Lula, o Gênio

Se você descobrisse que tem as maiores reservas inexploradas de petróleo do mundo e suas forças armadas estão praticamente na idade da pedra, o que faria se o maior consumidor mundial de energia, e com um histórico de invadir países ricos em matéria prima, resolvesse estabelecer uma frota de sua marinha bem diante de seu litoral?

Eu, em minha santa inocência, procuraria trazer como parceiro nestas reservas um dos maiores inimigos do tal país. E tentaria armar as minhas defesas com tecnologia comprada de outro.

A história ensina que os russos costumam ser ótimos amigos, do tipo que não abandona quem lhes deu a mão. Cubanos e sírios que o digam.

E os chineses, bem, enquanto eles não tiverem frota diante de nosso litoral e estiverem dipostos a pagar, eu acho uma ótima ideia trocar petróleo por amizade com eles.

Os BRICS foram uma sacada gigantesca do Lula, que aproveitou um artigo de um economista inglês para ter uma desculpa perfeita para começar uma aliança contra os EUA. Rússia e China não são somente dois países "emergentes" (o primeiro está mais para "submergente"), mas duas potências com poder de veto na ONU e com interesse em tudo que seja contra o interesse americano. Também têm tecnologia que nos interessa. A Índia meio que não é quente nem fria nessa história, mas sua presença ajuda a diminuir a margem de manobra ianque na Ásia, e cimenta a aliança asiática.

Recentemente, a entrada da África do Sul pretendeu sinalizar aos africanos que os chineses estão dispostos a fazer na África algo que os americanos e europeus nunca fizeram: compartilhar poder. Aos poucos os BRICS cercaram uma parte significativa do mundo, criando uma situação na qual a entrada dos EUA só poderá ser através de uma guerra total. O sucesso da estratégia ficou configurado com a crise síria, resta saber se os EUA vão ser tão medrosos quando a aposta for mais alta. Talvez até sejam, mas os russos e chineses, até lá, já terão conseguido se preparar para enfrentar o desafio.

O primeiro passo é o desmonte do dólar como divisa internacional. Rússia, China e Índia já estão comerciando entre si em rublos e rúpias (ainda não em yuans, mas isso começará em breve). China, Rússia e Índia asseguraram seu acesso permanente a todo tipo de matérias primas, ao se alinharem com o Brasil e a África do Sul. A China está formando reservas de ouro e platina (a África do Sul, maior produtor mundial dos dois metais, não entrou nos BRICS à toa). O Brasil se propôs a compartilhar o custo de desenvolvimento da nova geração de super-caças russos. Em troca, receberá a preço de banana os MiG e Sukhoi que forem aposentados da força aérea russa. O trato é parecido com o que Rússia e China fizeram nos anos 80, e resultou nos misseis "Bicho da Seda", nos foguetes "Longa Marcha", nas cápsulas espaciais "Shenzhou" e nos clones de aviões MiG e Sukhoi que a China produz. Duvido que os nossos militares fiquem tristes com a qualidade do material que terão em mãos.

Desde que foi revelado que o governo americano espionava todos os serviços de internet, quebrando a confiança até mesmo da autenticação TSL/SSL, ficou clara preocupação ianque com os rumos que a coisa tomava. Qual seria o sentido de comprar caças americanos, ou caças suecos com tecnologia americana embarcada? Esses caças seriam inúteis numa guerra contra o único país do mundo que deu mostrar de querer nos invadir: os EUA. Nesse sentido, faz todo sentido usar armamento russo. Eu até acho que devíamos ceder uma base naval e/ou aeronáutica aos russos. A Síria não se arrependeu de ter feito isso, e talvez os russos estejam interessados. Talvez apenas isso deva ser feito devagar, para não assustar o grande irmão do norte.

Sob o Signo da Águia

Marx inicia O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte tecendo uma série interessante de considerações sobre os processos históricos em perspectiva. Nos primeiros parágrafos encontramos uma das mais famosas invectivas marxistas, segundo a qual "todos os grandes feitos e personagens da história universal aparecem, como se pode dizer, duas vezes[…]: uma vez como tragédia e a outra como farsa.” A exemplo de quase toda a obra do filósofo alemão, esta frase tem sido muito mal interpretada (e não conseguirei corrigir isso, não nesse momento), mas ela expressa algo muito verdadeiro, que só fica claro quando contemplamos o parágrafo seguinte:

Os homens fazem sua própria história, porém não a fazem com o seu livre arbítrio, sob as circunstâncias que eles mesmos escolhem, mas sob as circunstâncias com que se encontram diretamente, que existem e que lhes foram legadas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E quando estes aparentam dedicar-se precisamente a transformar-se e a transformar as coisas, a criar algo nunca visto, nestas épocas de crise revolucionária é precisamente quando conjuram temerosos em seu exílio os espiritos do passado, tomam emprestados seus nomes, suas insígnias de guerra, seus uniformes, para, com este disfarce de velhice venerável e esta linguagem postiça, representar a nova cena da história universal.

Fica claro que “tragédia” e “farsa” são tomadas pelo seu sentido literário, e não pela conotação pedestre que as pessoas normalmente usam. Tragédia é uma história grandiosa e sagrada, de deuses e heróis. Farsa é uma história pequena, limitada e sem sentido. Não há caráter humorístico na segunda, e nem um final necessariamente “trágico” na primeira. O que Marx está querendo dizer é que as repetições se caracterizam pela inautenticidade, pela reivindicação de laços que são, de fato inexistentes.

Os exemplos dados por Marx falam por si em apoio a esta intepretação: Lutero como Paulo, a Revolução Francesa imitando a República Romana e depois o Império. Este artigo pretende apontar mais uma circunstância em que o passado é intencionalmente evocado para legitimar algo novo. Mas não se trata de uma evocação realmente intencional no seu todo, porque os últimos séculos têm mostrado uma estranha tendência dos fatos históricos em espelhar aquilo que houve na noite dos tempos.

Refiro-me à coincidência entre a história da antiga Roma e a história bem conhecida dos Estados Unidos da América. Citei a frase de Marx porque sei que muitos leitores a lembrarão para dizer que várias das semelhanças que vou apontar derivam da imitação intencional dos símbolos do passado. Concordo que tal imitação acontece, apenas não me darei ao trabalho de explicitar quais coincidências eu atribuo a tal imitação e quais não podem receber esta designação. Existem coisas que são mera coincidência, outras que são fruto da imitação e outras que não são nem uma coisa e nem outra, parecendo evocar uma espécie de inércia histórica que move em uma mesma direção genérica as consequências de escolhas parecidas.

Dizendo em palavras mais comuns: não será possível que um país que adote ideologias semelhantes às de um modelo passado venha a se defrontar com desafios parecidos? Será que a História possui uma inércia que permite reproduzir processos antigos a partir de escolhas e circunstâncias parecidas?

Este artigo não pretende argumentar que sim, apenas atiçar a curiosidade do leitor para a possibilidade. Uma resposta definitiva envolveria conhecimento mais profundo das histórias de ambos os países, conhecimento de um nível que não tenho nem esperança de obter. Que o leitor julgue.

Fase Formativa

Ambas as culturas foram eventualmente consideradas "novas" e "sem raízes" porque se formaram a partir de colônias fundadas por culturas mais antigas. Roma pela Etrúria e os Estados Unidos pelo Reino Unido. Ambas as culturas fundadoras eram confederações de estados: Etrúria, uma dúzia de cidades estado de cultura e instituições semelhantes, 1 e o Reino Unido, por pelo menos doze entidades políticas diferentes (embora hoje sejam somente quatro). 2

O fato de ambas as culturas serem monarquias não é exatamente uma surpresa, visto que esta era a forma de governo mais comum entre os países de antigamente, mas é significativo que Etrúria e Inglaterra sejam representadas heraldicamente por predadores carnívoros (lobo e leão, respectivamente) enquanto Roma e os Estados Unidos são representados por aves de rapina (águias, embora de espécies diferentes).

A fundação dos Estados Unidos diverge significativamente da fundação de Roma pelo fato de terem sido fundadas treze colônias, em vez de somente uma, e por não ter sido mitificada na figura de um rei divino (Rômulo). Porém, ambas as culturas foram fundadas por fugitivos. No caso de Roma, os gêmeos Rômulo e Remo foram perseguidos e tiveram negados seus direitos reais, razão pela qual, mesmo após derrotarem seu perseguidor, preferiram deixar sua cidade original, Alba Longa, e fundar uma nova pátria. Alba Longa era uma cidade mestiça, de instituições etruscas e cultura latina, tal como o Reino Unido era uma cultura mestiça, de instituições normandas e cultura anglo-saxã e céltica.

Após a criação da nova cidade, Rômulo tomou uma medida revolucionária, ao convidar a Roma todos os fugitivos e perseguidos, justa ou injustamente. Com este exército de foragidos ele iniciou o seu poder. Da mesma forma os Estados Unidos, não apenas durante sua formação, mas durante séculos, receberam refugiados de todas as partes do mundo. Esta política teve, também, consequências parecidas: no caso romano, atraiu a ira de todas as cidades vizinhas, fazendo com que a nova cidade já nascesse no meio de uma guerra, que obrigou seus cidadãos a recorrer à violência até mesmo para conseguirem mulheres,3 e no caso americano, fez com que o país estivesse envolvido desde o começo em uma grande quantidade de conflitos internacionais.

A independência romana ocorreu ainda sob o signo da monarquia, algo que não aconteceu com os Estados Unidos, mas os historiadores são unânimes em afirmar que a monarquia romana não era efetivamente independente, mas um estado cliente da cidade de Tarquínia (não por outra razão dois dos reis romanos incluíam o nome desta como sobrenome). Hoje em dia se crê que a fundação de Roma foi um ato de colonização levado a efeito pelos etruscos, às custas de cidades latinas como Alba Longa. Se aceitarmos isso como verdadeiro, então a verdadeira independência romana se dá com a derrubada da monarquia, o que nos leva a uma outra série de semelhanças.

Racismo, Genocídios e Consolidação Territorial

Até bem recentemente, os países não se formavam mediante a proteção de órgãos supranacionais, como a ONU, por isso a sua estabilidade só estava garantida se conseguissem consolidar-se e obter um espaço na geopolítica regional. Isso ocorria através da neutralização dos rivais vizinhos e da incorporação de território suficiente para atender à sua economia. No caso de Roma, a fase de consolidação se inicia com a derrubada da monarquia e se conclui com as Guerras Púnicas, nas quais a República assegurou o domínio do Mediterrâneo, eliminou o único estado que lhe fazia frente e aperfeiçoou as suas táticas guerreiras. Durante esse intervalo de tempo, Roma derrotou definitivamente a Etrúria e a incorporou ao seu próprio território. Simultaneamente, o império romano dedicou-se a anexar territórios dos gauleses, até completar a conquista das terras célticas da Europa em 50 a.C.

Evidentemente existem diversas diferenças para o caso dos Estados Unidos, e tais diferenças são esperadas. O inesperado é uma grande quantidade de semelhanças. Primeiramente, os Estados Unidos, uma vez independentes, estavam reduzidos a um pequeno território espremido contra o mar — tal como Roma. Os primeiros anos do novo país foram caracterizados por guerras contra os índios e contra colonizações vizinhas, culminando com a anexação da Luisiana e da Flórida. Por fim, os Estados Unidos derrotaram pela segunda vez sua nação fundadora (na Guerra de 1812), tal como os romanos derrotaram (e anexaram) a Etrúria. Esta derrota rendeu conquistas territoriais, mas diferente da história romana, não resultou na anexação da metrópole.

O melhor paralelo para as Guerras Célticas, no caso americano, é a Guerra do México (1845-1848), ao longo da qual os Estados Unidos tomaram do gigantesco vizinho um território quase equivalente a todo o que tinham antes, correspondendo aos atuais estados do Texas, Novo México, Arizona, Nevada, Califórnia, Utah e Colorado, além de partes do Oklahoma, Kansas e Wyoming. Mas a analogia com os cartagineses funciona para os alemães. Uns e outros foram considerados bárbaros e acusados dos maiores crimes imagináveis. Os romanos não se cansavam de citar os sacrifícios humanos da religião cartaginesa, especialmente a queima de crianças vivas em honra a Moloque, imortalizada no romance histórico Salambô, de Gustave Flaubert. Não se sabe se esta acusação era verdadeira, embora seja muito plausível considerando o que se sabe sobre a religião dos fenícios, fundadores de Cartago. O que se sabe é que nem romanos nem americanos estão isentos dos crimes terríveis que imputaram aos seus inimigos. O sacrifício humano não era desconhecido em Roma mesmo em tempos imperiais (e há quem diga que os espetáculos de gladiadores funcionaram como uma sublimação de tal prática quando ela se perdeu na religião) e a discriminação contra minorias ao ponto do genocídio foi praticada pelos EUA muito antes da Alemanha nazista, sendo que os próprios nazistas herdaram parte de suas ideias de contextos como as guerras indígenas americanas e de obras de eugenistas americanos. Na época da Guerra Fria, pelo menos até os anos 1960, sempre que os americanos acusavam a URSS de não ser um país com eleições livres, os soviéticos replicavam and you lynch negroes (... e vocês lincham negros).

Transição para o Império

No caso romano a transição para o império foi uma movimentação conservadora causada pelo aumento das reivindicações de reformas, que quase chegaram a derrubar o governo. Após a derrota de Espártaco, ficou claro que o antigo modelo oligárquico estava em crise e era preciso mudar alguma coisa. A escolha dos romanos pelo reacionarismo teve muito a ver com o tipo de religiosidade que viviam, e também com o medo de uma realidade desconhecida.

Os Estados Unidos ainda não completaram a sua transição imperial, mesmo porque isto talvez não seja possível no mundo de hoje, com as mudanças culturais que aconteceram desde o século I a.C., entretanto, é possível ver que aconteceram várias guinadas à direita, com a intenção de neutralizar efeitos das reivindicações populares.

Uma das primeiras guinadas foi o macarthismo, nos anos 50, convenientemente surgindo logo após os Estados Unidos lutarem do lado certo em uma guerra de proporções mitológicas contra um inimigo de semelhante categoria. Muitas pessoas teriam se animado com o combate decidido ao racismo científico dos nazistas e com a solidariedade entre americanos e soviéticos. Foi preciso dar então um choque de realidade em todo mundo, fabricando e intensificando uma rivalidade desnecessária, em um mundo no qual os Estados Unidos praticamente imperavam sozinhos, produzindo 54% da soma total dos PIB de todos os países e tendo a mais poderosa força armada do planeta. É interessante notar que o macarthismo não foi uma política presidencial autoritária, mas um “estado de espírito” insuflado pela direita política e exercido através do congresso. Tal como a reação conservadora em Roma foi bancada pelo Senado. Os romanos não teriam aceito um déspota oriental, por isso era preciso manter as aparências republicanas. Da mesma forma, os americanos não aceitariam um ditador, mas tolerariam um sistema político intrinsecamente fechado a projetos alternativos de poder.

A segunda grande guinada à direita ocorreu nos anos 1980, sob o signo de Reagan, o homem que trouxe ao poder os ideais descaradamente reacionários da direita argentária. E esta segunda guinada aconteceu posteriormente ao grande movimento dos direitos civis e da contracultura dos anos 60, tendo até gerado o termo "youppie", em contraposição a "hippie", evidenciando que os valores cultivados naquela década eram diferentes, para dizer o mínimo, do idealismo sessentista.

Podemos associar o episódio do macarthismo com a crise do século I a.C. e seus triunviratos, que terminou com a instalação de um poder imperial mal disfarçado. Nesse caso o grande Júlio César da política americana parece ter sido John Kennedy, sobre cujo assassinato pesa a eterna suspeita de ter sido a mando da própria CIA e das forças armadas, devido à sua resistência aos projetos de poder da direita e sua permeabilidade aos direitos civis dos negros. A CIA, criada para oferecer informação para subsidiar as decisões presidenciais, foi, então, o "Brutus" desse episódio.

Os movimentos da década de 1980 podem ser comparados à reação conservadora dos governos de Vespasiano, Tito e Domiciano, muito embora ideologicamente muito distintos. O que os une não é a identidade ideológica, mas a dinâmica de movimento à direita após um momento de crise (no caso americano a crise é representada pelos desastrosos governos de Kennedy a Carter, que assistiram à diminuição da hegemonia econômica, o crescimento político e militar do bloco comunista e a crise monetária).

Se a analogia se mantiver coerente pelas próximas décadas, podemos dizer que o momento atual da história americana é análogo ao século I d.C., o momento no qual o império já não era tão agressivo militarmente, preferindo conter-se em suas fronteiras após as primeiras derrotas, sofria forte influência cultural estrangeira e via suas tradicionais instituições republicanas serem erodidas por costumes orientalizantes, o agravamento da desigualdade social e ao declínio tecnológico. Não se anime com esta previsão, foi nesta fase que o Império Romano cometeu alguns de seus maiores desatinos, como o genocídio dos dácios e dos bretões e as primeiras perseguições a minorias religiosas!

Religião e Império

Ao contrário do Império Romano, que foi originalmente uma teocracia de certo tipo, os Estados Unidos surgiram com uma promessa de separação entre o governo e a religião. Nunca um presidente americano se comportou, nem mesmo informalmente, como líder religioso, enquanto o estado romano incluía entre seus postos eletivos o de pontifex maximus.

Esta diferença original não significa, porém, que a força da analogia entre as duas culturas se perca. Roma migrou de uma teocracia para um Estado multirreligioso e multiétnico, com tendência a laicização, por um tempo, enquanto os Estados Unidos, originalmente laicos apesar da relativa uniformidade religiosa, migraram para estruturas mais teocráticas, em reação ao surgimento de minorias culturais.

No auge do processo, sob Marco Aurélio, temos um Império praticamente leigo em termos de religião, embora o imperador ainda detivesse o título de pontífice (ainda que desacreditado pelos desatinos que imperadores passados haviam cometido). No auge do processo americano, que vemos atualmente, temos um governo que cede continuamente a uma agenda religiosa cristã.

Entre as minorias religiosas que tensionaram o tecido social romano estavam, certamente, o mitraísmo, o cristianismo, o arianismo, o gnosticismo e o judaísmo. O cristianismo acabou triunfando e absorvendo ensinamentos e teologias de todos os demais, conseguindo quase apagá-los da História. No caso americano, o papel de tensionador é exercido principalmente pelo islamismo, que se apresenta diante do poder imperial americano quase da mesma forma que o cristianismo primitivo em relação às estruturas romanas de poder. Entretando, esta é uma comparação perigosa, porque o cristianismo não era, então, um movimento religioso tão numeroso e tão influente politicamente quanto o islamismo consegue ser no mundo de hoje. Na época em que Roma perseguia cristãos, o único país cristão do mundo era a Armênia!

Símbolos e Instituições

Foi mencionado acima que tanto Roma quanto os Estados Unidos adotaram a águia como insígnia (e curiosamente as nações colonizadoras que deram origem às duas culturas tiveram por símbolo animais carnívoros, lobo e leão). Essa está longe de ser a única semelhança. Deixei, entretanto, essas comparações para o final porque acredito que a sua intencionalidade enfraquece seu sensacionalismo. Talvez tais símbolos tenham sido sugeridos meramente porque, na época da independência americana, era moda o neoclassicismo, que acabou se refletindo na arquitetura política americana, com seus capitólios e palácios colunados. Mas existem semelhanças que não se explicam só com a moda.

Os Estados Unidos criaram um “Senado” inspirado no senado romano (existe um limite mínimo de idade para ser eleito à câmara alta do Capitólio). Enquanto isso, na Revolução Francesa o parlamento era unicameral. O Senado original também era unicameral, posto que não havia câmara eleita entre os romanos.

A instituição presidencial, apesar de um nome não tradicional, deriva da figura do cônsul romano (o título foi efetivamente usado na Revolução Francesa).

A Ideologia Oficial

Romanos e americanos também têm em comum uma ideologia nacional que os apresenta como faróis da civilização. Os romanos se consideravam sucessores dos gregos e chamavam de “bárbaros” a todos os outros povos (esquecidos de que, aos olhos gregos, tanto os etruscos como eles próprios eram “bárbaros”). Ambos os impérios sempre consideraram a difusão de seus valores como um ato civilizatório, ainda que na maioria das vezes tal difusão se tenha feito por métodos violentos e os povos receptores da civilização romana tenham sido, de fato, subjugados e dizimados (o benefício da civilização era dirigido à terra, não ao povo).

Esta ideologia justificou a anexação da Gália, de que resultou o desaparecimento da cultura céltica na Europa continental (os atuais bretões são descendentes de antigos britânicos que se estabeleceram no continente durante a Idade Média), substituída pela romana de uma tal forma que a língua ali se fixou em menos de duzentos anos. Mais tarde, os romanos executaram conquistas sangrentas contra os dácios, os judeus e os britânicos, sempre em nome da expansão da civilização romana.

É difícil não enxergar o mesmo cinismo quando vemos a difusão da civilização americana e seus efeitos sobre países como o México, que perdeu mais da metade de seu território original, Porto Rico, onde a língua espanhola já começa a ceder terreno, Canadá, cuja parte anglófona cada vez mais se assemelha ao grande vizinho do sul, e até mesmo em lugares distantes, como o Brasil e alguns países da África.

A Moeda, as Finanças e as Alianças

Tanto Roma quanto os Estados Unidos enfrentaram em certa época uma crise econômica de caráter muito parecido. Romanos e americanos adotaram originalmente moedas padronizadas segundo metal precioso, o solidus romano e o dólar americano. Ambas as moedas se apreciaram em consequência do expansionismo, no caso romano com as conquistas de Cartago, Egito e Oriente, no caso americano, principalmente, com o ouro da Califórnia e do Alaska.

A apreciação da moeda durante a fase expansionista permitiu que ambos os países acumulassem um grande poderio bélico e construíssem uma infraestrutura que lhes permitiu fazer circular a economia de uma forma muito eficiente. No entanto, as guerras se tornaram progressivamente menos lucrativas porque se tornaram fúteis. As primeiras guerras romanas acrescentaram grandes territórios e aumentaram significativamente o poder da cidade. Mas entre os séculos I a.C. e I d.C. os romanos se envolveram em conflitos desgastantes e infrutíferos em termos de butim, contra os caledônios e britânicos, contra os armênios e persas, contra os judeus, contra os germânicos e, principalmente, contra si mesmos; pois em tempos de paz o belicoso luta contra si.

O exército poderoso precisava ser mantido, e era caro mantê-lo. Quando as guerras começaram a ser principalmente defensivas ou retaliativas, o exército se tornou um peso excessivo para Roma. Uma solução criativa para isso foi a extensão da cidadania romana a algumas províncias (e logo a todas). Nada melhor para o problema do que dividir a despesa com quem se beneficiava da segurança proporcionada pelas legiões. Este tipo de estrutura, o "tratado" (foedus) tem uma analogia curiosa com o estabelecimento da OTAN, como veremos à frente.

O poder, porém, ainda continuou, pelo menos inicialmente, nas mãos dos senadores originários da península itálica.

Algo muito semelhante ocorre no caso americano. Após a consolidação territorial (que se conclui com a Guerra Hispano-Americana, última em que os Estados Unidos anexaram território), o exército deixou de trazer terras e pilhar tesouros para ser um peso para a nação. Inicialmente os governos americanos usaram este exército para defender os interesses econômicos americanos em sua esfera de influência, a América Latina, mas sempre foi evidente que o poder americano era excessivo para esse fim. Isso levou o país a crises periódicas, causadas pela diminuição do ímpeto de anexações, pois o capitalismo imperialista é como uma bicicleta, e só se mantém equilibrado quando se move para frente.

Tal como Nero inventou a inflação ao aviltar as moedas de ouro, recunhando-as com uma liga menos rica, sucessivos governos americanos aviltaram o dólar, reduzindo sua paridade em metal precioso. O primeiro de tais atos foi em 1861, quando o dólar (até então bimetálico) abandonou o padrão prata e ficou restrito ao ouro. O último ocorreu em 1971, quando o dólar definitivamente deixou de ser uma moeda ligada ao metal precioso.

Em ambos os casos a consequência foi o aumento da inflação, muito embora esta tenha sido causada mais pelas instabilidades que levaram ao fim do padrão ouro do que por este fim. A inflação romana foi dramática, levando a fome e desespero porque, já naquela época, os pagadores de salários não queriam reajustar o pagamento de seus empregados. Talvez isto explique a fase violenta que o país viveu após a morte de Nero, só se estabilizando quase vinte anos depois, sob Vespasiano.

A mais chocante semelhança a que aludo neste ponto, porém, é a estratégia adotada por romanos e americanos para reduzir o impacto do exército sobre o orçamento nacional: se os romanos deram cidadania às províncias, os Estados Unidos criaram uma aliança internacional, a OTAN, através da qual outros países tiveram de contribuir para o custeio da máquina de guerra americana, direta ou indiretamente. Vemos então que ambas as culturas procuraram expandir seu alcance fiscal a fim de custear melhor um exército superlativo, e o fizeram através da promessa de segurança, que tinha uma contrapartida em perda de autonomia.

Guerras por Recursos

Em tese toda guerra é por recursos, ainda que isto esteja inicialmente inaparente. Mas quando me refiro aqui a "recursos" eu me refiro a guerras que não têm a intenção de anexar território, mas apenas obter acesso a produtos ou riquezas necessários ao custeio do estado deficitário devido à máquina de guerra. A fase da guerra por recursos é aquela na qual os conflitos deixam de ser focados no aumento do território e passam a buscar a estabilização da economia.

No caso romano, desde o final do século I, as principais guerras travadas foram de cunho econômico ou defensivo. Notório é o caso da conquista da Dácia, última grande conquista romana em termos de território, que, na verdade, teve por objetivo agregar ao erário imperial o imenso tesouro dos dácios, em cujo território se encontravam as maiores minas de ouro da Europa.

Se Roma precisava de ouro (pois não havia uma cultura econômica desenvolvida, que preconizasse algum tipo de produção autônoma e contínua de riqueza), os Estados Unidos dependem, já há um bom tempo, do negro ouro chamado petróleo. É em busca deste que as principais guerras americanas foram travadas, desde há cerca de vinte anos. O principal episódio deste tipo de conflito seguramente foi o Iraque, ainda que haja controvérsia sobre a extensão do controle americano sobre o petróleo de lá.

O Arquiinimigo

Romanos e americanos tiveram de conviver secularmente com nações formidáveis que nunca puderam vencer. No caso romano, a grande Guerra Fria (nem sempre fria) do mundo antigo foi contra os persas (inicialmente o império da Pártia e depois o império sassânida). Esses longos conflitos se caracterivam pelo desgaste contínuo das estruturas militares de ambos os países e por nenhuma solução definida. A fronteira praticamente não avançou em mais 600 anos.

Alguns países se estabeleceram como estados-tampão entre os impérios, como por exemplo a Armênia e a Arábia, que alternavam entre as duas influências.

Pax Romana e Mare Nostrum

Após a consolidação territorial, e institucional, Roma passou a considerar o Mediterrâneo um território exclusivo seu, o que impediu, por exemplo, que a Armênia conseguisse se desenvolver, independente de qualquer desgaste bélico.

Os Estados Unidos consideram o Atlântico, especialmente o Atlântico Norte, um mar tão seu quanto os romanos consideravam o Mediterrâneo. Tanto assim que a aliança militar americana é a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Mas a reivindicação de soberania americana é o mundo todo, claro. Restringe-se na prática ao Atlântico Norte por ser o único oceano limítrofe que não tem contato com o mar territorial de seu grande rival, a Rússia.

Além de um "mar seu", os americanos também estabeleceram uma "esfera de influência" na América Latina, que não tem paralelo no caso da antiga Roma.

Entre meados do século I e o final do século II os romanos experimentaram aquilo que chamaram de Pax Romana, a ausência total de ameaça externa ao império. Este período não foi pacífico internamente, claro, mas durante todo ele nenhum povo bárbaro conseguiu sequer desafiar o império. A Pax Americana surge em 1848, com a derrota definitiva do México, que deixou de ter qualquer chance de surgir como potência mundial. De 1848 a 2001 (ou até hoje, se você pensar bem) nenhum país conseguiu desafiar a hegemonia americana porque nenhum país conseguiu levar o conflito para dentro de seu território. No caso romano isso só vai acontecer no século IV, causando grande espanto.

Conclusões

Este artigo é um mero rascunho, nada exaustivo, mas que eu espero ser provocante o suficiente para que pessoas mais brilhantes do que eu o expandam. Espero que o meu leitor entusiasmado pesquise e encontre ainda mais semelhanças e diferenças. Com base nisso podemos começar a teorizar aquilo a que aludi lá em cima, no comecinho deste artigo:

Dizendo em palavras mais comuns: não será possível que um país que adote ideologias semelhantes às de um modelo passado venha a se defrontar com desafios parecidos? Será que a História possui uma inércia que permite reproduzir processos antigos a partir de escolhas e circunstâncias parecidas?

Com a palavra o leitor.

1O termo “Etrúria” se refere a uma região geográfica, mais ou menos correspondente à Toscana, na Itália, e não a um estado. As cidades originalmente associadas à cultura “etrusca” são (nomes latinos, com os possíveis nomes etruscos em parênteses): Arretium/Arezzo (Arritim), Caere/Cerveteri (Caisra), Clusium/Chiusi (Clevsin), Cortona, Volterra (Felathri), Populonia (Fufluna), Perusia, Tarracina (Tarchna), Tarquinia (Tarchnal), Veio (Veii), Vetulonia (Vetluna), Fiesole (Vipsul), Volci (Velch), Volsinia (Velzna).

2 Quando o Reino Unido se formou, pela união pessoal dos reinos da Escócia e da Inglaterra, um bom número de outras entidades políticas havia sido absorvida anteriormente, por um ou por outro dos reinos unidos. A Inglaterra incorporara, além dos seis reinos anglo-saxões originais, a Cornualha, a Nortúmbria, Gales do Norte, Gales Central, Gales do Sul, Man, Munster, Connaught, Ulster, Leinster e Meade (os cinco últimos os reinos existentes na Irlanda pré-conquista). A Escócia incorporara a Caledônia, as Órcadas e as Shetlands.

3 O episódio do rapto das sabinas.

Hugo Chávez e o Herói Padrão de Lord Raglan

Você provavelmente já deve ter percebido algo de estranho na recorrência de certas características na biografia de personagens mitológicos (e às vezes personagens históricos). É como se a maioria dos nomes famosos tivesse em comum algo além da fama em si. Pode parecer teoria de conspiração barata, mas essa impressão não é fruto de sua imaginação: ela já foi detectada, estudada e sistematizada por historiadores. Enfim: já se comprovou que existe mesmo um padrão que se aplica à maioria dos relatos biográficos, hagiográficos ou mitológicos de personalidades reais, mitificadas ou míticas.

A comprovação está em uma obra intitulada “O Herói: Um Estudo da Tradição, da Mitologia e da Literatura” — publicada em 1936 pelo folclorista britânico FitzRoy Somerset, Barão de Raglan. Nesta obra, Lord Raglan sintetizou 22 características que são encontradas nos relatos sobre uma grande variedade de personagens reais ou não. Não são as únicas características compartilhadas, mas as que mais frequentemente se repetem.

O estudo destas características não é muito útil para identificar a historicidade de personagens duvidosos, visto que o czar Nicolau II, personagem histórico amplamente conhecido, morto em 1917, tinha 14 das 22 características (uma pontuação superior à de Harry Potter, Ulisses, Sansão e Aquiles); mas é muito interessante para avaliar possíveis interpolações laudatórias feitas em relatos genuínos sobre personagens reais (“mitificação”) e a possibilidade de que um personagem real seja futuramente elevado a um nível de mito ou santo.

Com a recente morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, parece estar havendo uma tentativa de apropriação da sua biografia pelos seus herdeiros políticos, transformando-o em um herói. A análise a seguir procurará coincidências de sua biografia com o padrão do herói de Lord Raglan, para avaliar o potencial de Chávez como futuro arquétipo revolucionário latinoamericano (tal como Sandino, Guevara e Bolívar).

1. A mãe do herói é uma virgem de sangue real.


Verdadeiro no caso de Jesus Cristo, mas não no caso de Chávez, que sequer era o filho mais velho.

2. Seu pai era um rei


Filho de pais pobres, Chávez não se enquadra aqui. Mas o seu bisavô tinha sido um oficial do exército federalista de Ezequiel Zamora, e por isso Chávez merece marcar meio ponto nesse item.

3. Fruto de um amor incestuoso ou ilegal


Nenhuma coincidência conhecida.

4. As circunstâncias de sua concepção são incomuns


Nenhuma coincidência conhecida.

5. Ele é também considerado filho de um deus


Nenhuma coincidência conhecida.

6. Ao nascer ocorre um atentado contra a sua vida, geralmente cometido por um membro da família, ou por sua ordem


Não consta nas biografias oficiais que isto tenha ocorrido.

7. Ele é salvo e levado embora


Como não houve o atentado, não pode haver coincidência aqui.

8. Criado por pais adotivos em um lugar distante.


Chávez foi criado durante vários anos por sua avó, Rosa, em outra cidade, devido às dificuldades econômicas dos seus pais. Um ponto.

9. Quase nada sabemos de sua infância.


Existem poucas fontes sobre sua infância. Não localizei menção a nenhum episódio. Isto, claro, é de se esperar de uma criança pobre. Mas é também característico do herói de Raglan. Outro ponto.

10. Ao se fazer homem, ele volta (ou vai) para o seu futuro Reino.


Aos dezessete anos, Chávez entrou, por escolha própria, para uma academia militar, sendo parte da primeira turma submetida a um novo e mais rigoroso programa de treinamento, que incluía todas as disciplinas militares normais e também vários tipos de conhecimentos técnicos e gerais. Tendo Chávez se notabilizado como um líder do exército antes de ser presidente, esta sua ida para as forças armadas por escolha própria lhe faz marcar mais um ponto.

11. Depois de uma vitória sobre o rei e/ou sobre um gigante ou dragão ou fera...


Apesar de derrotado na quartelada que organizou em 1992, Chávez acabou sendo, de fato, um vencedor, ao defenestrar o odiado presidente Carlos Andrés Pérez e, dessa formar, frustrar os planos do Consenso de Washington. Como os EUA são representados heraldicamente por uma águia, temos aqui uma fera também. Ou seja, Chávez marca esse ponto com pleno louvor.

12. Ele se casa com uma princesa, que pode ser filha/parente do seu predecessor.


Enquanto estava na cadeia, foi abandonado por sua primeira mulher, Nancy Colmenares, e posteriormente por sua amante, Herma Marksman, uma historiadora, que havia sido sua grande inspiradora durante o primeiro período revolucionário. Pouco antes de ser eleito presidente, Chávez se casou com uma jornalista bonita e de origem rica chamada Marisabel Rodríguez.  Se considerarmos o papel influente da imprensa na América Latina, e especialmente na Venezuela, e ainda mais especialmente em relação a Chávez, Marisabel pode ser considerada uma “princesa” (metaforicamente), ligada aos seus maiores inimigos. Casar-se com uma mulher da elite, às vezes abandonando a antiga namorada/amiga, é um mau passo que quase todo herói dá (Sansão, Artur...) e por isso Chávez marca mais um lindo e perfeito ponto.

13. E se torna rei.


Como a Venezuela não é uma monarquia, esse “tornar-se rei” precisa ser entendido como “ser eleito presidente”. Mas ressaltemos que nem toda monarquia era hereditária e vitalícia. Os reis da Polônia, da Lituânia, da Irlanda, do Sacro-Império Romano-Germânico e da Noruega eram eleitos pelos seus pares. Os sultões do mundo islâmico e os imperadores romanos raramente escolhiam descendentes diretos como sucessores. Monarquias nas quais o rei tinha poder temporário incluem as antigas monarquias gregas e as monarquias célticas em geral (especialmente na Irlanda, em Gales e na antiga Escócia). Então, a necessidade de metáfora é bem secundária aqui. Ponto para Chávez.

14. Por algum tempo reina pacificamente.


O tempo de reinado pacífico de Chávez se refere ao período posterior ao golpe de estado que sofreu em 2002. Até esse momento todos os seus movimentos fazem parte da acomodação da situação política. Sua vitória sobre o golpe é a sua definitiva entronização, pois a partir daí ele não teve praticamente oposição alguma que conseguisse impedi-lo de fazer o que quisesse. E seu reinado foi pacífico porque não houve nenhuma oposição militar ao seu mando, nem ameaça externa real. Ponto para Chávez.

15. Promulga leis.


Esta é sem dúvida a característica mais marcante do governo Chávez, que implementou na Venezuela uma verdadeira revolução institucional, derrubando leis antiquadas e aumentando o poder dos órgãos de representação popular mais próximos do povo. A rapidez com que lançou leis e criou instituições torna seu governo o mais criativo de toda a história daquele país. E por isso ele marca mais um ponto.

16. Porém ele perde o favor dos deuses ou de seus súditos


A coisa mais parecida com uma divindade no contexto político latinoamericano é o poder dos Estados Unidos de fazer e desfazer lideranças (e às vezes até governos). Chávez claramente perdeu o favor desse “deus” metafórico. Na mitologia a perda do favor divino era o início da derrocada do herói. A perda de tal favor poderia ser causada por coisas mínimas (Moisés perdeu o favor de Deus porque bateu com cajado em uma pedra e Sansão porque cortou o cabelo). No caso de Chávez, o simples fato de priorizar a melhora das condições de vida do povo o tornou inimigo dos EUA, que, historicamente, não ligam para o bem estar de nenhum outro povo, especialmente se não for branco. Ponto para Chávez.

17. Após o que é retirado do trono e do reino.


Observe que não há relação de causalidade. A retirada do herói de seu trono é posterior à perda do favor dos deuses, mas não necessariamente causada por ela. Digo isto para arrefecer os apressadinhos que me acusarão de acreditar na história da arma cancerígena da CIA (se bem que eu acredito). No caso de Chávez, após anos de embate contra os EUA ele adoece (câncer) e resolve se tratar em Cuba (sua retirada do trono) por períodos cada vez mais longos. Ponto para Chávez.

18. Sua morte é misteriosa.


Se misteriosa não foi, pelo menos os seus aliados tentam fazer ao máximo que se pareça sendo. A acusação de que seu câncer foi causado por interferência da CIA (ou do Mossad) cria essa aura de mistério e faz Chávez marcar mais um ponto. Sem falar em outras circunstâncias misteriosas, como a data de sua morte, os motivos de não ter sido embalsamado e o misterioso rejuvenecimento de seu cadáver.

19. Comumente no topo de uma montanha.


Nenhuma coincidência conhecida.

20. Seus filhos, se os tem, não o sucedem.


Sucedido por um aliado, não por seus filhos. Mais um ponto.

21. Seu corpo não é enterrado.


Parte do mistério que cerca sua morte envolve o lugar onde deveria ser enterrado. Embora ele tenha acabado por ser enterrado no Forte Montaña, já existe a proposta de uma emenda constitucional para que seja transladado para o Panteão Nacional, ao lado de Bolívar, onde ele não ficaria enterrado, mas depositado em um ossuário suspenso.

22. Mesmo assim ele tem um ou mais sepulcros.


Sendo transferido para o Panteão Nacional, Chávez terá dois locais conhecidos de sepultamento (Forte Montaña, o provisório, e Panteão Nacional, o definitivo). Sem falar nos possíveis boatos de que teria sido, na verdade, enterrado em outro lugar. Mas tais boatos não seriam necessários, porque o ponto já está marcado.

Conclusões


Chávez marca surpreendentes 14 pontos no padrão do herói de Lord Raglan, mesma pontuação de Nicolau II. Para se ter uma ideia de onde Chávez se situa na escala, observemos as seguintes pontuações:

  • Édipo e Krishna : 21
  • Moisés e Teseu : 20
  • Dionísio, Jesus e Artur : 19
  • Perseu e Rômulo : 18
  • Hércules e Maomé : 17
  • Beowulf e Buda : 15
  • Hugo Chávez, Zeus e Nicolau II : 14
  • Sansão e Robin Hood : 13 
  • São Jorge : 12
  • Sigurd (Siegfried) : 11
  • Aquiles : 10
  • Harry Potter e Ulisses : 8

Os mitologistas interpretam a escala de Lord Raglan da seguinte forma: uma pontuação inferior a seis indica que a biografia do personagem é provavelmente factual e as coincidências são apenas coincidências, mas uma pontuação superior a seis sugere que o personagem não é real ou então que a sua biografia sofreu/sofre adulterações mitificantes.

Sendo o herói um arquétipo, existe uma tendência humana a adulterar a história de pessoas tidas como heróicas (ou que se pretende fazer parecidas com heróis) de forma a se tornarem parecidas com o herói arquetípico. No passado, a transmissão oral do conhecimento sobre o herói favorecia esta adulteração, sendo inúmeros os casos conhecidos de personagens  cujas biografias contêm elementos atribuídos com finalidade mitificante.

Finalmente, para os que acham que há imperfeições na escala (sim, ela não é perfeita), existem propostas de expandi-la da seguinte forma:

  • Separar “virgem” de “real” em relação à donzela mãe do herói.
  • Adicionar a categoria “prodígios na infância”
  • Adicionar a categoria “cumprimento de profecia”, tanto em relação ao nascimento quanto em relação à morte.

Com tais adições, alguns personagens religiosos (como Jesus e Maomé) marcariam mais pontos, porém a pontuação de personagens reais (como Nicolau II e Chávez) seria menos impressionante. O que é certo é que o falecido presidente da Venezuela tem um grande potencial para ser herói nacional, e a pontuação deve aumentar ao longo do tempo, especialmente se os seus aliados durarem algumas décadas no poder.

Bem Aventurados os que Têm Fome e Sede de Justiça, Só que Não.

Apenas hoje tomei conhecimento de uma frase do Luiz Filipe Pondé, colunista da Folha de São Paulo, que procura igualar o sentimento antiamericano com uma inveja infantil do sucesso alheio. Minha primeira reação foi de incredulidade, porque um filósofo cometer uma falácia baixa como essa não é algo que se vê todo dia. Mas, como o Brasil é um lugar onde qualquer um com certa cultura perceptível pode ser chamado “filósofo” e qualquer um que ponha linhas curtas em sequência com rimas ocasionais ou figuras de linguagem pode ser chamado de “poeta”, eu acabei aceitando a validade da frase, o que me preparou para constatar que ela realmente foi escrita e publicada pelo jornal. Feito que desonra ao autor e ao veículo que o publicou, mas assim são as coisas da vida.

Os americanos fizeram o país mais rico do mundo num curto espaço de tempo sem ficar gemendo ou culpando os outros ou pedindo "Bolsa Família". Em vez de babar de inveja dos Estados Unidos, deveríamos aprender com eles.


O discurso da inveja é uma das muitas falácias de envenenamento da fonte empregadas pela direita para desqualificar as teses e ideais da esquerda. Outra destas estratégias é igualar a fascismo, socialismo ou outro ismo qualquer ação coletiva de resistência a mudanças indesejadas ou de demanda por mudanças. Ainda vou dedicar algum tempo para elencar esses discursos em um todo coerente.

No caso específico do discurso da inveja, a tese direitista é que a demanda por “justiça social” é uma forma disfarçada de revanche contra o sucesso das classes superiores, motivada pela inveja. O que Pondé fez aqui foi transferir essa inveja para uma escala maior, colocando um país inteiro, os Estados Unidos, como alvo de inveja.

Ninguém gosta de invasores.

O discurso da inveja já embute uma dose brutal de pensamento apriorístico e petição de princípio, especialmente por considerar que uma pessoa que esteja em posição social e econômica privilegiada lá está por mérito próprio, ignorando as riquezas e poderes herdados e aqueles obtidos por meios ilícitos (e posteriormente herdados). Ser filho de rico não é mérito, roubar tampouco o é. Mas quando esse discurso é adaptado para uma escala de países a lógica vai às favas porque é necessário fazer grandes simplificações e desconsiderar extensos dados históricos. Sem esse preço não se consegue emitir uma regurgitação tão estúpida quanto o fecho do artigo, reproduzido acima.

Como é inconcebível pensar que Pondé seja um ignorante de História, sua biografia e suas leituras impossibilitam isso, a única explicação possível para esta peça que produziu é a manipulação deliberada, por motivos ideológicos.

Somente no citado parágrafo existem seis ou sete erros bastante evidentes a qualquer pessoa que honestamente analise o assunto sobre o qual Pondé emite tal juízo:

  1. A afirmação de que os americanos fizeram o país mais rico do mundo “em um curto espaço de tempo”.
  2. A afirmação de “os americanos” fizeram.
  3. O anacronismo de misturar o assunto “Bolsa Família”, que evidencia que a frase tem um alvo muito específico.
  4. A ideia de que o sentimento anti americano é motivado pela inveja do sucesso dos Estados Unidos.
  5. A presunção de que seria possível a qualquer país seguir o exemplo dos Estados Unidos.

Primeiramente, o “curto espaço de tempo”. Entre a fundação das colônias norte americanas (início do século XVII) e o momento em que os Estados Unidos se tornaram o país “mais rico do mundo” (1946), tivemos mais de 300 anos. Somente na cabeça de Luiz Filipe Pondé isso pode ser considerado um  “curto espaço de tempo”. É verdade que os Estados Unidos já eram bem ricos e poderosos desde pelo menos o final do século XIX, mas só assumiram ares de potência mundial durante a Segunda Grande Guerra. Antes disso, eram uma potência regional e, mesmo aceitando que estivessem em pé de igualdade com as demais potências mundiais, ainda não eram o país mais rico do mundo.

Esta riqueza que levou o país ao topo do mundo não foi toda ela construída “por americanos”, não se considerarmos “americanos” os descendentes dos colonos originais, ou mesmo aceitando como tal os imigrantes europeus do pós-independência. Boa parte da riqueza foi roubada do México, que cedeu aos Estados Unidos um território maior do que seu território remanescente. E não foram terras de merda, mas regiões ricas em minerais (inclusive o famoso ouro da Califórnia), pastagens e até terras aráveis. Outra parte desta riqueza foi extorquida da Espanha na Guerra Hispano Americana de 1896 (motivada por um ataque de falsa bandeira contra um navio americano em um porto cubano).  Esta guerra abortou a independência filipina (só conquistada em 1946) e portorriquenha (até hoje adiada) e concedeu a Cuba uma independência de fachada, com direito a cláusula constitucional autorizando intervenção ianque (Emenda Platt). Graças aos territórios roubados ao México foi que os EUA chegaram a ter acesso ao Oceano Pacífico. Graças às colônias arrancadas da Espanha, tiveram bases militares no Extremo Oriente (Guam e Filipinas) e controlaram firmemente o Caribe (sem o risco de um território colonial inimigo a poucas dezenas de milhas de Miami).

É importante frisar que se o sentimento antiamericano fosse resultante do sucesso dos Estados Unidos, deveria haver igualmente sentimentos antibritânicos, antigermânicos, antisuecos, antijaponeses, antifranceses e até antiluxemburgueses. Embora nenhum desses países iguale o poderio americano, alguns deles superam a riqueza por habitante dos Estados Unidos. A virtual inexistência de sentimentos correspondentes (ainda que proporcionalmente menos fortes) em relação a outros povos sugere que o antiamericanismo não está relacionado com o sucesso alcançado pelos Estados Unidos, visto que sucessos alheios não despertam sentimentos proporcionais.

Ocorre que os Estados Unidos não se empenharam em fazer amigos ao longo de sua história, muito pelo contrário. São tão numerosos os países que tiveram seus negócios internos perturbados por interferências americanas que não é surpresa que em muitos lugares os ianques sejam mal vindos. Restringindo-nos a intervenções exclusivamente militares, mas incluindo tentativas de rebelião de povos dominados pelos Estados Unidos, temos nada menos que 130 intervenções entre 1890 e 2011. Em nada menos que 130 oportunidades os Estados Unidos mandaram tropas invadir algum país para fazer coisas como impedir a posse de governos eleitos, defender tiranos de revoltas populares, derrubar governos reformistas, impedir reformas progressistas, assegurar os interesses de empresas americanas ou tomar território. Não acho que seja surpreendente que tanta gente odeie os Estados Unidos. É natural um certo receio contra o valentão do bairro, que frequentemente invade a sua casa para interferir na sua vida, quase sempre levando consigo algo de que goste.

Para muita gente, o sentimento antiamericano é equivalente ao sentimento que temos quando vemos alguém dirigindo o carro que nos foi roubado. Você pode preferir chamar isso de inveja, mas eu acho que pensar assim é atribuir culpa à vítima. Por outro lado, espero que Pondé não esteja nos aconselhando a aprender com os Estados Unidos esse tipo de atitude. Mesmo porque nesse jogo de gangues nós seríamos trombadinhas desarmados contra uma tropa de choque usando munição letal.

Porém, mesmo que deixássemos de lado todos os casos em que os Estados Unidos utilizaram sua força militar para pisotear as aspirações nacionais de outros povos (em alguns países houve mais de uma dezena de intervenções), ainda assim seria muito difícil empregar qualquer coisa que aprendêssemos com o caso americano. Primeiro porque ciências sociais não são ciências exatas (sinto-me envergonhado de dizer isso ao Pondé, mas parece que ele não sabe disso, apesar do diploma) e não é certo que a repetição de medidas tenha resultados idênticos. Não apenas porque é impossível repetir de forma idêntica coisas grandes como “medidas políticas”, mas também porque as circunstâncias são incontroláveis. E nem vamos falar dos pontos de partida extremamente divergentes (aquela história dos modelos de colonização de povoamento e colonização de exploração que no meu tempo a gente estudava na quinta série primária e depois repetia no primeiro ano do segundo grau).

Pondo tudo isso no rolo, vemos que o “filósofo” (me recuso doravante a tirar aspas para me referir a ele) desconsidera (porque obviamente não ignora, apenas oculta) informações que são praticamente feijão com arroz de quem estuda ciências sociais, com o fim de culpabilizar os povos prejudicados pelo colonialismo norte americano, ao tempo que elege como modelo de desenvolvimento o país mais predatório que já existiu na face da terra, responsável pelo genocídio dos indígenas em seu próprio território e por massacres incontáveis em países estrangeiros, especialmente na América Latina, onde criou todo tipo de obstáculos ao desenvolvimento nacional autônomo. Todo o ressentimento dos injustiçados é reduzido a inveja. Na visão do “filósofo”, a vítima tem inveja do ladrão.

Não cabe aqui discutir os méritos próprios dos Estados Unidos, que são muitos, assim como os de outros países. Muito menos recair na xenofobia: são raros os esquerdistas que detestam o povo americano propriamente dito, a gente só não quer que eles venham armados dizer quem pode ou não pode nos governar ou nos impedindo de retaliar barbaridades cometidas por seus cidadãos ou empresas. Enquanto eles venham desarmados, apenas como turistas, duvido que alguém vá dizer que tem ódio deles.

Então não rola essa “inveja” do sucesso americano. Os canadenses são também muito ricos (e são até norte americanos), mas ninguém picha “Cannucks go home” nos muros do mundo.

O Estelionato Eleitoral Praticado Pela Esquerda

A direita chama de populismo qualquer coisa que beneficie o povo: reforma educacional é populismo, corte de imposto é populismo, reforma agrária é populismo, concurso público é populismo, fazer escola é populismo, abrir estrada é populismo. Fica parecendo que a função do governo não é trazer benefício ao povo. Como a boca fala aquilo de que o coração está cheio, essas pessoas provavelmente acham que o governo existe para beneficiar uns poucos e para desviar dinheiro público para contas na Suíça. Quero crer, porém, que só uma minoria pensa assim: a maioria simplesmente não sabe para que serve um governo, e nem como ele pode chegar aos seus objetivos.

Digo que as pessoas acham errado beneficiar o povo porque praticamente todas as medidas tomadas positivas que foram tomadas em benefício do povo nos últimos vinte anos (sim, o Fernando Henrique também beneficiou o povo, mesmo que por descuido) foram criticadas como populistas. Todos os aumentos de salário mínimo acima da inflação foram tachados de populistas, a queda dos juros é populista, a expansão do financiamento imobiliário é populista, redução de impostos sobre bens de consumo é populista … e segue uma série imensa de adjetivações.

Esse populismo tem, claramente, um objetivo eleitoral. Como se fosse errado ter objetivos eleitorais. Vivemos em uma democracia, na qual os governantes precisam ser confirmados periodicamente, e não em uma monarquia vitalícia e hereditária que nunca presta contas de seus atos. Claro que o governo precisa mostrar serviço para que o povo reconheça seu valor e o reeleja. Está para nascer um governante que trabalhe incansavelmente para ser derrotado na eleição seguinte.

Claro que é errado ter objetivos exclusivamente eleitorais, priorizar medidas de curto prazo. Quem faz isso muitas vezes o faz por não ter a competência de capitalizar em cima de projetos de grande envergadura. Mas se for errado pensar em fazer o bem ao povo para colher votos então qual é o sentido que resta à política? Na minha opinião, esse tipo de crítica ao populismo revela é desprezo pela democracia.

Como se fosse errado pensar em beneficiar o cidadão comum, como se este não fosse cidadão. Como se fosse ideal beneficiar a poucos, em vez de beneficiar a muitos. Essas medidas são classificadas de estelionato eleitoral, como se fosse uma falha moral o povo votar em quem lhe atende, como se o certo fosse governar sem fazer nada pelo povo e esperar ter o seu voto.

No fundo isso mostra que existe uma incompatibilidade insanável entre o pensamento e o projeto da direita, de um lado, e as ferramentas e objetivos de uma democracia. A democracia é uma entidade essencialmente esquerdista, construída por revoluções e reivindicações. O direitista transita nela como quem enfrenta o inevitável, como quem é obrigado a morar na casa construída por seu inimigo.

Sobre a Eliminação Física de Líderes Inimigos pelos Serviços Secretos

Os fatos relacionados à doença e morte do presidente venezuelano Hugo Chávez estão causando certa polêmica desde que o presidente em exercício, Nicolás Maduro, acusou abertamente o governo dos Estados Unidos, através da CIA, de ter causado o câncer que veio a matar o falecido líder. É uma afirmação grave, que dificilmente seria feita de forma leviana por um chefe de estado — certamente os venezuelanos têm suas razões para desconfiar de que os eventos fatídicos que levaram ao óbito do mandatário foram extraordinários — mas o bom senso recomenda que não turvemos nossa visão da realidade com os óculos unidimensionais da ideologia. Antes de ridicularizar humoristicamente os que acreditam nesta teoria, ou demonizar como cúmplices do Mal aqueles que celebram a morte de Chávez sem acreditar em qualquer fato não natural, é preciso fazer alguma pesquisa de fundo para avaliar a plausibilidade do que disse o atual chefe de estado venezuelano.

Existem quatro perguntas a se responder:

  1. Existem precedentes históricos de eliminação física de líderes inimigos, adversários políticos ou pessoas incômodas através de meios sub reptícios (envenenamento, traições etc.)?
  2. A política dos Estados Unidos quanto a isso envolve algum tipo de endosso ou tolerância com a prática da eliminação física de líderes adversários?
  3. Houve casos documentados de líderes políticos ou personae non gratae que sofreram de câncer, ou de situações que poderiam/poderão resultar em câncer?
  4. Existem cânceres conhecidos pela ciência que poderiam, em tese, ser induzidos de forma eficiente (isto é, a custo relativamente baixo e desfecho a curto ou médio prazo)?

    Se pudermos responder “sim” às quatro perguntas acima, é forçoso concluir que a teoria aventada pelo presidente venezuelano não é um delírio — mesmo que efetivamente se descubra que Chávez não foi envenenado. Ideias são delirantes quando não possuem base lógica ou conexão com realidade. Ideias que possuem base lógica e se harmonizam com a realidade, mas são falsas, não são delírios, são apenas equívocos. As pessoas se equivocam todo o tempo. Você está em uma cidade estranha e entra em esquinas erradas até se perder. Tem várias marcas de refrigerante para escolher, mas frequentemente pede um que não o satisfaz tanto quanto um outro de que só se lembrou depois que o pedido veio. Errar é humano. Erros não são delírios.

    Meu objetivo neste artigo não é provar que Chávez foi morto pela CIA, mas analisar se esta teoria é um delírio ou uma hipótese válida, ainda que provavelmente falsa.

    Precedentes históricos

    A traição é uma ferramenta da política desde antes do homem ser homem. Desde que desenvolvemos a inteligência, a luta pela primazia no bando deixou de ser uma competição de força e passou a incluir a habilidade. Um macaco mais fraco, mas ágil no manejo de um porrete, poderia matar outro mais bruto. Se a força tivesse continuado o parâmetro para definir as lideranças, a civilização não existiria. O engano e a traição estão entre os elementos que construíram o mundo em que vivemos. E você ainda se pergunta por que há tanta gente má lá fora.

    O envenenamento, embora frequentemente depreciado como uma prática “de mulheres”, foi amplamente empregado desde a Antiguidade, especialmente na difícil tarefa de livrar-se de reis sem cometer abertamente o regicídio — que era sempre punido com penas bestiais, como o escafismo (na Pérsia), drawing and quartering (Inglaterra) ou o evisceramento (Japão). A prática do envenenamento era tão comum na Pérsia que havia até uma lenda que dizia que certos homens poderiam, se o recebessem desde cedo em doses progressivas, desenvolver tolerância a qualquer veneno.

    Os envenenamentos de inimigos políticos mais notáveis para a nossa análise são os seguintes:

    1. Tódor Romza, bispo ortodoxo de Mukachev, Ucrânia, envenenado com curare (veneno paralisante).Mandante: URSS. Data: 1947.
    2. Stepan Bandera, líder nacionalista ucraniano, envenenado com cianureto. Mandante: URSS. Data: 1959.
    3. Aleksandr Dubcek, líder tcheco-eslovaco, envenenado com estrôncio (sobreviveu). Mandante: URSS. Data: 1968.
    4. João Goulart, ex presidente brasileiro, na época exilado na Argentina. Envenenado pela substituição de um de seus comprimidos para hipertensão, substituído por um de anfetamina, segundo confessado por um agente do serviço secreto da polícia uruguaia. Mandante: Brasil. Ano: 1976.
    5. Georgi Markov, jornalista e escritor búlgaro, envenenado com um pequeno projétil contendo rícino disparado por uma arma oculta em um guarda-chuva. Mandante: Bulgária. Data: 1978.
    6. Khaled Meshal, líder nacionalista palestino (Hamas), envenenado com uma substância desconhecida, instilada através de seu ouvido por uma dispositivo de spray. Sobreviveu graças à prisão dos agentes responsáveis pela tentativa pela polícia da Jordânia, que ameaçou matá-los caso o antídoto não fosse fornecido. Mandante: Israel. Ano: 1997.
    7. Roman Tsepov, empresário russo e possivelmente líder mafioso, supostamente amigo e posteriormente desafeto de V. Putin. Envenenado por alta dose de algum material radioativo (autópsia não realizada). Mandante: provavelmente a Rússia. Data: 2001.
    8. Ibn al-Kathab, nacionalista islâmico da Chechênia, envenenado por uma carta embebida em sarin ou outro agente tóxico contra os nervos. Mandante: Rússia. Data: 2002.
    9. Aleksandr Litvinenko, agente secreto russo que havia desertado para a Grã Bretanha após denunciar um plano para matar Bóris Berezovsky, milionário (e possivelmente mafioso) russo, em um caso semelhante ao de Tsepov. Envenenado por polônio (oficialmente o inquérito sobre sua morte foi abandonado, por razões diplomáticas). Mandante: Rússia. Data: 2003.
    10. Anna Politkovskaya, jornalista e defensora dos direitos das minorias na Rússia, opositora do conflito na Chechênia. Sobreviveu a uma tentativa de envenenamento por alguma substância posta em seu chá, que não foi efetiva porque ela o cuspiu em vez de engolir. Mandante: Rússia. Data: 2004.
    11. Viktor Yushenko, político ucraniano. Sobreviveu a uma tentativa de envenenamento por dioxina (agente laranja). Ironicamente liderava um movimento democrático apelidado de “Revolução Laranja”. Mandante: desconhecido (mas seus adversários políticos eram ligados fortemente à Rússia). Data: 2004.
    12. Yasser Arafat, líder nacional palestino. Morreu após um longo período de tratamento na França, de causas não divulgadas. Pesquisas posteriores encontraram grande quantidade de polônio em seus objetos pessoais. Investigações feitas por pesquisadores suíços sugerem que morreu em decorrência de câncer causado por envenenamento por substância radioativa. Mandante: Israel. Ano: 2004.
    13. Viktor Kalashnikov, escritor russo, irmão de Mikhail, inventor do famoso fuzil AK-47. Sobreviveu (com sequelas) a um envenenamento por mercúrio. Mandante: Rússia (segundo a vítima). Data: 2010.

    Portanto, existem pelo menos treze precedentes históricos recentes e significativos de pessoas que foram mortas a mando de governos, empregando envenenamento (tecnicamente, a contaminação por radioatividade é uma forma de envenenamento). É certo que a maioria destes casos é atribuída aos serviços secretos comunistas ou aos serviços secretos russos (herdeiros da KGB), mas não custa lembrar que nós não ouvimos o lado de lá da História: o fim do bloco socialista, nos anos 1990, significou o triunfo da versão ocidental, expurgada de seus próprios casos.

    Analisando esta sequência de casos vemos um padrão preocupante: as ações anteriormente executadas através de venenos tradicionais se tornaram cada vez mais frequentemente feitas com substâncias radioativas. Embora estas substâncias sejam fáceis de detectar (a ponto de a tumba de Aleksandr Litvinenko ser selada com chumbo para evitar contaminação), elas são difíceis de limpar do organismo: mesmo que a vítima sobreviva ao envenenamento inicial, ela sofrerá depois as consequências da radiação, desenvolvendo tumores. É possível que a ideia de empregar radiação como veneno tenha surgido ou se fortalecido após o incidente com Césio-137 em Goiânia, durante o qual várias pessoas ingeriram o contaminante radioativo, com os efeitos lamentáveis que se conhece.

    Alguns dos casos mencionados nesta lista são peças que lembram filmes de espionagem: agentes instilando venenos em spray no ouvido de inimigos, xícaras de chá envenenadas, guarda-chuvas que atiram projéteis de rícino, dardos de curare disparados por zarabatanas em praças públicas. Estão listados aqui para sacudir um pouco o ceticismo do leitor, que acha que algo que “parece de coisa de filme” não pode ter acontecido na realidade. É fato que os serviços secretos do mundo todo empregam métodos engenhosos para envenenar e matar aqueles que seus governos elegem como alvos. Métodos que parecem saídos de um filme do Agente 86, mas que funcionam.

    Política americana 

    Uma vez estabelecido que a prática do envenenamento de inimigos políticos, inclusive pelo uso de radiação, é comum e corriqueira, temos que definir qual a política dos EUA quanto a isso. Há duas questões a se levantar. A primeira é quão corriqueiros esses casos são, dirá o leitor. A segunda questão é que esse não parece ser o jeito americano de agir.

    Treze casos não são exatamente uma abundância incrível. Mas há que se lembrar que são treze casos notórios, envolvendo pessoas públicas ou que, de outra forma, atraíram a atenção da mídia. Não é todo dia que alguém é morto por um dardo envenenado numa rua de Munique ou por uma bala envenenada disparada por um guarda chuva em um metrô em Londres. Devem existir inúmeros outros casos que não conhecemos porque envolvem pessoas obscuras demais ou que ocorreram em lugares distantes ou sem testemunhas.

    É verdade que a CIA parece gostar mais de explodir pessoas do que brindá-las com um chá da meia-noite. Mas parecer não é ser. O curioso (e bizarro) caso dos agentes do Mossad que espirraram veneno dentro do ouvido de um líder do Hamas nos dão uma sugestão de que os serviços secretos ocidentais também sabem ser sutis quando querem, ou precisam.

    Na verdade, a simples existência de precedentes de assassinato de líderes inimigos (“decapitação”, no jargão do Mossad) serve de apoio à nossa tese, porque os métodos dependerão sempre das circunstâncias. Anwar al-Aulaqi e Osama bin Laden foram mortos em ações militares violentas porque estavam em território hostil e porque, dada a natureza de suas atividades, ninguém lamentaria essa opção (ainda que vários juristas e políticos tenham advertido sobre a gravidade da violação das leis internacionais que aconteceu durante a missão de execução de Osama). Um inimigo sobre o qual se pudesse ter um acesso controlado em território não conflagrado (como um quarto de hotel) poderia ser morto de maneira menos estrepitosa. O que precisamos é saber se essa maneira é possível. Porque se é possível, ela já deve ter sido usada.

    Casos polêmicos

    Analisemos agora a coisa por outro lado. Sabemos que houve vários casos documentados de pessoas que foram envenenadas a mando de serviços secretos (principalmente da URSS/Rússia, mas também de Israel e até do Brasil). Existem, porém, registros de mortes suspeitas que poderiam ter sido causadas por envenenamentos, excluindo os casos de morte violenta (como a de Juscelino Kubitschek)?

    Difícil dizer, visto que existem muitos venenos que são capazes de produzir efeitos semelhantes ao de morte natural (e muitos venenos são empregados justamente por terem tal propriedade). Então, se não há uma suspeita de possível envenenamento, que dificilmente há se a vítima for idosa, não haverá uma necrópsia detalhada, capaz de identificar a causa mortis. Restam os murmúrios, como os que duvidam da naturalidade da morte de Carlos Lacerda, que desmaiou na rua em 1977 e nunca mais acordou e de Tancredo Neves e sua misteriosa doença. O que podemos dizer  é que, com toda segurança, nenhuma morte por envenenamento é fácil de detectar à distância, e as mortes de pessoas públicas costumam ser envoltas em mistério.

    Cânceres úteis

    Referindo-nos especificamente ao caso, que substâncias  seriam capazes de produzir um câncer relativamente letal de forma “segura” (suponhamos que Chávez nunca foi detectado com doses altas de radiação)?

    • Azoximetano. “Particularmente efetivo para produzir cânceres de cólon”.
    • Tório. Se inalado ou ingerido causa cânceres de órgãos internos, como pâncreas e fígado.
    • Metilcolantreno. Produz câncer de próstata rapidamente se ingerido.
    • 3-Nitrobenzantrônio. Um dos componentes resultantes da queima do óleo diesel. Potente carcinogênico ligado às vias respiratórias.
    • 4NQO (4-Nitroquinolina 1-oxidina). Produz tumores nas regiões atingidas após ser inserido na circulação sanguínea.
    • N-Nitroso-N-metiluréia (NMU). Carcinogênico “bastante confiável” ligado a tumores malignos do estômago, sarcomas e gliomas cerebrais, adenocarcinomas pancreáticos, leucemias e linfomas.

    Uma das argumentações contra a possibilidade de Chávez ter sido envenenado reside na “dificuldade” de se induzir alguém a ter câncer. No entanto, uma rápida pesquisa na Wikipédia já me revelou quatro substâncias conhecidas cujos efeitos carcinogênicos são descritos com adjetivos como “efetivo”, “rápido”, “potente” e “confiável”. Algumas substâncias causam cânceres específicos, outras, de forma traiçoeira, estão ligadas a diferentes tipos, podendo ter efeitos difíceis de prever. Todas estas substâncias são efetivas para induzir câncer em quantidades relativamente pequenas, que poderiam passar despercebidas (substâncias cancerígenas em dosagens muito altas são bastante numerosas, mas pouco efetivas porque ninguém chegaria a consumir quantidades muito grandes).

    Isto, claro, se refere a substâncias tão conhecidas que têm verbetes na Wikipédia. Suponho que existam muitas outras substâncias que não estão lá porque não são muito conhecidas, que não estão lá porque são secretas ou que estão lá mas eu não percebi (minha pesquisa foi bem porca).

    Aonde isso nos leva

    Sabemos que a prática de envenenar inimigos é antiquíssima, que várias potências contemporâneas a têm usado (notavelmente a URSS/Rússia), que existe certo segredo sobre as causas das mortes dos líderes mundiais (e dos papas, por que não?) e que existem substâncias capazes de envenenar de várias formas, inclusive causando câncer.

    Tendo todos estes dados sobre a mesa, mas ainda sem emitir um juízo de valor sobre o caso Hugo Chávez, podemos afirmar sem medo de ridículo que a possibilidade de envenená-lo para causar-lhe o câncer que o matou não é uma insanidade. Insano é acreditar que os Estados Unidos “não fariam isso”, é um pensamento análogo à fé cega. Não só os EUA “fariam isso” contra um desafeto como já o fizeram várias vezes.

    É difícil, senão impossível, saber se a tentativa aconteceu, ou se a morte efetivamente foi causada por ela ou por outro incidente ou fenômeno natural. O mundo é regido por uma certa dose de caos. O fato de alguém tentar matar outrem não quer dizer que a morte, caso ocorra, é resultado do primeiro ato. Como num filme de humor negro, no qual o espião atira no inimigo, mas a bala se perde e o inimigo, seguindo calmamente seu caminho, escorrega numa casca de banana e morre de traumatismo craniano ao bater no chão.

    Este artigo não foi escrito para provar que Chávez foi envenenado pela CIA, mas para mostrar como a ridicularização desta hipótese revela uma certa “fé” de certos setores e pessoas nos valores morais de uma potência estrangeira, os Estados Unidos. Aparentemente, os EUA são o único país do mundo liderado por pessoas absolutamente isentas e sensatas, que jamais tentariam matar pessoas por discordarem de sua ideologia.

    De minha parte, acredito que o melhor argumento contra a hipótese ainda é o de que o estilo americano é mais parecido com enfiar uma bala no sujeito. Malcolm X, John Kennedy, Martin Luther King, Anwar al-Aulaqi, Osama bin Laden. Ou, talvez, sabotar seu avião. Omar Torrijos-Herrera. Mas Chávez esteve várias vezes às turras com Israel, por causa de sua amizade com o Irã. E Israel teve aqueles caras com o spray de veneno no ouvido do líder do Hamas…

    Quinta Coluna em Festa: Morreu o Líder Simbólico da Autonomia Latinoamericana

    Desde imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial, mas muito mais intensamente depois que o Brasil entrou no conflito contra o Eixo, era costume nossa imprensa chamar de «quinta coluna» o conjunto dos simpatizantes do inimigo que existiam no seio de nossa própria sociedade. Inicialmente o texto tinha um cunho ideológico, e se referia, por exemplo, aos integralistas (cuja ideologia tinha muitos pontos de contato com o fascismo), mas logo adquiriu um teor racista, servindo para atacar os imigrantes alemães, austríacos, italianos e japoneses, bem como seus descendentes. A quinta coluna era temida pela sua capacidade de «atacar de dentro» no caso de início de hostilidades, mas também pelo potencial de incapacitarem o país, seja sabotando suas forças armadas, seja paralisando seu processo político rumo a uma «neutralidade» útil ao inimigo.

    A origem do termo não é nobre. Foi cunhado pelo general falangista Emilio Mola, que lutava contra o governo republicano durante a triste Guerra Civil Espanhola. Mola afirmou à imprensa que a marcha de suas quatro colunas de soldados sobre Madrid seria facilitada pela atuação de uma quinta coluna, formada por simpatizantes civis localizados na cidade. De fato Madrid caiu rapidamente, obrigando o governo republicano a refugiar-se em Barcelona na fase final da guerra.


    No Brasil o termo passou a ser menos usado após a redemocratização porque durante um longo período de tempo uma outra encarnação da quinta coluna existiu e atuou entre nós de forma contínua, estendendo-se até os dias de hoje: o conjunto dos assalariados e dos simpatizantes da principal potência mundial do século XX. Interessada em limitar a autonomia dos países que reivindicava como sua zona de influência, esta potência patrocinou não dezenas, mas centenas de golpes de estado e regimes de exceção. Entre os países do hemisfério ocidental, somente o Canadá as colônias europeias remanescentes escaparam da sanha golpista dos Estados Unidos.

    Alguns regimes patrocinados por Washington foram especialmente odiosos, como a ditadura guatemalteca implantada em 1954 para impedir uma reforma agrária que afetaria o suprimento de banana ao mercado americano e que teve como resultado uma guerra civil com centenas de milhares de mortos e um regime que permitiu a inoculação proposital com sífilis e outras doenças de milhares de crianças, que viveram vidas miseráveis em consequência. Algum dia a História mencionará este episódio com o mesmo horror com que menciona os massacres promovidos pelos conquistadores espanhóis ou, séculos antes, pelos romanos contra os dácios.

    Outros regimes amigos dos americanos ficaram famosos por suas demonstrações ostensivas de ódio aos símbolos da cultura e da democracia, como a ditadura chilena, que executou o cantor Víctor Jara como um espetáculo num estádio de futebol, diante de dezenas de milhares de opositores presos que esperavam sua vez, e cujo chefe posou de óculos escuros, uniforme militar e botas de cano alto, com os pés sobre a mesa do escritório da presidência.

    Estas interferências sobre a América Latina sempre foram favorecidas pela presença de uma quinta coluna integrada por simpatizantes ingênuos, enganados pelos valores da Revolução Americana, ou elites que se locupletam às custas do povo, em conluio com o grande capital. Isto não é ideologia, é História. E nem é História marxista: a maior parte dela foi escrita por autores americanos. Se você duvida, só lamento sua ignorância. Vá estudar.

    Esta história de subjugação de todas os projetos nacionais latino americanos começa ainda no século XIX, quando foi importante a contribuição da diplomacia americana para a dissolução da República Federativa da América Central, inspirada na Argentina (daí as cores azul e branca das bandeiras da maioria dos países resultantes de sua dissolução) e com capital inicialmente na Guatemala, posteriormente em São Salvador. Correu ao longo de mais de 150 anos, perpetuando a dependência econômica e tecnológica destas nações, que já enfrentavam sérios problemas de identidade nacional e pobreza.

     A corrupção natural destes países herdeiros de um tipo perverso de colonização aliou-se aos interesses do poder hegemônico no hemisfério, impedindo que as limitações originais fossem rompidas, mantendo um status quo de exclusão da maioria do povo, sem esperança de melhora. Líderes nacionais legítimos, inspirados no interesse de trazer progresso e liberdade para seus compatriotas, sempre morreram nas mãos de forças militares aliadas aos Estados Unidos, quando não pagas, armadas, treinadas e inspiradas em centros de formação como a Escola das Américas, na Zona do Canal do Panamá.

    Alguns destes líderes são particularmente emblemáticos, como os principais líderes da Revolução Mexicana (Francisco Madero, Pancho Villa, Venustiano Carranza e Emiliano Zapata) e Augusto Sandino, porque sua luta sempre foi nacionalista, jamais comunista ou avessa à ordem internacional. Era natural que um homem como Sandino se revoltasse contra a ocupação estrangeira do território de sua pátria da mesma forma como a Resistência francesa contra a invasão nazista ou os irlandeses na Revolta da Páscoa. Mas ele foi morto por uma “Guarda Nacional” a soldo de uma elite vendida aos interesses estrangeiros, e o mandante do crime logo se tornou o “presidente” de mais um regime amigo, a cruel ditadura da família Somoza. E essa foi a tônica da reação ao nacionalismo latino americano: tachado de banditismo por um critério praticamente racista, negador do direito do povo à autodeterminação no quintal da superpotência.

    A dificuldade da via popular revolucionária, exceto por fatos isolados, como a Revolução Cubana, abriu espaço para os regimes reformistas, que tentaram implantar de cima para baixo a libertação econômica e social. Um dos primeiros exemplos, em uma época na qual os EUA ainda não projetavam tanto a sua sombra sobre o continente, foi Hipólito Yrigoyen, fundador de um partido que existe até hoje e de uma estabilidade que levou a Argentina a um status de país quase desenvolvido. Posteriormente esta figura, originalmente associada ao caudilhismo platino, se transformou no presidente “populista” encarnado por figuras como Getúlio Vargas, Juan Domingo Perón, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Juan Velasco Alvarado, Omar Torrijos-Herrera e outros.

    O populismo era uma tentativa de produzir efeitos positivos para a nação de uma maneira controlada, sem recair em uma revolução aberta, que atrairia a imediata ira americana. Populistas implantavam reformas cautelosas, com o cuidado de não ameaçar frontalmente o status quo. Estas reformas, por sua timidez, não eram suficientes para atiçar uma vingança ianque de seus interesses negados, mas por alcançarem tímidas mudanças no equilíbrio de poder no nível local, criavam forte rejeição nos setores elitistas, a tal quinta coluna sempre a serviço do imperialismo norte americano, que muitas vezes pediram (e muitas vezes obtiveram) o apoio dos EUA para iniciativas locais de mudança de regime. Um dos bons exemplos disso pode ser encontrado na sucessão de eventos que desembocaram no golpe militar brasileiro de 1964.

    A Era das Ditaduras Militares — o período da história latino americana entre 1954 e 1990, caracterizado pela simultaneidade de diversos governos liderados por forças armadas conservadoras muito influenciadas por doutrina americana — terminou com a transferência do poder para anêmicos regimes civis, que tiveram de enfrentar a pesada herança deixada pelas ditaduras: o legado da violência institucional e a deterioração econômica como resultado da subjugação do interesse nacional ao que mais tarde se chamou de “Consenso de Washington”, criado na esteira do thatcherismo e das políticas neoconservadoras republicanas implementadas por Ronald Reagan nos EUA. Por causa da “crise da dívida” (causada pelo endividamento irresponsável das ditaduras), esses regimes civis, invariavelmente, tentaram levar às últimas consequências o receituário liberal de abertura de sua economia aos interesses americanos (ou até ao favorecimento do estrangeiro em detrimento do nacional), produzindo desastrosas consequências desestabilizantes. Isto levou a conflitos sangrentos, como o Caracaço de 1989 (revolta dos venezuelanos contra o presidente Carlos Andrés Pérez) ou os distúrbios da Argentina ao longo dos anos 1990, até o governo Kirchner.

    O fracasso do neoliberalismo é fruto de seu sucesso: ao conseguir implementar, no todo ou na maior parte, aquilo que era preconizado pelo Departamento de Estado americano e pelos órgãos “multilaterais” (como o FMI, o Banco Mundial e a OEA) onde imperava a vontade dos EUA, esses regimes levaram seus países a becos sem saída, de onde não era mais possível avançar e as elites locais não admitiam nenhum recuo. Esta situação produziu, em alguns lugares, os distúrbios sociais de que a década de 1990 foi pródiga. Isto produziu uma polarização política nunca antes vista, mesmo em países onde nunca estourou uma violência política aberta (caso do Brasil), fenômeno que se desenvolveu em ritmo diferente em cada país.

    A instabilidade foi marcante em países como o Equador (que teve mais de uma dezena de presidentes a partir de 1990) e a Argentina (que chegou a decretar uma moratória unilateral da dívida externa), mas não deixou de afetar os países tradicionalmente moderados, como o Brasil (que sofreu com o aumento da pobreza, a ocorrência de apagões e a perda de infraestrutura por desinvestimento após privatizações mal dirigidas durante o governo FHC).

    Nesse contexto, a emergência de lideranças populares democráticas (que, diferentemente dos caudilhos e da maioria dos presidentes populistas do passado, derivaram seu poder de eleições livres) representa o maior fato novo na história latino americana desde o início da hegemonia americana sobre o continente, consolidada no final do século XIX. Hugo Chávez foi o pioneiro, ao se erguer sobre a insatisfação difusa do povo contra medidas econômicas duras e ineficazes, tomadas por pressão americana. Seu “populismo” consistiu, basicamente, em ouvir o povo e tentar dar-lhe voz, coisa que os seguros presidentes não populistas tentavam evitar fazer. Na visão direitista, sempre hegemônica na América, do extremo norte ao extremo sul, o povo não sabe o que quer, não deve ser ouvido e o seu benefício, caso sobrevenha, deverá ser apenas o inevitável efeito colateral do crescimento geral do “bolo” da economia (cujas fatias mais largas são concentradas em poucas mãos). Qualquer tentativa de governar para o povo merece um rótulo depreciativo, que, dependendo do reacionarismo da fonte, variará de “populismo a “comunismo, passando por “demagogia” e “socialismo”, incluindo sobrenomes como “irresponsável”, “arcaico”, “irrelevante”, “autoritário”, “ditatorial”, “atrasado” etc.

    É difícil imaginar o surgimento de governos populares democráticos, como os de Lula, no Brasil, de Kirchner, na Argentina, de Vázquez, no Uruguai, de Lugo, no Paraguai, de Morales, na Bolívia, de Toledo, no Peru, de Correa, no Equador e até mesmo de Ortega, na Nicarágua e de Zelaya em Honduras, sem ter em mente o sucesso eleitoral de Hugo Chávez (desde que obteve metaforicamente a cabeça de Pérez, através de seu impeachment). Chavez foi a vanguarda, foi quem tateou os caminhos, quem tentou primeiro. Foi o primeiro a dizer “não” aos Estados Unidos e sobreviver ao golpe inevitável, que sempre sobrevém aos tão ousados (sobreveio a Correa, a Morales, a Lugo e a Zelaya, sendo que os últimos dois não conseguiram resistir). Montado na mídia, que manipulou como poucos, demonstrando rara capacidade para entendê-la, construiu uma figura semimitológica e obteve, através de suas reformas cada vez mais inclinadas ao socialismo, um alto grau de aprovação popular. Tudo isso, principalmente o fato de ter servido de modelo e inspiração para vários outros líderes latino americanos, justificaram a ira de sucessivos governos ianques contra si e seu governo.

    Foi acusado de todos os adjetivos normalmente empregados pela direita, desde os mais antigos: caudilho, populista, ditador, comunista. Em seus momentos de maior ira, seus inimigos chegaram a atirar-lhe insultos raciais (em alusão ao fato de ser mestiço com sangue indígena e negro) e nunca cessaram de torcer por sua morte (que, no entanto, não tiveram a ousadia de providenciar durante os dois dias em que o tiveram sob seu poder, durante o golpe de 2002). O diagnóstico de câncer foi festejado por todas as elites do continente. Sua sincronicidade com a ocorrência de outros casos, como os de Lula, Kirchner, Lugo e Morales (e também da então ministra Dilma Rousseff) motivaram uma acusação de que talvez o serviço secreto americano estivesse por trás disso, de alguma forma. Acusação improvável, mas não exatamente absurda, tendo em vista casos recentes e comprovados de envenenamento por causas políticas envolvendo o ex presidente ucraniano Viktor Yushenko e o dissidente político russo Aleksandr Litvnenko.

    Na sua luta desigual contra o golias do norte, Chávez cometeu equívocos os mais diversos, mas teve dois grandes sucessos: produziu mudanças duradouras no sistema político venezuelano, que não poderão ser revertidas integralmente por nenhum futuro governo, e inspirou casos análogos em diversos países vizinhos. Países que darão sustentáculo ideológico e econômico ao seu sucessor, impedindo que o boicote estadunidense impossibilite a continuidade. Chávez sai da vida para entrar para a História, tal como outros antes dele: a glória do nome dos que se levantam em nome do povo costuma durar mais do que a infâmia dos quinta colunas, que lambem os coturnos da potência estrangeira que os despreza (os presidentes haitianos não podiam frequentar os clubes mantidos em Porto Príncipe pelos embaixadores e militares americanos, pois não eram brancos). Existirá futuramente um “chavismo”, tal como existem o “varguismo”, o “peronismo” e outros ismos oriundos de figuras populistas do passado.

    Os que celebram hoje sua morte se esquecem de que as ideias não morrem junto com os homens que as preconizam. Sopram ventos de mudança ao sul do Río Grande, a antiga potência já não consegue controlar tão bem o seu quintal. Os povos latino americanos estão começando a acordar de seu medo ancestral, não temem mais que sua reivindicação de justiça seja respondida por um recrudescimento da injustiça. Reformas foram feitas pela via democrática, legitimando-as perante a comunidade internacional e removendo a desculpa para a intervenção.  Antigas desavenças foram superadas e países antes adversários passaram a cooperar, mesmo que, em alguns casos, houvesse a necessidade de transigir, como o Brasil transigiu perante a Bolívia e a Argentina e como o Equador transigiu perante o Peru. Existe uma oportunidade real de mudança, que pode trazer, em um futuro não muito distante, um maior grau de autonomia, civismo e prosperidade para os que não são brancos o suficiente para nadarem na piscina do colonialismo light que impera desde o fim da II Guerra.

    Quando isso acontecer, a memória de Chávez terá a estatura de um Bolívar. Não custa lembrar que o homem que inventou a liberdade da América crioula também foi traído por quinta colunas. Morreu no exílio uma morte celebrada pelos que detestavam a liberdade. Mas seu nome paira como uma sombra acima da América do Sul, como um ideal que não morre. Agora que Chávez morreu, ele se tornou imortal: ninguém jamais matará o mito.

    As Redes Antissociais

    Cada dia que passa me trombo com novas evidências de que as redes sociais têm, no fundo, um modus operandi diferente do ideal que é propalado pelos seus entusiastas. Com todos os seus defeitos, a Deep Web me parece ser o espaço realmente revolucionário, onde a promessa de liberdade anárquica da rede se cumpre. Redes sociais são cercadinhos mentais, que impedem o desenvolvimento do espírito crítico.

    Não sei até que ponto isto é defeito colateral ou uma característica designada. As redes sociais, afinal, não foram criadas com finalidade política, mas meramente como uma espécie de correio galante. A única delas que ofereceu ferramentas realmente eficazes para o contraponto de ideias foi o Orkut, mas ele já não faz parte dos planos de ninguém.

    Nas demais redes sociais, como o Facebook, a Diaspora, o Plus e outras, o que temos é uma organização que dificulta a localização e o compartilhamento de conteúdo — além de também dificultar a identificação e a contextualização de comentários. Os fóruns do Orkut não serão igualados porque o que se quer das redes sociais não é aquela interface favorável a discussões. Todas as redes atualmente em uso tornam cada usuário em ditador de seus perfis, redes e grupos. Respostas são ocultadas à medida em que novas respostas aparecem, de forma que a proposta inicial sempre está em evidência, mesmo tendo sido rebatida. E todos podem facilmente isolar-se de críticas deletando comentários desabonadores ou contestações eficientes.

    A médio e longo prazo isso faz com que as redes sociais, em vez de ágoras ruidosas onde os diferentes pensamentos se contrapõem e pessoas de todas as opiniões argumentam entre si, acabem como feudos de opiniões não contestadas. Os usuários podem permanecer longos períodos de tempo lendo apenas aquilo que lhes interessa, sem nunca se chocarem frontalmente com o contradito. Não importa que uma opinião se embase em preconceitos e ignorância, controlando a capacidade alheia de questionar os preconceitos e de informar os ignorantes, cria-se a impressão de que não existe resposta para aquilo que até as pedras estariam respondendo. E claro, isso fanatiza e radicaliza as opiniões, em ambos os extremos do espectro político.

    Hoje tive um exemplo de como funciona isso. Um amigo meu publicou um artigo insano sobre o bloqueio econômico americano a Cuba com uma conclusão imensamente inepta: de que Cuba usa o bloqueio para ocultar sua deficiência econômica crônica, causada pelas contradições internas do socialismo, e que o bloqueio não é a causa das agruras do povo cubano porque os EUA não são os únicos fornecedores dos produtos que faltam na ilha.

    O nível de primitivismo, de ignorância e de falta de inteligência nesta proposição é tão grande que é até difícil ser educado em uma resposta. Mesmo porque, quando você questiona um idiota ele sempre reage mal, porque qualquer questionamento válido expõe que ele é um idiota.

    Todas estas proposições já foram suficientemente desmontadas por gente como Salim Lamrani, em sua famosa entrevista com Yoani Sánchez, mas o controle do contraponto, possibilitado pelas redes sociais, faz com que ideias estúpidas continuem sendo difundidas, simplesmente porque quem lê esses relinchos não encontra reações.

    Para que o meu leitor entenda o tamanho da bestagem que foi dita pelo meu «amigo» facebookiano, vou expor a coisa em argumentos simples, que sequer necessitam de pesquisa, apenas de lógica elementar. Infelizmente esses argumentos não serão lidos por direitistas ou por apoiadores do bloqueio. Essa gente acredita que eu sou um idiota porque penso diferente, e não virão aqui ler o meu artigo, diferente de mim, que frequentemente leio artigos deles.

    Primeiro o, ehem, «argumento» ignora que o bloqueio econômico não impede apenas a importação do que falta em Cuba, mas também a exportação do que lá se produz. Sendo os EUA o maior mercado consumidor do mundo, e estando tão próximo, logicamente o bloqueio nega a Cuba um mercado fácil e próximo para os seus produtos. Existe aí um segundo fator importante, especialmente durante a Guerra Fria: a economia turística cubana, que era toda focada em turistas americanos, praticamente deixou de existir porque os novos parceiros econômicos socialistas não faziam turismo. Somente a perda desta indústria já trouxe um prejuízo imenso à ilha. Quando os cubanos deram um jeito de substituir os turistas americanos por outros, os americanos deram jeito de criar novos boicotes e bloqueios.

    Segundo que, se o bloqueio fosse ineficaz, como dizem os direitistas, se ele não causasse as dificuldades econômicas de Cuba,  não haveria necessidade de mantê-lo. Se ele apenas fornecesse ao governo cubano uma desculpa para sua incompetência, como dizem, então os EUA estariam de fato ajudando a manter no poder a ditadura dos Castro. Essa parte do argumento é mais controversa porque, de fato, bloqueios são pouco eficazes para derrubar regimes. As sanções econômicas contra a África do Sul, o Iraque e, mais recentemente, o Irã, não deram grandes resultados. As odiosas ditaduras dos dois primeiros desses países acabaram, respectivamente, pela exaustão de sua capacidade militar e pela invasão americana. Os bloqueios só serviram para criar dificuldades relativamente pequenas, no caso sul africano, ou para matar crianças de fome e doenças evitáveis, no caso iraquiano. Então eu acredito que o bloqueio funcione para causar o caos, falhe em remover o regime, mas seja mantido pelos EUA por uma questão de mero orgulho.

    Mas a escala do bloqueio é também controversa. Segundo o meu «amigo» facebookiano, se os revolucionários americanos odeiam tanto os ianques, não deveriam procurar comércio com eles, mas com outros países. Esta frase é, por si, idiota. Acredito que ninguém em Cuba odeie «os americanos». Alguns certamente odeiam o imperialismo americano, mas odiar as pessoas nascidas no Estados Unidos é outra coisa. Ainda que o governo de Cuba tenha suas diferenças com o governo dos Estados Unidos. Então seria possível algum nível de comércio entre os dois países, empresas americanas vendendo para pessoas cubanas, pessoas americanas comprando de empresas cubanas, pessoas de ambos os lados visitando turisticamente o outro etc. Nada disso impediria a pureza ideologica de ambos os regimes. Não custa lembrar que os EUA tinham comércio com as nações socialistas durante a guerra fria.

    Mesmo supondo, porém, que o ódio aos «americanos» devesse se traduzir num boicote recíproco e que, por pureza ideológica, Cuba devesse procurar comprar e vender de outros governos e povos, ainda assim o bloqueio é monstruoso porque desde a Lei Helms-Buron, de 1992, qualquer empresa que venda a Cuba pode ser proibida de vender aos EUA, na prática obrigando-as a optar entre o mercado americano e o cubano. Isso não inclui só empresas americanas, ou filiais de multinacionais americanas, mas até empresas estrangeiras. É verdade que esta lei tem sido implementada de forma seletiva (não me consta que os EUA tenham deixado de negociar com a PDVSA ou  com a PEMEX), mas ela segue como um fantasma para quem pretenda vender a Cuba.

    Todos estes dados aqui transcritos foram informados ao meu amigo, com a recomendação de que pesquisasse sobre o assunto e não repassasse informações erradas. O efeito de minha intervenção foi ver meus comentários excluídos, logo depois fui verbalmente agredido, na base do «este é o meu perfil e eu posto o que quero, vá defender a ditadura cubana noutro chiqueiro» e não me restou alternativa senão excluir a amizade. Porque uma pessoa que quer me dizer coisas erradas, mas não quer ouvir minha resposta, é alguém que eu não quero ouvir mais.

    E este desfecho me abriu os olhos para o modo como funcionam estas redes sociais, como contribuem para reforçar os preconceitos e a desinformação. Os leitores do meu «amigo» que não viram minhas intervenções antes de serem apagadas terão a impressão de que ninguém consegue contestar os «dados» e as conclusões dele, apesar de serem fáceis de desmontar. Mesmo alguns que viram, como já estão «vacinados» contra essa «doença esquerdista», devem ter quebrado paus no ouvido e seguido com a cantilena.

    E no fim das contas, por um medida de honestidade, preciso admitir que eu mesmo, às vezes, resvalo nesse tipo de atitude. O que me leva a concluir que todos os lados estão sendo infantilizados pelas redes sociais, que não funcionam como ágoras, mas como clubinhos. Que não estimulam o livre debate de ideias, mas as miúdas conspirações isoladas entre si.

    A Conspiração Anarcomiguxa

    Qual a relação que você consegue enxergar entre o filme Zeitgeist e a modinha liber­tária que perpassa a internet? Nenhuma? Alguma vaga conexão que você não consegue explicar direito? Chega mais, senta e relaxa. Prepare-se para ler muito, e para descobrir a grande manipu­lação a que estamos sendo submetidos. Prepare-se para ter abertos os seus olhos: eu não espero convencer você, espero apenas apontar para onde o vento sopra, para que você olhe e veja por si aquilo que descobri agora há pouco, enquanto comia uma pizza de sala­minho com catupiry.

    Mesmo mantendo um razo­ável ceticismo, não se deve excluir de antemão a possibi­lidade de que seja verdade aquilo que parece improvável. Pelo menos não enquanto não surgir uma explicação fun­cional que recorra apenas ao que é possível. A navalha de Occam, quando apli­cada de forma indiscriminada, funciona mais como um obstá­culo do que como um guia. Foi utilizando um princípio seme­lhante que Aristóteles desconsiderou a teoria atômica de Demócrito e propôs sua versão simples e cética dos quatro elementos. Com isso e mais a sua auto­ridade, atrasou o desenvolvimento da química por milênios.
    Esta defesa prévia que proponho acima se deve à natureza do que vou escrever abaixo, que parecerá uma reles Teoria de Conspiração. Muitas pessoas se esquecem, ao fazer esse tipo de acusação, que, de fato, conspi­rações existem. As teorias de conspiração só se tornam ridículas quando envolvem participantes sobrenaturais (como os aliení­genas cinzentos) ou quando exigem o conluio de tantas partes diferentes, e durante tanto tempo, criando tantas difi­cul­dades, que a simples concepção de uma tal teoria dá mais trabalho do que supor, simplesmente, que a conspiração não existe. Não é o caso do que vou explicar. Posso estar enganado, mas mesmo que a conspiração não exista de forma deliberada e de antemão — e eu não afirmo que exista — o encadeamento do fato nos autoriza supor que, pelo menos, os fatos posteriores foram postos em ação a partir do conhe­cimento das condições prévias, de forma muito cuidadosa. Então, é irrele­vante a acusação de que tudo não passa de mera teoria de cons­piração: o simples encade­amento dos fatos já é um fenômeno interes­sante em si mesmo.

    Comecemos por algumas definições importantes (algumas delas vão para o glossário). O «movimento anarco­miguxo» é a mais recente modinha entre os descolados da internet, tal qual o «movimento ateu» já foi um dia (e lamen­tavel­mente reconheço que o foi apenas como uma prepa­ração para um passo posterior, como passo a demonstrar). Trata-se da difusão de um deter­minado dis­curso político e econômico através de blogues, vlogues e perfis em redes sociais. Um discurso ultra­­conservador em termos políticos (mas suposta­mente «liberal» em relação aos costumes) e ultra­liberal em termos econômicos, a partir dos trabalhos da chamada «escola austríaca» de economia (que, apesar do nome, hoje se baseia nos Estados Unidos) e suas teses minar­quistas (estado mínimo) e ultra­capitalistas (libera­lismo econômico máximo). Este discurso não é novo, claro, mas um velho conhecido de quem estuda História ou se prende aos aspectos históricos da ciência econômica: trata-se do discurso do liberalismo, herdeiro dos fisio­cratas franceses (Turgot e Quesnay) por meio dos liberais ingleses (Adam Smith, David Ricardo e Stanley Jevons) e com um pedágio entre os aristocratas reacionários do império austro-húngaro (Menger, Böhm-Bawerk e Mises) que se refugiaram nos Estados Unidos diante da ameaça do nazismo e lá encontraram o terreno ideal para difundir suas ideias, iniciando seguidores como Murray Rothbard. Este discurso é temperado pela ideologia de Ayn Rand, uma escritora americana de origem russa autointitulada filósofa, expresso em calhamaços de difícil leitura, como A Rebelião de Atlas (Atlas Shrugged) e A Fonte (The Fountainhead).

    Existem boas razões para se pensar que estamos vivendo um imenso processo de astroturfing (ou «lavagem cerebral através de propa­ganda de massas», se você prefere) que tem por objetivo dire­cionar a opinião pública em um sentido mais conser­vador, prepa­rando ter­reno, talvez, para interfe­rências políticas que satisfaçam essa «opinião pública espontânea». Um processo que pode ter sido preme­ditado, ou estar sendo «surfado» por pessoas que sentiram para onde soprava o vento. Um processo que começou com o filme Zeitgeist. Ou talvez antes, mas eu só o detecto a partir dali. As ideias ainda estão confusas, mais ou menos como você se sente quando tem a sensação de que tropeçou em algo grande. É o que sinto. Tenho até medo das conclusões a que estou chegando: nem todas eu incluirei neste texto. Que, no entanto, é o corolário deste blogue: é o desmas­cara­mento da «arapuca libertária» que eu, indis­tinta­mente, farejava no ar quando comecei a blogar aqui, faz uns dois anos.

    Comecemos por Zeitgeist. A menos que você seja um imbecil quase completo ou não conheça quase nada nem de História, nem de economia e nem de engenharia ou física, você percebeu que esse filme, do qual hoje quase nem se fala mais, possuía mais furos do que um queijo suíço. Na época eu me senti ultrajado de ver a gros­seria com que o realizador, «Peter Joseph», manipulava a mitologia egípcia (minha mais ou menos conhecida) a fim de «provar» que Jesus e Hórus possuíam dezenas de elementos comuns na biografia. O filme foi bem sucedido em plantar essa ideia de jerico na cabeça do povo (pelo menos na parte do povo que pensa e age como jerico), tanto assim que Jesus = Hórus se tornou um meme na internet: volta e meia vê-se um ateu «jogando na cara» de algum religioso essa «informação revolucionária». Dá vontade de olhar-lhe fixamente dizer: «ó, que descobrida cê fazeu!» O sucesso de Zeitgeist em incorporar essa informação falsa no imaginário popular, ou pelo menos no imaginário da subcultura virtual a que chamo de «movimento ateu», é uma prova do quanto é perigoso o processo de astroturfing a que me refiro, e que passarei a qualificar, dora­vante, de «A Conspiração Anarcomiguxa».

    Zeitgeist possuía três partes, e nem mesmo os fãs do filme conse­guiam entender completamente a relação entre elas: a primeira argumentando que Jesus é um mito astrológico de origem egípcia, a segunda dizendo que o atentado de 11/09/2001 foi feito por agentes do próprio governo americano e a terceira dizendo que o sistema bancário internacional se sustenta em uma fraude, a moeda fidu­ciária (fiat money, como eles gostam de dizer). A aparente desco­nexão entre os assuntos levou a muitas teorias mirabolantes sobre as razões dos temas terem sido inseridos em um mesmo filme. A minha teoria mirabolante particular era de que o filme procurava inculcar em quem o visse uma menta­lidade anti-semita. Afinal, o filme começava «provando» que Jesus não era um judeu, dizia que o maior atentado da história americana fora come­tido pelo próprio governo ianque e terminava dizendo que o governo estava sob o controle dos judeus (que não têm, claro, nenhum parentesco com Jesus). Faz sentido sim, e até pode ter sido uma das intenções originais dos realizadores de Zeitgeist, mas isto não explica tudo.

    Existem duas maneiras de encarar a História. Uma que a vê como o enca­de­amento de fatos sucessivos, sempre influ­en­ciados pelo passado, e raramente resultantes de deli­be­ra­ções. E uma que a vê como um processo cheio de idas e vindas, influenciado não exatamente pelo passado, mas por fluxos e conjunturas que, em certas fases, parecem antecipar momentos futuros. Se analisarmos as modinhas da internet que têm relação com os três temas abor­dados no filme, veremos que as explica­ções que obtemos pela apli­cação de cada uma das duas maneiras resultam diferentes. Se pensarmos na história como um processo unívoco, então a modinha libertária pegou carona no refluxo do movimento Zeitgeist, do qual ninguém quase ouve falar mais, e requentou alguns dos mesmos temas, radicalizando naqueles que interessam aos que seguram a mangueira que faz a lavagem cere­bral das massas. Mas se pensarmos na História como algo um pouco mais dinâmico, nos perguntamos se esse próprio refluxo não era esperado, ou até previsto, e se não teria havido, desde o início, um direcionamento que permitisse o surgimento, após o refluxo do MZ, de uma nova modinha exatamente com as características da que surgiu de fato. Mineiro que sou, declaro-me adepto de ambas as teses, mas não vejo motivos para negligenciar a segunda: de fato ela me parece sugestivamente forte, como vou argu­mentar.

    O primeiro sinal em minha consciência de que havia uma coisa qualquer de podre na metafórica Dinamarca foi quando tomei conhe­cimento do rompimento entre o Movimento Zeitgeist e o Projeto Vênus. Isso ocorreu em abril de 2011, mas o MZ é tão rele­vante que eu demorei um ano e meio para ficar sabendo, e ninguém notou nenhuma diferença no universo por causa disso. Not a single fuck was given. Eu sempre achei que ambos (MZ e PV) eram mastur­bações intelectuais de ativistas inter­néticos movidos a leite de pera, ovomaltine e generosas baforadas de mari­juana. Estava enganado (eu me engano muito, mas raramente alguém se importa de me mostrar isso). Embora previsto e previsível, o refluxo do MZ era parte de um processo. Depois de se apropriar das ideias de Jacque Fresco e Roxanne Meadows, as pessoas por trás do MZ passaram a ter um conjunto bastante grande de ideias e propostas, a ponto de poderem se caracterizar como um tipo de partido político ou religião — só não tinham projeção social para isso, porque o MZ era tudo menos receptivo. Então era neces­sário tirar de cena o MZ e passar à fase seguinte do projeto. E vocês repararam que a modinha anarcomiguxa começou a criar força à medida em que o MZ perdia força? Vocês acham isso coincidência?

    Poderíamos resumir dizendo que o filme Zeitgeist prepara caminho para uma ideo­logia direitista extremamente reacionária poli­ti­ca­mente, ultraliberal no sentido econômico. Faz isso desacre­di­tando o cris­tianismo, que oferece uma mensagem social que pode ser usada para defender um socia­lismo que não seja ateísta. Desa­credi­tado o cristianismo, é possível insurgir contra todas as formas de cole­ti­vismo e preocupação social sem o risco de vê-las legitimadas pela religião. Depois Zeitgeist apresenta o estado como inimigo do povo, o que legitima o ataque ao estado como uma guerra liber­tadora — ainda que boa parte das garantias de direitos só existam através do Estado. Por fim, lança dúvidas sobre o sistema econô­mico existente, preparando caminho para as teses da escola austríaca e seu ultraliberalismo.


    Por isso eu digo que o movimento anarco­mi­guxo não existiria sem que Zeitgeist tivesse existido. A modinha anarco­mi­guxa inclui quatro elementos centrais:
    1. pensamento individualista
    2. radicalismo da ação política
    3. o ultraliberalismo econômico
    4. dicotomia maniqueísta

    O individualismo exacerbado, a ponto de alguns usarem mesmo o termo egoísmo e se negarem qualquer responsabilidade sobre as conse­quências de seus atos sobre outrem (ou melhor, conforme correção enviada por um leitor abaixo: qualquer obri­gação de agirem em benefício de outrem), deriva das obras de Ayn Rand, romancista americana de origem russa, auto­intitulada filósofa (embora suas obras sejam livros de ficção).  Este tipo de postura, obvia­mente, induz ao radica­lismo, pois uma filosofia destas fatal­mente resulta em um pequeno número de satis­feitos e grandes massas de explo­rados. Nas obras de Rand isso redunda em dita­duras que subjugam as massas, destroem suas formas de organização solidária (sindicatos, por exemplo) e impõem um tipo de governo «dos melhores». Defensores mais modernos e menos deslavados, que não teriam coragem de, como Rand, admirar um estu­prador e esquarte­jador de meninas, preferem propor a coisa em termos mais pala­táveis, suge­rindo uma tecno­cracia ao exigir que os gover­nantes sejam «preparados». Alguns chegaram a exigir pré-requisitos para o exercício da adminis­tração pública tão elevados que pratica­mente nenhum líder mundial se qualificaria.

    Percebe-se, clara­mente, que as teses anarco­mi­guxas (ou minar­co­mi­guxas, para agradar a alguns mais específicos) formam um todo coerente, embora trazidas da obra de dois autores de origens tão diversas: Mises um lambe-botas dos aristocratas do Império Austro-Húngaro que foi ado­tado como guru nos EUA na época do macar­thismo e Rand uma judia russa dotada de um forte senti­mento anti­popular, antis­sindical, antis­social e anti­ético (no sentido de que negava uma ética comum à cole­ti­vidade, propondo um egoísmo racional que, logicamente, só seria ético para quem a adotasse). Esses autores possuem suas idios­sincrasias: o ateísmo egoísta de Rand e o mani­queísmo into­lerante de Mieses poderiam causar certos atritos com persona­li­dades mais sofis­ticadas ou mais religiosas. Isso explica o filme Zeitgeist.

    Se pensarmos que havia, desde o início, a intenção de estimular o surgi­mento de uma «opinião pública» girada à direita e que os deten­tores de tal inten­ção perce­beram que isso poderia ser feito apenas através da subver­são da ética, insti­lando um egoísmo cuja justi­ficação mais acessível estava na obra de Rand; percebe-se a neces­sidade de aplainar as arestas da perso­na­li­dade desta para torná-la mais aceitável ao grande público. Em outra época uma pessoa como Rand seria tachada de epítetos desa­gra­da­bi­lís­simos. Particular­mente proble­mático seria o seu ateísmo.  Além do mais, uma crítica defini­tiva ao socia­lismo não pode ser feita sem se ter primeiro desa­cre­ditado o cristia­nismo, devido às muitas seme­lhanças existentes entre as propostas sociais cristãs contidas na Bíblia em si e aquelas teorias avan­çadas pelos marxistas.

    Então, quem criou o filme Zeitgeist fez uma parte para «provar» que o mito de Jesus é «falso», o que serviu para esti­mular o surgi­mento e popu­la­ri­zação de um tipo de «ateísmo miguxo» baseado na revol­tinha e em doses cavalares de igno­rância, leite de pera e ovo­mal­tine. Daí, quando é apre­sentado às ideias de Rand, não acha problema algum o ateísmo dela, acha até vantagem. O neo-ateísmo, voltado para a direita, não deriva do ateísmo histórico, tradicionalmente de esquerda, mas dos delírios egoístas de Rand, que leu Nietzsche, entendeu mal e o perverteu de forma a justificar sua revolta pessoal contra o Estado soviético.

    As outras partes do filme atacam o sistema econômico. Elas são, de fato, o objetivo central do filme. A primeira parte é só uma isca para ateus revol­tados. O anar­co­mi­gu­xismo propaga a ideia de que um «estado mínimo» seria mais pacífico, princi­pal­mente porque não poderia coagir os seus cidadãos (que, diga-se de passagem, estariam armados até os dentes, com todo tipo de armas de fogo que pudes­sem comprar). Isto explica porque o primeiro filme fez tanta força para provar que um órgão do governo, a CIA, planejou e exe­cutou o atentado de 11/09/2001. Ao organizar um atentado contra o povo, o Estado se revela «o que é»: inimigo do povo. Então o povo deve enfra­quecer o Estado para libertar-se (por isso os anar­co­mi­guxos se dizem «libertários»).


    A suposta paz de que se desfrutaria com a eliminação, ou pelo menos a inanição do Estado, é tão irrealista que os próprios anar­co­mi­guxos admitem que a função de polícia teria que ser mantida, a fim de poder garantir a «ordem social». Uma ordem social opres­sora mantida por uma polícia a serviço de uma elite egoísta não me parece algo muito liberto, mas os liber­tá­rios não estão interessados em libertar a todos, apenas a si mesmos. Então faz sentido.

    Finalmente, temos algo bem mais explícito, que é a relação entre a crítica dos «austríacos» à moeda fiduciária e aos bancos centrais, encon­trada quase ipsis litteris na terceira parte de Zeitgeist, na qual temos a «revelação» de que o dinheiro que conhece­mos não possui valor intrín­seco (ó, que descubrida!) e que a função dos bancos centrais é inter­mediar o endi­vi­da­mento do Estado. De certa forma, sim, mas esta inter­me­diação deveria ser no sentido de controlá-lo. Engraçado que os anar­co­mi­guxos são contra os controles estatais, mas protes­tam contra o endi­vi­da­mento descon­tro­lado do Estado, que é causado justa­mente pela elimi­nação de regu­lações. É uma valsa do austríaco doido isso aí.

    Vemos, então, que as três partes prefiguram. Colocando tudo em um caldeirão e deixando fermentar, perce­bemos que alguém, em algum lugar, concebeu Zeitgeist como a semente de um movi­mento direitista ultra­liberal suposta­mente espon­tâneo, mas de fato diri­gido difusa­mente através de vídeos virais e sites de refe­rência (como o Instituto Mises). Isto é o astro­turfing de que falei. Para isso atacou a religião cristã, preparando terreno para a aceitação das ideias de Ayn Rand (que são essen­cial­mente anticristãs e, por isso mesmo, também anti­co­munistas). Ao mesmo tempo criou a teoria de que o atentado de 11/09/2001 teria sido promovido pelo governo ame­ri­cano, a fim de fazer com que muitas pessoas passassem a des­confiar do governo enquanto insti­tuição. E por fim, difundiu a men­sagem de que o dinheiro não tem valor intrínseco e que os gover­nos se endi­vidam inde­fi­ni­da­mente, preparando-se para enfrentar a crise ine­vitável, durante a qual os valores liberais seriam postos em xeque.

    Em relação às teses do filme, deve-se dizer que se elas fossem intei­ra­mente absurdas elas não teriam credi­bi­li­dade. Elas são falsas não porque são absurdas, mas porque mis­turam absurdos e verdades, de forma que um conta­mina o outro. O absurdo reduz a credi­bi­li­dade do que é verdadeiro, e a verdade empresta valor ao que é absurdo. Em relação a Jesus, por exemplo, é verdade que ele é um mito. É mentira que esse mito não tem conexão com uma figura histórica real. É verdade que este mito tem origem helenística, influ­en­ciada pelo judaísmo, e não judaica. Mas é mentira que seja pura­mente um culto astro­lógico. É verdade que Jesus foi miti­fi­cado usando elementos comuns e arque­típicos. Mas é mentira que havia um protótipo de «Deus sofredor» no qual Jesus, Dionísio, Hórus e Adônis estariam compre­endidos. É verdade que vários ele­mentos da biografia de Jesus se base­aram nas biografias de outros perso­na­gens de outras mitologias. Mas é mentira que algum perso­na­gem tenha todos os elementos da biografia de Jesus (e se tem, não é Hórus o melhor modelo, mas Hércules). Não me atrevo a comentar demais sobre as outras duas partes, porque a minha área é a História. Mas suponho que também nelas impera esta mistura indis­cri­mi­nada de verdade e mani­pu­lação deslavada. Existem boas fontes na internet para se pesquisar isso, mas eu não preciso pesquisar, porque pelo dedo se conhece o gigante.

    Depois de ter difundido esse conjunto aparentemente desconexo de ideias, os idea­li­za­dores do Zeitgeist descobriram o Projeto Vênus, com suas ideias de tecno­cracia futurista e governo mínimo, baseado em «cidades susten­táveis». Ao mesmo tempo começou a bombar na internet o conceito das «cidades-estado» (charter cities), proposto pelo cien­tista polí­tico ame­ri­cano Paul Romer. Tanto as cidades sus­ten­táveis de Jacque Fresco quanto as cidades estado de Romer seriam uni­dades autô­no­mas, fechadas em si. Comu­ni­dades isoladas e autos­sufi­ci­entes como Galt's Gulch (o refúgio dos super homens de Ayn Rand, em A Revolta de Atlas). A separação entre o Projeto Vênus e o Movimento Zeitgeist indica que, de fato, essa união não foi nunca essencial: o Projeto Vênus era esquer­dista demais em suas preo­cu­pações sociais. A separação era esperada. No entanto, o Projeto Vênus e a difusão do conceito de cidades-estado tiveram sua função: criar a impressão de que existe na aca­demia um pensa­mento liberal minar­quista relevante e que não é carac­te­ris­ti­ca­mente vinculado com a direita.

    O conceito básico envolvido é a minarquia, a diminuição do poder do Estado até ele se tornar mera­mente um instru­mento de orga­ni­zação ao nível local e básico, algo suposta­mente melhor do que o grande estado que conhe­cemos. Quando tudo isto alcançou uma massa crítica, ao se tornar viral na internet, os movimentos ori­gi­nais foram aban­do­nados porque já se havia criado um estado mental recep­tivo à propo­sição das ideias inicial­mente aven­tadas pelo Zeit­geist e pelo Projeto Vênus. Foi então que se começou a ouvir falar de Mises e da Escola Austríaca e o governo de Honduras, fruto daquele golpe canhestro patro­cinado pelos EUA, resolveu criar duas cidades estado no padrão de Romer para testar sua hipótese. São várias fren­tes de batalha simul­tâneas, todas bombar­de­ando a ideia ultraliberal no fim.

    Conforme se nota no gráfico forne­cido pelo Alexa.com, ao longo de quase todo o ano de 2011 há um aumento (não muito regular) dos aces­sos ao site www.mises.org, a nave mãe do movi­mento anar­co­miguxo. Em 2012 já se nota um decrés­cimo sig­ni­fi­ca­tivo, pois parece que, enfim, as pessoas não gos­ta­ram muito da verda­deira face do que estava por trás da modinha. Pelo menos não a nível global. Mas há algo dife­rente  a se notar quando ana­li­samos o mesmo gráfico em relação ao capítulo bra­si­leiro do Instituto Mises.

    Aqui a coisa é diferente, enquanto lá fora os acessos ao Insti­tuto Mises estão caindo, entre nós parece haver um inte­resse cres­cente nas ideias ultra­li­berais da Escola Austríaca. Enquanto nos anos anteriores os acessos pouco pas­sa­vam do traço, em 2012 , espe­cial­mente nos últimos meses, ocorre um cres­ci­mento bastante claro, a ponto de o tráfego brasi­leiro, sozinho, quase igua­lar o da matriz ameri­cana. Evi­den­te­mente o movimento anar­co­mi­guxo inter­na­cional deu chabu, mas anda bom­bando no Brasil.

    E isso nos leva a… essa tentativa ridícula de se criar de novo como partido a Aliança Reno­vadora Nacional (Arena), o espan­talho ide­o­ló­gico que dava cober­tura pseudo­par­ti­dária à dita­dura mili­tar bra­sileira. Não teríamos chegado ao ponto de se propor aber­ta­mente a recria­ção da Arena se não tivesse acon­tecido antes um longo pro­cesso de pre­pa­ração. A ideia de uma direita total­mente des­co­nec­tada de pre­ocu­pa­ções sociais, aven­tando uma meri­to­cracia que não exis­tiu nunca. Isso só está acon­te­cendo porque há pelo menos uns cinco ou seis anos a menta­li­dade do povo vem sendo pre­pa­rada por con­te­ú­dos difun­di­dos digi­tal­mente para legi­ti­mar as teses da direita mais extrema.

    Perceberam aonde quero chegar: alguém em algum lugar teve a boa ideia de tentar criar uma geração de jovens reaças a fim de dar subs­tância a um movi­mento rea­cio­nário. Isto era muito neces­sário, tendo em vista as suces­sivas crises do capi­ta­lismo a par­tir dos anos oitenta, aliadas ao cres­ci­mento de certas eco­no­mias emer­gentes, o sucesso de pro­je­tos que confli­tam com o pen­sa­mento esta­be­lecido (como Argen­tina, Islân­dia e Vene­zu­ela) e também a orga­ni­zação para­lela dos países peri­fé­ricos (como os BRICS). Estes desen­vol­vi­mentos ame­açam o con­senso capi­ta­lista e liberal, que triunfou com a queda do comu­nismo em 1989, especial­mente agora que a Europa está em crise também.

    O fascismo se alimenta de crises. Não é surpre­endente que justa­mente Grécia e Espanha estejam vendo crescer seus movi­mentos de ultra-direita (Aurora Dourada e Falange Católica, respec­ti­vamente). Mas o fas­cismo também pode ser utili­zado para insu­flar insta­bi­li­dade em países que se quer deses­ta­bilizar — e me parece muito claro que há um inte­resse em deses­ta­bi­lizar as insti­tui­ções brasi­leiras, já que em vez de alinhar-se aos inte­res­ses pre­do­mi­nantes o Brasil pre­fe­riu aproximar-se de Venezuela, Argentina, Rússia e outras ovelhas negras.

    As ideias ultraliberais e fascistóides parecem não ter sido muito bem sucedidas lá fora, onde as pessoas são, em geral, mais bem infor­madas do que aqui — e menos inte­res­sadas em maca­quear os ian­ques. Somente estão funcionando em países acu­ados por crises eco­nô­micas extre­mas, como os citados. Mas entre nós, os boto­cudos, todo espe­lhinho que venha de fora parece o máximo, mesmo essas ide­o­logias conce­bidas para nos fazerem mal. Isso explica por­que, fora a Guatemala, citada pelos próprios mise­anos como exemplo de país onde a Escola Austríaca é ensi­nada como dou­trina main­stream, o Brasil seja um dos países onde o inte­resse pela babo­seira pseudo­cien­tí­fica da Escola Austríaca esteja ganhando popu­laridade.

    E simultaneamente querem refundar a Arena, cri­mi­na­li­zar a polí­tica (jul­ga­mento do Men­sa­lão) e usar o terror como jus­ti­fi­ca­tiva para o endu­re­ci­mento (vio­lência em São Paulo). O ovo da serpente está chocando. E há polí­ticos opor­tu­nistas esquentando-o, pen­sando em votos. Ou pisamos logo nele, ou em breve esta­remos fugindo de uma cobra bem venenosa.

    Um Asilo e uma Civilização em Crise

    Finalmente, após semanas de adiamento, o Ministério dos Negócios Exteriores do Equador anunciou oficialmente que aquele país concedeu asilo político a Julian Assange, fundador e líder do polêmico sítio WikiLeaks. A concessão de tal asilo, e as repercussões imediatas e posteriores, revelam uma reviravolta ideológica impensável há poucas décadas, e são, em minha opinião, um dos primeiros sinais de que existem rachaduras na fachada do Grande Império Ocidental Moderno, cuja atual manifestação é encarnada pelos Estados Unidos da América.

    Comecemos por explicar de que se trata o referido GIOM — e porque uma nomenclatura destas é necessária, afinal.

    Quando estudamos História Antiga, somos apresentados aos povos do passado e suas instituições com um olhar distanciado e quase complacente, que nos permite ignorar diferenças e detalhes e criar grandes ficções. Assim é que nos permitimos chamar de «Egito» a uma série de entidades políticas que existiram no vale do Nilo, apenas porque herdeiras, genética e culturalmente, de uma mesma entidade primordial. Assim, «Egito» é uma «civilização», termo algo vago, que designa algo maior que um povo e maior que o Estado criado por esse povo. Da mesma forma que o «Egito», concebemos as civilizações hitita, mesopotâmica, indiana, chinesa, persa, greco-romana (às vezes chamada de «Mediterrânea»), árabe etc. Grandes simplificações nos permitem enxergar unidade onde existem apenas semelhanças ou, no máximo, relações de causa e efeito.

    Mas este olhar muda quando ultrapassamos a fronteira imaginária da Alta Idade Média e penetramos no terreno mais seguro da modernidade. Só porque podemos traçar a origem de nossas culturas e instituições desde estados e proto-estados surgidos entre os séculos VIII e XVI, acreditamos que o conceito de «civilização» (e suas perigosas implicações antropológicas) se torna desnecessário. Então passamos a estudar a História das unidades políticas individualmente, como se independentes fossem, no todo, apenas porque independentes são naquelas partes que escolhemos analisar. Certamente um historiador não contaminado por nenhum eurocentrismo, e vinculado a uma cultura milenar, como a chinesa, a indiana ou a árabe, teria certa facilidade para perceber o casuísmo.

    Se no aspecto da História «política» (ou seja, a análise das instituições fictícias criadas pela humanidade para governar-se) esta abordagem parece funcionar, ela é muito simplificada para explicar processos maiores, mais longos e mais profundos, como o processo de queda das civilizações.

    É um lugar comum detectar semelhanças entre os Estados Unidos e a civilização romana. Ainda que algumas destas sejam involuntárias, a maioria resulta, na verdade, de deliberada imitação, por convicção. Assim é que os Estados Unidos criaram o conceito moderno de República a partir de uma adaptação das instituições romanas pré imperiais; instituíram um Senado (se bem que não vitalício); deram-se um lema em latim (Ex Pluribus Unum) e um animal heráldico (a águia) parecido com o de Roma; adotaram políticas expansionistas análogas às dos antigos; aceitaram a imigração ao adotarem o jus solis, mas reservaram para uma casta de antigas famílias a maior parte do poder político, com raras exceções; moveram guerras justas e injustas; desenvolveram uma ideologia universalista e impuseram sua língua em muitos lugares onde originalmente não era falada. Vários dos defeitos e muitas das qualidades são comuns a ambas as civilizações. A partir de um certo ponto, movidas pela inércia fenomenal da evolução orgânica das civilizações, estas semelhanças começaram a influenciar o futuro dos Estados Unidos numa direção semelhante à do destino que teve Roma.

    Estas semelhanças, porém, só se tornam mais gritantes quando abandonamos a perspectiva míope de que cada país é uma entidade isolada e procuramos enxergar os países, sem considerar seu status jurídico internacional, como co-participantes de um processo civilizatório mais amplo. Nesse ponto podemos identificar que existe uma civilização «Atlântica» (nos dois lados do Atlântico Norte) que possui uma dinâmica mais ou menos uniforme (tendo a Europa um papel parecido com o da Grécia e a Grã Bretanha, mais especificamente, um análogo ao da Etrúria), áreas periféricas, mais ou menos controladas mas não assimiladas (a América Latina e a África) e uma imensa área que abriga civilizações diferentes (a Eurásia).

    Se considerarmos os EUA como herdeiros, continuadores e atuais controladores de um processo que começou com a conquista do reino dos Anglo-Saxões pelo conquistador Guilherme, em 1066, a analogia se torna mais forte e podemos detectar o que representam os principais fatos da História recente.

    Em primeiro lugar, Espártaco. No caso de Roma, a revolta dos escravos significou o ponto de saturação do sistema social oligárquico (controlado pelos patrícios, através do Senado, em detrimento da maioria da população). Ao massacrar os revoltosos sem atentar para as suas reivindicações, o estado romano se dedicou ao reacionarismo e ao autoritarismo, tornando-se progressivamente mais violento, mais conservador, mais contraditório e mais instável. A subjugação da plebe tornou impossível a sobrevivência de um exército de cidadãos e abriu caminho para as lealdades pagas, até que os mercenários tomaram o poder para si. Diferentemente de Roma, os EUA não tiveram um Espártaco individualizado e dentro de suas fronteiras. Em vez disso, o grande conflito social ocorreu contra um fator externo: o movimento socialista. O socialismo se insurge contra os valores fundamentais da civilização ocidental (que são o individualismo, o dinheiro, a exploração do homem pelo homem, o autoritarismo, o patriarcalismo etc.) e não é absurdo detectar nele uma distante inspiração semítica (a moral judaica e as crenças evangélicas, apesar de ele mesmo ser ateu). A luta contra este «Espártaco» sem rosto foi mais longa, mais violenta e mais empenhada. O resultado, claro, foi uma intensificação maior do conservadorismo, que se manifesta agora nos movimentos de extrema direita americanos, que parecem dar uma atenção fundamentalista aos «valores» capitalistas e a rejeitar toda uma série de conquistas sociais concedidas na época em que o comunismo parecia viável.

    Em segundo lugar, Aníbal. O famoso general cartaginês quase levou Roma à derrota na Segunda Guerra Púnica.  Tal como Hitler quase levou a civilização de roldão na Segunda Guerra Mundial. As semelhanças entre os dois não são muitas, é verdade, mas o papel exercido pelos conflitos pode ser comparado. Tal como Roma saiu da Segunda Guerra Púnica com o domínio de quase toda a orla do Mediterrâneo, os Estados Unidos emergiram da Segunda Guerra Mundial controlando mais de 50% da riqueza do mundo.

    Em terceiro lugar, Armínio. A primeira vez em que os poderosos exércitos romanos enfrentaram uma derrota foi para um inimigo pouco importante, em um lugar tampouco importante. Foi para um líder tribal germânico, em uma fronteira instável, numa região de pouco interesse econômico. A mesma coisa se repetiu quando os Estados Unidos perderam a Guerra do Vietnã, para líderes que quase podiam ser chamados de tribais, em um lugar instável e desimportante. Ambas as derrotas foram acompanhadas ou sucedidas por grandes campanhas vingativas (Roma massacrou centenas de milhares de germânicos nas décadas seguintes e os EUA submeteram o Vietnã a um quase genocídio quando bombardearam o país com agentes químicos desfolhantes, que destruíram sua agricultura).

    Em quarto lugar, os imperadores. Em algum momento da História romana o Senado deixou de ser uma instituição funcional e aventureiros começaram a buscar o poder. O próprio Senado tentou consertar a situação criando o «triunvirato», através do qual renunciava à maior parte do poder, mas sem concedê-lo a um caudilho único. Os triunviratos levaram a guerras civis, que culminaram com a conquista do poder por Júlio César, que foi, por fim, assassinado, e sobre cujo cadáver foi erguida a nova instituição: o império. Tal como os romanos, em tempos clássicos, jamais chamaram os seus imperadores por esse título, mas por eufemismos como César e príncipe (o primeiro), também a nomenclatura dos líderes americanos não mudou, mesmo depois que eles se divorciaram totalmente do interesse popular e passaram a definir suas políticas sem considerar o bem estar do povo, mas considerando as necessidades do imperialismo em si.

    Em quinto lugar, a Dácia. Quando o império romano começou a ter dificuldades para expandir-se, devido à imensa distância que separava a capital das regiões mais remotas, quando a questão da cidadania já se tornava premente, pois havia pouquíssimos romanos em um império multiétnico e tão populoso, quando explodiram os custos da imensa burocracia e da manutenção de um exército suficiente para tanto território; nesse momento a economia entrou em colapso. A primeira inflação da história aconteceu no século I, a primeira desvalorização da moeda foi inventada por Nero, que diminuiu o teor de pureza das moedas de ouro padrão. As dificuldades econômicas do império fizeram-no voltar seus olhos para um povo pacífico, relativamente pouco numeroso, mas que vivia em um território rico: os dácios (habitantes originais da atual Romênia). A guerra que se seguiu, sob Trajano, foi um dos primeiros genocídios documentados da História. Para tomar as riquezas dos dácios e não deixar testemunhas de sua covardia, os romanos simplesmente mataram ou escravizaram quase toda a população. Em questão de décadas a cultura dácia desapareceu sem quase deixar vestígios. Mas o ouro da Dácia encheu por alguns anos os cofres romanos. Algo semelhante ao que fizeram os Estados Unidos, em suas guerras recentes contra o Iraque e a Líbia (esta última guerra travada por procuração usando a OTAN  e mercenários). A grande mortandade não importou muito, pois o importante era obter o ouro negro, essencial ao funcionamento da economia americana.

    E então os bárbaros começaram a ficar inquietos.

    Durante mais de dois séculos (26 AEC – 192 EC) o núcleo da civilização romana esteve em paz, mantida pelo autoritarismo, pelo militarismo e pela política do «pão e circo». As guerras eram uma realidade meramente provincial. Uma coisa de lugares atrasados mesmo. Tal como hoje vemos as guerras como fenômenos ligados a conflitos tribais em cantos perdidos do mundo (como a Somália e o Congo) ou em regiões onde a força do Império anda agindo (Iraque, Afeganistão). A Pax Americana consolidou-se somente com a dissolução da ameaça socialista, mas já é identificável sua influência. Ocorre que o período de paz e domínio termina um dia. Para os romanos, ele termina quando se tenta implantar o poder hereditário (com Cômodo, filho de Marco Aurélio). O resultado são sucessivos conflitos internos, que fragilizam o império diante da ameaça dos bárbaros, culminando no fracionamento do território, novas guerras civis e a necessidade de criar novas instituições.

    A alta tensão política interna dos Estados Unidos parece indicar o fim da relativa paz social que este país desfrutou durante a maior parte do século XX. E é neste sentido que Julian Assange entra na história, como um fator que rompe a dinâmica das semelhanças entre Roma e os Estados Unidos.

    Devido ao estágio tecnológico em que vivemos, podemos ver um fenômenos como o WikiLeaks, sem nenhuma analogia possível com Roma. Mas a atuação de Julian Assange não é senão a de piromaníaco durante o incêndio. Suas revelações produziram ainda mais exacerbação na política americana, que já parece encaminhar-se para um neomacarthismo.

    Em outras épocas pessoas que desafiavam os grandes poderes podiam ser eliminadas sem muita cerimônia, ou com cerimônias destinadas exclusivamente a dissuadir outros — como a execução cerimonial de William Wallace,1 o líder escocês cuja história é narrada pelo filme «Coração Valente». Não havia necessidade de processos. Isso tornava relativamente fácil calar quaisquer questionamentos incômodos, mas produzia revoltas progressivamente mais violentas, como as que o Império Romano viveu no século III.

    Então o que Julian Assange conseguiu fazer foi produzir um fato histórico de tipo novo, mas dentro ainda de uma dinâmica previsível. As acusações que surgiram contra ele são, da mesma forma, previsíveis: crimes sexuais sempre são usados como propaganda contra os inimigos. Em todas as épocas e circunstâncias, estereótipos sexuais desqualificavam, animalizavam ou ridicularizavam quem se queria calar. Martinho Lutero acusou o papa de ser «sodomita» e o papa, por sua vez, acusou Lutero de ter dentro de si nada menos que sete demônios, cada um deles levando-o a cometer um dos sete pecados capitais. Ainda hoje circulam histórias sobre as disfunções sexuais de Hitler (que incluem incesto com uma sobrinha, problemas dentários que lhe davam mau hálito, dificuldades eréteis, falta de libido, flatulência excessiva e até «sodomia»). Conseguir prender o adversário sob o pretexto de um crime comum é também muito eficiente.

    A segunda e maior novidade no caso Assange, reveladora do estágio avançado de decadência moral e institucional da civilização atlântica, é que o Equador tenha-lhe dado asilo.

    O asilo político é um ato de força de uma potência contra um estado mais frágil. A inexpugnabilidade da embaixada repousa sobre a ameaça de canhões. Fugir para a embaixada britânica ou americana, se possível, era obter uma quase salvação. Dissidentes chineses que conseguiram entrar na embaixada americana de Pequim conseguiram sair da China. Até da China. Nunca antes, porém, um país pequeno e desarmado ousara testar os limites do respeito que um país central tem em relação à sua embaixada. Não custa lembrar que os Estados Unidos empregaram, durante vários dias, som em altíssimo volume para incomodar o general panamenho Manuel Noriega, que estava asilado na embaixada do Vaticano. Impossibilitado de dormir, Noriega acabou se entregando. Ainda não está claro se a Grã Bretanha respeitará a soberania da embaixada equatoriana, ou se o emprego de altíssimos decibéis é algo aceitável também no centro de Londres, ou apenas numa cidade da periferia, entre os bárbaros. Mas a simples ousadia do Equador, uma entre muitas que diversos países vêm cometendo, dá uma dimensão das tensões que se acumulam.

    O caso tem o potencial de destruir séculos de jurisprudência e abalar todo o direito internacional. Se a embaixada equatoriana for violada, o direito de asilo se tornará letra morta daqui para a frente, os perseguidos políticos estarão ainda mais indefesos e os regimes autoritários ganharão força. Qualquer ato cometido contra a embaixada será uma agressão contra o Equador (e o regime de Rafael Corrêa, ao contrário do Vaticano, não parece empenhado em agradar os Estados Unidos ou incomodado com  a presença de Assange em sua embaixada). Mas se Assange for bem sucedido em seu asilo, o mundo ficará ainda mais interessante, pois se dará o sinal de que as embaixadas dos pequenos também podem ser seguras para quem deseja asilo, o que aumentará a ocorrência de episódios semelhantes, não mais limitados pelo receio de que as embaixadas atualmente seguras costumam ter restrições a certos tipos de perseguidos.

    De qualquer forma, adiciona-se mais instabilidade a uma conjuntura institucional internacional que parece encaminhar-se para uma crise, tal como Roma se encaminhou no século III.

    E eu nem falei dos problemas de saúde que afetaram a elite romana, da corrupção dos costumes pelos excessos sexuais (em parte exageros puritanos de Edward Gibbon) e dos desobramentos culturais e econômicos dos séculos III-IV.

    Diferentemente do que disse Fukuyama (cuspida metafórica em seu cadáver acadêmico, pf), não vivemos nenhum fim da História, mas entramos em tempos «interessantes», tal como na maldição chinesa.2

    1 William Wallace foi executado em um espetáculo de crueldade incomum mesmo para a época. Primeiro foi arrastado pelas ruas de Londres amarrado a um cavalo, depois foi enforcado parcialmente (sem provocar a quebra do pescoço e subsequente morte), castrado, eviscerado (suas entranhas foram atiradas a uma fogueira para ele, ainda vivo, ver) e por fim decapitado. Seus restos mortais foram esquartejados e distribuídos por vários lugares, para servir de exemplo aos que se opunham à monarquia britânica.
    2 As três «maldições chinesas» (provavelmente inventadas por um humorista britânico do século XIX, época em que a China estava na moda na Europa) são: 1) Que você viva em tempos interessantes, 2) Que o governo se importe com você e 3) Que você encontre o que procura. Elas devem ser entendidas como eufemismos para: 1) Que você encontre muitas dificuldades, 2) Que os governantes o persigam e 3) Que você seja preso e punido.