Hugo Chávez e o Herói Padrão de Lord Raglan

Você provavelmente já deve ter percebido algo de estranho na recorrência de certas características na biografia de personagens mitológicos (e às vezes personagens históricos). É como se a maioria dos nomes famosos tivesse em comum algo além da fama em si. Pode parecer teoria de conspiração barata, mas essa impressão não é fruto de sua imaginação: ela já foi detectada, estudada e sistematizada por historiadores. Enfim: já se comprovou que existe mesmo um padrão que se aplica à maioria dos relatos biográficos, hagiográficos ou mitológicos de personalidades reais, mitificadas ou míticas.

A comprovação está em uma obra intitulada “O Herói: Um Estudo da Tradição, da Mitologia e da Literatura” — publicada em 1936 pelo folclorista britânico FitzRoy Somerset, Barão de Raglan. Nesta obra, Lord Raglan sintetizou 22 características que são encontradas nos relatos sobre uma grande variedade de personagens reais ou não. Não são as únicas características compartilhadas, mas as que mais frequentemente se repetem.

O estudo destas características não é muito útil para identificar a historicidade de personagens duvidosos, visto que o czar Nicolau II, personagem histórico amplamente conhecido, morto em 1917, tinha 14 das 22 características (uma pontuação superior à de Harry Potter, Ulisses, Sansão e Aquiles); mas é muito interessante para avaliar possíveis interpolações laudatórias feitas em relatos genuínos sobre personagens reais (“mitificação”) e a possibilidade de que um personagem real seja futuramente elevado a um nível de mito ou santo.

Com a recente morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, parece estar havendo uma tentativa de apropriação da sua biografia pelos seus herdeiros políticos, transformando-o em um herói. A análise a seguir procurará coincidências de sua biografia com o padrão do herói de Lord Raglan, para avaliar o potencial de Chávez como futuro arquétipo revolucionário latinoamericano (tal como Sandino, Guevara e Bolívar).

1. A mãe do herói é uma virgem de sangue real.


Verdadeiro no caso de Jesus Cristo, mas não no caso de Chávez, que sequer era o filho mais velho.

2. Seu pai era um rei


Filho de pais pobres, Chávez não se enquadra aqui. Mas o seu bisavô tinha sido um oficial do exército federalista de Ezequiel Zamora, e por isso Chávez merece marcar meio ponto nesse item.

3. Fruto de um amor incestuoso ou ilegal


Nenhuma coincidência conhecida.

4. As circunstâncias de sua concepção são incomuns


Nenhuma coincidência conhecida.

5. Ele é também considerado filho de um deus


Nenhuma coincidência conhecida.

6. Ao nascer ocorre um atentado contra a sua vida, geralmente cometido por um membro da família, ou por sua ordem


Não consta nas biografias oficiais que isto tenha ocorrido.

7. Ele é salvo e levado embora


Como não houve o atentado, não pode haver coincidência aqui.

8. Criado por pais adotivos em um lugar distante.


Chávez foi criado durante vários anos por sua avó, Rosa, em outra cidade, devido às dificuldades econômicas dos seus pais. Um ponto.

9. Quase nada sabemos de sua infância.


Existem poucas fontes sobre sua infância. Não localizei menção a nenhum episódio. Isto, claro, é de se esperar de uma criança pobre. Mas é também característico do herói de Raglan. Outro ponto.

10. Ao se fazer homem, ele volta (ou vai) para o seu futuro Reino.


Aos dezessete anos, Chávez entrou, por escolha própria, para uma academia militar, sendo parte da primeira turma submetida a um novo e mais rigoroso programa de treinamento, que incluía todas as disciplinas militares normais e também vários tipos de conhecimentos técnicos e gerais. Tendo Chávez se notabilizado como um líder do exército antes de ser presidente, esta sua ida para as forças armadas por escolha própria lhe faz marcar mais um ponto.

11. Depois de uma vitória sobre o rei e/ou sobre um gigante ou dragão ou fera...


Apesar de derrotado na quartelada que organizou em 1992, Chávez acabou sendo, de fato, um vencedor, ao defenestrar o odiado presidente Carlos Andrés Pérez e, dessa formar, frustrar os planos do Consenso de Washington. Como os EUA são representados heraldicamente por uma águia, temos aqui uma fera também. Ou seja, Chávez marca esse ponto com pleno louvor.

12. Ele se casa com uma princesa, que pode ser filha/parente do seu predecessor.


Enquanto estava na cadeia, foi abandonado por sua primeira mulher, Nancy Colmenares, e posteriormente por sua amante, Herma Marksman, uma historiadora, que havia sido sua grande inspiradora durante o primeiro período revolucionário. Pouco antes de ser eleito presidente, Chávez se casou com uma jornalista bonita e de origem rica chamada Marisabel Rodríguez.  Se considerarmos o papel influente da imprensa na América Latina, e especialmente na Venezuela, e ainda mais especialmente em relação a Chávez, Marisabel pode ser considerada uma “princesa” (metaforicamente), ligada aos seus maiores inimigos. Casar-se com uma mulher da elite, às vezes abandonando a antiga namorada/amiga, é um mau passo que quase todo herói dá (Sansão, Artur...) e por isso Chávez marca mais um lindo e perfeito ponto.

13. E se torna rei.


Como a Venezuela não é uma monarquia, esse “tornar-se rei” precisa ser entendido como “ser eleito presidente”. Mas ressaltemos que nem toda monarquia era hereditária e vitalícia. Os reis da Polônia, da Lituânia, da Irlanda, do Sacro-Império Romano-Germânico e da Noruega eram eleitos pelos seus pares. Os sultões do mundo islâmico e os imperadores romanos raramente escolhiam descendentes diretos como sucessores. Monarquias nas quais o rei tinha poder temporário incluem as antigas monarquias gregas e as monarquias célticas em geral (especialmente na Irlanda, em Gales e na antiga Escócia). Então, a necessidade de metáfora é bem secundária aqui. Ponto para Chávez.

14. Por algum tempo reina pacificamente.


O tempo de reinado pacífico de Chávez se refere ao período posterior ao golpe de estado que sofreu em 2002. Até esse momento todos os seus movimentos fazem parte da acomodação da situação política. Sua vitória sobre o golpe é a sua definitiva entronização, pois a partir daí ele não teve praticamente oposição alguma que conseguisse impedi-lo de fazer o que quisesse. E seu reinado foi pacífico porque não houve nenhuma oposição militar ao seu mando, nem ameaça externa real. Ponto para Chávez.

15. Promulga leis.


Esta é sem dúvida a característica mais marcante do governo Chávez, que implementou na Venezuela uma verdadeira revolução institucional, derrubando leis antiquadas e aumentando o poder dos órgãos de representação popular mais próximos do povo. A rapidez com que lançou leis e criou instituições torna seu governo o mais criativo de toda a história daquele país. E por isso ele marca mais um ponto.

16. Porém ele perde o favor dos deuses ou de seus súditos


A coisa mais parecida com uma divindade no contexto político latinoamericano é o poder dos Estados Unidos de fazer e desfazer lideranças (e às vezes até governos). Chávez claramente perdeu o favor desse “deus” metafórico. Na mitologia a perda do favor divino era o início da derrocada do herói. A perda de tal favor poderia ser causada por coisas mínimas (Moisés perdeu o favor de Deus porque bateu com cajado em uma pedra e Sansão porque cortou o cabelo). No caso de Chávez, o simples fato de priorizar a melhora das condições de vida do povo o tornou inimigo dos EUA, que, historicamente, não ligam para o bem estar de nenhum outro povo, especialmente se não for branco. Ponto para Chávez.

17. Após o que é retirado do trono e do reino.


Observe que não há relação de causalidade. A retirada do herói de seu trono é posterior à perda do favor dos deuses, mas não necessariamente causada por ela. Digo isto para arrefecer os apressadinhos que me acusarão de acreditar na história da arma cancerígena da CIA (se bem que eu acredito). No caso de Chávez, após anos de embate contra os EUA ele adoece (câncer) e resolve se tratar em Cuba (sua retirada do trono) por períodos cada vez mais longos. Ponto para Chávez.

18. Sua morte é misteriosa.


Se misteriosa não foi, pelo menos os seus aliados tentam fazer ao máximo que se pareça sendo. A acusação de que seu câncer foi causado por interferência da CIA (ou do Mossad) cria essa aura de mistério e faz Chávez marcar mais um ponto. Sem falar em outras circunstâncias misteriosas, como a data de sua morte, os motivos de não ter sido embalsamado e o misterioso rejuvenecimento de seu cadáver.

19. Comumente no topo de uma montanha.


Nenhuma coincidência conhecida.

20. Seus filhos, se os tem, não o sucedem.


Sucedido por um aliado, não por seus filhos. Mais um ponto.

21. Seu corpo não é enterrado.


Parte do mistério que cerca sua morte envolve o lugar onde deveria ser enterrado. Embora ele tenha acabado por ser enterrado no Forte Montaña, já existe a proposta de uma emenda constitucional para que seja transladado para o Panteão Nacional, ao lado de Bolívar, onde ele não ficaria enterrado, mas depositado em um ossuário suspenso.

22. Mesmo assim ele tem um ou mais sepulcros.


Sendo transferido para o Panteão Nacional, Chávez terá dois locais conhecidos de sepultamento (Forte Montaña, o provisório, e Panteão Nacional, o definitivo). Sem falar nos possíveis boatos de que teria sido, na verdade, enterrado em outro lugar. Mas tais boatos não seriam necessários, porque o ponto já está marcado.

Conclusões


Chávez marca surpreendentes 14 pontos no padrão do herói de Lord Raglan, mesma pontuação de Nicolau II. Para se ter uma ideia de onde Chávez se situa na escala, observemos as seguintes pontuações:

  • Édipo e Krishna : 21
  • Moisés e Teseu : 20
  • Dionísio, Jesus e Artur : 19
  • Perseu e Rômulo : 18
  • Hércules e Maomé : 17
  • Beowulf e Buda : 15
  • Hugo Chávez, Zeus e Nicolau II : 14
  • Sansão e Robin Hood : 13 
  • São Jorge : 12
  • Sigurd (Siegfried) : 11
  • Aquiles : 10
  • Harry Potter e Ulisses : 8

Os mitologistas interpretam a escala de Lord Raglan da seguinte forma: uma pontuação inferior a seis indica que a biografia do personagem é provavelmente factual e as coincidências são apenas coincidências, mas uma pontuação superior a seis sugere que o personagem não é real ou então que a sua biografia sofreu/sofre adulterações mitificantes.

Sendo o herói um arquétipo, existe uma tendência humana a adulterar a história de pessoas tidas como heróicas (ou que se pretende fazer parecidas com heróis) de forma a se tornarem parecidas com o herói arquetípico. No passado, a transmissão oral do conhecimento sobre o herói favorecia esta adulteração, sendo inúmeros os casos conhecidos de personagens  cujas biografias contêm elementos atribuídos com finalidade mitificante.

Finalmente, para os que acham que há imperfeições na escala (sim, ela não é perfeita), existem propostas de expandi-la da seguinte forma:

  • Separar “virgem” de “real” em relação à donzela mãe do herói.
  • Adicionar a categoria “prodígios na infância”
  • Adicionar a categoria “cumprimento de profecia”, tanto em relação ao nascimento quanto em relação à morte.

Com tais adições, alguns personagens religiosos (como Jesus e Maomé) marcariam mais pontos, porém a pontuação de personagens reais (como Nicolau II e Chávez) seria menos impressionante. O que é certo é que o falecido presidente da Venezuela tem um grande potencial para ser herói nacional, e a pontuação deve aumentar ao longo do tempo, especialmente se os seus aliados durarem algumas décadas no poder.

O Trote como uma Expressão do Conservadorismo Social Brasileiro

Sempre fui contra o trote, e isso independe de ser trote machista, homofóbico ou o que seja. Minha análise é visceral: o trote é um instrumento de controle da ascensão social das classes oprimidas, originalmente concebido para uso direto das classes opressoras e posteriormente manipulado em seu nome pelos anteriormente aceitos, criando uma “cultura” continuísta deletéria a todos os valores que supostamente são praticados na vida acadêmica. E o trote brasileiro, como costuma acontecer por aqui com quase tudo, tem adquirido gradualmente um aspecto cada vez mais bestial.

Os trotes descendem das cerimônias iniciáticas das antigas religiões. Os gregos, por exemplo, tinham rituais que envolviam embebedar os neófitos e fazê-los participar de orgias (culto de Dioniso) e submeter os homens a provações físicas extremas (Olimpíadas) etc. A submissão dos jovens aos seus “mestres” (efebofilia) era proverbial. Embora não haja registros diretos disto, existem certos indícios de que certos cultos de mistérios incluíam o acasalamento de mulheres com animais (mito de Pasifaé, mito dos sátiros). Outros povos anteriores sempre tiveram seus rituais de iniciação, nem todos tão sistematizados quanto os gregos.

Não farei aqui um histórico detalhado dos ritos de iniciação antigos porque isto vai muito além dos objetivos modestíssimos desse artigo, que é uma breve reelaboração de um comentário deixado no blogue “Escreva, Lola, Escreva” em resposta a um artigo sobre os acontecimentos recentes durante o trote de início de ano na Universidade de São Carlos, no estado de São Paulo. Basta-me pincelar amplamente que existe uma relação de continuidade do trote universitário, criado na Idade Média, com os ritos de passagem dos povos antigos (alguns bastante dolorosos, como a circuncisão, uma espécie de “trote” imposto por certas religiões e costumes tribais).

A Igreja Católica aboliu os antigos cultos e suas práticas apenas gradual e nominalmente. No fundo, foram adaptados em festivais e ritos cristãos, mas continuaram existindo humilhações (como a raspagem do cabelo das noviças e os jejuns) e demonstrações públicas de estoicismo, como o andar sobre as brasas da fogueira de São João. Para os monges e freiras era pior, pois, de certa forma, era como se a vida religiosa fosse um trote para entrar na universidade de Deus.

Os alunos das primeiras universidades criaram suas iniciações para testar se os novos alunos eram “dignos” dos diplomas que ostentariam. Tal dignidade incluía certos valores morais, como a disposição de “fechar” com os valores do grupo (corporativismo). Isso era importante em uma época durante a qual os segredos de certas profissões eram heréticos e sua revelação poderia ensejar grandes perseguições contra seus praticantes (como de fato houve contra os fisiologistas pioneiros, por exemplo). Um dos meios de se evitar que o neófito eventualmente desse com a língua nos dentes era levá-lo a cometer um crime, acobertado pela irmandade. Caso futuramente ele não se mostrasse digno, sua participação seria revelada, destruindo sua reputação e provavelmente custando-lhe a vida. Estuprar camponesas ou cometer sacrilégios eram boas opções. Os maçons incluíam em seus ritos práticas e ícones notoriamente controversos, facilmente interpretáveis como satânicos, justamente para que, no caso de haver uma quebra de sigilo, todos os envolvidos serem inculpados (a Inquisição salvava a alma do arrependido, mas não o seu corpo).

Sobrevivem nos trotes universitários elementos desse trote original que buscava trazer a solidariedade pelo crime. Um bom exemplo é o Dia da Pendura praticado pelos futuros advogados. Em algumas faculdades, os calouros são instados a participar de um lauto jantar em determinado restaurante, sem pagar a conta. As más línguas dizem que é para que o futuro causídico aprenda desde cedo a apoderar-se do alheio… Os advogados que se ofendem com isso certamente não consideram que a maioria das pessoas chamaria isso de roubo. Maioria constituída pela totalidade da população menos os advogados.

O trote não sobrevive apenas no Brasil, mas em outros lugares ele mudou de figura ao longo do tempo, indo numa direção diferente. Nos Estados Unidos, por exemplo, o aluno entra em uma fraternidade para participar da vida social da universidade. Não ser membro de uma significa ser excluído. Nem todas as fraternidades têm prestígio igual. Algumas são patrocinadas por nomes famosos, ex membros seus. Algumas chegam a ter fama internacional, como a Skull and Bones, da Universidade de Yale, à qual pertenceu George W. Bush, presidente americano. Ao pertencer a uma fraternidade, secreta ou não, o aluno usufrui de sua “proteção” e de sua influência, não só durante o curso, mas em sua carreira posterior. Conseguir entrar para uma boa fraternidade abre portas, mesmo se o seu talento for pouco notável, o que explica que um homem como George W. Bush tenha chegado à presidência americana. Falhar em entrar para uma delas pode ser uma sentença de morte acadêmica: a constante pressão dos demais alunos pode dificultar as mais simples das tarefas quotidianas, prejudicando as horas de estudo, interferindo em experimentos ou até danificando manuscritos. Episódios que podem resultar em reações indisciplinadas, que prejudicam ainda mais o futuro profissional da vítima, manchada por um comportamento inadequado. Em um mundo no qual o sucesso a qualquer preço é exigido dos alunos, que estudam em universidades cada vez mais caras, isto explica que alguns percam a cabeça e usem de violência. Adicione à equação aquela típica facilidade americana para comprar armas e você tem explicação interessante para os tiroteios em escolas e universidades.

Lá como cá, porém, o trote é um instrumento de poder, que reflete estruturas de poder existentes dentro e fora do ambiente acadêmico. Em vez de selecionar neófitos confiáveis para proteger um segredo profissional, o trote hoje seleciona adeptos dispostos a aceitar o enquadramento social que lhes seja imposto, ensaiando assim o papel subalterno que se espera que estes futuros profissionais tenham ao saírem da graduação, pois no Brasil ainda impera mais o poder da grana sobre o poder do conhecimento, e não é incomum que o diplomado vá trabalhar sob as ordens de alguém que não possui graduação. Antigamente o coronel semi analfabeto tinha ao seu serviço o doutor advogado, o contador, o padre, o médico etc. Não era conveniente que esses profissionais tivessem uma atitude arrogante, deviam ser desde cedo treinados a ter a cabeça baixa. E abaixar cabeças é uma das funções do trote que, como a raspagem da cabeça dos recrutas, não tem finalidade prática a não ser a subjugação do ego.

Não é uma cena de filme pornográfico sadomasoquista

Porque os trotes quase sempre envolvem a “submissão” do calouro ao veterano, ensaio da submissão do profissional ao mercado. Para filhos dos milionários, o trote pode ser mais benigno, muitas vezes substituído por “dar festas” — uma espécie nada sutil de exibição do poderio econômico, que já qualifica o “festeiro” como alguém que é do grupo e que, por isso, não precisará ter a cabeça baixa na vida. Em outras épocas e países, os trotes foram usados também em questões nacionalistas. Estudantes galeses, por exemplo, seriam humilhados pilhados conversando em galês dentro das universidades britânicas. E isso foi parte importante na supressão da cultura galesa.

No Brasil, que costuma exarcebar o que outras culturas têm de ruim, o trote virou uma instituição, que choca a sociedade como um todo, em vez de ser só um segredo podre dentro dos portões das universidades. Aliás, nem poderia ser de outra forma, pois a maioria de nossas instituições de ensino mais antigas não goza da privacidade das americanas e nem de sua autonomia política. Então o trote deixa de ser algo que acontece dentro das “casas de fraternidade”, de forma não só tolerada, mas protegida pelo sistema. Deixa de ser uma “festinha” para a qual é fácil fechar os olhos, desde que se tenha o cuidado de não matar, mutilar nem engravidar ninguém, do tipo “se todos amanhecerem inteiros, então não aconteceu nada”. Ao sair para as ruas, o trote esfrega na cara do século XXI como nós ainda somos primitivos, e isso incomoda. Incomoda, mas continua.

O episódio mais recente na história dos trotes bestiais brasileiros aconteceu em São Carlos: incomodados com o protesto de um grupo de feministas contra a degradante submissão a que as calouras eram submetidas, um grupo de veteranos exibiu-lhes os seus genitais, atitude que, comportamentalmente falando, está um passo apenas acima de atirar excrementos. O que se expressa como machismo nesse caso reflete uma estrutura mais profunda de perpetuação de um sistema de “controle” da ascensão social, que envolve não só a opressão horizontal (misoginia e homofobia), mas também a opressão vertical (dita luta de classes).

Exibir os genitais é uma tentativa bizarra e infantil de mostrar “eu tenho e você não tem”, usando o pênis como um símbolo de poder. Alguém associará esse ato com as concepções arquetípicas de Jung, que nos lembram que tais símbolos são fálicos: lanças, espadas, vara, cetros, báculos, batutas, cassetetes. Não é à toa que existem palavras como “varão”. Esses atos, porém, não ocorrem de forma totalmente espontânea: são alimentados pela mídia manipuladora.

Dia desses, em um bate papo informal, dei-me conta de algo estranho, que certamente não é casual: vocês já repararam que desde o início das restrições à publicidade de bebidas alcoólicas a baixa música popular passou a investir no álcool como tema? A música sertaneja, por exemplo, nunca cessou, de 2006 para cá, de ter um sucesso mencionando cachaça. Houve casos mais escrotos que chegaram a mencionar marcas comerciais, como a música que Seu Jorge fez para a cachaça Sagatiba e um recente sucesso de funk-sertanejo mencionando a vodca Absolut. E isto simultaneamente à Lei Seca no trânsito e a grandes campanhas governamentais de combate ao alcoolismo. Será que isso é por acaso? Alguns dirão que letras sobre alcoolismo sempre existiram e sempre existirão, mas será que elas existiam em tal quantidade e apresentando-o de forma sempre tão positiva?

Dito isto a respeito do álcool, que pensar dos temas sexuais na música popular? Qual é o principal tema dos funks, sertanejos e outros? Nada é mais semelhante do que a figura troglodita de um machinho idiota balançando o pinto em cima de um trio elétrico do que as letras desse tipo rasteiro de música. E quem aqui acredita que a música popular é assim porque simplesmente os artistas e o povo “querem assim”? As pessoas aprenderam a querer isso porque é isso que lhes é dado desde a mais tenra idade através do rádio e da televisão e, recentemente, outros meios de comunicação mais novos.

Será que faz sentido pensarmos em lutar contra o machismo e a homofobia sem pensarmos em uma luta mais ampla contra as manipulações midiáticas que ecoam e amplificam esses sentidos primitivos? Acho que o inimigo é maior do que um grupo de alunos de uma universidade, mas é bom usá-los como exemplo, porque da mesma forma como se pode implantar a ideia da banalização do sexo através de uma música comercial manipulada, pode-se implantar a ideia do respeito ao próximo através de ações pontuais, mas consistentes. Está mais do que na hora de socializarmos esses episódios, deixar de vê-los como “problema da calourada”. Só porque já passamos por isso, não temos a obrigação de passar adiante a imbecilidade de que fomos vítimas ou partícipes.

O trote universitário, mesmo o tal “trote solidário”, precisa acabar. E digo que até o solidário precisa porque este nada mais é do que uma dourada pílula com o mesmo significado de rito de passagem imposto. E serve como cortina de fumaça para a perpetuação de relações impositivas que vão muito além das salas de aula.

Se a Propaganda Substitui a Notícia

Tomei conhecimento através do Facebook de uma matéria publicada neste domingo na Folha de São Paulo que me deixou profundamente revoltado. Trata-se da história em quadrinhos sobre o mensalão. Antes que meus leitores reaças me acusem (se ainda estão lendo) de estar apenas reagindo ao ataque às minhas crenças, esclareço que a revolta não é causada pela tese apre­sentada no texto, pelas acusações a certos políticos ou mesmo pela ideologia subjacente à iniciativa. Posso perfeita­mente enten­der e aceitar que existam pessoas que pensam diferente de mim, posso aceitar (mas não entender) que exista quem espose uma ide­ologia reacionária de direita. E posso perfeitamente tolerar que uma coisa e outra sejam difundidas pela impresa. O motivo de minha profunda revolta é muito outro.

Referida história em quadrinhos é um desrespeito ao leitor da Folha da São Paulo, mesmo àquele que é reacionário, odeia Lula e sonha em organizar uma Marcha da Família com Deus Pela Liberdade e iniciar outra Redentora. Trata-se de um tratamento condescendente e infantilizado do leitor, que é tratado como um débil mental pelo simples fato de um tema tão complexo ser tra­tado por uma história em quadrinhos, com as características desta, no contexto em que o foi. Lamento se você gostou e aplau­diu, você faz parte do público que a Folha procurou atingir, e em você ela acerto. Sinta-se «especial».

O caso é que a Folha de São Paulo se prestou a fazer o chamado «jornalismo marrom», a busca da audiência (ou da vendagem, no caso de um jornal) através da divulgação exagerada de notícias sem compromisso com a autenticidade. Embora meus leitores reaças não admitam isso, os mais esclarecidos perfeitamente entenderão a associação do mesmo episódio com a chamada «imprensa golpista», que é o uso da mídia como um instrumento de pressão (e enventualmente de conspiração) contra o governo. Temos jornalismo marrom quando se emprega o recurso sensacionalista da história em quadrinhos para apresentar a notícia (foi justamente o emprego de histórias em quadrinhos coloridas que motivou o primeiro rotulamento de um jornal como sensacionalista, nos Estados Unidos, ainda no século XIX), quando um tema é apresentado de forma desproporcional, quando uma versão (no caso a de Roberto Jefferson) é assumida como verdade, sem ouvir o contraditório. Temos imprensa golpista quando a desproporcionalidade da representação atinge apenas um lado do espectro político, quando busca influenciar o comportamento das instituições.

O caso é grave, mas passará batido porque ninguém que tenha coragem de processar a Folha de São Paulo eficientemente tem dinheiro para isso, e a ausência de uma Lei de Imprensa torna impossível responsabilizar a mídia pelas irresponsabilidades que comete.

Uma rasa análise dos quadrinhos apresentados (para minha grande decepção assinados pelo cartunista Angeli, embora com um traço tosco que sugere alguma coisa) mostra o recurso a vários tipos de técnicas subliminares de deturpação da mensagem. Mas antes de falar do emprego de símbolos e arquétipos em lugar de argumentos, antes de falar de propaganda em vez de notícia, falemos do quadrinho inicial.

Logo no início a historinha apresenta o Brasil inteiro como uma vala de esgoto onde chafurdam personagens que se dividem entre a esperança («às vezes do lodo nasce uma flor de lótus») ao cinismo («mas em outras dali só sai mais lama mesmo»). Trata-se de uma generalização ofensiva, que deveria ofender a cada cidadão brasileiro de bem, a cada um que não seja um porco enfiando o focinho na lama em que ele mesmo defeca. Como não sou um destes porcos eu me senti ofendido. Mas o Facebook está cheio de gente que se sentiu homenageada. Não discutirei este mérito. Preferia que as pessoas votassem com suas carteiras. Eu votei com a minha há bastante tempo: não compro a Folha de São Paulo nem como embrulho de peixe na feira: peço para embrulharem no Meia Hora.


A primeira parte da história em quadrinhos se baseia exclusivamente na versão de Roberto Jefferson, que, diga-se de passagem, foi cassado porque, não conseguindo provar nada contra mais ninguém, acabou réu confesso de abuso do cargo de deputado (a posterior cassação de José Dirceu e a prosseguimento das investigações são um outro momento e obedecem a dinâmica diferente). Normalmente se deve ter certo ceticismo quanto à versão de um réu confesso, especialmente uma versão na qual tenta inocentar-se ou diminuir sua culpa. Não existem muitos culpados nas celas das prisões. Talvez haja mais «inocentes» atrás das grades do que fora delas. Portanto, ao basear-se exclusivamente na versão de Jefferson a Folha definitivamente não pratica bom jornalismo. Mesmo porque (e isto é espantoso, pois poderia servir até mesmo aos objetivos inconfessos do jornal) o depoimento do deputado fluminense foi apenas o estopim de uma longa investigação que certamente aperfeiçoou o conhecimento do caso. Limitar-se ao depoimento inicial é uma escolha incompreensível.

O segundo problema é uma contradição lógica inexplicada: se a Folha vê o Brasil, ou pelo menos o Congresso, como aquela pocilga imunda, como se fia na versão apresenta por um dos «porcos» e referendada por outros? Por que a versão de pessoas tão desprezíveis a ponto de serem postas na lama merece todo o crédito?

O terceiro problema é a contradição entre o texto e as imagens, e aqui ser revela deliberada desonestidade por parte de quem concebeu esta HQ (se me processarem, pago a pena mas não retiro a acusação). Desonestidade porque o texto é contido, comedido, faz questão de sempre dizer que «Jefferson disse», jogando toda a responsabilidade no colo do ex deputado. Se alguém meter um processo na Folha ela sempre poderá dizer que apenas reproduziu a versão dele. Mas as imagens não tem esse comedimento e nem essa continência. As imagens são claramente partidárias, persuasivas. Quem passar pela história dando pouca atenção ao texto ficará com uma impressão totalmente diversa da que teria alguém que lesse o texto isoladamente. As imagens têm força, elas atingem um nível subsconsciente de pensamento. A Folha fez esta HQ para influenciar semiletrados. Eles adoraram, tal como as crianças gostam dos livros ilustrados e com letras grandes. É preciso ganhar os corações dos semiletrados.

E o que estas imagens falam não é bonito. Empregam todo tipo de artimanha de propaganda para argumentar não verbalmente e levar o leitor a ter um sentimento difuso de rejeição ao «mensalão», mesmo antes de se chegar ao ponto em que a própria versão de Jefferson é posta para escanteio e parte-se para afirmações sequer referenciadas (mas histórias em quadrinhos, não custa lembrar, não têm referências bibliográficas). Cores escuras de plano de fundo servem para sugerir que as negociações foram feitas «na calada da noite», «nos porões», etc. O tipo de imagem conspiracionista que nos remete até mesmo aos Protocolos.

A manipulação inclui até mesmo mostrar o publicitário Duda Mendonça com um galo na mão, em um quadrinho sem legenda, antes de apresentá-lo como parte da história. Trata-se de uma referência ao obscuro episódio da rinha de galos em que Duda se envolveu (obscuro porque é um absurdo que algo proibido seja tão tolerado nesse país). Antes de mostrar Duda fazendo qualquer outra coisa, é preciso vinculá-lo a um caso vexaminoso e que tem certo apelo entre boa parte da população, que tem sentimentos ecológicos fofuchos embora navegue pelas ruas em carros beberrões de gasolina, entre outras coisas.

Particularmente difícil de engolir é a caricatura de Lula, que evoca os piores momentos desta arte, quando foi usada a serviço da propaganda política de regimes execrados pela História (inclusive regimes de esquerda, para que meus leitores reaças que chegaram até aqui não me acusem de ser parcial). Dotada de bem pouca semelhança com o rosto real do presidente (e assim quebrando uma marca da caricatura política), a figura apresentada tem todas as características de um vilão de história em quadrinhos em regimes totalitários. Completa com a animalização (figura hirsuta, feições de roedor) e os olhos vidrados de inimigo obcecado do povo.

Semelhante até no terno preto e no nariz proeminente, Lula é o Judeu Errante que lidera o cabal demoníaco que se insurge, do fundo do mar de lama, contra o país em crise.

Acredito que ao longo dos próximos dias terei refletido melhor sobre  o caso e talvez escreva mais. Por enquanto estas são as minhas regurgitações... Sintam-se à vontade para apedrejar.