e os políticos, de todas as cores ideológicas, se comprazem nisso porque lhes é conveniente que o povo saiba pouco. Um povo que pouco sabe e pouco entende é um povo cujo voto pode ser conquistado com pouco esforço (embora se possa requerer um custo alto, ainda assim).

Se a dívida nacional é fruto da vontade de um governo — que pode expressar a vontade da maioria do povo, mas nunca representa o entendimento e o consentimento bem informado desta mesma maioria — e da liberalidade do emprestador, resulta que não pode existir quanto a ela o mesmo grau de responsabilidade pessoal que existe na dívida que você, leitor, contrai com o banco para comprar um novo televisor em prestações mensais.

Especialmente porque a dívida nem sempre resulta em benefício ao povo. Nos anos oitenta era voz corrente cá na América Latina que as dívidas do chamado «Terceiro Mundo» deveriam ser auditadas. Dizia-se isso porque as pessoas bem-informadas sabiam que boa parte dos recursos emprestados (e transformados em dívida nacional) nunca, de fato, chegavam cá, mas eram desviados no meio do caminho e retornavam aos mesmos países emprestadores (ou a outros) na forma de «contas secretas» em nome de chefes de estado corruptos ou seus apaniguados.

Até as pedras de Zurique sabem que a prosperidade helvética se construiu com as fortunas depositadas de boa gente como Mobutu Sese Seko, Papa Doc, Idi Amin Dadá, Joaquín Balaguer e uma multidão de outros tiranos corruptos da África e da América. Condenar os povos do Terceiro Mundo a pagar estas dívidas é uma injustiça suprema. É como condenar você, leitor, a pagar a conta do seu cartão de crédito que foi fraudado.

No mundo das finanças pessoais existem inúmeras formas de proteção do indivíduo. Se o seu cartão de crédito for fraudado você será ressarcido pelo banco emissor. Se não puder pagar seus empréstimos, poderá renegociá-los (frequentemente a taxas mais baixas e com prazos maiores). Se em último caso inadimplir e nunca pagar, terá caducados os seus registros negativos de crédito após cinco anos e poderá voltar a atuar. Todas estas salvaguardas (e outras que nem lembro) existem para que o indivíduo não seja condenado a arrastar miseravelmente até o fim de sua vida uma dívida impagável. Elas não existem para que você não pague, mas para que os bancos se lembrem de lhe dar crédito em condições razoáveis, ou você fica inadimplente e eles perdem, não só o dinheiro emprestado, mas também o cliente. Nenhuma destas salvaguardas existem para os países.

Se uma nação se endivida, mesmo que seja mediante a fraude de um governo corrupto, ditatorial, impopular ou pouco transparente, a dívida deve ser paga. As renegociações nunca são a taxas mais baixas e prazos maiores simultaneamente. Diferentemente das finanças pessoais, os credores dos países se arvoram ao direito de entrar em sua casa, fazê-lo desligar alguns eletrodomésticos, obrigá-lo a vender objetos de valor (pelo preço que eles decidem, não pelo que você venderia) e ainda o obrigam a trabalhar horas extras, mesmo que o seu patrão não as pague.

Basicamente é o que ocorre quando o FMI, o Banco Mundial e outras instituições «inspecionam» as finanças de um país, obrigam-no a desativar programas sociais, vender empresas estatais ou patrimônios públicos, aumentar os impostos, baixar investimentos etc. E tais medidas devem ser seguidas à risca, mesmo não dando resultado, assim como o agiota o obrigaria a trabalhar mais para pagar as prestações, mesmo que você não receba as horas extras.

Uma nação endividada perde a sua soberania. E não importa como se endividou. Em alguns casos sequer importa «quanto» se endividou. O que importa é se consegue repagar os empréstimos feitos. Mas este repagamento não significa que o país está saudável, porque se os credores quiserem eles podem emprestar dinheiro para pagar as dívidas anteriores, mantendo a bicicleta a rodar. Um país se torna inadimplente, muitas vezes, apenas porque os credores decidiram que ele deve se tornar inadimplente.

Enquanto os credores ainda não decidiram que o país deve inadimplir, ele terá acesso fácil ao crédito e poderá acumular um nível de endividamento inimaginável para uma pessoa física. A Grécia, por exemplo, deve 180% do PIB. Isso é o mesmo que uma pessoa que recebe R$ 60.000,00 por ano ter uma dívida de R$ 108.000,00. Não parece muito (na verdade, se você fez financiamento imobiliário este deve ser o patamar de endividamento que você tem agora, desconsiderando seu patrimônio como fonte potencial de receita em caso de venda). De fato não é muito.

Um endividamento de 180% do PIB é menor, por exemplo, do que o endividamento do Japão. Não me consta que o Japão esteja inadimplente com seus compromissos ou que os credores temam uma bancarrota nipônica iminente. Os fatores que explicam a crise grega são outros. A Grécia está em crise, e finalmente inadimpliu, porque, à parte o seu endividamento, o país está há quase uma década em recessão. Se a economia estivesse crescendo normalmente, a Grécia poderia fazer algumas reformas estruturais, gerar superavit e continuar pagando a dívida até extingui-la, dentro de décadas ou séculos. Mas a agudização da recessão levou o país ao deficit, a má gestão econômica agravou isso e o FMI, com sua receita de desastre, determinou o desfecho ao obrigar a Grécia a fazer exatamente tudo que deprime a economia em vez de fazê-la crescer.

O FMI é o médico que receita o mesmo remédio para todos os pacientes e, mesmo vendo-os sempre morrer, continua acreditando na cura e culpando os falecidos por o remédio não ter funcionado com eles.

A receita do FMI para a Grécia foi a mesma que causou a «década perdida» da América Latina. A diferença é que a Grécia é menor, menos populosa e tem menos recursos naturais do que os países latino-americanos. A Grécia não tem como gerar superavit exportando produtos primários porque tem uma economia subdesenvolvida e limitada ao setor de serviços (turismo e navegação). Todo o resto da economia grega tem pequena importância relativa ao PIB. A economia grega é extremamente vulnerável à «confiança» externa porque de fato não possui nenhuma commoditie significativa para oferecer e nem se industrializou como uma Coreia do Sul ou uma Taiwan.

O que está acontecendo na Grécia não é, portanto, um caso análogo ao batedor de carteiras roubando a velhinha. A menos que a velhinha seja a Grécia e o batedor de carteiras seja o sistema financeiro internacional.

Os gregos não têm nenhuma falha moral, não estão «roubando» nada aos demais países do mundo, mesmo porque não foi aos cidadãos desses países que os gregos andaram a pagar suas dívidas, mas a um grupo pequeno de grandes empresas financeiras e seus controladores.

O caso da Grécia se parece mais com o do sujeito que se endividou com o agiota e, não tendo como pagar, teve as pernas quebradas por um capanga e ainda assim tem de trabalhar para pagar, ou terá os braços quebrados também. O que estamos vendo na Grécia não é um país que não honra seus compromissos, mas um país que decidiu que a dívida, por mais que se deva pagar, é uma preocupação posterior. Na hierarquia de necessidades, nesse momento salvar o país é mais importante do que pagar a dívida.

Nos anos 1980 o ditador Nicolae Ceausescu decidiu pagar a íntegra de sua dívida com o FMI através de um esforço de exportação agrícola e industrial combinado com redução de salários e racionamento de bens de necessidade, como carvão para calefação. Milhares de pessoas morreram de fome ou de frio na Romênia durante anos. Mas a dívida foi paga. Afinal, era o que os romenos deviam fazer, pois «eles» haviam contraído aquela dívida e era seu dever moral pagar. Não é mesmo?

Quinta Coluna em Festa: Morreu o Líder Simbólico da Autonomia Latinoamericana

Desde imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial, mas muito mais intensamente depois que o Brasil entrou no conflito contra o Eixo, era costume nossa imprensa chamar de «quinta coluna» o conjunto dos simpatizantes do inimigo que existiam no seio de nossa própria sociedade. Inicialmente o texto tinha um cunho ideológico, e se referia, por exemplo, aos integralistas (cuja ideologia tinha muitos pontos de contato com o fascismo), mas logo adquiriu um teor racista, servindo para atacar os imigrantes alemães, austríacos, italianos e japoneses, bem como seus descendentes. A quinta coluna era temida pela sua capacidade de «atacar de dentro» no caso de início de hostilidades, mas também pelo potencial de incapacitarem o país, seja sabotando suas forças armadas, seja paralisando seu processo político rumo a uma «neutralidade» útil ao inimigo.

A origem do termo não é nobre. Foi cunhado pelo general falangista Emilio Mola, que lutava contra o governo republicano durante a triste Guerra Civil Espanhola. Mola afirmou à imprensa que a marcha de suas quatro colunas de soldados sobre Madrid seria facilitada pela atuação de uma quinta coluna, formada por simpatizantes civis localizados na cidade. De fato Madrid caiu rapidamente, obrigando o governo republicano a refugiar-se em Barcelona na fase final da guerra.


No Brasil o termo passou a ser menos usado após a redemocratização porque durante um longo período de tempo uma outra encarnação da quinta coluna existiu e atuou entre nós de forma contínua, estendendo-se até os dias de hoje: o conjunto dos assalariados e dos simpatizantes da principal potência mundial do século XX. Interessada em limitar a autonomia dos países que reivindicava como sua zona de influência, esta potência patrocinou não dezenas, mas centenas de golpes de estado e regimes de exceção. Entre os países do hemisfério ocidental, somente o Canadá as colônias europeias remanescentes escaparam da sanha golpista dos Estados Unidos.

Alguns regimes patrocinados por Washington foram especialmente odiosos, como a ditadura guatemalteca implantada em 1954 para impedir uma reforma agrária que afetaria o suprimento de banana ao mercado americano e que teve como resultado uma guerra civil com centenas de milhares de mortos e um regime que permitiu a inoculação proposital com sífilis e outras doenças de milhares de crianças, que viveram vidas miseráveis em consequência. Algum dia a História mencionará este episódio com o mesmo horror com que menciona os massacres promovidos pelos conquistadores espanhóis ou, séculos antes, pelos romanos contra os dácios.

Outros regimes amigos dos americanos ficaram famosos por suas demonstrações ostensivas de ódio aos símbolos da cultura e da democracia, como a ditadura chilena, que executou o cantor Víctor Jara como um espetáculo num estádio de futebol, diante de dezenas de milhares de opositores presos que esperavam sua vez, e cujo chefe posou de óculos escuros, uniforme militar e botas de cano alto, com os pés sobre a mesa do escritório da presidência.

Estas interferências sobre a América Latina sempre foram favorecidas pela presença de uma quinta coluna integrada por simpatizantes ingênuos, enganados pelos valores da Revolução Americana, ou elites que se locupletam às custas do povo, em conluio com o grande capital. Isto não é ideologia, é História. E nem é História marxista: a maior parte dela foi escrita por autores americanos. Se você duvida, só lamento sua ignorância. Vá estudar.

Esta história de subjugação de todas os projetos nacionais latino americanos começa ainda no século XIX, quando foi importante a contribuição da diplomacia americana para a dissolução da República Federativa da América Central, inspirada na Argentina (daí as cores azul e branca das bandeiras da maioria dos países resultantes de sua dissolução) e com capital inicialmente na Guatemala, posteriormente em São Salvador. Correu ao longo de mais de 150 anos, perpetuando a dependência econômica e tecnológica destas nações, que já enfrentavam sérios problemas de identidade nacional e pobreza.

 A corrupção natural destes países herdeiros de um tipo perverso de colonização aliou-se aos interesses do poder hegemônico no hemisfério, impedindo que as limitações originais fossem rompidas, mantendo um status quo de exclusão da maioria do povo, sem esperança de melhora. Líderes nacionais legítimos, inspirados no interesse de trazer progresso e liberdade para seus compatriotas, sempre morreram nas mãos de forças militares aliadas aos Estados Unidos, quando não pagas, armadas, treinadas e inspiradas em centros de formação como a Escola das Américas, na Zona do Canal do Panamá.

Alguns destes líderes são particularmente emblemáticos, como os principais líderes da Revolução Mexicana (Francisco Madero, Pancho Villa, Venustiano Carranza e Emiliano Zapata) e Augusto Sandino, porque sua luta sempre foi nacionalista, jamais comunista ou avessa à ordem internacional. Era natural que um homem como Sandino se revoltasse contra a ocupação estrangeira do território de sua pátria da mesma forma como a Resistência francesa contra a invasão nazista ou os irlandeses na Revolta da Páscoa. Mas ele foi morto por uma “Guarda Nacional” a soldo de uma elite vendida aos interesses estrangeiros, e o mandante do crime logo se tornou o “presidente” de mais um regime amigo, a cruel ditadura da família Somoza. E essa foi a tônica da reação ao nacionalismo latino americano: tachado de banditismo por um critério praticamente racista, negador do direito do povo à autodeterminação no quintal da superpotência.

A dificuldade da via popular revolucionária, exceto por fatos isolados, como a Revolução Cubana, abriu espaço para os regimes reformistas, que tentaram implantar de cima para baixo a libertação econômica e social. Um dos primeiros exemplos, em uma época na qual os EUA ainda não projetavam tanto a sua sombra sobre o continente, foi Hipólito Yrigoyen, fundador de um partido que existe até hoje e de uma estabilidade que levou a Argentina a um status de país quase desenvolvido. Posteriormente esta figura, originalmente associada ao caudilhismo platino, se transformou no presidente “populista” encarnado por figuras como Getúlio Vargas, Juan Domingo Perón, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Juan Velasco Alvarado, Omar Torrijos-Herrera e outros.

O populismo era uma tentativa de produzir efeitos positivos para a nação de uma maneira controlada, sem recair em uma revolução aberta, que atrairia a imediata ira americana. Populistas implantavam reformas cautelosas, com o cuidado de não ameaçar frontalmente o status quo. Estas reformas, por sua timidez, não eram suficientes para atiçar uma vingança ianque de seus interesses negados, mas por alcançarem tímidas mudanças no equilíbrio de poder no nível local, criavam forte rejeição nos setores elitistas, a tal quinta coluna sempre a serviço do imperialismo norte americano, que muitas vezes pediram (e muitas vezes obtiveram) o apoio dos EUA para iniciativas locais de mudança de regime. Um dos bons exemplos disso pode ser encontrado na sucessão de eventos que desembocaram no golpe militar brasileiro de 1964.

A Era das Ditaduras Militares — o período da história latino americana entre 1954 e 1990, caracterizado pela simultaneidade de diversos governos liderados por forças armadas conservadoras muito influenciadas por doutrina americana — terminou com a transferência do poder para anêmicos regimes civis, que tiveram de enfrentar a pesada herança deixada pelas ditaduras: o legado da violência institucional e a deterioração econômica como resultado da subjugação do interesse nacional ao que mais tarde se chamou de “Consenso de Washington”, criado na esteira do thatcherismo e das políticas neoconservadoras republicanas implementadas por Ronald Reagan nos EUA. Por causa da “crise da dívida” (causada pelo endividamento irresponsável das ditaduras), esses regimes civis, invariavelmente, tentaram levar às últimas consequências o receituário liberal de abertura de sua economia aos interesses americanos (ou até ao favorecimento do estrangeiro em detrimento do nacional), produzindo desastrosas consequências desestabilizantes. Isto levou a conflitos sangrentos, como o Caracaço de 1989 (revolta dos venezuelanos contra o presidente Carlos Andrés Pérez) ou os distúrbios da Argentina ao longo dos anos 1990, até o governo Kirchner.

O fracasso do neoliberalismo é fruto de seu sucesso: ao conseguir implementar, no todo ou na maior parte, aquilo que era preconizado pelo Departamento de Estado americano e pelos órgãos “multilaterais” (como o FMI, o Banco Mundial e a OEA) onde imperava a vontade dos EUA, esses regimes levaram seus países a becos sem saída, de onde não era mais possível avançar e as elites locais não admitiam nenhum recuo. Esta situação produziu, em alguns lugares, os distúrbios sociais de que a década de 1990 foi pródiga. Isto produziu uma polarização política nunca antes vista, mesmo em países onde nunca estourou uma violência política aberta (caso do Brasil), fenômeno que se desenvolveu em ritmo diferente em cada país.

A instabilidade foi marcante em países como o Equador (que teve mais de uma dezena de presidentes a partir de 1990) e a Argentina (que chegou a decretar uma moratória unilateral da dívida externa), mas não deixou de afetar os países tradicionalmente moderados, como o Brasil (que sofreu com o aumento da pobreza, a ocorrência de apagões e a perda de infraestrutura por desinvestimento após privatizações mal dirigidas durante o governo FHC).

Nesse contexto, a emergência de lideranças populares democráticas (que, diferentemente dos caudilhos e da maioria dos presidentes populistas do passado, derivaram seu poder de eleições livres) representa o maior fato novo na história latino americana desde o início da hegemonia americana sobre o continente, consolidada no final do século XIX. Hugo Chávez foi o pioneiro, ao se erguer sobre a insatisfação difusa do povo contra medidas econômicas duras e ineficazes, tomadas por pressão americana. Seu “populismo” consistiu, basicamente, em ouvir o povo e tentar dar-lhe voz, coisa que os seguros presidentes não populistas tentavam evitar fazer. Na visão direitista, sempre hegemônica na América, do extremo norte ao extremo sul, o povo não sabe o que quer, não deve ser ouvido e o seu benefício, caso sobrevenha, deverá ser apenas o inevitável efeito colateral do crescimento geral do “bolo” da economia (cujas fatias mais largas são concentradas em poucas mãos). Qualquer tentativa de governar para o povo merece um rótulo depreciativo, que, dependendo do reacionarismo da fonte, variará de “populismo a “comunismo, passando por “demagogia” e “socialismo”, incluindo sobrenomes como “irresponsável”, “arcaico”, “irrelevante”, “autoritário”, “ditatorial”, “atrasado” etc.

É difícil imaginar o surgimento de governos populares democráticos, como os de Lula, no Brasil, de Kirchner, na Argentina, de Vázquez, no Uruguai, de Lugo, no Paraguai, de Morales, na Bolívia, de Toledo, no Peru, de Correa, no Equador e até mesmo de Ortega, na Nicarágua e de Zelaya em Honduras, sem ter em mente o sucesso eleitoral de Hugo Chávez (desde que obteve metaforicamente a cabeça de Pérez, através de seu impeachment). Chavez foi a vanguarda, foi quem tateou os caminhos, quem tentou primeiro. Foi o primeiro a dizer “não” aos Estados Unidos e sobreviver ao golpe inevitável, que sempre sobrevém aos tão ousados (sobreveio a Correa, a Morales, a Lugo e a Zelaya, sendo que os últimos dois não conseguiram resistir). Montado na mídia, que manipulou como poucos, demonstrando rara capacidade para entendê-la, construiu uma figura semimitológica e obteve, através de suas reformas cada vez mais inclinadas ao socialismo, um alto grau de aprovação popular. Tudo isso, principalmente o fato de ter servido de modelo e inspiração para vários outros líderes latino americanos, justificaram a ira de sucessivos governos ianques contra si e seu governo.

Foi acusado de todos os adjetivos normalmente empregados pela direita, desde os mais antigos: caudilho, populista, ditador, comunista. Em seus momentos de maior ira, seus inimigos chegaram a atirar-lhe insultos raciais (em alusão ao fato de ser mestiço com sangue indígena e negro) e nunca cessaram de torcer por sua morte (que, no entanto, não tiveram a ousadia de providenciar durante os dois dias em que o tiveram sob seu poder, durante o golpe de 2002). O diagnóstico de câncer foi festejado por todas as elites do continente. Sua sincronicidade com a ocorrência de outros casos, como os de Lula, Kirchner, Lugo e Morales (e também da então ministra Dilma Rousseff) motivaram uma acusação de que talvez o serviço secreto americano estivesse por trás disso, de alguma forma. Acusação improvável, mas não exatamente absurda, tendo em vista casos recentes e comprovados de envenenamento por causas políticas envolvendo o ex presidente ucraniano Viktor Yushenko e o dissidente político russo Aleksandr Litvnenko.

Na sua luta desigual contra o golias do norte, Chávez cometeu equívocos os mais diversos, mas teve dois grandes sucessos: produziu mudanças duradouras no sistema político venezuelano, que não poderão ser revertidas integralmente por nenhum futuro governo, e inspirou casos análogos em diversos países vizinhos. Países que darão sustentáculo ideológico e econômico ao seu sucessor, impedindo que o boicote estadunidense impossibilite a continuidade. Chávez sai da vida para entrar para a História, tal como outros antes dele: a glória do nome dos que se levantam em nome do povo costuma durar mais do que a infâmia dos quinta colunas, que lambem os coturnos da potência estrangeira que os despreza (os presidentes haitianos não podiam frequentar os clubes mantidos em Porto Príncipe pelos embaixadores e militares americanos, pois não eram brancos). Existirá futuramente um “chavismo”, tal como existem o “varguismo”, o “peronismo” e outros ismos oriundos de figuras populistas do passado.

Os que celebram hoje sua morte se esquecem de que as ideias não morrem junto com os homens que as preconizam. Sopram ventos de mudança ao sul do Río Grande, a antiga potência já não consegue controlar tão bem o seu quintal. Os povos latino americanos estão começando a acordar de seu medo ancestral, não temem mais que sua reivindicação de justiça seja respondida por um recrudescimento da injustiça. Reformas foram feitas pela via democrática, legitimando-as perante a comunidade internacional e removendo a desculpa para a intervenção.  Antigas desavenças foram superadas e países antes adversários passaram a cooperar, mesmo que, em alguns casos, houvesse a necessidade de transigir, como o Brasil transigiu perante a Bolívia e a Argentina e como o Equador transigiu perante o Peru. Existe uma oportunidade real de mudança, que pode trazer, em um futuro não muito distante, um maior grau de autonomia, civismo e prosperidade para os que não são brancos o suficiente para nadarem na piscina do colonialismo light que impera desde o fim da II Guerra.

Quando isso acontecer, a memória de Chávez terá a estatura de um Bolívar. Não custa lembrar que o homem que inventou a liberdade da América crioula também foi traído por quinta colunas. Morreu no exílio uma morte celebrada pelos que detestavam a liberdade. Mas seu nome paira como uma sombra acima da América do Sul, como um ideal que não morre. Agora que Chávez morreu, ele se tornou imortal: ninguém jamais matará o mito.

Radicalismo Anarcomiguxo: o Sonho da Soberania Individual

Você talvez nunca tenha ouvido a expressão “homem livre na terra”, nem sua formulação original em inglês (free man of the earth), mas se acompanha este blogue e outros que estudam o fenômeno anarcomiguxo já deve ter uma compreensão instintiva do assunto que abordo hoje: a aspiração, não, o sonho de abandonar a sociedade corrupta e viver em liberdade, fora de seus limites. Sente-se e relaxe, você está de novo embarcando rumo aos abismos da argumentação libertária. Vem comigo!

Para o libertário, não há coação mais intolerável do que a exigência de responsabilidade social. Não, eles não usam esses termos porque não admitem isso, eles os disfarçam de outras formas. Eles falam na “obrigação de ser solidário” ou na “imposição da culpa pela desigualdade”, entre outros termos mais pedantes. Em essência, eles acham inaceitável que a sociedade espere que um indivíduo faça algo por alguém que não é seu próximo. Mais adiante falaremos sobre essa questão de definir quem é o próximo.

Fazer algo por alguém que não é o meu próximo significa usar recursos obtidos de mim (impostos, por exemplo) e levá-los a outro lugar, sem o meu controle. Isso cria oportunidades de corrupção (na concepção libertária a única função do estado é roubar do povo o dinheiro dos impostos, todo o resto ele só faz, e o faz mal, para manter a fachada) e de desperdício (da mesma forma, o estado é ineficiente, inepto, incompetente e feio). A coação está em exigir os meus impostos com a desculpa de que eles serão usados em benefícios de pessoas que eu nem conheço. Como o libertário se insurge contra o imposto como símbolo do Mal, ele precisa deslegitimar a “desculpa” com a qual o Estado justifica a sua cobrança: o benefício à “sociedade” (ou seja, o conjunto das pessoas que eu não conheço, mas que usufruem de serviços e benefícios pelos quais eu pago).

Anarcomiguxos implorando que capitalismo os liberte da opressão de suas responsabilidades de cidadãos.


O passo lógico é, então, erigir o individualismo como uma espécie de ética alternativa à moral cristã (e marxista), segundo a qual “todos os que vivem são o meu próximo”, e ao contratualismo, para o qual o Estado é uma criação necessária dos indivíduos em seu próprio interesse — santificando o indivíduo e seus interesses, negando o conceito de “cidadão” (etimologicamente, alguém que “pertence” à cidade-estado). Em suma, porque o libertário não quer pagar impostos ele deseja que seja abolido tudo aquilo que “consome recursos do Estado” e que não seja minimamente necessário. Dependendo de como você define o “minimamente necessário”, não há controvérsia. Ocorre que, enquanto a maioria dos cidadãos acha necessário existir um sistema educacional, um exército, um sistema público de saúde, um programa público de previdência social, entre outras coisas. Para os libertários nada disso é necessário, só a manutenção da ordem pública através da polícia. Todo o resto deveria ser pago pelos próprios indivíduos, recorrendo aos serviços que fossem estabelecidos por empresários interessados em explorar o mercado.

É claro que este conceito, acima expresso em linhas cruas e toscas, comporta mais do que o mero egoísmo, mas assenta-se nele gorda e preguiçosamente. A rejeição da responsabilidade social é uma rejeição da culpa. Não quero que me recriminem por eu não me importar com o mendigo que morre de fome à minha porta. Quero que a polícia o varra como se ele fosse um monte de folhas que enfeia a minha calçada. Em sua essência, o libertarianismo, ao se dizer contra a “coação” praticada pelo Estado em nome do benefício alheio, está de fato se pondo contra a cobrança de uma atitude cidadã perante os problemas de outros cidadãos. É por isso que eu não uso o termo “cidadão” para se referir aos anarcomiguxos: eles não o são. Ao rejeitarem a responsabilidade que devem ter para com a sociedade, eles almejam isolar-se enquanto indivíduos, reduzem-se a consumidores de serviços. Imaginar que as pessoas pensem espontaneamente assim é surral, faz-me lembrar um verso do Pink Floyd, em Wish You Were Here: Você trocou sua marcha com o pelotão rumo à guerra, por um papel principal numa gaiola? Essas pessoas, por não quererem a responsabilidade de trabalhar pelo bem comum, querem reduzir-se consumidores de serviços providos pelo grande capital?

Como sabem que não conseguirão realizar seu intento no seio da sociedade (pelo menos não nas atuais circunstâncias, mas se o nível geral de consumo de leite de pera e ovomaltine continuar subindo é possível que consigam); os anarcomiguxos desenvolveram uma ideia mirabolante, provavelmente inspirada em overdoses de cremogema com refrigerante energético: seasteading. Criado por analogia com “homestead”, obscuro termo que, na tradição americana, significa algo como o território do núcleo familiar; esse conceito pressupõe a colonização do mar pelos anarcomiguxos, criando em plataformas marítimas ou ilhas artificiais o seu paraíso sem leis.

Deixando à parte o absurdo da ideia, vemos sua impraticidade: todas as tentativas de seasteading fracassaram, ou porque foram neutralizadas, ou porque nunca foram mais do que piadas de mau gosto. Suponhamos, porém, que nenhuma nação próxima tente anexar a ilha ou plataforma, nem interfira em seu funcionamento em “águas internacionais” (mais sobre isso ao final), como poderia tal entidade subsistir?

A menos que os colonos de tal território lá chegassem levando uma grande população e toda a estrutura necessária para implantar uma economia autossuficiente, da agricultura à indústria electrotécnica, seria essencial manter comércio com os estados vizinhos e distantes. Tal comércio nos levaria a um dilema ético: essas colônias de individualistas não estariam, então, parasitando as sociedades que rejeitaram, ao usufruir de bens e serviços que elas produzem, sem participar de sua construção com o seu trabalho e com os seus impostos?

Não me refiro aqui a parasitismo no sentido ético, mas no sentido econômico. Se o anarcomiguxo estabelece seu país de brinquedo para ser totalmente livre da opressão do Estado, e se esse país de brinquedo só consegue se manter recorrendo a produtos e serviços oferecidos pelos estados opressores, então que tipo de liberdade é esse? Parece-me evidente que não é liberdade essa relação de dependência unilateral (evidentemente os estados continuarão a existir, mesmo sem os desertores, mas a sua colônia só pode existir mediante trocas com os estados que os oprimiam). Se só uma parte precisa da outra, a utilização de bens e serviços pela colônia anarcomiguxa configura parasitismo (ainda que pouco relevante). Tal parasitismo se torna maior se pessoas e entidades existentes no seio do Estado apoiarem economicamente o empreendimento, mesmo sem emigrarem para lá: tais pessoas desviam para fora de sua sociedade recursos nela gerados, e o fazem com o objetivo de eventualmente destruírem a sociedade. É fácil ver que uma tal situação rapidamente resultaria numa ação repressiva do Estado contra a colônia anarcomiguxa (pela falta de outras razões, econômicas e políticas, pelo menos para ficar livre do incômodo de uma colônia de loucos à deriva no mar).

Enquanto discutia isso com um anarcomiguxo, “lamentei” ironicamente que a civilização tenha abrangido toda a terra e que não exista mais, como na Antiguidade, o grande vazio além muros ou além fronteiras, para onde os renegados poderiam fugir e viver em total liberdade. Disse-o com fins satíricos, mas o meu interlocutor afirmou-o deveras: seria melhor, na opinião dele, se a sociedade fosse restrita a territórios localizados, de forma que fosse possível fugir para os vazios e ali viver em liberdade.

Imagino quantas horas esse meu interlocutor viveria perambulando sozinho pelos desertos, entre os animais e entre os bandos de salteadores. Essa gente lê manuais de RPG demais, acha que o mundo é fácil.


Notas de fim

  • Quem é o próximo? — O anarcomiguxismo recorre a Ayn Rand, que por sua vez recorria à Nietzsche, para atacar como um moralismo cristão vazio essa preocupação social. Mas esta noção de empatia com os demais indivíduos é exclusivamente cristã e é mesmo um falso moralismo?

Não é segredo para ninguém que estude religiões comparadas que a mesma formulação usada por Jesus Cristo nos evangelhos foi empregada por Buda e por Zaratustra. Conceitos similares permeiam o confucionismo. Isso porque a “regra de ouro” não é um produto específico de uma cultura ou religião, mas parte do sistema ético de todas as civilizações, ainda que relativizada ou adaptada conforme as circunstâncias.

  • Águas internacionais — O típico anarcomiguxo acredita que há uma convenção escrita em pedra segundo a qual aquilo que esteja fora do mar territorial dos países está igualmente fora de seu alcance legal e que, adicionalmente, nenhum estado se importa com o que seja feito lá. Isto está longe de ser verdade. Por várias razões.

A primeira e mais importante razão é que, em muitos casos, as águas só são internacionais porque não há nada lá. Águas territoriais são estabelecidas com base em direitos territoriais sobre terra mesmo. E um lugar onde não há terra é um lugar onde não se pode estabelecer nenhuma base fixa duradoura. É um lugar de onde, na visão dos países, não poderá vir nenhuma ameaça consistente. As coisas mudam radicalmente de figura quando alguma terra (ou coisa parecida) surge ali. Grã Bretanha e Islândia já estiveram em estado de quase guerra porque uma ilhota vulcânica chamada Surtsey teria estendido o mar territorial islandês para uma região onde os britânicos costumavam pescar. Felizmente (ou não) a ilhota se dissolveu no mar e os dois países entraram num acordo. Da mesma forma, Tonga não ficou feliz com a perspectiva de um novo assentamento em uma região desabitada tão próxima do vizinho arquipélago de Fiji, que poderia motivar o expansionismo fijiano por ali. Depois de prender e expulsar os colonos da República de Minerva, o governo tonganês dinamitou o lugar. Esses exemplos mostram que uma mudança material na existência de territórios em certo trecho de mar induz a acomodações nas relações entre os países, mesmo que tais territórios estejam fora do seu mar territorial.

    Redistribuição de Renda "for Dummies"

    Certos conceitos são melhor entendidos quando transportados do terreno vago da terminologia para a solidez do dia a dia. Um exemplo é a tal “redistribuição de renda” de que tantos políticos falam, e que tanta gente é contra ou a favor sem nem saber o que é. Tentarei demonstrar como isso funciona usando como exemplo uma recente campanha no Facebook contra um supermercado de minha cidade natal que passou a cobrar pelas entregas em domicílio. Segundo a campanha, a cobrança seria desta forma:

    • R$ 6,00 por entregas no “centro da cidade”,
    • R$ 10,00 por entregas em “bairros próximos”,
    • R$ 15,00 por entregas em “bairros distantes”.
    As aspas foram empregadas porque, sendo Cataguases uma cidade de meros 70 mil habitantes, os conceitos de “centro”, “bairros” e “distante” terão um significado muito diferente do que têm para um habitante de metrópole. Existem “bairros” (como o BNH ou a Vila Domingos Lopes) que estão mais próximos da loja do supermercado em questão do que certas áreas do “centro” que, aliás, não mede mais que um quilômetro de um lado a outro. Certos distritos (fora do perímetro urbano) são também mais próximos da loja do que certos “bairros distantes”. Enfim, os conceitos são vagos o suficiente para haver interpretações contraditórias.

    O supermercado em questão possui um enorme estacionamento próprio e não cobra taxa de quem compre a partir de certo valor (se não me engano R$ 30,00). Combine este fato com a recente cobrança por entregas em domicílio e podemos entender disso que se está estimulando o uso do automóvel em detrimento do ônibus, da bicicleta ou da sola do sapato. 

    O que este supermercado está fazendo é uma discriminação contra o pobre. A mensagem passada é que ele não quer ter clientes “pedestres” porque estes, em sua  maioria, são os que não têm condição de ter carro. Certa vez uma famosa loja de luxo paulista, a Daslu, construiu uma sede que só era acessível através do estacionamento, que cobrava R$ 100,00 por hora. Obviamente a Daslu, hoje falida, queria que pobre passasse longe. O supermercado cataguasense também parece que quer o pobre longe, comprando no mercadinho de bairro. Como não pode pôr na porta um aviso de que está “proibida a entrada de pobre”, o supermercado resolve penalizar com uma taxa as entregas das compras de quem não tem condição de levar de carro. Observe que a taxa é significativamente maior para “bairros distantes” (definidos de uma forma vaga). Com R$ 15,00 o pobre poderia comprar 10 kg de arroz, por exemplo. Difícil esperar que alguém troque tanta comida pelo conforto de receber as compras em casa.

    Alguns de meus leitores; especialmente anarcomiguxos, escroques individualistas e antissociais em geral; reclamarão desta postagem dizendo que o supermercado está certo, porque o custo da entrega era embutido na margem de lucro e que, ao cobrar à parte, o preço das mercadorias poderá ser reduzido. “Não é justo que todos os fregueses fiquem pagando mais caro,  mesmo quando levam eles mesmos suas compras, para os que usam o serviço de entrega em domicílio” — dirão eles, ingenuamente acreditando que a redução de custos será transformada em redução de preços. Aqui temos, então, o conceito de redistribuição de renda sendo discutido, sutilmente.

    Uma política de redistribuição de renda significa, entre outras coisas, que os bens, serviços e impostos são mais baratos para quem ganha menos e mais caros para quem ganha mais, a fim de facilitar o acesso a esses bens e serviços por pessoas que ganham menos. Redistribuição de renda é você fazer por cinco reais o preço do prato feito para aquele mendigo esfomeado que chega com uma nota amarrotada de cinco paus, mesmo que você esteja cobrando oito dos clientes normais. Redistribuição de renda é não cobrar a entrega das compras dos pobres, embutindo o custo nas mercadorias, dividindo entre todos os fregueses.

    Quando um Estado, ou uma empresa, resolve individualizar os custos e os serviços, sem olhar quem paga, sobre o pretexto de “igualdade”, o que ocorre é justamente punir o pobre. Porque o rico, que já estava de passagem pelo centro em seu automóvel, não se importa de levar a compra ou mesmo de pagar pela entrega. Sem falar que o rico não vive, normalmente, em “bairros distantes” e que, de certa forma, o bairro pobre é sempre “mais distante” que o bairro rico, se não em quilômetros, certamente em percepção.

    O resultado destas políticas de individualização de custos é a redução da capacidade de consumo das pessoas que ganham menos, esvaziando as lojas dessa gente “diferenciada” que atrapalha as compras dos “bons clientes”.

    Infelizmente, pelo menos na internet, esse tipo de ideologia parece estar ficando popular. E medidas ocasionais, como essa do  supermercado, nos sugerem que a mentalidade do "cada um por si" está ganhando terreno. Esperemos que esta erva não vingue, porque as dificuldades de cada um não são aumentadas pela solidariedade com quem tem ainda  mais dificuldades. 

    A Ideologia da Inveja, ou a Inveja da Ideologia

    Faz parte do pensamento direitista típico uma peculiar disfunção cognitiva: uma incapacidade de enxergar corretamente a realidade, o que os leva a interpretações muito equivocadas dos fatos. Há, de fato, dois tipos de direitista: o conservador e o reacionário. Tanto quanto existem dois tipos de esquerdista: o reformista e o revolucionário. Para entender como funciona esta disfunção da direita é preciso por estes quatro lados em perspectiva.

    O conservador é alguém que considera que vivemos no melhor dos mundos possíveis, ou quase isso, e que, portanto, é preciso evitar, ou minimizar as mudanças, para evitar que se rompa o frágil equilíbrio da realidade. Mudanças, se inevitáveis, devem ser pelo menos retardadas para que todos tenham tempo de se adaptar aos seus efeitos.

    O reacionário é o indivíduo que crê vivermos em um mundo em decadência, que o passado era melhor, que os valores positivos da sociedade estão se perdendo e que é necessário fazer alguma coisa quanto a isto. Esta «alguma coisa» normalmente significa neutralizar toda iniciativa de mudança, pois toda mudança nos afasta do antigo mundo ideal, e reverter tanto quanto possível as mudanças que já aconteceram, responsáveis por nossa queda de uma idade de ouro pretérita.

    Comparemos isso com a esquerda e veremos uma correspondência óbvia. O reformista se contrapõe ao conservador, tanto quanto o revolucionário ao reacionário. Mas ambos os extremos odeiam a todo o resto.

    O reformista acredita que o mundo precisa melhorar, e para isso é necessário atacar as causas (ou os sintomas) dos problemas que atualmente existem. Geralmente adepto da democracia, o reformista crê que estas reformas podem ser feitas por consenso, através da conscientização das massas e de processos graduais, como reformas educacionais, aperfeiçoamentos legislativos, investimentos pontuais em desenvolvimento regional, etc.

    O revolucionário acredita que o mundo não tem conserto, a não ser se substituirmos toda a estrutura sobre a qual suas instituições se assentam. Isso, claro, pode ser feito de forma pacífica, mas normalmente só acontece pelo emprego da violência (e bastante violência) porque aqueles que se beneficiam do status quo não aceitarão facilmente a remoção de seus privilégios. Revoluções são tentativas de adiantar o relógio da História algumas horas em alguns minutos. Costumam ser sucedidas por iniciativas reacionárias que atrasam o relógio algumas horas em alguns minutos, mas não todas as horas que haviam sido adiantadas antes. Assim, toda revolução produz mudanças duradouras.

    Ambos os tipos de direitistas têm em comum o temor da esquerda. Por causa dele, se recusam a enxergar a distinção entre um reformista e um revolucionário. No fundo, o que lhes importa é que, pacífica ou violentamente, todo esquerdista quer mexer no seu queijo; então é preciso rosnar, mostrar as garras e, eventualmente, morder. Da mesma forma, o direitista não vê problemas em transitar para o reacionarismo: a radicalização é uma estratégia legítima, à medida que os desafios para a manutenção do status quo se tornam maiores.

    A análise da situação política, quando feita por um direitista, assemelha-se muito a um discurso religioso. Quando não nega, pura e simplesmente, a existência de quaisquer problemas com a realidade (síndrome de Moranguinho), em vez de buscar causas materiais para os problemas materiais, o direitista busca motivações intangíveis, explicações metafísicas.

    Por exemplo, a miséria não é causada por dificuldade de acesso aos meios de produção (entre eles educação de qualidade) ou baixa remuneração do trabalho, mas pela «indolência» ou «falta de capacidade de trabalho» do pobre. Este tipo de interpretação costuma ser fortemente racista, atribuindo o sucesso dos povos desenvolvidos a fatores genéticos ou culturais que «não existem» no povo brasileiro. Com um pouco mais de sorte você se deparará com o indivíduo culpando a «miscigenação» brasileira pelo nosso atraso.

    Se os negros são menos favorecidos, isto não é porque sofreram um longo processo de dominação e exclusão, no decurso da escravidão ou posteriormente a ela, mas sim porque sua «cultura» não contempla o trabalho organizado, ou porque «têm uma obsessão com o pensamento mágico» em vez de trabalhar, coisas assim.

    A desigualdade social é apresentada como algo natural, necessário, algo como o direito divino dos reis e nobres, tão essencial à estabilidade dos povos (segundo concebida até o século XX), que as jovens nações arrancadas do jugo otomano (Grécia, Bulgária, Sérvia, Romênia) receberam príncipes alemães para seus tronos. Não se concebia que o povo pudesse sequer ter um rei que não fosse originalmente de sangue azul. O pobre não se conformar com a desigualdade é ter «inveja» do sucesso de quem é rico. Ainda que o sucesso do segundo possa ser herdado e o fracasso do primeiro persista, mesmo diante de hercúleas lutas contra as portas e punhos fechados com que a vida recebe os que estão «de fora».

    Causas imaginárias produzem soluções surrealistas. Em vez de atacar a miséria, ataca-se o miserável, como se fazia na Inglaterra do século XVII, com suas leis contra vadiagem que puniam com trabalhos forçados (não remunerados) os que não conseguiam emprego. Ou então explora-se o miserável, como nas estratégias assistencialistas eleitoreiras típicas de políticos fisiológicos e ligados às oligarquias.

    Durante boa parte da História do mundo a partir do advento do Iluminismo, estas forças têm se enfrentado: a esquerda e a direita. A primeira, buscando sempre melhorar o mundo, segundo entende necessário ou possível. A segunda, oscilando entre negar a necessidade (ou a possibilidade) de qualquer melhora, ou francamente se propondo a reverter a obra da esquerda. A Revolução Francesa depôs reis, redesenhou fronteiras, criou conceitos novos (como os de República, Constituição, sufrágio universal e Direitos Humanos) e lançou a ideia de que era preciso acabar com os regimes baseados no privilégio de nascimento e no direito divino. A «Santa Aliança» conseguiu reentronizar algumas dinastias, mas cem anos depois nenhuma das nações invadidas por Napoleão estava imune à «gripe republicana». Uma a uma as monarquias foram caindo, os nobres foram condenados ao dolce far niente enquanto a míngua de suas fortunas não os forçava a casar-se na burguesia. A Igreja Católica nunca mais recuperou seu poder. De 1789 para cá ela não cessou de sangrar uma dia sequer. Apesar de todas as Santas Alianças, de todas as Machas da Família com Deus pela Liberdade e de todas as TFPs.

    Este é só um exemplo da dinâmica da política: existem outros. O voto feminino foi uma bandeira da esquerda, combatido pela direita. Assim foram os direitos humanos, o fim da segregação racial e a igualdade de todos perante a lei. A direita resistiu com ditaduras, tortura, apartheid, national sozialist Partei… Foram os sindicatos, inspirados por Marx e Bakunin, que exigiram jornadas de trabalho razoáveis, salário mínimo, férias remuneradas, seguro desemprego, fundo de pensão, todas essas coisas que andam falando em «flexibilizar» porque a crise é grande.

    A esquerda sempre teve soluções. Para acabar com a miséria era preciso impedir que as crianças ingressassem cedo demais no trabalho, o que as impedia de estudar. Para a direita, isso seria condenar todas à «vagabundagem» (esse termo genérico com que se desqualifica os que estão desajustados ou excluídos das engrenagens do sistema). Era preciso um sistema público de ensino, para que os pais pobres não tivessem que tirar pão da boca para pôr um lápis na mão do filho. Para a direita, uma escola gratuita faria com que as crianças crescessem «sem dar valor» ao conhecimento. Talvez permanecendo analfabetas elas dariam mais valor, ao que não tinham.

    Quem tem ideias corre riscos. Vários dos planos «mirabolantes» da esquerda falharam. Em alguns casos a esquerda soube recuperar-se deles rápido, em outros nem tanto, de outros nunca. É muito fácil apontar os erros criticamente. Mas é preciso disfarçar que muitos fracassos se deram por forte oposição reacionária, por radicalização desnecessária (consequência de um ambiente de conflitos) ou mera ingenuidade. Nós, os esquerdistas, temos a ingênua ilusão de que podemos tornar o mundo um lugar melhor. Muitas vezes a luta da esquerda foi pervertida, sequestrada, confundida. Houve aproveitadores, sabotadores, ou meros líderes ineptos. O que nunca acabou nem acabará é a utopia de que é possível vencer a noite. Muita coisa mudou nesses dois séculos desde que o povo aprendeu que é possível deixar de ser súdito e passar a ser cidadão. Enquanto isso a direita continua dizendo que os problemas do mundo são insolúveis, que há mais males necessários do que bens possíveis e que todo movimento de libertação produz mais escravidão.

    Nunca a direita esteve tão atuante no Brasil, tão visível. Eles têm a força, mas a força é tudo o que eles têm.

    O Mundo de Cabeça Para Baixo

    Uma das notícias mais impressionantes da semana foi o pedido de ajuda de Portugal a Angola. Dá uma certa ânsia imaginar que outras grandes mudanças estão em gestação para este mundo que viveu os últimos vinte anos se equilibrando perigosamente na corda bamba da especulação. Até quando a Europa geriátrica ainda terá esperanças de sobreviver, se ainda tem? Não tentarão estes países, armados e famintos, tomar à força o que não podem comprar, tal como cangaceiros de filme antigo? Talvez não seja o caso do pobre Portugal, que talvez perdesse em uma batalha naval contra Andorra, mas se a crise apertar mesmo, ainda temos respeitáveis canhões na Euroamérica: Estados Unidos, Grã Bretanha, França (apesar de não ganhar nenhuma guerra desde os tempos de Luís XIV), Alemanha (esta desdentada pelos tratados do pós-guerra), Itália (apesar de sua tradição de incompetência militar nos últimos 400 anos) e Rússia. Como pode um país relativamente rico ou “enriquecente” proteger-se sem tecnologia militar de ponta? Parece que somente a China tem essa capacidade, e talvez a Índia. Daí a sorte (sorte?) de estarmos associados a eles (e numa hora dessas devemos xingar muito Collor e FHC por sepultarem nosso projeto de bomba atômica, e certo estava o louco Enéas) em vez de soltos no sertão do século XXI.

    Vegetarianismo de Grife Só Serve Como Consolo do Complexo de Culpa Capitalista

    Reelaboração de um post feito no Paulopes, a respeito de um determinado aspecto da argumentação pró-vegetariana.

    O movimento vegano/vegetariano é mais uma estratégia dos donos do poder econômico para desviar a atenção da população da real causa da escassez (que é a ineficiência do capitalismo para produzir a plenitude). Quando digo isso estou me expondo a severas críticas, tanto da parte dos vegetarianos quanto dos que são céticos em relação a teorias de conspiração. Por isso, nesta revisão de meu argumento original postado no blog Paulopes.com.br, devo ser mais rigoroso com a minha lógica e fazer a devida introdução, na esperança de ser mais claro.

    Comecemos pela questão de definição do que é “movimento vegano/vegetariano”. Que fique claro que não existe tal movimento de uma forma organizada, tal como não existe um “movimento homossexual” ou um “movimento roqueiro”. O que existem são pessoas que aderem a um determinado modo de vida, seja por causa de influências genéticas/congênitas seja por causas sociais/preferenciais. Acredito que o vegeto-veganismo pertence à segunda categoria: ninguém “nasce vegetariano/vegano”, mas adota isso como estilo de vida por alguma razão. Esta alguma razão é precisamente o ponto que pretendo argumentar.

    Tendo deixado claro que não estou apontando o dedo para uma suposta Internacional Vegetariana a serviço dos Illuminati, passemos à questão de quem são os “donos do poder econômico” e da razão pela qual afirmo que não estou criando uma teoria de conspiração. Que o poder econômico tem dono, nem a mais ingênua Poliana seria capaz de ignorar (a não ser retoricamente, mas isso é irrelevante). Que tal poder busca difundir seus valores através dos mais variados meios (inclusive os meios de comunicação, que ele controla), tampouco é loucura imaginar. Loucura seria dizer que o simples acesso a tais valores difundidos zumbifica de tal forma o indivíduo que ele passa a obedecer cegamente. Lavagem cerebral não funciona assim.

    Quando digo que o vegetarianismo é “mais uma estratégia” dos donos do poder eu não estou dizendo que Wall Street está vendendo a ideia de que todo mundo deve ser vegetariano/vegano, estou dizendo que os valores difundidos pelos donos do poder econômico acabam levando as pessoas a desenvolver estratégias de salvação pessoal — e o vegeto-veganismo se encaixa nisso. A minha tese aqui é, portanto, a de que muitas pessoas, se não a maioria, aderem a essa dieta devido à pressão que sofrem no seio da sociedade capitalista — e não por acreditarem realmente nos valores envolvidos.

    O Capitalismo Precisa de Bodes Expiatórios

    Sendo um sistema essencialmente injusto, ideologicamente injusto, o capitalismo não pode (pelo menos não ainda, ou pelo menos não fora das fronteiras dos Estados Unidos) desfilar-se de cara limpa. Não se pode simplesmente querer que todos achem natural a crescente exploração do homem pelo homem, que gera massas de desempregados, turbas de eternos excluídos, vastidões de terras arrasadas. Tal como o cigarro não se anuncia como “câncer de bolso”, o capitalismo não se anuncia como um sistema que enriquece alguns e relega outros à miséria. Para evitar revelar esta verdade incômoda, o capitalismo emprega vários subterfúgios ideológicos:

    1. Culpabilização da vítima como uma estratégia de divisão: os pobres são indolentes, promíscuos, bêbados, drogados, infiéis, inferiores etc. Se eles “não são como nós”, então não merecem o que nós temos.
    2. Inversão dos valores humanistas, substituídos pelo espírito de competição: em vez de incentivar o compartilhamento, incentiva-se o amealhamento, quando não é possível escalar mais que o outro, puxar o seu tapete se torna aceitável.
    3. Fragmentação das demandas, levando à individualização dos problemas e o esvaziamento das esferas coletivas de decisão: a longo prazo produz-se um sistema político no qual a vontade popular é manipulada ou então sequer consegue ser expressada legitimamente, embora continue a capa de democracia.

    Estas estratégias fazem com que, a longo prazo, as pessoas passem a buscar soluções individuais para os seus problemas. Se não tem ônibus no bairro, compro um carro. Se não tem segurança, ergo um muro. Com o tempo a individualização fragmenta os partidos, as igrejas, a sociedade como um todo, de alto a baixo, tornando impossível a construção de agendas comuns significativas. Com isso a política se torna publicitária: as pessoas votam convencidas por estratégias de marketing, porque não enxergam na eleição uma ferramenta para mudar sua realidade.

    O Problema da Escassez Não Tem Como Ser Resolvido Pelo Capitalismo

    O grande problema do capitalismo é que ele não resolve a escassez. Não resolve porque a plenitude não seria lucrativa. O capitalista só consegue obter lucros se cobrar por seu produto mais do que ele vale. Se não houvesse demanda maior do que a oferta as margens seriam insignificantes, paralisando a economia. Quando isso acontece a economia entra espontaneamente em recessão (ou seja, a produção desaquece a fim de causar desabastecimento e forçar a alta dos preços).

    Nas primeiras décadas de existência do capitalismo, quando ninguém ainda o entendia muito bem e as palavras de Adam Smith, quando citadas, quase recebiam “oráculo do Senhor” em resposta, não havia necessidade de meios termos. Os economistas ousavam dizer coisas de fazer Margareth Thatcher corar de pejo. Não vou citar nenhuma frase dos luminares liberais do início do século XIX porque este é um blog família.

    Mas veio Marx e fez sua contundente crítica ao sistema capitalista. Não me importa se a crítica dele está toda certa ou não, apenas que ela teve impacto e provocou nos teóricos capitalistas explicações mais elaboradas sobre o funcionamento do sistema, todas tentando ocultar a natureza instável deste.Cada época viu surgir e se dissipar pelo menos uma explicação para o problema. Todas tinham pelo menos três características básicas:

    1. Isentam o "sistema" da culpa usando o argumento da riqueza que ele produz — como o capitalismo foi bem sucedido em produzir a sociedade que hoje temos, altamente tecnológica e rica, embora desigual, argumenta-se que por ele ter produzido um mundo supostamente “bom”, ele produziu o melhor dos mundos possíveis ou que somente ele teria produzido esse mundo melhor.
    2. Atribuem a culpa à vítima — a culpa é do povo indolente, do trabalhador não qualificado, do operário que ganha salários excessivos, dos métodos antiquados de trabalho. Com isso o capitalismo impõe rígidos métodos de controle, corta empregos, achata salários, terceiriza etc.
    3. Quando as pessoas se mostram insatisfeitas, o próprio sistema vende a solução, na forma de cursos (auto-instrucionais e pagos pelo próprio empregado, no interesse de sua “carreira”), treinamentos de auto-ajuda (reuniões nas quais pessoas que não precisam passar pelo que você passa tentam convencer-lhe de que a culpa pelos seus fracassos reside exclusivamente em você) ou recursos miraculosos (entre os quais religiões milagrentas).

    As soluções em nível de varejo eram variadas. Dizia-se que as pessoas eram pobres porque preguiçosas. Portanto, quem trabalhasse muito poderia resolver o seu problema. Dizia-se que certos países eram culturalmente incapazes de desenvolvimento. Portanto, você poderia emigrar para um país sério e ficar rico lá. Dizia-se que certos povos/raças eram estúpidos demais para um desenvolvimento autônomo, mas pelo alguns indivíduos poderiam ter algum conforto servindo de lacaios para os “inteligentes”. E as mulheres sempre poderiam “melhorar a raça” copulando com homens da cor certa a fim de terem filhos mais evoluídos.

    O Vegetarianismo se Alimenta do Complexo de Culpa

    Se em décadas passadas havia os mais diversos espantalhos para culpar pela miséria nossa (em certa época o imperialismo ianque explicava até as notas baixas do meu boletim), é natural que isso não tenha mudado. Antes proliferaram esses espantalhos

    Agora dizem que falta alimento no mundo porque comemos carne (não custa lembrar que a conquista da carne na dieta do pobre foi celebrada nos anos 90 como uma vitória aqui no Brasil, entre outras coisas ela garantiu a reeleição de FHC). Portanto, podemos fazer nossa microparte para salvar o mundo deixando de comer carne e divulgando que outros também parem. Não é preciso fazer reforma agrária, nem combater a exploração dos pequenos agricultores pelas multinacionais produtoras de sementes geneticamente modificadas, não é preciso encontrar uma alternativa ao modelo “industrial” do agronegócio, que deixa de plantar feijão para plantar capim se o gado estiver valendo mais do que gente (e frequentemente está). Todas estas bandeiras são de grande envergadura e exigem luta política, algo que raramente o cidadão estará disposto a fazer (esse ano de 2011 tem sido bastante atípico). Melhor do que fazer uma revolução, que toma tempo, é fazer um prato verde, que demora vinte minutos, e o resto do dia ainda fica livre para continuar correndo atrás da vida.

    No fundo esse raciocínio de demonização da carne é só outra ferramenta de alienação que procura esconder o fato de que a culpa da fome está no capitalismo, e não no que escolhemos comer:

    1. Existe grande irracionalidade no uso da terra, gerada pelo capitalismo. Em certos países pobres da África regimes corruptos alugam ou vendem terras aráveis para multinacionais plantarem flores ou ração para animais, gerando fome.
    2. Existe grande desperdício de alimento no mundo atual, o simples fato de haver uma epidemia de obesidade em certos países indica isso.
    3. Muita gente que não se alimenta direito porque não tem renda suficiente para comprar alimentos de qualidade ou, tendo a renda, não tem acesso a tais alimentos porque eles não são produzidos em quantidade suficiente. Isso não vai mudar se todos nos tornarmos vegetarianos, isso só mudará com salários melhores ou alimentos baratos.

    Não Estou Aqui Propondo uma Alternativa Comunista

    Propor isso seria uma infantilidade. Mas que nome se dá à insistência em uma proposta que não funciona, mesmo após dois séculos? Sim, é verdade que o capitalismo derrotou o comunismo, mas será que ter sido capaz de derrotar a alternativa comunista (que, digo de passagem, nunca me agradou) qualifica o capitalismo para derrotar outros desafios, entre os quais o de oferecer uma existência digna à humanidade? Existe alguma razão pela qual devamos ser tão fiéis ao capitalismo, esse Moloch moderno, a ponto de sacrificarmos nossos filhos em seu altar?

    No entanto, mesmo tendo dito isto, a crítica feita ao capitalismo será recebida com um ceticismo seletivo. Engraçado que quando as teorias econômicas liberais produzem crise atrás de crise ninguém se convence de que elas podem, talvez, quem sabe, imaginem, possivelmente, estar um pouco erradas. Mas sugira que a verdade pode ser diferente e nada menos do que “provas” são exigidas.

    Isso até mesmo quando publicações “comunistas” andaram sugerindo que Marx tinha razão. Saíram artigos assim na Forbes, na The Economist, no Washington Post e na coluna da Míriam Leitão nO Globo (mas essa última não tem o mesmo crédito). Mesmo assim, os fiéis fundamentalistas no capitalismo não abrem mão nem de um um jota e nem de um til.