A Argumentação Fascista

Chamo de “argumentação fascista” aquele estilo de debater que emprega o máximo artifício, para obter o maior efeito possível sobre o leitor. O argumentador fascista não quer que o leitor entenda o ponto, mas que capitule diante das estratégias argumentativas empregadas. Se no mundo real o fascista emprega a violência direta como meio para chegar aos seus objetivos, no mundo virtual transferirá um mesmo estilo ao seu texto, recorrendo a todo tipo de agressão e minimizando a sofisticação intelectual do texto.

A argumentação fascista é, então, uma forma de violência gráfico-verbal que tem por meta subjugar o leitor, em vez de convencê-lo. Existem várias formas de se argumentar de uma maneira fascista:

Parede de texto

A prolixidade pode empregada para pôr o leitor em uma situação de inferioridade intelectual aparente. Se não consegue compreender o texto, pela sua extensão e sua aridez, não conseguirá rebatê-lo eficientemente. A falha logo será usada pelo argumentador como uma “prova” de que o seu oponente não possui estatura intelectual suficiente para o debate, desacreditando-o sem que suas ideias sejam ouvidas no contexto.

Violência verbal

Sempre que o texto emprega de uma forma constante e repetitiva uma agressividade que parece gratuita, podemos ter certeza de que isto não é acaso. Os palavrões, desqualificações e ironias; tudo não passa de bullying verbal para intimidar debatedores. Alguns sentem receio porque são atingidos em sua autoestima ou se identificam com os rótulos usados para desqualificá-los. Por exemplo: o emprego de ataques pessoas indiscriminados contra pessoas que possivelmente tenham certas opiniões é uma forma de desestimular que interfiram (“todo mundo que pensa diferente é viado”). O uso de rótulos é uma maneira eficaz de esvaziar posições contrárias (“você só diz isso porque é comunista”).

Maniqueísmo

A prioridade da argumentação fascista, seja qual for o contexto, é a construção de consensos, em vez da busca pela verdade. O argumentador fascista busca, então, unir em torno de si os que já são simpáticos à sua causa. No passo seguinte ele coage os que pensam de forma semelhante, mas não idêntica, a abandonarem suas pequenas “heresias” e aderirem ao pensamento único. Por fim, tendo estabelecido um terreno seguro, o argumentador fascista é tentado a usar a força para silenciar posições diferentes e monopolizar o discurso. O processo todo se constrói com uma argumentação dualista de que “quem não está conosco é porque está contra nós”. Forçando o contraste, o fascista ressalta as identidades e suprime as nuanças.

Respostas prontas

Como diz o verso dos Engenheiros do Hawaii, na canção “Toda Forma de Poder”: o fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante fascinada. A cultura é a melhor arma contra o fascismo porque ela nos convence a não aceitar a fascinação do fácil. O fascismo pode ser, também, definido como um “facilismo”. O ódio do fascista à cultura é forte justamente porque a simplificação que o maniqueísmo oferece é desmascarada pelo conhecimento. Não é possível aceitar respostas fáceis quando você conhece a realidade em mais detalhes. Quem vê um arco íris não pode aceitar que o mundo seja preto-e-branco, mesmo que todas as construções visíveis tenham sido descoloridas. Então, quando um texto argumenta com excesso de repostas prontas e fáceis, podemos suspeitar que todas sejam falsas, ou em sua maioria.

Falsa autoridade

Citações são como calças, aqueles que fingem usar não podem enganar ninguém, a menos que se escondam. Quando você usa citações de maneira incorreta, basta que alguém bem informado leia, perceba a bestagem e poste um comentário. Então, se você só está engalanando o seu texto com citações para enganar ignorantes, precisará manter estrito controle sobre quem o lê e quem o comenta. Se o controle do primeiro tipo for menor (textos escritos já com a finalidade de compartilhar), então o controle do segundo tipo precisará ser exponencialmente maior. Textos contendo argumentação fascista geralmente são encontrados em blogues cujos comentários são controlados, fóruns onde a “fauna” é hostil, ou páginas que só aceitam reações via correio eletrônico.1

Um bom exemplo disso são os sites dos próceres da direita — Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho e os blogueiros da Veja. Na verdade, todo fórum da internet é um habitat potencial para a argumentação do tipo fascista, visto que agregam manadas de leitores cujo pensamento tende a coincidir com o divulgado localmente. O mesmo pode ser dito dos blogues, inclusive este. Então, é extremamente importante o leitor ter discernimento para não aceitar como autoritativo o que é apenas autoritário. Digo tudo isso para enfatizar que a presença de citações em um texto nada diz sobre seu embasamento. Quando você não checa as citações dadas, você aceita religiosamente o que está escrito. Mas quando você tenta checar, e percebe que todos os caminhos levam a lugar-nenhum, então pode se tranquilizar na certeza de que o texto emprega citações e referências apenas como uma forma de intimidar.

A Fascistização do conteúdo na internet

Tenho observado que essas técnicas de argumentação e arregimentação se tornaram comuns na internet. Empregam-na blogueiros de todos os matizes ideológicos (principalmente na direita, mas a esquerda não fica imune). Isso nos sugere que cada vez menos o conteúdo real da internet terá a capacidade de influenciar. Em vez disso, os blogues e sites se fetichizarão, valendo mais pela marca que vendem e pelas manchetes que divulgam do que pelos argumentos que realmente apresentam.

1 Um bom exemplo de como os fascistas fecham a porta para o questionamento pode ser visto ao vivo no blogue da “Universidade de Santa Catarina Conservadora”, onde um texto inacreditavelmente estúpido foi postado, mas ninguém pode comentar.

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