Revolutions Inc.

Bom dia para você, reacionário de direita travestido de jovem anarquista, que saiu às ruas nesse fim de semana querendo causar impacto. Devia ter ouvido o Humberto Gessinger e feito o pacto.1 Você está, conscientemente ou não, fazendo seu trabalho de formiguinha na preparação do caos. Eu sou astrólogo, vocês precisam acreditar em mim. Eu sou astrólogo e conheço a história do princípio ao fim.2

Digo isto apoiado em uma leitura porca dos mais recentes descobrimentos da psicologia (por mais recentes eu me refiro a mais de meio século, mas você, reacinha, talvez não tenha nem ouvido falar de Freud) e uma leitura um pouco mais cuidadosa de fatos que já são história. Fatos da história mundial recente que sugerem que o Império mudou sua tática e não está mais investindo nos militares para derrubar os governos que não lhe interessam: militares podem não ser confiáveis, podem estar interessados em fazer algo de bom pelo próprio país, podem sair do controle e custa caro recuperar os que fogem da gaiola, como Noriega, Saddam Hussein e Hugo Chávez.

Símbolo da Otpor!

Na verdade o processo é bem simples, já está amplamente documentado, e já foi empregado com sucesso em pelo menos oito oportunidades. Mesmo assim a nossa juventude "descolada", utilizando em larga escala um superpoder chamado "ignorância", fecha os olhos para os indícios de manipulação. Desde que os puxões nas cordas sejam feitos com suavidade, não se importam de ser marionetes.

Refiro-me aqui ao "pacote revolucionário libertador" financiado por entidades interessadas apenas no progresso dos povos e no aperfeiçoamento da civilização, como a USAID, o National Endowment for Democracy, o American Center for International Labor Solidarity, o European Endowment for Democracy, o Center for International Media Assistance e a CIA. Paralelamente a estas entidades, think tanks ligados às grandes multinacionais, como o Heritage Foundation, o American Enterprise Institute e o Open Society Institute.

Se você vive dentro de uma pedra, ou se é tão impermeável quanto uma pedra a notícias que se choquem com suas ideias preconcebidas, provavelmente não sabe que estas entidades, e outras antecessoras suas, têm atuado na desestabilização de regimes contrários aos interesses americanos desde os anos 70 e já tiveram sucesso em produzir pelo menos sete movimentos de massa liderados por organizações não governamentais financiadas pelas entidades citadas.

  • Derrubada de Slobodán Milosević (Sérvia, 2000), liderada pelo movimento "Otpor!" (Recuse!), tendo como símbolo a cor negra e um punho fechado. Milosević foi substituído por um líder mais afeito aos interesses americanos e abriu caminho para a independência de Kossovo, criando um protetorado euroamericano nos Bálcãs (área de interesse russa).
  • Revolução Rosa (Geórgia, 2003), liderada pelo movimento "Kmara" (Chega!), tendo como símbolo a cor negra e um punho fechado. Derrubou Eduard Shevardnadze, que se mantinha alinhado com a Rússia, e o substituiu por Mikhail Saakashvilli, que se alinhou com os EUA, tentou entrar para a OTAN e acabou eventualmente sendo posto em seu lugar pela invasão russa de 2008.
  • Revolução Laranja (Ucrânia, 2004), liderada pelo movimento "Pora!" (Chega!), tendo como símbolo as cores preta e laranja e o sol nascente. Conseguiu anular as eleições, fraudadas por Viktor Yanukovich, e colocar no poder o controverso presidente Viktor Yushenko, que quase morreu envenenado durante a campanha eleitoral, supostamente por obra do FSB (novo nome da KGB). Yushenko, sob forte oposição, não conseguiu avançar muito em sua política internacional, apenas criou leis de autonomia política e cultural favorecendo os ucranianos em relação aos russos. Acabou derrotado nas eleições seguintes pela lindíssima e gatíssima (mas aparentemente perigosíssima e corruptíssima) Yulia Timoshenko, que atualmente come cana braba por supostamente aceitar dinheiro de potências estrangeiras.
  • Revolução das Tulipas (Quirguízia, 2005), liderada pelo movimento "KelKel" (Renascença), tendo como símbolo as cores rosa e amarela e o sol nascente. Conseguiu derrubar Askar Akaev, um dinossauro que permanecia desde os tempos comunistas, e implantar um regime mais democrático.

Símbolo do Pora!

Estes movimentos tiveram características em comum:

  • liderados por uma ONG financiada por uma ou mais das entidades citadas mais acima;
  • caracterizados por um slogan que se confunde com o nome da organização;
  • o nome da organização inclui um ponto de exclamação, para maior ênfase;
  • adoção de um logotipo e de uma cor para simbolizar o movimento;
  • identificação com um líder político "novo";
  • esvaziamento do movimento após o sucesso inicial (mudança de regime).

Em alguns casos, símbolos idênticos foram utilizados (Sérvia e Geórgia), ou um slogan que é praticamente o mesmo (Sérvia e Ucrânia). Os regimes afetados sempre são adversários dos interesses americanos em regiões de interesse geopolítico americano (Bálcãs, Mar Negro e Ásia Central) e os regimes substitutos são liderados por políticos que são claramente alinhados com Washington ou, pelo menos, no caso da Quirguízia, tem o potencial de se alinharem mais facilmente.

Os líderes adotados pelas revoluções coloridas foram Yushenko (Ucrânia) e Saakashvilli (Geórgia).

Símbolo do Kmara!

Em todos os casos, o movimento original se esvazia após produzir seu efeito (certamente por não mais receber tanta assessoria e financiamento). O movimento ucraniano "Pora!" não consegue nem 2% dos votos nas eleições e tem ficado fora do parlamento. Na Geórgia o "Kmara" jamais conseguiu se formalizar como partido. O "Otpor!" da Sérvia ficou de fora do parlamento, embora tenha conseguido cerca de 5% dos votos certa vez.

As semelhanças ficam mais interessantes quando avaliamos que não foram somente estes casos. Houve outros movimentos fundados em outros países, com objetivos semelhantes:

  • Zubr -Bielorrússia
  • Oborona ("Defesa") - Rússia
  • Mjaft! ("Basta!") - Albânia

Símbolo da Oborona!

A cor negra está presente nos símbolos de quase todos esses movimentos, ainda que os movimentos tenham sido identificados por cores diferentes (branco, na Sérvia, laranja, na Ucrânia, rosa, na Geórgia, amarelo, na Quiguízia, azul, na Bielorrússia). Símbolos de origem anarquista (punho fechado, bandeira negra) idem. Os movimentos se solidarizam e chegam a prestar assistência mútua. Agentes sérvios organizaram o "Pora!" na Ucrânia e o "Kmara!" na Geórgia. Os georgianos, por sua vez, prestaram assistência aos quirquizes, enquanto os ucranianos auxiliaram os bielorrussos.

Após uma onda inicial de sucesso das revoluções coloridas, alguns países expulsaram as instituições citadas, o que evitou que o movimento crescesse na Bielorrússia, no Uzbequistão e na Albânia. Na Rússia o protesto chegou a ser grande, exigindo a renúncia de Vladimir Putin, mas foi reprimido e passou à clandestinidade. Onde as instituições de ajuda americana não atuam, os movimentos sociais de oposição não se desenvolvem.

A inspiração desses movimentos remete à Revolução dos Cravos (em Portugal, 1974) e à Revolução Amarela (nas Filipinas, 1986). Ambos movimentos não-violentos de resistência civil com o objetivo de derrubar ditaduras. Vale lembrar, porém, que a Geórgia e a Ucrânia não eram ditaduras.

Além dos contatos diretos entre os líderes desses movimentos, há uma clara articulação através da internet, mesmo no caso da Quirguízia, onde uma parcela ínfima da população conhecia a informática.3. A associação com a internet, naquela fase, deu ao movimento um ar de novidade, de poder espontâneo do povo.

Como os regimes fortes perceberam a jogada e começaram a se proteger, a estratégia mudou ligeiramente. Em vez de financiar a fundação de organizações formais, com sede e hierarquia públicas, os Estados Unidos passaram a patrocinar uma atuação desconcentrada, informal e sem hierarquia definida. Ou melhor, com um único centro de decisões, "virtual", localizado fora do país alvo. Muitas características permaneceram, ainda:

  • A Revolução do Cedro (Líbano, 2005) catalisou-se em torno do ex primeiro ministro Rafik Hariri, recentemente morto. O objetivo alcançado foi forçar a saída do exército sírio que tutelava o regime libanês.
  • A Revolução Verde (Irã, 2009), tentou questionar a eleição de Mahammound Ahmadinejad e forçar uma transição para o "moderado" Mir-Hussein Mussavi. Fracassou devido à forte repressão e à incapacidade de Moussavi para fornecer evidências firmes de fraude na eleição (além de ele não ter e mantido firme até as últimas consequências, preferindo contemporizar com o regime).

A tecnologia social desenvolvida através destas maquinações foi rapidamente assimilada em lugares onde a juventude é mais inteligente do que no Brasil, de forma que regimes autoritários alinhados aos EUA começaram a ser vítimas de estratégias semelhantes, desenvolvidas de forma autônoma:

  • Revolução do Jasmin (Tunísia, 2010) retirou do poder um grande aliado americano e abriu caminho para uma geração de políticos nacionalistas, muitos deles tendentes a aproximar-se do Irã e da Rússia.
  • Revolução do Lótus (Egito, 2010) retirou do poder aquele que talvez fosse o mais fiel aliado americano e abriu caminho para a legalização da Irmandade Muçulmana, considerada pelos EUA uma organização terrorista.

Estas duas revoluções se caracterizaram pela falta de um controle central definido, pelo emprego das redes sociais para articular os protestos e pela falta de líderes políticos óbvios, embora em momento algum seus participantes as tenham concebido como apolíticas. O apartidarismo desses movimentos se devia unicamente ao fato de não haverem partidos políticos legais e legítimos em atuação naqueles países. Estas revoluções estiveram fortemente ligadas (biunivocamente) com o Movimento Ocupem Wall Street (Estados Unidos) e com o Grito dos Indignados (Espanha).

O caso da Líbia é sui generis, pois a tentativa americana de produzir uma revolução colorida no país levou a uma guerra civil de grandes proporções, que quase destruiu o país. Por um momento, as estratégias americanas ficaram paralisadas em torno da questão líbia.

Mas no momento seguinte temos a reação. No Egito, organizações semelhantes às que haviam atuado nas revoluções coloridas vão às ruas contra o presidente Mohammed Morsi (que, por sua vez, demonstrava um alto grau de incompetência e sede precoce de controle) e legitimam um golpe de estado que restabelece no poder homens de confiança de Washington. Temos então o começo da revolta síria, desde o início planejada já tendo em vista a perspectiva de uma evolução idêntica à da Líbia. As estratégias foram, inclusive, as mesmas (criação de um governo de oposição, que adota a bandeira anterior do país).

O último elo desta corrente é o Anonymous, uma "grife" de protestos pela internet que surgiu como um grupo de pessoas interessadas em expor a Igreja da Cientologia.

O Anonymous pode ser descrito como um coletivo informal de usuários avançados de computadores (tanto crackers como phreakers e hackers) com a adesão de inúmeros script kiddies e n00bs interessados em fama.

De 2003 a 2011 o Anonymous, cujos membros adotaram como símbolo a máscara usada pelo personagem de Hugo Weaving no filme "V de Vingança", que, por sua vez, é uma referência a Guy Fawkes.4 A partir de 2011, porém, com a prisão de dezenas de seus mais brilhantes operadores, o grupo perde sua aura heróica e passa a segundo plano. Não sem antes contribuir ideológica e estruturalmente para o conceito da e-Revolução.

[CONTINUA]

1"Por isso, garota, façamos um pacto de não usar a highway para causar impacto." (Gessinger, H. "Infinita Highway". In: Longe Demais das Capitais. BMG/Ariola: 1987.

2Seixas, Raul. "Al Capone". In: Krig-Há, Bandolo!. EMI/1973.

3 http://www.academia.edu/2446594/e-Revolution_in_Kyrgyzstan

4 "Terrorista" inglês do século XVI (uma época na qual a palavra, obviamente, ainda não era conhecida), Fawkes pretendia explodir o Parlamento Britânico, matando o rei e todos os deputados, para facilitar a retomada do trono por uma dinastia católica.

A Psiquiatria como Arma Política

Existe uma teoria, muito discutida em mesas de bar onde esquerdistas, barbudos ou não, deflagram suas ideias mais porra-loucas, segundo a qual os totalitarismos convergem de inúmeras formas, ainda que continuem diferentes em inúmeras outras. Esta teoria é análoga ao espantalho da direita, segundo a qual os fascismos (totalitarismo de direita) são de esquerda, mas contém uma ressalva que exclui o dogmatismo: as semelhanças não existem porque a essência dos regimes seja a mesma, mas porque a eficiência de certos instrumentos pode estar a serviço de qualquer sistema.

Instrumento é a palavra que cabe aqui. Instrumentos não são inteligentes, não possuem iniciativa, não são, portanto, ideologicamente fiéis. O mesmo instrumento pode ser usado por diferentes ideologias, sem que isso indique uma identidade absoluta entre elas. Uma vez mais, porém, ressalvemos que os instrumentos não são neutros, mas a ideologia que eles possuem é própria deles, e modifica os sistemas que os empregam, em vez de identificar-se com eles. E aqui chegamos a fechar o círculo.

Quando um regime começa a empregar instrumentos que foram utilizados profusamente por outro regime anteriormente, é natural que se comente que ocorre uma aproximação entre eles. Mesmo que, em essência, as diferenças permaneçam. Muitas vezes as diferenças (residuais) são apenas uma forma de manter o foco afastado daquilo que realmente mudou.

Todo mundo conhece a triste tradição de uso da ciência como instrumento político nos totalitarismos, de todas as cores. Instrumento político de promoção, como a corrida espacial soviética, responsável por inviabilizar os desenvolvimentos econômicos necessários a um país que ainda não havia completado a sua transição para uma economia plenamente industrial, ou de repressão, como o emprego de teorias eugenistas pela Alemanha nazista a fim de justificar o expurgo de milhões de indesejáveis. Menos pessoas conhecem a prática, notavelmente comum na União Soviética, de tratar como loucos certos opositores ao regime.

Esse desconhecimento se explica pelo obscurantismo proposital com que a história soviética é tratada nos meios acadêmicos influenciados pelos Estados Unidos. Nesses meios há uma profunda ênfase nos “gulag” (campos de trabalho forçado) que teriam sido responsáveis por milhões de mortes (o número alegado varia entre 6 e 60 milhões, conforme a necessidade que o “historiador” tenha para satanizar os “vermelhos”). Cadáveres são argumentos mais fortes que qualquer outra coisa, mesmo que eles não sejam tangíveis, e existam apenas em estatísticas tiradas de trás da orelha.

Ocorre que se fosse tão fácil (e tão comum) descartar os indesejáveis simplesmente pondo-os para trabalhar enxugando gelo na Sibéria sem lhes dar comida, até eles morrerem de fome e de frio, o regime certamente empregaria este método de forma indiscriminada — como fez o Khmer Vermelho no Camboja, causando a morte de mais de um terço da população do país em poucos anos. De fato não era assim: por mais que Stálin fosse bicho-papão, e eu não tenho nenhum motivo para pensar que ele não fosse, uma violência tão indiscriminada teria um efeito terrível sobre o moral do povo, pois seria impossível manter aparências de normalidade quando tanta gente está sendo morta pelo governo.

Os mais raivosos anticomunistas alegam que Stálin teria causado a morte de mais de 60 milhões de pessoas entre 1936 e 1950, quando a URSS inteira não tinha mais que 200 milhões de habitantes. Se uma hecatombe dessas tivesse acontecido, seria impossível esconder.

Verdade seja dita: muita gente morreu mesmo nos campos de trabalho forçado, e não é impossível que o número passe da casa do milhão, mas uma cifra acima de dez milhões de mortos só é possível de se obter se considerarmos que os mortos causados pela II Guerra Mundial são atribuíveis a Stálin — o que é uma batatada fenomenal, visto que Stálin estava tão interessado em entrar em guerra que chegou a assinar um pacto de não agressão com Hitler (na hora de pôr a culpa da II Guerra em Stálin os direitistas mais obtusos deixam propositalmente de mencionar o pacto Ribbentropp-Molotov).

Assim como a II Guerra é convenientemente usada para aumentar a contagem dos cadáveres de Stálin, fatores outros são postos de lado para não interferirem com a frágil verossimilhança dos dados apocalípticos do “comunismo”. Refiro-me à prática de se internar em hospícios certos opositores do regime, notoriamente os mais conhecidos.

Digo “os mais conhecidos” de uma forma meio leviana, porque o regime soviético não teve nenhum pejo em prender e desaparecer com gente muito famosa, como Isaak Babel e Sergei Eisenstein. Mas é certo que muita gente que viraria adubo segundo a versão mais radical desse anticomunismo raivoso acabou sofrendo tratamentos psiquiátricos em vez de ser simplesmente morta. E muitos nem sequer chegaram a sofrer os ditos tratamentos, sendo apenas difamados com sua loucura.

O recurso psiquiátrico — assim como o banimento — evidenciam que os “gulag” não eram a única ferramenta de repressão política no regime soviético. E isso torna difícil aceitar que tanta gente pudesse estar presa ao mesmo tempo, e com uma taxa de mortalidade tão alta.

De todos os instrumentos de repressão utilizados pela União Soviética para combater a liberdade de expressão e o direito de ir e vir de seus cidadãos, somente o banimento ainda não é empregado em larga escala pela maior “democracia” do mundo.

Sobre o banimento (que é diferente do exílio), ele era possível na URSS devido à existência de grandes extensões inexploradas. Certas pessoas recebiam como sentença um “diploma de lobo” (volchiy billet), que lhes garantia a vida caso se mantivessem a pelo menos 100 km de distância de qualquer centro urbano (e na URSS nem toda povoação era considerada “urbana”). Acredito que esta omissão se deve somente o fato de isto ser impraticável nos Estados Unidos (que têm uma área equivalente a menos de 40% da antiga URSS e hoje têm uma população 50% maior do que a URSS dos anos 1950 e 1960).

Todos os outros instrumentos de repressão estão em uso. Desde os “gulag” (ou seja a prática de prender seus cidadãos indiscriminadamente para obrigá-los a trabalhar por um salário vil) até ordens judiciais proibindo cidadãos de falarem sobre determinados assuntos, passando pela cereja do bolo: a atribuição de distúrbios mentais ao comportamento dissidente.

Os que argumentam que existe uma diferença essencial entre os presos americanos (“criminosos comuns”) e os soviéticos (“presos políticos”) ignoram o fato de que na URSS também existia criminalidade e que os EUA também prendem pessoas por motivos políticos (os Panteras Negras, por exemplo). Os que defendem as ordens judiciais de silêncio argumentam que elas são resultados de julgamentos em um país livre, esquecendo-se de que, ao contrário de lugares como o Vietnã e a China, a URSS, após sua consolidação, jamais deixou de possuir um sistema judicial funcional, embora frequentemente acontecessem mortes fora do sistema (semelhantes à de Tamerlan Tsarnaev, se é que você me entende). Não podemos deixar que a aparência externa ou a tradição nos enganem quando um sistema se modifica: o que ainda emprega os ritos da democracia pode já ter se tornado ditadura e o que segue superficialmente antigos preceitos pode tê-los pervertido na essência.

E no cerne disto tudo temos a ciência, mais especificamente a psiquiatria, sendo usada como ferramenta no jogo bruto da política.

O próprio conceito de “loucura” como comportamento aberrante e intolerável, que deve ser segregado, nunca foi superado no dito “Ocidente”, mesmo com a antipsiquiatria e outros movimentos esclarecedores. Duzentos anos depois de Phillipe Pinel, ainda vemos a loucura como algo que aparta da sociedade alguns indivíduos, uma espécie de peste da alma que, por ser invisível (visto que a alma o é), parece ser incurável (pois não há como asseverar a cura de uma doença que não apalpa, que não se examina no fluidos e que não se vê em radiografias).

Tachar de louco aquele que pensa diferente é uma estratégia repressiva eficaz. No auge da Era Vitoriana a insatisfação (inclusive sexual) das mulheres no casamento era vista como “histeria” e tratada com medicamentos ou procedimentos os mais diversos, alguns nada convencionais, como os primeiros vibradores, inicialmente usados como um instrumento medicinal. Hoje em dia uma mulher insatisfeita não é mais vista como uma candidata ao hospício, pois nossa sociedade evoluiu a ponto de um casal poder discutir a relação.

Da mesma forma que a mulher insatisfeita era vista como louca, o cidadão soviético que não se conformasse com o paraíso terreno criado pelo comunismo era visto. Somente um lunático renunciaria ao sistema perfeito para almejar o tipo de inferno criado pelo capitalismo desenfreado. Mas em alguns casos doenças convencionais da psiquiatria funcionavam apenas como rótulos (des)qualificantes para indivíduos cuja reputação precisava ser desconstruída. O indivíduo dissidente, desmotivado e sem o respeito de seus pares, não conseguia passar adiante a “loucura” de suas ideias.

Esse uso da psiquiatria para impor limites à dissidência vem crescendo assustadoramente no chamado “mundo livre” (ou seja, nos Estados Unidos, auto-intitulados “terra da liberdade”).

Começou com a identificação do “autismo brando”, ou seja, síndromes comportamentais moderadas ou leves que afetam o modo pelo qual um indivíduo se relaciona com os demais. Em geral os autistas são pessoas brilhantes porque abstraem-se de uma série de fatores ambientais e se permitem dedicar toda a sua atenção ao que é o seu foco de interesse. Mas quando a Associação Psiquiátrica Americana associa o comportamento que permite tal brilhantismo a um tipo de “distúrbio mental”, temos que pessoas que em outras épocas seriam celebradas por seus feitos (Leonardo da Vinci apresentava indícios vários de comportamento autista moderado) hoje são desqualificadas como “freaks” e usadas como tema de esquetes humorísticos. Assim, um homem brilhante como Richard M. Stallman, por supostamente ser Asperger, tem suas ideias frequentemente ridicularizadas.

Depois veio a “depressão” (esta palavra, um dia, já significou apenas uma tristeza prolongada, e antes disso era não tinha nenhum sentido psicológico). A tristeza, que em outras épocas inspirou homens e mulheres geniais a produzirem obras transformadoras passou a ser tratada com Prozac. Hoje em dia Van Gogh tomara Lítio e Prozac, faria da pintura seu hobby apenas, e ganharia a vida como comerciante ao lado do irmão. Passamos então à recente tentativa da APA para classificar o luto prolongado como uma doença mental, tratável, claro, com algum tipo de droga psicoativa receitada por um médico.

Mais recentemente os psiquiatras identificaram o Distúrbio Oposicional Desafiador (Oppositional defiant disorder), que explica porque certos jovens resistem à autoridade de pais e professores. Embora seja possível que certas crianças e jovens tenham, de fato, um comportamento excessivamente rebelde, é preocupante imaginar um tratamento químico da rebeldia que em outras épocas causou revoltas, fugas, obras de artes ou apenas inocentes bobagens juvenis. Monsieur Rimbaud: dá esta pílula ao jovem Arthur para ele parar com essa história de poesia e esse comportamento efeminado com o Monsieur Verlaine.

E então chegamos à cereja do bolo: a Síndrome do Idealismo Pós-Adolescente. Segundo os psicólogos forenses americanos, o recruta Bradley Manning, responsável pelo vazamento de diversos segredos militares sujos dos EUA, agiu motivado por uma “vontade de mudar o mundo”. Antigamente se dizia que o mundo muda por causa das pessoas irrazoáveis. Bradley Manning resolveu agir de forma não razoável porque se fosse racional ele não faria nada e não causaria nenhum efeito. Ele é o tipo de pessoa que faz a história, geralmente morrendo no processo, ou, em termos mais românticos: um herói. Mas hoje em dia a psiquiatra nos diz que idealismo é coisa de adolescente e esse sonho de melhorar o mundo não combina com saúde mental.

Sim. Um indivíduo dotado de uma ingenuidade adolescente e de um desejo irrazoável de mudar o mundo, e que se expõe a grandes riscos, às vezes causando grandes catástrofes. O que antigamente se chamava de “herói” hoje é chamado de “adulto imaturo”. Esse negócio de lutar contra o sistema, de querer melhorar o mundo, isso não é coisa de adulto. E é uma loucura também, mesmo que branda. Talvez já tenham até inventado algum remédio para isso, ou dizem que inventaram.

Assim, como quem não quer nada, uma psicóloga vinculada à Marinha dos EUA acaba de reduzir a uma mera classificação pseudopsiquiátrica tudo aquilo que há de mais nobre e de bonito na humanidade. Tudo porque uma pessoa dotada de tais valores não poderia ter agido de outra forma diante de evidências massacrantes de que o exército de seu país agira criminosamente. Como o herói está contra nós, é preciso desqualificá-lo como tal, e se o trabalho for muito duro, desqualificar o heroísmo em si já é uma ideia boa, pois mata todos os futuros coelhos na mesma paulada.

Ninguém acha isso anormal? Será que o mundo ficou tão louco que as pessoas resolveram considerar anormal justamente aquilo que constituiu um dia a força moral das sociedades humanas. Quantas pessoas que um dia admiramos seriam diagnosticadas com “síndrome de idealismo pós adolescente”? São Francisco de Assis, Castro Alves, Thomas Edison, Gandhi, Bolívar, Pancho Villa, Martin Luther King, Abraham Lincoln, José do Patrocínio. Penso que até Jesus Cristo.

Das ist das Heil das sie bringen

Aliás, principalmente ele. Começando como uma criança padecente de Distúrbio Oposicional Desafiador (a julgar pelas lendas apócrifas e, principalmente, pela sua discussão com os doutores da lei) e depois com uma síndrome de idealismo pós-adolescente, que o fez largar a casa dos país e sair pelo mundo pregando aos pobres um tal “reino de Deus”.

A Psiquiatria está, aos poucos, encontrando tratamento para tudo aquilo que existe no ser humano e que lhe permitiu criar o que de melhor nós temos no mundo. Esse é o preço que o totalitarismo nos cobra pela paz que oferece. Bradley Manning, o idealista pós-adolescente, é o primeiro de uma série cujos feitos, em vez de celebrados em verso e prosa, serão considerados um tipo de loucura.

O Trote como uma Expressão do Conservadorismo Social Brasileiro

Sempre fui contra o trote, e isso independe de ser trote machista, homofóbico ou o que seja. Minha análise é visceral: o trote é um instrumento de controle da ascensão social das classes oprimidas, originalmente concebido para uso direto das classes opressoras e posteriormente manipulado em seu nome pelos anteriormente aceitos, criando uma “cultura” continuísta deletéria a todos os valores que supostamente são praticados na vida acadêmica. E o trote brasileiro, como costuma acontecer por aqui com quase tudo, tem adquirido gradualmente um aspecto cada vez mais bestial.

Os trotes descendem das cerimônias iniciáticas das antigas religiões. Os gregos, por exemplo, tinham rituais que envolviam embebedar os neófitos e fazê-los participar de orgias (culto de Dioniso) e submeter os homens a provações físicas extremas (Olimpíadas) etc. A submissão dos jovens aos seus “mestres” (efebofilia) era proverbial. Embora não haja registros diretos disto, existem certos indícios de que certos cultos de mistérios incluíam o acasalamento de mulheres com animais (mito de Pasifaé, mito dos sátiros). Outros povos anteriores sempre tiveram seus rituais de iniciação, nem todos tão sistematizados quanto os gregos.

Não farei aqui um histórico detalhado dos ritos de iniciação antigos porque isto vai muito além dos objetivos modestíssimos desse artigo, que é uma breve reelaboração de um comentário deixado no blogue “Escreva, Lola, Escreva” em resposta a um artigo sobre os acontecimentos recentes durante o trote de início de ano na Universidade de São Carlos, no estado de São Paulo. Basta-me pincelar amplamente que existe uma relação de continuidade do trote universitário, criado na Idade Média, com os ritos de passagem dos povos antigos (alguns bastante dolorosos, como a circuncisão, uma espécie de “trote” imposto por certas religiões e costumes tribais).

A Igreja Católica aboliu os antigos cultos e suas práticas apenas gradual e nominalmente. No fundo, foram adaptados em festivais e ritos cristãos, mas continuaram existindo humilhações (como a raspagem do cabelo das noviças e os jejuns) e demonstrações públicas de estoicismo, como o andar sobre as brasas da fogueira de São João. Para os monges e freiras era pior, pois, de certa forma, era como se a vida religiosa fosse um trote para entrar na universidade de Deus.

Os alunos das primeiras universidades criaram suas iniciações para testar se os novos alunos eram “dignos” dos diplomas que ostentariam. Tal dignidade incluía certos valores morais, como a disposição de “fechar” com os valores do grupo (corporativismo). Isso era importante em uma época durante a qual os segredos de certas profissões eram heréticos e sua revelação poderia ensejar grandes perseguições contra seus praticantes (como de fato houve contra os fisiologistas pioneiros, por exemplo). Um dos meios de se evitar que o neófito eventualmente desse com a língua nos dentes era levá-lo a cometer um crime, acobertado pela irmandade. Caso futuramente ele não se mostrasse digno, sua participação seria revelada, destruindo sua reputação e provavelmente custando-lhe a vida. Estuprar camponesas ou cometer sacrilégios eram boas opções. Os maçons incluíam em seus ritos práticas e ícones notoriamente controversos, facilmente interpretáveis como satânicos, justamente para que, no caso de haver uma quebra de sigilo, todos os envolvidos serem inculpados (a Inquisição salvava a alma do arrependido, mas não o seu corpo).

Sobrevivem nos trotes universitários elementos desse trote original que buscava trazer a solidariedade pelo crime. Um bom exemplo é o Dia da Pendura praticado pelos futuros advogados. Em algumas faculdades, os calouros são instados a participar de um lauto jantar em determinado restaurante, sem pagar a conta. As más línguas dizem que é para que o futuro causídico aprenda desde cedo a apoderar-se do alheio… Os advogados que se ofendem com isso certamente não consideram que a maioria das pessoas chamaria isso de roubo. Maioria constituída pela totalidade da população menos os advogados.

O trote não sobrevive apenas no Brasil, mas em outros lugares ele mudou de figura ao longo do tempo, indo numa direção diferente. Nos Estados Unidos, por exemplo, o aluno entra em uma fraternidade para participar da vida social da universidade. Não ser membro de uma significa ser excluído. Nem todas as fraternidades têm prestígio igual. Algumas são patrocinadas por nomes famosos, ex membros seus. Algumas chegam a ter fama internacional, como a Skull and Bones, da Universidade de Yale, à qual pertenceu George W. Bush, presidente americano. Ao pertencer a uma fraternidade, secreta ou não, o aluno usufrui de sua “proteção” e de sua influência, não só durante o curso, mas em sua carreira posterior. Conseguir entrar para uma boa fraternidade abre portas, mesmo se o seu talento for pouco notável, o que explica que um homem como George W. Bush tenha chegado à presidência americana. Falhar em entrar para uma delas pode ser uma sentença de morte acadêmica: a constante pressão dos demais alunos pode dificultar as mais simples das tarefas quotidianas, prejudicando as horas de estudo, interferindo em experimentos ou até danificando manuscritos. Episódios que podem resultar em reações indisciplinadas, que prejudicam ainda mais o futuro profissional da vítima, manchada por um comportamento inadequado. Em um mundo no qual o sucesso a qualquer preço é exigido dos alunos, que estudam em universidades cada vez mais caras, isto explica que alguns percam a cabeça e usem de violência. Adicione à equação aquela típica facilidade americana para comprar armas e você tem explicação interessante para os tiroteios em escolas e universidades.

Lá como cá, porém, o trote é um instrumento de poder, que reflete estruturas de poder existentes dentro e fora do ambiente acadêmico. Em vez de selecionar neófitos confiáveis para proteger um segredo profissional, o trote hoje seleciona adeptos dispostos a aceitar o enquadramento social que lhes seja imposto, ensaiando assim o papel subalterno que se espera que estes futuros profissionais tenham ao saírem da graduação, pois no Brasil ainda impera mais o poder da grana sobre o poder do conhecimento, e não é incomum que o diplomado vá trabalhar sob as ordens de alguém que não possui graduação. Antigamente o coronel semi analfabeto tinha ao seu serviço o doutor advogado, o contador, o padre, o médico etc. Não era conveniente que esses profissionais tivessem uma atitude arrogante, deviam ser desde cedo treinados a ter a cabeça baixa. E abaixar cabeças é uma das funções do trote que, como a raspagem da cabeça dos recrutas, não tem finalidade prática a não ser a subjugação do ego.

Não é uma cena de filme pornográfico sadomasoquista

Porque os trotes quase sempre envolvem a “submissão” do calouro ao veterano, ensaio da submissão do profissional ao mercado. Para filhos dos milionários, o trote pode ser mais benigno, muitas vezes substituído por “dar festas” — uma espécie nada sutil de exibição do poderio econômico, que já qualifica o “festeiro” como alguém que é do grupo e que, por isso, não precisará ter a cabeça baixa na vida. Em outras épocas e países, os trotes foram usados também em questões nacionalistas. Estudantes galeses, por exemplo, seriam humilhados pilhados conversando em galês dentro das universidades britânicas. E isso foi parte importante na supressão da cultura galesa.

No Brasil, que costuma exarcebar o que outras culturas têm de ruim, o trote virou uma instituição, que choca a sociedade como um todo, em vez de ser só um segredo podre dentro dos portões das universidades. Aliás, nem poderia ser de outra forma, pois a maioria de nossas instituições de ensino mais antigas não goza da privacidade das americanas e nem de sua autonomia política. Então o trote deixa de ser algo que acontece dentro das “casas de fraternidade”, de forma não só tolerada, mas protegida pelo sistema. Deixa de ser uma “festinha” para a qual é fácil fechar os olhos, desde que se tenha o cuidado de não matar, mutilar nem engravidar ninguém, do tipo “se todos amanhecerem inteiros, então não aconteceu nada”. Ao sair para as ruas, o trote esfrega na cara do século XXI como nós ainda somos primitivos, e isso incomoda. Incomoda, mas continua.

O episódio mais recente na história dos trotes bestiais brasileiros aconteceu em São Carlos: incomodados com o protesto de um grupo de feministas contra a degradante submissão a que as calouras eram submetidas, um grupo de veteranos exibiu-lhes os seus genitais, atitude que, comportamentalmente falando, está um passo apenas acima de atirar excrementos. O que se expressa como machismo nesse caso reflete uma estrutura mais profunda de perpetuação de um sistema de “controle” da ascensão social, que envolve não só a opressão horizontal (misoginia e homofobia), mas também a opressão vertical (dita luta de classes).

Exibir os genitais é uma tentativa bizarra e infantil de mostrar “eu tenho e você não tem”, usando o pênis como um símbolo de poder. Alguém associará esse ato com as concepções arquetípicas de Jung, que nos lembram que tais símbolos são fálicos: lanças, espadas, vara, cetros, báculos, batutas, cassetetes. Não é à toa que existem palavras como “varão”. Esses atos, porém, não ocorrem de forma totalmente espontânea: são alimentados pela mídia manipuladora.

Dia desses, em um bate papo informal, dei-me conta de algo estranho, que certamente não é casual: vocês já repararam que desde o início das restrições à publicidade de bebidas alcoólicas a baixa música popular passou a investir no álcool como tema? A música sertaneja, por exemplo, nunca cessou, de 2006 para cá, de ter um sucesso mencionando cachaça. Houve casos mais escrotos que chegaram a mencionar marcas comerciais, como a música que Seu Jorge fez para a cachaça Sagatiba e um recente sucesso de funk-sertanejo mencionando a vodca Absolut. E isto simultaneamente à Lei Seca no trânsito e a grandes campanhas governamentais de combate ao alcoolismo. Será que isso é por acaso? Alguns dirão que letras sobre alcoolismo sempre existiram e sempre existirão, mas será que elas existiam em tal quantidade e apresentando-o de forma sempre tão positiva?

Dito isto a respeito do álcool, que pensar dos temas sexuais na música popular? Qual é o principal tema dos funks, sertanejos e outros? Nada é mais semelhante do que a figura troglodita de um machinho idiota balançando o pinto em cima de um trio elétrico do que as letras desse tipo rasteiro de música. E quem aqui acredita que a música popular é assim porque simplesmente os artistas e o povo “querem assim”? As pessoas aprenderam a querer isso porque é isso que lhes é dado desde a mais tenra idade através do rádio e da televisão e, recentemente, outros meios de comunicação mais novos.

Será que faz sentido pensarmos em lutar contra o machismo e a homofobia sem pensarmos em uma luta mais ampla contra as manipulações midiáticas que ecoam e amplificam esses sentidos primitivos? Acho que o inimigo é maior do que um grupo de alunos de uma universidade, mas é bom usá-los como exemplo, porque da mesma forma como se pode implantar a ideia da banalização do sexo através de uma música comercial manipulada, pode-se implantar a ideia do respeito ao próximo através de ações pontuais, mas consistentes. Está mais do que na hora de socializarmos esses episódios, deixar de vê-los como “problema da calourada”. Só porque já passamos por isso, não temos a obrigação de passar adiante a imbecilidade de que fomos vítimas ou partícipes.

O trote universitário, mesmo o tal “trote solidário”, precisa acabar. E digo que até o solidário precisa porque este nada mais é do que uma dourada pílula com o mesmo significado de rito de passagem imposto. E serve como cortina de fumaça para a perpetuação de relações impositivas que vão muito além das salas de aula.

A Crítica Anarcocapitalista ao Estado

A posição anarcocapitalista é de uma inépcia total. Porque parte do princípio de que o mundo é simples (ele sempre é, se você deixa de lado os fatores que o complicam) e que, portanto, seria possível existir um Estado simples para administrá-lo. Veja bem que eu não estou desconsiderando totalmente, como inepta, a posição minarquista: apenas acho que um Estado simples deve, também, ser pequeno. Mas se for pequeno, só poderá ser pequeno se todos os demais também o forem. E mesmo que todos sejam, eventualmente alguns se aliarão, para usufruir da vantagem real de serem maiores unidos. Então a existência de Estados grandes é uma realidade dada, com a qual temos que nos conformar — tanto quanto o capitalismo o é. Quaisquer alternativas propostas são utópicas.


Veja bem, você diz que o Estado somente deve garantir a segurança de uma pessoa contra as outras na questão da força bruta. Isto, claro, parte do princípio de que o Estado foi criado para proteger os cidadãos — o que é uma compreensão errada da História herdada de Thomas Hobbes (estou educado hoje, pode me chamar de miguxo). O Estado não surgiu para proteger os indivíduos uns dos outros. Ele é uma extensão da tribo (ou clã), que é uma extensão da família. A família (no sentido estendido e originalmente poligâmico) surge para proteger as crias (e em certa medida os seus membros adultos) contra os predadores e contra outras famílias. Você vê isso funcionando ainda entre os macacos antropóides. O clã (grupo de famílias) e a tribo (grupo de clãs) surgem para proteger as famílias contra outras famílias (você não vê mais isso entre humanos, só lê em livros de História, e os macacos ainda não chegaram a esse ponto). Não existe aí uma preocupação com o indivíduo, mas com a sobrevivência coletiva. A individualidade é uma invenção relativamente recente na História.

Quando você tem clãs e tribos, as famílias passam a alimentar-se e defender-se com mais eficácia: surge o pastoreio (você não pastoreia gado sozinho), a agricultura (ainda transumante, mas já importante e precisando de trabalho especializado). É em algum ponto por aqui que temos o surgimento da língua e da religião, que explicam e justificam a existência dos clãs e suas regras (clã X não casa com clã Y, um clã não briga com outr etc.).

O Estado surge onde desafios grandes se impõem: observe que o Estado surge inicialmente nos lugares onde a sociedade só pode existir pela união contra as forças da natureza. Cheias do Nilo, do Tigre/Eufrates, do Indo, do Bramaputra, do Yang-Tse. Onde não existe essa necessidade de grande coordenação a sociedade surge tardiamente. Sim, esse determinismo geográfico é puro marxismo, mas você tem toda liberdade para me arranjar outra explicação para esta incrível coincidência entre agricultura dependente de irrigação e surgimento de civilizações. Cento de cinquenta anos de determinismo geográfico marxista estão aguardando serem derrubados por você. Não quero, porém, ser dogmático. O determinismo geográfico marxista não é uma explicação universal para tudo (embora ele explique, por exemplo, por que não se pratica muita agricultura na Groenlândia e porque a navegação não foi inventada pelos mongóis).

O contratualismo (um termo horrível e equivocado para descrever um fenômeno real) reflete esta necessidade: as pessoas não estão juntas porque alguém as obriga, mas porque, desde a pré-História, quem estava junto ficava vivo e os outros não. Ser banido era uma sentença de morte piorada: o cara morreria sozinho e ainda deixaria de ser contado entre os «espíritos» da tribo.


Existe um erro fundamental do anarcocapitalismo. Um erro realmente boçal. O erro foi cometido por Ayn Rand, que leu Nietzsche e não entendeu. O individualismo de Ayn Rand é uma bastardização do conceito nietzscheano do «homem superior». Mas esta descendência depende de um erro de tradução. Que beleza você criar uma filosofia porque um tradutor errou. Nietzsche não era um egoísta no sentido hoje aplicado pelos anarcomiguxos, ele não se insurge contra a sociedade em si, mas contra um tipo específico de sociedade, contra uma cultura abordagens paliativas dos problemas.

Um bom exemplo disso está no «Assim Falou Zaratustra». Ao comentar sobre as esmolas dadas ao mendigo, o filósofo afirma que nada é tão «sujo» (no sentido ético) do que dar ou receber esmolas e que o ato de «caridade» constrói, de fato, uma relação de inveja e de ressentimento (do lado de quem recebe) e de falsa santidade e auto elogio (da parte de quem dá), pervertendo as virtudes de ambos. Para evitar isso, Zaratustra propõe que sejam definitivamente abolidos os mendigos. Muitos leitores superficiais identificam na proposição uma convocação ao genocídio dos pobres (e muita gente na internet já deve estar urrando, sem ter lido o livro), mas o contexto é claro: É preciso acabar com a instituição da mendicância, não com os mendigos fisicamente. É preciso evitar que as pessoas sejam reduzidas à mendicância, não matá-las quando estiverem nas ruas. É preciso construir uma sociedade na qual não haja mendigos, ou haja tão poucos que seja possível atacar o problema topicamente.

Nietzsche não propôs nada parecido com esse endeusamento do ego que a Rand propôs (e que foi exacerbadoi ainda mais por seus seguidores anarcomiguxos). Ele propôs um hovo homem, sim, um «Übermensch», mas este ser hipotético não seria um indivíduo isolado e melhor que os outros, seria um homem que alcançou a compreensão e o pertencimento a uma humanidade melhor. Melhor não porque restrita a privilegiados, mas porque resultante da abolição dos valores corrompidos da sociedade ocidental, doente de uma «mentalidade de rebanho». Rand provavelmente não sabia ler alemão (ou não se deu ao trabalho de ler) e não percebeu que Mensch não é um sinônimo de Mann e que, por isso, o sentido do termo empregado por Nietzsche não corresponde ao do ideal egoísta propalado por uma pseudo filósofa americana. Mann é homem/indivíduo enquanto Mensch é homem/pessoa, mas esta «pessoa» possui uma acepção sutilmente diferente da palavra portuguesa, mais no sentido de possuidor de qualidades humanas do que no sentido de pessoa enquanto indivíduo . O Übermensch não é um indivíduo superior, mas o membro de uma «humanidade superior».

Desse erro total e incontornável cometido por Rand ao ler Nietzsche surge sua glorificação do egoísmo, que é uma filosofia de grande sucesso porque ela, afinal, ajusta os desajustados de forma que eles se sentem superiores sem que tenham de fazer qualquer concessão. É sempre uma ideologia de sucesso aquela que prega não haver necessidade de mudança e tudo que os calhordas querem é um motivo para se mostrarem como «bons» (no sentido social do termo). Rand ordenha essa «Vontade de Potência» de gerações de jovens inseguros (entre eles até o Neil Peart, baterista do Rush, hoje já curado) e cria um verdadeiro culto em torno de si (leia mais procurando referências na Internet, sobre as esquisitices envolvidas, incluindo os favores sexuais que exigia dos mais chegados).

Ocorre que o egoísmo, ou seja, o individualismo levado às últimas consequências, é algo que só se tornou possível em nossa sociedade atual, na qual a família se reduziu ao núcleo doméstico (mesmo ele incompleto muitas vezes) e onde sucessivas gerações foram criadas na base da punição/recompensa em termos materiais, sem nenhuma educação moral ou conhecimentos profundos de filosofia. Esta ignorância é um grande espaço em branco, pronto para ser preenchido com qualquer ideologia simples e confortável. O resultado é o Dâniel Fraga (mas eu tenho uma teoria que ele está só trollando e em breve vai começar a pedir favores monetários e sexuais de seus seguidores) e toda uma geração de pessoas que se sentem bem como estão e padecem de um pavor de terem que, de repente, terem que lutar para mudar o mundo.

«O Julgamanto»

Tradução de um trecho avulso de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (obra que se acha em domínio público, tradução feita por mim, ao improviso, já aviso). Com um título novidadoso, homenageante aos recentemente condenados. Dedicado aos que foram condenados, independente de serem ou não culpados, não pelo que fizeram, mas pelo que são.


Disse-lhe o gato
ao rato: «Venha
logo seu bobo
jogarmos
um jogo:
Vamos
ambos
à lei.
Eu lhe serei
promotor
e tu réu.
Venha agora
o tribunal
não demora.
Julgaremos
teu mal
no final.
É que
hoje estou
sentido
e vazio
e mal consigo
o que sirva
para fazer.»
Disse-lhe
o pobre rato
ao gato:
Um júri assim
de improviso,
companheiro,
sem juízo e
nem jurado,
tão sorrateiro
seria errado,
uma perda
de tempo.»
«Júri
e juiz
posso eu
mesmo ser»,
Explicou,
esperto,
o bichano.
«Farei
de tudo
no ato,
que a ti, rato,
réu nato,
condenará,
sem pena,
ao prato.»

Permita a reprodução em qualquer meio, com crédito ao tradutor, que soy yo, se possível sempre com link.

Nome aos Bois



Tudo começou quando um desconhecido me chamou no bate papo do Facebook parabenizando-me pelos textos que publico neste blogue. Foram vários elogios, que me deixaram muito feliz, claro, mas não é deles que vou me gabar. Houve um certo momento durante a conversa virtual em que o meu fã distante fez-me uma pergunta que me chocou sobremaneira:

— Como é foda ser anarquista no mundo de hoje, não é mesmo?

Meu choque se explica: eu nunca me definiria como anarquista, nem que me pusessem uma faca no pescoço. Morreria negando. Aliás, já foram muitas as oportunidades em que me dissociei fortemente do anarquismo, a que já chamei de «pensamento porra louca», «sonho irrealizável», etc. Muitas as vezes em que sugeri que anarquistas deveriam mudar-se para a Somália (de fato e de direito o único lugar do mundo onde impera a anarquia).

Mas a verdade que eu tive que admitir é que eu mesmo sou um anarquista. Como assim?

A pergunta me chocou, mas não me surpreende mais que ela tenha sido feita. De fato, uma rápida análise do pensamento por mim expresso nesse blogue revela que eu estou dissociado demais do pensamento esquerdista majoritário, e mesmo da social democracia. Como não existe a mais remota compatibilidade possível com a direita, a solução é rotular-me como anarquista, ainda na esquerda, mas não na esquerda herdeira de Marx por intermédio de Kropotkin, Lênin e Stálin.

Dizer-se anarquista é muito difícil porque vão atirar contra mim exatamente os mesmos argumentos que eu atiro nos outros anarquistas. E com razão. Meu erro ao brandir tais argumentos, erro derivado de minha incompreensão do meu próprio anarquismo, era o de imaginar que o anarquismo seja alguma coisa prática. Isso non ecziste.

O anarquismo é a suprema utopia. Algumas utopias parecem realizáveis em um prazo curto, médio ou longo. Outras parecem simplesmente irrealizáveis, mesmo tendo todo o resto da vida do universo para tentarmos. Entre as mais abstratas delas, o ideal da República platônica e o anarquismo. Nenhum das duas ideias é para ser levada a sério. A primeira porque condiciona o bom funcionamento do governo à virtude pessoal dos governantes e a segunda porque condiciona a paz social à boa índole de todo a sociedade. Msmo sendo anarquista eu concordo com Thomas Hobbes e prevejo que a ausência do Estado provocaria algo muito diferente de uma paz paradisíaca. A Somália serve-nos de exemplo: bellum omnia omnes.

Isso explica minha relutância em reconhecer traços de ateísmo no que penso e escrevo, mas não invalida a minha necessidade de pensar e escrever as coisas desse jeito. Penso e escrevo como um anarquista porque somente alguém desconectado de fidelidades ideológicas pode reconhecer e criticar falhas que cada ideologia tenha. Ser anarquista não é somente propor a destruição do Estado, é não aceitar ser tangido por ideias preconcebidas, por projetos alheios. Ou tentar resistir.

Ser anarquista no mundo de hoje é ver que por todos os lados projetos ideológicos estão calando vozes dissidentes, impondo verdades, estruturando formas de dominação. É denunciar pelo menos alguns destes mecanismos. Assim, o anarquista acaba servindo à democracia, mesmo que preferisse uma sociedade sem Estado. Se o Estado é inevitável, que seja democrático. Esse foi o pragmatismo que levou os anarquistas a formarem um governo de coalizão na Espanha republicana, e a fórmula através da qual meu livre pensamento não se leva a rejeitar minha pátria e uma parte das ideologias a ela relacionadas. Se é para servir a alguém, que seja ao meu povo, e não a um povo estrangeiro. Se é para viver sob um domínio, que seja o da lei. Se é para haver uma hierarquia, que seja laica. Se é inevitável um governo, que seja democrático. Se é para haver um Estado, que promova o bem comum. E o bem comum tem de ser bom para todos, ou para a maioria possível.

Então não me mandem para a Somália. Mas tampouco me mandem para onde o Estado é forte demais e o povo não consegue ser ouvido.

O Neonazismo e os Novos Movimentos Religiosos

Mircea Eliade (autor da História das Crenças e das Ideias Religiosas), no prefácio de seu Dicionário de Religiões, afirma que a definição de «religião» é algo tão complicado que ele prefere furtar-se à obrigação de fazê-lo, e sai pela tangente afirmando que «religião é aquilo que os religiosos chamam de religião». Se nem a maior autoridade no assunto ousou cravar uma definição rigorosa do termo, longe de mim fazê-lo, eu que nunca escrevi nada que se compare às suas obras. Deixo a tarefa, digna de Sísifo, aos meus leitores, caso eles ousem embrenhar-se neste debate esdrúxulo.

Ocorre que, mesmo sendo tão difícil precisar o que religião é, segue interessante comparar movimentos e instituições que reivindicam para si um caráter religioso com outros movimentos e instituições que não o fazem ou mesmo o negam peremptoriamente. Tais comparações fazem saltar à vista a imprecisão das fronteiras ente religião, mito, ideologia, conto de fadas ou mera crendice. O discernimento só é possível quando analisamos os exemplos extremos de cada categoria. Mas não é certo pensar que somente os exemplos extremos são verdadeiros.

Neste artigo pretendo fazer uma comparação entre o (Neo)nazismo e os Novos Movimentos Religiosos, para demonstrar como o modus operandi de uma ideologia decididamente secular pode ser semelhante, ou mesmo análogo, ao de uma religião. Mas para chegar a isto é necessário, primeiro, conceituar o que se deve entender por «Novo Movimento Religioso».

Os estudiosos das religiões enquanto fenômenos sociológicos cunharam o termo nos anos 1990 para fugirem do caráter pejorativo que havia adquirido o que estava anteriormente em uso: seita (em inglês, cult). Fizeram-no tomando por base uma terminologia japonesa para as seitas religiosas surgidas naquele país no pós-guerra: shinshūkyō (新宗教), que também significa «novas religiões». Embora seja um eufemismo, criado para não ofender os poderosos líderes destas seitas, é um termo mais exato e útil, porque enfatiza um ponto com o qual todo ateu concorda: a única diferença entre uma religião e uma seita é a antiguidade (que, nos círculos religiosos, confere respeitabilidade).

Uma característica importante dos Novos Movimentos Religiosos, porém, é que, embora sejam da mesma natureza das religiões milenares, eles acrescentam elementos inesperados no caldo de cultura em que seus seguidores se banham. Um destes elementos é a quebra da tradição: os líderes de NMR são muito mais personalistas do que os profetas e pastores do passado, frequentemente escrevendo seus próprios textos sagrados e reivindicando apenas uma vaga associação com instituições passadas.

Existem inquietantes semelhanças entre ideologias políticas modernas, como o (neo)nazismo, a ufologia e o comunismo, com as religiões, antigas ou novas. As principais analogias que se pode fazer são:

CREDULIDADE. Toda religião se baseia na aceitação de teses que as pessoas normalmente não levariam a sério. A crença nestes absurdos funciona como uma espécie de chave para «abrir a cabeça» do iniciado para todas as demais coisas que terá de aceitar. O neonazismo se baseia na crença (cientificamente infundada) de que os seres humanos não são pertencentes à mesma população racial, que alguns são superiores aos outros, etc.

INSUFLAÇÃO DA AUTO ESTIMA DO ADEPTO. O item anterior nos leva ao ponto em que um indivíduo pode buscar entrar em um círculo destes para sentir-se especial. Como diz o verso de uma música do Bob Dylan, just remember you are white. Você pode ser um drogado e ladrão, mas é branco e, então, pode se pentear, fazer a barba e apresentar-se como um ser digno. Uma pessoa que tenha o perfil certo pode aderir para poder se auto afirmar como alguém especial, ainda que apenas por causa da acidental cor de sua pele. 

MISTICISMO. Há várias formas de misticismo. Normalmente associamos esta palavra a crendices em fantasmas, adivinhações ou coisas semelhantes, mas o misticismo não está obrigatoriamente voltado ao sobrenatural. Bons exemplos são o Budismo theravada, que contempla a sobrevivência da alma como um efeito indesejado, o judaísmo, que possui algumas correntes que não creem na existência de uma alma, ou o taoísmo, que preconiza a sobrevivência física do corpo como a maior recompensa. As ideologias políticas totalitárias acrescentam, porém, um tipo adicional de misticismo: um que se baseia na redenção da comunidade pelo sacrifício do indivíduo. O herói socialista ou o soldado nazista não esperam uma sobrevivência póstuma (a menos que isso faça parte de uma crença pessoal anterior), mas contribuir para o triunfo de seu ideal, o sucesso da Revolução, que produzirá a sociedade perfeita, ou a vitória ariana, que conduzirá à purificação do mundo.

EVOCAÇÃO DE GLÓRIAS PASSADAS. A palavra religião é cognata de «religar», portanto é natural que todo movimento de caráter religioso tenha um tipo de referência a um tempo mítico pretérito, ideal de beleza, pureza ou virtude. A «queda do homem», no entanto, separou a humanidade de sua perfeição original, que agora só pode ser buscada através de cerimônias, enquanto não se atingir a redenção futura, que restabelecerá o elo partido nos primórdios. Tal fica evidente no caso do nazismo quando seus ideólogos procuram ligar o movimento ao Sacro Império Romano Germânico (I Reich) e ao Império Alemão (II Reich), ou até mesmo aos povos nórdicos não romanizados, como os anglo-saxões, os jutos, os suecos, os teutões, os normandos etc. Este elemento está ausente da ideologia comunista, exceto pela adoção do termo «comunismo», que se refere ao estágio civilizatório anterior à civilização agrícola.

MITO DO TRAPACEIRO. O responsável pelo rompimento da harmonia original do mundo é um trapaceiro (trickster), que se opõe à vontade dos deuses e produz a separação das esferas humana e divina. A natureza desta oposição é quase sempre ambígua: o trapaceiro de fato destruiu a harmonia entre a humanidade e a divindade, mas o seu ato foi o responsável pela criação da civilização. Isto pode ser visto no mito da serpente no paraíso, graças a quem Jeová ensinou a agricultura ao ser humano, fazendo com que ele deixasse de ser um consumidor passivo dos frutos da estação, e também em Prometeu, que roubou o fogo dos deuses e deu-o aos homens, permitindo que fizessem para si ferramentas e armas com que tentaram desafiar as divindades. No caso do nazismo, a quebra desta harmonia original se processou por intermédio da religião cristã, uma crendice judaica. Após este momento os alemães «puros» das sagas nórdicas se tornam cordeirinhos de Deus. Esta desgraça é atenuada pela «germanização» do cristianismo, produto da Reforma protestante, mas os judeus, agora vivendo no seio da sociedade, por toda parte, se dedicam a impedir que os valores primordiais (e harmônicos) sejam resgatados. Desta forma, o judeu é simultaneamente a serpente do paraíso e o diabo.

VALORIZAÇÃO DO TEMPO MÍTICO. O tempo do mito, que é cíclico e extra terreno, representa o ideal a se perseguir. Ao diagnosticar a «decadência» da sociedade, o neonazista simultaneamente a compara com o tempo mítico que idealiza. Uma época em que ainda não havia judeus na Alemanha, e nem vinho.

SECTARISMO. A demonização dos não aderentes, a separação entre «nós» e «eles» é uma característica dos movimentos religiosos, mesmo daqueles que não se apresentam como seitas. Mesmo que uma religião não odeie explicitamente os não adeptos, ela sempre os terá em conta de simplórios, ignorantes, perdidos, dignos de dó etc. Mas nos casos mais claros, encontrados no paganismo, os adeptos de outra religião (necessariamente membros de outra sociedade) são de fato separados. O neófito nazista é convencido de que passou a fazer parte de uma casta diferente da sociedade, que tem um trabalho importante a fazer e que, devido à grande oposição que o resto do mundo tem contra a ideologia, é necessário manter-se desconfiado de todos. Isto não é diferente de religiões que exigem que seus fieis se afastem até da família e dos amigos, se estes não aceitarem acompanhá-lo em sua busca.

RITUAIS E OSTENTAÇÃO DE SÍMBOLOS. A obsessão com os uniformes e insígnias é uma característica de todos os movimentos totalitários. A tal ponto que tais uniformes e insígnias adquirem, por si, um caráter simbólico. Coloridos estandartes, bandeiras enormes, medalhas, monumentos. Esta necessidade de tangibilizar o sentimento dos adeptos.

ADOÇÃO DE UM SÍMBOLO IDENTIFICADOR. Toda religião precisa de um símbolo que a identifique, não apenas entre os adeptos, mas também entre os demais. O símbolo pode ser um resumo de determinada teologia, como o ying-yang do taoísmo, ser apenas uma insígnia (supostamente) real, caso da Magen David judaica, ou ser apenas um logotipo aparentemente aleatório (ou de origem obscura), como o crescente islâmico ou a suástica budista. Tanto o nazismo como o comunismo procuraram associar-se a símbolos gráficos simples, fáceis de reproduzir e fáceis de reconhecer. Tanto assim que estes símbolos mudaram no tempo, à medida em que as deficiências originais foram percebidas. O símbolo do comunismo fora uma mera bandeira vermelha, depois uma estrela vermelha, mas a foice-e-martelo ofereceu uma versão mais identificável. Mesmo o símbolo não sendo original ele pode ser tão forte que suplanta os significados que anteriormente tivesse. Hoje em dia raramente alguém associa a cruz a outra coisa que não o cristianismo, e a suástica está indelevelmente marcada pelo nazismo.

ARREGIMENTAÇÃO DA SOCIEDADE. Há duas formas de se organizar o povo verticalmente: através da religiosidade e através do militarismo. Ambas as maneiras estão de tal forma relacionadas que a remoção das diferentes nomenclaturas torna difícil diferenciar uma da outra. Ambas as instituições são verticais, exigem obediência, oferecem uniforme e procuram dar a cada um o seu lugar. O civil, em relação ao militar, e o leigo, em relação ao clérigo. Cada um deles é visto sob um diferente prisma de inferioridade.

PROFECIA EX POST FACTO. Para legitimar-se no presente, os movimentos religiosos procuram ver em personalidades do passado algum tipo de presciência do que dizem representar. Tal como o cristianismo reivindicou a profecia judaica para divinizar o Cristo, os nazistas citaram Lutero e Nietzsche.

ASCETISMO. O sacrifício em prol da comunidade só pode ser feito por alguém que se sacrifica em prol de si mesmo. O ascetismo tem por objetivo reduzir a vontade de viver, a ânsia de independência. O asceta está pronto para a morte, o kamikaze japonês não tinha laços mais com «este mundo» e os soldados perfeitos dos regimes totalitários são treinados para esquecer, se um dia conheceram, os sentimentos burgueses e decadentes do amor, do egoísmo, da independência, da luxúria, etc. O ascetismo se manifesta na valorização de uma figura humana submetida aos ideais do Partido ou da Igreja. O esporte, que produz um corpo «heróico» também pode ser uma forma de ascetismo. Por fim, a romantização do herói ferido na guerra (o que o próprio Hitler fez questão de dizer que era) enfatiza o valor da dor e do sacrifício do indivíduo.

CULTOS PÚBLICOS. O maior orgulho de qualquer religião é afirmar-se pela popularidade. Somente quando é seguida por um número expressivo de pessoas ela pode deixar de ser vista como algo «esquisito» e passa a interagir com o resto da sociedade em um plano de normalidade aparente. Grandes cultos também têm a função de intimidar quem neles não está: «veja como somos muitos, e você está só.» Isto explica tanto as mega igrejas das seitas neocristãs quanto os imensos comícios nazistas e as paradas militares de primeiro de maio feitas pelos comunistas.

VALORIZAÇÃO DA RETÓRICA EM VEZ DA RAZÃO. O orador totalitário, ou o religioso, está ocupado em convencer pela empatia, pelo sentimento, pela identificação. Nunca pela razão. Em vez de argumentar, ele procura despertar emoções. Produzir uma catarse, exibir-se em transe, fazer todos crerem que algo divino se manifesta por meio dele. Isto pode fazê-lo girar como um pião, balbuciar sílabas desconexas, ou discursar gesticulando e fazendo caras e bocas.

MÍSTICA DO LIVRO. Marshall McLuhan definiu a invenção da escrita como o momento em que a humanidade começou a se separar da esfera da oralidade. Ali começou a destribalização do ser humano. O poder do livro é tamanho que as sociedades letradas se impuseram, ao longo da história, sempre com facilidade. Na mitologia grega, o rei Cadmo planta os dentes de um dragão e deles nascem soldados armados para a guerra. Cadmo fora o inventor do alfabeto. O alfabeto é algo tão perigoso que ao ser plantado na terra ele dá origem à violência institucionalizada através do exército. Os povos antigos começaram a perceber esse poder, mas foram os povos menos letrados que o entenderam melhor, contemplando-o de fora. Judeus e árabes viram no livro algo divino em si, por isso criaram o conceito de «livro sagrado». Algo análogo havia acontecido no Oriente, com as Sutras budistas e os Vedas hindus, mas não tão profundamente quanto no Ocidente. A importância do livro é auto-evidente, tanto no neonazismo (Mein Kampf, que chega até a ter o título sempre citado na língua sagrada original) quanto no comunismo (com o Manifesto Comunista, de Marx, ou, na Revolução Cultural Chinesa, o Livro Vermelho, de Mao Tse Tung).

SANTIFICAÇÃO DO FUNDADOR. As biografias dos fundadores entram em um processo póstumo de sanitização e santificação, sendo gradualmente distorcidads até o ponto em que se tornam mitos. Diz-se de Buda que as solas de seus pés plantavam flores de lótus onde pisasse. Os santos fundadores do comunismo (todos, aliás, barbudos como os ícones dos santos ortodoxos) e o grande santo fundador do nazismo (Hitler) passaram a ser representados em poses heróicas, com olhares perdidos num ponto além do presente, expressões compungidas e preocupadas (Hitler) ou desafiantes e confiantes (Stálin e Lênin) ou ainda bonachonas e compreensivas (Marx).

CISMAS E EXPURGOS. Em algum momento a mensagem original é «deturpada», surgem «heresias», as pessoas se matam para ver quem tem razão. Um grupo se torna hegemônico e suprime os outros. Stálin suprimiu o internacionalismo proletário de Trótski para poder consolidar o poder no plano interno. Hitler suprimiu a SA, com sua ideologia perigosamente anticristã e as suspeitas de homossexualidade rampante entre seus membros.

DUALISMO. A maioria das religiões precisa de um Satanás ou um ser equivalente. Como já vimos, o judeu representa tal papel no nazismo, e, portanto, tudo quanto seja associado ao judaísmo, ou possa ser, se torna satanizado também. Isto leva à condenação arbitrária de quase todo pensamento divergente. No comunismo, os valores «burgueses» são o satanás sem rosto, análogo ao judeu, igualmente amorfo. Mas em ambos os casos a tangibilização é obtida através de alegorias. O judeu e o «porco capitalista» são caricaturados para melhor serem odiados, e tais caricaturas se tornam uma ferramenta «educativa».

ASPIRAÇÃO TEOCRÁTICA. A religião busca subjugar o Estado (doutrina da supremacia papal, por exemplo) diretamente, como no caso do catolicismo medieval, ou indiretamente, como no caso dos reis budistas do sudeste asiático. Na prática o Estado se torna um instrumento da religião ou ideologia. Isto fica evidente nas «trocas de guarda» ideológicas, que envolvem a substituição dos símbolos ostensivos da Pátria. Quando os comunistas triunfaram na URSS, criaram para si a bandeira vermelha com a foice e o martelo, como depois fizeram os nazistas, que substituíram a bandeira tricolor alemã pelo pavilhão vermelho da suástica. Mussolini, porém, se contentou em inscrever o fascio no centro da bandeira italiana.

MESSIANISMO. Não são todas as religiões que propagam a ideia de um Juízo Final redentor, após o qual a harmonia original do mundo será restabelecida. Mas está isso bem claro nas doutrinas das principais religiões com as quais os fundadores do nazismo tiveram contato. O nazismo se propõe a salvar o povo ariano da degradação a que está exposto, unificar suas nações, fazê-lo triunfar sobre os inferiores, etc.

SÍMBOLOS ALUSIVOS À MORTE. Bastante proeminentes no cristianismo, estes símbolos são também evidentes no nazismo (mas não tanto no comunismo). Caveira, cruz-de-ferro, cor preta dos uniformes, cor vermelha da bandeira. Se para o comunista a bandeira vermelha representa a guerra (instrumento que destrói a ordem burguesa), para o nazista representa o sacrifício de sangue em prol da pátria.

MARTÍRIO DO FUNDADOR. A mística religiosa não se completa sem que os fundadores sejam martirizados em nome de seus ideais. Mortes heróicas, nas mãos covardes do inimigo, ou o suicídio honrado para não ser pego vivo e feito de exemplo. Jesus morreu na cruz, Hitler matou-se para não ser pego, Mussolini foi enforcado de cabeça para baixo (e supostamente castrado), Lênin teria sido envenenado por agentes a serviço da burguesia (ou de Stálin, mas isso é outra polêmica).

CONSPIRAÇÃO UNIVERSAL CONTRA O FUNDADOR. O crente perfeito (true believer) nunca aceitará nenhuma crítica contra o líder. As críticas sempre serão entendidas como uma tentativa de descrédito da religião/ideologia. O pastor não rouba meu dízimo para comprar mansões no Caribe, meu führer não é um louco obcecado pelo poder, o Grande Timoneiro Mao não é um incompetente que causou uma imensa fome e nem um tarado que estuprava uma adolescente virgem por semana. As acusações são todas descartadas sem exame apenas porque foram feitas pelo inimigo, isso quando sequer são percebidas (dissonância cognitiva, a capacidade de ignorar o que não queremos ver).

MITIFICAÇÃO DO PROCESSO DE FUNDAÇÃO. Se os líderes são progressivamente santificados, da mesma forma é «milagrificado» o processo (doloroso, claro) que levou ao surgimento da doutrina. Dois bons exemplos são as vitórias bolcheviques na Revolução Russa e o «milagre alemão» sob Hitler. Ambos são fenômenos perfeitamente explicáveis no contexto. Os russos brancos eram poucos, eram divididos em facções e o apoio estrangeiro era insuficiente. Além disso os comunistas tinham apoio popular. Enquanto isso, Hitler direcionou os empregos para os homens (deixando as mulheres em casa) e começou a perseguir os judeus e algumas minorias, deixando seus empregos para os arianos perfeitos. Talvez dentro de alguns séculos as pessoas digam que Hitler também dividiu pães e peixes ou que Stálin parou o sol no céu para o Exército Vermelho terminar a batalha de Stalingrado. O processo de mitificação se completa quando a história é canonizada, tida como verdade, e nenhuma crítica ou questionamento passa a ser aceitável.

UNIVERSALIZAÇÃO. Tal como Jesus não veio senão pregar às ovelhas perdidas da casa de Israel, os nazistas não eram voltados senão aos próprios alemães (esse ponto não procede na comparação com o comunismo). No entanto, quando o destinatário original da mensagem se mostra indigno dela, esta passa a ser difundida a todo o mundo, a quem quiser ouvir. A explicação é clara: o povo original rejeitou a salvação que ela representava, o que a disponibilizou para outros povos. Isto explica porque é possível haver neonazistas nos países que mais sofreram com a opressão nazista (Grécia, por exemplo). Parte deste processo é a culpabilização do destinatário original da mensagem por sua falha. Tal como os judeus foram acusados, durante séculos, de serem responsáveis pela morte de Jesus, os alemães são vistos por alguns neonazistas como uns «frouxos» que puseram a perder a mensagem de Hitler em sua forma original.

Considerados os elementos acima, torna-se possível ver que existem muitas analogias entre o (neo)nazismo e as religiões. Pode ser que ainda precisemos de alguma boa vontade para chamar o nazismo (ou o comunismo) de religião, mas até quando? Em geral as religiões começam como meros grupos de seguidores de alguém que a sociedade enxerga como um louco, depois se tornam movimentos marginais, que muitas vezes buscam distanciar-se das religiões estabelecidas, mas finalmente se estabelecem. O que torna o neonazismo diferente não é uma característica intrínseca, mas a pouca antiguidade e a recusa em reconhecer que ele possa ser seguido como uma religião. No dia em que alguém pretender isso, será fácil de ver que, à esquerda e à direita, para o bem ou para o mal, ideologias são todas instrumentos de controle de massas.

Você está preparado para aceitar uma Igreja Neonazista em sua rua?

Manifestações Inúteis de «Sofativismo» do «Movimento Ateu»

Rejeitar «Deus Seja Louvado» das Notas de Real

Todo ateu que se preze acredita piamente que vivemos sob um «estado laico» e que, por esta razão, qualquer manifestação da religiosidade hegemônica deve existir tão somente na esfera pessoal. Isso explica porque essa gente não tolera que nossas notas de real tenham a inscrição «Deus Seja Louvado», nelas instalada por um nosso ex presidente que não se notabilizou nunca por seu cristianismo. Como essa gente não tem latim (ou bufunfa) suficiente para impetrar um mandado de segurança contra o Banco Central e a Casa da Moeda, resolve cometer um ato pessoal de terrorismo para «mostrar o dedo» ao «sistema», na melhor tradição da rebeldia punk: suja, ineficaz, ininteligível, equivocada e contraproducente. Estou falando de hábito, muito festejado nas rodinhas ateístas nas redes sociais, de rabiscar nas notas a inscrição maldita.

É um ato sujo porque emporcalha o nosso dinheiro, que já é um dos mais vilipendiados do mundo. É ineficaz porque alguns poucos idiotas fazendo isso com as vinte ou trinta notas que passam pelo seu bolso por semana não conseguem fazer ninguém notar que existe um «movimento» de rejeição ao Deus-Seja-Louvado. É ininteligível porque, mesmo se alguém perceber os rabiscos, dificilmente entenderá a mensagem de que «o estado é laico e esta inscrição viola os direitos constitucionais de isonomia entre os credos, ao não contemplar crenças não cristãs ou não monoteístas». Em vez disso, a pessoa pensará que um satanista porco estragou aquela nota. Isso, claro, é ótimo para os objetivos do «movimento ateu» — e explica porque o ato é equivocado e contraproducente.

PODIA PIORAR? Sim, sempre pode. Se rasurar a inscrição já é uma atitude tosca, existe uma maneira de levar isso ao modo berserk: encomende um carimbo contendo uma tarja preta (para cobrir a inscrição) e uns dizeres explicando o porquê em poucas palavras («o estado é laico»).

PORQUE É AINDA PIOR? Porque dificilmente as pessoas compreenderão o protesto. Continua sendo sujo, continua-se estragando o dinheiro, continua sendo irrelevante, continua sendo ininteligível porque quase ninguém sabe o que é «laico» e a maioria acha que «estado» se refere a Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, Pernambuco… 
 

QUAIS OS RESULTADOS? As notas estragadas pelos dementes serão recolhidas tão logo passem pelas mãos de um caixa cuidadoso, em qualquer agência bancária. Serão encaminhadas ao Banco do Brasil, e posteriormente ao Banco Central, como «numerário não utilizável». Serão incineradas e substituídas por notas novas. Ao rasurar a inscrição, o ateu «modinha» apenas aumentou a despesa do BaCen com a manutenção do meio circulante.

O QUE DEVERIA SER FEITO? Junte um bando de gente interessada e impetre um mandado de segurança contra o Banco Central citando o artigo constitucional que veda ao Estado estabelecer cultos religiosos (Artigo 19, inciso I da Constituição Federal). Ao inscrever «Deus Seja Louvado» no meio circulante o Estado está determinando que a divindade monoteísta seja cultuada, o que viola uma cláusula constitucional explícita. Se a ação for derrotada, então o estado não é laico, coisa alguma. Que tal mudar-se para os States? Oh, esqueci… «In God We Trust».

Debates em Blogues ou Redes Sociais Ateístas

Blogar é muito útil para quem é ateu. Pois é somente através da internet que muitas pessoas, vivendo em cidadezinhas ou em comunidades urbanas de mentalidade estreita, conseguem entrar em contato com outros que pensam igual, ou mesmo desabafar para o vento. Quem não é tão bom para escrever se conforma em visitar os blogues e páginas sociais de quem escreve e deixa lá seus comentários elogiosos. Trata-se de algo tão natural que as pessoas não percebem o quanto é inútil.

É inútil porque, para falar a verdade, cada vez menos gente lê blogues. Tenho os meus já faz quase quatro anos e até hoje só ganhei treze dólares de AdSense e tive 28200 visitantes. Então ficar vociferando contra criacionistas, «crentelhos», pastores dinheiristas, «homofóbicos» ou testemunhas de Jeová em blogues como este (ou como aquele em que você está pensando, mesmo que ele tenha mais visitantes…) é como gritar para dentro de uma caverna. Ninguém importante vai ouvir e o máximo que pode lhe acontecer é levar pela cara uma revoada de morcegos.

MAS PODE FICAR PIOR. Claro que pode. Tem gente que faz disso uma verdadeira cruzada. Só que, em vez de garbosos cavaleiros andantes lidando pela verdade, essas pessoas estão brandindo suas espadas enferrujadas contra inimigos imaginários. Chega a ser deprimente pensar que tem gente que gasta preciosas horas de sua vida «debatendo» contra crentes e criacionistas, que se orgulhe de «humilhar» os pobres «cristõezinhos». Como se esmagando baratas avulsas pudéssemos higienizar uma casa infestada de pragas. Não são moinhos de vento, não, amigo, são mesmo gigantes. E dê um abraço no Sancho Pança.

PORQUE AINDA É PIOR? Porque o criacionista não é um ser maligno em si, ele é fruto de um sistema que precisa de idiotas desinformados, convencidos de que suas certezas superficiais o tornam especial. Esse é o tipo de gente que se alista em exércitos e enfrenta o canhão do inimigo com uma baioneta na mão, que encara doze horas de chão de fábrica durante a semana e ainda vai torcer pelo seu time no domingo. Tire desses pessoas sua ilusão de que «alguém lá em cima gosta de mim e odeia meu patrão» e você terá uma revolução. Só que todo mundo já entendeu como funciona esse troço e sabe muito bem que é só não adubar o chão que a sementinha vermelha não brota. Se você realmente quer que existam menos criacionistas e menos crentes em geral, precisa provar ao «sistema» que é possível hipnotizar as massas usando outra cenoura. Enquanto as elites estiverem convencidas de que o povo sem religião vai cantar a Internacional pelas ruas, continuará estimulando esses ridículos pregadores que tentam nos convencer de que uma mulher realmente pariu caveirinhas de «prástico» porque se afastou dos caminhos do «sinhô».

QUAIS OS RESULTADOS? Quanto mais virulentos, mais folclóricos se tornam esses paladinos do ateísmo. Além do ridículo pessoal eles conseguem fazer a reputação justamente daqueles a quem pretendem neutralizar. Existe uma razão pela qual biólogos «de verdade» não debatem contra criacionistas em lugar algum, e é a mesma razão pela qual você não joga xadrez com uma pomba. Dawkins explicou isso muito bem ao se negar a debater com William Lane Craig: «tal debate ficaria muito melhor em sua biografia do que na minha». Ao aceitar debater contra pessoas obviamente despreparadas você facilmente aparece como um vilão orgulhoso, no dia em que se deparar com uma pessoa preparada, mas mal intencionada, poderá não conseguir uma vitória tão fácil e então esse seu «engasgo» será contabilizado como «vitória» pelo seu oponente. Se William Lane Craig está até hoje cantando vitória porque Dawkins «não teve coragem» de debater contra ele, imagine o que não estaria fazendo se ele conseguisse fazer uma pergunta que o biólogo britânico não soubesse responder… 
 

O QUE DEVERIA SER FEITO? Primeiro, vá estudar. Se já estudou, pense em começar a compartilhar conhecimento (e não patadas). Ajude a divulgar conhecimentos históricos, científicos e filosóficos para quem deles precisa. Torne-se um professor ou então voluntarie-se em alguma ONG ou cursinho. Seja respeitoso com essas pessoas: ignorância não é falha moral. Quando você conseguir aumentar sua cultura geral, perceberá que elas terão mais autonomia intelectual e, mesmo que nunca se tornem ateístas, pelo menos vão aprender a respeitar melhor modos diferentes de pensar e de seguir pastores folclóricos com chapelões ou gírias cafajestes envolvendo falsas dicotomias sexuais porque deixarão de acreditar que o Ser «Oni-Fodão» que criou o universo precisa de dinheiro e tem uma estranha preocupação com o uso que fazem de seus orifícios corporais.

Ler o Cânone do Neo-Ateísmo Moderno Contemporâneo e Atualizado

Não importa se Hitchens escrevia sob uma perspectiva rigidamente eurocêntrica, se Dawkins argumenta para um público familiarizado com a cultura britânica, se Sam Harris é um chauvinista americano, etc. Não importa. Somente pela leitura das obras mais recentes dos Grandes Ateus de hoje é que você se torna um ateu de verdade. Quem não leu nenhuma destas obras sequer tem o direito de opinar em voz alta, no máximo comentários curtos e respeitosos no blogue, nunca contestando o genius loci.

MAS PODE FICAR PIOR. Validar o posicionamento político e filosófico de uma pessoa com base no que leu é imaginar que as pessoas só podem chegar ao posicionamento x através da leitura, nunca por meios autônomos. É negar a autonomia intelectual que os ateus supostamente, muito supostamente, defendem. É transferir a responsabilidade pelo pensamento aos grandes centros filosóficos que, curiosamente, escrevem em inglês, a língua que tanta gente aprende bem em cursinhos pelo Brasil afora. Isso se transforma em idiota berserk quando a vítima, tão bem educada por tantas leituras úteis, começa a defender a primazia dos States e seus valores, preconizando que façamos exatamente como a elite americana propagandeia que deveríamos fazer. Lavagem cerebral auto induzida pela leitura acrítica de obras de qualidade variável, de autores muitas vezes comprometidos com a defesa dos interesses das sociedades em que estão inseridos. Esta história de «cidadão do mundo» é uma forma de dourar a pílula do imperialismo para os colonizados engolirem.

PORQUE É PIOR? Porque o «libertarianismo» que anda tão em voga nada mais é do que uma ideologia de extrema direita que descende do vigilantismo, do Macartismo, da Ku Klux Klan, dos sobrevivencialistas e do Tea Party. Esses caras negam a própria civilização ocidental, ao negar os valores sobre os quais se assentam as poucas coisas boas que temos (ou achamos que temos): a solidariedade social. Essa gente quer abolir a aposentadoria, acabar com as garantias trabalhistas, acabar com os impostos, o diabo. Consideram o Estado o seu maior diabo. Quem come desse feno com a boca boa não percebe que o Estado de fato nunca deixará de existir: essa pantomima toda é só um jogo de cena para justificar o desmonte das garantias sociais, já que estamos chegando ao fim dos tempos em que era possível sonhar com uma prosperidade universal. Entrar nessa onda de libertarianismo é como chegar numa Assembleia Geral da ONU representando seu país de cidadãos barbados e turbantados usando um cartaz escrito «Bomb Us Next».

QUAIS OS RESULTADOS? Um bando de gente que se acha inteligentinha porque comprou e leu, ou leu sem comprar, alguns livros que a maioria não se interessa em ler.

O QUE DEVERIA SER FEITO. Estudar a história do pensamento político humano. Um bom livro de «História da Filosofia» e alguns exemplares da coleção «A Obra Prima de Cada Autor» da Martim Claret já seria de boa ajuda.

Sobre a Necessidade do Isolamento

O ser humano é gregário por natureza. Desde Aristóteles (que talvez não tenha sido o autor do dito) circula a noção de que o homem é um «animal político». A animalidade (ou seja, a naturalidade) de nossa inclinação política nos faz supor que é «bom» que estejamos sempre unidos a alguma coisa: classe social, partido, religião, torcida ou fã clube. Hoje, porém, dei-me conta da relevância de ser solitário, de não estar formalmente ligado a nenhum grupo ideológico.

Grupos ideológicos são prisões mentais: eles nos obrigam a entrar em conformidade com paradigmas externos, que podem não ser mais do que a pressão da maioria. Não é nenhuma surpresa que os partidos políticos se degradem com o correr do tempo, perdendo seus ideais de juventude e degenerando em meros instrumentos de poder. Quando você optar por filiar-se a um grupo por ideologia, está voluntariamente renunciando a ter ideias próprias sobre os temas controversos ou, de outra forma, terá de conviver com uma forte dialética na qual a pressão da maioria acabará empurrando suas considerações iniciais para posições conciliatórias.

Somente o solitário detém a liberdade de estar dissociado daquilo de que discorda e de reiterar sua opinião sem considerações de ordem prática. O partidário precisa apoiar alianças que lhe causam pesadelos, o torcedor precisa ignorar os defeitos de seu time, o religioso precisa engolir o dogma inteiro. Quem apenas tangencia, sem incorporar-se, poderá, em qualquer circunstância, fazer a crítica que achar necessária e, caso solicitado, sair pela porta por onde entrou. A necessidade de estar agregado a algum tipo de organização, sociedade, clube ou identidade é mãe das incoerências mais graves: através delas somos orientados a silenciar a voz da consciência em nome de conveniências.

Esta constatação surgiu em mim como resultado de minhas sucessivas decepções com as «igrejas ateístas» que tentam organizar o «movimento ateu» no Brasil. Desejoso de abrigar-me no seu seio para superar a solidão de ser um livre pensador em uma sociedade que valoriza o rebanho, muitas vezes me vi tentado a engolir sapos ideológicos em nome dos supostos benefícios de ser parte de «algo maior». Só a maturidade nos ensina que este isto só é válido se tal «algo maior» é também algo «bom»: ser parte de uma grande máquina do mal não é algo de que nos devamos orgulhar. Infelizmente, porém, a preocupação com a repercussão social de nossos atos é um valor em crise em nossa sociedade: estamos ficando egoístas.

Se entendo essa mudança para o egoísmo como ruim, como estou a defender a solidão? Caro leitor, entenda, há uma diferença imensa entre estar só e ser um egoísta. Há pessoas que estão em meio a muita companhia, mas por motivos errados: a necessidade de estar em «algo maior» é uma motivação egoísta para buscar ajuntar-se a um movimento coletivo. Outras pessoas foram deixadas sozinhas porque não querem compactuar com valores de que discordam. Prefiro estar só porque quando me mantenho fiel a uma organização apesar de seus erros não reparados, eu corroboro os erros por ela cometidos. «Mudar o sistema a partir de dentro» é só uma história usada pelos adesistas para desculpar o gordo salário que recebem.

Dizer, porém, que estou decepcionado com as lideranças ateístas é injusto. Em primeiro lugar, nenhuma liderança é mesmo perfeita. Além do mais, lideranças razoáveis podem aceitar acomodações, negociações. Lideranças podem ser trocadas. O problema do «movimento ateu» brasileiro, só agora vejo, não está nos líderes, está nos liderados. Por mais que as lideranças dividam; competindo entre si por nacos de notoriedade, contagens de visitantes a seus blogues, cliques em seus anúncios, doações para suas contas, compras em suas lojinhas virtuais; sempre é no seio dos liderados que as piores decepções acontecem.

Os erros das lideranças foram muitos. Houve as que se perderam tentando estabelecer condições para ser chamado de «ateu». Outras se perderam tentando delimitar de forma mais contrastante os diversos rótulos envolvidos nos movimentos que ficam ideologicamente à esquerda da religião. Outras se envolveram em mesquinhas disputas pelo poder, que me evocaram até mesmo os equívocos mais graves de episódios históricos do passado. Outras, por fim, se perderam tentando assumir para si uma posição superior no terreno ideológico e epistemológico. Quando essa última tentativa se voltava contra as religiões e o sentimento religioso, era difícil discernir o seu equívoco, mas quando se voltava contra o próprio «movimento ateu», então o difícil era ignorar que se estava esgrimindo conceitos filosóficos excessivamente abstratos com o objetivo único de «demarcar território» e desqualificar pensamentos divergentes. Quem detém o controle da terminologia, tem o poder de validar ou invalidar os pensamentos originados de fora da «torre de controle», o que é uma capacidade muito útil quando se busca erguer uma ideologia eficiente, e lucrativa.

Não bastassem esses problemas todos com as lideranças (reais ou fruto de auto-engano, legítimas ou impostas), ficou evidente para mim algo ainda pior: a tendência do «baixo clero» em aviltar o movimento, monstrando-se ávido por más notícias sobre a religião, rápido em aplaudir tudo que as «desmascare» e impiedoso em sua falta de limites éticos para exercer estas tendências. Por mais que dentro de campo estejam jogando 11 cavalheiros engravatados e bilíngues, como nos tempos do futebol elitista de inícios do século xx, as arquibancadas rugem com espectadores como os do coliseu romano, sequiosos de sangue.

Dois episódios específicos me chamaram a atenção. O primeiro foi a reação de algumas pessoas no seio do «movimento ateu» diante da morte do ator Thiago Klimek, que interpretava Judas Iscariotes em uma «Paixão de Cristo» amadora. O segundo foi a tendência direitista que o Partido Laico Humanista vai tomando.

No primeiro caso, o absurdo de praticamente «comemorar» a morte de uma pessoa que não estava fazendo nada mais que praticar a arte que amava. Rir da desgraça alheia nunca é algo bonito, mas fica ainda pior quando o motivo do riso é ideológico. Se o ator tivesse morrido interpretando Santos Dumont ou Tiradentes o caso não mereceria tanta ironia.

No segundo caso o problema não está na tendência direitista em si, mas no tipo de conteúdo trollesco e desrespeitador que está sendo compartilhado lá; e que me fez deixar o grupo. Não há como iniciar um projeto político de grande envergadura se não houver respeito de parte a parte. Não há respeito por parte dos «direitistas» a que me refiro, que estão deliberadamente procurando inflamar o debate para dividir. Infelizmente nada posso fazer, pois o grupo está na mão deles. E eles, obviamente, trabalham para destruir o grupo porque, ateus ou não, um grupo de ideologia direitista será sempre contrário a iniciativas populares.

São pessoas torpes que compartilham slogans de que religião não define caráter, mas mostram falta de caráter. Compartilham slogans de que os valores morais não são exclusividade dos religiosos, mas não demonstram ter valores morais apreciáveis. Se é verdade que religião não define caráter, também é verdade que algumas tentam, ainda que apenas de forma parcial ou imperfeita. Eu me proponho a ser um dos que tentam fazer o mesmo, só que isolado, falando sozinho na praça da internet.

Eu rejeitei a ATEA e seu líder porque não concordo que uma entidade que se propõe a representar minorias perseguidas imponha condições para que os membros de tais minorias sejam associados. Rejeitei a UNA porque as arquibancadas empoderaram um «golpe bolchevique» contra os seus moderados líderes, fazendo inclusive com que um deles se afastasse definitivamente do movimento. Rejeitei a LiHS porque não concordei com a tentativa de acobertar uma «barriga» que tomaram ao publicarem como verdade uma mentira criada por um mitômano, posteriormente rejeitei-a mais uma vez ao perceber a tentativa de manipulação ideológica que estavam cometendo. Não tenho hoje nenhuma afiliação explícita com grupo algum, sou livre e solitário. Tenho a liberdade que somente a solidão pode dar. Do alto desta liberdade eu pressinto que é uma profunda felicidade não estar associado a nenhuma destas entidades. Ou a qualquer outra, formal ou informal.

Não sei para onde estou indo. E isto é ótimo.Que tristeza seria o mundo se todos soubéssemos para onde estamos indo. Sei que, estando só, estarei exposto à covardia dos que, de um lado ou de outro, se aproveitarão de eu não ter «costas quentes» e nem companheiros que me vinguem. Já sou, porém, maduro o bastante para saber que este tipo de garantia não impede que os membros de torcidas organizadas sejam mortos. Mais importante do que o conforto ilusório dos números é a coerência de não assinar embaixo daquilo de que discordo. Passei daquela fase em que as pessoas procuram turmas. Nem nessa fase eu tive. Hoje prefiro ficar de meu lado, vendo as turmas se esbofetearem inutilmente. Um dia alguns desses crescerão e talvez tenham tempo para entender o que estou dizendo. Enquanto isso o «movimento ateu» continua seguindo a máxima de Mencken, segundo a qual quantidade total de inteligência no mundo permanece invariável.