O Dilema da Grécia

O que mais se tem dito, com um «moralismo monetário» de dar nojo, é que a Grécia está a cometer uma espécie e de crime, como se cada grego do mundo estivesse «roubando» de outros aquilo que seu país não tem mais conseguido pagar (e que aparentemente não mais pagará). A hipocrisia é uma homenagem envergonhada que o vício presta à virtude, como disse La Rochefoucauld, mas a falsa analogia é a homenagem que a estupidez faz à racionalidade.

Relações internacionais não são pautadas pelo moralismo. Países não são pessoas. As relações que concebemos entre indivíduos não podem ser estendidas automaticamente às alianças entre nações. Crimes, como «roubo», são definidos pelos estados segundo leis que devem ser obedecidas por seus cidadãos. Tão relativo é o conceito de crime que é frequente que o mesmo ato, tolerado em um lugar, seja severamente punido em outro — e vice-versa. Se as nacionalidades, tomadas em seu coletivo, podem cometer «crimes» (tal como sugeriu Euclides da Cunha), estes não são análogos aos crimes que as pessoas cometem, justamente porque o marco legal que os define é outro. Devemos, pois, deixar de lado todo moralismo pedestre ao analisarmos o caso da Grécia, pois não estamos a falar de alguém que tomou a bolsa de uma velhinha. Nem a Grécia é um punguista e nem os seus credores são uma inocente senhora. Malcolm X disse, com alguma propriedade, que, se não prestarmos atenção, os meios de comunicação podem nos fazer amar ao opressor e detestar ao oprimido. Ponha-se de lado tudo o mais que Malcolm X disse e fez, por esta frase ele já merece ser lembrado, pois é evidentemente assim que as coisas se dão — o caso da Grécia é apenas um exemplo.

A dívida de um país não é como a dívida assumida por um indivíduo. Existem diversas diferenças e pouquíssimas semelhanças. Para começar, a dívida do indivíduo é pessoal, geralmente fruto de um ato de sua vontade, enquanto a dívida nacional é impessoal, fruto de uma política adotada por um governante eleito que apenas supostamente expressa a vontade do povo. Digo que apenas «supostamente» porque é impossível que o povo saiba tudo o que faz o seu governo (se soubesse, como disse Bismarck, não haveria governo) e, ainda que saiba e consinta, é impossível que a tudo entenda e preveja. A maioria das pessoas já tem alguma dificuldade para gerir a própria vida e não reserva muito tempo para pensar «grande» nos destinos do país. Em vez disso, confiam estas decisões aos seus líderes, eleitos ou não, limitando-se a acompanhar, muito mal e porcamente, e a manifestar-se, periodicamente, nas eleições, a respeito do trabalho que se faz. A democracia representativa pode, muito facilmente, conduzir o povo à alienação — e os políticos, de todas as cores ideológicas, se comprazem nisso porque lhes é conveniente que o povo saiba pouco. Um povo que pouco sabe e pouco entende é um povo cujo voto pode ser conquistado com pouco esforço (embora se possa requerer um custo alto, ainda assim).

Se a dívida nacional é fruto da vontade de um governo — que pode expressar a vontade da maioria do povo, mas nunca representa o entendimento e o consentimento bem informado desta mesma maioria — e da liberalidade do emprestador, resulta que não pode existir quanto a ela o mesmo grau de responsabilidade pessoal que existe na dívida que você, leitor, contrai com o banco para comprar um novo televisor em prestações mensais.

Especialmente porque a dívida nem sempre resulta em benefício ao povo. Nos anos oitenta era voz corrente cá na América Latina que as dívidas do chamado «Terceiro Mundo» deveriam ser auditadas. Dizia-se isso porque as pessoas bem-informadas sabiam que boa parte dos recursos emprestados (e transformados em dívida nacional) nunca, de fato, chegavam cá, mas eram desviados no meio do caminho e retornavam aos mesmos países emprestadores (ou a outros) na forma de «contas secretas» em nome de chefes de estado corruptos ou seus apaniguados.

Até as pedras de Zurique sabem que a prosperidade helvética se construiu com as fortunas depositadas de boa gente como Mobutu Sese Seko, Papa Doc, Idi Amin Dadá, Joaquín Balaguer e uma multidão de outros tiranos corruptos da África e da América. Condenar os povos do Terceiro Mundo a pagar estas dívidas é uma injustiça suprema. É como condenar você, leitor, a pagar a conta do seu cartão de crédito que foi fraudado.

No mundo das finanças pessoais existem inúmeras formas de proteção do indivíduo. Se o seu cartão de crédito for fraudado você será ressarcido pelo banco emissor. Se não puder pagar seus empréstimos, poderá renegociá-los (frequentemente a taxas mais baixas e com prazos maiores). Se em último caso inadimplir e nunca pagar, terá caducados os seus registros negativos de crédito após cinco anos e poderá voltar a atuar. Todas estas salvaguardas (e outras que nem lembro) existem para que o indivíduo não seja condenado a arrastar miseravelmente até o fim de sua vida uma dívida impagável. Elas não existem para que você não pague, mas para que os bancos se lembrem de lhe dar crédito em condições razoáveis, ou você fica inadimplente e eles perdem, não só o dinheiro emprestado, mas também o cliente. Nenhuma destas salvaguardas existem para os países.

Se uma nação se endivida, mesmo que seja mediante a fraude de um governo corrupto, ditatorial, impopular ou pouco transparente, a dívida deve ser paga. As renegociações nunca são a taxas mais baixas e prazos maiores simultaneamente. Diferentemente das finanças pessoais, os credores dos países se arvoram ao direito de entrar em sua casa, fazê-lo desligar alguns eletrodomésticos, obrigá-lo a vender objetos de valor (pelo preço que eles decidem, não pelo que você venderia) e ainda o obrigam a trabalhar horas extras, mesmo que o seu patrão não as pague.

Basicamente é o que ocorre quando o FMI, o Banco Mundial e outras instituições «inspecionam» as finanças de um país, obrigam-no a desativar programas sociais, vender empresas estatais ou patrimônios públicos, aumentar os impostos, baixar investimentos etc. E tais medidas devem ser seguidas à risca, mesmo não dando resultado, assim como o agiota o obrigaria a trabalhar mais para pagar as prestações, mesmo que você não receba as horas extras.

Uma nação endividada perde a sua soberania. E não importa como se endividou. Em alguns casos sequer importa «quanto» se endividou. O que importa é se consegue repagar os empréstimos feitos. Mas este repagamento não significa que o país está saudável, porque se os credores quiserem eles podem emprestar dinheiro para pagar as dívidas anteriores, mantendo a bicicleta a rodar. Um país se torna inadimplente, muitas vezes, apenas porque os credores decidiram que ele deve se tornar inadimplente.

Enquanto os credores ainda não decidiram que o país deve inadimplir, ele terá acesso fácil ao crédito e poderá acumular um nível de endividamento inimaginável para uma pessoa física. A Grécia, por exemplo, deve 180% do PIB. Isso é o mesmo que uma pessoa que recebe R$ 60.000,00 por ano ter uma dívida de R$ 108.000,00. Não parece muito (na verdade, se você fez financiamento imobiliário este deve ser o patamar de endividamento que você tem agora, desconsiderando seu patrimônio como fonte potencial de receita em caso de venda). De fato não é muito.

Um endividamento de 180% do PIB é menor, por exemplo, do que o endividamento do Japão. Não me consta que o Japão esteja inadimplente com seus compromissos ou que os credores temam uma bancarrota nipônica iminente. Os fatores que explicam a crise grega são outros. A Grécia está em crise, e finalmente inadimpliu, porque, à parte o seu endividamento, o país está há quase uma década em recessão. Se a economia estivesse crescendo normalmente, a Grécia poderia fazer algumas reformas estruturais, gerar superavit e continuar pagando a dívida até extingui-la, dentro de décadas ou séculos. Mas a agudização da recessão levou o país ao deficit, a má gestão econômica agravou isso e o FMI, com sua receita de desastre, determinou o desfecho ao obrigar a Grécia a fazer exatamente tudo que deprime a economia em vez de fazê-la crescer.

O FMI é o médico que receita o mesmo remédio para todos os pacientes e, mesmo vendo-os sempre morrer, continua acreditando na cura e culpando os falecidos por o remédio não ter funcionado com eles.

A receita do FMI para a Grécia foi a mesma que causou a «década perdida» da América Latina. A diferença é que a Grécia é menor, menos populosa e tem menos recursos naturais do que os países latino-americanos. A Grécia não tem como gerar superavit exportando produtos primários porque tem uma economia subdesenvolvida e limitada ao setor de serviços (turismo e navegação). Todo o resto da economia grega tem pequena importância relativa ao PIB. A economia grega é extremamente vulnerável à «confiança» externa porque de fato não possui nenhuma commoditie significativa para oferecer e nem se industrializou como uma Coreia do Sul ou uma Taiwan.

O que está acontecendo na Grécia não é, portanto, um caso análogo ao batedor de carteiras roubando a velhinha. A menos que a velhinha seja a Grécia e o batedor de carteiras seja o sistema financeiro internacional.

Os gregos não têm nenhuma falha moral, não estão «roubando» nada aos demais países do mundo, mesmo porque não foi aos cidadãos desses países que os gregos andaram a pagar suas dívidas, mas a um grupo pequeno de grandes empresas financeiras e seus controladores.

O caso da Grécia se parece mais com o do sujeito que se endividou com o agiota e, não tendo como pagar, teve as pernas quebradas por um capanga e ainda assim tem de trabalhar para pagar, ou terá os braços quebrados também. O que estamos vendo na Grécia não é um país que não honra seus compromissos, mas um país que decidiu que a dívida, por mais que se deva pagar, é uma preocupação posterior. Na hierarquia de necessidades, nesse momento salvar o país é mais importante do que pagar a dívida.

Nos anos 1980 o ditador Nicolae Ceausescu decidiu pagar a íntegra de sua dívida com o FMI através de um esforço de exportação agrícola e industrial combinado com redução de salários e racionamento de bens de necessidade, como carvão para calefação. Milhares de pessoas morreram de fome ou de frio na Romênia durante anos. Mas a dívida foi paga. Afinal, era o que os romenos deviam fazer, pois «eles» haviam contraído aquela dívida e era seu dever moral pagar. Não é mesmo?

O Bipartidarismo: uma Democracia de Fachada

A democracia é uma coisa que a gente, muitas vezes acha que é tão estável e confiável quanto os horários dos ônibus: pode ter seus contratempos, mas estão sempre aí passando para nos levar aonde queremos. A verdade é que a democracia é uma coisa tão recente que até assusta quando a gente para a pensar o quanto nos acostumamos com ela em tão pouco tempo. A nossa própria democracia tem pouco menos de trinta anos, e antes dela o mais parecido com democracia que vivêramos não durara mais que escassos dezoito anos. Somente os brasileiros que hoje têm menos de trinta anos gozam do privilégio de jamais terem vivido sob o arbítrio de uma ditadura. Talvez isto explique porque tantos deles gastem sua liberdade de expressão dizendo bobagens, como elogiar a ditadura e falar mal da liberdade de expressão.

Lá fora a coisa não é significativamente melhor. Na nossa América Latina a democracia, regra geral, é muito menos confiável do que podemos supor. Não há nenhum país do México para baixo que tenha gozado de um regime democrático, com sufrágio universal, liberdade de expressão, alternância no poder e independência de decisões econômicas por mais do que vinte anos, os últimos vinte anos, quase sempre. Os casos que antigamente eram citados como exemplos de democracia e estabilidade institucional não passam no crivo da mais básica análise: Venezuela, Costa Rica, Chile e Uruguai viveram décadas de eleições e mandatos cumpridos, mas só porque as oligarquias se revezavam nas cadeiras executivas e legislativas, através de eleições de fachada, nas quais o povo não tinha o que escolher.

A Europa, por sua vez, que adora nos dar lições, tem democracias mais jovens que a nossa (Turquia) ou viveu períodos de arbítrio ainda mais negros do que a nossa «Revolução» (casos do franquismo espanhol, que durou até 1975, ou da Cortina de Ferro socialista, caída entre 1989 e 1992). Mesmo países que empinam o nariz para falar de instituições e direitos humanos tiveram seu passado autoritário, como a França gaullista ou a Itália dos eternos parlamentos que duravam seis meses enquanto o «sistema» governava a partir de funcionários não eleitos. Países que ainda nos anos setenta estavam perseguindo e matando sindicalistas, artistas, estudantes ou gente que se vestia de forma suspeita.

Não é surpresa, então, considerar que a raiz de todo este mal continue firme e forte onde sempre esteve: os Estados Unidos. Os ianques sempre foram a inspiração universal dos sistemas democráticos, eles mesmos se intitulam, nada modestamente, a terra da liberdade («dos hambúrgueres e da azia», completou um personagem de famoso enlatado dos anos oitenta). Mas se o modelo que difundem é viciado, como podem as democracias que inspiram serem melhores? Toda cópia piora um pouco o original.

Então nos lugares onde os Estados Unidos calharam de implantar democracias em vez de ditaduras, caso do Japão, o sistema político resultante espelha o que tem de pior o sistema ianque: a plutocracia. E plutocracia não é democracia.

Sempre que você restringe as escolhas de alguém, você está, obviamente, dirigindo esta pessoa a escolher aquilo que você quer. Então, se a pessoa escolhe uma entre duas alternativas, não se pode dizer que ela realmente escolheu o que queria. Se você chega em um bar e só tem Coca Cola ou Pepsi, ninguém pode dizer que você não gosta de guaraná. Em um bipartidarismo, quem gosta de guaraná não tem a oportunidade de beber, menos gente percebe que gostaria de beber guaraná, todos são levados a crer que tiveram a liberdade de escolher o que beber, mas no fundo estão apenas fazendo girar uma roda de interesses econômicos, um jogo de cartas marcadas entre duas marcas.

Assim são os partidos em uma democracia bipartidária. Acostumados a conviver e a revezar-se, criam leis e estruturas que favorecem um ao outro e dificultam a competição. Isto faz com que as pessoas procurem fazer política dentro destes partidos, em vez de criarem partidos adicionais para defender ideias diferentes. Mas a mensagem que passa, em nível nacional, é a do consenso partidário, que será sempre fabricado por influência das lideranças, visto que os movimentos dissidentes não têm o poder de pagar matérias na imprensa para propagandear suas teses.

Toda democracia tende ao bipartidarismo, tal como o capitalismo tende ao monopolismo, a menos que o Estado crie leis para obstar isso. Mesmo países bastante democráticos podem cristalizar-se em regimes bipartidários, como aconteceu na França. Em um estágio mais profundo de degeneração, o sistema se consolida com um partido eternamente na situação e outro na oposição, como aconteceu com o México durante boa parte do século XX, ou o Paraguai de Stroessner. Isso quase sempre ocorre pelas armas, mas pode ser resultado também de eleições sucessivas em que um mesmo partido se sagre vitorioso.

Como não existe real liberdade de escolha quando as opções são limitadas (sejam duas, sejam três), a conclusão a que se pode facilmente chegar é a de que os regimes bipartidários não são democráticos em geral, mas são especialmente menos democráticos quando se desenvolveu um sistema para bloquear a entrada de novos partidos. Existem dois métodos principais de bloqueio: as restrições de registro e o voto distrital.

O primeiro método é usado em ditaduras ou democracias imperfeitas, e é utilizado para impedir ou cassar o registro de partidos que ameacem o sistema. Na América Latina, durante a maior parte do século XX, os partidos comunistas estiveram proibidos e os partidos de esquerda tiveram sua atuação notavelmente restringida. Na Turquia, durante muito tempo, partidos religiosos foram proibidos. No Brasil, notavelmente, vivemos um bipartidarismo imposto pelo regime militar entre 1967 e 1980.

Em geral os bipartidarismos deste tipo tendem a ser muito antidemocráticos e eventualmente se pode chegar ao bipartidarismo engessado, com a proibição de outros partidos. Mas pode haver um bipartidarismo “suave” no qual a hegemonia substitui a proibição. Nestes sistemas, existem vários métodos para impedir que os demais partidos cheguem ao poder. O sistema de voto distrital é um destes, usado para restringir o acesso de novos partidos quando o sistema quer guardar uma aparência de pluralidade. Os que defendem a democracia americana gostam de citar que o país possui centenas de partidos políticos registrados e que lá é mais fácil fundar um partido que abrir uma empresa. Só que esses partidos não têm futuro porque o sistema eleitoral desenvolvido pelos dois partidos majoritários impede que qualquer terceiro partido se consolide. De fato, é mais fácil concorrer como candidato independente do que como um candidato de um partido minoritário.

O sistema a que me refiro é chamado em inglês de “first past the post” ou “winner-takes-all”, que significam, basicamente, “o primeiro a chegar” ou “o vencedor leva tudo”. Este sistema é característico da Grã Bretanha e dos Estados Unidos e se caracteriza pela divisão do país em distritos eleitorais, cada um elegendo um representante para o congresso (estadual ou municipal). Em cada distrito se elege o candidato mais votado, mesmo que ele detenha menos de 50% dos votos. Combinando isso com o voto facultativo e já houve casos de candidatos eleitos por menos de 10% da população.

Este sistema ainda é burlado de várias formas:

  1. Gerrymandering, ou manipulação dos distritos. O partido que está no poder altera os limites dos distritos para agrupar os núcleos urbanos de forma a favorecer a reeleição de seus candidatos. Um distrito onde o partido vencedor tenha obtido mais de dois terços dos votos será repartido entre outros distritos onde ele perdeu, de forma que na eleição seguinte esses eleitores ajudem a vitória do partido governista nos distritos onde ele perdera a eleição anterior. Esse processo é tão acentuado nos Estados Unidos que há distritos onde o mesmo partido vem ganhando há décadas. Há estados onde o mesmo partido vem ganhando há décadas. Nas eleições você já deve ter visto o mapinha com os estados azuis (democratas) ou vermelhos (republicanos) e note bem que eles raramente mudam. Os poucos estados onde ocorre alternância no poder são chamados de “swing states” (estados-gangorra) e sempre é neles que se resolve a eleição.
  2. Exigência de apoio popular prévio para o registro de candidaturas. Em alguns estados americanos, um terceiro partido, se quiser concorrer, terá que obter assinaturas populares muitas vezes equivalentes a mais do que os votos necessários para vencer a eleição.
  3. “Pork”, ou sistema de retribuição. Os candidatos independentes ou pertencentes a partidos minoritários são excluídos da distribuição de verbas, o que faz com que seus eleitores os vejam como incapazes de trazer benefícios para a comunidade. Nesse sentido, os dois partidos majoritários, e teoricamente adversários, sempre estão unidos contra os partidos alternativos.
  4. “Rotten boroughs”, ou distritos apodrecidos. Na Grã Bretanha, durante muito tempo foi comum que os distritos eleitorais, estabelecidos no século XVII, não guardassem relação com sua densidade demográfica. A importância histórica das cidades valia mais do que sua importância econômica e sua população. Cidades novas não tinham representação própria, eram representadas pelo condado (“shire”) onde se encontravam, enquanto antigos vilarejos tinham até dois representantes próprios. No auge do absurdo, a cidade de Birmingham, segundo maior centro populacional do Reino Unido, tinha somente um representante, enquanto algumas cidades desabitadas tinham dois ou três.

Eu finjo que não sei o que pretendem os partidos que propõem voto distrital no Brasil, mas quero crer que isso é até irrelevante, se considerarmos que toda democracia tende a polarizar-se e somente se renova nas crises periódicas dos grandes partidos e dos grandes movimentos. Democracias excessivamente estáveis envelhecem e se tornam endurecidas, incapazes de promover as mudanças necessárias.

Democracias excessivamente estáveis tendem a deixar de ser democráticas ao longo do tempo.

Zeitgeist Desmascarado

Artigo anônimo publicado no blogue socialista britânico “Third Estate”. Traduzido por José Geraldo Gouvêa (com ajuda do Google Translator, dada a urgência). Todas as notas de rodapé escritas pelo tradutor.

Esta tradução é a primeira de uma série que contribuirei ao blogue Universo Racionalista com o objetivo de informar à comunidade cética nacional sobre o modo como o filme Zeitgeist e o movi­mento derivado a partir dele são vistos e analisados pelos sítios de movimentos céticos gringos. Praticamente não existem análises independentes em português sobre o filme. É surpreendente que, quase quatro anos após minhas críticas iniciais ao filme Zeitgeist, não tenha surgido na blogosfera cética brasileira nenhuma análise mais profunda do filme — em vez disso vão surgindo simpatizantes do Movimento Zeitgeist tentando usar os blogues céticos para difundir suas ideias.

Acredito que parte do problema deriva da falta de respeito com que, tradicionalmente, os céticos brasileiros encaram as ciências humanas, a História principalmente. O seu conceito delas já é previamente direcionado a considerá-las inconfiáveis e presas da ideologia (no pior dos casos o indivíduo considerará que as ciências sociais são marxistas ou parte de um Grande Plano frustrado de implantação do comunismo) — o que explica a popularidade de “filósofos” como Olavo de Carvalho. Temos um caldo de cultura favorável à desqualificação do conhecimento e receptivo a teorias de conspiração que consigam se disfarçar de iconoclasmo

Espero que a continuidade deste projeto sirva para ensejar um debate mais maduro sobre o filme Zeitgeist e o Movimento criado a partir dele. Um debate no qual as estratégias diversionistas e as falácias sejam desmascaradas honestamente, e do qual os leitores de mente aberta saiam com mais conhecimento do que entraram.

Links importantes

  • http://thethirdestate.net/2010/03/zeitgeist-exposed/ (fonte do artigo em inglês)
  • http://www.biblebelievers.org.au/przion1.htm (edição atualizada dos Protocolos)

No romance policial clássico de Agatha Christie Os Assassinatos ABC, o detetive Hercule Poirot se sai com a seguinte frase:

Quando você menos percebe um alfinete faltando? Quando se está em uma almofada de alfinetes. Quando você menos nota um assassinato específico? Quando faz parte de uma série de assassinatos relacionados.

Eu gostaria de expandir um pouco o raciocínio de Poirot:

Quando você menos nota uma teoria da conspiração extremamente perniciosa e perigosa? Quando estiver incluída em um filme de duas horas, entre muitas outras teorias da conspiração.

Ao longo do último ano um número de pessoas já me disseram que eu deveria assistir Zeitgeist: The Movie. Todas estas pessoas de esquerda ou inclinadas à esquerda, e cada uma me disse que o filme dá uma boa ideia das estruturas de poder no mundo moderno. Essas pessoas pertencem a uma grande variedade de origens e idades, algumas delas ambientalistas, algumas sindicalistas, alguns socialistas, algumas britânicas, algumas americanas. O filme alcançou índices de audiência em massa a nível mundial, com mais de 3.000.000 de pessoas assistindo-o no YouTube, e muitos mais em DVD ou Google Video. E de todas as pessoas que recomendaram o filme para mim, ninguém notou sua dependência em relação ao velho mito da “conspiração judaica mundial”. Neste artigo espero expor a relação do filme com textos e mitos antissemitas mais antigos e ver mais de perto como essas teorias são feitas para enganar os esquerdistas. Gostaria de explicar porque esse filme se tornou tão atraente para pessoas que, de outra forma, estão envolvidas no bom combate contra o capitalismo, contra a guerra e para salvar o meio ambiente. Estou particularmente interessado na relação entre o filme e um livro chamado Os Protocolos dos Sábios de Sião e com o uso de outros temas antissemitas que existiram ao longo da modernidade.1

Zeitgeist: The Movie é dividido em três partes: A primeira centra-se na relação entre a simbologia astrológica e da história de Jesus, o segundo a respeito da “verdade sobre o 11/9” e o terceiro sobre mercado financeiro internacional. Em toda a honestidade a primeira parte não tem muita importância. O argumento é que o cristianismo não é original na sua forma particular de mitologia, e em vez disso é uma reconfiguração dos mitos mais antigos focando sol deuses. Se vamos ou não tomar esse argumento como verdade tem muito pouco impacto sobre a forma como entendemos a sociedade moderna. A segunda parte do filme expõe uma teoria que 9/11 foi um trabalho interno, cometido pelo Estado americano. Muitas pessoas acreditam nisso em sério, e muita da informação é inacessível, mas o argumento que eu gostaria de fazer é que essas duas teorias da conspiração são, em muitos aspectos, sem consequências para o sentido geral do filme. Ao contrário, são usadas ​​como cortina de fumaça para justificar a difusão de material antissemita na seção final do filme.

O que São Os Protocolos dos Sábios de Sião?

Trata-se de um livro publicado pela primeira vez por volta da virada do século XX na Rússia. É um documento fraudulento e fictício, feito para ler como se fosse a troca de informações entre diver­sos grupos de judeus influentes que planejam dominar o mundo. Ele sugere que o povo judeu pre­tende dominar o mundo através de um processo de controle dos governos, da imprensa e dos ban­cos, enganando a população em geral. A alegação é de que os judeus pretendem escravizar o mundo através da criação de um “governo mundial”. É claro que o texto é profundamente antis­se­mita, e foi demonstrado várias vezes como uma falsificação,2 mas tem sido utilizado de forma con­sistente em todo desde então para justificar as atrocidades cometidas contra judeus. Além disso, continua popular em algumas partes do mundo, e entre algumas organizações de direita e grupos fascistas.3

A relação entre dois textos

É bastante fácil encontrar evidências de que há uma grande influência dos Protocolos dos Sábios de Sião sobre o conteúdo de Zeitgeist. Dá para encontrar até citações. Por exemplo, quando Zeit­geist diz que “os banqueiros internacionais têm agora uma máquina eficiente para expandir as suas ambições pessoais”, os Protocolos dizem que “as engrenagens das máquinas de todos os esta­dos são movidas pela força do motor, que está em nossas mãos, e o motor da máquina de nossos estados é o ouro”. Mas gostaria de dizer que esse tipo de crítica não vai longe o suficiente. Em vez disso gostaria de mostrar que todo o argumento da terceira seção do filme foi levantado a partir dOs Protocolos. É o mesmo argumento, muitas vezes em linguagem ligeiramente alterada, e é por isso que parece tão antissemita. Vou me concentrar em cinco aspectos particulares.

O Governo Mundial

Um dos grandes temores dos teóricos da conspiração é um governo mundial. Este ponto é expli­cado claramente na parte final do Zeitgeist em uma discussão sobre uma União da América do Norte, uma união asiática, a União Europeia, e uma União Africana. Até que, finalmente, se diz que “quando for a hora certa, elas vão se fundir e formar as fases finais do plano em que estes homens têm estado a trabalhar há mais de 60 anos: Um governo mundial… Um banco, um exér­cito, um centro de poder.” Este argumento é particularmente relacionado com a abertura do Pro­tocolo 3, em que lemos:

Hoje posso dizer que a nossa [dos judeus] meta agora está apenas a poucos passos. Resta somente um pequeno espaço a atravessar no longo caminho que temos trilhado antes que ciclo da Serpente Simbólica, por que nós simbolizamos nosso povo, seja concluído. Quando este anel se fechar, todos os Estados da Europa estarão bloqueados em seus anéis como em uma poderosa prisão.

Os Protocolos continuam no Protocolo 5:

Por todos esses meios vamos assim desgastar os goyim [não-judeus] até que eles sejam obrigados a oferecer-nos poder internacional de uma natureza que nos permitirá absor­ver todas as forças estatais do mundo e formar um Super-Governo.

O uso da guerra

Há uma seção no filme em que se afirma que as justificativas para os Estados Unidos entrarem em uma série de guerras mundiais foram orquestradas por “homens por trás do governo.” Dizem-nos que o naufrágio do Lusitânia foi planejado, que o incidente do Golfo do Tonkin nunca aconteceu, que se sabia sobre Pearl Harbor com a devida antecedência4 e é claro que 11/9 foi um trabalho interno. Diz-se que ambos os lados do conflito têm sido financiados pelos mesmos “banqueiros internacionais”. Esta seção do filme é levantada diretamente do protocolo nº 7, que diz:

Ao longo de toda a Europa, e por meio de relações na Europa, e também em outros con­tinentes, devemos criar fermentos, discórdia e hostilidade. É assim que ganhamos uma dupla vantagem. Em primeiro lugar, manter sob controle todos os países, pois bem eles sabem muito bem que temos o poder de criar distúrbios quando quisermos e res­taurar a ordem… Precisamos ficar em uma posição para responder a todos os atos de oposição pela guerra com os vizinhos do país que ouse se opor a nós, mas se esses vizinhos também se aventurarem a ficar coletivamente contra nós, então devemos oferecer resistência pela guerra universal.

Não vou negar aqui que guerras foram travadas cinicamente, porque é claro que foram, e também não estou dizendo que não deveríamos nos opor a certas guerras só porque outras guerras mere­ceram nossa oposição. O ponto aqui é, porém, que esse argumento em particular sobre a guerra, baseado na ideia de que os judeus mandam no mundo, deveria ser jogado fora.

Manipular a população

Existem dois tipos de pensamento nas teorias clássicas da conspiração judaica sobre a forma como as pessoas são feitas de bobas e enganadas. O primeiro, e o que foi realmente mais significativo na história das teorias da conspiração judaica, é a ideia de judeus controlando os meios de comuni­cação. O segundo, que se tornou menos utilizado, mas ainda existe em Zeitgeist: The Movie é a ideia de controle judaico do sistema de ensino para torná-lo ineficaz.

A questão do controle judeu da mídia é coberto no Protocolo 12, em que está escrito:

Nem um único anúncio chegará ao público sem nosso controle. Mesmo agora isso é alcan­çado por nós na medida em que todas as notícias são recebidas por algu­mas agên­cias em cujos escritórios são focadas de todas as partes do mundo. Tais agên­cias então já serão inteiramente nossas e darão publicidade apenas ao que ditarmos.

E no Protocolo 13:

Nós os distraímos ainda mais [aos não-judeus] com divertimentos, jogos, passatempos, paixões, palácios públicos… Estamos para começar a propor através da imprensa com­petições de arte e de todos os tipos de esportes. Esses interesses finalmente distrairão suas mentes das questões de que devemos nos encontrar compelidos opor-nos a eles.

Em Zeitgeist questões idênticas são cobertos o tempo todo, mas existe em particular a discussão de uma “cultura totalmente saturada de entretenimento através dos meios de comunicação em massa.” Dizem-nos que as mesmas pessoas por trás da tomada planejada do governo estão “por trás da grande mídia”.5

Em ambos Zeitgeist e os Protocolos vemos alguma discussão sobre o sistema de ensino. Em Zeitgeist nos é mencionada “a decadência do sistema de ensino dos EUA” e que “eles [o governo] não querem que seus filhos sejam educados”. Não é surpresa que o mesmo argumento seja feito no Protocolo 16: “Quando estivermos no poder, removeremos todo tipo de assunto perturbador do curso da educação e faremos dos jovens filhos obedientes da autoridade”. O narrador de Zeitgeist diz: “a última coisa que os homens atrás da cortina querem é um consciente, público informado”, ecoando o sentimento do protocolo 5: “não há nada mais perigoso para nós [os judeus] que a iniciativa pessoal.”

Ouro ou dinheiro, reserva federal e usura judaica

Tanto os Protocolos (particularmente Protocolos 21 e 22) e Zeitgeist focam fortemente sobre ques­tões relacionadas a dinheiro ou ouro. Ambos oferecem a teoria de que os problemas da sociedade são causados ​​por sistemas monetários e que o dinheiro está sendo controlado por um pequeno grupo de pessoas de moral duvidosa. O importante aqui é que o foco está no dinheiro e não no capi­tal ou no sistema de produção. Em vez de oferecer perspectivas críticas sobre as estruturas da sociedade que causam a opressão e a pobreza, a opinião geral é que a sociedade atual é benevo­lente e tal benevolência está subvertida por problemas na esfera da circulação.

Ao longo dos séculos, desde a expulsão dos judeus da Grã-Bretanha em 1290, a acusação de usura foi dirigida contra estes para fins antissemitas. Zeitgeist diz do imposto de renda federal:

Cerca de 25% da renda média do trabalhador é levado através deste imposto, e adi­vinha onde esse dinheiro vai? Vai pagar os juros sobre a moeda que está sendo pro­duzida pelo Federal Reserve Bank. O dinheiro que você ganha trabalhando por quase três meses ao ano vai quase literalmente para os bolsos dos banqueiros internacionais.

Mais uma vez, por uma questão de tentar fazer com que as palavras não apareçam como racistas que são, o termo judeu é substituído por “banqueiros internacionais”. Esta é mais uma vez a reafirmação de um mito antissemita. Assim como em todos esses exemplos, os argumentos aqui são levantadas a partir de teorias antissemitas mais antigas. Zeitgeist não está oferecendo uma explicação do mundo, ou dos sistemas econômicos políticos nacionais. Estes argumentos só existem para promover uma atitude de ódio a um determinado grupo pré-definido da sociedade.

A cabala secreta?

Em última análise, o argumento que está sendo feito em todo Zeitgeist é que o mundo está sendo controlado por uma pequena sociedade secreta de indivíduos. No contexto da história das teorias da conspiração, isto quer dizer “os judeus”. Quando nos é dito pelo filme sobre reuniões destes “banqueiros internacionais” que são “secretas e escondidas da vista do público”, as discussões sobre “uma agenda defendida pela elite impiedosa”, ou “as pessoas por trás do governo”, eles estão dando novo alento a um velho mito racista que devemos tentar manter distância.

Há uma insistência em toda a teorias da conspiração de que alguém ou algum grupo de pessoas é pessoalmente responsável por todos os males do mundo, e isso está muito relacionado com o antis­semitismo ao longo da modernidade. Por centenas de anos, os judeus têm sido o bode expi­a­tório oficial do capitalismo. Quando os sistemas de produção empobreceram povo, os judeus foram responsabilizados, onde as pessoas sentiram os impostos como injustos, os judeus foram responsabilizados, onde as pessoas se sentiram alienados pelas estruturas da sociedade, foram informados de que são de fato alienadas porque não fazem parte das reuniões secretas de judeus.

Em última análise, estas teorias nos levam para longe de uma crítica do capitalismo. O filósofo esloveno, Slavoj Zizek defende exatamente este ponto com referência ao antissemitismo de Wagner quando escreve:

Ele precisa de um judeu, de modo que, em primeiro lugar, a modernidade — este pro­cesso impessoal abstrato — tenha um rosto humano, seja identificada com uma carac­terística concreta e palpável; então, em um segundo movimento, rejeitando o judeu que incorpora tudo o que se desintegrou na modernidade, podemos manter as suas van­tagens. Em suma, o antissemitismo não representa anti-modernismo como tal, mas uma tentativa de combinar a modernidade com o corporativismo social que é carac­te­rís­tico dos revolucionários conservadores.

Quem foi o senador Louis McFadden?

Louis McFadden, que é muito cotado em Zeitgeist, era um senador dos EUA na primeira parte do século XX. Ele também calhou de ser um antissemita decidido e se saiu com frases como “nos Estados Unidos de hoje, os gentios têm tiras de papel enquanto os judeus têm o dinheiro legal”

Ele é citado duas vezes no filme dizendo o seguinte: “Um sistema bancário mundial estava a ser criado aqui… um superestado controlado por banqueiros internacionais, agindo em conjunto para escravizar o mundo para seu próprio prazer…” e “Foi uma ocorrência cuidadosamente planejada. Banqueiros internacionais procuraram trazer uma condição de desespero para que pudessem aparecer como governantes de todos nós.”

Dentro do contexto da visão de mundo de McFadden, ele usa “banqueiros internacionais” como um epíteto para os judeus. O que é notável é que os realizadores de Zeitgeist parecem dispostos a omitir este contexto, para sugerir que McFadden simplesmente está a oferecer uma crítica do capi­talismo. O fato é que, dentro de teorias de conspiração, a rotulagem dos judeus como “banqueiros internacionais” e “capital financeiro internacional” é um traço comum. Estas citações teriam sido entendidas na época, e ainda são entendida por muitos, agora, como antissemitas.

O caso de Jeremiah Duggan e a verdade sobre Lyndon LaRouche

Outro personagem bastante obscuro que aparece em Zeitgeist é o ativista político norte-americano Lyndon LaRouche. Senti que deveria incluir a seguinte história como evidência anedótica de quão perigosas estas pessoas podem ser:

Jeremiah Duggan era um estudante britânico na Sorbonne que morreu em 2003 em circunstâncias extremamente suspeitas. Nos meses que antecederam a sua morte, Duggan tinha se envolvido no que acreditava ser uma organização pacifista. Na verdade, tinha se enrascado com um grupo de organizações políticas liderados pelo ativista político norte-americano Lyndon LaRouche. Em março daquele ano, Duggan participou de uma conferência dessas organizações no Instituto Schiller (um local de propriedade do movimento de LaRouche) em Wiesbaden, Alemanha. No trans­correr das reuniões Duggan revelou ser judeu e, no entanto, em tais reuniões do movi­mento de LaRouche, judeus são os culpados pelo início da guerra, reanimando os velhos mitos da cons­pi­ra­ção sobre judeus incentivando guerras como ajudar no controle social. Ele disse em seu discurso de abertura da conferência:

Este plano para lançar uma nova guerra mundial foi intelectualmente influenciado por pessoas que, como Hitler, admiram Nietzsche, mas por “serem judias”, não poderiam se qualificar para a liderança do partido nazista, apesar de seu fascismo ser absoluta­mente puro! Tão extremo qaunto o de Hitler! Eles as enviaram para os Estados Unidos. […] Quem está por trás disso?… A turma do sistema de banco central independente, a escória do lodo. Os interesses financeiros.

Por volta das 05:00, depois que Duggan tinha revelado sua identidade judaica na conferência, ele telefonou para sua mãe. Disse: “Mãe, estou em apuros… Você conhece essa Nouvelle Solidarité?…” Ele disse: “Eu não posso suportar isso… Quero sair.” E nesse ponto o telefone foi cortado. E então o telefone tocou de novo, quase que imediatamente… E, em seguida, a primeira coisa que disse daquela vez: “Mamãe, estou com medo”. Ela percebeu que ele estava em tal perigo que ela lhe disse: “Eu te amo.” E então ele disse: “Eu quero vê-la agora.” Ela disse: Bem, onde você está, Jerry?” E ele disse: “Wiesbaden.” E ela disse: “Como é que você escreve?” E ele disse: “W I E S” E então o telefone foi cortado.

No dia seguinte, Jeremiah foi encontrado morto, com membros do movimento de LaRouche ale­gando que ele cometera suicídio. Inquéritos ainda estão em andamento para determinar o que houve naquela noite. Nas últimas semanas, um segundo inquérito sobre sua morte foi anunciado.6

LaRouche foi conhecido como um teórico da conspiração judaica por mais de 30 anos. Sua organi­zação é cultista e perigosa (uma das razões pelas quais eu escolho para escrever este artigo anoni­ma­mente), e o conteúdo de muito do que ele diz pode ser rastreada até o tipo de alegações apre­sen­tadas nOs Protocolos dos Sábios de Sião. O que é, então, que um homem como este está fazendo em um filme que pretende ser uma crítica esquerdista liberal da sociedade?7

Zeitgeist e a Esquerda

Sob muitos aspectos, o que há de mais inquietante a respeito deste filme é ele pretender ser de esquerda, ou liberal. À medida que o filme termina, vemos imagens de três homens aparecerem e desaparecerem: Mahatma Gandhi, Martin Luther King e John Lennon. Ao longo do filme, temos citações do comediante esquerdista Bill Hicks e uma parte é reservada a Michael Meacher, um político do New Labour. Afirma-se mais uma vez que o objetivo deste filme é a afirmação da uni­dade da humanidade, de acabar com a diferença, seja ela de classe, raça ou sexo. Somos levados a pensar que o filme está a oferecer uma crítica radical, pela esquerda, do poder estabelecido. Em vez disso ele chafurda no tipo de teorias que se casam mais com os libertários de direita. Eu não sei por que o grupo Zeitgeist foca especialmente a esquerda. É, talvez, uma medida de divisão, mas também, possivelmente, apenas uma arena onde eles sentem que podem converter as pessoas à sua maneira de pensar. O que está claro, porém, é que a sugestão de que as ideias expressas são de esquerda ou liberais, com a implantação de citações de esquerdistas e liberais bem conhecidos, é absolutamente cínica.

O problema positivista

Há uma razão em particular para que essas conspirações possam parecer compatíveis com os modos de pensamento de esquerda, e que tem a ver com o problema filosófico do positivismo. Dito de forma mais simples, isto quer dizer que ideias sobre a transformação de uma sociedade não podem ser diretamente expressas na linguagem ou modos de pensar correntes na sociedade que pretendem transformar. E este problema é comum a todas as teorias de transformação da sociedade. Provavelmente, o ramo mais influente deste tipo de pensamento derivou de Hegel a Marx e até os marxistas dos séculos 20 e 21. A solução para eles é falar em termos de uma dialética, ou seja, comparando-se a consciência de uma sociedade para a realidade material. A conclusão significativa deste tipo de pensamento é que a consciência da sociedade, até um certo ponto é sempre falsa.

Os teóricos da conspiração retomam esta questão de outra maneira. Dizem que, se a nossa consci­ên­cia da sociedade é sempre falsa, ela é forçada a ser falsa por um pequeno número de poderosos que tornam falsas.8 Eles acreditam que somos constantemente enganados por uma quadrilha que tudo sabe e que controla cada aspecto de nossas vidas. E as soluções diferem demasiado. Para os marxistas e socialistas o problema é que a sociedade produz uma consciência que não nos permite compre­ender plenamente a nossa miséria no trabalho, do desemprego, ou impotência e a solução é a transfor­mação radical da sociedade em um mundo mais justo e menos exploradora. Para os teóricos da cons­pi­ração, a resposta é a eliminação de tal pequena e poderosa elite. Eles não acre­ditam que a sociedade precisa de mais transformação do que isso.

Este é um terreno filosófico difícil de trilhar. Corremos um grande risco se quisermos criticar os teó­ricos da conspiração por não serem positivistas e por não trabalharem dentro dos modos acei­tos de pensamento. Em vez disso, o que temos de dizer é que o seu modo particular de pen­sa­mento crítico não propõe uma solução correta para a solução de problemas da sociedade e, ade­mais, não se baseia na unificação, mas na divisão. Devemos mostrar que a desigualdade na socie­dade é estrutural em vez de ser baseada nos desejos de um pequeno grupo de judeus.9

O que deve ser feito?

O filme Zeitgeist parece ter uma popularidade crescente e, além disso, está surgindo um movi­mento baseado nele. Mais e mais pessoas estão sendo influenciadas pelo que o filme tem a dizer, sem per­ce­ber bem onde ele está vindo. É importante que possamos expor o mais amplamente possível o subtexto antissemita deste filme. Devemos expô-lo como sendo cinicamente posicio­nado de maneira a influ­enciar os liberais e esquerdistas. Ao atacarmos as ideias apresentadas por Zeitgeist, não é suficiente discutir meros detalhes, e devemos, em vez disso, tentar compreender a política que este filme, como um todo, tenta apresentar. Precisamos ler através das muitas cama­das de teorias da conspiração aqui, e entender que há uma em particular em que eles querem nos fazer crer, e que esta é, naturalmente, a mais perigosa e perniciosa.

É importante entender que o tipo de crítica da sociedade oferecido pelo movimento Zeitgeist não pode ser separada da teoria conspiração judaica. Não se pode tomar os textos antissemitas clás­sicos, subs­ti­tuir a palavra “judeu” por “banqueiros internacionais” ou “capital financeiro inter­na­cional” e acre­di­tar que sua teoria não é mais antissemita. Claro que existem bons argumentos de que o capitalismo e impe­rialismo são de fato extremamente perigosos. Há bons argumentos em uma perspectiva de esquerda ou liberal para dizerem que as guerras no Afeganistão e no Iraque nunca deveria ter sido travadas. E é aqui que temos de reconhecer que os fins não justificam os meios. Não podemos nos dar ao luxo de apoiar qualquer causa que é simplesmente anticapitalista, ou qualquer outra causa que é simplesmente antiguerra, caso contrário, corremos o risco de ir para a cama com os fascistas. Em vez disso, nossas posições sobre o capitalismo e da guerra devem surgir a partir de crítica profunda, em vez de uma reedição revista de narrativas antis­semitas antigas.

A fim de difundir esta mensagem o mais amplamente possível, encorajo a todos que republiquem esta peça em seus próprios sítios, que a enviem a amigos e camaradas, a mostrá-la a quem lhe apre­sen­tar “este novo filme fabuloso você simplesmente tem que assistir”. Uma das maneiras mais fáceis é, se você está no Twitter, clicar no botão Tweet deste post. Se possível, dê-nos retorno aqui nO Terceiro Estado para que possamos monitorar quão amplamente este material está sendo dissemi­nado. Nas próximas semanas recriarei este artigo como um vídeo narrado, bastante no estilo de Zeitgeist: The Movie, a fim de que podemos espalhar esses pontos de vista para ainda mais pessoas que possam vir a ser influenciadas por este filme repugnante.

  1. O antissemitismo é um pensamento caracteristicamente direitista, estando fartamente documentada a tentativa de associar as teorias socialistas com o pensamento judaico. A circunstância fortuita de que alguns expoentes do pensamento esquerdista (começando por Karl Marx) eram judeus foi utilizada como arma de propaganda por todos os tipos de reacionários, começando pela Igreja Católica, que tentou criar sua própria doutrina social para contrabalançar o sindicalismo socialista e ateu, passando pelos nacionalistas e fascistas até chegar a regimes de centro-esquerda interessados em conter o avanço do “bolchevismo”. Mesmo nos regimes socialistas o antissemitismo encontrou certo espaço, estando presente, por exemplo, na onda de perseguições a Trotsky e seus seguidores. No entanto, esta identificação do socialismo como uma “doutrina judaica” é falsa, pois um número significativo de outros famosos socialistas não tinha qualquer relação com o judaísmo: Friedrich Engels, Mikhail Kropotkin, Lênin, Stálin, Mikhail Bakunin, Pierre Proudhon, Antonio Gramsci etc.

  2. São conhecidas as fontes. O plano de conspiração deriva de um romance satírico escrito por Maurice Joly para zombar de Napoleão III, intitulado “O Diálogo no Inferno Entre Maquiavel e Montesquieu” — que não possui conteúdo antissemita. O cenário no cemitério, a ideia de um complô de dominação mundial e alguns conceitos adicionais foram acrescentados por Herman Goedsche, que plagiou a obra de Joly transformando-a no romance gótico Biarritz. A partir desta segunda fonte o chefe da Polícia Secreta czarista, a Okhrana, criou a primeira edição dos Protocolos. A farsa foi desmontada pelo jornal britânico, The Times, ainda em 1921.

  3. Uma das razões da contínua popularidade dOs Protocolos é o seu caráter aparentemente “profético”, por descre­ve­rem uma realidade muito próxima à nossa. Esta circunstância, porém, não passa de vaticinium ex post facto, pois sucessivas edições introduzem alterações (às vezes sutis) de forma a “atualizar” o conteúdo. Como não há direito autoral que possa controlar a republicação e tampouco existem manuscritos originais fide­dig­nos que possam ser usados para dirimir dúvidas (pois a obra em si é forjada a partir do plágio de outras, que tam­bém estão em domí­nio público), não há limites para novas falsificações do texto. Uma boa medida destas falsificações pode ser obtida na comparação com o texto original russo (publicado em 1902) com o texto da primeira edição em inglês, datada de 1919, que, curiosamente, substitui os judeus por bol­che­viques. A mais famosa edição americana foi a finan­ci­ada por Henry Ford, que, embora não tenha sido a pri­meira a restaurar a menção dos judeus, foi a primeira a redi­vidir o conteúdo em “protocolos”, isto é, propostas de ação feitas pelos líderes judeus aos seguidores do mundo.

  4. Ao atacar a participação americana na II Guerra Mundial esta teoria de conspiração, obviamente, enfraquece a posição ideológica dos Aliados, abrindo espaço para uma rediscussão do “outro lado”, o nazifascismo.

  5. Acredito que o autor deste texto não pretendeu negar a realidade do controle da mídia mundial por um grupo res­trito de pessoas, como o magnata Rupert Murdoch, que controla diversos órgãos de imprensa na Austrália, na Grã Bretanha, no Canadá e nos Estados Unidos. A existência de tais pessoas e o seu controle efetivo sobe nume­rosos órgãos de imprensa não são teorias de conspiração, mas fatos conhecidos e documentados. O que se pretendeu negar é que os meios de imprensa seriam, na verdade, de propriedade de outras pessoas, judeus, claro, que os usariam para seus fins.

  6. O inquérito sobre a morte de Jeremiah Duggan reiterou que se tratou de suicídio, sem apresentar novas evidências. Acredito que, exceto pela identificação de Lyndon La Rouche como um líder de extrema direita (e bota extrema nisso) a menção do caso não acrescenta ao texto.

  7. Não se trata aqui de induzir a culpa por associação, mas apenas observar que uma das pessoas que Zeitgeist escolheu citar é de um caráter duvidoso, para dizer o mínimo. A citação de La Rouche, além de ser um apelo falacioso à autoridade, pois ele não tem embasamento para fazer as análises que faz, é um indicativo das tendências perigosas de extrema direita que estão envolvidas no filme.

  8. Atenção para a diferença entre a dialética marxista, que enxerga uma limitação metodológica em nossa capacidade de compreender a sociedade, e a retórica conspiracionista, segundo a qual nossa falta de entendimento da sociedade resulta de sermos deliberadamente enganados.

  9. O artigo original falha por não mencionar dois outros notórios simpatizantes do nazismo citados no filme: Charles Lindbergh e Henry Ford (este não tem sua fala narrada, mas apenas exibida em um quadro fixo e não está incluído na transcrição). Lindbergh era um proponente da eugenia e Ford financiou uma edição em massa dos Protocolos dos Sábios de Sião, para distribuição entre seus empregados e por todo o país. Seu jornal, o "Dearborn Independent", foi o maior responsável pela difusão do antissemitismo nos EUA.

O Especialista em Helicópteros

Bateu o desespero na imprensa. Comprometida em bater no governo a todo custo, louca para ungir um político de oposição que derrube a situação, ela não hesita mais em nenhum tipo de manobra. Então, quando uma bomba atômica cai no colo de um de seus eleitos, fica evidente que o compromisso com a verdade, com a imparcialidade e com a notícia deixou de existir muito antes da virgindade da mãe do dono da revista. Afinal, não é mais possível esconder que o filho de um importante aliado do principal político de oposição hoje foi surpreendido pela apreensão de um helicóptero de sua propriedade traficando cocaína (daremos nomes aos bois aqui, "tráfico" é cognato de "tráfego", e, portanto, "levar drogas" é "traficar drogas"). E se não dá mais para esconder, o remédio é ironizar, é tentar achar furinhos por onde se possa inserir a dúvida, para que nada seja levado sério, tudo se esqueça, e esse pequeno detalhe seja varrido como pó para debaixo do tapete. E que imenso tapete vai ser preciso.

Esta semana o folclórico Reinaldo Azevedo resolveu pesquisar sobre helicópteros para tentar achar algo a dizer em defesa dos donos do "helipóptero". Sua pesquisa foi feita no lugar óbvio, o site do fabricante do modelo de helicóptero envolvido no caso. Sei disso porque achei o fabricante no Google e os dados conferem.

Com base no que achou lá, Tio Rei inventou uma estranha matemática para provar que o dito "helipóptero" jamais poderia ter transportado 445 kg de pasta base de coca. Afinal, matemática não se discute, não é?

Bem, matemática não existe. Números são apenas rótulos que damos a quantidades de coisas. Números nada significam em si mesmos, tanto quanto palavras não significam mais do que as próprias coisas a quem dão nomes. Se as palavras adquirem algum sentido extra material, e os números também, isto é uma espécie de misticismo que não se ampara nos fatos reais. E não estamos aqui discutindo filosofia, mas se um helicóptero voa ou não com 445kg de pasta base de coca.

Os números do Reinaldo devem ter sido retirados do site do fabricante. Se não foram, então os meus são melhores que os dele. A Robinson Helicopters dá os seguinte números ao seu modelo R-66:

  1. Peso Bruto Máximo: 1225 kg (dado fornecido corretamente pelo Reinaldo)
  2. Peso vazio aproximado (incluindo óleo e equipamentos padrão, informação que ele sonegou): 581 kg
  3. Tripulação: 1
  4. Capacidade: 5 (trata-se de um helicóptero de passageiros, ora pois)
  5. Combustível máximo: 224 kg (ok)
  6. Passageiros e bagagem com o combustível máximo: 420 kg (ok)

Quantidade de pessoas presas no voo: 2 (informação importante, anote isso). ISSO QUER DIZER QUE HAVIA TRÊS LUGARES VAZIOS. O próprio Reinaldo admite que o helicóptero estava "adaptado para cargas" (o que significa que ele não tinha os três assentos traseiros).

A carga máxima com bagagem considera 5 a bordo, não 2. Considerando 70 kg para cada pessoa (pilotos de aeronaves costumam ser levinhos) temos que o helicóptero teria uma capacidade restante de

1225 - 140 - 224 = 861 kg.

Nesses 861 kg temos que descontar 445 kg de cocaína e sobram 416 kg para a aeronave. Mas a aeronave pesa 581 kg. Estão faltando, portanto:

581 - 416 = 165 kg.

Se você vai transportar uma carga valiosíssima (como pasta base de coca) e tem três lugares sobrando, o que é mais racional fazer?

  1. Remover três assentos sem uso para levar mais carga
  2. Levar menos carga

Três assentos pesariam 165 kg? Facilmente. Esses assentos pesariam, cada um, no mínimo, 35 a 50 kg. Pois incluem bases de metal, forro, cinto de segurança, etc. No mínimo estamos falando de eliminar 100 a 120 kg. No mínimo. Podemos eliminar ainda mais se diminuirmos combustível. Se a autonomia do helicóptero é de 660 km e a maior distância percorrida foi, segundo o próprio Reinaldo, de 513 km, temos aí 150 km a menos. O próprio Tio Rei diz que 59 kg são suficientes para 173 km. Portanto, para 150 km precisamos de apenas 50 kg. Dos 165 kg que faltam, podemos reduzir 50 em combustível. E três assentos facilmente economizam 100 kg.

Agora a conta fechou para você?

Não, eu não sou mais inteligente que o Reinaldo Azevedo nem sou especialista em helipóptero.

O Humorista que Virou Idiota

Danilo Gentili, desde que deixou de interpretar o quadro “repórter inexperiente” para o humorístico “CQC”, na Rede Bandeirantes, não tem aproveitado as inúmeras oportunidades que a vida lhe tem dado para ficar calado. Não foram poucas as vezes em que se viu criticado por contar piadas racistas, homofóbicas ou cruéis. Destas acusações se defendeu sempre com o argumento de que os seus críticos seriam pessoas limitadas e que ele fazia um humor sem limites, refratário às convenções sociais. Sob o rótulo de combate à “correção política”, um tipo de discurso excessivamente preocupado com as sensibilidades alheias, Gentili propagou um discurso agressivo a todas as sensibilidades alheias, do tipo que só é aceito por pessoas isentas de empatia.

Sua última patacoada foi a ridicularização de uma auxiliar de enfermagem residente no interior de Pernambuco, que se tornou a recordista mundial em doação de leite materno. Na curiosa mentalidade de Danilo Gentili, o fato de alguém praticar uma boa ação tão rara é motivo para ridículo, e assim ele passou a tentar fazer piada com o caso, comparando-a com um notório ator de filmes pornográficos, enquanto o seu auxiliar de palco, Marcelo Mansfield, sexualizava o caso lembrando a utilização dos seios em uma prática sexual chamada “espanhola”.

Ambas as piadas foram fracas, mas seriam apenas piadas fracas se, além de meramente ridicularizar algo que não é ridículo, Gentili não tivesse exibido a imagem da mulher em questão. Neste momento, o que poderia ser apenas uma piada ruim se tornou uma lamentável agressão verbal a uma pessoa. Personalizar a piada, exceto quando a vítima já é uma pessoa pública, não é somente agressivo, mas é também opressivo. Pois uma pessoa comum, que não tem acesso aos meios de comunicação, não tem como retrucar, não tem como explicar, não tem como resistir ao veneno de alguém que tem o microfone na mão.

O resultado da piada foi a execração pública da moça, que chegou a ser chamada publicamente de “vaca” (palavra que tem conotações extremamente desagradáveis). Humilhada por alguns habitantes de sua cidade, envergonhada também pelas humilhações a que foi submetido seu marido, aquele que doava mais de um litro e meio de leite por dia deixou de fazê-lo, deixou de produzi-lo, chegou a ver secar uma de suas mamas. Para Danilo Gentili, foram menos de dois minutos de graça meio sem graça. Para seus telespectadores, foi apenas uma risada ou duas, destas risadas amarelas que esse humor cruel arranca de pessoas que não sabem rir. Mas para a vítima, foram dias de agonia, conflito conjugal, dúvidas existenciais, inconformismo com o sofrimento com que o mundo lhe pagou um bonito gesto de doação.

Por muito menos que isso (“comia ela e o bebê”) o apresentador Rafinha Bastos foi sumariamente demitido da mesma Rede Bandeirantes, pois a vítima de sua infame piada fora Wanessa Camargo, que é famosa e casada com um empresário influente. Mas a insensata agressão verbal praticada por Danilo Gentili contra uma simples dona de casa nordestina não mereceu do canal de televisão nenhum repúdio, nenhuma medida. Rafinha não se desculpou, mas pelo menos perdeu o emprego (e até hoje não conseguiu nenhum outro equivalente, seus projetos sistematicamente naufragam). Danilo Gentili não apenas não perdeu o emprego, como não se desculpou e ainda tripudiou da reclamação da moça. Foi preciso que esta recorresse à justiça para tentar obter algum tipo de reparação e, pelo menos, a cessação do dano, com a retirada do vídeo do site da Bandeirantes.

Danilo Gentili pode achar que faz humor politicamente incorreto e contestador, pode achar que está ajudando a combater a caretice do mundo e que toda reação às suas piadas é “censura” ou ameaça à sua liberdade de expressão. Mas de fato ele é um bobo da corte que conta piadas para os donos do poder. Ele não é livre para fazer o humor que quer, ele é censurado previamente pelos anunciantes, pelos donos do poder, pelo público reacionário ao qual se dirige. Diferente de Rafinha Bastos, que contou uma piada escrota, mas pelo menos contou uma piada sem pensar em quem ofendia, realmente exercendo, mesmo que para o mal, a liberdade de expressão, Danilo Gentili contou sua piada contra uma desconhecida, que não tem mídia e nem poder econômico para exigir sua cabeça.

A mensagem que a Rede Bandeirantes e Danilo Gentili passam, nesse caso, é a de que não tem problema caçoar e ofender pessoas que não têm meios para se defender. Mas não se pode atacar gente que tem bala na agulha.

Por essa razão é que muitos já qualificam Gentili e outros novos humoristas com um adjetivo forte: COVARDES. É muito fácil bater em cachorro morto, é muito fácil cuspir nos cadáveres depois da guerra, é muito fácil ofender gente que não tem poder econômico ou midiático. A agressão cometida por Gentili e pela Rede Bandeirantes contra esta mulher foi como os episódios em que três ou quatro valentões de intervalo cercam o “nerd” da turma para se vingarem das notas baixas. Todo o poder de mídia de uma rede nacional de televisão foi usado para ridicularizar uma mulher. E a isso chamam de humor contestador. Contesta apenas a sanidade mental e a ética de quem o faz e, principalmente, do país que ainda o aplaude e o permite.

Os COVARDES são numerosos. Eles tem argumentos, eles têm certezas. Eles acham que não há nada errado em ridicularizar uma pessoa que faz o bem POR FAZER o bem.

A Rede Bandeirantes conseguiu errar nos dois casos. Errou com Rafinha, pois a ofensa era branda e, se não fosse o espírito de vendetta de um empresário poderoso, ele poderia ter se saído dessa com um simples mea culpa. O caso de Gentili é muito mais grave, pois envolveu até mesmo consequências para terceiros: quem resolverá o problema das crianças que ficaram subitamente sem alimento? Como fazer se a mulher perder uma mama em consequência da retenção do leite? Mas a Bandeirantes nada fez contra o caso, e ainda presta assistência jurídica ao humorista.

Passou recibo de que se ajoelha diante de poderosos enquanto zomba de gente do povo, sem medo das consequências, pois tem bons advogados para arrastar o processo até as calendas gregas. Passou recibo de que é uma empresa sem ética.

Em outros tempos, se alguém chamasse a mulher de um cabra nordestino de “vaca” o resultado seria, no mínimo uma morte na peixeira. Mesmo que o marido fosse uma boa pessoa, a pressão social exigiria o sangue do ofensor. Até os inimigos do ofendido lhe ajudariam a “capar” o insolente porque certas coisas eram inaceitáveis.

Mas, isolado pela distância, protegido por seguranças, portando um microfone na mão, o humorista pode zombar de quem quiser, desde que seja de alguém que está fora dos muros que o protegem. Ele sabe que não vai enfrentar peixeira e nem mesmo uma cusparada. Por isso agride, com a “coragem” que só os muito covardes têm: a coragem de ofender os indefesos.

Lula, o Gênio

Se você descobrisse que tem as maiores reservas inexploradas de petróleo do mundo e suas forças armadas estão praticamente na idade da pedra, o que faria se o maior consumidor mundial de energia, e com um histórico de invadir países ricos em matéria prima, resolvesse estabelecer uma frota de sua marinha bem diante de seu litoral?

Eu, em minha santa inocência, procuraria trazer como parceiro nestas reservas um dos maiores inimigos do tal país. E tentaria armar as minhas defesas com tecnologia comprada de outro.

A história ensina que os russos costumam ser ótimos amigos, do tipo que não abandona quem lhes deu a mão. Cubanos e sírios que o digam.

E os chineses, bem, enquanto eles não tiverem frota diante de nosso litoral e estiverem dipostos a pagar, eu acho uma ótima ideia trocar petróleo por amizade com eles.

Os BRICS foram uma sacada gigantesca do Lula, que aproveitou um artigo de um economista inglês para ter uma desculpa perfeita para começar uma aliança contra os EUA. Rússia e China não são somente dois países "emergentes" (o primeiro está mais para "submergente"), mas duas potências com poder de veto na ONU e com interesse em tudo que seja contra o interesse americano. Também têm tecnologia que nos interessa. A Índia meio que não é quente nem fria nessa história, mas sua presença ajuda a diminuir a margem de manobra ianque na Ásia, e cimenta a aliança asiática.

Recentemente, a entrada da África do Sul pretendeu sinalizar aos africanos que os chineses estão dispostos a fazer na África algo que os americanos e europeus nunca fizeram: compartilhar poder. Aos poucos os BRICS cercaram uma parte significativa do mundo, criando uma situação na qual a entrada dos EUA só poderá ser através de uma guerra total. O sucesso da estratégia ficou configurado com a crise síria, resta saber se os EUA vão ser tão medrosos quando a aposta for mais alta. Talvez até sejam, mas os russos e chineses, até lá, já terão conseguido se preparar para enfrentar o desafio.

O primeiro passo é o desmonte do dólar como divisa internacional. Rússia, China e Índia já estão comerciando entre si em rublos e rúpias (ainda não em yuans, mas isso começará em breve). China, Rússia e Índia asseguraram seu acesso permanente a todo tipo de matérias primas, ao se alinharem com o Brasil e a África do Sul. A China está formando reservas de ouro e platina (a África do Sul, maior produtor mundial dos dois metais, não entrou nos BRICS à toa). O Brasil se propôs a compartilhar o custo de desenvolvimento da nova geração de super-caças russos. Em troca, receberá a preço de banana os MiG e Sukhoi que forem aposentados da força aérea russa. O trato é parecido com o que Rússia e China fizeram nos anos 80, e resultou nos misseis "Bicho da Seda", nos foguetes "Longa Marcha", nas cápsulas espaciais "Shenzhou" e nos clones de aviões MiG e Sukhoi que a China produz. Duvido que os nossos militares fiquem tristes com a qualidade do material que terão em mãos.

Desde que foi revelado que o governo americano espionava todos os serviços de internet, quebrando a confiança até mesmo da autenticação TSL/SSL, ficou clara preocupação ianque com os rumos que a coisa tomava. Qual seria o sentido de comprar caças americanos, ou caças suecos com tecnologia americana embarcada? Esses caças seriam inúteis numa guerra contra o único país do mundo que deu mostrar de querer nos invadir: os EUA. Nesse sentido, faz todo sentido usar armamento russo. Eu até acho que devíamos ceder uma base naval e/ou aeronáutica aos russos. A Síria não se arrependeu de ter feito isso, e talvez os russos estejam interessados. Talvez apenas isso deva ser feito devagar, para não assustar o grande irmão do norte.

Apologética e Revisionismo

Tomei hoje conhecimento da existência de um inacreditável blogue revisionista intitulado “Meu Professor de História Mentiu Para Mim”, que se propõe a fazer gracinha acusando o nosso sistema educacional de ser esquerdista.

O artigo em si não precisaria ser respondido, caso ele se limitasse a fazer tal “acusação”, visto que eu acredito e afirmo que existe mesmo tal tendência (apenas uma tendência, infelizmente) e que seria bom se o sistema educacional fosse mesmo esquerdista. Infelizmente o texto precisa de uma réplica pois:

  1. O esquerdismo generalizado do sistema educacional é um mito propagado pela direita: não apenas existem professores de todos os matizes ideológicos como existe uma polí­tica de conformação do sistema educacional aos interesses conservadores.

  2. As críticas que o artigo faz ao esquerdismo são de uma inanidade que ofende, trazendo mais afirmações pala­vrosas do que argumentos construtivos.

  3. O blogue “Meu Professor de História Mentiu Para Mim” é claramente revisionista, e isso é um problema grande.

Digo que ele é revisionista porque, mesmo que “ainda” não tenha começado a falar bobagens contra o Holocausto judeu sob o nazismo, ele tem o cheiro e a cor de um blogue que fatalmente falará disso. Revisionistas são desonestos por necessidade, escrevi sobre isso em 31 de julho de 2011, mas é sempre bom reiterar o que foi esquecido, se é importante: Há sempre novos ignorantes que ainda não sabem que a terra que gira em torno do sol. Então falemos do revisionismo do blogue.

Comecemos repetindo que o revisionismo é, essencialmente, uma falácia de ênfase. “Falácia” é um raciocínio que não segue a lógica. Um exemplo conhecido é “o mar contém água e sal, certos biscoitos contêm água e sal, portanto o mar é um biscoitão”. “Falácia de ênfase” é aquela que deturpa o argumento ao emprestar mais peso a uma parte da frase, de forma que a frase, mesmo correta, expressa o contrário do que está enunciado. Um exemplo é um verso muito infame do Falcão: “Não é verdade que mulher feia só serve para peidar em festa”. Como a segunda parte é enfatizada, as pessoas não atentam para a negação e a frase populariza o conceito de que feia só serve mesmo para peidar em festa.

Digo que o revisionismo é uma falácia de ênfase porque os revisionistas procuram nos convencer de que os únicos que buscam revisar o conhecimento histórico, quando, de fato, ele é continuamente expandido e revisado, inclusive com a ocorrência de frequentes e sensacionais reviravoltas, das quais um forte exemplo é a revisão do papel brasileiro na Guerra do Paraguai, nos anos 1990.

O revisionista não tem nenhum interesse, porém, em outras revisões, só naquelas relacionadas à sua ideologia favorita. Então, se a História não mostra favoravelmente seus heróis prediletos e seus princípios, ele põe em questão a metodologia histórica em si, para criar uma falsa controvérsia, com o objetivo de vender sua ideologia, apesar do que diz o conhecimento estabelecido. Tanto faz se o revisionismo de que falamos está focado no papel do Nacional-Socialismo alemão no que se convencionou chamar de “Holocausto” ou em outra ideologia de outro momento histórico. A mecânica do revisionismo é a mesma.

Os revisionistas possuem, evidentemente, interesses polí­tico: certos setores da direita querem apagar da memória humana os conhecimentos “inconvenientes” que tornam impopular a ideologia que se pretende difundir. No caso específico do nazifascismo, por exemplo, desejam que o povo esqueça que um dos piores crimes de guerra da História só existiu por causa das ideologias de extrema direita. Caso isto não se mostre possível, querem ao menos borrar essa imagem feia, confundir as pessoas quanto aos seus objetivos, ou ao menos argumentar que os crimes nazifascistas não foram tão diferentes de outros grandes crimes ocorridos em épocas anteriores. O “revisionismo” (entre aspas entendido como o revisionismo específico do nazifascismo e do “Holocausto”) faz parte, junto com o criacionismo, o fundamentalismo religioso e a negação do aquecimento global, de um processo ideológico maior: o negacionismo.

“Negacionismo” é a insistência em contestar, por motivos ideológicos ou interesses econômicos, conhecimentos científicos estabelecidos. Diferente de uma simples divergência metodológica ou de opinião, o negacionismo não é propositivo, mas exclusivamente negativo. A estratégia negacionista não é avançar uma teoria diferente, mas divulgar as “falhas” (reais ou supostas) das teorias atuais, para obter o descrédito do método científico. Um bom exemplo é o criacionismo, que procura questionar inconsistências da teoria da evolução para afirmar que ela é inválida, ignorando, porém, os aspectos em que tal teoria é consistente e permite fazer predições. O criacionista afirmará coisas absurdas, como a inexistência de “fósseis transicionais”, mas ignorará o fenômeno da resistência bacteriana a antibióticos.

Ora, da mesma forma que o criacionista questiona a biologia porque esta demonstra que a Bíblia não é factualmente correta, da mesma forma que um “revisionista” não aceita que a realidade ou significância do Holocausto porque ele demonstra que o nazifascismo é monstruoso, da mesma forma que os negadores do aquecimento global difamam a ciência porque ela envolveria uma quebra de paradigma econômico e político; desta mesma forma o apologeta se opõe ao conhecimento histórico: pois este mostra a Igreja e o cristianismo como instituições temporais e falhas, que não estão de forma nenhuma à altura das reivindicações de ascendência moral com que se apresentam ao público.

Algo assim acontece no blogue “Meu Professor de História Mentiu para Mim”. A diferença é que o revisionismo que se vê ali não está, pelo menos por enquanto, focado em negar o Holocausto e justificar o nazifascismo. Em vez disso, o blogue foca na limpeza de uma outra sujeira histórica que incomoda a muita gente por razões ideológicas: o papel do cristianismo (e da Igreja Católica em particular) naquilo que se chama genericamente de “A Inquisição” (que não foi de fato um fenômeno único).

No próximo capítulo, porque a Igreja e a História ficaram em lados opostos.

Porque os EUA Precisavam Neutralizar a Coreia do Norte

Ao contrário da maioria, e à semelhança de Nélson Rodrigues, eu tenho uma certa aversão à unanimidade. Não porque ela seja burra, mas porque enquanto todos estão concordando, não sobra tempo para se analisar o lado oposto, o que significa que, se a unanimidade estiver errada, e ela pode estar, não há ninguém preparando um plano B. É muito importante duvidar, mesmo daquilo que parece certo. Duvidar não é descartar, duvidar é especular alternativas, é tentar chegar mais perto da verdade mesmo quando todos insistem que já estamos o mais perto possível. Só que não existe um horizonte de eventos para verdade, e geralmente as unanimidades são construídas através do efeito de manada.

Este post é ilustrado por uma foto do “Bosque dos Heróis”, um monumento em Windhoek, na Namíbia. Este é um dos vários monumentos comemorativos construídos pelo mundo por uma empresa chamada Mansudae Overseas Projects, da Coreia do Norte. Somente em 2011 esta empresa, apesar do bloqueio econômico a que o país de brinquedo de Kim Jong-Un está submetido, trouxe mais de US$ 160 milhões em divisas para Pyongyang. A MOP é uma das mais de cem empresas criadas pelo governo da Coreia do Norte nos últimos dez anos em vários ramos da indústria pesada (construção civil, aço) e leve (componentes eletrônicos, plástico, processamento de pesca, etc.). Será que isso parece com um país morto de fome a ponto de seus habitantes estarem supostamente comendo uns aos outros?

Quando você terminar de ler este artigo, eu espero ter conseguido abrir seus olhos para muita coisa que não vem à tona do debate sobre a Disneylândia dos comunistas.

A primeira destas coisas é o estado real da economia norte coreana. A julgar pelas notícias veiculadas pela imprensa alinhada com os interesses americanos, a Coreia do Norte vive desde 1992 em um estágio pré falimentar, caracterizado pela fome generalizada, a obsolescência de toda a infraestrutura e a corrupção desenfreada do governo. Em suma, um país tão pronto para se liquefazer amanhã quanto Jesus está pronto para voltar.

Mas um país em tal estado não conseguiria dar mostras de vigor industrial e econômico, não conseguiria retomar e terminar a construção do mais famoso prédio inacabado do mundo. Não conseguiria fazer três testes nucleares e vários lançamentos de foguetes em um curto espaço tempo.

É verdade que esses triunfos devem estar sendo conseguidos à custa do sofrimento do povo, mas não há muito leite para se ordenhar em uma pedra: se o país não estivesse recuperado da crise de meados da década de 1990, não haveria nada para roubar do povo e destinar à megalomania de seu governo. É preciso ter a cabeça firmemente enterrada na areia para conseguir acreditar que um país que só piora economicamente teria capacidade para criar novas indústrias, desenvolver tecnologia bélica e começar a prestar consultoria a outros países. Sim, a Coreia do Norte presta consultoria em engenharia e administração de sistemas. Só não tem mais fregueses por causa do embargo, e do fato de que não há muito mercado para computadores em coreano.

Então fica evidente que o discurso da Coreia combalida deve ser só uma mentira a mais contada pelos americanos para criar empatia na comunidade internacional, assim as pessoas ficam com peninha dos coreanos mortinhos de fome e apoiam que sejam bombardeados de volta à Idade da Pedra, como no Iraque.

A verdade deve ser que os americanos receiam que esse relativo ressurgimento da Coreia do Norte vai dar fôlego  aos tiranetes de lá para continuarem brincando por mais algumas décadas, especialmente depois que a transição de poder do descabelado para o gorduchinho parece ter se consolidado, ao contrário do que esperavam os analistas ianques.

A segunda coisa parte justamente desta transição: parece haver consenso de que o novo tiranete consegue ser mais ridículo que seu pai (que já fora ridículo a ponto de sequestrar um diretor de cinema e forçá-lo para fazer uma paródia socialista de Godzilla, pentear o cabelo para cima para parecer mais alto e mandar construir pelo país auto-estradas de oito pistas em cada direção, que ficam vazias quase todo o tempo). Ora, se um óbvio idiota conseguiu ficar no poder de uma ditadura cruel, isso deve significar que ele não tem poder nenhum, deve ser só um fantoche, uma face humana do jogo de poder dos bastidores, um Grande Irmão vivo. Vocês já devem ter reparado que ele está quase sempre acompanhado de alguns generais com quepes altos e dólmãs tão condecorados que é preciso usar a calça para exibir o resto das insígnias. Se isto for verdade, não adianta esperar pela morte dele, não adianta nem matar ele. Sempre haverá um outro rosto para pôr no lugar e o regime ficará de pé.

Então, as tentativas americanas de agredir a Coréia do Norte revelam o desespero de quem já percebeu que não adianta esperar pela combustão espontânea do regime de Pionguiangue. A Coréia do Norte está aí para ficar, incomodando os Estados Unidos durante ainda algumas décadas. E agora que o Irã e a Síria caíram debaixo da asa amiga da Rússia, o mundo está começando a ficar salpicado de lugares onde Tio Sam não põe o pé. Uma nova cortina de ferro está se formando devagarinho.

O Manifesto-Pirraça da Direita Infantil

Ao acessar o Facebook na data de ontem, fui surpreendido por mais uma prova de que certos seguidores da nossa direita parecem comer capim (isso se não comem cocô mesmo). Trata-se de um texto tão inacreditável e tão tosco que eu ainda prefiro acreditar que é uma gozação que alguém escreveu para ridicularizar o pensamento direitista nacional. E se não for isso, por favor, não me contem. Comentarei o tal texto, mas partindo do pressuposto de que ele é uma trollagem.

O texto saiu no blog da UFSCON e logo a seguir foi reproduzido em outros focos virtuais de pensamento reacionário, como o “Direitas Já”. Se a aparente seriedade do blogue de onde saiu não bastasse para atestar que o texto foi escrito a sério, a republicação depõe seriamente contra a inteligência dos responsáveis pelas páginas que o repetiram.

O “Manifesto” é de João Victor Gasparino Silva, do curso de Relações Internacionais na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina, e contém um protesto contra a solicitação de um trabalho de pesquisa sobre Karl Marx, feita por um professor.

Direitista empedernido, o aluno se recusa a sequer tomar conhecimento da existência do marxismo e rejeita a pesquisa pedida. No manifesto, procura justificar porque não fez o trabalho.

São tantas as coisas erradas na atitude em si que é quase supérflua a análise do texto. A recusa em estudar um pensamento diverso do próprio já é motivo mais do que suficiente para classificar o aluno como obscurantista e intolerante. Mas tal impressão poderia ser evitada se o texto contivesse embasamento teórico e desenvolvesse uma argumentação sólida, em vez de uma reclamação imatura.

A análise é útil, porém, para compreender como funciona a propagação de uma ideologia de extrema direita em nosso país. Segue a transcrição comentada do “Manifesto”:

Como o senhor deve saber, eu repudio o filósofo Karl Marx e tudo o que ele representa e representou na história da humanidade, sendo um profundo exercício de resistência estomacal falar ou ouvir sobre ele por mais de meia hora.

Infelizmente para o enjoado reacinha, Karl Marx teve um papel fundamental no desenvolvimento da ciência econômica, das ideologias polí­ticas, das lutas sociais e da metodologia histórica. Mesmo que rejeitemos por alguma razão a validade de seu trabalho, é impossível ignorar o impacto que ele teve sobre a História contemporânea. Por isso, o nosso reacinha enjoado que trate de tomar um Engov e aprender tudo.

Os personagens históricos não deixam de ser importantes só porque nós não gostamos deles. A atitude do nosso reacinha é a de um menino pirracento que sempre teve satisfeitas todas as suas vontades e agora se sente no direito de decidir o que é ou não importante no currículo da própria faculdade onde estuda. Trata-se de um ato infantilidade tão gigantesca que os direitistas não imbecis (temos agora a oportunidade para saber quão poucos são) devem estar sentindo vergonha alheia pelo rapaz, que passou tremendo recibo de imaturidade. Se algum dia alguém mereceu ser qualificado de “moleque de apartamento, criado a leite de pera e ovomaltino” esse cara é o autor do texto.

Aproveito através deste trabalho, não para seguir as questões que o senhor estipulou para a turma, mas para expor de forma livre minha crítica ao marxismo, e suas ramificações e influências mundo afora.

A proposta até que é interessante. Uma crítica ao marxismo, se fundamentada, certamente mereceria uma boa nota, pois, para poder fazê-la, o aluno teria de estudar a obra de Marx e demonstrar que compreendeu-a tanto que conseguiu refutá-la.

Quero começar falando sobre a pressão psicológica que é, para uma pessoa defensora dos ideais liberais e democráticos, ter que falar sobre o teórico em questão de uma forma imparcial, sem fazer justiça com as próprias palavras.

O pirralho que nunca ouviu um “não” e sempre o papai lhe comprou tudo o que quis acha que é “pressão psicológica” ter de falar imparcialmente sobre um autor de que discorda. Que grande tragédia forçar um pobre coxinha a estudar uma ideologia de esquerda, isso deve ser pior que uma noite no pau de arara!

Infelizmente, por toda a vida, deparamo-nos com ideias ou pessoas de que discordamos. Não podemos fechar os olhos para essa realidade, não temos o poder de escolher o que queremos saber e estudar. Estudamos e aprendemos aquilo que é “necessário”.

Observem, ao final da citação acima, como o aluno se sente frustrado por não poder “fazer justiça com as próprias palavras”. Acredito que, se Marx já não estivesse morto há mais de 150 anos, o cara bem gostaria de matá-lo, e fazer justiça com as próprias mãos, ou pelo menos de xingá-lo, vilipendiá-lo, fazendo justiça com palavras. A impossibilidade do linchamento (literal ou verbal) de Karl Marx é a causa da “pressão psicológica” vivida pelo aluno reacinha.

Me é uma pressão terrível, escrever sobre Marx e sua ideologia nefasta, enquanto em nosso país o marxismo cultural, de Antonio Gramsci, encontra seu estágio mais avançado no mundo ocidental, vendo a cada dia, um governo comunista e autoritário rasgar a Constituição e destruir a democracia, sendo que foram estes os meios que chegaram ao poder, e até hoje se declararem como defensores supremos dos mesmos ideais, no Brasil.

A típica paranoia apocalíptica e hiperbólica do extremista de direita coxinha. Qualificar o nosso governo atual de comunista é prova de uma ignorância tão grande que somente esta frase já justificaria a reprovação do aluno. Afinal, ele não só desconhece o que é “comunismo” mas também não consegue uma análise coerente da situação política que tem diante de si.

Outros reflexos disso, a criminalidade descontrolada, a epidemia das drogas cujo consumo só cresce (São aliados das FARCs), a crise de valores morais, destruição do belo como alicerce da arte (funk e outras coisas), desrespeito aos mais velhos, etc. Tudo isso sintomas da revolução gramscista em curso no Brasil.

Aqui vemos um salto lógico (ou melhor, ilógico) de amplitude absurda. Se o trabalho era sobre a obra de Marx, por que o reacinha saltou tão rapidamente para o governo brasileiro atual, que de marxista só mantém uma leve tintura? Trazer o governo atual para um debate sobre a obra de Marx é uma apelação sem sentido, uma fuga ao tema.

Mas pelo menos esta fuga nos permite boas gargalhadas, ao percebermos que o idiota que escreveu este texto fantasia que o governo atual é o culpado por todas as mazelas que afligem nosso país. Da maneira como fala, fica parecendo até que não havia crime no Brasil antes de Lula, que o consumo de drogas era minúsculo, que o PT inventou o funk, que toda vez que alguém bate num velhinho é porque era petista, “coisas assim”. É verdade que os governos petistas desde 2002 não conseguiram resolver muitos de nossos problemas, mas atribuir-lhes culpa por tais problemas é algo que só se explica por muita ignorância ou pela deliberação de mentir.

A revolução leninista está para o estupro, assim como a gramscista está para a sedução, ou seja, se no passado o comunismo chegou ao poder através de uma revolução armada, hoje ele buscar chegar por dentro da sociedade, moldando os cidadãos para pensarem como socialistas, e assim tomar o poder.

À parte o fato de que nunca houve uma tomada de poder por meio de tal estratégia “gramscista”, o próprio conceito parece absurdo (e é), uma vez que seriam necessárias várias gerações para o pensamento revolucionário chegar a uma massa crítica. Ainda mais considerando a incrível eficiência de nossas escolas. Uma estratégia de tão longo prazo é tão ineficaz que os membros de qualquer grupo ou partido que a estivesse implementando estariam mortos ou muito velhos quando (e se) ela chegasse a ser bem sucedida. Esta estratégia assume, então, ares meio sobrenaturais, um quê de conspiração milenar, um jeitão meio óbvio de delírio das minhocas da cabeça de quem não sabe o que diz.

Fazem isso através da educação, o velho e ‘’bom’’ Paulo Freire, que chamam de “educação libertadora” ou “pedagogia do oprimido”, aplicando ao ensino, desde o infantil, a questão da luta de classes, sendo assim os brasileiros sofrem lavagem cerebral marxista desde os primeiros anos de vida.

Então os alunos do prézinho estudam a luta de classes. Os alunos das escolas estaduais paulistas (onde não se ensina mais História) também estudam luta de classes. Os alunos dos colégios religiosos idem. Pois todos são comunistas. Até a Igreja Católica é comunista.

Em nosso país, os meios culturais, acadêmicos, midiáticos e artísticos são monopolizados pela esquerda a [sic] meio século, na universidade é quase uma luta pela sobrevivência ser de direita.

Os jornais são de esquerda. A Globo é de esquerda. É tudo esquerda. Só temos jornais e emissoras de rádio e TV esquerdistas desde o golpe militar de 1964. Os generais derrubaram Jango e depois deram todos os canais de rádio e TV para os esquerdistas! Esse cara é um maluco.

Quanto à luta pela sobrevivência que ele enfrenta na faculdade, pouco se pode dizer, a não ser que realmente é uma inglória guerra a que se trava contra o conhecimento. Se o seu direitismo é baseado; como viu-se até agora; em ignorância, teimosia e preconceitos; realmente deve ser muito difícil protegê-los dos contínuos ataques da razão e do conhecimento. Em um ambiente um pouco mais “liberal” (um beco escuro à noite, por exemplo), talvez os nossos reacinhas virassem o jogo e eliminassem essa ameaça na base de muita porrada.

Agora gostaria de falar sobre as consequências físicas da ideologia marxista no mundo, as nações que sofreram sob regimes comunistas, todos eles genocidas, que apenas trouxeram miséria e morte para os > seus povos. O professor já sabe do ocorrido em países como URSS, China, Coréia do Norte, Romênia e Cuba, dentre outros, mas gostaria de falar sobre um caso específico, o Camboja, que tive o prazer de visitar em 2010.

À parte a simplificação grosseira (somente trouxeram miséria e morte) dos resultados das revoluções socialistas, o parágrafo é de uma empáfia raríssima. O aluno se mete a lecionar para o professor! E o pior, ainda pior, é que a lição provavelmente está fora do tema do trabalho encomendado (aparentemente, o “marxismo”).

Segue-se um relato bastante factual dos acontecimentos do Camboja nos anos 1970, governo do Khmer Vermelho. Só que este relato, além de ser um parêntese no raciocínio que o autor tentava (em vão) desenvolver, não está relacionado diretamente com o tema e resvala, perigosamente, no apelo emocional, como neste trecho:

Os castigos e formas de extermínio, mais uma vez preciso de uma resistência estomacal, incluíam lançar bebês recém-nascidos para o alto, e apanhá-los no ar, utilizando a baioneta do rifle, sim, isso mesmo, a baioneta contra um recém-nascido indefeso.

Por mais horrível que tenha sido o regime do Khmer Vermelho (e deve ter sido mesmo, pois ele causou uma diminuição de quase um quarto da população do país), essas atrocidades não afetam o valor da obra de Karl Marx nem minimamente, pois este nunca mandou, por exemplo, que soldados espetassem bebês em baionetas. Atribuir a Karl Marx a culpa pelos erros e crimes de regimes que se inspiraram nele, é atribuir à Bíblia a culpa por pregadores malucos, como Jim Jones e David Koresh.

Bem, com isto, acho que meu manifesto é suficiente, para expor meu repúdio ao simples citar de Marx e tudo o que ele representa.

Não obstante seu repúdio, a relevância de Marx continua a mesma, e se você quiser obter a nota terá de apresentar outro trabalho.

Diante de um mundo, e particularmente o Brasil, em que comunistas são ovacionados como os verdadeiros defensores dos pobres e da liberdade, me sinto obrigado a me manifestar dessa maneira, pois ele está aí ainda, assombrando este mundo sofrido.

O aluno poderia pelo menos ter se perguntado por que o comunismo conserva esta reputação, apesar de seus erros. Poderia ter obtido algumas respostas interessantes. Mas preferiu manter distância do tema, o que fez o seu texto ser raso, parecendo ser mais uma desculpa para não ter entregue o trabalho dentro do prazo.

Em seguida o aluno cita um suposto “decálogo de Lênin” que não existe (pelo menos não como um texto determinado). Mais uma vez ele se posta como professor, revelando uma mentalidade predeterminada, e mais uma vez o faz para difundir uma informação incorreta.

Depois da difusão inicial pelos canais alternativos, na internet, o texto chegou à grande mídia, sendo replicado pelo blogueiro Rodrigo Constantino, que escreve na Veja. Rodrigo, no entanto, possui um grau suficiente de honestidade intelectual e admite que o texto fica longe de ser mítico como a direita o julgou. Especificamente, Constantino admite o emprego de uma informação falsa, justamente o “decálogo de Lênin”:

O decálogo de Lênin, ainda que soe verdadeiro para quem conhece o leninismo, é falso até onde sei. O que não tira o mérito do manifesto.

Se o Constantino não estivesse tão interessado com a descoberta de um raro exemplo de texto direitista articulado que não resvala no neonazismo ou na escrotice pura e simples, poderia ter admitido outras das muitas falhas do texto, como emprego de evidência anedótica (quando o autor usa a viagem ao Camboja como “fonte”) e o fato de que o uso do “decálogo” (que é citado integralmente) tira, sim, o mérito do manifesto. Se os dados são viciados, o resultado é viciado. Boa parte das acusações feitas pelo autor ao marxismo podem derivar de textos, como o “decálogo”, que difundem desinformação. Então, o emprego de fontes tais sugere que a revolta do autor é causada pela sua seleção de textos inconfiáveis. Donde podemos concluir que o ferrenho antimarxismo exibido pelo autor se enraíza em informações distorcidas, contidas em textos apócrifos como o “decálogo”. E podemos concluir, então, que se o autor não sabe selecionar uma fonte legítima, um documento real, de uma fonte forjada, ele não tem nenhum comando da metodologia, e isso é uma bala de prata contra seu argumento: por isso eu disse desde lá no início que o “manifesto” depõe contra quem o escreveu.

Sim, contra quem o escreveu. A julgar por esse texto que divulgou, o Sr. João Victor Gasparino Silva não domina o discurso acadêmico com a proficiência necessária, não sabe diferenciar documentos legítimos de outros forjados, expressa opiniões engajadas que acompanham sua incapacidade de diferenciar entre a realidade e a invenção dos adversários do marxismo. Em vez de prestar um grande serviço à direita, este texto mostra um direitismo imaturo, pirracento, ignorante e, o que se mostra ainda mais surpreendente, oposto à hierarquia e sem respeito formal pelos ritos acadêmicos.

A Argumentação Fascista

Chamo de “argumentação fascista” aquele estilo de debater que emprega o máximo artifício, para obter o maior efeito possível sobre o leitor. O argumentador fascista não quer que o leitor entenda o ponto, mas que capitule diante das estratégias argumentativas empregadas. Se no mundo real o fascista emprega a violência direta como meio para chegar aos seus objetivos, no mundo virtual transferirá um mesmo estilo ao seu texto, recorrendo a todo tipo de agressão e minimizando a sofisticação intelectual do texto.

A argumentação fascista é, então, uma forma de violência gráfico-verbal que tem por meta subjugar o leitor, em vez de convencê-lo. Existem várias formas de se argumentar de uma maneira fascista:

Parede de texto

A prolixidade pode empregada para pôr o leitor em uma situação de inferioridade intelectual aparente. Se não consegue compreender o texto, pela sua extensão e sua aridez, não conseguirá rebatê-lo eficientemente. A falha logo será usada pelo argumentador como uma “prova” de que o seu oponente não possui estatura intelectual suficiente para o debate, desacreditando-o sem que suas ideias sejam ouvidas no contexto.

Violência verbal

Sempre que o texto emprega de uma forma constante e repetitiva uma agressividade que parece gratuita, podemos ter certeza de que isto não é acaso. Os palavrões, desqualificações e ironias; tudo não passa de bullying verbal para intimidar debatedores. Alguns sentem receio porque são atingidos em sua autoestima ou se identificam com os rótulos usados para desqualificá-los. Por exemplo: o emprego de ataques pessoas indiscriminados contra pessoas que possivelmente tenham certas opiniões é uma forma de desestimular que interfiram (“todo mundo que pensa diferente é viado”). O uso de rótulos é uma maneira eficaz de esvaziar posições contrárias (“você só diz isso porque é comunista”).

Maniqueísmo

A prioridade da argumentação fascista, seja qual for o contexto, é a construção de consensos, em vez da busca pela verdade. O argumentador fascista busca, então, unir em torno de si os que já são simpáticos à sua causa. No passo seguinte ele coage os que pensam de forma semelhante, mas não idêntica, a abandonarem suas pequenas “heresias” e aderirem ao pensamento único. Por fim, tendo estabelecido um terreno seguro, o argumentador fascista é tentado a usar a força para silenciar posições diferentes e monopolizar o discurso. O processo todo se constrói com uma argumentação dualista de que “quem não está conosco é porque está contra nós”. Forçando o contraste, o fascista ressalta as identidades e suprime as nuanças.

Respostas prontas

Como diz o verso dos Engenheiros do Hawaii, na canção “Toda Forma de Poder”: o fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante fascinada. A cultura é a melhor arma contra o fascismo porque ela nos convence a não aceitar a fascinação do fácil. O fascismo pode ser, também, definido como um “facilismo”. O ódio do fascista à cultura é forte justamente porque a simplificação que o maniqueísmo oferece é desmascarada pelo conhecimento. Não é possível aceitar respostas fáceis quando você conhece a realidade em mais detalhes. Quem vê um arco íris não pode aceitar que o mundo seja preto-e-branco, mesmo que todas as construções visíveis tenham sido descoloridas. Então, quando um texto argumenta com excesso de repostas prontas e fáceis, podemos suspeitar que todas sejam falsas, ou em sua maioria.

Falsa autoridade

Citações são como calças, aqueles que fingem usar não podem enganar ninguém, a menos que se escondam. Quando você usa citações de maneira incorreta, basta que alguém bem informado leia, perceba a bestagem e poste um comentário. Então, se você só está engalanando o seu texto com citações para enganar ignorantes, precisará manter estrito controle sobre quem o lê e quem o comenta. Se o controle do primeiro tipo for menor (textos escritos já com a finalidade de compartilhar), então o controle do segundo tipo precisará ser exponencialmente maior. Textos contendo argumentação fascista geralmente são encontrados em blogues cujos comentários são controlados, fóruns onde a “fauna” é hostil, ou páginas que só aceitam reações via correio eletrônico.1

Um bom exemplo disso são os sites dos próceres da direita — Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho e os blogueiros da Veja. Na verdade, todo fórum da internet é um habitat potencial para a argumentação do tipo fascista, visto que agregam manadas de leitores cujo pensamento tende a coincidir com o divulgado localmente. O mesmo pode ser dito dos blogues, inclusive este. Então, é extremamente importante o leitor ter discernimento para não aceitar como autoritativo o que é apenas autoritário. Digo tudo isso para enfatizar que a presença de citações em um texto nada diz sobre seu embasamento. Quando você não checa as citações dadas, você aceita religiosamente o que está escrito. Mas quando você tenta checar, e percebe que todos os caminhos levam a lugar-nenhum, então pode se tranquilizar na certeza de que o texto emprega citações e referências apenas como uma forma de intimidar.

A Fascistização do conteúdo na internet

Tenho observado que essas técnicas de argumentação e arregimentação se tornaram comuns na internet. Empregam-na blogueiros de todos os matizes ideológicos (principalmente na direita, mas a esquerda não fica imune). Isso nos sugere que cada vez menos o conteúdo real da internet terá a capacidade de influenciar. Em vez disso, os blogues e sites se fetichizarão, valendo mais pela marca que vendem e pelas manchetes que divulgam do que pelos argumentos que realmente apresentam.

1 Um bom exemplo de como os fascistas fecham a porta para o questionamento pode ser visto ao vivo no blogue da “Universidade de Santa Catarina Conservadora”, onde um texto inacreditavelmente estúpido foi postado, mas ninguém pode comentar.